terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Segredo da casa Amarela






Em tempos idos já foi imponente, agora é apenas uma casa abandonada.

Fica no alto de uma rua empinada, no meio de um terreno que antes foi um jardim, agora apenas os tojos, as silvas e algumas heras entrelaçadas fazem desse espaço um refúgio de lagartixas e outros rastejantes, que se acoitam nos emaranhados das plantas que por ali proliferam.

A construção, muito degradada, deixa ainda ver a pureza das linhas, onde a empena dá um toque quase senhorial.

As janelas rasgadas em arco, apresentam as mazelas que o tempo vai agravando, madeiras apodrecidas e penduradas em dobradiças que a ferrugem corrompeu, vidros estilhaçados onde as teias de aranha fazem caprichosos rendados.

A porta, maciça, já perdeu a cor original mas contínua firme, tendo apenas a aldraba, em forma de lua, com o batente arrancado.

As paredes vão ficando descascadas mas o amarelo ainda predomina no conjunto das manchas que o tempo deixou.

A casa tem dona, uma tal Sabrina, sobrinha da última habitante, Dona Catarina de Aragão, que numa tarde amena de primavera fechou os olhos para não mais os abrir.

Ninguém sabe dessa Sabrina e, até se julga, que ela pode não saber da morte da tia e muito menos que é a dona da Casa Amarela.


****

Talvez eu me tenha adiantado nesta narrativa, mas por vezes o entusiasmo tem dessas coisas.

A casa amarela foi mandada construir, há muitos anos, pelo insigne doutor Aragão, homem de letras, devoto de São Francisco de Sales, embora na altura, os mais informados, julguem que era apenas por ser o padroeiro dos escritores, que era um sonho que nunca tinha conseguido concretizar, apenas alguns artigos na Gazeta do Povo que, diga-se em abono da verdade, pouco interesse despertaram.

Mas o sonho de ter no alto do povoado uma casa era um anseio que havia herdado do pai, tinha que ser no alto, porque era o simbolizo do domínio e amarela porque essa é a cor do ouro. Do poder.

Quando foi inaugurada ofereceram, no largo do terreiro fronteiriço, uma festa ao povo.
Um porco rodou horas num espeto e o vinho correu abundante, foi um acontecimento que teve direito à primeira página da Gazeta desse mês.

Era uma família conservadora, homens tradicionais e mulheres de quem a beleza se esqueceu.
Apenas uma filha teve a coragem de partir, um dia, perdida de amores por um simpático caixeiro-viajante.
Foi banida do parentesco, esquecida, o seu nome, Adelaide, foi proibido naquela casa.

Com a morte de Alcides, apenas restou Catarina que guardava um segredo que tinha que zelar e passar ao seguinte, quando sentisse que as pesadas asas negras da morte se estavam a aproximar.

Quando pressentiu que, com 85 anos, o tempo se começava a escoar foi à procura da irmã escorraçada, não podia pronunciar o nome da prescrita, mas tinha que a encontrar e transmitir o segredo que preservava o descanso eterno da família.

Soube, através do investigador contratado, que a fugitiva tinha morrido, a pneumónica não a tinha poupado, restava uma filha, Sabrina, que se pensava podia viver em terras espanholas.

A velha senhora ficou em pânico, tinha que encontrar a sobrinha, como lhe era difícil dizer sobrinha, mas era isso mesmo.

Encarregou o pesquisador de fazer o seu trabalho, indagar, e com ele abalou a caminho de terras espanholas. Precisava de a encontrar senão, toda a família, iria perder o descanso da vida eterna.

Dona Catarina, na companhia do investigador partiu para terras de "nuestros hermanos" e por lá ficou, a viagem era superior às suas fracas forcas, não aguentou e partiu com a angústia na alma e a tristeza no olhar.

O investigador prometeu continuar a procura, mas não teve a certeza que, se ela, ainda lhe ouviu as ultimas palavras.

 *****

A mansão ficou abandonada e a maldição começou.
Quando principiava o anoitecer, ninguém se atrevia a passar junto à casa Amarela, os gemidos, as sombras sinistras, os esvoaçares, aqueles fogachos que a iluminavam de forma estranha e o tenebroso escuro do sítio eram atemorizadores.

O povo andava em alvoroço, os que moravam mais próximo apressaram-se em mudar para o lado contrário do povoado, os que não puderam, mal escurecia, trancavam portas e janelas e acendiam luminárias aos santos da sua devoção.

Os técnicos municipais, ainda, mandaram uma máquina para arrasar a casa e acabar com o pesadelo, mas as forças do mal eram superiores à vontade dos homens, a engenho mal começou a ingreme subida sucumbiu, o motor rebentou e as rodas esvaziaram de repente.

O medo estava instalado e o senhor padre-cura, nada podia fazer, tinha aprendido a falar com Deus, nunca o prepararam para coisas do demónio. A casa, não tinha dúvidas, estava possuída.
 
*******

Numa tarde, tempestuosa, de Janeiro um carro parou junto ao café Central. O condutor saiu e, com um chapéu-de-chuva, foi ajudar na saída da mulher que o acompanhava.
Deram uma fugida e entraram no estabelecimento onde alguns homens olharam admirados para aquele casal. Ele gordo, atarracado e com um ar muito sisudo. Ela alta, esbelta e com um sorriso luminoso.

Foi a mulher quem se dirigiu aos presentes:

-Meus senhores, não me conhecem mas eu tenho raízes nesta terra, não nasci aqui mas, a minha mãe nasceu, era uma das filhas da família Aragão.

Um dos presentes levantou-se e tirando o boné que lhe cobria a cabeça perguntou:

-Então quer dizer que é a filha da Adelaide? Sabe o segredo da casa amarela e vem para ajudar o padre a acabar com a maldição?

-Sou a Sabrina, filha da Adelaide, respondeu a visitante, mas não sei o segredo, a minha tia Catarina não me encontrou a tempo de mo dizer!

Os homens ficaram com um ar de preocupação. O que tinha falado coçou a cabeça, num gesto de muita preocupação, e deixou escapar:

-Quer dizer que a maldição não vai acabar e nós vamos continuar nesta merda de medo, em que andamos há um ror de tempo?

A rapariga era muito bonita, devia ser a única mulher da família que conseguiu receber toda a beleza que às outras foi negada.

Tinha uns dentes alvos, uns lábios sensuais e um sorriso cativante.

-Meus senhores, será possível chamar o padre e irmos todos ver essa tão falada casa?

José Sovela, o mais novo e mais afoito, saiu disparado protegido numa cobertura de oleado, na procura do padre.

Não demoraram, o padre bem embrulhado numa capa alentejana, desaparecia debaixo dum enorme guarda-chuva.

Seguiram em cortejo, cada um abrigado da melhor maneira.
Estranha procissão numa tarde tempestuosa.

A trovoada tinha tomado conta do tempo, era quase tenebrosa, os relâmpagos cegavam e o ribombar atordoava os ouvidos mais sensíveis.

Mas eles seguiam na fé que Sabrina, mesmo sem o saber, pudesse ter o segredo que os libertasse.

Começaram a ladeira, a água da chuva descia com ímpeto nas regueiras da rua. De vez em quando, um relâmpago mais forte tornava dia a tarde que ia escurecendo.

Chegaram ao terreiro, a casa era apenas uma mancha no meio da penumbra que ia caindo.

Olharam na impotência de quem nada podia fazer, foi então que Sabrina abriu os braços, apontou e perguntou:

-É esta a minha herança?

De repente fez-se noite e um raio, no meio de um relâmpago mais brilhante que o Sol, atravessou o espaço e caiu mesmo no meio da casa amarela.

As chamas irromperam, os homens ajoelharam-se, mais por temor de que por devoção.

As labaredas iam consumindo a casa como se as pedras fossem simples folhas de papel. Por entre as chamas notava-se algo, como se fossem almas a libertar-se, confundindo-se as sombras de umas com a luz das outras.

*****

Em pouco tempo apenas um monte de cinzas, mostravam tudo o restava da casa.

A chuva parou, a tormenta desapareceu e o Sol brilhou como se a tempestade fizesse já parte do passado.




 


 



quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Cliente







Quando entrou no café deu uns bons dias tão sonantes que todos os clientes levantaram a cabeça um pouco surpreendidos. Não era habitual, os fregueses deixavam sempre uma saudação envergonhada, tão tímida que quase não se ouvia à talanqueira da porta.

Este foi diferente, entrou desempoeirado, franco e com um sorriso de dentes alvos que contagiavam.

As mulheres miravam à socapa e pensavam, gato jeitoso!

Os homens, com algum despeito, sussurraram:
-Deve ser bichona!

Indiferente, com um sorriso nos lábios e um olhar observador percorreu os lugares vazios, eram muitos, e foi sentar-se de costas para a montra de forma a poder observar bem todo o espaço.

Colocou cuidadosamente, na cadeira ao lado, uma pequena pasta preta e alguns livros encadernados.

Dona Matilde aproximou-se num misto de simpatia e admiração e, aclarando a voz, perguntou:

-Em que posso servir o senhor?

-Tiago, respondeu, sou Tiago e queria uma torrada mas com doce.
Pode ser?

-Pode, respondeu dona Matilde, mas só tenho de abóbora, morango e tomate!

Rasgou ainda mais o sorriso, deixando brilhar uns dentes brilhantes de não fumador:

-Pode ser de tomate, é o meu preferido!

Dona Matilde encaminhou as suas tairocas para a cozinha, ia caprichar no serviço, afinal não eram todos os dias que tinha clientes tão charmosos.

- Ai! Fosse ela mais nova e mais magra, suspirou!

*****

Tiago Payne Castro nasceu numa aldeia perdida nos contrafortes da serra, filho de pai português e mãe sueca.

O pai conheceu, em Estocolmo, a mãe uma artista que se sentia encurralada no bulício de uma grande cidade e, tal como o pai, sonhava com o bucolismo e a paz que se respira no campo.

Compraram uma pequena quinta num local onde, nas noites de inverno, ainda se ouvia o uivar dos lobos, As lareiras crepitavam nos dias frias e o tempo corria de forma suave, calma e desprendido da maldição dos horários que condicionam e oprimem.

A mãe passava os dias no improvisado atelier, onde nasciam as pequenas obras que depois mandava para um agente que as comercializava em muitas cidades da Europa.

O pai, de uma pequena cabana, fez o seu escritório com vista sobre a serra, dizia ele, que lhe dava mais inspiração, e ia matraqueando numa velha Remington Rand os livros e os artigos que mandava para jornais e revistas.

Tratavam da horta com o mesmo cuidado com que cuidavam da vida, sem pressas, mas com amor e gratidão por tudo o que ela lhes dava.

Nada de riquezas, mas o suficiente para o conforto e a bem estar de uma liberdade.

*****

Foi num entardecer de Maio, as tardes já não estavam tão frias e o vento soprava mais ameno. Estavam os pais sentados no alpendre bebendo uma bebida amarela, Tiago, tinha três anos, estava a brincar junto ao tronco do velho carvalho, tentando com um pequeno pau contrariar um carreio de formigas.

De repente ouviu o reboliço, abaixou-se e espreitou ao longe. Eram três homens que chegaram num carro. O mais alto, com uma espingarda, disparou sobre os pais, os outros entraram a correr em casa e começaram a acarretar coisas que punham no porta-bagagens. Depois fugiram deixando uma nuvem de pó na quietude da paisagem.

Tiago esteve longas horas num total torpor, misto de medo e de impotência.

Foi na manhã, do dia seguinte que o homem, que vendia os queijos. se deparou com a chacina, dois corpos num charco de sangue seco.

Da criança nem o mais pequeno rasto.

*****

Foi um pastor que alertou as autoridades, tinha avistado na encosta da serra um rapaz com ar selvagem, cabelos enormes e desgrenhados, ar encardido e com uma agilidade felina. Os cães ainda tentaram a perseguição, mas o rapaz rugiu com um animal e desapareceu no meio do mato e das fragas.

Fizeram uma batida, homens e animais esquadrinharam todos os recantos, andaram pelos sítios onde os lobos se acoitam durante o dia mas os caminhos eram difíceis e perigosos, pelo que ao cair da tarde desistiram sem notarem qualquer indício de rapaz, muitos pensaram que o pastor estava com visões ou andava brincar com coisas sérias.

No dia seguinte, com a ajuda de especialistas, voltaram a esquadrinhar todos os recantos, e a sorte esteve presente, numa gruta no meio de uma ninhada de lobos uma criança dormia.

Estava imunda e receosa, com dificuldade entendia o que lhe diziam, não consentia a aproximação e rosnada de forma agressiva sempre que alguém tentava deitar-lhe a mão. 

Para a tia foi fácil descobrir quem era a criança logo que viu as fotos, nos jornais, era o Tiago o seu sobrinho que tinha desaparecido na chacina de há três atrás.

Tomou conta da criança, foi difícil, reagia mal, comia de forma desordenada, atacava rangendo os dentes e com os dedos retesados como garras.

A pouco-e-pouco o carinho, a ternura e a paciência da tia Carmem fizeram o milagre.

Tiago passou a ser, de novo, uma criança calma e pacífica. Recuperou a faculdade de falar, começou a sentir-se bem com o conforto e as recordações surgiam naturalmente.

Lembrava-se do homem mau, dos tiros e dos dentes que brilhavam quando se ria.

Depois, quando acordou, estava deitado junto de três irmãos-lobos com quem aprendeu a mamar na mãe que ia e vinha trazendo a comida.

Quando via os homens fugia para junto dos irmãos, tinha medo e lembrava o pai e a mãe deitados no chão, com todo aquele sangue, e o homem com uma espingarda a deitar fumo e a rir fazendo brilhar aqueles dentes amarelos.

*******

Cresceu, estudou e aprendeu a ser um homem.

A tia partiu com o mesmo sorriso que sempre lhe conheceu. Antes de fechar os olhos pediu-lhe:

-Meu filho vou partir mas vou andar sempre perto de ti, não te esqueças de respeitar e honrar a memória dos teus pais.

Ele só abanou a cabeça, as lagrimas não o deixaram falar.

A tia deixou-lhe uma pequena fortuna, um curso e muitos ensinamentos.

Ela nunca soube, ele, nunca lhe contou que o ódio que sentia dentro dele nunca o conseguiu apagar.


******

As torradas estavam razoáveis mas o doce estava óptimo.

Ficou a sorver o café em pequenos goles enquanto ia mirando os pequenos grupos, esperava ver os sorrisos, queria descobrir um esgar onde brilhassem dois dentes de ouro.

O rosto, se calhar já não se lembrava bem, mas o cheiro e o sorriso naquele trejeito, de dentes cintilando, estava bem registado no seu pensamento. Nunca o esqueceu.

*****

Percorreu todas as localidades, andou por cafés e tabernas olhando e farejando como um cão, mirou bocas, espreitou caçadores.

Perguntava de forma discreta, como se apenas fosse uma pequena curiosidade, sobre quem gostava de usar dentes desse metal.

*****

Já estava um pouco cansado, algum desconforto e frustração mas um desejo enorme de continuar.

Mas desistir, isso nunca!

Era um domingo solarengo, embora a temperatura estivesse baixa, à porta das casas, os mais idosos, ficavam ao sol para aquecer os doridos ossos.

Tiago, naquela forma encantadora que sempre usava, meteu conversa com um simpático e desdentado velhote que com a agilidade, que os dedos ainda lhe permitiam, ia deitando um pouco de tabaco numa mortalha que depois enrolava e passava pelos lábios para selar o cigarro.

-Nunca consegui enrolar um cigarro com essa facilidade, disse Tiago.

O idoso riu, um sorriso de dois dentes perdidos no fumo do cigarro que acabara de acender.

-Tem que praticar rapaz, só praticar.

Sentou-se ao seu lado.

-Não se importa! Perguntou.

Voltou a sorrir e abanou a cabeça em sinal de aprovação, enquanto ia deixando sair umas pequenas baforadas de fumo.

-Sabe, disse, porque não manda fazer uma dentadura?

Foi uma das gargalhas mais sonoras de que se lembra. Estava mesmo divertido, e foi um pouco engasgado que respondeu:

-Às tantas, ainda, vão dizer que devia por uns dentinhos de ouro como os irmãos Canazitas!

O coração pareceu querer saltar do peito, respirou fundo para disfarçar a ansiedade e perguntou:

-Quem são esses irmãos?

Não pareceu admirado com a curiosidade.

-São três maraus que vivem na casa amarela ao fundo da povoação. Bom, eram, porque o mais velho morreu o ano passado, alguém lhe deu um tiro. Os outros dois não são flores que se cheirem, maus caracteres.

Falou mais um pouco, despediu-se e fui procurar a tal casa amarela.

Deve ter sido amarela noutros tempos, agora era uma mescla de manchas num fundo que já foi dessa cor.

Ficou no carro o resto da tarde, na esperança de ver alguém entrar ou sair, mas a noite caiu e nada de movimentos.

Ia voltar tantas vezes que um dia iria ter sorte.
 

*****

O povo estava em alvoroço, os lobos nunca tinham chegado tão próximo do povoado.

Hoje, de manhã, tinham encontrado, o Zé e o Joaquim Canazitas, mortos junto ao curral da casa amarela.

Só podiam ter sido os lobos, tinham a gargantas dilaceradas por garras afiadas, olhos aterrorizados e a boca num esgar de sofrimento onde sobressaiam, nas gengivas despedaçadas, os dois dentes de ouro que tanto adoravam.







 







quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Na Bruma





Foi há tantos anos que por vezes a memória já se perde na bruma do tempo.

Sei, porque há coisas que nunca esquecemos, que num gelado dia de Janeiro, Maria Angelina, descobriu que esse atraso não era normal. Não foi a primeira vez que o coração se sobressaltou, que a cabeça girou no receio de ser desta vez que o caldo se ia entornar.

O seu Tónio estava no serviço militar e só vinha a casa ao fim de semana, mas com uma fome danada, e depois era o fim do mundo. O que valia era a casa ser paredes meias com uns vizinhos, um pouco moucos, e que já não davam fé do reboliço que ia por aqueles lados.

Ela bem lhe pedia para ter cuidado, mas quem conseguia suster o saciar desses prolongados jejuns?

Agora andava preocupada, já eram dias a mais e aquela gaita não havia maneira de aparecer.

Tinha vergonha de ir à farmácia pois aqui todos se conheciam e o falatório não ia tardar.

Foi à vila e os receios passaram a ser uma certeza, estava grávida e, como lhe disse a farmacêutica, grávida e bem grávida.


*******

Maria Angelina andava num misto de alegria e tristeza, dividida entre a prazer e a dúvida, entre o desejo e o não querer.

Havia no seu peito uma angústia que não sabia explicar, ser mãe e não adivinhar qual seria a reação do Tónio. Estava convencida que ia ficar feliz, ele, gostava tanto de crianças.

Mas entre o gostar e o querer vai uma distância que por vezes é maior que o nosso pensamento. Ela recordava, as conversas longas, nas noites frias de Inverno, entrelaçados e aconchegados nos lençóis, quando lhe falava em casamento e filhos, mudava o assunto, acariciava-lhe o peito e, fingindo ironia, ia acrescentando que estas lindas peças não podiam ser estragadas pelas bocas gulosas de um bebé.

Ela, na altura, ria-se pensando que o seu Tónio queria apenas elogiar a firmeza do peito mas agora, essas palavras faziam eco no seu pensamento e tornavam penosa esta espera, esta incerteza.


*****

Chovia copiosamente na noite, dessa sexta-feira, quando a porta estremeceu com as batidas anunciadoras da chegada do nosso militar, pingando como esponja encharcada.

-Vai já tomar um banho quente antes que te constipes, disse Maria Angelina.

O homem deu uma gargalhada e perguntou:

-E então o meu beijo? Primeiro o beijo depois o banho.

Voltou, embrulhado na toalha, para o calor do lume que crepitava na lareira, mas o rosto da namorada estava estranho, fechado, escuro e impenetrável.

Timidamente perguntou:

-Que bicho te mordeu cachopa? Estás tão sisuda!

Ela trincou o lábio para não chorar, queria parecer forte, era difícil, mas a coragem veio ao de cima:

-Estou grávida, estou prenha !

O homem mudou de cor, levantou-se num ápice e gritou:

-Tu grávida? Estás maluca, como podes estar grávida? Com quem andas metida enquanto eu marco passos no quartel?

A mulher saltou do banco de atiçador em riste, os olhos metiam medo e soltando todas as forças que encontrou, dentro dela, gritou:

-Desaparece daqui antes que eu me desgrace e acaba com a vida do maior patife que se cruzou na minha vida. Sai, saia depressa, porque eu tenho nojo de te ter na minha presença!

Vestiu a farda encharcada, remordeu impropérios e saiu para a negrura da noite.

***

Quando saiu de casa ainda os galos não tinham cantado. Não chovia, mas um vento frio parecia cortar as orelhas. Maria Angelina não queria testemunhas daquele abalar matutino, quase marginal, esgueirou-se, com duas malas nas mãos, colada às paredes das casas desertas, não queria que os vizinhos, que a conheciam, se apercebessem deste desertar madrugador.

A camioneta, que fazia a ligação à automotora, saia do largo da feira às seis e meia da manhã, depois era só apanhar o comboio e partir para bem longe da terra que a viu nascer.

Tenho feito, há pouco tempo, 25 anos nesta aldeia perdida nos contrafortes da serra. Daqui viu partir a mãe consumida pela maldita doença que lhe corrompeu as entranhas e, pouco depois, o pai que se refugiou na bebida até que um dia o encontram pendurado no velho castanheiro.

Carpiu o desgosto, chorou no silêncio da casa deserta, até que os olhos secaram quando as lagrimas lavaram toda a dor que carrega na alma.

****

Nunca mais tinha sorrido até que um dia o Tónio, aperaltado, numa farda de militar, se lhe perfilou na sua frente e entre risos fez continência e lhe perguntou se a podia acompanhar a casa.

Deixou-se escoltar e voltou a sorrir, a vida passou a ter novamente algum significado.

Entregou-se aquele homem, o primeiro na sua vida, de uma forma tão intensa que ela própria não sabia explicar, vivia cada momento como se o mesmo fosse o ultimo, bebia as suas palavras, alimentava-se da seiva dos loucos fins-de-semana, dos sonhos, das promessas sussurradas nos momentos de paixão. 

E agora via que, afinal, tudo era uma mentira!

*****
A camioneta começou a sua marcha lenta pela sinuosa estrada, deixando um rasto de fumo negro, Maria Angelina olhou as poucas luzes que assinalavam a aldeia que se ia diluindo á medida que o veículo ia descendo no caminho da vila.

Maria Angelina deixou cair uma lagrima, não de despedida, pois sabia que um dia ia voltar, mas para libertar a vingança que lhe ia dentro do coração.

Quando a automotora partiu sentiu como se vida tivesse acabado aqui, para retomar quando chegasse à cidade que a esperava na imensidão do desconhecido.

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Estávamos no final de uma amena tarde de Setembro quando o pequeno Ricardo deu a entender ao mundo que tinha acabado de chegar, Maria Angelina recebeu nos braços o filho que carregara no ventre durante, quase, 9 meses.

Era tão pequeno e tão frágil mas não podia negar, era a cara chapada do Tónio.

*****

Os dias correm tão ligeiros e tão metamorficamente que, quando olhamos para o lado, já os meses se transformaram em anos e os cabelos brancos teimam em despontar nas têmporas.

O Ricardo estava um rapaz que era o enlevo da mãe, ladino e de uma esperteza que a deixava, por vezes, sem o poder de resposta para algumas perguntas do filho. Hoje quando chegou do colégio olhou a mãe e perguntou:

-Porque é que eu não tenho um pai como os outros meninos?

Ficou perplexa e embora já esperasse, há muito, essa pergunta engasgou-se antes de responder

-O teu pai foi fazer uma viagem muito grande e não sabemos quando volta!

-Mas, mamã, ele podia telefonar, ou não gosta de nós?

-Gosta muito de ti e um dia ele telefona. Agora vai lavar as mãos para lanchares!

Para Maria Angelina o pai do Ricardo era, apenas, uma má recordação do passado que tinha alimentado no ódio até ao dia, que esperava próximo, pudesse destruir a vida de quem destruiu a sua. O desejo de vingança estava a germinar ao longo destes sete anos, em cada dia que passava mais se enraizava o desejo de acabar com a existência do malvado, que numa noite tinha enterrado todos os sonhos que o seu coração albergara.

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Estava tudo planeado na sua cabeça, ia acabar com o desgraçado mas, antes, queria que ele conhecesse o filho e pudesse ver que o retrato não precisava de provas de paternidade.

Ia, passados estes anos, voltar à aldeia.

A automotora há muito que foi desactivada, agora havia uma camioneta até à vila e, depois, um táxi para a povoação.

******

Ricardo acordou, quase, de madrugada e foi enroscar-se na cama da mãe, estava agitado e ansioso pela viagem de camioneta, nunca tinha andado e, a promessa de talvez puder conhecer o pai provocava-lhe um misto de medo e satisfação, não sabia explicar mas era um sentimento bom e, ao mesmo tempo, mau.

A mãe tinha-lhe dito:

-Sabes filho, o teu pai não te conhece e a mãe não sabe se ele gosta muito de ti, nunca te viu e é natural que se tenha esquecido, mas não te preocupes, se ele não gostar eu gosto pelos dois.

Ao moço isso causava alguma confusão, pois ele também não conhecia o pai e, apesar disso, gostava muito dele.

Maria Angelina tinha preparado a viagem cuidadosamente, sabia que o Tóino acabada a tropa tinha voltado à terra e estava a tomar conta dos negócios do pai, que era um pequeno agricultor e, também, dono do café que ficava no largo da Igreja, mesmo no centro da aldeia.

Levava na mala a pistola, embrulhada num lenço, e no coração o ódio suficiente para fazer o que tinha que ser feito.

Ia apresentar o filho, depois deixaria a criança na casa da Dona Marcolina, vizinha de toda a vida, voltava ao café e descarregaria a pistola, no malvado, até que toda a raiva deixasse o seu coração. Não era fácil, mas tinha que ser feito, tinha que limpar a honra.

*****
Quando o táxi os deixou no largo da Igreja, muitas caras se voltaram para aquela mulher que com uma criança nas mãos se encaminhava para o café, muitos pareciam conhecer, mas as memórias estavam baralhadas.

Àquela hora o café estava quase vazio, ao balcão um homem ia, vagarosamente, limpando umas chávenas que depois alinhava na máquina do café.

Tóino olhou a mulher e a criança, primeiro com dificuldade pois a contraluz não o deixava enxergar bem, depois com os soluços a embargar-lhe a voz gritou:

-Amor onde tens andado? Voltei no outro dia de manhã para te pedir desculpa, depois corri todos os sítios conhecidos, possíveis e impossíveis, para te encontrar mas ninguém sabia de ti. Esse é o nosso filho? É lindo! Vamos recuperar o tempo perdido, vamos criar o nosso menino!

Maria Angelina voltou a sorrir, esqueceu ao que vinha, afinal Tóino foi o primeiro e único homem na sua vida.










terça-feira, 23 de outubro de 2012

O Padre Inácio







Já todos devem conhecer o padre Inácio! 

Não, não é esse, é o padre-cura da minha paróquia.

Não é notável por actos ou feitos, não se notabilizou por obras de beneficência, de caridade, exorcismos, sermões mais inflamados ou por qualquer mérito de santidade, nada disso é apenas um homem bom que tenta passar despercebido numa paroquia de pessoas simples que vivem da pastorícia ou do cultivo da terra.

Pois o nosso rotundo padre, homem de muito virtude, apreciador de boa mesa tenta passar despercebido, não quer protagonismo pois a simplicidade da vida é a mais adequada a um homem de Deus.

Tem uma vida austera que divide, entre a casa de Deus e a casa da paróquia onde habita.

Na casa de Deus vai cumprindo as missões a que está destinado, missas, baptizados, casamentos e, como não pode deixar de ser, os funerais. 

Tem na sua diocese muitos, e bons, voluntários que o aliviam de muitos afazeres, para os quais, confessa, não se sente muito vocacionado. 

Orientar a catequese e todas as burocracias administrativas que, apesar de tudo, fazem parte da rotina diária da sua paróquia não é o seu forte e muito menos a sua devoção.

Sempre que pode refugia-se na tranquilidade da casa que lhe foi destinada e onde a sua governanta, dona Rosa, o trata como se fosse um príncipe e os resultados estão bem à vista. O que lhe vai valendo é a horta, sua paixão, onde se deixa perder no tempo, abrindo rasgos, fazendo caldeiras junta às arvores, cavando e ficando extasiado vendo o fruto do seu trabalho, e de tanto amor, desabrochando para regalo e alegria do padre.

À tarde fica sentado ouvindo os melros que se vão alimentando dos seus frutos, mas ao contrário do padre-cura do Guerra Junqueiro, o nosso padre Inácio não os imagina na frigideira, gosta de os ver e ouvir na natureza.

Manhã, bem cedo, antes dos deveres canónicos, faz correr a água enquanto com uma pequena enxada vai acompanhando o caudal para que todas as plantas recebam a parte a que têm direito.

Antes de sair ouve, quase sempre, o responso da dona Ross, pois as mãos e unhas encardidas pela terra não vão bem com o pastor do rebanho desta paróquia.

Ouve, mira-a, sorri e concluí:

-Tem razão minha amiga, vou já esfregar estas mãos e unhas com uma escova e esse seu detergente que faz maravilhas!

Depois sai para a luz dia, bonacheirão e com um sorriso rasgado para com quem se cruza no caminho da Igreja.

****

Dona Rosa é a sua governante mas, na realidade, ele sente-se mais como uma mãe que trata com todo o carinho e desvelo esse filho que nunca teve. Ficou viuva, nunca sentiu a bênção da maternidade, ela que tanto amor tinha para dar. Quando lhe fizeram o convite para governanta do padre aceitou embora com algum receio, pois sempre lhe disseram que os padres tomavam aquele ar de beatitude mas, depois, fora do círculo da Igreja eram umas pestinhas difíceis de aturar. Mas teve sorte o padre Inácio era de uma grande bondade, para ele tudo estava bem, adorava tudo o que ela cozinhava e nunca fez qualquer reparo. Aceitava os conselhos e chamava-a, com carinho, de mamã Rosinha.

***

Tudo corria na paz do Senhor, os dias passavam naquela monotonia e quietude que o padre tanto apreciava, a sua Igreja, os seus paroquianos, o conforto da sua casa e a horta, sim a horta, onde se embrenhava em solilóquio com as couves, os nabos e toda a classe de produtos que a terra tão generosamente lhe ia oferecendo.

Parecia que tudo era perfeito mas, de repente o padre blasfemou, o bom e tranquilo padre Inácio perdeu a postura e, acreditem, largou um impropério contra a sua mamã Rosa.

Dona Rosa não esperava, saiu disparada e só parou na casa da sua irmã Maria Gertrudes, que muito admirada lhe perguntou:

-Que fazes aqui a esta hora Rosa?

Rosa com as lágrimas saltando dos olhos apenas respondeu:

-O padre virou demónio, chamou-me velha desastrada, a mim que tenho sido mais do que uma mãe para aquele traste!

-Mas que coisa ruim aconteceu mulher?

-Nada, respondeu, ou quase nada, apenas me distrai, sentei-me em cima dos tomates do padre Inácio e esborrachei-os.


Depois, dona Rosa entrou num choro convulsivo.

-Credo mulher, que brutalidade. Como fizestes isso?

- A culpa foi dele, colheu-os na horta, deixou-os em cima do banco e não me avisou.

Eu não podia adivinhar!





terça-feira, 16 de outubro de 2012

A viagem








Era uma estranha sensação, andava um pouco perdido e pela primeira vez não sentia aquela dor aguda que o apoquentava há tanto tempo, o médico dizia que era da coluna, da falta de cuidado quando se estirava no sofá, se calhar era mas se tinha tão belos sofás porque raio se ia sentar numa cadeira?

Na verdade hoje nada lhe doía. Tinha que se despachar, mas coisa esquisita passou a mão pela cara, que estava gelada, e pareceu-lhe que não precisava fazer a barba.

Foi espreitar o espelho e via-se reflectido como se fosse um negativo. Era ele mas não parecia, pois as sombras cobriam-lhe o rosto e não dava para se aperceber bem do que via.

Foi procurar os óculos mas hoje era dia não. Onde se terão metido os malvados? Quando não precisar deles logo vão aparecer.

Andou assim perdido, do quarto para sala e da sala para o quarto, sem saber bem o que tinha que fazer.

Há coisas que nos ultrapassam, acabou de se levantar, não se recorda de fazer nada e, na realidade já estava impecavelmente vestido, de verdade com um fato que detestava, com uma gravata que não se lembrava de usar há anos e com uns sapatos pretos que antes lhe magoavam os pés, mas de hoje nem os sentia.

O estranho era estar vestido a rigor embora com um pouco de cheiro a naftalina e não sabia, exactamente  o que tinha que fazer, não abe lembrava de nenhum compromisso mas, não se admirava porque a cabeça por vezes já lhe ia pregando partidas.

Estava cogitando neste mar de incertezas quando, os sinos da Igreja, o despertaram para um pungente toque a finadas.

Era um repicar tão triste e tão lúgubre que, lhe pareceu sentir duas  lágrimas a escorrer pelo rosto, passou a mão mas não, era só impressão pois a cara continuava fria, mas bem enxuta.

Tentou coordenar os pensamentos mas apenas o vazio lhe povoava o pensamento.

Mas era estranho, estava vestido, barbeado, gravata impecavelmente colocada, sapatos brilhando e sem saber porque e nem para que!

Os sinos continuavam no repicar triste e soturno.

Foi então que pensou que se tocavam a finados alguém tinha morrido. Estava tudo explicado, era isso, estava preparado para ir a um funeral. Não se lembrava de quem, mas não admirava, a cabeça por vezes já o atraiçoava.

Subiu a rua, passos suaves e firmes, há muito que sentia as pernas tão firmes. Estranhou que ninguém lhe respondesse quando os saudava com o habitual bons dias.

À porta da casa mortuária estavam os seus amigos e alguns familiares. Mas afinal quem tinha morrido? Porque seria que todos o desconheceram e ninguém respondeu às suas palavras?

Entrou, não percebeu, ninguém se desviou mas nenhum obstáculo o impediu.


Na peanha, num ataúde aberto descansava um homem com um pano na cara, um fato igual ao detestável que ele vestia, uns antiquados sapatos pretos como os dele e, coincidência tão estranha, a mesma insuportável gravata.

Tentou levantar o pano da cara do homem mas, não entendia, os dedos passavam e o lenço continuava na mesma posição.

De repente percebeu, agora já sabia, tinha chegado a sua hora.

Hora de partir e ninguém o tinha avisado