Era uma estranha sensação, andava um pouco perdido e pela
primeira vez não sentia aquela dor aguda que o apoquentava há tanto tempo, o médico
dizia que era da coluna, da falta de cuidado quando se estirava no sofá, se
calhar era mas se tinha tão belos sofás porque raio se ia sentar numa cadeira?
Na verdade hoje nada lhe doía. Tinha que se despachar, mas coisa esquisita passou a mão pela cara, que estava gelada, e pareceu-lhe que não precisava fazer a barba.
Foi espreitar o espelho e via-se reflectido como se fosse um
negativo. Era ele mas não parecia, pois as sombras cobriam-lhe o rosto e não
dava para se aperceber bem do que via.
Foi procurar os óculos mas hoje era dia não. Onde se
terão metido os malvados? Quando não precisar deles logo vão aparecer.
Andou assim perdido, do quarto para sala e da sala para o
quarto, sem saber bem o que tinha que fazer.
Há coisas que nos ultrapassam, acabou de se levantar, não se
recorda de fazer nada e, na realidade já estava impecavelmente vestido, de
verdade com um fato que detestava, com uma gravata que não se lembrava de usar
há anos e com uns sapatos pretos que antes lhe magoavam os pés, mas de hoje nem
os sentia.
O estranho era estar vestido a rigor embora com um pouco de
cheiro a naftalina e não sabia, exactamente o que tinha que fazer, não
abe lembrava de nenhum compromisso mas, não se admirava porque a cabeça por
vezes já lhe ia pregando partidas.
Estava cogitando neste mar de incertezas quando, os sinos da
Igreja, o despertaram para um pungente toque a finadas.
Era um repicar tão triste e tão lúgubre que, lhe pareceu
sentir duas lágrimas a escorrer pelo rosto, passou a mão mas não, era só
impressão pois a cara continuava fria, mas bem enxuta.
Tentou coordenar os pensamentos mas apenas o vazio lhe
povoava o pensamento.
Mas era estranho, estava vestido, barbeado, gravata impecavelmente colocada, sapatos brilhando e sem saber porque e nem para que!
Os sinos continuavam no repicar triste e soturno.
Foi então que pensou que se tocavam a finados alguém tinha
morrido. Estava tudo explicado, era isso, estava preparado para ir a um
funeral. Não se lembrava de quem, mas não admirava, a cabeça por vezes já o
atraiçoava.
Subiu a rua, passos suaves e firmes, há muito que sentia as pernas tão firmes. Estranhou que ninguém lhe respondesse quando os saudava com o habitual bons dias.
À porta da casa mortuária estavam os seus amigos e alguns familiares.
Mas afinal quem tinha morrido? Porque seria que todos o desconheceram e ninguém
respondeu às suas palavras?
Entrou, não
percebeu, ninguém se desviou mas nenhum obstáculo o impediu.
Na peanha, num ataúde aberto descansava um homem com um pano na cara, um fato igual ao detestável que ele vestia, uns antiquados sapatos pretos como os dele e, coincidência tão estranha, a mesma insuportável gravata.
Na peanha, num ataúde aberto descansava um homem com um pano na cara, um fato igual ao detestável que ele vestia, uns antiquados sapatos pretos como os dele e, coincidência tão estranha, a mesma insuportável gravata.
Tentou levantar o pano da cara do homem mas, não entendia, os
dedos passavam e o lenço continuava na mesma posição.
De repente percebeu, agora já sabia, tinha chegado a sua hora.
De repente percebeu, agora já sabia, tinha chegado a sua hora.
Hora de partir e ninguém o tinha avisado






