A
Mariquinhas é uma personagem um pouco estranha, não pelo aspecto mas pelo
comportamento, má como uma cobra-cascavel, venenosa e com uma língua que só lhe
falta ser bifurcada para a semelhança ser mais verdadeira.
É egoísta, quezilenta, viperina e tão perigosa que todos a conhecem pela víbora do rés-do-chão direito.
Escuta tudo, sabe de todos, o mundo é o seu inimigo.
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Nem sempre foi assim, apenas a vida azedou o carácter de uma jovem que sonhou com o amor.
Tinha
20 anos quando conheceu o Onofre, já tinha namorado outros rapazes mas nada
que lhe tivesse feito palpitar o coração, agora era diferente.
Foi na
quermesse da feira de Santo Agostinho que ele lhe ofereceu, o urso de peluche
que tinha ganho ao desembrulhar um daqueles papelinhos coloridos.
Pensou
em não aceitar mas, aquele sorriso mascarado num bigode a Errol Flynn, foi mais
forte que o pensamento.
Passearam
o resto da noite, comeram farturas, soltaram gargalhadas sonoras nas voltas do carrossel,
escarranchados numas girafas pintadas em cores garridas.
Ficaram,
desde logo, com um compromisso para a vida.
Ele
tinha 25 anos e, segundo disse, tinha terminado o curso de direito e ia
trabalhar na empresa Saca & Saca Advogadas Associados, Lda., ao princípio
seria estagiário, não ia ter grande salário, mas depois de acabar o estágio ia
ganhar muito dinheiro.
Mariquinhas
estava embevecida, bebia as suas palavras e deixava-se embalar no doce cantar
das lindas promessas.
Casaram
num dia de muita chuva mas, como diz o povo, casamento molhado é casamento
abençoado. Iam morar na casa da Mariquinhas, que tal como a outra, não tinha
janelas com tabuinhas.
Era
por pouco tempo, disse Onofre, depois iam comprar um apartamento, quem sabe,
talvez, uma vivenda num sítio chique.
Foram
uns primeiros tempos de sonho, puro enlevo.
Depois perante a desculpa de que advogado estagiário não tem salário Mariquinhas ia mantendo, a muito custo, as despesas domésticas, mas era por pouco tempo, pois não tardava e o nosso causídico, dizia ele, iria compensar a mulher por tudo isso.
Mariquinhas
não compreendia o estranho horário do marido, dormia durante o dia, depois saia
para o trabalho e só regressava a casa a altas horas da madrugada. Só se viam,
de facto, ao fim de semana, pois quando Mariquinhas saia ele dormia e quando
Onofre chegava, dormia ela.
Andou assim muito tempo, ela trabalhava o marido dormia, algo estava errado, ia saber o porque do estranho horário e porque, passado tanto tempo de estágio, nada lhe pagavam?
Foi,
muito timidamente, visitar Saca & Saca Advogadas Associados, Lda., e,
pasmem, ninguém conhecia o senhor doutor Onofre Casquinha.
-Não! Aqui não trabalha! Foi o que lhe disseram.
Mariquinhas
ficou desconfiada, algo estava errado e, entre dentes jurou:
-O
malvado anda a enganar-me mas eu vou descobrir e ele não se vai ficar a rir.
Juro que não!
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Onofre levantou-se quando Mariquinhas chegou do trabalho. Tomou banho, perfumou-se, alisou cuidadosamente o bigode, beijou a mulher e, antes de sair, disse:
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Onofre levantou-se quando Mariquinhas chegou do trabalho. Tomou banho, perfumou-se, alisou cuidadosamente o bigode, beijou a mulher e, antes de sair, disse:
-Minha querida o dever espera por mim.
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Hoje ia ser diferente, ia seguir o marido, queria ver qual eram os seus afazeres.
Não foi difícil, ia à vontade, pegou o autocarro 201, andou 5 paragens e desceu na Avenida 24 de Julho.
Acendeu um cigarro e alisou, naquele jeito tão próprio, o fino bigode e preparou-se para atravessar a rua.
Mariquinhas pagou o táxi, enrolou o lenço à volta da cabeça para passar mais despercebida e preparou-se para seguir, embora a alguma distância, os passos do marido. Era muito estranho que o local para onde se dirigia pudesse a ter algo a ver com o trabalho.
Ele atravessou com a mudança dos semáforos, enquanto, ela arriscou uma corrida entre os carros para o não perder de vista.
Onofre estugou o passo, assobiou baixinho, deitou fora a prisca do cigarro e entrou na danceteria "O Violino".
Mariquinhas
espreitou e, meu Deus, enxergou o marido cingindo pela cintura duas belas
moçoilas, parcamente vestidas.
Enrolou a cabeça no lenço e, bebendo as lágrimas, foi a caminho do autocarro para o regresso a casa.
O ódio enchia o peito, o despeito martirizava-lhe a alma, a vingança passou a fazer parte do seu pensamento.
Agora percebia porque as longas noites de amor há muito tinham caído na rotina, pelo cansaço, dizia ele, pela fartura pensava, agora, ela.
Foi para a cama, não para dormir, mas para alimentar o ódio e amadurecer a vingança.
Eram, quase 5 horas da madrugada quando sentiu a entrada furtiva, passos leves, quase silenciosos, despiu-se como se a roupa fosse de veludo e anichou-se no quente da cama.
Passados
5 minutos ressonava na tranquilidade dos justos.
Era a
hora esperada, era o momento de decidir o que havia para resolver.
Tinha a
tesoura de podar bem afiada e pronta a cumprir a missão que lhe tinha
destinado. Levantou os lençóis, procurou a melhor posição e zás, está feito.
Depois, o que cortou, foi bailando ao sabor da descarga do autoclismo. Havia coisas que não eram para compartilhar, eram dela, apenas dela.
O homem berrava como um capado e nunca um termo foi tão bem aplicado.
Os
médicos tentaram uma reconstituição, remendaram mas…bom, nunca mais foi a mesma
coisa.
***
O juiz não ficou muito convencido com os argumentos e condenou-a a seis anos de prisão efectiva.
Cumpriu
a pena mas, quando saiu, não era a mesma mulher.
Agora está muito diferente!






