segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O baraço





Olhou para trás de uma forma quase abstracta, olhou mas os seus olhos não viam para além do pensamento e, esse, estava de tal forma entorpecido que não ia para lá da corda que transportava debaixo do braço.

Desenrolou o baraço de forma vagarosa, deu um repelão a testar a resistência do sisal como se isso fosse muito importante.

Exalou o cheiro das urzes que cresciam envergonhadas junto às margens do regato, olhou o Sol com os olhos semicerrados gozando os fiapos que se reflectiam na sua retina.

Um pequeno suspiro fez eco na quietude da tarde solarenga. Deitou-se debaixo duma oliveira, na terra seca, fechou os olhos e deixou correr o filme da sua vida.

**

Nem sempre foi fácil, houve momentos dolorosos, percursos cheios de obstáculos que nunca o fizeram desistir.

Lembrou bem o dia em que os pais da Aninhas proibiram o namoro e ele não se deixou vergar.

Fugiram os dois e voltaram casados, depois foi difícil, mas os velhos teimosos acabaram por ceder embora tenha sentido, sempre, que essa aceitação era uma forma de não perderem a filha, porque ele foi apenas tolerado, mas não se importou, Aninhas amava-o e isso era o que verdadeiramente lhe interessava.

Foi em Fevereiro, do ano seguinte, que nasceu o Marquinho, o filho que planearam.

Viveram três anos duma felicidade feita de avanços e recuos, de alegrias,  frustrações e de tédio, de muito tédio.

Um dia Aninhas fez as malas, pegou no filho e desapareceu no horizonte.
Em cima da cama um papel, numa breve despedida:

Estou farta, cansada, preciso de respirar, preciso de espaço para viver.
Levo o Marquinho, precisa de mim.
Depois tratamos do resto.
Desculpa João, não te mereço!

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Leu uma vez, outra vez e mais outra e não compreendeu. Nem um beijo de despedida.
É difícil perceber as mulheres.

Ele trabalhava 10 horas por dia para que nada lhe faltasse e a paga era esta.
Continuava sem perceber.
Os Homens percebem tarde de mais!

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Tentou chorar mas as lágrimas não quiseram acompanhar o desgosto, ficou numa grande prostração, durante três dias esteve em total clausura, sem comer, sem beber e sem querer saber do mundo que corria lá fora.

**

Sem Aninhas e Marquinho a vida não lhe interessava, não sabia viver, não tinha aprendido.

Pegou na corda, fez um braçado. Olhou tudo o que o rodeava, numa espécie de despedida, e abalou para o olival, ia procurar a morte na árvore da vida.

**

Chegou mesmo a adormecer. Acordou com os raios de Sol brincado por entre a prata das folhas da oliveira.
Levantou-se dorido, tinha marcado no corpo as pedras e os torrões da terra. Mas isso pouco importava.

Pegou a corda e fez, na ponta, um nó corredio e preparou-se para a fazer passar por uma pernada alta. Tinha que ser forte para lhe suportar o peso.

Olhou um redor num último adeus, tinha pena, afinal a vida tinha-lhe dado tanto de bom.

**

Olhou para baixo, pareceu-lhe ouvir um leve restolhar. Aninhas subia o declive, cansada e com o arrependimento no olhar gritou:

-João, sou muita parva, venho a tempo de me perdoares? Afinal a culpa não é tua, é nossa e estamos a tempo de recomeçar.

O Sol que ia desaparecendo no horizonte brilhou com mais intensidade, à contraluz um beijo intenso recortou-se na imensidão do entardecer.



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A casa das hortênsias






Acordou com o estrondo do morteiro seguido do estrelejar de meia dúzia de foguetes, era o anunciar do princípio da festa anual, a alvorada era sempre às sete horas da manhã, ele sabia mas tinha sempre aquela sensação de susto. Este ano mais do que nunca queria estar bem longe, nos outros anos ainda andava por ali, ouvia a fanfarra que percorria as ruas em actuações monocórdicas de rufar de tambores e bombos, o tremer das pandeiretas e de vez em quando um saxofone já desafinado, não pelo artista mas pelo desgaste das varas e das pequenas fugas do ar no instrumento que, apesar de tudo, e graças ao limpa-metais brilhava em reflexos de ouro ao sol. O mestre Gualdim bramia com vigor a batuta, que os músicos seguiam mais por intuição, pois nunca viu nenhum a olhar para o maestro.

Mas este ano era diferente, ainda sentia o vazio, não era propriamente um luto mas uma necessidade de fugir ao bulício e à animação que se apoderava do povo. Os filhos da terra voltavam dos países onde deixavam o suor e uma parte da pele, mas voltavam todos os anos, em carros alugados e com ar de abastança e falando, entre eles, num francês com pronúncia própria da aldeia onde nasceram.

Sentia no ar o cheiro quente da terra, a algazarra ia tomando conta da povoado, os rapazes em trajes domingueiros juntavam-se em pequenos ranchos nas esquinas dos largos para mirar as moças que, em vestidos coloridos, se iam pavoneando nos caminhos da Igreja para a missa das oito, o senhor Padre Alcides veio de propósito da cidade, para presidir a este acto solene, que era como que o cortar da fita para os três dias em honra da padroeira.

Armindo ia remoendo estas lembranças enquanto se preparava para uma abalada, quase furtiva, não porque não sentisse o apego à tradição, mas as saudades de Josefa estavam, ainda, muito presentes e, ele sabia o quanto representava para ela esta tradição. Era das primeiras no arranjar da igreja, no peditório a favor dos festeiros e, na generosidade do angariar o necessário para o almoço dos mais necessitados, era uma tradição mas, a cada ano que passava mais difícil, o número de pobres aumentava e as ofertas diminuíam, era a crise diziam muitos, era a desculpa exclamava ela.

Bastaram três meses para que a doença, de forma galopante, a levasse, sem nunca lhe terem ouvido um queixume.

Armindo arrumou de forma ordenada o necessário, colocou no porta-bagagem e partiu evitando as ruas principais.

Rapidamente tomou a estrada principal, não olhou para trás, nada ou quase nada, o prendia àquela terra.

****

Há mais de um ano que anda adiando o regresso à terra, a festa deste ano acabou no domingo e Armindo tem que voltar. Tem mesmo! A casa está há tanto tempo abandonada que as teias de aranha já devem ter tomado conta de todos os recantos, para não falar das terras, porque essas, há muito estão ao deus dará.

Está decidido, no próximo fim-de-semana, vai regressar embora no seu pensamento pense, apenas, em ir tratar de por a casa, e a terra, à venda e voltar à cidade.

Não tem nada que o prenda ao lugar, os pais já partiram há muito e a Josefa, sua companheira de muitos anos, também o deixou depois de três meses de muito sofrimento. Estão todos no cemitério da terra, mas ele não tinha o culto dos mortos como um dogma, por isso onde andasse o pensamento estava com ele e, esse, nada nem ninguém o ia alterar.

*****

Foi um voltar quase doloroso, os quilómetros eram galgados quase como se o tempo não existisse.

Quase por encanto, lá no fundo da descida a povoação aparecia num policromado de vermelhos dos telhados e no imaculado branco da cal das paredes. A Igreja sobressaia no aglomerado, com o sino em reflexos de bronze esverdeado.

Entrou, como saiu, torneando o povoado pelos arrabaldes, não queria falar por enquanto com ninguém, não estava preparado para explicar o inexplicável, depois iria falar com os amigos e tinha a certeza que o compreenderiam.

Era a hora do calor e as pessoas estavam recolhidas. Chegou a casa e apenas a dona Alzira lhe acenou, um adeus, debruçada do postigo.

O jardim que circundava a casa estava impecavelmente tratado, as hortênsias todas floridas e com a terra com aspecto de ter sido regada há bem pouco tempo.

-Coisas do amigo Aníbal, pensou.

Quando meteu a chave na porta foi invadido por um desencadear de emoções. Foi aqui que passou os melhores momentos da sua vida, foi desta casa que viu partir a mulher que era uma das razoes do seu viver.

Entrou. A sala estava vazia, nada de móveis. Fechou a porta e como sortilégio uma luz iridescente encheu o espaço, uma música de uma suavidade, que doía no encanto do momento, tomava conta dos sentidos e subia em espirais de doçura.

No meio da sala, sentia-se, um túnel formado por uma luz tão suave. No meio, Josefa sorria vestindo uma imaculada túnica branca, pura como a neve.

Estendeu-lhe a mão, afagou-lhe o rosto e murmurou com uma doçura de mel:

-Amor! Porque demorastes tanto?

******

Nunca mais souberam do Armindo, desapareceu como se o espaço o tivesse engolido.

A casa, essa, continua lá, ninguém a quer, dizem que está assombrada.

Nas noites escuras ouvem-se músicas gregorianas e, pelas frestas das portas e janelas, assoma uma luz mais brilhante que o Sol.

Todos a conhecem pela Casa da Hortênsias.

Ninguém sabe explicar quem as rega, nunca ninguém viu, mas continuam a florir como se uma mão invisível lhes alimentasse a seiva.




segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Pouca vergonha!







-Credo! Gritou a dona Augusta, onde já se viu tão pouca vergonha?

Foi um desabafo, apenas um desabafo de alguém que ainda vive, um pouco, num época que já passou. Era do tempo, como dizia, em que havia vergonha e em que as coisas eram feitas no recato do lar.

Dona Augusta foi casada 18 anos, o seu Augusto faleceu e ela garante que nunca, mas mesmo nunca, foi capaz de se despir ao pé do marido, onde se viu uma sem “vergonhança” dessas.

Ela era uma mulher de princípios e dizia com frequência:

-Foi assim que a minha mãe me ensinou e foi assim que eu eduquei a minha Vanessa.

Agora aquela pouca vergonha, como aqueles, além na esquina na maior indecência que se possa imaginar! Ela nem se consegue ver de tão enrolada no rapaz e com as bocas a sorverem as línguas. Que nojo!

Que porcaria, onde se viu tanto descaramento, já pensei ir até lá e 
dar-lhe uma descasca para eles aprenderem o que é o decoro e ficarem a saber, que as poucas-vergonhas tem lugar próprio, se querem pecar que vão para uma pensão como fazem essas desgraçadas que estão, à noite, na esquina da rua, só não fui lá porque a minha Vanessa ficou de me telefonar a dizer as notas que saem hoje.

Sim que a minha filha é uma rapariga que sabe o que quer e, que graças a Deus, nunca me deu desgostos como aqueles desgraçados além no assento do jardim.

Que coisa! Mãe do céu! Está uma mãe descansada, em casa, a pensar que a filha anda no bom caminho e acontece como aquela infeliz, ali no banco, estrafegada pelo rapaz e lambendo-se de uma forma que não lembra a ninguém. Esta juventude está perdida, não sei por este caminho onde isto vai parar.

-Não, não posso aguentar mais, isto é um atentado à moral pública.

Tirou o avental, ajeitou o carrapicho no alto da cabeça e abalou para descompor os desenvergonhados que estavam a dar semelhante espectáculo.

Ainda não tinha chegado, bem ao local, e já se fazia ouvir em alto e bom som:

-Meninos! Vocês ai no banco! Se querem fazer cenas tristes vão para as vossas casas! Isto aqui é um sítio público, não é nenhuma hospedaria!

O casal entrou no real, a rapariga tentava ajeitar o descomposto da roupa e com espanto olharam para tão estranha aparição.

Dona Augusta estancou como se um raio a tivesse atingido, quase por encanto, mudou a cor do rosto.

Adoçou a voz e, baixinho, murmurou:

-Oh Vanessa! Oh querida! A mãe, ao longe, não te conheceu!
 Não demores filha! Tenho o jantar quase pronto!






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sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Marasmo


Cada homem deve descobrir o seu próprio caminho (Sartre)





Era sempre o mesmo marasmo, aquela rotina que tornava a vida numa chatice, que se pegava à pele e tornava o dia-a-dia numa monotonia que doía e lhe deixava uma angústia que não sabia explicar.

Por vezes, embrenhava-se na leitura de "O Ser e o Nada" mas o existencialismo de Jean-Paul Sartre, um pouco taciturno, apenas servia para adensar a opressão que o levava aqueles momentos de depressão, em que se isolava como se as pessoas fossem marionetas que, apenas, serviam para agudizar o mal-estar que o entorpecia.

O seu médico já o tinha alertado para os perigos dessa amorfia, para esse casulo que vicia, corrompe e, tantas vezes, leva a desistir como, se desistir, fosse a solução.

Hoje sentia de forma mais acentuada essa compressão, esse andar perdido entre as gentes sem se aperceber que, ele, fazia parte dessa multidão que o baralhava como se fossem robôs, que giravam ao sabor de um acaso, a que ele não queria pertencer.

Voltou a insistir, mas os personagens não pareciam reais, estavam desfocados, e emaranhavam-se de tal forma que pareciam fazer parte doutra onda, que não aquela, onde o seu pensamento se concentrava.

Perguntava, muitas vezes, a si mesmo se não estaria a ficar doido, se a sua mente não o estaria a levar num caminho autista, num espiral egocêntrico, num desencadear de sentimentos antagónicos, queria fazer algo mas a solidão e o isolamento eram o seu maior prazer.

Já começou tantas vezes, que lhe perdeu a conta, a leitura de “Assim Falou Zarathustra (Also Sprach Zarathustra)” mas Friedrich Nietzsche, naquela linguagem, provoca-lhe náuseas, e a ideia de que o " homem deve ser superado" ou o conceito de que "Deus deve estar morto" vai além da sua compreensão.

Ele sente os conceitos filosóficos de uma forma diferente, não compreende a filosofia que põe em dúvida se a realidade é a que aprendemos pelos sentidos. Não percebe o recurso a constatações empíricas para provar ou refutar uma tese.

É prático, para ele a vida é nascer, viver e morrer com a mesma naturalidade de uma metamorfose, não gosta daquele rebuscar existencial de amores, desamores, paixões, aventuras, trivialidades e a chatice do trabalho, pois parafraseando Pierre Reverdy - o tempo que precisamos para não fazer nada é tanto que não nos sobra tempo para trabalhar - e, isso é a verdade.

É mais prosaico um dia em reflexões sobre o que motiva aquele ziguezaguear confuso de uma mosca, do que correr para o nada, num suar desconfortável só porque alguém se lembrou que correr é saudável.

Se calhar está a "endoidar", como diz a sua melhor e, única, amiga, Sofia. Mas ela sabe que não.

Ele não compreende Sofia, tem tudo o que quer, é dona de uma fortuna herdada dos pais e, trabalha, calculem que trabalha como se não houvesse amanhã. Nunca compreendeu essa obsessão pelo levantar cedo e perder o dia à volta de papéis e de problemas, quando podia estar calmamente em casa, ou em qualquer local paradisíaco, a gozar do prazer de nada ter que fazer a não ser o prazer de não fazer nada.

A Sofia é uma amiga muito especial e, ele sabe como ela o ama, como aprecia a sua intelectualidade, como se delicia com a sua expressão estética e com as divagações à volta da existência.

Ela sabe que o seu descanso constante não é mais do que a interiorizarão dos seus elevados pensamentos.

Ele gosta dela e ela, não tem duvidas, ama-o desde sempre. Vão casar, vão ser felizes.
Vai poder continuar a fazer aquilo de que, verdadeiramente, gosta.

Que, de verdade, é não fazer nada.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Um rabo-de-cavalo







Vou estar uns dias vagueando, por aqui e por ali, numa espécie de férias, mas vou tentar acompanhar os vossos escritos.
Um abraço.



Sabia que gostava dela porque gostava, não sabia explicar porque, nunca fora bom nessas coisas das palavras, era apenas aquela coisa que lhe ia dentro e o sufocava quando ela se afastava, era como um doer que apertava no peito, punha o coração num alvoroço e deixava as pernas numa total tremedeira.

***

Foi numa daquelas tardes parvas, na casa do Afonso, onde entre uns pires de caracóis e umas minis geladas se discutiam trivialidades, que ele a conheceu. Estava numa alegre tagarelice com duas amigas quando, por acaso, os olhares se cruzaram de forma tão diferente, quase antagónicas, ele ficou vidrado, ela numa indiferença quase desdenhosa.

Era linda duma beleza diferente, cabelo amarrado num rabo-de-cavalo, olhos brilhando em reflexos de um azul-turquesa, quase ciano.

As suas gargalhadas eram como água cristalina em suaves gorjeios, o rabo-de-cavalo dançava ao maneio da cabeça em ritmos quase sensuais.

Ele, José Maria, ficou preso na imagem e o coração disparou em batidas fortes e descoordenadas, o pensamento parou no momento do fugaz cruzar dos olhares.

Ela, Raquel, parecia uma daquelas moças para quem a vida é um caminhar feliz e com alegria para distribuir por todos os que faziam parte do seu universo.

José Maria ficou num estado de pura fascinação, perdeu a capacidade de raciocinar, quedou num total aparvalhamento.
Estava nessa quase letargia absorto nos seus pensamentos quando o Rui Pisco o acordou para a realidade:

-Então pá, não comes nem bebes?

Deu um pequeno salto como quem desperta com o susto, olhou com surpresa o amigo antes de responder:

-Desculpa mas não estava aqui, aquela ruiva de rabo-de-cavalo tomou conta do meu pensamento e monopolizou o meu olhar. Que loucura de mulher!

-Quem? Perguntou o Rui, aquela de blusa branca? É a Raquel, moça gira mas não vais ter sorte, acho que tem namorado mas vem que eu apresento-te, as três, e tu desenrascas-te!

Muito deprimente, foi apresentado mas as moças limitaram-se a um "muito prazer" e desapareceram abanando os quatro rabos, mais propriamente três rabos e um rabicho ruivo.

***

Ia começar o jogo da sedução, não sabia bem como isso se fazia mas ia tentar, enviar flores ou bombons, ou quem sabe, fazer uma serenata ou talvez escrever uma carta apaixonada ou, então, dedicar-lhe um poema intenso e vibrante, havia estas formas mas não! Era um problema difícil de resolver. Enviar flores ou bombos era demasiado vulgar, uma serenata impensável, pois Deus não se lembrou dele quando distribuiu o talento, poema só se o pudesse encomendar a alguém mais dotado, ele não sabia sequer por onde começar.

Talvez, pensou, uma jóia mas era um risco pois ela podia aceitar e continuar a ignorá-lo.

Estava a ficar deprimido, não tinha ideias.

Todos os dias, de manhã, ficava especado na esquina da rua até que a visão dos seus sonhos aparecia naquele equilíbrio elegante, nos 14,5 centímetros dos seus saltos, no corpo moldado numas calças de ganga que mais pareciam fazer parte da própria pele, o peito arfava ao baloiçar das passadas, tentando romper a delicada blusa que o cingia. Era, para José Maria, a loucura em movimento, o êxtase dos sentidos, a provocação dos desejos e o sonho de qualquer anjo por mais puro que pudesse ser.

Atirava-lhe um bom dia entremeado de ternura e paixão mas ela, no alto do pedestal, continuava naquela indiferença que fazia doer.

*****

Começou a ficar preocupado, hoje era o segundo dia em que ela não aparecia, talvez tivesse adoecido, coisa normal, mas para ele era um dor no coração pensar que a sua paixão estivesse a sofrer, decerto seria coisa pouca e amanhã já iria aparecer.

Vai passada uma semana e nada de Raquel, a preocupação passou a fazer parte do quotidiano do Zé Maria, tinha pesadelos, sonhava com Raquel a voar num cavalo alado para longe, para bem longe.

****

De repente uma luz brilhou no seu pensamento, o Rui Pisco conhecia a Raquel e, se calhar, sabia o motivo da ausência.

Foi bater-lhe à porta e, azar o seu, o Rui não atendeu, não estava em casa.

Restava procurar no emprego, sabia que ele trabalhava numa seguradora. Ia lá.

O Rui estava de férias de casamento só voltava para a semana.

Não tinha outra solução tinha que aguardar, iria voltar.

Na semana seguinte foi, novamente, procurar o Rui que já estava de volta ao trabalho. Ficou muito admirado com a presença do Afonso.

-Que fazes por aqui Afonso, perguntou Rui.

Afonso procurou as palavras:

-Parabéns Rui, já sei do teu casamento! É alguém que eu conheça?

Rui deu uma gargalhada e respondeu:

-Acho que talvez, casei com a Margarida a irmã do Óscar. Conheces?

Afonso pensou um pouco tentando descobrir, mas não, não sabia mesmo.

-Sabes Rui, há duas semanas que não vejo a Raquel, a ruiva do rabo-de-cavalo, por acaso sabes o que se passa com ela?

-Não faço ideia, desde que estivemos em casa o Afonso, quanto ta apresentei, não soube mais nada dela.
                                                                                                                         

****

Raquel era uma rapariga um pouco enigmática, filha de boas famílias, mas um pouco arreigada a hábitos um pouco ultrapassados. Queria casar virgem e só aceitava namorar quando se apaixonasse verdadeiramente. Já tinha reparado no interesse do amigo do Afonso que o Rui lhe havia apresentado mas, confessava que apesar de ser um homem muito interessante, não tinha feito disparar o clique que esperava.

Quando ele se postava na rua num ar de peralta aparvalhado, olhando-a de forma um pouco “pseudo-conspícua” sentia uma espécie de repulsa, não queria mas era isso que lhe fazia a sua presença.

Começava a estar farta daqueles bons-dias tímidos e da falta de coragem para uma abordagem convincente. Não gostava daqueles tímidos e semi-balbuciados "bons dias".

Não queria ser deselegante, mas já estava a sentir algum desconforto por esta, quase, perseguição.

Ia, tentar, arranjar uma solução que talvez (quem sabe?) poderia resultar.

No sábado foi à cabeleireira, cortou o cabelo, de ruiva passou a loira com reflexos dourados e nada de rabo-de-cavalo, cabelo curto de pontas irregulares.

Olhou para o espelho e gostou do que viu na imagem, estava linda.

Na segunda-feira passou, como sempre, no mesmo local onde o admirador se postava e graças a Deus resultou.

Ninguém lhe disse bom dia.

Afinal do que ele gostava, mesmo, era do rabo-de-cavalo e esse já era.








Deixo esta bela canção dum querido amigo Eleutério Sanches, que não vejo há algum tempo mas que continua no meu coração.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A Cliente








-Boa tarde senhor Ernesto!

Esta boa tarde teve uma entoação especial e o senhor Ernesto sentiu isso. Não era habitual uma saudação tão acalorada, pelo contrário, a dona Arménia era sempre um pouco monocórdica, quase despercebida. Hoje foi diferente, entoou de uma forma prolongada, quase, melodiosa.

A dona Arménia era uma mulher de meia-idade, roliça e onde as faces coradas lhe davam um ar de provinciana saudável. O senhor Ernesto pensava que era casada, pelo menos usava uma aliança mas, de verdade, nunca viu o marido.

Sem deixar de limpar o balcão respondeu no mesmo tom, aliás, como sempre o fazia a todos os clientes e, muito especialmente, aos habituais como era o caso da dona Arménia.

Há anos que religiosamente, por voltas das quatro horas, aparecia para o seu chá Ceilão, esse era certo, só no acompanhamento é que variava, umas vezes queria uma carcaça torrada com muita manteiga, outras, dois scones com doce de chila.

Puxava de um pequeno livro, nunca percebeu o que ela estava a ler, era numa língua estrangeira que ele não percebia, mas a verdade era essa, a dona Arménia, ia beberricando o seu chá com uma elegância de dedos estudada e, ao mesmo tempo, espreitando as letras da pequena brochura.

Depois, deixava o dinheiro na mesa e saia sem dizer nada.

****

Hoje foi diferente, começou com essa boa tarde sonante, um sorriso que realçava o brilho rosado das faces e, para surpresa do pobre senhor, não queria chá.

-Mas, titubeou o senhor Ernesto o que devo servir à madame?

-Hoje, caro amigo, quero dois pastéis de bacalhau e uma imperial bem gelada.

****

O homem não sabia o que pensar, a cliente estava fora do normal, era sempre tão formal e tão reservada, tinha um certo estilo na forma como deglutia a torrada e a subtileza dos dedos no levar da chávena à boca e, hoje, sorvia a cerveja como os comuns dos mortais nos intervalos das dentadas nos pastéis de bacalhau.

-Senhor Ernesto, bradou dona Arménia, traga-me outra imperial e mais um pastelinho.

O homem correu, solicito, a atender o pedido, embora pesaroso pela mudança mas, que fazer, o freguês tem sempre razão.

-Aqui tem o seu pedido, disse o senhor Ernesto, mas desculpe nunca a tinha visto beber cerveja!

A mulher deu uma gargalhada e perguntou:

-Se o senhor estivesse preso 15 anos, longos e dolorosos 15 anos, o que faria no dia em que recuperasse a sua liberdade?

-Bom se calhar o mesmo mas não me parece que tenha estado presa!

-Presa e bem presa, hoje recuperei a liberdade, consegui finalmente o meu divórcio.

-Vá beba uma cerveja comigo, vá lá beba!





domingo, 29 de julho de 2012

The yellow car‏






Era um dos dias mais felizes da sua vida, não porque tivesse razão de queixas da existência, muito pelo contrário pois sempre se considerou uma privilegiada em relação há maioria das amigas.

A vida tinha-lhe dado quase tudo, nasceu numa família abastada, filha única e de pais não muito novos o que, compreende-se, a tornava especialmente mimada, ela tinha consciência disso e fazia esforço para não se aproveitar da situação.

Hoje ia completar 18 anos e, tinha a certeza, os pais iam oferecer-lhe aquele carro que ela estava farta de mirar na montra do stand.

O Dia estava um pouco sombrio, manhã outonal com vento e uma temperatura um pouco desagradável, mas para Joana o tempo parecia radioso.

Foi espreitar à janela e perscrutou as redondezas na expectativa da surpresa, embora esperada, do carro amarelo que a acompanhava nos sonhos e nos desejos.

Nada, na rua, os automóveis do costume e no jardim o velho BMW do pai.

Seria que estava enganada? Não iria manifestar qualquer desagrado mas, dentro, sentia uma sensação de vazio e o dia não iria ser, de certo, a mesma coisa.

Os pais já esperavam, na sala, para o pequeno-almoço.

Beijos e parabéns escorreram nos rostos, o pai abraçou a filha enquanto lhe foi segredando ao ouvido:

-A tua prenda vai ficar escondida até logo e temos a certeza que vais gostar da surpresa!

Joana apertou mais o pai, puxou a mãe para o abraço e desabafou:

-Tenho os melhores pais do mundo, amo-os mais do que à vida. Obrigado por tudo, por terem feito de mim o que sou.

*******

A animação era visível, a família e os amigos mais chegados iam tomando conta da sala em amenos diálogos, enquanto os salgados e as bebidas iam desaparecendo naturalmente. Os mais viciados, procuravam os cantos abrigados do jardim para, em pequenos grupos, fazerem pequenas espirais com o fumo que calmamente iam libertando das suas bocas.

A música era convidativa e alguns, muito poucos, começavam a rebolar o corpo ao ritmo dos acordes que enchiam o ar.

 *****

O pai de Joana estava preparado para sair e a filha, apercebendo-se, perguntou:

-Onde vais pai?

O homem sorriu e percebendo a curiosidade de Joana respondeu:

-Vou ali e volto já, vou escolher a tua prenda!

-Posso ir contigo? Perguntou Joana.

O homem soltou uma gargalhada, deu um beijo na filha e entrou no táxi que já o esperava ao portão.


***** 

A mãe de Joana estava preocupada, o marido já devia estar de volta, tinha saído, quase, há duas horas e o que tinha para fazer não era para demorar, era só pegar e vir, todo o resto já tinha sido tratado.

*******

Quando o carro da polícia parou à porta os convidados, que fumavam no jardim, ficaram curiosos e mais, ainda, quando um dos dois guardas que saiu lhes perguntou:

- Esta cá algum familiar do, olhou o papel que trazia na mão, senhor Ramiro Caixinha?

Respondem, quase todos, em uníssono:

-Está a esposa e a filha, mas há algum problema?

Respondeu o polícia que parecia mais velho:

-Muito má noticia, o homem teve um acidente muito grave, já saiu do local cadáver e o carro amarelo só serve para a sucata.

 Mas chamem, por favor, a esposa!