sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Marasmo


Cada homem deve descobrir o seu próprio caminho (Sartre)





Era sempre o mesmo marasmo, aquela rotina que tornava a vida numa chatice, que se pegava à pele e tornava o dia-a-dia numa monotonia que doía e lhe deixava uma angústia que não sabia explicar.

Por vezes, embrenhava-se na leitura de "O Ser e o Nada" mas o existencialismo de Jean-Paul Sartre, um pouco taciturno, apenas servia para adensar a opressão que o levava aqueles momentos de depressão, em que se isolava como se as pessoas fossem marionetas que, apenas, serviam para agudizar o mal-estar que o entorpecia.

O seu médico já o tinha alertado para os perigos dessa amorfia, para esse casulo que vicia, corrompe e, tantas vezes, leva a desistir como, se desistir, fosse a solução.

Hoje sentia de forma mais acentuada essa compressão, esse andar perdido entre as gentes sem se aperceber que, ele, fazia parte dessa multidão que o baralhava como se fossem robôs, que giravam ao sabor de um acaso, a que ele não queria pertencer.

Voltou a insistir, mas os personagens não pareciam reais, estavam desfocados, e emaranhavam-se de tal forma que pareciam fazer parte doutra onda, que não aquela, onde o seu pensamento se concentrava.

Perguntava, muitas vezes, a si mesmo se não estaria a ficar doido, se a sua mente não o estaria a levar num caminho autista, num espiral egocêntrico, num desencadear de sentimentos antagónicos, queria fazer algo mas a solidão e o isolamento eram o seu maior prazer.

Já começou tantas vezes, que lhe perdeu a conta, a leitura de “Assim Falou Zarathustra (Also Sprach Zarathustra)” mas Friedrich Nietzsche, naquela linguagem, provoca-lhe náuseas, e a ideia de que o " homem deve ser superado" ou o conceito de que "Deus deve estar morto" vai além da sua compreensão.

Ele sente os conceitos filosóficos de uma forma diferente, não compreende a filosofia que põe em dúvida se a realidade é a que aprendemos pelos sentidos. Não percebe o recurso a constatações empíricas para provar ou refutar uma tese.

É prático, para ele a vida é nascer, viver e morrer com a mesma naturalidade de uma metamorfose, não gosta daquele rebuscar existencial de amores, desamores, paixões, aventuras, trivialidades e a chatice do trabalho, pois parafraseando Pierre Reverdy - o tempo que precisamos para não fazer nada é tanto que não nos sobra tempo para trabalhar - e, isso é a verdade.

É mais prosaico um dia em reflexões sobre o que motiva aquele ziguezaguear confuso de uma mosca, do que correr para o nada, num suar desconfortável só porque alguém se lembrou que correr é saudável.

Se calhar está a "endoidar", como diz a sua melhor e, única, amiga, Sofia. Mas ela sabe que não.

Ele não compreende Sofia, tem tudo o que quer, é dona de uma fortuna herdada dos pais e, trabalha, calculem que trabalha como se não houvesse amanhã. Nunca compreendeu essa obsessão pelo levantar cedo e perder o dia à volta de papéis e de problemas, quando podia estar calmamente em casa, ou em qualquer local paradisíaco, a gozar do prazer de nada ter que fazer a não ser o prazer de não fazer nada.

A Sofia é uma amiga muito especial e, ele sabe como ela o ama, como aprecia a sua intelectualidade, como se delicia com a sua expressão estética e com as divagações à volta da existência.

Ela sabe que o seu descanso constante não é mais do que a interiorizarão dos seus elevados pensamentos.

Ele gosta dela e ela, não tem duvidas, ama-o desde sempre. Vão casar, vão ser felizes.
Vai poder continuar a fazer aquilo de que, verdadeiramente, gosta.

Que, de verdade, é não fazer nada.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Um rabo-de-cavalo







Vou estar uns dias vagueando, por aqui e por ali, numa espécie de férias, mas vou tentar acompanhar os vossos escritos.
Um abraço.



Sabia que gostava dela porque gostava, não sabia explicar porque, nunca fora bom nessas coisas das palavras, era apenas aquela coisa que lhe ia dentro e o sufocava quando ela se afastava, era como um doer que apertava no peito, punha o coração num alvoroço e deixava as pernas numa total tremedeira.

***

Foi numa daquelas tardes parvas, na casa do Afonso, onde entre uns pires de caracóis e umas minis geladas se discutiam trivialidades, que ele a conheceu. Estava numa alegre tagarelice com duas amigas quando, por acaso, os olhares se cruzaram de forma tão diferente, quase antagónicas, ele ficou vidrado, ela numa indiferença quase desdenhosa.

Era linda duma beleza diferente, cabelo amarrado num rabo-de-cavalo, olhos brilhando em reflexos de um azul-turquesa, quase ciano.

As suas gargalhadas eram como água cristalina em suaves gorjeios, o rabo-de-cavalo dançava ao maneio da cabeça em ritmos quase sensuais.

Ele, José Maria, ficou preso na imagem e o coração disparou em batidas fortes e descoordenadas, o pensamento parou no momento do fugaz cruzar dos olhares.

Ela, Raquel, parecia uma daquelas moças para quem a vida é um caminhar feliz e com alegria para distribuir por todos os que faziam parte do seu universo.

José Maria ficou num estado de pura fascinação, perdeu a capacidade de raciocinar, quedou num total aparvalhamento.
Estava nessa quase letargia absorto nos seus pensamentos quando o Rui Pisco o acordou para a realidade:

-Então pá, não comes nem bebes?

Deu um pequeno salto como quem desperta com o susto, olhou com surpresa o amigo antes de responder:

-Desculpa mas não estava aqui, aquela ruiva de rabo-de-cavalo tomou conta do meu pensamento e monopolizou o meu olhar. Que loucura de mulher!

-Quem? Perguntou o Rui, aquela de blusa branca? É a Raquel, moça gira mas não vais ter sorte, acho que tem namorado mas vem que eu apresento-te, as três, e tu desenrascas-te!

Muito deprimente, foi apresentado mas as moças limitaram-se a um "muito prazer" e desapareceram abanando os quatro rabos, mais propriamente três rabos e um rabicho ruivo.

***

Ia começar o jogo da sedução, não sabia bem como isso se fazia mas ia tentar, enviar flores ou bombons, ou quem sabe, fazer uma serenata ou talvez escrever uma carta apaixonada ou, então, dedicar-lhe um poema intenso e vibrante, havia estas formas mas não! Era um problema difícil de resolver. Enviar flores ou bombos era demasiado vulgar, uma serenata impensável, pois Deus não se lembrou dele quando distribuiu o talento, poema só se o pudesse encomendar a alguém mais dotado, ele não sabia sequer por onde começar.

Talvez, pensou, uma jóia mas era um risco pois ela podia aceitar e continuar a ignorá-lo.

Estava a ficar deprimido, não tinha ideias.

Todos os dias, de manhã, ficava especado na esquina da rua até que a visão dos seus sonhos aparecia naquele equilíbrio elegante, nos 14,5 centímetros dos seus saltos, no corpo moldado numas calças de ganga que mais pareciam fazer parte da própria pele, o peito arfava ao baloiçar das passadas, tentando romper a delicada blusa que o cingia. Era, para José Maria, a loucura em movimento, o êxtase dos sentidos, a provocação dos desejos e o sonho de qualquer anjo por mais puro que pudesse ser.

Atirava-lhe um bom dia entremeado de ternura e paixão mas ela, no alto do pedestal, continuava naquela indiferença que fazia doer.

*****

Começou a ficar preocupado, hoje era o segundo dia em que ela não aparecia, talvez tivesse adoecido, coisa normal, mas para ele era um dor no coração pensar que a sua paixão estivesse a sofrer, decerto seria coisa pouca e amanhã já iria aparecer.

Vai passada uma semana e nada de Raquel, a preocupação passou a fazer parte do quotidiano do Zé Maria, tinha pesadelos, sonhava com Raquel a voar num cavalo alado para longe, para bem longe.

****

De repente uma luz brilhou no seu pensamento, o Rui Pisco conhecia a Raquel e, se calhar, sabia o motivo da ausência.

Foi bater-lhe à porta e, azar o seu, o Rui não atendeu, não estava em casa.

Restava procurar no emprego, sabia que ele trabalhava numa seguradora. Ia lá.

O Rui estava de férias de casamento só voltava para a semana.

Não tinha outra solução tinha que aguardar, iria voltar.

Na semana seguinte foi, novamente, procurar o Rui que já estava de volta ao trabalho. Ficou muito admirado com a presença do Afonso.

-Que fazes por aqui Afonso, perguntou Rui.

Afonso procurou as palavras:

-Parabéns Rui, já sei do teu casamento! É alguém que eu conheça?

Rui deu uma gargalhada e respondeu:

-Acho que talvez, casei com a Margarida a irmã do Óscar. Conheces?

Afonso pensou um pouco tentando descobrir, mas não, não sabia mesmo.

-Sabes Rui, há duas semanas que não vejo a Raquel, a ruiva do rabo-de-cavalo, por acaso sabes o que se passa com ela?

-Não faço ideia, desde que estivemos em casa o Afonso, quanto ta apresentei, não soube mais nada dela.
                                                                                                                         

****

Raquel era uma rapariga um pouco enigmática, filha de boas famílias, mas um pouco arreigada a hábitos um pouco ultrapassados. Queria casar virgem e só aceitava namorar quando se apaixonasse verdadeiramente. Já tinha reparado no interesse do amigo do Afonso que o Rui lhe havia apresentado mas, confessava que apesar de ser um homem muito interessante, não tinha feito disparar o clique que esperava.

Quando ele se postava na rua num ar de peralta aparvalhado, olhando-a de forma um pouco “pseudo-conspícua” sentia uma espécie de repulsa, não queria mas era isso que lhe fazia a sua presença.

Começava a estar farta daqueles bons-dias tímidos e da falta de coragem para uma abordagem convincente. Não gostava daqueles tímidos e semi-balbuciados "bons dias".

Não queria ser deselegante, mas já estava a sentir algum desconforto por esta, quase, perseguição.

Ia, tentar, arranjar uma solução que talvez (quem sabe?) poderia resultar.

No sábado foi à cabeleireira, cortou o cabelo, de ruiva passou a loira com reflexos dourados e nada de rabo-de-cavalo, cabelo curto de pontas irregulares.

Olhou para o espelho e gostou do que viu na imagem, estava linda.

Na segunda-feira passou, como sempre, no mesmo local onde o admirador se postava e graças a Deus resultou.

Ninguém lhe disse bom dia.

Afinal do que ele gostava, mesmo, era do rabo-de-cavalo e esse já era.








Deixo esta bela canção dum querido amigo Eleutério Sanches, que não vejo há algum tempo mas que continua no meu coração.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A Cliente








-Boa tarde senhor Ernesto!

Esta boa tarde teve uma entoação especial e o senhor Ernesto sentiu isso. Não era habitual uma saudação tão acalorada, pelo contrário, a dona Arménia era sempre um pouco monocórdica, quase despercebida. Hoje foi diferente, entoou de uma forma prolongada, quase, melodiosa.

A dona Arménia era uma mulher de meia-idade, roliça e onde as faces coradas lhe davam um ar de provinciana saudável. O senhor Ernesto pensava que era casada, pelo menos usava uma aliança mas, de verdade, nunca viu o marido.

Sem deixar de limpar o balcão respondeu no mesmo tom, aliás, como sempre o fazia a todos os clientes e, muito especialmente, aos habituais como era o caso da dona Arménia.

Há anos que religiosamente, por voltas das quatro horas, aparecia para o seu chá Ceilão, esse era certo, só no acompanhamento é que variava, umas vezes queria uma carcaça torrada com muita manteiga, outras, dois scones com doce de chila.

Puxava de um pequeno livro, nunca percebeu o que ela estava a ler, era numa língua estrangeira que ele não percebia, mas a verdade era essa, a dona Arménia, ia beberricando o seu chá com uma elegância de dedos estudada e, ao mesmo tempo, espreitando as letras da pequena brochura.

Depois, deixava o dinheiro na mesa e saia sem dizer nada.

****

Hoje foi diferente, começou com essa boa tarde sonante, um sorriso que realçava o brilho rosado das faces e, para surpresa do pobre senhor, não queria chá.

-Mas, titubeou o senhor Ernesto o que devo servir à madame?

-Hoje, caro amigo, quero dois pastéis de bacalhau e uma imperial bem gelada.

****

O homem não sabia o que pensar, a cliente estava fora do normal, era sempre tão formal e tão reservada, tinha um certo estilo na forma como deglutia a torrada e a subtileza dos dedos no levar da chávena à boca e, hoje, sorvia a cerveja como os comuns dos mortais nos intervalos das dentadas nos pastéis de bacalhau.

-Senhor Ernesto, bradou dona Arménia, traga-me outra imperial e mais um pastelinho.

O homem correu, solicito, a atender o pedido, embora pesaroso pela mudança mas, que fazer, o freguês tem sempre razão.

-Aqui tem o seu pedido, disse o senhor Ernesto, mas desculpe nunca a tinha visto beber cerveja!

A mulher deu uma gargalhada e perguntou:

-Se o senhor estivesse preso 15 anos, longos e dolorosos 15 anos, o que faria no dia em que recuperasse a sua liberdade?

-Bom se calhar o mesmo mas não me parece que tenha estado presa!

-Presa e bem presa, hoje recuperei a liberdade, consegui finalmente o meu divórcio.

-Vá beba uma cerveja comigo, vá lá beba!





domingo, 29 de julho de 2012

The yellow car‏






Era um dos dias mais felizes da sua vida, não porque tivesse razão de queixas da existência, muito pelo contrário pois sempre se considerou uma privilegiada em relação há maioria das amigas.

A vida tinha-lhe dado quase tudo, nasceu numa família abastada, filha única e de pais não muito novos o que, compreende-se, a tornava especialmente mimada, ela tinha consciência disso e fazia esforço para não se aproveitar da situação.

Hoje ia completar 18 anos e, tinha a certeza, os pais iam oferecer-lhe aquele carro que ela estava farta de mirar na montra do stand.

O Dia estava um pouco sombrio, manhã outonal com vento e uma temperatura um pouco desagradável, mas para Joana o tempo parecia radioso.

Foi espreitar à janela e perscrutou as redondezas na expectativa da surpresa, embora esperada, do carro amarelo que a acompanhava nos sonhos e nos desejos.

Nada, na rua, os automóveis do costume e no jardim o velho BMW do pai.

Seria que estava enganada? Não iria manifestar qualquer desagrado mas, dentro, sentia uma sensação de vazio e o dia não iria ser, de certo, a mesma coisa.

Os pais já esperavam, na sala, para o pequeno-almoço.

Beijos e parabéns escorreram nos rostos, o pai abraçou a filha enquanto lhe foi segredando ao ouvido:

-A tua prenda vai ficar escondida até logo e temos a certeza que vais gostar da surpresa!

Joana apertou mais o pai, puxou a mãe para o abraço e desabafou:

-Tenho os melhores pais do mundo, amo-os mais do que à vida. Obrigado por tudo, por terem feito de mim o que sou.

*******

A animação era visível, a família e os amigos mais chegados iam tomando conta da sala em amenos diálogos, enquanto os salgados e as bebidas iam desaparecendo naturalmente. Os mais viciados, procuravam os cantos abrigados do jardim para, em pequenos grupos, fazerem pequenas espirais com o fumo que calmamente iam libertando das suas bocas.

A música era convidativa e alguns, muito poucos, começavam a rebolar o corpo ao ritmo dos acordes que enchiam o ar.

 *****

O pai de Joana estava preparado para sair e a filha, apercebendo-se, perguntou:

-Onde vais pai?

O homem sorriu e percebendo a curiosidade de Joana respondeu:

-Vou ali e volto já, vou escolher a tua prenda!

-Posso ir contigo? Perguntou Joana.

O homem soltou uma gargalhada, deu um beijo na filha e entrou no táxi que já o esperava ao portão.


***** 

A mãe de Joana estava preocupada, o marido já devia estar de volta, tinha saído, quase, há duas horas e o que tinha para fazer não era para demorar, era só pegar e vir, todo o resto já tinha sido tratado.

*******

Quando o carro da polícia parou à porta os convidados, que fumavam no jardim, ficaram curiosos e mais, ainda, quando um dos dois guardas que saiu lhes perguntou:

- Esta cá algum familiar do, olhou o papel que trazia na mão, senhor Ramiro Caixinha?

Respondem, quase todos, em uníssono:

-Está a esposa e a filha, mas há algum problema?

Respondeu o polícia que parecia mais velho:

-Muito má noticia, o homem teve um acidente muito grave, já saiu do local cadáver e o carro amarelo só serve para a sucata.

 Mas chamem, por favor, a esposa!




segunda-feira, 23 de julho de 2012

À lá minuta, talvez alguns percebam.








Aos meus amigos/as, do Brasil, que fazem o favor de me visitar e têm a amabilidade em me deixar belas mensagens de amizade peço desculpa por esta pantomina, sei que não vão compreender pois são problemas cá do burgo e que vos passam, felizmente, ao lado,



Uma peça em três actos, como convém, podia ser ficção mas se calhar não é.

Segunda-feira, 15 horas, dia cinzento

1º Acto

Uma sala e um balcão com alguns livros em estantes. No lado de dentro uma menina com uma bata azul e uma caneta na mão, no lado de fora um sujeito com uma pasta debaixo do braço.

Diz o sujeito:
-Então bom dia! Venho tratar da minha licenciatura, quem me pode atender?

Responde a menina:
-Posso ser eu, quer fazer a sua inscrição? Espero que tenha em ordem os seus documentos.

Volta a dizer o sujeito:
-Mas que documentos, que historia é essa, eu tenho experiência profissional e um currículo mais que suficiente para uma licenciatura e até, quem sabe, até já com um mestrado.

Volta a falar a menina:
-Bom, isso já não é comigo, tem que ser com o senhor reitor, vou-lhe marcar uma entrevista. Deixe ver, espere lá, bom, bom, na sexta-feira às 10 horas. Tá bom? Fica em nome de quem?

Fala o sujeito:
-Doutor Óscar!

Admira-se a menina:
-Mas se já é doutor porque quer a entrevista?

Subleva o sujeito:
-Bom, parece que não percebeu eu sou doutor porque nasci para ser doutor.


2º Acto

Sexta-feira, 10 horas, chove torrencialmente

Uma sala de entrada, um banco corrido e um homem vestido como um porteiro

Fala o sujeito:

-Venho para a entrevista com o senhor reitor

Responde o homem vestido de porteiro:
-Entre, entre, ele está à sua espera.


Uma sala mascarada de escritório, móveis escuros e pesados e sofás clássicos em cabedal castanho
Um reitor, figura insignificante, enterrado numa cadeira de pele castanha vai apontando num caderninho os factos e acontecimentos.

Diz o reitor:
-Então o caro Óscar quer habilitar-se a uma licenciatura, não é verdade?

Responde o sujeito:
-Pois caro reitor, quero porque tenho direito a isso, pois saiba o amigo que eu até já fui gaiteiro no rancho da minha terra e até numa manifestação do 1º de Maio, lá na minha aldeia, fui eu que fiz o discurso.

Fala o reitor;
-Muito me conta, isso é notável, nem todos se podem gabar de tais acontecimentos, só por isso já tem direito a uma porrada de créditos.

Rejubila o sujeito:
-Mas há mais, há muito mais, que eu sou uma pessoa de muitos saberes e com uma experiencia do caraças, perdoe o termo, mas na minha terra dizemos assim.

Palavras do reitor:
-Não tenho dúvidas disso pois o nosso amigo comum, sabe bem quem é, foi ele que mo remendou, disse-me da injustiça do seu professor, quando acabou a instrução primaria, não lhe ter dado logo a licenciatura, mas não era possível eram outros tempos e outras leis. Mas adiante, que mais podemos juntar aqui na sua candidatura?

Continua o sujeito:
-Então aqui vai, fui tesoureiro na Sociedade Recreativa o Pimpim, fui cronometrista na corrida dos carrinhos de rodas de esferas durante a feira de Agosto, ajudei o padre, lá da nossa paróquia, durante a missa.

Exulta o reitor:
-Estou um pouco confuso na licenciatura que prefere, embora a sua experiência dê para tanta coisa, é vasta! Mas afinal que licenciatura pretende?

Deleita-se o sujeito:
-Ainda não tinha pensado nisso, o que acha mais adequado à minha experiência?

Volta o sujeito:
-É difícil dizer mas, penso que, algo como Desenvolvimento Organizacional, não acha bem? Só tem um pequeno problema tem que fazer Metodologias das Ciências Sociais.

Assusta-se o sujeito:
-E como se faz isso? Sou uma pessoa muito ocupada e o nosso partido precisa de mim.

Descansa-o o reitor:
-Não vou complicar, eu mando-lhe, por correio electrónico, o enunciado e logo me manda a resposta.

Pergunta o sujeito:
-Esta bem, posso responder no domingo?

Acalma-o o reitor:
-Pode e na segunda-feira tem o seu certificado pronto e depois é só pagar na secretaria.

Sussurra o sujeito:
-Senhor reitor, é de homens como o senhor que o país precisa para andar para a frente.

Baba-se o reitor:
-Pois eu sou muito prático e gostei de o atender senhor doutor.


3ª Acto

Manhã cinzenta, ameaça chuva.
O mesmo balção, a mesma menina e o mesmo sujeito

Declara o sujeito:
-Venho pelo certificado!

Responde a menina:
-Está pronto é só pagar a inscrição, o curso e o exame.

Pergunta o sujeito:
-Qual a minha nota em Metodologias das Ciências Sociais?

Responde a menina:
-Está no certificado, 18 valores. Quer reclamar?

Gargalha o sujeito:
-Não, não, acho que está óptima.

Cai o pano envergonhado.




segunda-feira, 16 de julho de 2012

A noiva






Quando desceu os degraus da Igreja o bruaá de espanto ecoou como se a admiração tivesse um som.

Parecia quase irreal nos contornos de um corpo cinzelado pelo bom Deus num dia de muita inspiração, nas faces onde o resplandecer de um sorriso, quase divino, fazia o brilho do Sol empalidecer.

Era a noiva. Ao seu lado um homem demasiado discreto, ia realçando, ainda mais, toda a formosura da donzela.

-Que linda noiva, exclamou a Dª Rosa!

-Boa como o milho, disse o Chico!

-Mal empregada, suspirou o professor Osório!


***

Foram uma família feliz até que a desgraça, numa tórrida tarde de Agosto, deixou o senhor Meireles agarrado a uma invalidez para o resto da vida. O tractor quando se empinou, numa vala, atirou o pobre homem deixando a coluna de tal forma que se lhe acabou a vida abaixo da cintura, agora dependia da mulher para tudo até, como dizia, para mijar.

A Junta de Freguesia conseguiu, com a ajuda da população, comprar-lhe uma cadeira de rodas para amenizar tanta desgraça.

A vida não era fácil, pois a pensão de invalidez era pequena e os trabalhos de costura não abundavam, o que lhes valia era o rendimento de uma pequena courela que tinham alugado, pois ele não a podia cuidar.

Naquela quente tarde de primavera, mãe e filha, deixaram o senhor Meireles sentado à porta da rua para poder ver quem passava e, ao mesmo tempo, entretido com os amigos que paravam para deixar uma palavra de carinho.
Iam fazer as pequenas compras semanais.


***

Isa, assim se chamava a filha, foi a primeira a sair do minimercado, carregando os sacos de plásticos, e ficou surpreendida pelo olhar lupino de um rapaz que se encontrava na esplanada do Café Central.

Sentiu-se, um pouco, incomodada e comentou com a mãe:

-Vistes aquele lingrinhas? Parecia que me ia comer com os olhos!

A mãe sorriu e perguntou:

-Não sabes quem é aquele rapaz? E antes que a filha tivesse tempo para responder, foi acrescentando, o moço é o filho do Senhor Engenheiro Timóteo, o homem mais rico desta região. Dizem que tudo que a gente avista muitas léguas em redor é dele e aquele rapaz é o único filho e um dia toda a riqueza vai ser dele. Devias ter retribuído o olhar e até um sorriso não tivesse sido despropositado.

Isa estava admirada com a conversa da mãe, parecia estar interessada em qualquer coisa.

Fez de conta que não percebeu e continuou o caminho.


***


Tinham acabado de jantar e estavam ajeitados para ver a telenovela quando bateram à porta.

Foi a mãe abrir e, quase teve um ataque, na sua frente estavam, de chapéu na mão, o senhor engenheiro Timóteo e o filho.

-Boa noite, disse o homem, pedimos desculpa por vir incomodar a esta hora mas aqui o rapaz não me deixou esperar mais, queremos falar consigo e com o seu marido. Pode ser?

-Oh meu Deus, balbuciou a mulher. Entrem, entrem!

Estava nervosa e ia fazendo do avental um rodilho de tanto o torcer, caminhando de lado ia dirigindo as visitas para a sala enquanto gritava:

-Oh Meireles, oh Isa vejam quem está aqui! Temos visitas importantes, o Senhor 
Engenheiro e o filho querem falar com a gente. Isto é mesmo uma grande honra.

Entraram todos para a sala perante a admiração da Isa e do pai.

-Mas entre Senhor Engenheiro, entre, insistia a dona Balbina.

Era um pouco confrangedora a situação, pairava no ar um incómodo desconforto.

Isa era a indiferença total, Meireles encolhido na sua cadeira parecia um pouco incomodado por lhe irem quebrar a rotina da sua telenovela. Só a dona Balbina parecia uma pura imagem de alegria.

Olharam uns para os outros perturbados e foi o engenheiro Timóteo a ter coragem para tomar a palavra:

-Bom, devem estranhar esta visita inesperada mas o meu filho insistiu tanto que me decidi, espero que me perdoem e compreendam a razão.

Olhou o filho e ficou esperando um sinal de aprovação, mas o rapaz só tinha olhos para a Isa que se encontrava encostada à parede numa total indiferença.

-Como ia dizendo, retomou o engenheiro, o meu filho há muito que anda de olho na vossa filha num total embevecimento e não se cansa de me dizer que encontrou a mulher certa, a única capaz de voltar a trazer alegria à nossa casa.

-O gajo não joga com a bola toda, pensou Isa!

-É mesmo o Euro milhões, matutou Balbina!

-Não estou a perceber nada, cogitou Meireles!

-Mas, continuou o engenheiro, como devem saber eu fiquei viúvo faz três anos e tenho, sem ajudas, criado este filho, Bernardo, que tem sido o meu grande amparo e a minha maior força, só tem 19 anos mas pensa como um adulto.

O senhor Meireles ajeitou-se na cadeira, ganhou folego e coragem para dizer:

-Senhor Engenheiro sabe que nós temos muita consideração por vossemecê, pela sua bondade, pela forma como tem ajudado esta terra, pelo trabalho que tem dado a este povo. Mas deve compreender que terá que ser a Isa a decidir, ela têm 25 anos e nós não podemos falar por ela.

Dona Balbina não se conteve e foi acrescentando:

-Oh Meireles é nossa filha e nós temos obrigação de a aconselhar e não me parece que…..

Não teve tempo de completar a frase, a filha interrompeu com as lágrimas a quererem saltar dos lindos olhos:

-Bom, eu, não quero ofender ninguém, acho e compreendo o acanhamento do senhor engenheiro, pois não deve ser fácil aparecer numa casa, onde nunca entrou, a pedir uma mulher de 25 anos para um miúdo de 19. Não quero ser desagradável mas deve compreender que o seu filho ainda é uma criança.

O silêncio caiu naquela sala, olharam uns para os outros sem saber. Isa desatou num choro convulsivo, Meireles retesou-se na cadeira como se fosse possível levantar-se, dona Balbina começou a rezar baixinho, o Bernardo mordia os lábios num nervosismo confrangedor e o engenheiro Meireles gesticulava na tentativa de por ordem ao desarranjo que acabara de causar.

-Bem, falou por fim, vamos embora não nos compreenderam e criamos uma grande confusão.

Foi então que o que o rapaz mostrou que também estava presente:

-Pai, espere porque aqui vai uma enorme confusão, eles não perceberam e pensam que estamos a pedir a mão da Isa para mim, tem que explicar que não, tem que dizer que é o pai que está interessado em casar com a moça e que eu apenas ajudei a escolher.
O silêncio parecia doer.

Meireles meditava, não estou a perceber nada disto.

Balbina pensava, é para o pai, que pena eu não ser livre

Isa não se conteve:


-Mas senhor engenheiro, explique melhor porque ficamos todos confusos e peço desculpa por mim e pelos meus pais.

O engenheiro empertigou-se, passou os dedos pelos cabelos grisalhos e, com um ligeiro tossicar disfarçou o nervosismo que parecia que o tinha tolhido.

Alisou, mais uma vez o cabelo, aclarou a garganta e com a voz entaramelada começou:

-Vou explicar, há muito que eu anda de olho na Isa, acho que é uma rapariga muito especial e, confesso, sinto por ela uma grande atracção. Pedi, como faço sempre, a opinião do meu filho que só me disse que não devia perder mais tempo e, hoje, quase me obrigou a tomar coragem. Por isso estou aqui para pedir a mão da vossa filha.

Olhou a moça e num gesto quase teatral pediu:

-Isa aceitas casar comigo?

Meireles e Balbina pareciam ter voado para bem longe, tal era o alheamento, mas Isa estava presente para responder:

-Aceito senhor engenheiro!







domingo, 8 de julho de 2012

A Espera







-Tenho um namorado!

Foi assim que me cumprimentou enquanto um brilho nos seus olhos, cor de âmbar, deixavam antever tudo aquilo que sentia.

-Tenho um namorado, repetiu, como se fosse a única no mundo a ter um namorado.

Rebolou os olhos, passou os dedos pelos cabelos e sorriu.

Parecia que todas as bênçãos do mundo a tinham bafejado.

Todo o seu corpo deixava antever a felicidade que a invadia.

Não se cansava de o repetir como se isso alimentasse a sua felicidade.

-É o Rui, conheci-o ontem no centro comercial. Estava a comer uma pisa e olhou-me de uma forma diferente. O seu sorriso de dentes brancos deixou-me loucamente presa no brilho do seu olhar. Era impossível ficar indiferente. Fiquei apaixonada, presa, sem poder resistir. Falamos o resto da tarde, andamos de mãos dadas. Beijou-me de forma intensa, como nunca ninguém me beijou. Ouvi sinos e cânticos, fui transportada a um lugar onde nunca me tinha sentido.

Estou, loucamente, apaixonada.

Vêm-me esperar á saída! Vamos ao cinema!

São oito horas e a Graça continua á espera, está impaciente mas não desiste. Devia ter chegado as seis e ainda não apareceu. Decerto algo aconteceu.

Nove horas, vai desistir, não pode esperar mais.

Agora percebe porque ele era apenas Rui, porque não tinha número de telemóvel para lhe dar, porque não disse onde trabalhava e, porque não era importante onde morava.

Agora já sabia a razão!