quinta-feira, 17 de maio de 2012

A coisa







A tarde estava fria e os cães ladravam numa agitação pouco habitual.

Permanecia junto à lareira e o crepitar dos troncos não lhe deixavam vontade de ir, lá fora, espreitar o que mantinha os animais no desassossego. Talvez algum animal desconhecido, uma raposa ou, o mais certo, alguém que não é bem-vindo por estas bandas.

O melhor é vestir o capote, pôr um gorro na cabeça e agarrar a caçadeira, não vá o diabo tecer alguma surpresa.

Abriu uma nesga da porta e o ar gélido ia-lhe fazendo cair o nariz, olhou sem nada descortinar.

Saiu para o terreiro, os cães continuavam numa inquietação mas, quando o viram, quase por encanto se encolheram e soltaram uns pequenos ganidos de medo ou inquietação.

Olhou em redor e, de repente, viu um vulto que o deixou arrepiado, sentiu como que um choque que começou nos braços, desceu o corpo e lhe tolheu as pernas.

Era algo de irreal, vulto negro onde dois olhos, cor de fogo, chispavam. 

Apontou a arma e fez dois disparos para amedrontar, mas a estranha figura, abriu os braços e agitando as mangas da capa preta, desapareceu nos ares como se fosse um morcego.

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Voltou ao quente da lareira, não sem antes aferrolhar com muito cuidado todas as portas e janelas.

A noite não foi fácil, acordava com a sensação de medo e ao mesmo tempo tão irreal.

Levantou-se antes do Sol, os cães estavam calmos, preparou um bom pequeno-almoço antes de se por a caminho do povoado.

Tirou o Jeep do barracão que lhe servia de garagem, soltou o Boca-Negra que saltou contente para o lugar da frente e partiu a caminho da vila.

Estava frio, mas os primeiros raios de sol ia amenizando o ar.

Parou à porta da igreja, ia falar primeiro com o padre Esteves, contar o sucedido e tentar conhecer a opinião de uma autoridade nestas matérias, pois ninguém melhor do que um padre para assuntos do sobrenatural.

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Notou que estava a fazer esforço para não se rir, franziu a cara e colocou a mão na boca para se conter.

-Padre Esteves, não percebo a sua atitude, vim pedir ajuda e conselho e, afinal, ainda estou a ser alvo de chacota. Que se passa consigo?

O padre, tentou suster o riso, mas não conseguiu.

-Sabes Carmelo, és muito bom rapaz mas quando bebes desatinas como os outros. A bebida provoca alucinações, e foi o que aconteceu. És mesmo lixado, homens morcegos a voar nas tuas terras, tem cuidado senão ainda vais para o Guiness.

Ficou pior que estragado, era triste não ter provado um gole de qualquer bebida e estar a ser acusado de bêbedo. Por estas e por outras é que as pessoas se estão afastar da Igreja.

Ia voltar à quinta, carregar a arma com zagalotes e ficar de atalaia a ver se aquela assombração tinha coragem de aparecer. Metia-lhe dois tiros nos olhos, todos iam acreditar e o descanso voltava aquelas paragens.

Meteu-se no carro e voltou a casa, o Boca-Negra continuava encolhido, o que não era habitual.

Quando parou o carro ao portão ficou estarrecido, os outros cães, estavam esfolados e pendurados no varal onde costumava suspender o porco na matança. Espectáculo macabro, os bichos com as fauces escancaradas pareciam coisas do outro mundo.

Aqui o medo passou a fazer parte deste cenário, ficou de tal forma que nem conseguiu tirar os animais e abrir uma cova para os enterrar, a noite estava próxima e não queria arriscar, hoje o Boca-Negra ia dormir dentro de casa, coisa de que ele tanto gostava.

Encheu a lareira de grossos troncos, ia estar uma noite fria, trancou o ferrolho e, lembrando uns filmes que tinha visto, pendurou réstias de alhos nas portas e janelas e colocou o crucifixo, que estava no quarto, em lugar de destaque bem em frente à entrada.

A noite foi calma, não sentiu barulhos ou algo que lhe perturbasse o sossego do sono.

Acordou antes do Sol raiar, abriu a porta ao cão para o animal ir satisfazer as necessidades, mas o bicho olhava a abertura e nem sequer se aproximou, ficou de cauda encolhida fitando o dono.

Resolveu sair para ver se assim o Boca-Negra se decidia, mas a surpresa foi dele, os cadáveres tinham desaparecido, nada de cães.

Agora, pensou, é que o safado do padre vai julgar que eu ando mesmo a beber, se eu lhe contar que encontrei os cães naquele estado e de manhã foi como se nada tivesse acontecido, vai ser lindo. Vai ficar com aquele sorriso sacana que tão bem saber fazer e, eu, mesmo sendo amigo sou obrigado a dar- lhe um sopapo no focinho.

-Vida minha, que hei-de fazer? Desabafou.

Não tinha explicação, matar e esfolar três cães de grande porte não era tarefa fácil, além de os pendurar daquela forma, pesados como deviam ser, parecia de mais para uma só pessoa. Havia, no entanto, um pormenor que lhe fazia confusão, toda essa carnificina e nem um pingo de sangue se notava.

Aqui havia coisa, oh se havia! Agora tinha a certeza do que tinha visto. Era mesmo verdade, o diabo andava por ali.

Precisava da ajuda do padre, ele devia saber como lidar com mafarricos, mas o maricas, na última vez, ainda se riu e tratou-o como a um simples bebedolas.

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A coisa estava a ficar insuportável e o medo começava a tomar conta da situação. Nunca teve receio dos humanos e sempre soube resolver todos os problemas por mais difíceis que elas fossem mas, agora, era algo que não sabia controlar. Nunca tinha acreditado no sobrenatural mas neste momento começava a ter outra visão.

Pediu ajuda ao padre, decerto com maior formação nestes assuntos e, foi acusado de ter visões ou de ter bebido o que o magoou muito pois nunca foi homem para abusar.

Estava, quase em pânico, mas ia manter a calma e tentar uma solução que estava a germinar na cabeça.

Manhã cedo ia a caminho da cidade para comprar tudo o que precisava e, com sorte, o plano iria resultar, tinha a certeza.

Ia usar os conhecimentos que tinha adquirido na tropa e ia montar uma ratoeira à “Coisa” que o andava a atormentar.

Foi difícil comprar tudo o que precisava, teve mesmo que inventar a necessidade de destruir umas rochas na propriedade, mas lá conseguiu tudo o que necessitava.

Amanhã ia por mãos à obra, hoje já se estava a fazer tarde e a criatura podia aparecer, tinha que se trancar em casa, e proteger tudo com o crucifixo e os alhos.

 Ia dormir com a caçadeira nas mãos e ao mais pequeno ruido, não hesitava ia, mesmo, disparar.

*****

A noite foi tranquila, dormiu no sofá da sala com o Boca-Negra deitado aos seus pés.

Bem cedinho meteu mãos à obra, abriu buracos onde enterrou as cargas de explosivos, colocou os detonadores, guiou os diversos fios para uma bateria que escondeu em casa e que iria conduzir a electricidade, suficiente, para provocar a explosão.

Foi meticuloso, nada ficou à vista, a terra foi reposta e alisada.

*****

Esperou com impaciência o fim do dia, custava a acreditar mas, pela primeira vez rezou para que a besta aparecesse. Janela bem aberta e bem atento a todos os movimentos. O tímido Sol há muito tinha desaparecido e tudo continuava calmo, começava a desesperar, tanto trabalho para nada.

O Boca-Negra, de repente, começou a ficar inquieto, o vento apareceu como por encanto, um verdadeiro espojinho tomou conta do largo, um riso demoníaco entoou, o cão desapareceu latindo que metia dó. No meio do terreiro a execrável figura, bramia as membranas de forma assustadora, olhos chispando, mãos ameaçadoras com garras sinistras apontando na direcção do Carmelo.

Era o momento, ligou a bateria e o estrondo foi enorme, os vidros saltaram das janelas, a poeira encheu o espaço num cogumelo de terra e pedras. A criatura foi apanhada em cheio, levantou num voo, como um avião ferido de morte, asas em chamas e desapareceu no horizonte.

Carmelo respirou de alívio, amanhã ia reparar os estragos e esconder o que desse a conhecer o que tinha acontecido.

Dormiu tranquilo, como há muito não acontecia.


***

De manhã, com o tractor, ajeitou o melhor possível os estragos, praticamente nada se notava, só faltava repor os vidros.

Meteu-se no carro e abalou a caminho da vila, hoje sim, ia mesmo beber uns copos com os amigos.

Entrou no Café do Zé Gago e estranhou o comportamento de todos, sisudos e distantes:

-Mas o que se passa por aqui? Isto parece um velório.

Ti Chico, que estava encostado na esquina do balcão, explicou:

-Já entendi, que não estás a par do que aconteceu! 
 Encontraram hoje, de manhã, o padre Esteves morto á porta da Igreja, todo queimadinho, negro que nem um tição.


Pobre homem!



 

terça-feira, 8 de maio de 2012

A missão









Bom dia senhor Marques!

Foi mais ou menos assim que começou, ou parece ter sido, porque ninguém pode ter a certeza.

A verdade, a bem dizer, é que o Senhor Marques era muito rigoroso nessas coisas de cumprimentos pois, dizia ele, pela maneira de cumprimentar nós podemos avaliar da educação das pessoas.

Mas isto é apenas retórica, pois a questão assenta em princípios muito mais sérios e que, na verdade, não pudemos abordar aqui.

Pois a senhor Marques gostou da forma clara e franca daquele Bom Dia e, isso foi o suficiente para olhar com simpatia o homem que se apresentou na sua frente.

Era alto, elegante, com ligeiras entradas que lhe davam um ar de respeitabilidade. O fato azul assentava-lhe como uma luva e a gravata grená realçava a brancura da camisa. Os dentes não estavam, propriamente, no melhor estado o que era uma pena, pois seria, talvez a única coisa que destoava no conjunto.

O senhor Marques aprovou, gostou da apresentação, da postura e sobretudo da educação.

- Mas balbuciou, o senhor Marques, como sabe o meu nome?

O personagem afivelou o melhor sorriso, fez uma leve inclinação de cabeça antes de responder:

-Foi o chefe que me indicou o senhor.

Bom, sendo assim é porque o assunto é importante e de grande respeitabilidade, pensou o nosso homem.

Se o tenente Desidério, era esse o nome do chefe da esquadra, o indicou decerto era importante, havia que dar atenção.

O senhor Marques era um conceituado comerciante no ramo dos secos e molhados e, agora tinha enveredado pela linha gourmet, com um estabelecimento nas avenidas novas.

Loja de grandes montras espelhadas e prateleiras onde o presunto pata negra se encontrava alinhado com as alheiras de caça, as trufas faziam companhia ao foie gras de pato, as garrafas do Porto Vintage faziam parceria com o champanhe Dom Pérignon assim como outras iguarias, a que só alguns, muito poucos, tinham acesso.

Mas, penso eu, já me estou a desviar do cerne da questão, pois o que interessa é a chegada desse personagem que de forma tão delicada conquistou a atenção do senhor Marques.

Olhou, atentamente, a figura antes de perguntar:

-Mas afinal qual é a sua graça?

Bom, balbuciou, antes de responder:

-Trate-me por Álvaro, apenas Álvaro!

O senhor Marques não gostou do nome, trazia-lhe más lembranças, vinha-lhe à memória um tipo que o tinha enganado, e bem enganado.

Mas, pensou, nomes são nomes e não são eles que fazem as pessoas e este tipo parecia de linhagem, bem vestido, educado, bem-falante e além disso conhecido do Desidério, colega da escola e companheiro de armas.

Enquanto cogitava nestes pensamentos, ia olhando de lado o tal Álvaro que, como por encanto aqui lhe apareceu enquanto gozava uma nesga de sol, neste domingo, na esplanada do Café “O Rodopio”.

De verdade não lhe apetecia muito qualquer palratório, não estava voltado para conversas de negócios num dia de descanso, mas se o 
Desidério o mandou não podia fazer desfeitas, o amigo não merecia.

Olhou mais uma vez e pensou que o homem tinha pinta.

Apontou-lhe uma cadeira antes de dizer:

-Então continua ai de pé, porque não se senta?

Puxou a cadeira, passou a mão para certificar que estava limpa, arregaçou levemente as calças deixando ver umas meias pretas com uns vivos da cor da gravata, só depois se sentou.

Bem, pensou o senhor Marques, porra que o gajo até nas meias tem estilo, um pouco amaricadas mas com classe.

Estendeu as pernas, não por descortesia mas somente porque as articulações, por vezes, já lhe iam dando indicações de algum desconforto. Estalou os nós dos dedos, sinal que estava nervoso, mas o aparecimento do homem deixou-o um pouco desconcertado, não sabia porque, mas a verdade é que o deixou.

-Disse senhor Álvaro, não foi?

-Para os amigos apenas Álvaro, disse com um sorriso o visitante.

Era uma situação caricata, dois homens desconhecidos, sem jeito, tentando não se olharem directamente, palavras desarticuladas e sem sentido.

-Mas, disse o senhor Marques, afinal o que tem para tratar comigo?

Álvaro coçou o sobrolho e denotou alguma preocupação.

*****

Entrou num mundo de cogitações, os pensamentos acotovelavam-se dentro do cérebro sem saber descortinar o que se estava a passar.

Nunca foi um homem acanhado e muito menos de medos, mas as coisas imprevistas deixavam-no um pouco perturbado, sem raciocínio e numa total descoordenação de ideias.

O que lhe podia dizer agora? Nada preparado para esta situação, apenas para dar sequência a uma situação pré-programada, agora assim o que ia dizer a este humano?

Roeu a unha do indicador direito. Estava desconfortável, não se tinha preparado para isto, este Senhor Marques era um pouco desconcertante.

O chefe disse-lhe que era a primeira missão e, ele, pensou que estava tudo preparado. Mas não!

Levantou-se da cadeira e com a mesma cortesia, pigarreou antes de dizer:

-Bom hoje, acho, que não tenho tempo para continuar, volto noutro dia.

O Senhor Marques tentou dizer alguma coisa mas não teve ocasião, a figura desapareceu travessa abaixo, como um personagem que se vai esbatendo num horizonte longínquo.

O tipo deve ser maluco, pensou, não joga de certeza com a bola toda. 

Amanhã vou falar com o Desidério pois ele é o culpado disto tudo.

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O senhor Marques começou a sentir frio, um frio intenso, tentou levantar-se da cadeira mas, estranho, não conseguiu pousar os pés no chão, levitou, começou a elevar-se e a subir.

Não sabia mas tinha acabado de morrer.

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Álvaro apareceu e pegou-lhe na mão e, suavemente, encaminhou-o para aquele túnel de luz que se abria na sua frente

Afinal conseguira.

Tinha acabado de cumprir a sua primeira missão.











quarta-feira, 2 de maio de 2012


Momentos







Este conto é dedicado à minha cunhada Ermelinda, porque sei que ela acredita nos milagres da vida.



Era assim todos os dias, a mesma rotina, o mesmo pasmo, a mesma falta de motivos para enfrentar a vida.

Queria reagir mas havia sempre algo a entravar. Era o tédio, a tristeza e todo o marasmo em que se tornou a existência.

As coisas começaram da mesma forma como acontecem quase todas. A inexperiência, dizem uns, as más companhias, dirão outros. Na verdade as duas coisas podem ser verdade, mas a falta de afectos é, talvez, o maior motivo e que muitos se esquecem de referir.

Ia para a escola todos os dias, pois era o único lado onde sentia alguma atenção, onde também era, como os outros, um menino, que cresceu e se tornou rebelde, desenraizado e com um ódio que moía dentro do peito como se fosse um grito de revolta.

Quando lhe ofereceram o primeiro cigarro teve relutância em o aceitar, mas o Artur garantia que só lhe iria fazer bem, pois os problemas ficavam anestesiados nos rolos do fumo inspirado.

Eram umas ervas enroladas numa mortalha de papel, gosto esquisito, mas depois de inalado ia provocando um torpor agradável, uma sensação de desprendimento, uma euforia libertadora.

Entrou numa teia que lhe parecia libertadora, mas o corpo começou a ficar agarrado a uma necessidade que o pegava a cada dia que passava.

O vício aumentava e o primeiro cigarro era uma experiência já esquecida, foi uma espiral que cresceu sem dar por isso, agora a droga fazia parte do dia-a-dia, era o adormecimento, o êxtase e a libertação.

Deixou a vida, a rua passou a ser o lar, o roubo a profissão.
Os pais, de repente, perceberam que se tinham olvidado do filho que tinham deitado ao mundo, deram-lhe tudo só se esqueceram do amor. Mas era tarde!

****

Hoje acordou naquela ressaca que doía de uma forma que nem ele sabia explicar, era uma dor feita de apertos, de névoa perturbadora, de torniquetes que apertavam a cérebro.

Queria acabar, precisava de ajuda mas, havia deixado tudo perdido no esquecimento de uma curta existência.

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Não queria mais esta vida, tinha perdido tudo, a infância que nunca teve, o afecto que não conheceu, a esperança que não existiu, a família que o esqueceu e, até, a amor que nunca encontrou.

Preparou tudo de uma forma diferente, sem ansiedade, sem rancor. Escreveu uma carta que talvez alguém lesse, tomou um banho como há muito não o fazia, vestiu a melhor roupa que ainda lhe restava e rezou como aprendeu na escola.

A corda estava em cima da cadeira, inerte como uma cobra que espera a vítima, os poucos retratos nas molduras na cómoda olhavam-no de uma forma impessoal, quase como se o não conhecessem e eram os pais.

Suspirou, foi espreitar à janela, queria ver o Sol pela última vez.

Lá em baixo no passeio, um menino mutilado, agarrada a umas bengalas, sorria.

Não olhou o Sol, nem reparou se brilhava porque o riso de um inocente, a quem a vida tinha tirado o direito a ser criança, sorria apesar da adversidade.

Arrumou a corda, abriu a janela de par em par para que a luz do sol iluminada por um sorriso de menino, banhasse de esperança o quarto de um homem que tinha desistido.

Mas, agora, ia voltar a viver.




quarta-feira, 25 de abril de 2012

JEALOUSY







Tenho a certeza que foi numa quinta-feira, era o dia em que eu passava pela loja do senhor Elias para comprar torresmos. Sim o senhor Elias recebia todas as semanas, à quinta-feira, um cabaz com os melhores torresmos vindos de uma aldeia do Alentejo.

O senhor Elias era um simpático merceeiro, gordo, calvo, buçal mas duma simpatia contagiante.

Mas isto foi apenas um aparte, pois não sabia como começar o encontro dessa quinta-feira, pois o facto de chover era pouco relevante nessa época do ano embora esse acontecimento tenha sido de grande importância.

Quando entrei na loja do senhor Elias, coitado morreu há dois anos, fui surpreendido pela maravilha que se encontrava encostada ao balcão.

 Dizer que era linda seria vulgarizar a beleza, pois neste caso havia magia naquele olhar, sensualidade no sorriso e o trejeito do rosto faziam realçar duas covinhas na face que lhe davam um ar, quase, angélico e ao mesmo tempo provocante.

 Estava debruçada sobre o balção, perna flectida num ligeiro balouçar que realçavam o rabo moldado numas apertadas calças de ganga.

 Olhou-me de lado e foi nesse momento que a faísca atingiu a parte romântica do meu cérebro e fundiu totalmente a minha lucidez.

 Fiquei assim como pasmado, numa mescla de fascinado e apalermado, tentando sem jeito endireitar o nó da gravata, não que precisasse mas eu necessitava desse momento para por em ordem as ideias e se o senhor Elias não tivesse aparecido eu, provavelmente, ainda estaria no incómodo da hesitação sem saber o que dizer.

 Mas, para minha salvação o homem saiu detrás dos armários e com o ar mais pesaroso que arranjou coçou a calva antes de dizer:

 -Caro senhor doutor hoje estamos mal, o homem não me mandou a mercadoria parece que teve um problema com a camioneta.

 Afivelei o melhor sorriso que consegui, mais para a moça de que para o merceeiro, e sem gaguejar respondi:

 -Paciência, fica para a semana, mas valeu a pena porque vi que tem clientes muito bonitas!

 Agora foi o senhor Elias que ruborizou, uma vermelhidão apoderou-se-lhe do rosto e subiu até ao alto da reluzente careca.

 A moça iluminou a espaço com um sorriso tão safado que me obrigou a uma sonora gargalhada contagiante, depois o senhor Elias não se conteve e começou num riso ruidoso e a moça seguiu o exemplo. 

Era caricato, três pessoas sem motivo aparente riam a bom rir, de forma estridente, sem sequer saber a razão.

 Eu comecei porque ela sorriu, o senhor Elias porque eu comecei e ela, talvez, porque nós começamos. 

Foram uns minutos assim, de verdadeira parvoíce, até que pouco a pouco fomos acalmando o sufoco e limpando as lagrimas que nos cobriam os olhos.

 -Bom, comecei eu, momento bem divertido sem grande causa!

 O senhor Elias, tirou um lenço e assoou-se com estrondo, limpou os olhos e dobrou o lenço antes de começar:

 -Peço desculpa, senhor doutor, mas não me consegui conter e a culpa foi minha pois com a confusão nem lhe cheguei a apresentar a minha mulher.

 Essa freguesa que ai está é a dona de tudo isto, incluindo o meu coração, casámos no sábado passado.

 ******

 Chovia torrencialmente mas não me importei, pois foi importante a água fria da chuva para me acalmar e aclarar as ideias.

 O senhor Elias, 65 anos, gasto pela vida, casado com um verdadeiro "filet mignon" de 22 radiosos anos.

 O mundo anda mesmo às avessas





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Uma Rosa



Eu hoje desfolhei mais uma rosa
Do triste jardim da minha essência,
Vermelha de sangue e tao formosa,
Perdida, tal, como a minha existência

Pétalas vermelhas entre os dedos
Morrendo no perfume que se esvai,
Tristeza que povoam os meus medos
lamentos que eu sinto nos meus ais.

No jardim desta vida tão espinhosa,
Vou libertando a dor que tanto dói
Enquanto vou desfolhando esta rosa,

Pétalas de sangue saem de mim
Na tristeza desta vida espinhosa
Tão triste, tão sofrida e tão ruim.




quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Avejão






Confesso que não sei como aconteceu e até posso acrescentar que tenho duvida que tenha, mesmo, sucedido.

A verdade apenas esta alicerçada nas conversas que, na minha infância, ouvia aos serões á volta duma braseira, numa aldeia alentejana, perdida na raia de Espanha.

Os mais novos, curiosos, escutavam todas as peripécias que os avós iam contando, embora sabendo que na altura de ir para a cama estariam “borradinhos” de medo.

Foi há muitos anos e a memória apenas me deixa recordar que era uma noite muito fria e todos se encontravam à volta da mesa redonda onde, debaixo das saias, uma enorme braseira nos mantinha num conforto agradável.

Uma das mulheres, Dona Tomásia, jurava ter visto um avejão, nunca soube bem o que era isso, mas só o nome me infundia muito respeito.

Dizia ela:

-Vizinhas, uma noite ao sair da casa, da minha Zezinha, estava ele prantado na esquina mesmo no cruzamento, ao pé da venda do Isidro. Fiquei mais gelada que um rajá. Era grande, com uns olhos relampejando luzes encarnadas, coberto por uma capa mais negra que uma noite tenebrosa e lançando, pareciam, pequenos urros.

Fiquei, tão paralisada que queria voltar e não conseguia, os pés estavam colados ao chão e não arranjava maneira de os mexer.

Dona Perpetua deu um pulo na cadeira antes de gritar:

-Credo mulher e que aconteceu depois?

Fez-se um silêncio, quase sepulcral, ouviam-se os corações em batimento acelerado, os mais pequenos pregados, nas cadeiras, estavam boquiabertos de pernas bem cruzadas não vá o diabo tece-las.

O som do silêncio doía dentro de nós, todos olhavam de banda, como se a tal criatura pudesse estar ali, mesmo, ao nosso lado.

Dona Perpetua não aguentou mais, deu uma punhada na mesa e gritou:

-E depois, mulher e depois?

Dona Tomásia, aclarou a voz e assumiu a importância do ato:

-E depois? Depois não sei, desmaiei!



sexta-feira, 6 de abril de 2012

A valsa

Para todos o desejo de UMA PÁSCOA muito feliz.  







Apareceu, assim, quase do nada.

Tinha um ar de alegria estampado no rosto, olhos brilhando de felicidade e um sorriso tão luminoso que nos transmitia uma sensação de conforto e tranquilidade.

Quando a música deu os primeiros acordes da valsa da Meia-Noite, olhou-me com ternura, pegou-me na mão e, quase por magia, redopiamos ao som da música que enchia a sala.

Fomos apenas um, num compasso de fascinação, pés em sincronismo perfeito, deslizantes ao som que os embalava. O tempo parou, por magia, enquanto os nossos dois corpos irmanados, no andamento, compassavam nos batimentos que o ritmo inspirava.

À volta um publico silencioso acompanhava, quase, em enlevo o momento.

A música parou, só ficou o feitiço no tempo.

Deixou os meus braços, iluminou-me com a loucura do sorriso, deixou-me um beijo na face e, antes de partir, disse-me:

 -Manuel não quebre a corrente, os teus amigos querem-te aqui.

 Eu percebi a mensagem.

 Estou de volta.

 Obrigado.