Olhou
para trás de uma forma quase abstracta, olhou mas os seus olhos não viam para além
do pensamento e, esse, estava de tal forma entorpecido que não ia para lá da
corda que transportava debaixo do braço.
Desenrolou
o baraço de forma vagarosa, deu um repelão a testar a resistência do sisal como
se isso fosse muito importante.
Exalou
o cheiro das urzes que cresciam envergonhadas junto às margens do regato, olhou
o Sol com os olhos semicerrados gozando os fiapos que se reflectiam na sua
retina.
Um
pequeno suspiro fez eco na quietude da tarde solarenga. Deitou-se debaixo duma
oliveira, na terra seca, fechou os olhos e deixou correr o filme da sua vida.
**
Nem
sempre foi fácil, houve momentos dolorosos, percursos cheios de obstáculos que
nunca o fizeram desistir.
Lembrou
bem o dia em que os pais da Aninhas proibiram o namoro e ele não se deixou
vergar.
Fugiram
os dois e voltaram casados, depois foi difícil, mas os velhos teimosos acabaram
por ceder embora tenha sentido, sempre, que essa aceitação era uma forma de não
perderem a filha, porque ele foi apenas tolerado, mas não se importou, Aninhas
amava-o e isso era o que verdadeiramente lhe interessava.
Foi
em Fevereiro, do ano seguinte, que nasceu o Marquinho, o filho que planearam.
Viveram
três anos duma felicidade feita de avanços e recuos, de alegrias, frustrações
e de tédio, de muito tédio.
Um
dia Aninhas fez as malas, pegou no filho e desapareceu no horizonte.
Em
cima da cama um papel, numa breve despedida:
Estou farta, cansada, preciso de respirar,
preciso de espaço para viver.
Levo o Marquinho, precisa de mim.
Depois tratamos do resto.
Desculpa João, não te mereço!
**
Leu
uma vez, outra vez e mais outra e não compreendeu. Nem um beijo de despedida.
É
difícil perceber as mulheres.
Ele
trabalhava 10 horas por dia para que nada lhe faltasse e a paga era esta.
Continuava sem perceber.
Os
Homens percebem tarde de mais!
**
Tentou
chorar mas as lágrimas não quiseram acompanhar o desgosto, ficou numa grande prostração,
durante três dias esteve em total clausura, sem comer, sem beber e sem querer
saber do mundo que corria lá fora.
**
Sem
Aninhas e Marquinho a vida não lhe interessava, não sabia viver, não tinha
aprendido.
Pegou
na corda, fez um braçado. Olhou tudo o que o rodeava, numa espécie de despedida,
e abalou para o olival, ia procurar a morte na árvore da vida.
**
Chegou
mesmo a adormecer. Acordou com os raios de Sol brincado por entre a prata das
folhas da oliveira.
Levantou-se
dorido, tinha marcado no corpo as pedras e os torrões da terra. Mas isso pouco importava.
Pegou
a corda e fez, na ponta, um nó corredio e preparou-se para a fazer passar por
uma pernada alta. Tinha que ser forte para lhe suportar o peso.
Olhou
um redor num último adeus, tinha pena, afinal a vida tinha-lhe dado tanto de
bom.
**
Olhou
para baixo, pareceu-lhe ouvir um leve restolhar. Aninhas subia o declive,
cansada e com o arrependimento no olhar gritou:
-João,
sou muita parva, venho a tempo de me perdoares? Afinal a culpa não é tua, é
nossa e estamos a tempo de recomeçar.
O
Sol que ia desaparecendo no horizonte brilhou com mais intensidade, à contraluz
um beijo intenso recortou-se na imensidão do entardecer.






