Quando entrou no café deu uns bons dias
tão sonantes que todos os clientes levantaram a cabeça um pouco surpreendidos.
Não era habitual, os fregueses deixavam sempre uma saudação envergonhada, tão
tímida que quase não se ouvia à talanqueira da porta.
Este foi diferente, entrou desempoeirado, franco e com um sorriso de dentes alvos que contagiavam.
As mulheres miravam à socapa e pensavam, gato jeitoso!
Os homens, com algum despeito, sussurraram:
-Deve ser bichona!
Indiferente, com um sorriso nos lábios e um olhar observador percorreu os lugares vazios, eram muitos, e foi sentar-se de costas para a montra de forma a poder observar bem todo o espaço.
Colocou cuidadosamente, na cadeira ao lado, uma pequena pasta preta e alguns livros encadernados.
Dona Matilde aproximou-se num misto de simpatia e admiração e, aclarando a voz, perguntou:
-Em que posso servir o senhor?
-Tiago, respondeu, sou Tiago e queria uma
torrada mas com doce.
Pode ser?
-Pode, respondeu dona Matilde, mas só
tenho de abóbora, morango e tomate!
Rasgou ainda mais o sorriso, deixando
brilhar uns dentes brilhantes de não fumador:
-Pode ser de tomate, é o meu preferido!
Dona Matilde encaminhou as suas tairocas para a cozinha, ia caprichar no serviço, afinal não eram todos os dias que tinha clientes tão charmosos.
Dona Matilde encaminhou as suas tairocas para a cozinha, ia caprichar no serviço, afinal não eram todos os dias que tinha clientes tão charmosos.
- Ai! Fosse ela mais nova e mais magra,
suspirou!
*****
Tiago Payne Castro nasceu numa aldeia
perdida nos contrafortes da serra, filho de pai português e mãe sueca.
O pai conheceu, em Estocolmo, a mãe uma
artista que se sentia encurralada no bulício de uma grande cidade e, tal como o
pai, sonhava com o bucolismo e a paz que se respira no campo.
Compraram uma pequena quinta num local
onde, nas noites de inverno, ainda se ouvia o uivar dos lobos, As lareiras
crepitavam nos dias frias e o tempo corria de forma suave, calma e desprendido
da maldição dos horários que condicionam e oprimem.
A mãe passava os dias no improvisado
atelier, onde nasciam as pequenas obras que depois mandava para um agente que
as comercializava em muitas cidades da Europa.
O pai, de uma pequena cabana, fez o seu
escritório com vista sobre a serra, dizia ele, que lhe dava mais inspiração, e
ia matraqueando numa velha Remington Rand os livros e os artigos que mandava
para jornais e revistas.
Tratavam da horta com o mesmo cuidado com que cuidavam da vida, sem pressas, mas com amor e gratidão por tudo o que ela lhes dava.
Nada de riquezas, mas o suficiente para o
conforto e a bem estar de uma liberdade.
*****
*****
Foi num entardecer de Maio, as tardes já não estavam tão frias e o vento soprava mais ameno. Estavam os pais sentados no alpendre bebendo uma bebida amarela, Tiago, tinha três anos, estava a brincar junto ao tronco do velho carvalho, tentando com um pequeno pau contrariar um carreio de formigas.
De repente ouviu o reboliço, abaixou-se e
espreitou ao longe. Eram três homens que chegaram num carro. O mais alto, com
uma espingarda, disparou sobre os pais, os outros entraram a correr em casa e
começaram a acarretar coisas que punham no porta-bagagens. Depois fugiram
deixando uma nuvem de pó na quietude da paisagem.
Tiago esteve longas horas num total
torpor, misto de medo e de impotência.
Foi na manhã, do dia seguinte que o homem, que vendia os queijos. se deparou com a chacina, dois corpos num charco de sangue seco.
Foi na manhã, do dia seguinte que o homem, que vendia os queijos. se deparou com a chacina, dois corpos num charco de sangue seco.
Da criança nem o mais pequeno rasto.
*****
Foi um pastor que alertou as autoridades, tinha avistado na encosta da serra um rapaz com ar selvagem, cabelos enormes e desgrenhados, ar encardido e com uma agilidade felina. Os cães ainda tentaram a perseguição, mas o rapaz rugiu com um animal e desapareceu no meio do mato e das fragas.
Foi um pastor que alertou as autoridades, tinha avistado na encosta da serra um rapaz com ar selvagem, cabelos enormes e desgrenhados, ar encardido e com uma agilidade felina. Os cães ainda tentaram a perseguição, mas o rapaz rugiu com um animal e desapareceu no meio do mato e das fragas.
Fizeram uma batida, homens e animais esquadrinharam todos os recantos, andaram pelos sítios onde os lobos se acoitam durante o dia mas os caminhos eram difíceis e perigosos, pelo que ao cair da tarde desistiram sem notarem qualquer indício de rapaz, muitos pensaram que o pastor estava com visões ou andava brincar com coisas sérias.
No dia seguinte, com a ajuda de
especialistas, voltaram a esquadrinhar todos os recantos, e a sorte esteve
presente, numa gruta no meio de uma ninhada de lobos uma criança dormia.
Estava imunda e receosa, com dificuldade entendia
o que lhe diziam, não consentia a aproximação e rosnada de forma agressiva
sempre que alguém tentava deitar-lhe a mão.
Para a tia foi fácil descobrir quem era a criança logo que viu as fotos, nos jornais, era o Tiago o seu sobrinho que tinha desaparecido na chacina de há três atrás.
Para a tia foi fácil descobrir quem era a criança logo que viu as fotos, nos jornais, era o Tiago o seu sobrinho que tinha desaparecido na chacina de há três atrás.
Tomou conta da criança, foi difícil, reagia mal, comia de forma desordenada, atacava rangendo os dentes e com os dedos retesados como garras.
A pouco-e-pouco o carinho, a ternura e a paciência da tia Carmem fizeram o milagre.
Tiago passou a ser, de novo, uma criança calma e pacífica. Recuperou a faculdade de falar, começou a sentir-se bem com o conforto e as recordações surgiam naturalmente.
Lembrava-se do homem mau, dos tiros e dos
dentes que brilhavam quando se ria.
Depois, quando acordou, estava deitado junto de três irmãos-lobos com quem aprendeu a mamar na mãe que ia e vinha trazendo a comida.
Quando via os homens fugia para junto dos
irmãos, tinha medo e lembrava o pai e a mãe deitados no chão, com todo aquele
sangue, e o homem com uma espingarda a deitar fumo e a rir fazendo brilhar
aqueles dentes amarelos.
*******
Cresceu, estudou e aprendeu a ser um
homem.
A tia partiu com o mesmo sorriso que
sempre lhe conheceu. Antes de fechar os olhos pediu-lhe:
-Meu filho vou partir mas vou andar sempre
perto de ti, não te esqueças de respeitar e honrar a memória dos teus pais.
Ele só abanou a cabeça, as lagrimas não o
deixaram falar.
A tia deixou-lhe uma pequena fortuna, um curso e muitos ensinamentos.
A tia deixou-lhe uma pequena fortuna, um curso e muitos ensinamentos.
Ela nunca soube, ele, nunca lhe contou que
o ódio que sentia dentro dele nunca o conseguiu apagar.
******
******
As torradas estavam razoáveis mas o doce
estava óptimo.
Ficou a sorver o café em pequenos goles
enquanto ia mirando os pequenos grupos, esperava ver os sorrisos, queria
descobrir um esgar onde brilhassem dois dentes de ouro.
O rosto, se calhar já não se lembrava bem, mas o cheiro e o sorriso naquele trejeito, de dentes cintilando, estava bem registado no seu pensamento. Nunca o esqueceu.
*****
Percorreu todas as localidades, andou por cafés e tabernas olhando e farejando como um cão, mirou bocas, espreitou caçadores.
Perguntava de forma discreta, como se
apenas fosse uma pequena curiosidade, sobre quem gostava de usar dentes desse
metal.
*****
Já estava um pouco cansado, algum
desconforto e frustração mas um desejo enorme de continuar.
Mas desistir, isso nunca!
Era um domingo solarengo, embora a temperatura estivesse baixa, à porta das casas, os mais idosos, ficavam ao sol para aquecer os doridos ossos.
Era um domingo solarengo, embora a temperatura estivesse baixa, à porta das casas, os mais idosos, ficavam ao sol para aquecer os doridos ossos.
Tiago, naquela forma encantadora que sempre usava, meteu conversa com um simpático e desdentado velhote que com a agilidade, que os dedos ainda lhe permitiam, ia deitando um pouco de tabaco numa mortalha que depois enrolava e passava pelos lábios para selar o cigarro.
-Nunca consegui enrolar um cigarro com essa facilidade, disse Tiago.
O idoso riu, um sorriso de dois dentes perdidos no fumo do cigarro que acabara de acender.
-Tem que praticar rapaz, só praticar.
Sentou-se ao seu lado.
-Não se importa! Perguntou.
Voltou a sorrir e abanou a cabeça em sinal
de aprovação, enquanto ia deixando sair umas pequenas baforadas de fumo.
-Sabe, disse, porque não manda fazer uma dentadura?
Foi uma das gargalhas mais sonoras de que se
lembra. Estava mesmo divertido, e foi um pouco engasgado que respondeu:
-Às tantas, ainda, vão dizer que devia por uns dentinhos de ouro como os irmãos Canazitas!
O coração pareceu querer saltar do peito, respirou fundo para disfarçar a ansiedade e perguntou:
-Quem são esses irmãos?
Não pareceu admirado com a curiosidade.
-São três maraus que vivem na casa amarela ao fundo da povoação. Bom, eram, porque o mais velho morreu o ano passado, alguém lhe deu um tiro. Os outros dois não são flores que se cheirem, maus caracteres.
Falou mais um pouco, despediu-se e fui
procurar a tal casa amarela.
Deve ter sido amarela noutros tempos,
agora era uma mescla de manchas num fundo que já foi dessa cor.
Ficou no carro o resto da tarde, na
esperança de ver alguém entrar ou sair, mas a noite caiu e nada de movimentos.
Ia voltar tantas vezes que um dia iria ter
sorte.
*****
O povo estava em alvoroço, os lobos nunca tinham chegado tão próximo do povoado.
Hoje, de manhã, tinham encontrado, o Zé e o Joaquim Canazitas, mortos junto ao curral da casa amarela.
Só podiam ter sido os lobos, tinham a gargantas dilaceradas por garras afiadas, olhos aterrorizados e a boca num esgar de sofrimento onde sobressaiam, nas gengivas despedaçadas, os dois dentes de ouro que tanto adoravam.





