domingo, 9 de dezembro de 2012

Esmeralda








Todos lhe chamavam Esmeralda, não sabia se pelo verde dos seus olhos ou se para esquecerem aquele nome horrível com que a baptizaram, Epifania, como se esse nome se pudesse dar a uma criança.

Pois Epifania, perdão Esmeralda, era uma moça roliça, farta de carnes, seios altos e volumosos.

Não era bonita, tinha uma pele borbulhenta, sobrancelhas fartas e desalinhadas, boca de lábios finos e muito pouco sensuais mas, os olhos de um verde intenso, faziam esquecer os pormenores em que Deus foi menos generoso.

Nasceu de uma família abastada, foi educada dentro de valores morais muito rígidos mas a rebeldia foi sempre a sua bandeira.

Nunca se vergou, nunca aceitou os namoros que os pais de forma um pouco sub-reptícia lhe iam tentando impor, pois sabia que eram apenas os interesses que estavam em jogo.

Houve, apenas, um momento em que sentiu algum sentimento, mas em verdade, foi mais uma simpatia pois o moço Lino, filho do Elói, era de uma delicadeza extrema e com coragem suficiente para lhe confessar:

-Sabes Esmeralda, nunca te podia fazer feliz, pois sou, ninguém o sabe, mas sou gay.
Epifania, digamos Esmeralda, gostou da frontalidade e da coragem.

*****

O ano estava a acabar, o frio mantinha as pessoas no aconchego dos lares, as chaminés fumegavam pois, as lareiras, eram o único conforto das inóspitas noites de inverno.

Os preparativos do Natal já eram uma constante, às portas arranjos de flores ou pequenos pais natal, pendurados nas janelas, davam aquela magia que contagiava e fazia luzir os olhos das crianças, antevendo no sapatinho o brinquedo que tinham pedido.

Os pais de Esmeralda a quem a idade não tinha tirado, ainda, o gosto pela magia da época gostavam das ceias com muita família à volta da mesa da consoada.

Eram apenas três e um Natal com três gatos-pingados não é Natal, pensava o senhor Matias, pai de Epifania, alias, Esmeralda. Este ano vai ser diferente – pensou - vamos passar a quadra a Trás-os-Montes.

Ao jantar, embora já tivesse a ideia bem assente na cabeça, perguntou à mulher e à filha:

-O que me dizem sobre uma ideia que me anda a bailar na cabeça, passar o Natal com o Gustavo e a família?

A mulher sorriu com agrado:

-Boa ideia, combina com eles. E tu Esmeralda o que dizes?

-Estou já desejando que chegue o dia, exclamou a filha!

Gustavo era o irmão mais velho de Matias, casado com a professora Margarida e pais de cinco filhos, dois rapazes e duas raparigas.

No Natal reuniam toda a família, incluindo cunhados e os sobrinhos que ainda não tinham constituído família. Todos os anos insistiam com Matias mas, com o comodismo que lhe era peculiar, ia adiando de ano para ano, mas desta vez parece que, finalmente, vão estar todos juntos.

******

Foi um momento lindo, toda a família à volta da mesa, o bacalhau, o polvo e o peru eram os reis.

Entre o barulho dos talheres e o tilintar dos copos as conversas cruzavam-se em recordações do passado e, os mais novos, em coisas do coração.

Esmeralda estava fascinada, nunca tinha sentido esta magia de um Natal em família.
Os primos foram uma novidade e eram tantos, desde os filhos do tio até aos filhos e filhas de cunhados dos tios, mais distantes, mas numa comunhão de família tão emotiva.

Depois da refeição, pequenos grupos continuavam as conversas começadas à mesa.

Esmeralda estava encantada e não conseguia deixar de olhar Simão, filho de uma das cunhadas do tio Gustavo. O moço, enquanto ia mordiscando um coscorão, sorriu aos olhares da prima, enquanto com um gesto aconselhou:

-Come, estão óptimos!

Esmeralda ruborizou, sentiu um frio bom na barriga, as pernas ficaram sem forças e o coração parecia querer saltar de dentro do peito.

Sorriu, teve a sensação do sorriso mais parvo da sua vida, pois nunca se tinha sentido com tanta falta de jeito.

Afastou-se um pouco, sem nunca deixar de o olhar, queria disfarçar mas não conseguia, estava, de verdade, fascinada.

Aproximou-se da Mafalda, continuando com o olhar preso, mas disfarçando comentou:

-Simão é mesmo lindo e eu nem o conhecia  !

Mafalda deu uma pequena gargalhada.

-Lindo? É o que tu dizes! Ele é um borracho que vai partindo corações e é um desperdício.

-Desperdício! Insistiu Esmeralda, está comprometido ou tem defeito?

Mafalda apercebeu-se do entusiasmo da prima e brincou um pouco com o embaraço.

-Não prima. É perfeito e comprometido para toda a vida.

Esmeralda fez beicinho, o verde dos olhos estava mais intenso. Não se conteve e deixou sair:

-Oh Mafalda! Vives fora da realidade, nos tempos que correm não há casamentos para toda a vida e muito menos namoros eternos. Onde se viu isso?

-Pois, respondeu a prima, aqui é diferente.

Simão casou para toda a vida e, mesmo os casamentos como o dele podem ser desfeitos, mas não acredito que neste caso aconteça.
O Simão é padre.

Esmeralda não se conteve:

-Sorte a minha! Vida de merda, só me aparecem um Linos maricas e um Simão padre!

Será que EU tenho que mudar?








 

domingo, 2 de dezembro de 2012

Uma história de amor?








Maria Alzira considerava-se a moça mais infeliz do mundo e chorava pelos cantos a sua tristeza.

Era filha única de um casal que parecia feliz, mas apenas parecia pois a mãe Maria Emília sofria com a amargura da filha e compreendia pois na sua juventude sentiu, igualmente, essa forma de se julgar marginalizada.
O pai, José Coxo, como era conhecido na aldeia, nasceu com um problema numa perna e ficou com uma dificuldade para a vida.

Quando era moço os outros rapazes mangavam com ele, pois com aquele andar balanceado era impossível ficar despercebido.
Às vezes disfarçava, tentando andar com um pé no passeio e outro na rua, para dar a impressão que o bambolear era fruto do desnível, mas todos o conheciam e continuo a ser o Zé Coxo.

Fez esforço para não arranjar conflitos e todos o aceitavam e aos poucos foram esquecendo a diferença, mas só a diferença, porque o nome esse ficou.

As raparigas respeitavam-no e, algumas até se atreviam a dançar com ele nas festas, pois apesar do seu problema era um exímio dançarino, rodopiava como nenhum ao compasso da valsa, e o deslizar dos seus pés, ao som de um tango, tinham quase magia.

Mas a festa eram cinco dias e acabada, os bailes passavam a fazer parte do passado.

Ele bem que tentava, um namoro, mas todas fugiam com aquelas frases tão fáceis de inventar. Desculpa mas tenho compromisso, ou, não penso em namoros sou muito nova ou até desculpa mas não fazes o meu tipo.

Ele sabia que era por ser manco daquela malvada perna, que quis crescer mais do que a outra.

Apenas uma rapariga parecia mostrar algum interesse a Maria Emília, mas era tão feia que até ele, mesmo coxo, tinha esperança de arranjar melhor.

A natureza tem destas coisas e um dia sem saber bem como, aconteceu, Era namorado da moça mais feia do povoado e, talvez, de todas as terras em redor.

Com o passar dos tempos, com o trato e o carinho Maria Emília começou a parecer-lhe menos feia. Bonita nunca a achou, mas menos feia sim.

Era feliz com ela, sentia-se bem, nunca notou qualquer olhar para a sua enfermidade, muito pelo contrário, sempre o considerou como dos homens mais bonitos da aldeia. E diga-se, em abono da verdade, se não fosse aquela dissimetria das pernas podia ser considerado um bonito homem.

Acabaram por casar, foi uma bela cerimónia e o princípio de um relacionamento feliz. Zé gostava da mulher e nem já notava que fosse menos bonita. Maria Emília já nem se apercebia que o marido andava um pouco desengonçado.

Casaram em Setembro e na véspera de Natal pegou nas mãos do marido, encostou-as à barriga e disse-lhe:

-Zé olha aqui a tua prenda de Natal. Estou grávida!

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Foram meses de alegria e expectativa. Seria um rapaz ou uma rapariga?

Zé olhava a mulher, e dizia:

-Sabes? Gostava que fosse uma menina, assim doce como tu!

Maria Emília sorria, imaginava uma criança a correr naquela casa.

-Eu gostava que fosse um rapaz, dizia com receio na voz.

-Se for uma menina que seja bonita como o pai e se for um rapaz que traga as duas perninhas parelhas!

Depois riam a bom rir com a felicidade estampada no rosto.

*******
 

Foi em Julho, estava uma manhã quente, quando Maria Emília gritou para o marido:

-Zé vai chamar o Doutor Óscar, está chegando a hora!


Era uma menina, foi um parto difícil e demorado, mas acabou por correr tudo bem.

Olhavam os dois fascinados para a filha, ainda estava um pouco congestionada.
Não parecia uma bebé muito bonita mas nestas idades mudam muito. As perninhas, essas, eram perfeitas, o doutor Óscar garantiu que era uma criança saudável e sem defeitos.

-Vai ser Maria Alzira, Maria como tu e Alzira como a minha mãe. Não te importas? Perguntou Zé.

-Gosto do nome, vai ser então Maria Alzira! Exclamou a mulher.


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Maria Alzira foi uma criança feliz, cresceu numa família que sempre transmitiu os valores do comportamento e da educação.

Muito inteligente. facilmente se foi apercebendo que o espelho não mente.

Olhava-se e não percebia porque a achavam feia, tinha uns olhos muito pequenos, uma boca demasiado grande com lábios muito finos, pestanas ralas e pouco visíveis enquanto as sobrancelhas fartas quase se juntavam no meio dos olhos.

Mas, pensava, o que tinha isso de especial?
Era só a cara, que representa uma percentagem mínima do total?

Tinha umas mãos lindas, dedos longos com unhas bem desenhadas, pernas altas e bem torneadas e uma cintura no sítio certo. Um par de mamas que eram a inveja das outras raparigas e prendiam os olhares dos rapazes. Eram certas, rijas, empinadas e terminando em dois pequenos botões de rosa.

*****

A animação chegou à vila - sim a aldeia agora já era uma vila - as ruas estavam enfeitadas, a música percorria todos os recantos enquanto os festeiros faziam o peditório para ajuda nas despesas.

A população tinha duplicado com a chegada dos filhos da terra, imigrados por esse mundo fora e que, nesta data, voltavam para matar saudades.

Às portas das tabernas e cafés, os grupos davam um ar de animação e alegravam o negócio.

Logo pela manhã os foguetes acordavam os mais preguiçosos.

Hoje, às 10 horas, era a primeira noite de baile no pavilhão da Sociedade recreativa.

Era um acontecimento e a oportunidade para os mais jovens, tentarem uma aproximação aos eleitos dos seus corações.

A sala estava cheia, o conjunto “Brothers” começou os primeiros acordes na afinação dos instrumentos.

Os homens iam-se distribuindo pelas bancadas de madeira e as mulheres procuravam, no lado contrario, lugares nas cadeiras alinhadas.

Havia muita animação, os pares redopiavam ao som do barulho que a música deixava no ar.

Maria Alzira, num bonito vestido rosa, com um decote que sem ser generoso, deixava contudo perceber o orgulho da rapariga, olhava com interesse e alguma expectativa e esperava um convite, para poder sentir o calor de um par nas voltas de uma dança.

No tablado, em frente, estava um jovem que ela não conhecia. Não era da terra. Provavelmente amigo de alguém, ou forasteiro de terra próxima, mas a verdade é que não sabia quem era. Era bonito, vestia com algum requinte. Tinha uma expressão doce, rosto moreno bem delineado, o cabelo negro em desalinho nos suaves caracóis distribuídos de forma quase displicente, davam-lhe um encanto que obrigava as raparigas a olhar uma vez e mais uma, na esperança de um convite para a dança, mas ele continua de olhar passeante como se nada de especial lhe prendesse a atenção.

Maria Alzira pensou. E porque não? Se os homens iam pedir as mulheres porque não o contrario?

Se bem o pensou melhor o fez, chegou perto do jovem e perguntou:

-Aceita bailar comigo esta dança?

O rapaz pareceu surpreso, mas levantou-se e foi dizendo:

-Gostava muito, mas só se for a menina a conduzir.

Ela segurou-lhe a mão, enlaçou-o nos braços e partiram embalados no barulho daquela música.

-Não o conheço! Não é de cá? Perguntou.

-Sou filho do Severino e Ana Galhardo, filhos da terra, mas nasci em França para onde os meus pais imigraram há cerca de 25 anos.

-Dança muito bem! Porque quer que seja eu a guiar a dança? Perguntou a rapariga.

-Ainda não percebeu? Sou cego, respondeu.


Dançaram toda a noite, e nas noites seguintes.
Felizes e esquecidos das belezas e limitações.
Falaram da vida, dos anseios, das pessoas e das coisas e conversaram, também, das coisas do coração.


Quem sabe se não começou aqui uma linda história de amor!

 


 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Paradoxo








Havia algo de estranho naquele amor, um pouco irracional e com tantas contradições, mas era um amor.

Ricardo era um rapaz que emergiu, quase por encanto do nada, apareceu assim de repente de uma província que nunca explicou, filho de ricos fazendeiros que ninguém conhecia e licenciado em direito numa qualquer universidade que nunca foi confirmada. É uma pessoa de falas mansas, tímido,  delicado em demasia e com excessiva amabilidade. Quase fastidioso.

Mafalda é uma morena a que Deus, generosamente, deu tudo o que qualquer mulher deseja, beleza, sensualidade, inteligência e uma certa dose de estudada ingenuidade.

Eram diferentes, ou mais propriamente, eram totalmente opostos, quase como  a luz e a sombra.

Havia, no entanto, uma atracção inexplicável, um amor quase doentio, uma cumplicidade que ninguém conseguia entender.

Viviam numa paixão que parecia estranha, mas não, era apenas diferente pelos contrastes, pelos comportamentos e, um pouco, pelo insólito.

Bebiam as palavras, olhavam-se de uma forma tão doce que acabavam por enjoar quem os observava.

Um dia desapareceram. Durante uns tempos ninguém os viu, tentaram adivinhar onde poderiam estar, o que teria acontecido?

Muitas conjecturas, mas na verdade ninguém sabia os motivos dessa ausência.

Não foi grande, foram apenas 28 dias, mas todos notaram, faziam falta para matar a rotina, para alimentar os falatórios à porta do café, para amenizar as más disposições da dona Efigénia que, debruçada na janela ia observando e comentando todos os acontecimentos visíveis no escasso horizonte do seu poiso habitual.


*****

De repente, tal como se eclipsaram, aparecerem de novo no seu mundo.

Tudo parecia ter voltado à normalidade mas as coisas a, pouco e pouco, iam mudando.

Aquele amor, que iam pingando na doçura do olhar e a ternura, daqueles afagos, começaram a escassear.

Deixaram de ser os mesmos.  Andavam juntos mas era como se não se conhecessem.

A troca de caricias e os carinhos foram mudados para indiferença e ares sisudos. Não se olhavam, davam o braço numa tentativa de encobrirem uma situação tão visível que esconder era, apenas, uma forma de tornar mais visível o que todos já tinham percebido.

Chegavam no carro e ele já não lhe ia abrir a porta, como sempre o fizera.

Eram um casal, mas não o mesmo que todos conheciam.

Parecia que ainda havia amor, mas a chama era tão trémula que ninguém a percebia. Só eles.

Ninguém sabia mas a dona Efigénia, no seu posto de observação, descobriu tudo.

Era fácil, agora os dois usavam aliança, tinham casado.

Afinal era tão óbvio.










domingo, 18 de novembro de 2012

É o segredo da casa amarela







Alguns dos meus amigos, que por aqui passam, perguntaram:
-Afinal qual era o segredo da Casa Amarela?
Confesso que também não sabia mas, por vós, fui inventar.




 Estávamos no ano de 1820, as revoluções liberais e nacionalistas tinham tomado conta da Europa, Portugal, tal com hoje, atravessava um período de grandes convulsões com o desemprego, o fecho das fábricas, a revolta do proletariado rural e o descontentamento do proletariado urbano, custo de vida, insatisfação da burguesia que se via excluída do poder político e atingida pela grave crise económica.

Dom Fagundes de Aragão, aquando da aprovação da constituição de 1822, revoltou-se quanto à transformação da monarquia absoluta em monarquia constitucional, arreigado aos principias de classes sociais dominantes, renegou o Rei João VI e pegando na família e criadagem foi-se refugiar nas suas terras de Barroso.

Esse lugar tornou-se num local de reuniões e conspirações que começaram a causar mau estar entre os absolutistas que resolveram acabar com o mal pela raiz.

Reuniram-se num grupo e avançaram contra o conspirador, encontraram-se no Alto do Trigueiro, largo num terreiro da propriedade, onde se deu uma verdadeira chacina, da família Aragão apenas restaram os mais novos que se tinham escondido numa capela em ruínas.

Os vencedores partiram na euforia da vitória, tendo deixado, entre os seus e os conspiradores, duas dezenas de corpos no campo da batalha, entre eles Dom Fagundes de Aragão que num estertor final, barba vermelha de sangue, gritou:

-Eu ia construir aqui uma casa amarela da cor das armas do nosso brasão, não consegui mas um dos que me sucederem irá dar continuação ao meu desejo.
Nós o que aqui estamos e todos os que aqui, forem deixando esta vida, vão permanecer neste lugar que a crueldade dos homens amaldiçoou.
Mas fica o segredo, um dia um Aragão a quem Deus vai dar a beleza que a todos os outros negou, aparecerá do desconhecido e com a força do seu sorriso irá libertar, todos estes que vivem nas trevas, com o ribombar do trovão, pela violência do raio e pela intensidade do fogo purificador.

Fechou os olhos e, tal como os restantes, desapareceu nas trevas, como se jamais ali, antes, tivesse estado.
Nunca encontraram os corpos.

Os mais novos, que escaparam à chacina, eram 14 crianças todas da família de Dom Fagundes. Dois filhos e duas filhas, dois sobrinhos, três sobrinhas, um irmão mais novo que sofria de um distúrbio mental, quatro primos e a Dona Juliana uma aia responsável por todos, principalmente, os mais novos.

Passaram a noite no refugio e no da seguinte procuraram, vasculharam e nem um vestígio dos parentes mais velhos.

A aia foi sossegando como lhe parecia melhor:

-Se calhar Sua Majestade mandou-os para Lisboa, um dia vão aparecer por ai.

Ela sabia que não era provável, pois o sangue que ensopava o terreiro do jardim, no alto do trigueiro, era um mau auguro, decerto mataram-nos a todos e levaram os corpos para não deixarem vestígios da barbárie.


*******

A povoação estava surpreendida, um grupo de crianças, a mais velha com 16 anos, um meio demente e uma criada mantinham a quinta e tinham a maior e melhor produção de toda região.

Ninguém sabia como e eles, nunca disseram, mas também não o sabiam, que as coisas apareciam feitas, as terras lavradas, as árvores podadas, as sementes lançadas à terra, as colheitas feitas e em ordem para as diversas distribuições.

-Era um milagre, dizia Juliana, grande devota de S. Bartolomeu padroeiro dos agricultores.

No íntimo ela pensava em algo mais místico, mas ficava com o pensamento dentro da simplicidade do seu raciocino.

Todas as mulheres foram esquecidas, pelo Ser Supremo, no dia em que distribuiu a formosura.

A mais velha, Raimunda, no dia em que completou 21 anos ao acordar teve um dos maiores sustos da sua vida. Despertou e sentado no banco junto à sua cama estava o pai.

Primeiro ficou assustada, depois recobrou e com alegria exclamou:

-Senhor meu pai, sempre tive esperança que ias voltar e, melhor ainda hoje, dia do meu aniversario. A melhor prenda que podia receber. Onde estivestes, todos estes anos, escondido?

Dom Fagundes, barbas manchadas, olhos sem expressão apenas murmurou numa voz cava:

-Ando no limbo, na indefinição, no lugar onde ninguém quer estar. Deus não te fez bela mas deu-te inteligência e bondade, eu não voltei porque sempre estive aqui, esperando pelo dia em que podia passar o segredo que há séculos amaldiçoa a nossa família.
Tens que o guardar e tens que o transmitir quando chegar a tua hora.

-Mas que segredo é esse senhor meu pai? Gritou Raimunda.

-É simples mulher, multiplicai-vos até que uma mulher bela apareça na nossa família. Quando ela surgir virá aqui, para dar descanso ao que esperam a salvação.


De repente fez-se noite, o dia foi coberto por uma negrura assustadora, a terra tremeu e tremendos urros ecoaram no espaço.

Quando tudo voltou a normalidade, o homem tinha desaparecido e Raimunda jazia na cama, parecia morta. Mas não, estava apenas numa espécie de letargia.

Quando espertou sabia que, agora, era a guardiã de um segredo que não tinha percebido muito bem.

*****

 Muitos anos se passaram, a monarquia caiu e os carbonários tentaram tomar conta da casa dos fidalgos. Foi um dos seus maiores erros, de todos os entraram na propriedade nenhum voltou a sair, foram tragados por um buraco negro que de repente se abriu e os engoliu.

Com o andar dos tempos, as convulsões sociais foram acalmando o espírito das pessoas e, os habitantes do Solar, começaram a ser considerados como fazendo parte daquela comunidade formada por pessoas que viviam da agricultura da pastorícia.

Já poucos restavam. Os casamentos, quase todos entre primos, que deram origem a uma descendência enfraquecida que facilmente ia desaparecendo tisicas, engolidas na peste cinzenta, tão vulgar na época.

*******

Foi por esse período que o nosso já conhecido, Doutor Alcides de Aragão, mandou erigir a casa Amarela no terreiro. Seria o seu refugio, continuava junto da família mas tinha um local para os seus livros, para a escrita e para receber, fora dos olhares curiosos, a Zezinha moça bonita de peito farto e ancas roliças que trazia embeiçado o nosso intelectual, que além de doidamente perdido pela sua Zezé, tinha a esperança que ela lhe desse uma filha linda, como a mãe, que fosse a força libertadora da maldição desta família.

Não se pode condenar a Zezinha, Deus sabe que ela tentou e que a terra era fértil mas a semente, essa, já era muito má.

Na velha casa continuavam apenas as duas irmãs Dona Catarina a quem, dom Alcides, deu conta do segredo e do receio de nunca conseguirem dar aos que partiram a tranquilidade de que tanto necessitavam.
Ela já tinha passado do prazo e ele apenas tinha força de vontade, o resto estava apagado.

A mais nova Adelaide era, como diziam as irmãs, uma songamonga que nem jeito tinha para arranjar um homem, por mais reles e pateta que fosse, desde que tivesse alguma beleza para transmitir a uma filha.

O desalento ia, aos poucos, tomando conta da família e nas noites mais escuras, já pressentiam alguma agitação nas sombras da casa, podia ser apenas impressão, mas Alcides tinha receio que o desassossego dos seus entes queridos os fosse atormentar.

****

Foi numa tarde de Agosto, o calor era insuportável e Catarina chamou a irmã para ir encher uma infusa, de água fresca, à fonte.

Chamou e nada de Adelaide. Onde raio se ter metido a rapariga, se andava ali todo dia numa total pasmaceira?

Chamou o irmão. Correram toda a casa principal e mais a casa Amarela, espreitaram a adega, o curral e até o chiqueiro e nada de Adelaide.

Os cães continuavam num total sossego, por isso nada de estranhos pelas redondezas.

Alcides desceu ao povoado, ia avisar a guarda.
No caminho encontrou o mestre Zacarias, que estranhou a ligeireza e o ar ofegante do fidalgo e, não sustendo a curiosidade perguntou:

-Onde o leva essa pressa toda?

Alcides sem aligeirar os passos, respondeu:

-Vou às autoridades, a minha irmã Adelaide desapareceu, não sabemos dela.

O mestre, também lhe chamavam engenheiro, embora nunca tenha ido escola, mas era ele quem arranjava os engenhos que faziam os moinhos girar, descansou o homem:

-Escusa de ir com essa urgência toda porque a senhora dona Adelaide não tinha ar de desaparecida, muito pelo contrário, ia muito feliz e contente agarrada ao braço do Senhor Esteves a caminho do carro.
Sabe quem é o senhor Esteves? O caixeiro-viajante que aparece por ai quase todos os meses?

Alcides, nem se despediu do mestre Zacarias, arrepiou caminho e voltou para a quinta.

Entrou esbaforido, o suor escorria-lhe pelo rosto abaixo e os bofes quase saltando-lhes pela boca, respirou fundo antes de dizer:
-Catarina a partir de hoje somos, só nós os dois e os nossos mortos, que povoam estas terras.

-Mas, balbuciou a irmã, o que é feito de Adelaide?

Os olhos do homem chisparam, ficou com um ar de apoplexia, vermelho, transpirando ódio.

-Nunca, mas mesmo nunca mais, esse nome é pronunciado nesta casa, foi como se tivesse morrido. Na nossa família, que vem desde o século XVIII, nunca houve rameiras e não é agora que essa dissoluta vem denegrir a nossa linhagem.
Esquece o nome, para nós desde hoje, nunca existiu.

*****

Naquela tarde de inverno em que uma tão estranha procissão subia a ladeira que os levava à Casa Amarela, quando Sabrina apontou e disse:

-É esta a minha herança?

A maldição quebrou perante a dádiva de Deus em ter dado, finalmente, uma mulher bela à família Aragão.


Hoje, graças a generosidade de todo o povo, no lugar onde um dia existiu a casa Amarela, foi inaugurada uma capela em honra de S. Bartolomeu.





 







 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Segredo da casa Amarela






Em tempos idos já foi imponente, agora é apenas uma casa abandonada.

Fica no alto de uma rua empinada, no meio de um terreno que antes foi um jardim, agora apenas os tojos, as silvas e algumas heras entrelaçadas fazem desse espaço um refúgio de lagartixas e outros rastejantes, que se acoitam nos emaranhados das plantas que por ali proliferam.

A construção, muito degradada, deixa ainda ver a pureza das linhas, onde a empena dá um toque quase senhorial.

As janelas rasgadas em arco, apresentam as mazelas que o tempo vai agravando, madeiras apodrecidas e penduradas em dobradiças que a ferrugem corrompeu, vidros estilhaçados onde as teias de aranha fazem caprichosos rendados.

A porta, maciça, já perdeu a cor original mas contínua firme, tendo apenas a aldraba, em forma de lua, com o batente arrancado.

As paredes vão ficando descascadas mas o amarelo ainda predomina no conjunto das manchas que o tempo deixou.

A casa tem dona, uma tal Sabrina, sobrinha da última habitante, Dona Catarina de Aragão, que numa tarde amena de primavera fechou os olhos para não mais os abrir.

Ninguém sabe dessa Sabrina e, até se julga, que ela pode não saber da morte da tia e muito menos que é a dona da Casa Amarela.


****

Talvez eu me tenha adiantado nesta narrativa, mas por vezes o entusiasmo tem dessas coisas.

A casa amarela foi mandada construir, há muitos anos, pelo insigne doutor Aragão, homem de letras, devoto de São Francisco de Sales, embora na altura, os mais informados, julguem que era apenas por ser o padroeiro dos escritores, que era um sonho que nunca tinha conseguido concretizar, apenas alguns artigos na Gazeta do Povo que, diga-se em abono da verdade, pouco interesse despertaram.

Mas o sonho de ter no alto do povoado uma casa era um anseio que havia herdado do pai, tinha que ser no alto, porque era o simbolizo do domínio e amarela porque essa é a cor do ouro. Do poder.

Quando foi inaugurada ofereceram, no largo do terreiro fronteiriço, uma festa ao povo.
Um porco rodou horas num espeto e o vinho correu abundante, foi um acontecimento que teve direito à primeira página da Gazeta desse mês.

Era uma família conservadora, homens tradicionais e mulheres de quem a beleza se esqueceu.
Apenas uma filha teve a coragem de partir, um dia, perdida de amores por um simpático caixeiro-viajante.
Foi banida do parentesco, esquecida, o seu nome, Adelaide, foi proibido naquela casa.

Com a morte de Alcides, apenas restou Catarina que guardava um segredo que tinha que zelar e passar ao seguinte, quando sentisse que as pesadas asas negras da morte se estavam a aproximar.

Quando pressentiu que, com 85 anos, o tempo se começava a escoar foi à procura da irmã escorraçada, não podia pronunciar o nome da prescrita, mas tinha que a encontrar e transmitir o segredo que preservava o descanso eterno da família.

Soube, através do investigador contratado, que a fugitiva tinha morrido, a pneumónica não a tinha poupado, restava uma filha, Sabrina, que se pensava podia viver em terras espanholas.

A velha senhora ficou em pânico, tinha que encontrar a sobrinha, como lhe era difícil dizer sobrinha, mas era isso mesmo.

Encarregou o pesquisador de fazer o seu trabalho, indagar, e com ele abalou a caminho de terras espanholas. Precisava de a encontrar senão, toda a família, iria perder o descanso da vida eterna.

Dona Catarina, na companhia do investigador partiu para terras de "nuestros hermanos" e por lá ficou, a viagem era superior às suas fracas forcas, não aguentou e partiu com a angústia na alma e a tristeza no olhar.

O investigador prometeu continuar a procura, mas não teve a certeza que, se ela, ainda lhe ouviu as ultimas palavras.

 *****

A mansão ficou abandonada e a maldição começou.
Quando principiava o anoitecer, ninguém se atrevia a passar junto à casa Amarela, os gemidos, as sombras sinistras, os esvoaçares, aqueles fogachos que a iluminavam de forma estranha e o tenebroso escuro do sítio eram atemorizadores.

O povo andava em alvoroço, os que moravam mais próximo apressaram-se em mudar para o lado contrário do povoado, os que não puderam, mal escurecia, trancavam portas e janelas e acendiam luminárias aos santos da sua devoção.

Os técnicos municipais, ainda, mandaram uma máquina para arrasar a casa e acabar com o pesadelo, mas as forças do mal eram superiores à vontade dos homens, a engenho mal começou a ingreme subida sucumbiu, o motor rebentou e as rodas esvaziaram de repente.

O medo estava instalado e o senhor padre-cura, nada podia fazer, tinha aprendido a falar com Deus, nunca o prepararam para coisas do demónio. A casa, não tinha dúvidas, estava possuída.
 
*******

Numa tarde, tempestuosa, de Janeiro um carro parou junto ao café Central. O condutor saiu e, com um chapéu-de-chuva, foi ajudar na saída da mulher que o acompanhava.
Deram uma fugida e entraram no estabelecimento onde alguns homens olharam admirados para aquele casal. Ele gordo, atarracado e com um ar muito sisudo. Ela alta, esbelta e com um sorriso luminoso.

Foi a mulher quem se dirigiu aos presentes:

-Meus senhores, não me conhecem mas eu tenho raízes nesta terra, não nasci aqui mas, a minha mãe nasceu, era uma das filhas da família Aragão.

Um dos presentes levantou-se e tirando o boné que lhe cobria a cabeça perguntou:

-Então quer dizer que é a filha da Adelaide? Sabe o segredo da casa amarela e vem para ajudar o padre a acabar com a maldição?

-Sou a Sabrina, filha da Adelaide, respondeu a visitante, mas não sei o segredo, a minha tia Catarina não me encontrou a tempo de mo dizer!

Os homens ficaram com um ar de preocupação. O que tinha falado coçou a cabeça, num gesto de muita preocupação, e deixou escapar:

-Quer dizer que a maldição não vai acabar e nós vamos continuar nesta merda de medo, em que andamos há um ror de tempo?

A rapariga era muito bonita, devia ser a única mulher da família que conseguiu receber toda a beleza que às outras foi negada.

Tinha uns dentes alvos, uns lábios sensuais e um sorriso cativante.

-Meus senhores, será possível chamar o padre e irmos todos ver essa tão falada casa?

José Sovela, o mais novo e mais afoito, saiu disparado protegido numa cobertura de oleado, na procura do padre.

Não demoraram, o padre bem embrulhado numa capa alentejana, desaparecia debaixo dum enorme guarda-chuva.

Seguiram em cortejo, cada um abrigado da melhor maneira.
Estranha procissão numa tarde tempestuosa.

A trovoada tinha tomado conta do tempo, era quase tenebrosa, os relâmpagos cegavam e o ribombar atordoava os ouvidos mais sensíveis.

Mas eles seguiam na fé que Sabrina, mesmo sem o saber, pudesse ter o segredo que os libertasse.

Começaram a ladeira, a água da chuva descia com ímpeto nas regueiras da rua. De vez em quando, um relâmpago mais forte tornava dia a tarde que ia escurecendo.

Chegaram ao terreiro, a casa era apenas uma mancha no meio da penumbra que ia caindo.

Olharam na impotência de quem nada podia fazer, foi então que Sabrina abriu os braços, apontou e perguntou:

-É esta a minha herança?

De repente fez-se noite e um raio, no meio de um relâmpago mais brilhante que o Sol, atravessou o espaço e caiu mesmo no meio da casa amarela.

As chamas irromperam, os homens ajoelharam-se, mais por temor de que por devoção.

As labaredas iam consumindo a casa como se as pedras fossem simples folhas de papel. Por entre as chamas notava-se algo, como se fossem almas a libertar-se, confundindo-se as sombras de umas com a luz das outras.

*****

Em pouco tempo apenas um monte de cinzas, mostravam tudo o restava da casa.

A chuva parou, a tormenta desapareceu e o Sol brilhou como se a tempestade fizesse já parte do passado.