-Credo!
Gritou a dona Augusta, onde já se viu tão pouca vergonha?
Foi
um desabafo, apenas um desabafo de alguém que ainda vive, um pouco, num época que
já passou. Era do tempo, como dizia, em que havia vergonha e em que as coisas
eram feitas no recato do lar.
Dona
Augusta foi casada 18 anos, o seu Augusto faleceu e ela garante que nunca, mas
mesmo nunca, foi capaz de se despir ao pé do marido, onde se viu uma sem “vergonhança”
dessas.
Ela
era uma mulher de princípios e dizia com frequência:
-Foi
assim que a minha mãe me ensinou e foi assim que eu eduquei a minha Vanessa.
Agora
aquela pouca vergonha, como aqueles, além na esquina na maior indecência que se
possa imaginar! Ela nem se consegue ver de tão enrolada no rapaz e com as bocas
a sorverem as línguas. Que nojo!
Que
porcaria, onde se viu tanto descaramento, já pensei ir até lá e
dar-lhe uma
descasca para eles aprenderem o que é o decoro e ficarem a saber, que as poucas-vergonhas
tem lugar próprio, se querem pecar que vão para uma pensão como fazem essas
desgraçadas que estão, à noite, na esquina da rua, só não fui lá porque a minha
Vanessa ficou de me telefonar a dizer as notas que saem hoje.
Sim
que a minha filha é uma rapariga que sabe o que quer e, que graças a Deus,
nunca me deu desgostos como aqueles desgraçados além no assento do jardim.
Que
coisa! Mãe do céu! Está uma mãe descansada, em casa, a pensar que a filha anda
no bom caminho e acontece como aquela infeliz, ali no banco, estrafegada pelo
rapaz e lambendo-se de uma forma que não lembra a ninguém. Esta juventude está
perdida, não sei por este caminho onde isto vai parar.
-Não,
não posso aguentar mais, isto é um atentado à moral pública.
Tirou
o avental, ajeitou o carrapicho no alto da cabeça e abalou para descompor os desenvergonhados
que estavam a dar semelhante espectáculo.
Ainda
não tinha chegado, bem ao local, e já se fazia ouvir em alto e bom som:
-Meninos!
Vocês ai no banco! Se querem fazer cenas tristes vão para as vossas casas! Isto
aqui é um sítio público, não é nenhuma hospedaria!
O
casal entrou no real, a rapariga tentava ajeitar o descomposto da roupa e com
espanto olharam para tão estranha aparição.
Dona
Augusta estancou como se um raio a tivesse atingido, quase por encanto, mudou a
cor do rosto.
Adoçou
a voz e, baixinho, murmurou:
-Oh Vanessa! Oh
querida! A mãe, ao longe, não te conheceu!
Cada
homem deve descobrir o seu próprio caminho (Sartre)
Era
sempre o mesmo marasmo, aquela rotina que tornava a vida numa chatice, que se
pegava à pele e tornava o dia-a-dia numa monotonia que doía e lhe deixava uma angústia
que não sabia explicar.
Por
vezes, embrenhava-se na leitura de "O Ser e o Nada" mas o
existencialismo de Jean-Paul Sartre, um pouco taciturno, apenas servia para
adensar a opressão que o levava aqueles momentos de depressão, em que se
isolava como se as pessoas fossem marionetas que, apenas, serviam para agudizar
o mal-estar que o entorpecia.
O
seu médico já o tinha alertado para os perigos dessa amorfia, para esse casulo
que vicia, corrompe e, tantas vezes, leva a desistir como, se desistir, fosse a
solução.
Hoje
sentia de forma mais acentuada essa compressão, esse andar perdido entre as
gentes sem se aperceber que, ele, fazia parte dessa multidão que o baralhava
como se fossem robôs, que giravam ao sabor de um acaso, a que ele não queria
pertencer.
Voltou
a insistir, mas os personagens não pareciam reais, estavam desfocados, e
emaranhavam-se de tal forma que pareciam fazer parte doutra onda, que não
aquela, onde o seu pensamento se concentrava.
Perguntava,
muitas vezes, a si mesmo se não estaria a ficar doido, se a sua mente não o
estaria a levar num caminho autista, num espiral egocêntrico, num desencadear
de sentimentos antagónicos, queria fazer algo mas a solidão e o isolamento eram
o seu maior prazer.
Já
começou tantas vezes, que lhe perdeu a conta, a leitura de “Assim Falou
Zarathustra (Also Sprach Zarathustra)” mas Friedrich Nietzsche, naquela
linguagem, provoca-lhe náuseas, e a ideia de que o " homem deve ser
superado" ou o conceito de que "Deus deve estar morto" vai além
da sua compreensão.
Ele
sente os conceitos filosóficos de uma forma diferente, não compreende a
filosofia que põe em dúvida se a realidade é a que aprendemos pelos sentidos.
Não percebe o recurso a constatações empíricas para provar ou refutar uma tese.
É
prático, para ele a vida é nascer, viver e morrer com a mesma naturalidade de
uma metamorfose, não gosta daquele rebuscar existencial de amores, desamores,
paixões, aventuras, trivialidades e a chatice do trabalho, pois parafraseando
Pierre Reverdy - o tempo que precisamos para não fazer nada é tanto que não nos
sobra tempo para trabalhar - e, isso é a verdade.
É
mais prosaico um dia em reflexões sobre o que motiva aquele ziguezaguear
confuso de uma mosca, do que correr para o nada, num suar desconfortável só
porque alguém se lembrou que correr é saudável.
Se
calhar está a "endoidar", como diz a sua melhor e, única, amiga,
Sofia. Mas ela sabe que não.
Ele
não compreende Sofia, tem tudo o que quer, é dona de uma fortuna herdada dos
pais e, trabalha, calculem que trabalha como se não houvesse amanhã. Nunca
compreendeu essa obsessão pelo levantar cedo e perder o dia à volta de papéis e
de problemas, quando podia estar calmamente em casa, ou em qualquer local
paradisíaco, a gozar do prazer de nada ter que fazer a não ser o prazer de não
fazer nada.
A
Sofia é uma amiga muito especial e, ele sabe como ela o ama, como aprecia a sua
intelectualidade, como se delicia com a sua expressão estética e com as
divagações à volta da existência.
Ela
sabe que o seu descanso constante não é mais do que a interiorizarão dos seus elevados
pensamentos.
Ele
gosta dela e ela, não tem duvidas, ama-o desde sempre. Vão casar, vão ser
felizes.
Vai
poder continuar a fazer aquilo de que, verdadeiramente, gosta.
Vou estar uns
dias vagueando, por aqui e por ali, numa espécie de férias, mas vou tentar
acompanhar os vossos escritos.
Um abraço.
Sabia
que gostava dela porque gostava, não sabia explicar porque, nunca fora bom nessas
coisas das palavras, era apenas aquela coisa que lhe ia dentro e o sufocava
quando ela se afastava, era como um doer que apertava no peito, punha o coração
num alvoroço e deixava as pernas numa total tremedeira.
***
Foi
numa daquelas tardes parvas, na casa do Afonso, onde entre uns pires de
caracóis e umas minis geladas se discutiam trivialidades, que ele a conheceu.
Estava numa alegre tagarelice com duas amigas quando, por acaso, os olhares se
cruzaram de forma tão diferente, quase antagónicas, ele ficou vidrado, ela numa
indiferença quase desdenhosa.
Era
linda duma beleza diferente, cabelo amarrado num rabo-de-cavalo, olhos
brilhando em reflexos de um azul-turquesa, quase ciano.
As
suas gargalhadas eram como água cristalina em suaves gorjeios, o rabo-de-cavalo
dançava ao maneio da cabeça em ritmos quase sensuais.
Ele,
José Maria, ficou preso na imagem e o coração disparou em batidas fortes e
descoordenadas, o pensamento parou no momento do fugaz cruzar dos olhares.
Ela,
Raquel, parecia uma daquelas moças para quem a vida é um caminhar feliz e com
alegria para distribuir por todos os que faziam parte do seu universo.
José
Maria ficou num estado de pura fascinação, perdeu a capacidade de raciocinar,
quedou num total aparvalhamento.
Estava
nessa quase letargia absorto nos seus pensamentos quando o Rui Pisco o acordou
para a realidade:
-Então
pá, não comes nem bebes?
Deu
um pequeno salto como quem desperta com o susto, olhou com surpresa o amigo
antes de responder:
-Desculpa
mas não estava aqui, aquela ruiva de rabo-de-cavalo tomou conta do meu
pensamento e monopolizou o meu olhar. Que loucura de mulher!
-Quem?
Perguntou o Rui, aquela de blusa branca? É a Raquel, moça gira mas não vais ter
sorte, acho que tem namorado mas vem que eu apresento-te, as três, e tu
desenrascas-te!
Muito
deprimente, foi apresentado mas as moças limitaram-se a um "muito
prazer" e desapareceram abanando os quatro rabos, mais propriamente três
rabos e um rabicho ruivo.
***
Ia
começar o jogo da sedução, não sabia bem como isso se fazia mas ia tentar,
enviar flores ou bombons, ou quem sabe, fazer uma serenata ou talvez escrever
uma carta apaixonada ou, então, dedicar-lhe um poema intenso e vibrante, havia
estas formas mas não! Era um problema difícil de resolver. Enviar flores ou bombos
era demasiado vulgar, uma serenata impensável, pois Deus não se lembrou dele
quando distribuiu o talento, poema só se o pudesse encomendar a alguém mais
dotado, ele não sabia sequer por onde começar.
Talvez,
pensou, uma jóia mas era um risco pois ela podia aceitar e continuar a ignorá-lo.
Estava
a ficar deprimido, não tinha ideias.
Todos
os dias, de manhã, ficava especado na esquina da rua até que a visão dos seus sonhos
aparecia naquele equilíbrio elegante, nos 14,5 centímetros dos seus saltos, no
corpo moldado numas calças de ganga que mais pareciam fazer parte da própria
pele, o peito arfava ao baloiçar das passadas, tentando romper a delicada blusa
que o cingia. Era, para José Maria, a loucura em movimento, o êxtase dos
sentidos, a provocação dos desejos e o sonho de qualquer anjo por mais puro que
pudesse ser.
Atirava-lhe
um bom dia entremeado de ternura e paixão mas ela, no alto do pedestal,
continuava naquela indiferença que fazia doer.
*****
Começou
a ficar preocupado, hoje era o segundo dia em que ela não aparecia, talvez
tivesse adoecido, coisa normal, mas para ele era um dor no coração pensar que a
sua paixão estivesse a sofrer, decerto seria coisa pouca e amanhã já iria
aparecer.
Vai
passada uma semana e nada de Raquel, a preocupação passou a fazer parte do
quotidiano do Zé Maria, tinha pesadelos, sonhava com Raquel a voar num cavalo
alado para longe, para bem longe.
****
De
repente uma luz brilhou no seu pensamento, o Rui Pisco conhecia a Raquel e, se
calhar, sabia o motivo da ausência.
Foi
bater-lhe à porta e, azar o seu, o Rui não atendeu, não estava em casa.
Restava
procurar no emprego, sabia que ele trabalhava numa seguradora. Ia lá.
O
Rui estava de férias de casamento só voltava para a semana.
Não
tinha outra solução tinha que aguardar, iria voltar.
Na
semana seguinte foi, novamente, procurar o Rui que já estava de volta ao
trabalho. Ficou muito admirado com a presença do Afonso.
-Que
fazes por aqui Afonso, perguntou Rui.
Afonso
procurou as palavras:
-Parabéns
Rui, já sei do teu casamento! É alguém que eu conheça?
Rui
deu uma gargalhada e respondeu:
-Acho
que talvez, casei com a Margarida a irmã do Óscar. Conheces?
Afonso
pensou um pouco tentando descobrir, mas não, não sabia mesmo.
-Sabes
Rui, há duas semanas que não vejo a Raquel, a ruiva do rabo-de-cavalo, por
acaso sabes o que se passa com ela?
-Não
faço ideia, desde que estivemos em casa o Afonso, quanto ta apresentei, não
soube mais nada dela.
****
Raquel era uma rapariga um pouco enigmática,
filha de boas famílias, mas um pouco arreigada a hábitos um pouco
ultrapassados. Queria casar virgem e só aceitava namorar quando se apaixonasse verdadeiramente.
Já tinha reparado no interesse do amigo do Afonso que o Rui lhe havia apresentado
mas, confessava que apesar de ser um homem muito interessante, não tinha feito disparar
o clique que esperava.
Quando ele se postava na rua num ar de peralta
aparvalhado, olhando-a de forma um pouco “pseudo-conspícua” sentia uma espécie
de repulsa, não queria mas era isso que lhe fazia a sua presença.
Começava a estar farta daqueles bons-dias
tímidos e da falta de coragem para uma abordagem convincente. Não gostava daqueles
tímidos e semi-balbuciados "bons dias".
Não queria ser deselegante, mas já estava a
sentir algum desconforto por esta, quase, perseguição.
Ia, tentar, arranjar uma solução que talvez (quem
sabe?) poderia resultar.
No sábado foi à cabeleireira, cortou o cabelo,
de ruiva passou a loira com reflexos dourados e nada de rabo-de-cavalo, cabelo
curto de pontas irregulares.
Olhou para o espelho e gostou do que viu na
imagem, estava linda.
Na segunda-feira passou, como sempre, no mesmo
local onde o admirador se postava e graças a Deus resultou.
Ninguém lhe disse bom dia.
Afinal
do que ele gostava, mesmo, era do rabo-de-cavalo e esse já era.
Deixo esta bela canção dum querido
amigo Eleutério Sanches, que não vejo há algum tempo mas que continua no meu coração.
Esta
boa tarde teve uma entoação especial e o senhor Ernesto sentiu isso. Não era
habitual uma saudação tão acalorada, pelo contrário, a dona Arménia era sempre
um pouco monocórdica, quase despercebida. Hoje foi diferente, entoou de uma
forma prolongada, quase, melodiosa.
A
dona Arménia era uma mulher de meia-idade, roliça e onde as faces coradas lhe
davam um ar de provinciana saudável. O senhor Ernesto pensava que era casada,
pelo menos usava uma aliança mas, de verdade, nunca viu o marido.
Sem
deixar de limpar o balcão respondeu no mesmo tom, aliás, como sempre o fazia a
todos os clientes e, muito especialmente, aos habituais como era o caso da dona
Arménia.
Há
anos que religiosamente, por voltas das quatro horas, aparecia para o seu chá
Ceilão, esse era certo, só no acompanhamento é que variava, umas vezes queria
uma carcaça torrada com muita manteiga, outras, dois scones com doce de chila.
Puxava
de um pequeno livro, nunca percebeu o que ela estava a ler, era numa língua
estrangeira que ele não percebia, mas a verdade era essa, a dona Arménia, ia
beberricando o seu chá com uma elegância de dedos estudada e, ao mesmo tempo,
espreitando as letras da pequena brochura.
Depois,
deixava o dinheiro na mesa e saia sem dizer nada.
****
Hoje
foi diferente, começou com essa boa tarde sonante, um sorriso que realçava o
brilho rosado das faces e, para surpresa do pobre senhor, não queria chá.
-Mas,
titubeou o senhor Ernesto o que devo servir à madame?
-Hoje,
caro amigo, quero dois pastéis de bacalhau e uma imperial bem gelada.
****
O
homem não sabia o que pensar, a cliente estava fora do normal, era sempre tão
formal e tão reservada, tinha um certo estilo na forma como deglutia a torrada
e a subtileza dos dedos no levar da chávena à boca e, hoje, sorvia a cerveja
como os comuns dos mortais nos intervalos das dentadas nos pastéis de bacalhau.
-Senhor
Ernesto, bradou dona Arménia, traga-me outra imperial e mais um pastelinho.
O
homem correu, solicito, a atender o pedido, embora pesaroso pela mudança mas,
que fazer, o freguês tem sempre razão.
-Aqui
tem o seu pedido, disse o senhor Ernesto, mas desculpe nunca a tinha visto
beber cerveja!
A
mulher deu uma gargalhada e perguntou:
-Se
o senhor estivesse preso 15 anos, longos e dolorosos 15 anos, o que faria no
dia em que recuperasse a sua liberdade?
-Bom
se calhar o mesmo mas não me parece que tenha estado presa!
-Presa
e bem presa, hoje recuperei a liberdade, consegui finalmente o meu divórcio.
Era
um dos dias mais felizes da sua vida, não porque tivesse razão de queixas da existência,
muito pelo contrário pois sempre se considerou uma privilegiada em relação há
maioria das amigas.
A
vida tinha-lhe dado quase tudo, nasceu numa família abastada, filha única e de
pais não muito novos o que, compreende-se, a tornava especialmente mimada, ela tinha
consciência disso e fazia esforço para não se aproveitar da situação.
Hoje
ia completar 18 anos e, tinha a certeza, os pais iam oferecer-lhe aquele carro
que ela estava farta de mirar na montra do stand.
O
Dia estava um pouco sombrio, manhã outonal com vento e uma temperatura um pouco
desagradável, mas para Joana o tempo parecia radioso.
Foi
espreitar à janela e perscrutou as redondezas na expectativa da surpresa,
embora esperada, do carro amarelo que a acompanhava nos sonhos e nos desejos.
Nada,
na rua, os automóveis do costume e no jardim o velho BMW do pai.
Seria
que estava enganada? Não iria manifestar qualquer desagrado mas, dentro, sentia
uma sensação de vazio e o dia não iria ser, de certo, a mesma coisa.
Os
pais já esperavam, na sala, para o pequeno-almoço.
Beijos
e parabéns escorreram nos rostos, o pai abraçou a filha enquanto lhe foi
segredando ao ouvido:
-A
tua prenda vai ficar escondida até logo e temos a certeza que vais gostar da
surpresa!
Joana
apertou mais o pai, puxou a mãe para o abraço e desabafou:
-Tenho
os melhores pais do mundo, amo-os mais do que à vida. Obrigado por tudo, por
terem feito de mim o que sou.
*******
A
animação era visível, a família e os amigos mais chegados iam tomando conta da
sala em amenos diálogos, enquanto os salgados e as bebidas iam desaparecendo
naturalmente. Os mais viciados, procuravam os cantos abrigados do jardim para,
em pequenos grupos, fazerem pequenas espirais com o fumo que calmamente iam
libertando das suas bocas.
A
música era convidativa e alguns, muito poucos, começavam a rebolar o corpo ao
ritmo dos acordes que enchiam o ar.
*****
O
pai de Joana estava preparado para sair e a filha, apercebendo-se, perguntou:
-Onde
vais pai?
O
homem sorriu e percebendo a curiosidade de Joana respondeu:
-Vou
ali e volto já, vou escolher a tua prenda!
-Posso
ir contigo? Perguntou Joana.
O
homem soltou uma gargalhada, deu um beijo na filha e entrou no táxi que já o
esperava ao portão.
*****
A
mãe de Joana estava preocupada, o marido já devia estar de volta, tinha saído,
quase, há duas horas e o que tinha para fazer não era para demorar, era só
pegar e vir, todo o resto já tinha sido tratado.
*******
Quando
o carro da polícia parou à porta os convidados, que fumavam no jardim, ficaram
curiosos e mais, ainda, quando um dos dois guardas que saiu lhes perguntou:
-
Esta cá algum familiar do, olhou o papel que trazia na mão, senhor Ramiro Caixinha?
Respondem,
quase todos, em uníssono:
-Está
a esposa e a filha, mas há algum problema?
Respondeu
o polícia que parecia mais velho:
-Muito
má noticia, o homem teve um acidente muito grave, já saiu do local cadáver e o
carro amarelo só serve para a sucata.
Aos meus amigos/as, do
Brasil, que fazem o favor de me visitar e têm a amabilidade em me deixar belas mensagens
de amizade peço desculpa por esta pantomina, sei que não vão compreender pois são
problemas cá do burgo e que vos passam, felizmente, ao lado,
Uma peça em três
actos, como convém, podia ser ficção mas se calhar não é.
Segunda-feira, 15
horas, dia cinzento
1º Acto
Uma sala e um balcão
com alguns livros em estantes. No lado de dentro uma menina com uma bata azul e
uma caneta na mão, no lado de fora um sujeito com uma pasta debaixo do braço.
Diz o
sujeito:
-Então bom dia! Venho tratar da minha licenciatura, quem me
pode atender?
Responde a
menina:
-Posso ser eu, quer fazer a sua inscrição? Espero que tenha
em ordem os seus documentos.
Volta a
dizer o sujeito:
-Mas que documentos, que historia é essa, eu tenho
experiência profissional e um currículo mais que suficiente para uma
licenciatura e até, quem sabe, até já com um mestrado.
Volta a
falar a menina:
-Bom, isso já não é comigo, tem que ser com o senhor reitor,
vou-lhe marcar uma entrevista. Deixe ver, espere lá, bom, bom, na sexta-feira
às 10 horas. Tá bom? Fica em nome de quem?
Fala o
sujeito:
-Doutor Óscar!
Admira-se a
menina:
-Mas se já é doutor porque quer a entrevista?
Subleva o
sujeito:
-Bom, parece que não percebeu eu sou doutor porque nasci
para ser doutor.
2º Acto
Sexta-feira, 10
horas, chove torrencialmente
Uma sala de entrada,
um banco corrido e um homem vestido como um porteiro
Fala o
sujeito:
-Venho para a entrevista com o senhor reitor
Responde o
homem vestido de porteiro:
-Entre, entre, ele está à sua espera.
Uma sala mascarada de
escritório, móveis escuros e pesados e sofás clássicos em cabedal castanho
Um reitor, figura insignificante,
enterrado numa cadeira de pele castanha vai apontando num caderninho os factos
e acontecimentos.
Diz o
reitor:
-Então o caro Óscar quer habilitar-se a uma licenciatura,
não é verdade?
Responde
o sujeito:
-Pois caro reitor, quero porque tenho direito a isso, pois
saiba o amigo que eu até já fui gaiteiro no rancho da minha terra e até numa
manifestação do 1º de Maio, lá na minha aldeia, fui eu que fiz o discurso.
Fala o
reitor;
-Muito me conta, isso é notável, nem todos se podem gabar de
tais acontecimentos, só por isso já tem direito a uma porrada de créditos.
Rejubila
o sujeito:
-Mas há mais, há muito mais, que eu sou uma pessoa de muitos
saberes e com uma experiencia do caraças, perdoe o termo, mas na minha terra
dizemos assim.
Palavras
do reitor:
-Não tenho dúvidas disso pois o nosso amigo comum, sabe bem quem
é, foi ele que mo remendou, disse-me da injustiça do seu professor, quando
acabou a instrução primaria, não lhe ter dado logo a licenciatura, mas não era
possível eram outros tempos e outras leis. Mas adiante, que mais podemos juntar
aqui na sua candidatura?
Continua
o sujeito:
-Então aqui vai, fui tesoureiro na Sociedade Recreativa o Pimpim,
fui cronometrista na corrida dos carrinhos de rodas de esferas durante a feira
de Agosto, ajudei o padre, lá da nossa paróquia, durante a missa.
Exulta o
reitor:
-Estou um pouco confuso na licenciatura que prefere, embora
a sua experiência dê para tanta coisa, é vasta! Mas afinal que licenciatura
pretende?
Deleita-se
o sujeito:
-Ainda não tinha pensado nisso, o que acha mais adequado à
minha experiência?
Volta o
sujeito:
-É difícil dizer mas, penso que, algo como Desenvolvimento
Organizacional, não acha bem? Só tem um pequeno problema tem que fazer
Metodologias das Ciências Sociais.
Assusta-se
o sujeito:
-E como se faz isso? Sou uma pessoa muito ocupada e o nosso
partido precisa de mim.
Descansa-o
o reitor:
-Não vou complicar, eu mando-lhe, por correio electrónico, o
enunciado e logo me manda a resposta.
Pergunta
o sujeito:
-Esta bem, posso responder no domingo?
Acalma-o
o reitor:
-Pode e na segunda-feira tem o seu certificado pronto e
depois é só pagar na secretaria.
Sussurra
o sujeito:
-Senhor reitor, é de homens como o senhor que o país precisa
para andar para a frente.
Baba-se o
reitor:
-Pois eu sou muito prático e gostei de o atender senhor
doutor.
3ª Acto
Manhã cinzenta,
ameaça chuva.
O mesmo balção, a
mesma menina e o mesmo sujeito
Declara o
sujeito:
-Venho pelo certificado!
Responde
a menina:
-Está pronto é só pagar a inscrição, o curso e o exame.
Pergunta
o sujeito:
-Qual a minha nota em Metodologias das Ciências Sociais?
Quando
desceu os degraus da Igreja o bruaá de espanto ecoou como se a admiração
tivesse um som.
Parecia quase
irreal nos contornos de um corpo cinzelado pelo bom Deus num dia de muita
inspiração, nas faces onde o resplandecer de um sorriso, quase divino, fazia o
brilho do Sol empalidecer.
Era a noiva.
Ao seu lado um homem demasiado discreto, ia realçando, ainda mais, toda a
formosura da donzela.
-Que linda
noiva, exclamou a Dª Rosa!
-Boa como o
milho, disse o Chico!
-Mal
empregada, suspirou o professor Osório!
***
Foram uma
família feliz até que a desgraça, numa tórrida tarde de Agosto, deixou o senhor
Meireles agarrado a uma invalidez para o resto da vida. O tractor quando se
empinou, numa vala, atirou o pobre homem deixando a coluna de tal forma que se
lhe acabou a vida abaixo da cintura, agora dependia da mulher para tudo até,
como dizia, para mijar.
A Junta de
Freguesia conseguiu, com a ajuda da população, comprar-lhe uma cadeira de rodas
para amenizar tanta desgraça.
A vida não
era fácil, pois a pensão de invalidez era pequena e os trabalhos de costura não
abundavam, o que lhes valia era o rendimento de uma pequena courela que tinham alugado,
pois ele não a podia cuidar.
Naquela
quente tarde de primavera, mãe e filha, deixaram o senhor Meireles sentado à
porta da rua para poder ver quem passava e, ao mesmo tempo, entretido com os
amigos que paravam para deixar uma palavra de carinho.
Iam fazer as
pequenas compras semanais.
***
Isa, assim
se chamava a filha, foi a primeira a sair do minimercado, carregando os sacos
de plásticos, e ficou surpreendida pelo olhar lupino de um rapaz que se
encontrava na esplanada do Café Central.
Sentiu-se,
um pouco, incomodada e comentou com a mãe:
-Vistes
aquele lingrinhas? Parecia que me ia comer com os olhos!
A mãe sorriu
e perguntou:
-Não sabes
quem é aquele rapaz? E antes que a filha tivesse tempo para responder, foi acrescentando,
o moço é o filho do Senhor Engenheiro Timóteo, o homem mais rico desta região.
Dizem que tudo que a gente avista muitas léguas em redor é dele e aquele rapaz
é o único filho e um dia toda a riqueza vai ser dele. Devias ter retribuído o
olhar e até um sorriso não tivesse sido despropositado.
Isa estava
admirada com a conversa da mãe, parecia estar interessada em qualquer coisa.
Fez de conta
que não percebeu e continuou o caminho.
***
Tinham
acabado de jantar e estavam ajeitados para ver a telenovela quando bateram à
porta.
Foi a mãe
abrir e, quase teve um ataque, na sua frente estavam, de chapéu na mão, o
senhor engenheiro Timóteo e o filho.
-Boa noite,
disse o homem, pedimos desculpa por vir incomodar a esta hora mas aqui o rapaz
não me deixou esperar mais, queremos falar consigo e com o seu marido. Pode
ser?
-Oh meu
Deus, balbuciou a mulher. Entrem, entrem!
Estava
nervosa e ia fazendo do avental um rodilho de tanto o torcer, caminhando de
lado ia dirigindo as visitas para a sala enquanto gritava:
-Oh Meireles,
oh Isa vejam quem está aqui! Temos visitas importantes, o Senhor
Engenheiro e o
filho querem falar com a gente. Isto é mesmo uma grande honra.
Entraram
todos para a sala perante a admiração da Isa e do pai.
-Mas entre
Senhor Engenheiro, entre, insistia a dona Balbina.
Era um pouco
confrangedora a situação, pairava no ar um incómodo desconforto.
Isa era a indiferença total, Meireles
encolhido na sua cadeira parecia um pouco incomodado por lhe irem quebrar a
rotina da sua telenovela. Só a dona Balbina parecia uma pura imagem de alegria.
Olharam uns
para os outros perturbados e foi o engenheiro Timóteo a ter coragem para tomar a
palavra:
-Bom, devem
estranhar esta visita inesperada mas o meu filho insistiu tanto que me decidi,
espero que me perdoem e compreendam a razão.
Olhou o
filho e ficou esperando um sinal de aprovação, mas o rapaz só tinha olhos para
a Isa que se encontrava encostada à parede numa total indiferença.
-Como ia
dizendo, retomou o engenheiro, o meu filho há muito que anda de olho na vossa
filha num total embevecimento e não se cansa de me dizer que encontrou a mulher
certa, a única capaz de voltar a trazer alegria à nossa casa.
-O gajo não
joga com a bola toda, pensou Isa!
-É mesmo o
Euro milhões, matutou Balbina!
-Não estou a
perceber nada, cogitou Meireles!
-Mas,
continuou o engenheiro, como devem saber eu fiquei viúvo faz três anos e tenho,
sem ajudas, criado este filho, Bernardo, que tem sido o meu grande amparo e a
minha maior força, só tem 19 anos mas pensa como um adulto.
O senhor
Meireles ajeitou-se na cadeira, ganhou folego e coragem para dizer:
-Senhor
Engenheiro sabe que nós temos muita consideração por vossemecê, pela sua
bondade, pela forma como tem ajudado esta terra, pelo trabalho que tem dado a
este povo. Mas deve compreender que terá que ser a Isa a decidir, ela têm 25
anos e nós não podemos falar por ela.
Dona Balbina
não se conteve e foi acrescentando:
-Oh Meireles
é nossa filha e nós temos obrigação de a aconselhar e não me parece que…..
Não teve
tempo de completar a frase, a filha interrompeu com as lágrimas a quererem
saltar dos lindos olhos:
-Bom, eu,
não quero ofender ninguém, acho e compreendo o acanhamento do senhor
engenheiro, pois não deve ser fácil aparecer numa casa, onde nunca entrou, a
pedir uma mulher de 25 anos para um miúdo de 19. Não quero ser desagradável mas
deve compreender que o seu filho ainda é uma criança.
O silêncio
caiu naquela sala, olharam uns para os outros sem saber. Isa desatou num choro
convulsivo, Meireles retesou-se na cadeira como se fosse possível levantar-se,
dona Balbina começou a rezar baixinho, o Bernardo mordia os lábios num
nervosismo confrangedor e o engenheiro Meireles gesticulava na tentativa de por
ordem ao desarranjo que acabara de causar.
-Bem, falou
por fim, vamos embora não nos compreenderam e criamos uma grande confusão.
Foi então que o que o rapaz mostrou que também
estava presente:
-Pai, espere
porque aqui vai uma enorme confusão, eles não perceberam e pensam que estamos a
pedir a mão da Isa para mim, tem que explicar que não, tem que dizer que é o
pai que está interessado em casar com a moça e que eu apenas ajudei a escolher.
O silêncio
parecia doer.
Meireles
meditava, não estou a perceber nada disto.
Balbina
pensava, é para o pai, que pena eu não ser livre
Isa não se
conteve:
-Mas senhor
engenheiro, explique melhor porque ficamos todos confusos e peço desculpa por
mim e pelos meus pais.
O engenheiro
empertigou-se, passou os dedos pelos cabelos grisalhos e, com um ligeiro
tossicar disfarçou o nervosismo que parecia que o tinha tolhido.
Alisou, mais
uma vez o cabelo, aclarou a garganta e com a voz entaramelada começou:
-Vou
explicar, há muito que eu anda de olho na Isa, acho que é uma rapariga muito
especial e, confesso, sinto por ela uma grande atracção. Pedi, como faço
sempre, a opinião do meu filho que só me disse que não devia perder mais tempo
e, hoje, quase me obrigou a tomar coragem. Por isso estou aqui para pedir a mão
da vossa filha.
Olhou a moça
e num gesto quase teatral pediu:
-Isa aceitas
casar comigo?
Meireles e
Balbina pareciam ter voado para bem longe, tal era o alheamento, mas Isa estava
presente para responder: