Quando
desceu os degraus da Igreja o bruaá de espanto ecoou como se a admiração
tivesse um som.
Parecia quase
irreal nos contornos de um corpo cinzelado pelo bom Deus num dia de muita
inspiração, nas faces onde o resplandecer de um sorriso, quase divino, fazia o
brilho do Sol empalidecer.
Era a noiva.
Ao seu lado um homem demasiado discreto, ia realçando, ainda mais, toda a
formosura da donzela.
-Que linda
noiva, exclamou a Dª Rosa!
-Boa como o
milho, disse o Chico!
-Mal
empregada, suspirou o professor Osório!
***
Foram uma
família feliz até que a desgraça, numa tórrida tarde de Agosto, deixou o senhor
Meireles agarrado a uma invalidez para o resto da vida. O tractor quando se
empinou, numa vala, atirou o pobre homem deixando a coluna de tal forma que se
lhe acabou a vida abaixo da cintura, agora dependia da mulher para tudo até,
como dizia, para mijar.
A Junta de
Freguesia conseguiu, com a ajuda da população, comprar-lhe uma cadeira de rodas
para amenizar tanta desgraça.
A vida não
era fácil, pois a pensão de invalidez era pequena e os trabalhos de costura não
abundavam, o que lhes valia era o rendimento de uma pequena courela que tinham alugado,
pois ele não a podia cuidar.
Naquela
quente tarde de primavera, mãe e filha, deixaram o senhor Meireles sentado à
porta da rua para poder ver quem passava e, ao mesmo tempo, entretido com os
amigos que paravam para deixar uma palavra de carinho.
Iam fazer as
pequenas compras semanais.
***
Isa, assim
se chamava a filha, foi a primeira a sair do minimercado, carregando os sacos
de plásticos, e ficou surpreendida pelo olhar lupino de um rapaz que se
encontrava na esplanada do Café Central.
Sentiu-se,
um pouco, incomodada e comentou com a mãe:
-Vistes
aquele lingrinhas? Parecia que me ia comer com os olhos!
A mãe sorriu
e perguntou:
-Não sabes
quem é aquele rapaz? E antes que a filha tivesse tempo para responder, foi acrescentando,
o moço é o filho do Senhor Engenheiro Timóteo, o homem mais rico desta região.
Dizem que tudo que a gente avista muitas léguas em redor é dele e aquele rapaz
é o único filho e um dia toda a riqueza vai ser dele. Devias ter retribuído o
olhar e até um sorriso não tivesse sido despropositado.
Isa estava
admirada com a conversa da mãe, parecia estar interessada em qualquer coisa.
Fez de conta
que não percebeu e continuou o caminho.
***
Tinham
acabado de jantar e estavam ajeitados para ver a telenovela quando bateram à
porta.
Foi a mãe
abrir e, quase teve um ataque, na sua frente estavam, de chapéu na mão, o
senhor engenheiro Timóteo e o filho.
-Boa noite,
disse o homem, pedimos desculpa por vir incomodar a esta hora mas aqui o rapaz
não me deixou esperar mais, queremos falar consigo e com o seu marido. Pode
ser?
-Oh meu
Deus, balbuciou a mulher. Entrem, entrem!
Estava
nervosa e ia fazendo do avental um rodilho de tanto o torcer, caminhando de
lado ia dirigindo as visitas para a sala enquanto gritava:
-Oh Meireles,
oh Isa vejam quem está aqui! Temos visitas importantes, o Senhor
Engenheiro e o
filho querem falar com a gente. Isto é mesmo uma grande honra.
Entraram
todos para a sala perante a admiração da Isa e do pai.
-Mas entre
Senhor Engenheiro, entre, insistia a dona Balbina.
Era um pouco
confrangedora a situação, pairava no ar um incómodo desconforto.
Isa era a indiferença total, Meireles
encolhido na sua cadeira parecia um pouco incomodado por lhe irem quebrar a
rotina da sua telenovela. Só a dona Balbina parecia uma pura imagem de alegria.
Olharam uns
para os outros perturbados e foi o engenheiro Timóteo a ter coragem para tomar a
palavra:
-Bom, devem
estranhar esta visita inesperada mas o meu filho insistiu tanto que me decidi,
espero que me perdoem e compreendam a razão.
Olhou o
filho e ficou esperando um sinal de aprovação, mas o rapaz só tinha olhos para
a Isa que se encontrava encostada à parede numa total indiferença.
-Como ia
dizendo, retomou o engenheiro, o meu filho há muito que anda de olho na vossa
filha num total embevecimento e não se cansa de me dizer que encontrou a mulher
certa, a única capaz de voltar a trazer alegria à nossa casa.
-O gajo não
joga com a bola toda, pensou Isa!
-É mesmo o
Euro milhões, matutou Balbina!
-Não estou a
perceber nada, cogitou Meireles!
-Mas,
continuou o engenheiro, como devem saber eu fiquei viúvo faz três anos e tenho,
sem ajudas, criado este filho, Bernardo, que tem sido o meu grande amparo e a
minha maior força, só tem 19 anos mas pensa como um adulto.
O senhor
Meireles ajeitou-se na cadeira, ganhou folego e coragem para dizer:
-Senhor
Engenheiro sabe que nós temos muita consideração por vossemecê, pela sua
bondade, pela forma como tem ajudado esta terra, pelo trabalho que tem dado a
este povo. Mas deve compreender que terá que ser a Isa a decidir, ela têm 25
anos e nós não podemos falar por ela.
Dona Balbina
não se conteve e foi acrescentando:
-Oh Meireles
é nossa filha e nós temos obrigação de a aconselhar e não me parece que…..
Não teve
tempo de completar a frase, a filha interrompeu com as lágrimas a quererem
saltar dos lindos olhos:
-Bom, eu,
não quero ofender ninguém, acho e compreendo o acanhamento do senhor
engenheiro, pois não deve ser fácil aparecer numa casa, onde nunca entrou, a
pedir uma mulher de 25 anos para um miúdo de 19. Não quero ser desagradável mas
deve compreender que o seu filho ainda é uma criança.
O silêncio
caiu naquela sala, olharam uns para os outros sem saber. Isa desatou num choro
convulsivo, Meireles retesou-se na cadeira como se fosse possível levantar-se,
dona Balbina começou a rezar baixinho, o Bernardo mordia os lábios num
nervosismo confrangedor e o engenheiro Meireles gesticulava na tentativa de por
ordem ao desarranjo que acabara de causar.
-Bem, falou
por fim, vamos embora não nos compreenderam e criamos uma grande confusão.
Foi então que o que o rapaz mostrou que também
estava presente:
-Pai, espere
porque aqui vai uma enorme confusão, eles não perceberam e pensam que estamos a
pedir a mão da Isa para mim, tem que explicar que não, tem que dizer que é o
pai que está interessado em casar com a moça e que eu apenas ajudei a escolher.
O silêncio
parecia doer.
Meireles
meditava, não estou a perceber nada disto.
Balbina
pensava, é para o pai, que pena eu não ser livre
Isa não se
conteve:
-Mas senhor
engenheiro, explique melhor porque ficamos todos confusos e peço desculpa por
mim e pelos meus pais.
O engenheiro
empertigou-se, passou os dedos pelos cabelos grisalhos e, com um ligeiro
tossicar disfarçou o nervosismo que parecia que o tinha tolhido.
Alisou, mais
uma vez o cabelo, aclarou a garganta e com a voz entaramelada começou:
-Vou
explicar, há muito que eu anda de olho na Isa, acho que é uma rapariga muito
especial e, confesso, sinto por ela uma grande atracção. Pedi, como faço
sempre, a opinião do meu filho que só me disse que não devia perder mais tempo
e, hoje, quase me obrigou a tomar coragem. Por isso estou aqui para pedir a mão
da vossa filha.
Olhou a moça
e num gesto quase teatral pediu:
-Isa aceitas
casar comigo?
Meireles e
Balbina pareciam ter voado para bem longe, tal era o alheamento, mas Isa estava
presente para responder:
Foi assim
que me cumprimentou enquanto um brilho nos seus olhos, cor de âmbar, deixavam
antever tudo aquilo que sentia.
-Tenho um
namorado, repetiu, como se fosse a única no mundo a ter um namorado.
Rebolou os
olhos, passou os dedos pelos cabelos e sorriu.
Parecia que
todas as bênçãos do mundo a tinham bafejado.
Todo o seu
corpo deixava antever a felicidade que a invadia.
Não se
cansava de o repetir como se isso alimentasse a sua felicidade.
-É o Rui,
conheci-o ontem no centro comercial. Estava a comer uma pisa e olhou-me de uma
forma diferente. O seu sorriso de dentes brancos deixou-me loucamente presa no
brilho do seu olhar. Era impossível ficar indiferente. Fiquei apaixonada,
presa, sem poder resistir. Falamos o resto da tarde, andamos de mãos dadas.
Beijou-me de forma intensa, como nunca ninguém me beijou. Ouvi sinos e
cânticos, fui transportada a um lugar onde nunca me tinha sentido.
Estou,
loucamente, apaixonada.
Vêm-me esperar á saída! Vamos ao cinema!
São oito horas e a Graça continua á espera, está impaciente
mas não desiste. Devia ter chegado as seis e ainda não apareceu. Decerto algo
aconteceu.
Nove horas, vai desistir, não pode esperar mais.
Agora percebe porque ele era apenas Rui, porque não tinha
número de telemóvel para lhe dar, porque não disse onde trabalhava e, porque não
era importante onde morava.
(Este conto tinha 56 páginas e tenho a certeza que
ninguém, mas mesmo ninguém, iria ter paciência, ou tempo para perder, com estes
meus devaneios. Resolvi cortar, mesmo assim, ainda restam 17, espero que me
possam perdoar. Embora contado no pessoal é pura ficção)
Já foi
há tantos anos que é difícil ser certo na data, sei que foi em Outubro de um
qualquer ano de algumas décadas passadas, o tempo estava frio e seco.
As
rodas dos carros e as ferraduras das muares no piso do basalto tomavam conta de
todos os barulhos.
Na casa
a azáfama era abafada pelos sons dos regressos do campo, e pela água que fervia
ao lume. As mãos nodosas, de uma parteira, lavadas com sabão azul-e-branco,
deram origem a um leve vagido de alguém que se preparava para a vida.
-É um
rapaz exclamou, a curiosa, enquanto com panos molhados, em água morna, o ia
limpando dos restos da difícil chegada ao mundo.
-É um
rapaz, voltou a exclamar a mulher, enquanto poisava o embrulho no lençol
salpicado do sangue da vida. Parece que ninguém reparou e o desabafo da
parteira perdeu-se na rapsódia de sons perdidos no fim de um dia de Outono.
****
O
pouca-terra, pouca-terra, do velho comboio era, de vez em quando, quebrado pelo
som estridente de um apito que se ia perdendo em espirais de fumo branco.
Parava
nas estações com um ranger metálico de travões e espessas camadas dos vapores da
água quente da caldeira. As pessoas iam saindo e entrando arrastando malas de
cartão amarradas com fortes fios de sisal entrançado, enquanto outros iam
abrindo as asas a cestos de vimes vermelhos, donde sacavam um naco de pão que
chiava, quando a navalha o ia “arretalhando” em grossas fatias que o pedaço de
chouriça ia tingir do vermelho de pimentão.
O
senhor da frente apontou-me o pão e uma rodela da chouriça que me ia derretendo
os olhos e deixando-me um salivar guloso na boca.
Olhei,
de lado, esperando um milagre mas os ares sisudos responderam e, eu, percebi.
Era
noite quando chegou, a estação era enorme, um homem com uma lanterna na mão
fazia sinais enquanto o comboio, num frenesim de freios e fumo ia deixando a
marcha.
Olhei
as pessoas na estação, os rapazes aperaltados com casacos de xadrez cintados,
camisas brancas e laços coloridos, calças de fazenda da cor do casaco acabando
em golfe sob as meias de xadrez.
Olhei-me
na camisa desbotada, onde uma velha gravata demasiado grande dava um ar desconfortável
ao enrugado colarinho e às calças de cotim, sobras de umas pernas de uma
adultas, recuperadas, seguras por um suspensório igual, que cruzava o peito
entre dois botões.
Olhei a
figura, triste, ainda ontem me julgava um perfeito dândi.
******
Foram
dois anos difíceis, as consequências da guerra, a falta de quase tudo, o
racionamento que atingia de forma violenta os mais vulneráveis.
O
contrabando imperava, os mais afoitos iam engrossando a carteira à custa do
café, do azeite e de tudo que fosse útil e difícil de arranjar.
Apesar
de tudo sobrevivi, agora mais afoito, curtido na arte e no engenho do
desenrascanço, na subtileza de encher a barriga com a broa que os vizinhos,
perante um olhar suplicante, repartiam com o adorável rapazinho.
*****
A
mudança foi dolorosa, não pelo abandono, mas pelo desconhecido, pelo espaço que
ia perder, pelo retrocesso, pelo desconforto de voltar a perder o mundo que
tinha construído.
Quando
deixei a casa não tive coragem para olhar para trás, queria levar na memória os
dois anos que fizeram a passagem de menino a rapaz.
Tinha acabado de fazer sete
anos.
Agora a
estação não me causava admiração, conhecia cada canto, cada homem que ali
trabalhava, sabia o número dos comboios, os horários, donde vinham, para onde
iam, eram parte da minha própria vida.
Vivi
dois anos repartido entre a escola e a estação, era o único conforto que a vida
me dava, o soar da corneta nas partidas o balouçar da lanterna num sinal que o
maquinista respeitava.
Era
acarinhado, podia entrar nas máquinas e sentir o fascínio do monstro de ferro, o
cheiro do coque a arder na enorme caldeira e, isso, era algo que ainda hoje não
sei explicar.
Era
importante, entre aqueles tisnados que gastavam algum do seu tempo, com um miúdo
que amava os comboios.
*******
A mobília,
uma cama, um divã e uns poucos de trastes velhos foram despachados numa
camioneta grande, as malas com aquelas roupas que já faziam parte da própria
pele, foram amarradas com as mesmas guitas e estampados uns grandes rótulos
brancos com os nomes, não percebi porque, mas só podia ver e ficar calado. É
tão difícil crescer!
*****
Foi a
viagem mais triste da minha vida, na memória apenas existiam as imagens de tudo
que deixava.
A
escola, a horta, os amigos e os comboios que já faziam parte de mim mesmo.
Foram
algumas horas num banco de madeira, os campos e as povoações passavam como um
filme, as pessoas paravam para olhar as carruagens que seguiam indiferentes no
deslizar elegante no ferro dos carris.
Era já
noite quando chegamos ao destino, as luzes da cidade deixaram-me boquiaberto.
Fomos
num eléctrico de bancos corridos, que tal como os comboios patinavam nuns trilhos,
mas não eram a mesma coisa.
Ficamos
a morar mesmo ao fundo de uma travessa, ali acabava a cidade, depois eram
campos e hortas.
Era uma
casa estranha, a janela ficava em cima do telhado, os tectos eram baixos do
lado e depois iam crescendo e no meio terminavam em ângulo. Chamavam-lhe águas-furtadas.
Um quarto grande, ao fundo fazia um canto e foi ai que ficou o meu divã. De
noite tinha que ter cuidado quando me levantava, pois o tecto estava mesmo ali,
mas depois de algumas cabeçadas consegui habituar-me.
À tarde,
quando saia da escola, ia brincar para um terreiro que existia, mesmo ao dobrar
da esquina, um campo de terra batida, onde diziam, que antes faziam a feira,
agora eram onde os rapazes jogavam à bola, ao pião e às correrias para
descarregar esta revolta, que eles não sabiam, mas estava dentro de todos.
*****
A tarde
estava linda, calor mas não exagerado, eu tentava acertar com um berlinde numa
cova quando ela apareceu. Devia ser da minha idade, muito magra, cabelos
compridos atados com um totó de cada lado. Era muito bonita, mas tinha uns
olhos ainda mais tristes que uns que eu costumava ver no meu espelho.
Ficou por
trás de mim observando a pouca habilidade, depois não se conteve e disse:
-Não
devias por o dedo assim, faz assim, e mostrou a posição.
Experimentei
e não era que o raio da rapariga tinha razão! O bilas deslizou e aterrou
certinho dentro da cova.
Olhei-a
bem de frente e sem querer dar parte fraca respondi:
-Este
berlinde é novo e ainda não me habituei!
Sorriu
e tinha um sorriso lindo, fazia duas covinhas nas faces que lhe davam um ar,
quase angelical.
Pegou-me
na mão e, antes que tivesse tempo de falar disse:
-Anda
vamos para ali apanhar joaninhas, e arrastou-me até um tufo de flores amarelas.
Como te chamas? Eu sou a Bina, sou Carolina mas gosto mais de Bina. Moro além
no pátio que fica na esquina da drogaria do senhor Mota. Conheces?
Não se
calou mais, falou na mãe que saia de madrugada para a fábrica, do pai que não
trabalhava, dormia toda a manhã e depois ia passar o resto do dia na Taberna do
Galego.
Tinha
um irmão, mais velho, fugiu de casa e disse que um dia a vinha buscar, mas
nunca mais apareceu. O pai era mau, chegava bêbedo e batia na mãe e nela, por
isso antes dele chegar enrolava-se nos lençóis e fingia estar a dormir. Quando
fosse grande ia ser enfermeira e ia morar numa casa com janelas e com uma casa
de banho, ia casar com um homem que não fosse bêbedo e levava a mãe com ela.
Por fim
ficou calada, olhou-me, pareceu-me ver uma pequena lágrima mas, se calhar, era
impressão. Respondi então:
-Sou o
Albano, moro na travessa, naquela casa que tem águas-furtadas.
Brincamos
toda a tarde, esquecemos as agruras, sentiram momentos de felicidade.
Quando
o Sol começou a cair no horizonte, Bina olhou-me com tristeza.
-Tenho
que ir embora, a minha mãe vai chegar. Amanhã estou aqui outra vez. Agora somos
namorados. Não somos? Os namorados têm que se encontrar todos os dias.
Deixou-me um beijo na bochecha e partiu numa corrida desajeitada.
No
outro dia chegou antes de mim, quando me viu correu e deitou-me os braços ao
pescoço, num sinal de alegria
-Pensava
que já não vinhas! Fiquei com medo. Hoje até me lavei com sabonete para cheirar
bem. Tu gostas que eu cheire bem, não gostas?
Antes
que eu pudesse responder continuou:
-Ontem
a polícia foi a minha casa, foram os vizinhos que os chamaram, o meu pai bateu
na minha mãe e eu tive que fugir, foi para a esquadra e ficou lá toda a noite.
Agora vai ficar bom alguns dias, mas depois quando se esquecer volta tudo ao
mesmo.
****
Ouvi um
dia a minha mãe dizer que muitas vezes não são as pessoas que falam, são os
nervos. Eu acho que hoje não era a Bina a falar, eram os nervos.
Corremos
todos os caminhos, apanhamos amoras maduras no meio das silvas que nos
arranharam os braços.
Descobrimos
uma velha cabana abandonada, era de uma horta que já ninguém amanhava. Estava
velha, o tecto quase não existia, as paredes estavam boas, mas as janelas eram
dois buracos por onde entravam e saiam os pardais numa alegre chilreada.
Bina
estava encantada, para ela, este barracão era um palácio, era o nosso cói.
-Sabes,
disse ela, podíamos mudar para aqui.
Fui
obrigado a dar uma gargalhada.
-Tonta,
não vês que não tem telhado!
Ficamos
até que o dia começou a cair.
*******
As
férias da escola não tardavam, o ano correu-me bem, as notas davam-me, em casa,
sossego para puder gozar alguma liberdade.
Bina, não
estudava, fez a quarta classe e acabou, mas como ela dizia:
-Eu
gostava de ter ido para o liceu, mas isso é para as meninas ricas e para os
rapazes.
Olhei-a
com discordância
-Não
digas isso, todos deviam estudar, os teus pais é que não se importam contigo!
Se não estudares como vais ser enfermeira?
Chorou
agarrada a mim, sentia as lagrimas a molharem-me o rosto e o arfar daquele
pequeno corpo contra o meu. Tentei acalmar, mas não sabia o que fazer, muito
menos o que dizer. Ficamos assim, nem sei quanto tempo, até que os soluços
foram morrendo devagar.
*****
Lembro
como se fosse hoje, era quinta-feira, nesses dias não tinha aulas de tarde e podíamos
começar mais cedo as nossas brincadeiras.
-Sabes,
disse ela, nós somos namorados mas nunca brincamos a isso. Eu sei como é, pois
quando a minha mãe esteve no hospital eu estive em casa da minha tia Isaura e
espreitei a minha prima Amélia e o namorado e vi como eles faziam. Eles
gostavam pois faziam todos os dias, e davam gritinhos de contentes. Eu vi tudo,
espreitei por cima da porta, a casa da minha tia tem portas com uns vidrinhos no
alto e eu de pé numa cadeira vi tudo. Eles despiram-se um ao outro, depois
davam muitos beijinhos em todo o lado, a minha prima fazia festinhas na pila do
Tó e ele chupava as maminhas da Amélia, depois rebolavam na cama fazendo aquilo
que a gente sabe.
Podemos
fazer o mesmo, também somos namorados, eu não tenho maminhas mas não faz mal,
fazemos de conta. Agora temos a nossa casa. Queres, não queres?
Fiquei
em pânico, já tinha falado muitas vezes com os colegas na escola, já tinha dito
que tinha feito para me armar em sabido, mas de verdade, não sabia nada. Agora
não podia dar parte fraca.
-Eu
quero! Mas só temos 12 anos, não é cedo?
-Somos
namorados a sério, dizia Bina, já podes mandar em mim, mas não me batas. És bom
e eu gosto muito de ti. Um dia a minha vizinha Alexandra levou-me ao cinema a
ver um filme, não sei o nome, mas lembro-me que a rapariga do filme dizia para
o rapaz que o amava muito, eu perguntei à minha vizinha o que queria dizer isso
e ela explicou-me que era gostar mais do que tudo, por isso, Albano eu amo-te,
não sei ainda bem o que isso é, mais gosto de ti mais do que tudo.
Vão
passados 15 anos e estas últimas palavras continuam gravadas no meu cérebro.
****
Na
segunda-feira o terreiro estava deserto, nada de Bina, estranhei porque nunca
tinha faltado, mas por vezes os pais arranjam coisa para fazermos e não temos
outro remédio. Amanhã ela vem!
Não
veio e fiquei apoquentado, estaria doente?
O
melhor, mesmo, era ir espreitar ao pátio, podia ter sorte e que alguém me
soubesse dizer onde estava Bina.
Encontrava-se
quase deserto, apenas uma velhota a fazer renda sentada num banco á porta de
uma casa pintada de amarelo.
Torcendo
as mãos de acanhamento, fui-me aproximando e perguntei:
-Senhora
sabe onde está a Bina?
Olhou-me
de forma estranha, olhos piscos, boca desdentada, antes de perguntar:
- E
quem és tu rapaz?
-Bom,
balbuciei, sou um amigo, costumamos brincar juntos.
A
velhota, tapou a boca com a mão, como para esconder a falta dos dentes, antes
de responder:
-Não
vais brincar mais com a santinha, já nos deixou. Se sabes rezar, reza por ela,
não precisa porque é um anjinho, mas mesmo assim reza por ela.
Baixou
os olhos, enfiou as agulhas nas linhas e continuou, como se eu nunca tivesse
estado ali.
*****
Soube
mais tarde o que aconteceu, contou-me o senhor Mota da drogaria, o pai chegou a
casa mais bêbedo do que o costume, começou a malhar na mãe, Bina foi acudir e,
ele, com um machado matou as duas.
******
Adoeci
gravemente, febres altas, delírios e uma grande confusão. Os médicos não
atinavam, diziam que eram sezões. Lembro-me através de pequenos raides de
lucidez de me porem, na testa, rodelas de batatas cruas embebidas em vinagre,
apertadas por um lenço para me baixarem a febre, enquanto me obrigavam a tomar
quinino.
Um dia,
de repente, acordei bem, tinha fome, apetecia-me peixe frito, eu, que detesto
peixe.
Voltei
às aulas mas andava abstracto, não me conseguia concentrar, ouvia mas nada
ficava. Bina não me saia do pensamento. Onde estaria agora? Seria verdade que
havia céu para os bons como ela, ou era apenas uma treta como dizia o meu tio
Elói!
A minha
madrinha disse-me, um dia, que quando as pessoas morrem nasce uma estrela no
céu. Eu tento perceber mas há tantas estrelas que mais uma, eu não consigo
notar.
Hoje
fui ao terreiro, fui visitar a nossa cabana onde nos despíamos e fazíamos
aquelas coisas que os namorados devem fazer, como ela dizia.
O terreiro estava
deserto e a cabana estava tão vazia e tão triste que as lágrimas me saltaram,
deitei-me no chão e então, verdadeiramente, todo o meu desgosto desabou,
desabafei todas as minhas mágoas, blasfemei contra o Deus que levou uma santa e
deixou um assassino que foi capaz de tirar a vida que ele próprio tinha
concebido.
Neste
momento fiz o meu luto, enterrei dentro de mim o desgosto, reneguei o Deus que
me ensinaram, bom e justo. Foi ai que deixei de ser criança e que nasceu o
homem.
Faltava-me
voltar ao pátio, queria sentir pela última vez o cheiro do sabonete.
O pátio
estava tão triste quanto eu, apenas um cão lazarento dormia à sombra de um telheiro.
A casa amarela estava lá mas, da velha, apenas o banco continuava encostado à
parede.
Não
sabia qual fora a sua morada, farejei como fazem os cães mas o cheiro do
sabonete há muito se perdeu na cova funda onde agora repousa.
*****
Jurei nunca
mais voltar ao terreiro, nunca mais passar pelo pátio. Já tinha lavado dentro
de mim aquelas recordações.
Quando
a minha mãe me andava à drogaria, em demanda de lixivia ou sabão amarelo, eu
andava mais três quarteirões para evitar passar pelos locais que a vida (mais a
morte) tinha estigmatizado dentro de mim.
Às
vezes, nos momentos depressivos, penso se não devia arranjar maneira de um dia
fazer ao pai da Bina o mesmo que ele fez, mas depois percebia porque é que
eramos diferentes.
Esqueci.
****
Entrei
para a Faculdade, senti-me um estranho em roupas de feira, entre rapazes onde
as marcas faziam a diferença. Mas foi um puro engano, fui recebido como igual,
não senti discriminação.
Não foi
difícil a adaptação, o mundo era outro, mas a mentalidade também.
****
Acabei
o curso, sou médico há três anos.
Mas há
momentos em que ponho a pensar como foi possível uma rapariga aparecida do
nada, filha do infortúnio, ter mudado a minha vida de um forma que ainda hoje,
vivo na sua recordação, sinto as suas emoções, penso nos seus sentimentos, vejo
o seu corpo franzino pleno de energia, os seus olhos tristes chispando querer,
a sua bondade contagiante e a sua necessidade de dizer, de falar como se
percebesse que lhe iria faltar o tempo para dizer tudo.
*******
Há
muito que não via um dia assim.
O
vento, a chuva, o trovejar constante e o frio intenso mantinham as pessoas
recolhidas.
Quando
bateram à minha porta estranhei, num dia destes não esperava visitas, mesmo de
vendedores. Olhei pelo visor e nem queria acreditar, embrulhada numa capa de plástico
rosa, estava a Zulmira.
-Entra
mulher, que fazes num dia destes na rua?
Olhou-me
num olhar negro brilhante de névoas, lagrimas saltando em turbilhão.
Tentou
falar mas as palavras ficavam presas nos soluços.
-Tem
calma, tira a capa e senta para acalmares!
Segurei-lhe
o ombro e encaminhei-a para um sofá.
Respirou
fundo, quase um lamento tirado de dentro do peito. Tomou fôlego, esfregou os
olhos e deixou as mãos deslizarem pela face antes de falar:
-Albano,
preciso da tua ajuda, não sei que fazer, só te conheço a ti na cidade, estou
desesperada.
Irrompeu,
novamente, num choro convulsivo, o peito arfava como as máquinas a vapor dos
velhos comboios, os ombros subiam e desciam ao ritmo dos soluços. Eu, não sabia
o que fazer. Fui buscar um calmante e um copo de água.
-Vá
toma isto, ficas mais calma e depois já podes falar.
Tomou a
capsula, olhou-me com tanta súplica que não lhe perguntei mais nada.
-Albano
não me preguntes nada, deixa-me ficar hoje na tua casa, posso dormir, mesmo
aqui, no sofá.
Dei-lhe
uma pequena pancada no ombro, acalmei-a, antes de lhe dizer:
-Ficas
no quarto de hóspedes, fica calma que eu não te pergunto nada.
Calculei
que um amor tinha acabado.
******
Conheci
a Zulmira no liceu, criamos uma grande amizade, estudávamos juntos, saímos
muitas vezes apenas pela companhia, pois como ela me confessou não sentia atracção
física pelos homens, apenas apreciava estar comigo porque nunca sentiu avanços
da minha parte.
Acabamos
o liceu e seguimos rumos escolares diferentes mas mantivemos sempre uma
proximidade, a maioria das vezes através da Internet.
Um dia
telefonou-me a dar a notícia, estava feliz, tinha encontrado uma amiga, estavam
juntas e muito felizes. Queria combinar um jantar, gostava que eu conhecesse a
companheira.
Ficamos
assim.
****
Há
coisas difíceis de explicar, são sentimentos que andam recalcados dentro de
nós, quase tentações que não sabemos explicar.
Sai da
travessa há 10 anos, andei uma vida, tirei um curso e tentei, todos os dias, em
todos os momentos esquecer aquela mágoa que se encontrava colada dentro de mim.
Tive
uma noite de pesadelos, acordei num sobressalto, sentia como se a Bina
estivesse ao meu lado de mão estendida à espera da protecção que eu não lhe
consegui dar.
Tomei a
decisão, depois de todo este tempo ia voltar aos sítios onde tinha jurado nunca
mais tornar.
Pela
primeira vez na minha vida não ia de eléctrico, ia levar o meu carro.
Parei
na esquina da travessa onde morei, a casa das águas-furtadas, mantinha-se tal
como a conheci, onde existiu o terreiro era agora um largo com uma retunda com prédios
a toda a volta.
Tudo
tão diferente que, pensei se seria o mesmo lugar, mas não havia duvidas.
Fui
procurar o pátio, tinha a sensação de que já não deveria existir, decerto, já
teria dado lugar a alguma grande construção.
Estava
quase na mesma, a casa amarela tinha perdido o brilho da cor, estava desbotada
e com as portas pintadas de verde, as outras pareciam que tinham parado no
tempo, tal e qual como as lembrava da última vez em que aqui estive.
Olhei
na esperança de ver alguém aparecer, mas a sorte não estava no meu lado. Ganhei
coragem, toquei a campainha da porta verde. Nada, ninguém respondeu.
Olhei
em redor antes de desistir e tive sorte, em frente alguém assomou á janela a
tentar saber quem tinha ido inquietar a calma do velho pátio.
Aproveitei:
-Desculpe
minha senhora, preciso de uma informação!
Respondeu-me
com maus modos:
-As
pessoas daí chegam tarde.
Respondi:
-Pode
ser a senhora a ajudar, só bati a esta porta porque, há anos, conheci uma
senhora que fazia renda aqui à porta, foi só por isso.
-Oh
homem, a dona Efigénia já morreu há muito tempo, Deus lhe tenha a alma em
descanso.
Anui
com um gesto de cabeça antes de continuar
-Sabe,
morei aqui ao lado e costumava brincar com a Bina. Lembra-se dela?
-Se lembro,
quem não se lembra das pobrezinhas, tanto sofreram que estão com certeza no
céu.
O
malvado que tão mal as tratou, esteve preso meia dúzia de anos e quando o
soltaram, ainda, teve o desplante de voltar para aqui como se não fosse nada
com ele, mas saiu-se mal, o pessoal deu-lhe tal tareia que se não tivesse
chegado a polícia tinham dado cabo dele. Foi uma pena os chuis terem chegado, alguém
os chamou!
Agora,
ouvi dizer, mora com uma irmã lá para a Beira.
-Em que
terra? Sabe?
-Espere
que eu vou perguntar ao meu Zé.
Voltou
com o nome do homem e da localidade escrito num papel que me deu. Meu dia de
sorte.
- E
aqui, a minha cabeça já não dá para fixar. Mas para que ser saber?
-Só
para matar saudades da Bina, respondi, com um sorriso dependurado na boca.
Olhou-me
com estranheza.
Agradeci
e procurei o carro.
*****
Por
vezes pensamos que são coincidências do destino, mas não, somos nós que as
procuramos.
Nada na
vida aparece por acaso, o acaso não existe, nós somos o acaso, nós fazemos com
que o acaso aconteça.
Eu
queria ver o homem que foi capaz de tal crueldade e, que sem o saber, acabou
por moldar o meu destino.
Numa
manhã, bem cedo, meti-me a estrada e só parei no local para onde queria ir.
Entrei
num café, estavam dois homens à volta de uma mesa, numa interessante conversa
sobre os resultados desportivos da véspera.
Ao balção,
uma mulher, ia passando de forma maquinal, um pano na pedra que o revestia.
Pedi um
café, antes de perguntar se sabiam dizer onde morava a irmã do José Bebiano.
Olhou-me
estranhamente, não seria normal fazerem tal pergunta mas, amavelmente veio á
porta e indicou-me uma rua ingreme.
-Sobe
aquela rua, quase no fim vai ver uma casa de pedra com três
degraus, é ai que ela
mora. Não pense em levar o carro, não consegue lá chegar sem ser a pé.
Agradeci
e meti-me ao caminho, a mulher tinha razão, era impossível meter um carro nesta
espécie de batatal. Hesitei muito antes de bater à porta, pensei muito a sério
mas a teimosia prevaleceu.
A
senhora que me atendeu, devia ser a irmã, tinha um ar bondoso e deu-me
confiança para continuar, olhou-me quase como se me conhecesse:
-Não
esta enganado? Será mesmo esta morada que procura.
Fiquei
um pouco sem jeito, mas abanei afirmativamente a cabeça antes de responder
-Queria
ver o senhor Bebiano, julgo que é o seu irmão!
Não
mostrou qualquer admiração, mandou-me entrar
-Deve
ser da Assistência por causa do internamente, só tenho medo que já não venham a
tempo, ele não deve passar de hoje, pelo menos foi o que disse o doutor Inácio.
Quando
entrei no quarto o meu ódio morreu, o castigo já tinha chegado. Zé Bebiano
estava no fim, uma cirrose hepática estava a encarregar-se de fazer aquilo que
eu tinha pensado. O fígado estava a ser vomitado pelo sujeito, o destino estava
a fazer o que o meu pensamento há muito queria.
Quando
entrou no jeep sentiu-se uma pessoa importante, ele e três guardas.
As pessoas, na rua, estranharam aquele aparato, o que seria que o Onofre fez
para ir preso e guardado por três homens? Era mesmo um exagero três guardas
para uma criança de 12 anos, só neste povo. Os bandidos andam a solta e as
crianças são presas. Valha-nos Deus!
******
Não havia duvidas estava morto e bem morto.
Em tronco nu, deitado de lado e com uma enorme pasta de sangue seco no lado
esquerdo do crânio, onde um exército de formigas formavam um enorme mancha
negra.
Os
olhos apresentavam um aspecto macabro, os corvos tinham provocado estragos que
os deixavam irreconhecíveis.
Taparam o cadáver com uma lona, dois guardas ficaram de plantão até a chegado
do delegado de saúde o que só iria acontecer muito mais tarde.
Onofre foi levado a casa, estava excitado, tinha uma aventura para contar ao
Armando e uma recordação amarga para o resto da vida.
******
Eram 10 da noite quando à luz de gambiarras o médico legista deu ordem para a remoção
do cadáver para o instituto onde seria feita a autópsia, embora tivesse
adiantado que, aparentemente, fora a pancada na cabeça a causadora da morte que
deveria ter acontecido às primeiras horas da manhã, mas só depois do estudo do cadáver
se poderiam ter certezas.
Dois guardas ficaram no local para garantir que nada fosse alterado até os
peritos, na manhã seguinte, procederam análise e recolha de elementos que
pudessem ajudar à descoberta do que aconteceu.
A autópsia foi conclusiva na causa da morte, uma forte pancada com um objecto
possivelmente de metal e, confirmando a previsão no local, deveria ter
acontecido entre as 9 e as 11 horas, cerca de 4 a 6 horas antes do Onofre o
descobrir.
Iam ser feitas as diligências habituais para tentar descobrir a identidade do
morto, fotos, impressões digitais e pessoas desaparecidas, pois no cadáver não
encontraram nada que ajudasse, apenas umas moedas no bolso das calças.
*******
Onofre, mais conhecido como o neto do Chico Faria, ficou contente quando viu
aparecer o amigo Armando, já restabelecido dessa coisa de papeira, e foi
preciso relatar a aventura juntando alguma dose de suspense e mistério.
Armando pesaroso por ter estado ausente não se conteve e avançou logo com uma
ideia:
-Temos
que ir lá e descobrir o que aconteceu!
-Tás parvo!
Exclamou Onofre.
Armando
estranhou o amigo, sempre pronto para a aventura e agora, quase, em pânico. Mas
não desistiu e avançou com a ideia:
-Eu vi
na televisão como fazem os gajos do CSI e nós pudemos fazer o
mesmo. Vamos lá e
levamos a máquina fotográfica da minha tia, ela empresta, vemos tudo com
cuidado e pode ser que a gente encontre aquela coisa, aaaaa..., como se diz
mesmo?
-Pista? Disse Onofre.
-Isso mesmo, encontramos essa coisa e ficamos a saber tudo, passamos a ser
famosos e vais ver que até vamos ao programa do Goucha.
A cabeça do Onofre estava numa roda-viva, toda aquela engrenagem parecia querer
saltar dos carretos. Por um lado o medo que ainda sentia, mas o espirito de
aventura falava alto.
Talvez, para ganhar tempo, ou coragem perguntou:
-E depois onde temos aquelas boazonas do CSI que descobrem aquelas coisas nos
computadores?
-Oh, disse Armando, isso não interessa a gente apanhamos essas pistas, tiramos
as fotografias e entregamos ao senhor Pica e ele trata do resto.
Armando começava a mostrar algum interesse e pensava que se o morto já não
estava lá nada de mal podia acontecer.
-Tá bem, arranja a máquina para as fotografias que eu levo a minha lanterna, o
canivete, e uma lente de aumentar para vermos melhor as coisas pequenas e
amanhã logo a seguir ao almoço vamos lá.
*********
Mal tinham acabado de comer a açorda e com o todo o material dentro de um
pequeno taleigo puseram-se a caminho, bonés na cabeça por que o dia prometia
uma escalmorreira de fritar pássaros ao sol.
O caminho foi trilhado da forma habitual, tentando apanhar as mariposas que
voavam por entre as marcelas e iam pousar nas flores dos loendreiros que
bordejavam as margens secas do ribeiro, ou os gafanhotos que em enormes saltos
desapareciam por entre as ervas secas.
Os pássaros estavam bem escondidos entre a ramagem dos sobreiros e azinheiras
para fugir ao calor sufocante e a algum bolego que os rapazes, decerto, não
deixariam de atirar se as encontrassem a jeito.
Quando se estavam a avizinhar do velho sobreiro, ouviram ao longe o barulho de
um carro que se aproximava nos solavancos dos buracos do caminho.
Só tiveram tempo de fugir e de esconderem nas rochas.
O carro chegou num rolo de pó sufocante, era grande e preto, embora com a terra
que o cobria parecia mais cinzento.
Mas era um belo carro!
Saíram três homens, o mais velho parecia ser o
chefe, os outros dois eram enormes, atléticos e com aspecto de guarda-costas.
Andaram à volta do lugar onde apareceu o cadáver, remexeram a terra como se
procurassem algo que pudesse estar enterrado. Os dois rapazes, aterrados e
encolhidos entre as rochas tentavam escutar mas não percebiam as coisas que ele
dizia, sim só o mais velho falava, era português mas com uma pronúncia tão difícil
e tão esquisita que não conseguiram perceber nada, mas mesmo nada, do que
dizia. Armando estava a tentar tirar uma foto mas o medo e a transpiração não
lhe deixavam segurar a máquina. Onofre sacou-lhe a objectiva e com muito receio
conseguiu, por uma fresta das rochas, tirar três fotografias, uma ao carro e as outras duas aos homens.
Os personagens esgravataram e acabaram por desistir, Onofre pareceu-lhe que o
mais velho tinha dito algo como:
-Temos que encontlar o cablão do motolista!
Meteram-se no automóvel e partiram para donde vieram.
*******
Mal o carro desapareceu num horizonte de pó, os rapazes, saltaram do esconderijo.
Andaram numa roda-viva, olhavam na esperança de encontrar algo diferente,
vasculharam as redondezas, fotografaram pedras, paus e até um carreiro de
formigas, mas muito desiludidos pois esperavam encontrar uma coisa importante,
afinal nada.
Voltaram tristes e esfomeados.
Depressa esqueceram a aventura. Afinal não tinham aquelas coisas para procurar
impressões dos dedos e essa coisa do ADN, que de verdade nem sabiam o que era,
era melhor esquecerem e deixar os polícias descobrirem, eles tinham muitas
aventuras para viver.
******
As brincadeiras levaram-nos até ao adro da Igreja onde o guarda Pica e um
colega faziam patrulha.
-Então Sherlock
Holmes, perguntou o guarda, já descobristes o mistério?
Onofre
deu uma gargalhada antes de contar:
-Fomos
lá outro dia e apanhamos um susto daqueles, se não nos tivéssemos escondido
detrás dos bolegos os gajos ainda nos davam alguma coça.
-Mas o que se passou, conta tudo direitinho.
Os rapazes relataram a aventura, com todos os pormenores e os guardas estavam
estarrecidos.
-Sabes, disse o guarda, quem te devia dar uma sova e bem grande?
Era eu, mas vamos ver já essas fotografias.
-Estão na máquina da minha tia Zefa, ela não sabe que a gente a levou mas não
se importa.
*******
Zefa ficou admirada quando viu aparecer à porta os rapazes acompanhados pelos
dois guardas:
-O que foi que estes mariolas fizeram desta vez?
Armando adiantou-se a responder:
-Parece
que descobrimos os gajos do crime do sobreiro, as fotografias estão na sua
máquina fotográfica.
-Pois, disse o senhor Pica, precisamos que nos empreste a máquina.
-Mas, disse Zefa, eu apaguei todas as fotografias da máquina, olhei para aquilo
e não percebi nada, umas tinham o dedo na frente e não deixavam ver o que era,
outras tiradas contra o Sol estavam brancas, só se aproveitava uma dum pé de
rapaz.
Então
apaguei tudo.
Tenho pena!
(Se calhar queriam outro
final…mas com miúdos o que esperavam?)
Gostava de correr pelos campos por entre as
marcelas, desviando-se das estevas como se fossem um labirinto. Pelo caminho ia
apanhando alguma bolota que uma azinheira tivesse perdido.
Junto aos pegos fazia saltar as rãs
que coaxavam, escondidas nos juncos, de papos dilatados em sinfonias de
acasalamento.
Costumava fazer estas correrias com o seu amigo Armando, mas como ele estava
com papeira, teve que vir sozinho. Não
era a mesma coisa pois os dois faziam jogos que não dava para fazer só.
Estava muito quente e o Sol em círculos de calor obrigava-o a atar um lenço na testa, seguro com o boné, para que o suor não lhe descesse até aos olhos.
Que pena o Armando estar com aquela da papeira, pois os dois decerto iam
encontrar um cágado entocado nalguma fraga do ribeiro que brilhava com o
reflexo do Sol.
Ia lavar e comer a maça
que apanhara, com autorização,
na macieira do senhor Romão,
depois ia agachar-se detrás
da pedra grande, donde não
era visto por quem se aproxima-se.
Tinha acabado de baixar a roupa quando estranhou o crocitar dos corvos debaixo
do sobreiro velho, com os calções
a pearem-lhe as pernas espreitou e só
teve tempo de se ajeitar e partir em louca correria a caminho da aldeia.
A vereda desaparecia em remoinhos de pó debaixo das alparcatas, onde ofegante e
olhando quase apavorado para trás, Onofre, corria como se fosse perseguido por
um cão raivoso.
Começou a respirar de alívio
quando na curva do caminho avistou as primeiras casas. Parou e baixou o corpo para
restabelecer a respiração,
pois até lhe parecia que ia deitar os bofes pela boca.
Á porta do posto da
GNR estava, de sentinela, o senhor Pica que quando o viu assim esbaforido,
perguntou:
-Que te aconteceu rapaz?
Queria falar mas um nó na garganta parecia tolher as palavras, respirou fundo
antes de exclamar:
-Senhor Pica tem que ir lá ver!
-Desembucha, tenho que ir lá ver o quê?
Limpou a testa com o lenço,
acalmou e então
contou tudo:
-Sabe onde ficam os pegos da ribeira na herdade do senhor Faria?
Pois é lá que está o homem, debaixo do sobreiro velho, daquele que está rachado
com o raio da trovoada, pois na sombra está o homem morto e os corvos estão a depenicar-lhe os olhos.
Vim a fugir não
parei nunca, pois parecia que o homem vinha atrás de mim. Nunca tive tanto
medo, juro que nunca mais vou para aqueles lados!
-Vais… vais, disse o guarda, e vais agora mesmo mostrar onde fica esse sítio.
(Estou a pensar
continuar esta odisseia, vou tentar a parte II)