quarta-feira, 13 de junho de 2012

Retalhos






(Este conto tinha 56 páginas e tenho a certeza que ninguém, mas mesmo ninguém, iria ter paciência, ou tempo para perder, com estes meus devaneios. Resolvi cortar, mesmo assim, ainda restam 17, espero que me possam perdoar. Embora contado no pessoal é pura ficção)


Já foi há tantos anos que é difícil ser certo na data, sei que foi em Outubro de um qualquer ano de algumas décadas passadas, o tempo estava frio e seco.

As rodas dos carros e as ferraduras das muares no piso do basalto tomavam conta de todos os barulhos.

Na casa a azáfama era abafada pelos sons dos regressos do campo, e pela água que fervia ao lume. As mãos nodosas, de uma parteira, lavadas com sabão azul-e-branco, deram origem a um leve vagido de alguém que se preparava para a vida.

-É um rapaz exclamou, a curiosa, enquanto com panos molhados, em água morna, o ia limpando dos restos da difícil chegada ao mundo.

-É um rapaz, voltou a exclamar a mulher, enquanto poisava o embrulho no lençol salpicado do sangue da vida. Parece que ninguém reparou e o desabafo da parteira perdeu-se na rapsódia de sons perdidos no fim de um dia de Outono.

****
O pouca-terra, pouca-terra, do velho comboio era, de vez em quando, quebrado pelo som estridente de um apito que se ia perdendo em espirais de fumo branco.

Parava nas estações com um ranger metálico de travões e espessas camadas dos vapores da água quente da caldeira. As pessoas iam saindo e entrando arrastando malas de cartão amarradas com fortes fios de sisal entrançado, enquanto outros iam abrindo as asas a cestos de vimes vermelhos, donde sacavam um naco de pão que chiava, quando a navalha o ia “arretalhando” em grossas fatias que o pedaço de chouriça ia tingir do vermelho de pimentão.

O senhor da frente apontou-me o pão e uma rodela da chouriça que me ia derretendo os olhos e deixando-me um salivar guloso na boca.

Olhei, de lado, esperando um milagre mas os ares sisudos responderam e, eu, percebi.

Era noite quando chegou, a estação era enorme, um homem com uma lanterna na mão fazia sinais enquanto o comboio, num frenesim de freios e fumo ia deixando a marcha.

Olhei as pessoas na estação, os rapazes aperaltados com casacos de xadrez cintados, camisas brancas e laços coloridos, calças de fazenda da cor do casaco acabando em golfe sob as meias de xadrez.

Olhei-me na camisa desbotada, onde uma velha gravata demasiado grande dava um ar desconfortável ao enrugado colarinho e às calças de cotim, sobras de umas pernas de uma adultas, recuperadas, seguras por um suspensório igual, que cruzava o peito entre dois botões.

Olhei a figura, triste, ainda ontem me julgava um perfeito dândi.

******

Foram dois anos difíceis, as consequências da guerra, a falta de quase tudo, o racionamento que atingia de forma violenta os mais vulneráveis.

O contrabando imperava, os mais afoitos iam engrossando a carteira à custa do café, do azeite e de tudo que fosse útil e difícil de arranjar.

Apesar de tudo sobrevivi, agora mais afoito, curtido na arte e no engenho do desenrascanço, na subtileza de encher a barriga com a broa que os vizinhos, perante um olhar suplicante, repartiam com o adorável rapazinho. 

*****

A mudança foi dolorosa, não pelo abandono, mas pelo desconhecido, pelo espaço que ia perder, pelo retrocesso, pelo desconforto de voltar a perder o mundo que tinha construído.

Quando deixei a casa não tive coragem para olhar para trás, queria levar na memória os dois anos que fizeram a passagem de menino a rapaz. 

Tinha acabado de fazer sete anos.

Agora a estação não me causava admiração, conhecia cada canto, cada homem que ali trabalhava, sabia o número dos comboios, os horários, donde vinham, para onde iam, eram parte da minha própria vida.

Vivi dois anos repartido entre a escola e a estação, era o único conforto que a vida me dava, o soar da corneta nas partidas o balouçar da lanterna num sinal que o maquinista respeitava.

Era acarinhado, podia entrar nas máquinas e sentir o fascínio do monstro de ferro, o cheiro do coque a arder na enorme caldeira e, isso, era algo que ainda hoje não sei explicar.

Era importante, entre aqueles tisnados que gastavam algum do seu tempo, com um miúdo que amava os comboios.

*******

A mobília, uma cama, um divã e uns poucos de trastes velhos foram despachados numa camioneta grande, as malas com aquelas roupas que já faziam parte da própria pele, foram amarradas com as mesmas guitas e estampados uns grandes rótulos brancos com os nomes, não percebi porque, mas só podia ver e ficar calado. É tão difícil crescer!

***** 

Foi a viagem mais triste da minha vida, na memória apenas existiam as imagens de tudo que deixava.

A escola, a horta, os amigos e os comboios que já faziam parte de mim mesmo.

Foram algumas horas num banco de madeira, os campos e as povoações passavam como um filme, as pessoas paravam para olhar as carruagens que seguiam indiferentes no deslizar elegante no ferro dos carris.

Era já noite quando chegamos ao destino, as luzes da cidade deixaram-me boquiaberto.

Fomos num eléctrico de bancos corridos, que tal como os comboios patinavam nuns trilhos, mas não eram a mesma coisa.

Ficamos a morar mesmo ao fundo de uma travessa, ali acabava a cidade, depois eram campos e hortas.

Era uma casa estranha, a janela ficava em cima do telhado, os tectos eram baixos do lado e depois iam crescendo e no meio terminavam em ângulo. Chamavam-lhe águas-furtadas. Um quarto grande, ao fundo fazia um canto e foi ai que ficou o meu divã. De noite tinha que ter cuidado quando me levantava, pois o tecto estava mesmo ali, mas depois de algumas cabeçadas consegui habituar-me.

À tarde, quando saia da escola, ia brincar para um terreiro que existia, mesmo ao dobrar da esquina, um campo de terra batida, onde diziam, que antes faziam a feira, agora eram onde os rapazes jogavam à bola, ao pião e às correrias para descarregar esta revolta, que eles não sabiam, mas estava dentro de todos.

*****

A tarde estava linda, calor mas não exagerado, eu tentava acertar com um berlinde numa cova quando ela apareceu. Devia ser da minha idade, muito magra, cabelos compridos atados com um totó de cada lado. Era muito bonita, mas tinha uns olhos ainda mais tristes que uns que eu costumava ver no meu espelho.

Ficou por trás de mim observando a pouca habilidade, depois não se conteve e disse:

-Não devias por o dedo assim, faz assim, e mostrou a posição.

Experimentei e não era que o raio da rapariga tinha razão! O bilas deslizou e aterrou certinho dentro da cova.

Olhei-a bem de frente e sem querer dar parte fraca respondi:

-Este berlinde é novo e ainda não me habituei!

Sorriu e tinha um sorriso lindo, fazia duas covinhas nas faces que lhe davam um ar, quase angelical.

Pegou-me na mão e, antes que tivesse tempo de falar disse:

-Anda vamos para ali apanhar joaninhas, e arrastou-me até um tufo de flores amarelas. Como te chamas? Eu sou a Bina, sou Carolina mas gosto mais de Bina. Moro além no pátio que fica na esquina da drogaria do senhor Mota. Conheces?

Não se calou mais, falou na mãe que saia de madrugada para a fábrica, do pai que não trabalhava, dormia toda a manhã e depois ia passar o resto do dia na Taberna do Galego.
Tinha um irmão, mais velho, fugiu de casa e disse que um dia a vinha buscar, mas nunca mais apareceu. O pai era mau, chegava bêbedo e batia na mãe e nela, por isso antes dele chegar enrolava-se nos lençóis e fingia estar a dormir. Quando fosse grande ia ser enfermeira e ia morar numa casa com janelas e com uma casa de banho, ia casar com um homem que não fosse bêbedo e levava a mãe com ela.

Por fim ficou calada, olhou-me, pareceu-me ver uma pequena lágrima mas, se calhar, era impressão. Respondi então:

-Sou o Albano, moro na travessa, naquela casa que tem águas-furtadas.

Brincamos toda a tarde, esquecemos as agruras, sentiram momentos de felicidade.

Quando o Sol começou a cair no horizonte, Bina olhou-me com tristeza.

-Tenho que ir embora, a minha mãe vai chegar. Amanhã estou aqui outra vez. Agora somos namorados. Não somos? Os namorados têm que se encontrar todos os dias. Deixou-me um beijo na bochecha e partiu numa corrida desajeitada.

No outro dia chegou antes de mim, quando me viu correu e deitou-me os braços ao pescoço, num sinal de alegria

-Pensava que já não vinhas! Fiquei com medo. Hoje até me lavei com sabonete para cheirar bem. Tu gostas que eu cheire bem, não gostas?

Antes que eu pudesse responder continuou:

-Ontem a polícia foi a minha casa, foram os vizinhos que os chamaram, o meu pai bateu na minha mãe e eu tive que fugir, foi para a esquadra e ficou lá toda a noite. Agora vai ficar bom alguns dias, mas depois quando se esquecer volta tudo ao mesmo.

****

Ouvi um dia a minha mãe dizer que muitas vezes não são as pessoas que falam, são os nervos. Eu acho que hoje não era a Bina a falar, eram os nervos.

Corremos todos os caminhos, apanhamos amoras maduras no meio das silvas que nos arranharam os braços.

Descobrimos uma velha cabana abandonada, era de uma horta que já ninguém amanhava. Estava velha, o tecto quase não existia, as paredes estavam boas, mas as janelas eram dois buracos por onde entravam e saiam os pardais numa alegre chilreada.

Bina estava encantada, para ela, este barracão era um palácio, era o nosso cói.

-Sabes, disse ela, podíamos mudar para aqui.

Fui obrigado a dar uma gargalhada.

-Tonta, não vês que não tem telhado!

Ficamos até que o dia começou a cair.

*******

As férias da escola não tardavam, o ano correu-me bem, as notas davam-me, em casa, sossego para puder gozar alguma liberdade.

Bina, não estudava, fez a quarta classe e acabou, mas como ela dizia:

-Eu gostava de ter ido para o liceu, mas isso é para as meninas ricas e para os rapazes.

Olhei-a com discordância

-Não digas isso, todos deviam estudar, os teus pais é que não se importam contigo! Se não estudares como vais ser enfermeira?

Chorou agarrada a mim, sentia as lagrimas a molharem-me o rosto e o arfar daquele pequeno corpo contra o meu. Tentei acalmar, mas não sabia o que fazer, muito menos o que dizer. Ficamos assim, nem sei quanto tempo, até que os soluços foram morrendo devagar.

*****

Lembro como se fosse hoje, era quinta-feira, nesses dias não tinha aulas de tarde e podíamos começar mais cedo as nossas brincadeiras.

-Sabes, disse ela, nós somos namorados mas nunca brincamos a isso. Eu sei como é, pois quando a minha mãe esteve no hospital eu estive em casa da minha tia Isaura e espreitei a minha prima Amélia e o namorado e vi como eles faziam. Eles gostavam pois faziam todos os dias, e davam gritinhos de contentes. Eu vi tudo, espreitei por cima da porta, a casa da minha tia tem portas com uns vidrinhos no alto e eu de pé numa cadeira vi tudo. Eles despiram-se um ao outro, depois davam muitos beijinhos em todo o lado, a minha prima fazia festinhas na pila do Tó e ele chupava as maminhas da Amélia, depois rebolavam na cama fazendo aquilo que a gente sabe.

Podemos fazer o mesmo, também somos namorados, eu não tenho maminhas mas não faz mal, fazemos de conta. Agora temos a nossa casa. Queres, não queres?

Fiquei em pânico, já tinha falado muitas vezes com os colegas na escola, já tinha dito que tinha feito para me armar em sabido, mas de verdade, não sabia nada. Agora não podia dar parte fraca.

-Eu quero! Mas só temos 12 anos, não é cedo?

-Somos namorados a sério, dizia Bina, já podes mandar em mim, mas não me batas. És bom e eu gosto muito de ti. Um dia a minha vizinha Alexandra levou-me ao cinema a ver um filme, não sei o nome, mas lembro-me que a rapariga do filme dizia para o rapaz que o amava muito, eu perguntei à minha vizinha o que queria dizer isso e ela explicou-me que era gostar mais do que tudo, por isso, Albano eu amo-te, não sei ainda bem o que isso é, mais gosto de ti mais do que tudo.

Vão passados 15 anos e estas últimas palavras continuam gravadas no meu cérebro.

****

Na segunda-feira o terreiro estava deserto, nada de Bina, estranhei porque nunca tinha faltado, mas por vezes os pais arranjam coisa para fazermos e não temos outro remédio. Amanhã ela vem!

Não veio e fiquei apoquentado, estaria doente?

O melhor, mesmo, era ir espreitar ao pátio, podia ter sorte e que alguém me soubesse dizer onde estava Bina.

Encontrava-se quase deserto, apenas uma velhota a fazer renda sentada num banco á porta de uma casa pintada de amarelo.

Torcendo as mãos de acanhamento, fui-me aproximando e perguntei:

-Senhora sabe onde está a Bina?

Olhou-me de forma estranha, olhos piscos, boca desdentada, antes de perguntar:

- E quem és tu rapaz?

-Bom, balbuciei, sou um amigo, costumamos brincar juntos.

A velhota, tapou a boca com a mão, como para esconder a falta dos dentes, antes de responder:

-Não vais brincar mais com a santinha, já nos deixou. Se sabes rezar, reza por ela, não precisa porque é um anjinho, mas mesmo assim reza por ela.

Baixou os olhos, enfiou as agulhas nas linhas e continuou, como se eu nunca tivesse estado ali.

*****

Soube mais tarde o que aconteceu, contou-me o senhor Mota da drogaria, o pai chegou a casa mais bêbedo do que o costume, começou a malhar na mãe, Bina foi acudir e, ele, com um machado matou as duas.

******

Adoeci gravemente, febres altas, delírios e uma grande confusão. Os médicos não atinavam, diziam que eram sezões. Lembro-me através de pequenos raides de lucidez de me porem, na testa, rodelas de batatas cruas embebidas em vinagre, apertadas por um lenço para me baixarem a febre, enquanto me obrigavam a tomar quinino.

Um dia, de repente, acordei bem, tinha fome, apetecia-me peixe frito, eu, que detesto peixe.

Voltei às aulas mas andava abstracto, não me conseguia concentrar, ouvia mas nada ficava. Bina não me saia do pensamento. Onde estaria agora? Seria verdade que havia céu para os bons como ela, ou era apenas uma treta como dizia o meu tio Elói!

A minha madrinha disse-me, um dia, que quando as pessoas morrem nasce uma estrela no céu. Eu tento perceber mas há tantas estrelas que mais uma, eu não consigo notar.

Hoje fui ao terreiro, fui visitar a nossa cabana onde nos despíamos e fazíamos aquelas coisas que os namorados devem fazer, como ela dizia. 

O terreiro estava deserto e a cabana estava tão vazia e tão triste que as lágrimas me saltaram, deitei-me no chão e então, verdadeiramente, todo o meu desgosto desabou, desabafei todas as minhas mágoas, blasfemei contra o Deus que levou uma santa e deixou um assassino que foi capaz de tirar a vida que ele próprio tinha concebido.

Neste momento fiz o meu luto, enterrei dentro de mim o desgosto, reneguei o Deus que me ensinaram, bom e justo. Foi ai que deixei de ser criança e que nasceu o homem.

Faltava-me voltar ao pátio, queria sentir pela última vez o cheiro do sabonete.

O pátio estava tão triste quanto eu, apenas um cão lazarento dormia à sombra de um telheiro. A casa amarela estava lá mas, da velha, apenas o banco continuava encostado à parede.

Não sabia qual fora a sua morada, farejei como fazem os cães mas o cheiro do sabonete há muito se perdeu na cova funda onde agora repousa.

*****

Jurei nunca mais voltar ao terreiro, nunca mais passar pelo pátio. Já tinha lavado dentro de mim aquelas recordações.

Quando a minha mãe me andava à drogaria, em demanda de lixivia ou sabão amarelo, eu andava mais três quarteirões para evitar passar pelos locais que a vida (mais a morte) tinha estigmatizado dentro de mim.

Às vezes, nos momentos depressivos, penso se não devia arranjar maneira de um dia fazer ao pai da Bina o mesmo que ele fez, mas depois percebia porque é que eramos diferentes.

Esqueci.

****

Entrei para a Faculdade, senti-me um estranho em roupas de feira, entre rapazes onde as marcas faziam a diferença. Mas foi um puro engano, fui recebido como igual, não senti discriminação.

Não foi difícil a adaptação, o mundo era outro, mas a mentalidade também.

****

Acabei o curso, sou médico há três anos.

Mas há momentos em que ponho a pensar como foi possível uma rapariga aparecida do nada, filha do infortúnio, ter mudado a minha vida de um forma que ainda hoje, vivo na sua recordação, sinto as suas emoções, penso nos seus sentimentos, vejo o seu corpo franzino pleno de energia, os seus olhos tristes chispando querer, a sua bondade contagiante e a sua necessidade de dizer, de falar como se percebesse que lhe iria faltar o tempo para dizer tudo.

*******

Há muito que não via um dia assim.

O vento, a chuva, o trovejar constante e o frio intenso mantinham as pessoas recolhidas.

Quando bateram à minha porta estranhei, num dia destes não esperava visitas, mesmo de vendedores. Olhei pelo visor e nem queria acreditar, embrulhada numa capa de plástico rosa, estava a Zulmira.

-Entra mulher, que fazes num dia destes na rua?

Olhou-me num olhar negro brilhante de névoas, lagrimas saltando em turbilhão.

Tentou falar mas as palavras ficavam presas nos soluços.

-Tem calma, tira a capa e senta para acalmares!

Segurei-lhe o ombro e encaminhei-a para um sofá.

Respirou fundo, quase um lamento tirado de dentro do peito. Tomou fôlego, esfregou os olhos e deixou as mãos deslizarem pela face antes de falar:

-Albano, preciso da tua ajuda, não sei que fazer, só te conheço a ti na cidade, estou desesperada.
Irrompeu, novamente, num choro convulsivo, o peito arfava como as máquinas a vapor dos velhos comboios, os ombros subiam e desciam ao ritmo dos soluços. Eu, não sabia o que fazer. Fui buscar um calmante e um copo de água.

-Vá toma isto, ficas mais calma e depois já podes falar.

Tomou a capsula, olhou-me com tanta súplica que não lhe perguntei mais nada.

-Albano não me preguntes nada, deixa-me ficar hoje na tua casa, posso dormir, mesmo aqui, no sofá.

Dei-lhe uma pequena pancada no ombro, acalmei-a, antes de lhe dizer:

-Ficas no quarto de hóspedes, fica calma que eu não te pergunto nada.

Calculei que um amor tinha acabado.

****** 
Conheci a Zulmira no liceu, criamos uma grande amizade, estudávamos juntos, saímos muitas vezes apenas pela companhia, pois como ela me confessou não sentia atracção física pelos homens, apenas apreciava estar comigo porque nunca sentiu avanços da minha parte.

Acabamos o liceu e seguimos rumos escolares diferentes mas mantivemos sempre uma proximidade, a maioria das vezes através da Internet.

Um dia telefonou-me a dar a notícia, estava feliz, tinha encontrado uma amiga, estavam juntas e muito felizes. Queria combinar um jantar, gostava que eu conhecesse a companheira.

Ficamos assim.

****
Há coisas difíceis de explicar, são sentimentos que andam recalcados dentro de nós, quase tentações que não sabemos explicar.

Sai da travessa há 10 anos, andei uma vida, tirei um curso e tentei, todos os dias, em todos os momentos esquecer aquela mágoa que se encontrava colada dentro de mim.

Tive uma noite de pesadelos, acordei num sobressalto, sentia como se a Bina estivesse ao meu lado de mão estendida à espera da protecção que eu não lhe consegui dar.

Tomei a decisão, depois de todo este tempo ia voltar aos sítios onde tinha jurado nunca mais tornar.

Pela primeira vez na minha vida não ia de eléctrico, ia levar o meu carro.

Parei na esquina da travessa onde morei, a casa das águas-furtadas, mantinha-se tal como a conheci, onde existiu o terreiro era agora um largo com uma retunda com prédios a toda a volta.

Tudo tão diferente que, pensei se seria o mesmo lugar, mas não havia duvidas.

Fui procurar o pátio, tinha a sensação de que já não deveria existir, decerto, já teria dado lugar a alguma grande construção.

Estava quase na mesma, a casa amarela tinha perdido o brilho da cor, estava desbotada e com as portas pintadas de verde, as outras pareciam que tinham parado no tempo, tal e qual como as lembrava da última vez em que aqui estive.

Olhei na esperança de ver alguém aparecer, mas a sorte não estava no meu lado. Ganhei coragem, toquei a campainha da porta verde. Nada, ninguém respondeu.

Olhei em redor antes de desistir e tive sorte, em frente alguém assomou á janela a tentar saber quem tinha ido inquietar a calma do velho pátio.

Aproveitei:

-Desculpe minha senhora, preciso de uma informação!

Respondeu-me com maus modos:

-As pessoas daí chegam tarde.

Respondi:

-Pode ser a senhora a ajudar, só bati a esta porta porque, há anos, conheci uma senhora que fazia renda aqui à porta, foi só por isso.

-Oh homem, a dona Efigénia já morreu há muito tempo, Deus lhe tenha a alma em descanso.

Anui com um gesto de cabeça antes de continuar

-Sabe, morei aqui ao lado e costumava brincar com a Bina. Lembra-se dela?

-Se lembro, quem não se lembra das pobrezinhas, tanto sofreram que estão com certeza no céu.

O malvado que tão mal as tratou, esteve preso meia dúzia de anos e quando o soltaram, ainda, teve o desplante de voltar para aqui como se não fosse nada com ele, mas saiu-se mal, o pessoal deu-lhe tal tareia que se não tivesse chegado a polícia tinham dado cabo dele. Foi uma pena os chuis terem chegado, alguém os chamou!

Agora, ouvi dizer, mora com uma irmã lá para a Beira.

-Em que terra? Sabe?

-Espere que eu vou perguntar ao meu Zé.

Voltou com o nome do homem e da localidade escrito num papel que me deu. Meu dia de sorte.

- E aqui, a minha cabeça já não dá para fixar. Mas para que ser saber?

-Só para matar saudades da Bina, respondi, com um sorriso dependurado na boca.

Olhou-me com estranheza.

Agradeci e procurei o carro.
  
*****

Por vezes pensamos que são coincidências do destino, mas não, somos nós que as procuramos.

Nada na vida aparece por acaso, o acaso não existe, nós somos o acaso, nós fazemos com que o acaso aconteça.

Eu queria ver o homem que foi capaz de tal crueldade e, que sem o saber, acabou por moldar o meu destino.

Numa manhã, bem cedo, meti-me a estrada e só parei no local para onde queria ir.

Entrei num café, estavam dois homens à volta de uma mesa, numa interessante conversa sobre os resultados desportivos da véspera.

Ao balção, uma mulher, ia passando de forma maquinal, um pano na pedra que o revestia.

Pedi um café, antes de perguntar se sabiam dizer onde morava a irmã do José Bebiano.

Olhou-me estranhamente, não seria normal fazerem tal pergunta mas, amavelmente veio á porta e indicou-me uma rua ingreme.

-Sobe aquela rua, quase no fim vai ver uma casa de pedra com três 
degraus, é ai que ela mora. Não pense em levar o carro, não consegue lá chegar sem ser a pé.

Agradeci e meti-me ao caminho, a mulher tinha razão, era impossível meter um carro nesta espécie de batatal. Hesitei muito antes de bater à porta, pensei muito a sério mas a teimosia prevaleceu.

A senhora que me atendeu, devia ser a irmã, tinha um ar bondoso e deu-me confiança para continuar, olhou-me quase como se me conhecesse:

-Não esta enganado? Será mesmo esta morada que procura.

Fiquei um pouco sem jeito, mas abanei afirmativamente a cabeça antes de responder

-Queria ver o senhor Bebiano, julgo que é o seu irmão!

Não mostrou qualquer admiração, mandou-me entrar

-Deve ser da Assistência por causa do internamente, só tenho medo que já não venham a tempo, ele não deve passar de hoje, pelo menos foi o que disse o doutor Inácio.

Quando entrei no quarto o meu ódio morreu, o castigo já tinha chegado. Zé Bebiano estava no fim, uma cirrose hepática estava a encarregar-se de fazer aquilo que eu tinha pensado. O fígado estava a ser vomitado pelo sujeito, o destino estava a fazer o que o meu pensamento há muito queria.

Se calhar, pensei, há mesmo um Deus!


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Os corvos - II





Quando entrou no jeep sentiu-se uma pessoa importante, ele e três guardas.

As pessoas, na rua, estranharam aquele aparato, o que seria que o Onofre fez para ir preso e guardado por três homens? Era mesmo um exagero três guardas para uma criança de 12 anos, só neste povo. Os bandidos andam a solta e as crianças são presas. Valha-nos Deus!

******

Não havia duvidas estava morto e bem morto.

Em tronco nu, deitado de lado e com uma enorme pasta de sangue seco no lado esquerdo do crânio, onde um exército de formigas formavam um enorme mancha negra.

Os olhos apresentavam um aspecto macabro, os corvos tinham provocado estragos que os deixavam irreconhecíveis.

Taparam o cadáver com uma lona, dois guardas ficaram de plantão até a chegado do delegado de saúde o que só iria acontecer muito mais tarde.

Onofre foi levado a casa, estava excitado, tinha uma aventura para contar ao Armando e uma recordação amarga para o resto da vida.

******

Eram 10 da noite quando à luz de gambiarras o médico legista deu ordem para a remoção do cadáver para o instituto onde seria feita a autópsia, embora tivesse adiantado que, aparentemente, fora a pancada na cabeça a causadora da morte que deveria ter acontecido às primeiras horas da manhã, mas só depois do estudo do cadáver se poderiam ter certezas.

Dois guardas ficaram no local para garantir que nada fosse alterado até os peritos, na manhã seguinte, procederam análise e recolha de elementos que pudessem ajudar à descoberta do que aconteceu.

A autópsia foi conclusiva na causa da morte, uma forte pancada com um objecto possivelmente de metal e, confirmando a previsão no local, deveria ter acontecido entre as 9 e as 11 horas, cerca de 4 a 6 horas antes do Onofre o descobrir.

Iam ser feitas as diligências habituais para tentar descobrir a identidade do morto, fotos, impressões digitais e pessoas desaparecidas, pois no cadáver não encontraram nada que ajudasse, apenas umas moedas no bolso das calças.


*******


Onofre, mais conhecido como o neto do Chico Faria, ficou contente quando viu aparecer o amigo Armando, já restabelecido dessa coisa de papeira, e foi preciso relatar a aventura juntando alguma dose de suspense e mistério.

Armando pesaroso por ter estado ausente não se conteve e avançou logo com uma ideia:

-Temos que ir lá e descobrir o que aconteceu!

-Tás parvo! Exclamou Onofre.

Armando estranhou o amigo, sempre pronto para a aventura e agora, quase, em pânico. Mas não desistiu e avançou com a ideia:

-Eu vi na televisão como fazem os gajos do CSI e nós pudemos fazer o 
mesmo. Vamos lá e levamos a máquina fotográfica da minha tia, ela empresta, vemos tudo com cuidado e pode ser que a gente encontre aquela coisa, aaaaa..., como se diz mesmo?

-Pista? Disse Onofre.

-Isso mesmo, encontramos essa coisa e ficamos a saber tudo, passamos a ser famosos e vais ver que até vamos ao programa do Goucha.

A cabeça do Onofre estava numa roda-viva, toda aquela engrenagem parecia querer saltar dos carretos. Por um lado o medo que ainda sentia, mas o espirito de aventura falava alto.

Talvez, para ganhar tempo, ou coragem perguntou:

-E depois onde temos aquelas boazonas do CSI que descobrem aquelas coisas nos computadores?

-Oh, disse Armando, isso não interessa a gente apanhamos essas pistas, tiramos as fotografias e entregamos ao senhor Pica e ele trata do resto.

Armando começava a mostrar algum interesse e pensava que se o morto já não estava lá nada de mal podia acontecer.

-Tá bem, arranja a máquina para as fotografias que eu levo a minha lanterna, o canivete, e uma lente de aumentar para vermos melhor as coisas pequenas e amanhã logo a seguir ao almoço vamos lá.

*********

Mal tinham acabado de comer a açorda e com o todo o material dentro de um pequeno taleigo puseram-se a caminho, bonés na cabeça por que o dia prometia uma escalmorreira de fritar pássaros ao sol.

O caminho foi trilhado da forma habitual, tentando apanhar as mariposas que voavam por entre as marcelas e iam pousar nas flores dos loendreiros que bordejavam as margens secas do ribeiro, ou os gafanhotos que em enormes saltos desapareciam por entre as ervas secas.

Os pássaros estavam bem escondidos entre a ramagem dos sobreiros e azinheiras para fugir ao calor sufocante e a algum bolego que os rapazes, decerto, não deixariam de atirar se as encontrassem a jeito.

Quando se estavam a avizinhar do velho sobreiro, ouviram ao longe o barulho de um carro que se aproximava nos solavancos dos buracos do caminho.

Só tiveram tempo de fugir e de esconderem nas rochas.

O carro chegou num rolo de pó sufocante, era grande e preto, embora com a terra que o cobria parecia mais cinzento.

Mas era um belo carro!
Saíram três homens, o mais velho parecia ser o chefe, os outros dois eram enormes, atléticos e com aspecto de guarda-costas.

Andaram à volta do lugar onde apareceu o cadáver, remexeram a terra como se procurassem algo que pudesse estar enterrado. Os dois rapazes, aterrados e encolhidos entre as rochas tentavam escutar mas não percebiam as coisas que ele dizia, sim só o mais velho falava, era português mas com uma pronúncia tão difícil e tão esquisita que não conseguiram perceber nada, mas mesmo nada, do que dizia. Armando estava a tentar tirar uma foto mas o medo e a transpiração não lhe deixavam segurar a máquina. Onofre sacou-lhe a objectiva e com muito receio conseguiu, por uma fresta das rochas, tirar três fotografias, uma ao carro e as 
outras duas aos homens.

Os personagens esgravataram e acabaram por desistir, Onofre pareceu-lhe que o mais velho tinha dito algo como:

-Temos que encontlar o cablão do motolista!

Meteram-se no automóvel e partiram para donde vieram.

*******

Mal o carro desapareceu num horizonte de pó, os rapazes, saltaram do esconderijo.

Andaram numa roda-viva, olhavam na esperança de encontrar algo diferente, vasculharam as redondezas, fotografaram pedras, paus e até um carreiro de formigas, mas muito desiludidos pois esperavam encontrar uma coisa importante, afinal nada.

Voltaram tristes e esfomeados.

Depressa esqueceram a aventura. Afinal não tinham aquelas coisas para procurar impressões dos dedos e essa coisa do ADN, que de verdade nem sabiam o que era, era melhor esquecerem e deixar os polícias descobrirem, eles tinham muitas aventuras para viver.

******

As brincadeiras levaram-nos até ao adro da Igreja onde o guarda Pica e um colega faziam patrulha.

-Então Sherlock Holmes, perguntou o guarda, já descobristes o mistério?

Onofre deu uma gargalhada antes de contar:

-Fomos lá outro dia e apanhamos um susto daqueles, se não nos tivéssemos escondido detrás dos bolegos os gajos ainda nos davam alguma coça.

-Mas o que se passou, conta tudo direitinho.

Os rapazes relataram a aventura, com todos os pormenores e os guardas estavam estarrecidos.

-Sabes, disse o guarda, quem te devia dar uma sova e bem grande?
Era eu, mas vamos ver já essas fotografias.

-Estão na máquina da minha tia Zefa, ela não sabe que a gente a levou mas não se importa.

*******

Zefa ficou admirada quando viu aparecer à porta os rapazes acompanhados pelos dois guardas:

-O que foi que estes mariolas fizeram desta vez?

Armando adiantou-se a responder:

-Parece que descobrimos os gajos do crime do sobreiro, as fotografias estão na sua máquina fotográfica.

-Pois, disse o senhor Pica, precisamos que nos empreste a máquina.

-Mas, disse Zefa, eu apaguei todas as fotografias da máquina, olhei para aquilo e não percebi nada, umas tinham o dedo na frente e não deixavam ver o que era, outras tiradas contra o Sol estavam brancas, só se aproveitava uma dum pé de rapaz.

Então apaguei tudo.

Tenho pena!

(Se calhar queriam outro final…mas com miúdos o que esperavam?)









quarta-feira, 30 de maio de 2012

Os corvos







Gostava de correr pelos campos por entre as marcelas, desviando-se das estevas como se fossem um labirinto. Pelo caminho ia apanhando alguma bolota que uma azinheira tivesse perdido.

Junto aos pegos fazia saltar as r
ãs que coaxavam, escondidas nos juncos, de papos dilatados em sinfonias de acasalamento.

Costumava fazer estas correrias com o seu amigo Armando, mas como ele estava com papeira, teve que vir sozinho. N
ão era a mesma coisa pois os dois faziam jogos que não dava para fazer só.

Estava muito quente e o Sol em círculos de calor obrigava-o a atar um len
ço na testa, seguro com o boné, para que o suor não lhe descesse até aos olhos.

Que pena o Armando estar com aquela da papeira, pois os dois decerto iam encontrar um cágado entocado nalguma fraga do ribeiro que brilhava com o reflexo do Sol.

Ia lavar e comer a ma
ça que apanhara, com autorização, na macieira do senhor Romão, depois ia agachar-se detrás da pedra grande, donde não era visto por quem se aproxima-se.

Tinha acabado de baixar a roupa quando estranhou o crocitar dos corvos debaixo do sobreiro velho, com os cal
ções a pearem-lhe as pernas espreitou e só teve tempo de se ajeitar e partir em louca correria a caminho da aldeia.

A vereda desaparecia em remoinhos de pó debaixo das alparcatas, onde ofegante e olhando quase apavorado para trás, Onofre, corria como se fosse perseguido por um c
ão raivoso.

Come
çou a respirar de alívio quando na curva do caminho avistou as primeiras casas. Parou e baixou o corpo para restabelecer a respiração, pois até lhe parecia que ia deitar os bofes pela boca.

Á porta do posto da GNR estava, de sentinela, o senhor Pica que quando o viu assim esbaforido, perguntou:

-Que te aconteceu rapaz?

Queria falar mas um nó na garganta parecia tolher as palavras, respirou fundo antes de exclamar:

-Senhor Pica tem que ir lá ver!

-Desembucha, tenho que ir lá ver o quê?

Limpou a testa com o len
ço, acalmou e então contou tudo:

-Sabe onde ficam os pegos da ribeira na herdade do senhor Faria?

Pois é lá que está o homem, debaixo do sobreiro velho, daquele que está rachado com o raio da trovoada, pois na sombra está o homem morto e os corvos est
ão a depenicar-lhe os olhos.

Vim a fugir n
ão parei nunca, pois parecia que o homem vinha atrás de mim. Nunca tive tanto medo, juro que nunca mais vou para aqueles lados!

-Vais… vais, disse o guarda, e vais agora mesmo mostrar onde fica esse sítio.

(Estou a pensar continuar esta odisseia, vou tentar a parte II)






quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pas de Deux






Era um amor feito de coisas velhas, estranho, desbotado pelo tempo, mas era um amor, embora impregnado de mistérios e camuflado em beijos amorfos e sentimentos que há muito tinham morrido.

Nem sempre foi assim, pois começou numa tarde amena de Primavera ao som de um slow que obrigava a cingir os corpos em passos vagarosos e sensuais numa "salle de danse" em Paris.

Depois foi o encanto de tardes de mãos dadas, noites intensas em plenitude de corpos fundidos em arroubos de desejos incontidos.

Tardes no Melody, ao som de uma imitação de Jaque Brell, no lamento de um fastidioso “Ne Me Quites Pas”, sorvendo em pequenos goles um intragável Bacardi como se fosse a melhor bebida do mundo. Ela, na saia travada, ajeitava as pernas escondendo dos olhares dos homens, que à socapa, iam mirando as coxas firmes e generosamente expostas. Ele, intelectual vanguardista, citava frequentemente Cesar Vallejo como se nas palavras conseguisse arranjar remédio para a falsa dialética com que se arvorava no caminho da cultura.

Casaram numa manhã de chuva, no Consulado, perante a autoridade e quatro acompanhantes, dois militantes de um partido ecologista, a Paulette empregada da pensão e o namorado, um português transmontano, dono de um pequeno bar.

Não houve lua-de-mel, não era necessária, pois já andavam há muito nesse enlevo.

********

Foram dois meses de encanto, longos passeios ao longo do rio que lavava as margens da cidade.

Os serões eram passados em tertúlias onde se discutiam “Les nouvelle vagues”, se bebiam Pastis e se recitavam versos de Neruda, Borges e Rimbaud. As gargalhadas confundiam-se com o cheiro do canábis que iam inalando até o entorpecimento tomar contas dos corpos e toldar os pensamentos. Matilde assistia, primeiro, na curiosidade da descoberta, dos falatórios que não percebia, dos versos que nada lhe diziam, das discussões pseudo-intelectuais sobre liberalizações, globalizações e outras coisas que não entendia. Depois foi o enjoo daquela bebida onde o sabor de anis lhe deixava um travo acre na garganta, o adocicado e enjoativo cheiro daquela maconha em que iam imbuindo a mente na procura de uma liberdade que os prendia.

As noites mágicas perderam a magia e passaram a ter a monotonia das processionárias.

*****


Deixou de acompanhar o marido, tinha náuseas e tédio dos velórios em que se tornaram as noites macambuzianas, das retóricas, dos cheiros e das palavras soletradas por desenraizados na procura de algo que nem eles sabiam bem o que.

Matilde começou por passar as noites só, depois com Paulette, ia até ao bar do transmontano. As pernas, na saia travada, continuavam a prender os olhares gulosos que em sorrisos as iam conquistando e, ela, começava a apreciar toda essa embasbacação.

Depois foi fácil, a troca de olhares, as conversas em redor de uma bebida, as mãos que se tocavam numa casualidade provocada, o sortilégio dos homens que se diziam sós e carentes.

Eram sortidas rápidas mas o suficiente para restabelecer  o equilíbrio e a estabilidade.

*****

Matilde e Balduíno continuam o seu amor.

Ele, durante o dia, dorme na ressaca do Pastis, do entorpecimento da erva e da interiorização das prédicas das noites “tertulianas”.

Ela, passeia pelas cosmopolitas ruas de Paris. 

À noite encontram-se no quarto da pensão, cruzam-se antes das suas missões.

Trocam um beijo cansado, amorfo e desbotado, um beijo do que resta do amor.

Eles continuam a amar-se, num amor estranho, desbotado pelo tempo.

É o seu amor.


quinta-feira, 17 de maio de 2012

A coisa







A tarde estava fria e os cães ladravam numa agitação pouco habitual.

Permanecia junto à lareira e o crepitar dos troncos não lhe deixavam vontade de ir, lá fora, espreitar o que mantinha os animais no desassossego. Talvez algum animal desconhecido, uma raposa ou, o mais certo, alguém que não é bem-vindo por estas bandas.

O melhor é vestir o capote, pôr um gorro na cabeça e agarrar a caçadeira, não vá o diabo tecer alguma surpresa.

Abriu uma nesga da porta e o ar gélido ia-lhe fazendo cair o nariz, olhou sem nada descortinar.

Saiu para o terreiro, os cães continuavam numa inquietação mas, quando o viram, quase por encanto se encolheram e soltaram uns pequenos ganidos de medo ou inquietação.

Olhou em redor e, de repente, viu um vulto que o deixou arrepiado, sentiu como que um choque que começou nos braços, desceu o corpo e lhe tolheu as pernas.

Era algo de irreal, vulto negro onde dois olhos, cor de fogo, chispavam. 

Apontou a arma e fez dois disparos para amedrontar, mas a estranha figura, abriu os braços e agitando as mangas da capa preta, desapareceu nos ares como se fosse um morcego.

 *******

Voltou ao quente da lareira, não sem antes aferrolhar com muito cuidado todas as portas e janelas.

A noite não foi fácil, acordava com a sensação de medo e ao mesmo tempo tão irreal.

Levantou-se antes do Sol, os cães estavam calmos, preparou um bom pequeno-almoço antes de se por a caminho do povoado.

Tirou o Jeep do barracão que lhe servia de garagem, soltou o Boca-Negra que saltou contente para o lugar da frente e partiu a caminho da vila.

Estava frio, mas os primeiros raios de sol ia amenizando o ar.

Parou à porta da igreja, ia falar primeiro com o padre Esteves, contar o sucedido e tentar conhecer a opinião de uma autoridade nestas matérias, pois ninguém melhor do que um padre para assuntos do sobrenatural.

*******
Notou que estava a fazer esforço para não se rir, franziu a cara e colocou a mão na boca para se conter.

-Padre Esteves, não percebo a sua atitude, vim pedir ajuda e conselho e, afinal, ainda estou a ser alvo de chacota. Que se passa consigo?

O padre, tentou suster o riso, mas não conseguiu.

-Sabes Carmelo, és muito bom rapaz mas quando bebes desatinas como os outros. A bebida provoca alucinações, e foi o que aconteceu. És mesmo lixado, homens morcegos a voar nas tuas terras, tem cuidado senão ainda vais para o Guiness.

Ficou pior que estragado, era triste não ter provado um gole de qualquer bebida e estar a ser acusado de bêbedo. Por estas e por outras é que as pessoas se estão afastar da Igreja.

Ia voltar à quinta, carregar a arma com zagalotes e ficar de atalaia a ver se aquela assombração tinha coragem de aparecer. Metia-lhe dois tiros nos olhos, todos iam acreditar e o descanso voltava aquelas paragens.

Meteu-se no carro e voltou a casa, o Boca-Negra continuava encolhido, o que não era habitual.

Quando parou o carro ao portão ficou estarrecido, os outros cães, estavam esfolados e pendurados no varal onde costumava suspender o porco na matança. Espectáculo macabro, os bichos com as fauces escancaradas pareciam coisas do outro mundo.

Aqui o medo passou a fazer parte deste cenário, ficou de tal forma que nem conseguiu tirar os animais e abrir uma cova para os enterrar, a noite estava próxima e não queria arriscar, hoje o Boca-Negra ia dormir dentro de casa, coisa de que ele tanto gostava.

Encheu a lareira de grossos troncos, ia estar uma noite fria, trancou o ferrolho e, lembrando uns filmes que tinha visto, pendurou réstias de alhos nas portas e janelas e colocou o crucifixo, que estava no quarto, em lugar de destaque bem em frente à entrada.

A noite foi calma, não sentiu barulhos ou algo que lhe perturbasse o sossego do sono.

Acordou antes do Sol raiar, abriu a porta ao cão para o animal ir satisfazer as necessidades, mas o bicho olhava a abertura e nem sequer se aproximou, ficou de cauda encolhida fitando o dono.

Resolveu sair para ver se assim o Boca-Negra se decidia, mas a surpresa foi dele, os cadáveres tinham desaparecido, nada de cães.

Agora, pensou, é que o safado do padre vai julgar que eu ando mesmo a beber, se eu lhe contar que encontrei os cães naquele estado e de manhã foi como se nada tivesse acontecido, vai ser lindo. Vai ficar com aquele sorriso sacana que tão bem saber fazer e, eu, mesmo sendo amigo sou obrigado a dar- lhe um sopapo no focinho.

-Vida minha, que hei-de fazer? Desabafou.

Não tinha explicação, matar e esfolar três cães de grande porte não era tarefa fácil, além de os pendurar daquela forma, pesados como deviam ser, parecia de mais para uma só pessoa. Havia, no entanto, um pormenor que lhe fazia confusão, toda essa carnificina e nem um pingo de sangue se notava.

Aqui havia coisa, oh se havia! Agora tinha a certeza do que tinha visto. Era mesmo verdade, o diabo andava por ali.

Precisava da ajuda do padre, ele devia saber como lidar com mafarricos, mas o maricas, na última vez, ainda se riu e tratou-o como a um simples bebedolas.

********

A coisa estava a ficar insuportável e o medo começava a tomar conta da situação. Nunca teve receio dos humanos e sempre soube resolver todos os problemas por mais difíceis que elas fossem mas, agora, era algo que não sabia controlar. Nunca tinha acreditado no sobrenatural mas neste momento começava a ter outra visão.

Pediu ajuda ao padre, decerto com maior formação nestes assuntos e, foi acusado de ter visões ou de ter bebido o que o magoou muito pois nunca foi homem para abusar.

Estava, quase em pânico, mas ia manter a calma e tentar uma solução que estava a germinar na cabeça.

Manhã cedo ia a caminho da cidade para comprar tudo o que precisava e, com sorte, o plano iria resultar, tinha a certeza.

Ia usar os conhecimentos que tinha adquirido na tropa e ia montar uma ratoeira à “Coisa” que o andava a atormentar.

Foi difícil comprar tudo o que precisava, teve mesmo que inventar a necessidade de destruir umas rochas na propriedade, mas lá conseguiu tudo o que necessitava.

Amanhã ia por mãos à obra, hoje já se estava a fazer tarde e a criatura podia aparecer, tinha que se trancar em casa, e proteger tudo com o crucifixo e os alhos.

 Ia dormir com a caçadeira nas mãos e ao mais pequeno ruido, não hesitava ia, mesmo, disparar.

*****

A noite foi tranquila, dormiu no sofá da sala com o Boca-Negra deitado aos seus pés.

Bem cedinho meteu mãos à obra, abriu buracos onde enterrou as cargas de explosivos, colocou os detonadores, guiou os diversos fios para uma bateria que escondeu em casa e que iria conduzir a electricidade, suficiente, para provocar a explosão.

Foi meticuloso, nada ficou à vista, a terra foi reposta e alisada.

*****

Esperou com impaciência o fim do dia, custava a acreditar mas, pela primeira vez rezou para que a besta aparecesse. Janela bem aberta e bem atento a todos os movimentos. O tímido Sol há muito tinha desaparecido e tudo continuava calmo, começava a desesperar, tanto trabalho para nada.

O Boca-Negra, de repente, começou a ficar inquieto, o vento apareceu como por encanto, um verdadeiro espojinho tomou conta do largo, um riso demoníaco entoou, o cão desapareceu latindo que metia dó. No meio do terreiro a execrável figura, bramia as membranas de forma assustadora, olhos chispando, mãos ameaçadoras com garras sinistras apontando na direcção do Carmelo.

Era o momento, ligou a bateria e o estrondo foi enorme, os vidros saltaram das janelas, a poeira encheu o espaço num cogumelo de terra e pedras. A criatura foi apanhada em cheio, levantou num voo, como um avião ferido de morte, asas em chamas e desapareceu no horizonte.

Carmelo respirou de alívio, amanhã ia reparar os estragos e esconder o que desse a conhecer o que tinha acontecido.

Dormiu tranquilo, como há muito não acontecia.


***

De manhã, com o tractor, ajeitou o melhor possível os estragos, praticamente nada se notava, só faltava repor os vidros.

Meteu-se no carro e abalou a caminho da vila, hoje sim, ia mesmo beber uns copos com os amigos.

Entrou no Café do Zé Gago e estranhou o comportamento de todos, sisudos e distantes:

-Mas o que se passa por aqui? Isto parece um velório.

Ti Chico, que estava encostado na esquina do balcão, explicou:

-Já entendi, que não estás a par do que aconteceu! 
 Encontraram hoje, de manhã, o padre Esteves morto á porta da Igreja, todo queimadinho, negro que nem um tição.


Pobre homem!



 

terça-feira, 8 de maio de 2012

A missão









Bom dia senhor Marques!

Foi mais ou menos assim que começou, ou parece ter sido, porque ninguém pode ter a certeza.

A verdade, a bem dizer, é que o Senhor Marques era muito rigoroso nessas coisas de cumprimentos pois, dizia ele, pela maneira de cumprimentar nós podemos avaliar da educação das pessoas.

Mas isto é apenas retórica, pois a questão assenta em princípios muito mais sérios e que, na verdade, não pudemos abordar aqui.

Pois a senhor Marques gostou da forma clara e franca daquele Bom Dia e, isso foi o suficiente para olhar com simpatia o homem que se apresentou na sua frente.

Era alto, elegante, com ligeiras entradas que lhe davam um ar de respeitabilidade. O fato azul assentava-lhe como uma luva e a gravata grená realçava a brancura da camisa. Os dentes não estavam, propriamente, no melhor estado o que era uma pena, pois seria, talvez a única coisa que destoava no conjunto.

O senhor Marques aprovou, gostou da apresentação, da postura e sobretudo da educação.

- Mas balbuciou, o senhor Marques, como sabe o meu nome?

O personagem afivelou o melhor sorriso, fez uma leve inclinação de cabeça antes de responder:

-Foi o chefe que me indicou o senhor.

Bom, sendo assim é porque o assunto é importante e de grande respeitabilidade, pensou o nosso homem.

Se o tenente Desidério, era esse o nome do chefe da esquadra, o indicou decerto era importante, havia que dar atenção.

O senhor Marques era um conceituado comerciante no ramo dos secos e molhados e, agora tinha enveredado pela linha gourmet, com um estabelecimento nas avenidas novas.

Loja de grandes montras espelhadas e prateleiras onde o presunto pata negra se encontrava alinhado com as alheiras de caça, as trufas faziam companhia ao foie gras de pato, as garrafas do Porto Vintage faziam parceria com o champanhe Dom Pérignon assim como outras iguarias, a que só alguns, muito poucos, tinham acesso.

Mas, penso eu, já me estou a desviar do cerne da questão, pois o que interessa é a chegada desse personagem que de forma tão delicada conquistou a atenção do senhor Marques.

Olhou, atentamente, a figura antes de perguntar:

-Mas afinal qual é a sua graça?

Bom, balbuciou, antes de responder:

-Trate-me por Álvaro, apenas Álvaro!

O senhor Marques não gostou do nome, trazia-lhe más lembranças, vinha-lhe à memória um tipo que o tinha enganado, e bem enganado.

Mas, pensou, nomes são nomes e não são eles que fazem as pessoas e este tipo parecia de linhagem, bem vestido, educado, bem-falante e além disso conhecido do Desidério, colega da escola e companheiro de armas.

Enquanto cogitava nestes pensamentos, ia olhando de lado o tal Álvaro que, como por encanto aqui lhe apareceu enquanto gozava uma nesga de sol, neste domingo, na esplanada do Café “O Rodopio”.

De verdade não lhe apetecia muito qualquer palratório, não estava voltado para conversas de negócios num dia de descanso, mas se o 
Desidério o mandou não podia fazer desfeitas, o amigo não merecia.

Olhou mais uma vez e pensou que o homem tinha pinta.

Apontou-lhe uma cadeira antes de dizer:

-Então continua ai de pé, porque não se senta?

Puxou a cadeira, passou a mão para certificar que estava limpa, arregaçou levemente as calças deixando ver umas meias pretas com uns vivos da cor da gravata, só depois se sentou.

Bem, pensou o senhor Marques, porra que o gajo até nas meias tem estilo, um pouco amaricadas mas com classe.

Estendeu as pernas, não por descortesia mas somente porque as articulações, por vezes, já lhe iam dando indicações de algum desconforto. Estalou os nós dos dedos, sinal que estava nervoso, mas o aparecimento do homem deixou-o um pouco desconcertado, não sabia porque, mas a verdade é que o deixou.

-Disse senhor Álvaro, não foi?

-Para os amigos apenas Álvaro, disse com um sorriso o visitante.

Era uma situação caricata, dois homens desconhecidos, sem jeito, tentando não se olharem directamente, palavras desarticuladas e sem sentido.

-Mas, disse o senhor Marques, afinal o que tem para tratar comigo?

Álvaro coçou o sobrolho e denotou alguma preocupação.

*****

Entrou num mundo de cogitações, os pensamentos acotovelavam-se dentro do cérebro sem saber descortinar o que se estava a passar.

Nunca foi um homem acanhado e muito menos de medos, mas as coisas imprevistas deixavam-no um pouco perturbado, sem raciocínio e numa total descoordenação de ideias.

O que lhe podia dizer agora? Nada preparado para esta situação, apenas para dar sequência a uma situação pré-programada, agora assim o que ia dizer a este humano?

Roeu a unha do indicador direito. Estava desconfortável, não se tinha preparado para isto, este Senhor Marques era um pouco desconcertante.

O chefe disse-lhe que era a primeira missão e, ele, pensou que estava tudo preparado. Mas não!

Levantou-se da cadeira e com a mesma cortesia, pigarreou antes de dizer:

-Bom hoje, acho, que não tenho tempo para continuar, volto noutro dia.

O Senhor Marques tentou dizer alguma coisa mas não teve ocasião, a figura desapareceu travessa abaixo, como um personagem que se vai esbatendo num horizonte longínquo.

O tipo deve ser maluco, pensou, não joga de certeza com a bola toda. 

Amanhã vou falar com o Desidério pois ele é o culpado disto tudo.

***********************

O senhor Marques começou a sentir frio, um frio intenso, tentou levantar-se da cadeira mas, estranho, não conseguiu pousar os pés no chão, levitou, começou a elevar-se e a subir.

Não sabia mas tinha acabado de morrer.

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Álvaro apareceu e pegou-lhe na mão e, suavemente, encaminhou-o para aquele túnel de luz que se abria na sua frente

Afinal conseguira.

Tinha acabado de cumprir a sua primeira missão.











quarta-feira, 2 de maio de 2012


Momentos







Este conto é dedicado à minha cunhada Ermelinda, porque sei que ela acredita nos milagres da vida.



Era assim todos os dias, a mesma rotina, o mesmo pasmo, a mesma falta de motivos para enfrentar a vida.

Queria reagir mas havia sempre algo a entravar. Era o tédio, a tristeza e todo o marasmo em que se tornou a existência.

As coisas começaram da mesma forma como acontecem quase todas. A inexperiência, dizem uns, as más companhias, dirão outros. Na verdade as duas coisas podem ser verdade, mas a falta de afectos é, talvez, o maior motivo e que muitos se esquecem de referir.

Ia para a escola todos os dias, pois era o único lado onde sentia alguma atenção, onde também era, como os outros, um menino, que cresceu e se tornou rebelde, desenraizado e com um ódio que moía dentro do peito como se fosse um grito de revolta.

Quando lhe ofereceram o primeiro cigarro teve relutância em o aceitar, mas o Artur garantia que só lhe iria fazer bem, pois os problemas ficavam anestesiados nos rolos do fumo inspirado.

Eram umas ervas enroladas numa mortalha de papel, gosto esquisito, mas depois de inalado ia provocando um torpor agradável, uma sensação de desprendimento, uma euforia libertadora.

Entrou numa teia que lhe parecia libertadora, mas o corpo começou a ficar agarrado a uma necessidade que o pegava a cada dia que passava.

O vício aumentava e o primeiro cigarro era uma experiência já esquecida, foi uma espiral que cresceu sem dar por isso, agora a droga fazia parte do dia-a-dia, era o adormecimento, o êxtase e a libertação.

Deixou a vida, a rua passou a ser o lar, o roubo a profissão.
Os pais, de repente, perceberam que se tinham olvidado do filho que tinham deitado ao mundo, deram-lhe tudo só se esqueceram do amor. Mas era tarde!

****

Hoje acordou naquela ressaca que doía de uma forma que nem ele sabia explicar, era uma dor feita de apertos, de névoa perturbadora, de torniquetes que apertavam a cérebro.

Queria acabar, precisava de ajuda mas, havia deixado tudo perdido no esquecimento de uma curta existência.

******

Não queria mais esta vida, tinha perdido tudo, a infância que nunca teve, o afecto que não conheceu, a esperança que não existiu, a família que o esqueceu e, até, a amor que nunca encontrou.

Preparou tudo de uma forma diferente, sem ansiedade, sem rancor. Escreveu uma carta que talvez alguém lesse, tomou um banho como há muito não o fazia, vestiu a melhor roupa que ainda lhe restava e rezou como aprendeu na escola.

A corda estava em cima da cadeira, inerte como uma cobra que espera a vítima, os poucos retratos nas molduras na cómoda olhavam-no de uma forma impessoal, quase como se o não conhecessem e eram os pais.

Suspirou, foi espreitar à janela, queria ver o Sol pela última vez.

Lá em baixo no passeio, um menino mutilado, agarrada a umas bengalas, sorria.

Não olhou o Sol, nem reparou se brilhava porque o riso de um inocente, a quem a vida tinha tirado o direito a ser criança, sorria apesar da adversidade.

Arrumou a corda, abriu a janela de par em par para que a luz do sol iluminada por um sorriso de menino, banhasse de esperança o quarto de um homem que tinha desistido.

Mas, agora, ia voltar a viver.