Todos lhe chamavam Esmeralda, não sabia se
pelo verde dos seus olhos ou se para esquecerem aquele nome horrível com que a
baptizaram, Epifania, como se esse nome se pudesse dar a uma criança.
Pois Epifania, perdão Esmeralda, era uma moça roliça, farta de carnes, seios altos e volumosos.
Não era bonita, tinha uma pele borbulhenta, sobrancelhas fartas e desalinhadas, boca de lábios finos e muito pouco sensuais mas, os olhos de um verde intenso, faziam esquecer os pormenores em que Deus foi menos generoso.
Nasceu de uma família abastada, foi
educada dentro de valores morais muito rígidos mas a rebeldia foi sempre a sua
bandeira.
Nunca se vergou, nunca aceitou os namoros
que os pais de forma um pouco sub-reptícia lhe iam tentando impor, pois sabia
que eram apenas os interesses que estavam em jogo.
Houve, apenas, um momento em que sentiu algum sentimento, mas em verdade, foi mais uma simpatia pois o moço Lino, filho do Elói, era de uma delicadeza extrema e com coragem suficiente para lhe confessar:
-Sabes Esmeralda, nunca te podia fazer feliz, pois sou, ninguém o sabe, mas sou gay.
Epifania, digamos Esmeralda, gostou da
frontalidade e da coragem.
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O ano estava a acabar, o frio mantinha as pessoas no aconchego dos lares, as chaminés fumegavam pois, as lareiras, eram o único conforto das inóspitas noites de inverno.
Os preparativos do Natal já eram uma
constante, às portas arranjos de flores ou pequenos pais natal, pendurados nas
janelas, davam aquela magia que contagiava e fazia luzir os olhos das crianças,
antevendo no sapatinho o brinquedo que tinham pedido.
Os pais de Esmeralda a quem a idade não tinha tirado, ainda, o gosto pela magia da época gostavam das ceias com muita família à volta da mesa da consoada.
Eram apenas três e um Natal com três gatos-pingados
não é Natal, pensava o senhor Matias, pai de Epifania, alias, Esmeralda. Este
ano vai ser diferente – pensou - vamos passar a quadra a Trás-os-Montes.
Ao jantar, embora já tivesse a ideia bem assente na cabeça, perguntou à mulher e à filha:
-O que me dizem sobre uma ideia que me anda a bailar na cabeça, passar o Natal com o Gustavo e a família?
A mulher sorriu com agrado:
-Boa ideia, combina com eles. E tu
Esmeralda o que dizes?
-Estou já desejando que chegue o dia,
exclamou a filha!
Gustavo era o irmão mais velho de Matias, casado com a professora Margarida e pais de cinco filhos, dois rapazes e duas raparigas.
Gustavo era o irmão mais velho de Matias, casado com a professora Margarida e pais de cinco filhos, dois rapazes e duas raparigas.
No Natal reuniam toda a família, incluindo
cunhados e os sobrinhos que ainda não tinham constituído família. Todos os anos
insistiam com Matias mas, com o comodismo que lhe era peculiar, ia adiando de
ano para ano, mas desta vez parece que, finalmente, vão estar todos juntos.
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Foi um momento lindo, toda a família à volta da mesa, o bacalhau, o polvo e o peru eram os reis.
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Foi um momento lindo, toda a família à volta da mesa, o bacalhau, o polvo e o peru eram os reis.
Entre o barulho dos talheres e o tilintar
dos copos as conversas cruzavam-se em recordações do passado e, os mais novos,
em coisas do coração.
Esmeralda estava fascinada, nunca tinha
sentido esta magia de um Natal em família.
Os primos foram uma novidade e eram
tantos, desde os filhos do tio até aos filhos e filhas de cunhados dos tios,
mais distantes, mas numa comunhão de família tão emotiva.
Depois da refeição, pequenos grupos continuavam as conversas começadas à mesa.
Esmeralda estava encantada e não conseguia deixar de olhar Simão, filho de uma das cunhadas do tio Gustavo. O moço, enquanto ia mordiscando um coscorão, sorriu aos olhares da prima, enquanto com um gesto aconselhou:
-Come, estão óptimos!
Esmeralda ruborizou, sentiu um frio bom na barriga, as pernas ficaram sem forças e o coração parecia querer saltar de dentro do peito.
Sorriu, teve a sensação do sorriso mais parvo da sua vida, pois nunca se tinha sentido com tanta falta de jeito.
Afastou-se um pouco, sem nunca deixar de o
olhar, queria disfarçar mas não conseguia, estava, de verdade, fascinada.
Aproximou-se da Mafalda, continuando com o olhar preso, mas disfarçando comentou:
-Simão é mesmo lindo e eu nem o conhecia !
Aproximou-se da Mafalda, continuando com o olhar preso, mas disfarçando comentou:
-Simão é mesmo lindo e eu nem o conhecia !
Mafalda deu uma pequena gargalhada.
-Lindo? É o que tu dizes! Ele é um borracho que vai partindo corações e é um desperdício.
-Desperdício! Insistiu Esmeralda, está comprometido ou tem defeito?
Mafalda apercebeu-se do entusiasmo da prima e brincou um pouco com o embaraço.
-Não prima. É perfeito e comprometido para toda a vida.
Esmeralda fez beicinho, o verde dos olhos estava mais intenso. Não se conteve e deixou sair:
-Oh Mafalda! Vives fora da realidade, nos tempos que correm não há casamentos para toda a vida e muito menos namoros eternos. Onde se viu isso?
-Pois, respondeu a prima, aqui é diferente.
Simão casou para toda a vida e, mesmo os
casamentos como o dele podem ser desfeitos, mas não acredito que neste caso aconteça.
O Simão é padre.
Esmeralda não se conteve:
O Simão é padre.
Esmeralda não se conteve:
-Sorte a minha! Vida de merda, só me aparecem um Linos maricas e um Simão padre!
Será que EU tenho que mudar?



