terça-feira, 16 de outubro de 2012

A viagem








Era uma estranha sensação, andava um pouco perdido e pela primeira vez não sentia aquela dor aguda que o apoquentava há tanto tempo, o médico dizia que era da coluna, da falta de cuidado quando se estirava no sofá, se calhar era mas se tinha tão belos sofás porque raio se ia sentar numa cadeira?

Na verdade hoje nada lhe doía. Tinha que se despachar, mas coisa esquisita passou a mão pela cara, que estava gelada, e pareceu-lhe que não precisava fazer a barba.

Foi espreitar o espelho e via-se reflectido como se fosse um negativo. Era ele mas não parecia, pois as sombras cobriam-lhe o rosto e não dava para se aperceber bem do que via.

Foi procurar os óculos mas hoje era dia não. Onde se terão metido os malvados? Quando não precisar deles logo vão aparecer.

Andou assim perdido, do quarto para sala e da sala para o quarto, sem saber bem o que tinha que fazer.

Há coisas que nos ultrapassam, acabou de se levantar, não se recorda de fazer nada e, na realidade já estava impecavelmente vestido, de verdade com um fato que detestava, com uma gravata que não se lembrava de usar há anos e com uns sapatos pretos que antes lhe magoavam os pés, mas de hoje nem os sentia.

O estranho era estar vestido a rigor embora com um pouco de cheiro a naftalina e não sabia, exactamente  o que tinha que fazer, não abe lembrava de nenhum compromisso mas, não se admirava porque a cabeça por vezes já lhe ia pregando partidas.

Estava cogitando neste mar de incertezas quando, os sinos da Igreja, o despertaram para um pungente toque a finadas.

Era um repicar tão triste e tão lúgubre que, lhe pareceu sentir duas  lágrimas a escorrer pelo rosto, passou a mão mas não, era só impressão pois a cara continuava fria, mas bem enxuta.

Tentou coordenar os pensamentos mas apenas o vazio lhe povoava o pensamento.

Mas era estranho, estava vestido, barbeado, gravata impecavelmente colocada, sapatos brilhando e sem saber porque e nem para que!

Os sinos continuavam no repicar triste e soturno.

Foi então que pensou que se tocavam a finados alguém tinha morrido. Estava tudo explicado, era isso, estava preparado para ir a um funeral. Não se lembrava de quem, mas não admirava, a cabeça por vezes já o atraiçoava.

Subiu a rua, passos suaves e firmes, há muito que sentia as pernas tão firmes. Estranhou que ninguém lhe respondesse quando os saudava com o habitual bons dias.

À porta da casa mortuária estavam os seus amigos e alguns familiares. Mas afinal quem tinha morrido? Porque seria que todos o desconheceram e ninguém respondeu às suas palavras?

Entrou, não percebeu, ninguém se desviou mas nenhum obstáculo o impediu.


Na peanha, num ataúde aberto descansava um homem com um pano na cara, um fato igual ao detestável que ele vestia, uns antiquados sapatos pretos como os dele e, coincidência tão estranha, a mesma insuportável gravata.

Tentou levantar o pano da cara do homem mas, não entendia, os dedos passavam e o lenço continuava na mesma posição.

De repente percebeu, agora já sabia, tinha chegado a sua hora.

Hora de partir e ninguém o tinha avisado



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Hoje, 15 de Outubro







O dia, lá fora, parece estar risonho pois uns tímidos raios de Sol estão a filtrar-se pelas persianas e a obrigar-me a abrir os olhos para o dia.

A cama está confortável e as noites mais frias ajudam a esta moleza que nos incita a enrolar na preguiça dos cobertores.

O telemóvel tem estado numa doidice total, não tem o som ligado mas o vibrar vai dando conta das chamadas.

O ecrã diz oito não atendidas, nem vou espreitar, são os problemas do costume, trabalho, pressas e pedidos de última hora. Que se lixem, vou fazer a barba e saborear um grande pequeno-almoço.

Hoje, nem sei porque, mas apetecem-me croissants com doce, de preferência de laranja e um café enorme, quente e fumegante.

A mesa está posta com algum requinte, não é que não seja normal mas hoje está, mesmo, especial, pois além de flores amarelas (adoro flores amarelas) um enorme embrulho com um laçarote dourado está em posição de realce.

Cabeça a minha!

As chamadas, o embrulho e este marasmo que me envolve tem uma razão.

Dia 15 de Outubro, mais um ano no caminhar para a velhice.

Afinal é o meu aniversário!




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Mariquinhas








A Mariquinhas é uma personagem um pouco estranha, não pelo aspecto mas pelo comportamento, má como uma cobra-cascavel, venenosa e com uma língua que só lhe falta ser bifurcada para a semelhança ser mais verdadeira.

É egoísta, quezilenta,  viperina e tão perigosa que todos a conhecem pela víbora do rés-do-chão direito.

Escuta tudo, sabe de todos, o mundo é o seu inimigo.

*****

Nem sempre foi assim, apenas a vida azedou o carácter de uma jovem que sonhou com o amor.

Tinha 20 anos quando conheceu o Onofre, já tinha namorado outros rapazes mas nada que lhe tivesse feito palpitar o coração, agora era diferente.

Foi na quermesse da feira de Santo Agostinho que ele lhe ofereceu, o urso de peluche que tinha ganho ao desembrulhar um daqueles papelinhos coloridos.

Pensou em não aceitar mas, aquele sorriso mascarado num bigode a Errol Flynn, foi mais forte que o pensamento.

Passearam o resto da noite, comeram farturas, soltaram gargalhadas sonoras nas voltas do carrossel, escarranchados numas girafas pintadas em cores garridas.

Ficaram, desde logo, com um compromisso para a vida.

Ele tinha 25 anos e, segundo disse, tinha terminado o curso de direito e ia trabalhar na empresa Saca & Saca Advogadas Associados, Lda., ao princípio seria estagiário, não ia ter grande salário, mas depois de acabar o estágio ia ganhar muito dinheiro.

Mariquinhas estava embevecida, bebia as suas palavras e deixava-se embalar no doce cantar das lindas promessas.

Casaram num dia de muita chuva mas, como diz o povo, casamento molhado é casamento abençoado. Iam morar na casa da Mariquinhas, que tal como a outra, não tinha janelas com tabuinhas.
­Era por pouco tempo, disse Onofre, depois iam comprar um apartamento, quem sabe, talvez, uma vivenda num sítio chique.
Foram uns primeiros tempos de sonho, puro enlevo.

Depois perante a desculpa de que advogado estagiário não tem salário  Mariquinhas ia mantendo, a muito custo, as despesas domésticas, mas era por pouco tempo, pois não tardava e o nosso causídico, dizia ele, iria compensar a mulher por tudo isso.

Mariquinhas não compreendia o estranho horário do marido, dormia durante o dia, depois saia para o trabalho e só regressava a casa a altas horas da madrugada. Só se viam, de facto, ao fim de semana, pois quando Mariquinhas saia ele dormia e quando Onofre chegava, dormia ela.

Andou assim muito tempo, ela trabalhava o marido dormia, algo estava errado, ia saber o porque do estranho horário e porque, passado tanto tempo de estágio, nada lhe pagavam?

Foi, muito timidamente, visitar Saca & Saca Advogadas Associados, Lda., e, pasmem, ninguém conhecia o senhor doutor Onofre Casquinha.

-Não! Aqui não trabalha! Foi o que lhe disseram.

Mariquinhas ficou desconfiada, algo estava errado e, entre dentes jurou:

-O malvado anda a enganar-me mas eu vou descobrir e ele não se vai ficar a rir. Juro que não!

*****
Onofre levantou-se quando Mariquinhas chegou do trabalho. Tomou banho, perfumou-se, alisou cuidadosamente o bigode, beijou a mulher e, antes de sair, disse:

-Minha querida o dever espera por mim.

****

Hoje ia ser diferente, ia seguir o marido, queria ver qual eram os seus afazeres.

Não foi difícil, ia à vontade, pegou o autocarro 201, andou 5 paragens e desceu na Avenida 24 de Julho.

Acendeu um cigarro e alisou, naquele jeito tão próprio, o fino bigode e preparou-se para atravessar a rua.

Mariquinhas pagou o táxi, enrolou o lenço à volta da cabeça para passar mais despercebida e preparou-se para seguir, embora a alguma distância, os passos do marido. Era muito estranho que o local para onde se dirigia pudesse a ter algo a ver com o trabalho.

Ele atravessou com a mudança dos semáforos, enquanto, ela arriscou uma corrida entre os carros para o não perder de vista.

Onofre estugou o passo, assobiou baixinho, deitou fora a prisca do cigarro e entrou na danceteria "O Violino".

Mariquinhas espreitou e, meu Deus, enxergou o marido cingindo pela cintura duas belas moçoilas, parcamente vestidas.

Enrolou a cabeça no lenço e, bebendo as lágrimas, foi a caminho do autocarro para o regresso a casa.

O ódio enchia o peito, o despeito martirizava-lhe a alma, a vingança passou a fazer parte do seu pensamento.

Agora percebia porque as longas noites de amor há muito tinham caído na rotina, pelo cansaço, dizia ele, pela fartura pensava, agora, ela.

Foi para a cama, não para dormir, mas para alimentar o ódio e amadurecer a vingança.

Eram, quase 5 horas da madrugada quando sentiu a entrada furtiva, passos leves, quase silenciosos, despiu-se como se a roupa fosse de veludo e anichou-se no quente da cama.
Passados 5 minutos ressonava na tranquilidade dos justos.

Era a hora esperada, era o momento de decidir o que havia para resolver.

Tinha a tesoura de podar bem afiada e pronta a cumprir a missão que lhe tinha destinado. Levantou os lençóis, procurou a melhor posição e zás, está feito.

Depois, o que cortou, foi bailando ao sabor da descarga do autoclismo. Havia coisas que não eram para compartilhar, eram dela, apenas dela.

O homem berrava como um capado e nunca um termo foi tão bem aplicado.

Os médicos tentaram uma reconstituição, remendaram mas…bom, nunca mais foi a mesma coisa.

***

O juiz não ficou muito convencido com os argumentos e condenou-a a seis anos de prisão efectiva.

Cumpriu a pena mas, quando saiu, não era a mesma mulher.

Agora está muito diferente!



terça-feira, 2 de outubro de 2012

A dúvida






Ficou um pouco assustado, o sino da Igreja parecia tocar a finados, não é que ele percebesse muito de toques mas este troar tinha algo de fúnebre.

Não sabia explicar porque mas, talvez o compasso, o eco triste ou, quem sabe, se não um terceiro sentido que o levava a pensar assim.

Foi ai que teve pena de que os telefoneis ainda não tivessem sido inventados, mas não, só havia aqueles telefones pretos com um auscultador encaixado num gancho no bocal, para onde se atiravam as palavras, e mesmo desses não tinha nenhum. Ia á venda do senhor Simão telefonar a saber, mas, pensou, se ia à merceeira não precisava de telefonar, perguntava e ele sabia de certeza. Pensando melhor era preferível ir à casa mortuária na Igreja e ficava a saber tudo.

Primeiro tinha que fazer a barba, pois com este pelos crescidos ainda haviam de pensar que já estava de luto por alguém que ainda não sabia quem, mas não ia por aftershave, para não julgarem que não tinha sentimentos, pois um desgraçado se tinha finado e ele estava a embelezar-se sem mostrar sentimentos. Mas o povo é mesmo assim, que havia de fazer!

Preparou o pequeno-almoço, tinha fome, mas a consciência parecia atormenta-lo, pois estar a comer, agora, antes de ir saber o que aconteceu era de um enorme egoísmo, alguns estavam a sofrer e ele, placidamente, ia trincando deliciosas torradas e bebendo o sumo de laranja. Estava a sentir uma enorme angústia pela forma desumana de adiar mas, pensava - quem ia saber se tomou a refeição? - ou se nem tinham pensado nisso.

Estava desconfortável e muito nervoso, quem sabe era alguém conhecido, até podia ser um amigo. Não tinha muitos mas, sempre havia alguns.

Oh, que desconforto, o sino voltou àquele repicar triste, os ingleses dizem knell ou será toll, não tinha a certeza mas julgou ouvir um destes termos à sua tia que viveu, toda a vida, em Londres.

Mas não importa tem que se despachar. Uma dúvida veio atormentar o já tão martirizado espirito, o que deve vestir, tem que ter cuidado, pode ser um desconhecido mas, também pode ser um conhecido, quem sabe um amigo.

Não pode ir com cores berrantes e logo hoje que queria estrear a t-shirt vermelha com a frase "I am here".
Não era uma frase muito forte mas quando a viu na montra ficou apaixonado e não se importou com os 35 euros e, pronto, comprou mesmo.

Talvez uma camisinha branca, mas só tinha de mangas compridas e estava um calor insuportável.

Resolveu, uma polo branca era o mais certo, passava despercebida.

Foi ao espelho dar os últimos retoques no cabelo, ensaiou um ar compungido, mas não se estava a sair muito bem, havia algo de artificial, tinha que ir treinando pelo caminho.

**

Ia começar, já um pouco afogueado, a subir a rua da Igreja quando descortinou o seu amigo Inácio que, de certeza, o ia informar sobre quem se tinha finado.

-Inácio quem morreu? Alguém que eu conheça?

Inácio deu uma enorme gargalhada antes de responder:

-Morrer, não morreu ninguém, mas ali na Igreja está a decorrer o funeral do professor Fausto.

-O que, o professor Fausto morreu?

-Não, pá, está a casar com a zarolha da presidente da junta!

-Mas os sinos estavam a tocar a finados?

-Não percebes nada de toques, tens que aprender. Estavam a chamar as pessoas para a missa.
Já vi que coisas da Igreja não é a tua especialidade!










segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O baraço





Olhou para trás de uma forma quase abstracta, olhou mas os seus olhos não viam para além do pensamento e, esse, estava de tal forma entorpecido que não ia para lá da corda que transportava debaixo do braço.

Desenrolou o baraço de forma vagarosa, deu um repelão a testar a resistência do sisal como se isso fosse muito importante.

Exalou o cheiro das urzes que cresciam envergonhadas junto às margens do regato, olhou o Sol com os olhos semicerrados gozando os fiapos que se reflectiam na sua retina.

Um pequeno suspiro fez eco na quietude da tarde solarenga. Deitou-se debaixo duma oliveira, na terra seca, fechou os olhos e deixou correr o filme da sua vida.

**

Nem sempre foi fácil, houve momentos dolorosos, percursos cheios de obstáculos que nunca o fizeram desistir.

Lembrou bem o dia em que os pais da Aninhas proibiram o namoro e ele não se deixou vergar.

Fugiram os dois e voltaram casados, depois foi difícil, mas os velhos teimosos acabaram por ceder embora tenha sentido, sempre, que essa aceitação era uma forma de não perderem a filha, porque ele foi apenas tolerado, mas não se importou, Aninhas amava-o e isso era o que verdadeiramente lhe interessava.

Foi em Fevereiro, do ano seguinte, que nasceu o Marquinho, o filho que planearam.

Viveram três anos duma felicidade feita de avanços e recuos, de alegrias,  frustrações e de tédio, de muito tédio.

Um dia Aninhas fez as malas, pegou no filho e desapareceu no horizonte.
Em cima da cama um papel, numa breve despedida:

Estou farta, cansada, preciso de respirar, preciso de espaço para viver.
Levo o Marquinho, precisa de mim.
Depois tratamos do resto.
Desculpa João, não te mereço!

**

Leu uma vez, outra vez e mais outra e não compreendeu. Nem um beijo de despedida.
É difícil perceber as mulheres.

Ele trabalhava 10 horas por dia para que nada lhe faltasse e a paga era esta.
Continuava sem perceber.
Os Homens percebem tarde de mais!

**

Tentou chorar mas as lágrimas não quiseram acompanhar o desgosto, ficou numa grande prostração, durante três dias esteve em total clausura, sem comer, sem beber e sem querer saber do mundo que corria lá fora.

**

Sem Aninhas e Marquinho a vida não lhe interessava, não sabia viver, não tinha aprendido.

Pegou na corda, fez um braçado. Olhou tudo o que o rodeava, numa espécie de despedida, e abalou para o olival, ia procurar a morte na árvore da vida.

**

Chegou mesmo a adormecer. Acordou com os raios de Sol brincado por entre a prata das folhas da oliveira.
Levantou-se dorido, tinha marcado no corpo as pedras e os torrões da terra. Mas isso pouco importava.

Pegou a corda e fez, na ponta, um nó corredio e preparou-se para a fazer passar por uma pernada alta. Tinha que ser forte para lhe suportar o peso.

Olhou um redor num último adeus, tinha pena, afinal a vida tinha-lhe dado tanto de bom.

**

Olhou para baixo, pareceu-lhe ouvir um leve restolhar. Aninhas subia o declive, cansada e com o arrependimento no olhar gritou:

-João, sou muita parva, venho a tempo de me perdoares? Afinal a culpa não é tua, é nossa e estamos a tempo de recomeçar.

O Sol que ia desaparecendo no horizonte brilhou com mais intensidade, à contraluz um beijo intenso recortou-se na imensidão do entardecer.



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A casa das hortênsias






Acordou com o estrondo do morteiro seguido do estrelejar de meia dúzia de foguetes, era o anunciar do princípio da festa anual, a alvorada era sempre às sete horas da manhã, ele sabia mas tinha sempre aquela sensação de susto. Este ano mais do que nunca queria estar bem longe, nos outros anos ainda andava por ali, ouvia a fanfarra que percorria as ruas em actuações monocórdicas de rufar de tambores e bombos, o tremer das pandeiretas e de vez em quando um saxofone já desafinado, não pelo artista mas pelo desgaste das varas e das pequenas fugas do ar no instrumento que, apesar de tudo, e graças ao limpa-metais brilhava em reflexos de ouro ao sol. O mestre Gualdim bramia com vigor a batuta, que os músicos seguiam mais por intuição, pois nunca viu nenhum a olhar para o maestro.

Mas este ano era diferente, ainda sentia o vazio, não era propriamente um luto mas uma necessidade de fugir ao bulício e à animação que se apoderava do povo. Os filhos da terra voltavam dos países onde deixavam o suor e uma parte da pele, mas voltavam todos os anos, em carros alugados e com ar de abastança e falando, entre eles, num francês com pronúncia própria da aldeia onde nasceram.

Sentia no ar o cheiro quente da terra, a algazarra ia tomando conta da povoado, os rapazes em trajes domingueiros juntavam-se em pequenos ranchos nas esquinas dos largos para mirar as moças que, em vestidos coloridos, se iam pavoneando nos caminhos da Igreja para a missa das oito, o senhor Padre Alcides veio de propósito da cidade, para presidir a este acto solene, que era como que o cortar da fita para os três dias em honra da padroeira.

Armindo ia remoendo estas lembranças enquanto se preparava para uma abalada, quase furtiva, não porque não sentisse o apego à tradição, mas as saudades de Josefa estavam, ainda, muito presentes e, ele sabia o quanto representava para ela esta tradição. Era das primeiras no arranjar da igreja, no peditório a favor dos festeiros e, na generosidade do angariar o necessário para o almoço dos mais necessitados, era uma tradição mas, a cada ano que passava mais difícil, o número de pobres aumentava e as ofertas diminuíam, era a crise diziam muitos, era a desculpa exclamava ela.

Bastaram três meses para que a doença, de forma galopante, a levasse, sem nunca lhe terem ouvido um queixume.

Armindo arrumou de forma ordenada o necessário, colocou no porta-bagagem e partiu evitando as ruas principais.

Rapidamente tomou a estrada principal, não olhou para trás, nada ou quase nada, o prendia àquela terra.

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Há mais de um ano que anda adiando o regresso à terra, a festa deste ano acabou no domingo e Armindo tem que voltar. Tem mesmo! A casa está há tanto tempo abandonada que as teias de aranha já devem ter tomado conta de todos os recantos, para não falar das terras, porque essas, há muito estão ao deus dará.

Está decidido, no próximo fim-de-semana, vai regressar embora no seu pensamento pense, apenas, em ir tratar de por a casa, e a terra, à venda e voltar à cidade.

Não tem nada que o prenda ao lugar, os pais já partiram há muito e a Josefa, sua companheira de muitos anos, também o deixou depois de três meses de muito sofrimento. Estão todos no cemitério da terra, mas ele não tinha o culto dos mortos como um dogma, por isso onde andasse o pensamento estava com ele e, esse, nada nem ninguém o ia alterar.

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Foi um voltar quase doloroso, os quilómetros eram galgados quase como se o tempo não existisse.

Quase por encanto, lá no fundo da descida a povoação aparecia num policromado de vermelhos dos telhados e no imaculado branco da cal das paredes. A Igreja sobressaia no aglomerado, com o sino em reflexos de bronze esverdeado.

Entrou, como saiu, torneando o povoado pelos arrabaldes, não queria falar por enquanto com ninguém, não estava preparado para explicar o inexplicável, depois iria falar com os amigos e tinha a certeza que o compreenderiam.

Era a hora do calor e as pessoas estavam recolhidas. Chegou a casa e apenas a dona Alzira lhe acenou, um adeus, debruçada do postigo.

O jardim que circundava a casa estava impecavelmente tratado, as hortênsias todas floridas e com a terra com aspecto de ter sido regada há bem pouco tempo.

-Coisas do amigo Aníbal, pensou.

Quando meteu a chave na porta foi invadido por um desencadear de emoções. Foi aqui que passou os melhores momentos da sua vida, foi desta casa que viu partir a mulher que era uma das razoes do seu viver.

Entrou. A sala estava vazia, nada de móveis. Fechou a porta e como sortilégio uma luz iridescente encheu o espaço, uma música de uma suavidade, que doía no encanto do momento, tomava conta dos sentidos e subia em espirais de doçura.

No meio da sala, sentia-se, um túnel formado por uma luz tão suave. No meio, Josefa sorria vestindo uma imaculada túnica branca, pura como a neve.

Estendeu-lhe a mão, afagou-lhe o rosto e murmurou com uma doçura de mel:

-Amor! Porque demorastes tanto?

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Nunca mais souberam do Armindo, desapareceu como se o espaço o tivesse engolido.

A casa, essa, continua lá, ninguém a quer, dizem que está assombrada.

Nas noites escuras ouvem-se músicas gregorianas e, pelas frestas das portas e janelas, assoma uma luz mais brilhante que o Sol.

Todos a conhecem pela Casa da Hortênsias.

Ninguém sabe explicar quem as rega, nunca ninguém viu, mas continuam a florir como se uma mão invisível lhes alimentasse a seiva.




segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Pouca vergonha!







-Credo! Gritou a dona Augusta, onde já se viu tão pouca vergonha?

Foi um desabafo, apenas um desabafo de alguém que ainda vive, um pouco, num época que já passou. Era do tempo, como dizia, em que havia vergonha e em que as coisas eram feitas no recato do lar.

Dona Augusta foi casada 18 anos, o seu Augusto faleceu e ela garante que nunca, mas mesmo nunca, foi capaz de se despir ao pé do marido, onde se viu uma sem “vergonhança” dessas.

Ela era uma mulher de princípios e dizia com frequência:

-Foi assim que a minha mãe me ensinou e foi assim que eu eduquei a minha Vanessa.

Agora aquela pouca vergonha, como aqueles, além na esquina na maior indecência que se possa imaginar! Ela nem se consegue ver de tão enrolada no rapaz e com as bocas a sorverem as línguas. Que nojo!

Que porcaria, onde se viu tanto descaramento, já pensei ir até lá e 
dar-lhe uma descasca para eles aprenderem o que é o decoro e ficarem a saber, que as poucas-vergonhas tem lugar próprio, se querem pecar que vão para uma pensão como fazem essas desgraçadas que estão, à noite, na esquina da rua, só não fui lá porque a minha Vanessa ficou de me telefonar a dizer as notas que saem hoje.

Sim que a minha filha é uma rapariga que sabe o que quer e, que graças a Deus, nunca me deu desgostos como aqueles desgraçados além no assento do jardim.

Que coisa! Mãe do céu! Está uma mãe descansada, em casa, a pensar que a filha anda no bom caminho e acontece como aquela infeliz, ali no banco, estrafegada pelo rapaz e lambendo-se de uma forma que não lembra a ninguém. Esta juventude está perdida, não sei por este caminho onde isto vai parar.

-Não, não posso aguentar mais, isto é um atentado à moral pública.

Tirou o avental, ajeitou o carrapicho no alto da cabeça e abalou para descompor os desenvergonhados que estavam a dar semelhante espectáculo.

Ainda não tinha chegado, bem ao local, e já se fazia ouvir em alto e bom som:

-Meninos! Vocês ai no banco! Se querem fazer cenas tristes vão para as vossas casas! Isto aqui é um sítio público, não é nenhuma hospedaria!

O casal entrou no real, a rapariga tentava ajeitar o descomposto da roupa e com espanto olharam para tão estranha aparição.

Dona Augusta estancou como se um raio a tivesse atingido, quase por encanto, mudou a cor do rosto.

Adoçou a voz e, baixinho, murmurou:

-Oh Vanessa! Oh querida! A mãe, ao longe, não te conheceu!
 Não demores filha! Tenho o jantar quase pronto!






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