terça-feira, 11 de dezembro de 2012
domingo, 9 de dezembro de 2012
Esmeralda
Todos lhe chamavam Esmeralda, não sabia se
pelo verde dos seus olhos ou se para esquecerem aquele nome horrível com que a
baptizaram, Epifania, como se esse nome se pudesse dar a uma criança.
Pois Epifania, perdão Esmeralda, era uma moça roliça, farta de carnes, seios altos e volumosos.
Não era bonita, tinha uma pele borbulhenta, sobrancelhas fartas e desalinhadas, boca de lábios finos e muito pouco sensuais mas, os olhos de um verde intenso, faziam esquecer os pormenores em que Deus foi menos generoso.
Nasceu de uma família abastada, foi
educada dentro de valores morais muito rígidos mas a rebeldia foi sempre a sua
bandeira.
Nunca se vergou, nunca aceitou os namoros
que os pais de forma um pouco sub-reptícia lhe iam tentando impor, pois sabia
que eram apenas os interesses que estavam em jogo.
Houve, apenas, um momento em que sentiu algum sentimento, mas em verdade, foi mais uma simpatia pois o moço Lino, filho do Elói, era de uma delicadeza extrema e com coragem suficiente para lhe confessar:
-Sabes Esmeralda, nunca te podia fazer feliz, pois sou, ninguém o sabe, mas sou gay.
Epifania, digamos Esmeralda, gostou da
frontalidade e da coragem.
*****
*****
O ano estava a acabar, o frio mantinha as pessoas no aconchego dos lares, as chaminés fumegavam pois, as lareiras, eram o único conforto das inóspitas noites de inverno.
Os preparativos do Natal já eram uma
constante, às portas arranjos de flores ou pequenos pais natal, pendurados nas
janelas, davam aquela magia que contagiava e fazia luzir os olhos das crianças,
antevendo no sapatinho o brinquedo que tinham pedido.
Os pais de Esmeralda a quem a idade não tinha tirado, ainda, o gosto pela magia da época gostavam das ceias com muita família à volta da mesa da consoada.
Eram apenas três e um Natal com três gatos-pingados
não é Natal, pensava o senhor Matias, pai de Epifania, alias, Esmeralda. Este
ano vai ser diferente – pensou - vamos passar a quadra a Trás-os-Montes.
Ao jantar, embora já tivesse a ideia bem assente na cabeça, perguntou à mulher e à filha:
-O que me dizem sobre uma ideia que me anda a bailar na cabeça, passar o Natal com o Gustavo e a família?
A mulher sorriu com agrado:
-Boa ideia, combina com eles. E tu
Esmeralda o que dizes?
-Estou já desejando que chegue o dia,
exclamou a filha!
Gustavo era o irmão mais velho de Matias, casado com a professora Margarida e pais de cinco filhos, dois rapazes e duas raparigas.
Gustavo era o irmão mais velho de Matias, casado com a professora Margarida e pais de cinco filhos, dois rapazes e duas raparigas.
No Natal reuniam toda a família, incluindo
cunhados e os sobrinhos que ainda não tinham constituído família. Todos os anos
insistiam com Matias mas, com o comodismo que lhe era peculiar, ia adiando de
ano para ano, mas desta vez parece que, finalmente, vão estar todos juntos.
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Foi um momento lindo, toda a família à volta da mesa, o bacalhau, o polvo e o peru eram os reis.
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Foi um momento lindo, toda a família à volta da mesa, o bacalhau, o polvo e o peru eram os reis.
Entre o barulho dos talheres e o tilintar
dos copos as conversas cruzavam-se em recordações do passado e, os mais novos,
em coisas do coração.
Esmeralda estava fascinada, nunca tinha
sentido esta magia de um Natal em família.
Os primos foram uma novidade e eram
tantos, desde os filhos do tio até aos filhos e filhas de cunhados dos tios,
mais distantes, mas numa comunhão de família tão emotiva.
Depois da refeição, pequenos grupos continuavam as conversas começadas à mesa.
Esmeralda estava encantada e não conseguia deixar de olhar Simão, filho de uma das cunhadas do tio Gustavo. O moço, enquanto ia mordiscando um coscorão, sorriu aos olhares da prima, enquanto com um gesto aconselhou:
-Come, estão óptimos!
Esmeralda ruborizou, sentiu um frio bom na barriga, as pernas ficaram sem forças e o coração parecia querer saltar de dentro do peito.
Sorriu, teve a sensação do sorriso mais parvo da sua vida, pois nunca se tinha sentido com tanta falta de jeito.
Afastou-se um pouco, sem nunca deixar de o
olhar, queria disfarçar mas não conseguia, estava, de verdade, fascinada.
Aproximou-se da Mafalda, continuando com o olhar preso, mas disfarçando comentou:
-Simão é mesmo lindo e eu nem o conhecia !
Aproximou-se da Mafalda, continuando com o olhar preso, mas disfarçando comentou:
-Simão é mesmo lindo e eu nem o conhecia !
Mafalda deu uma pequena gargalhada.
-Lindo? É o que tu dizes! Ele é um borracho que vai partindo corações e é um desperdício.
-Desperdício! Insistiu Esmeralda, está comprometido ou tem defeito?
Mafalda apercebeu-se do entusiasmo da prima e brincou um pouco com o embaraço.
-Não prima. É perfeito e comprometido para toda a vida.
Esmeralda fez beicinho, o verde dos olhos estava mais intenso. Não se conteve e deixou sair:
-Oh Mafalda! Vives fora da realidade, nos tempos que correm não há casamentos para toda a vida e muito menos namoros eternos. Onde se viu isso?
-Pois, respondeu a prima, aqui é diferente.
Simão casou para toda a vida e, mesmo os
casamentos como o dele podem ser desfeitos, mas não acredito que neste caso aconteça.
O Simão é padre.
Esmeralda não se conteve:
O Simão é padre.
Esmeralda não se conteve:
-Sorte a minha! Vida de merda, só me aparecem um Linos maricas e um Simão padre!
Será que EU tenho que mudar?
domingo, 2 de dezembro de 2012
Uma história de amor?
Maria Alzira considerava-se a moça mais infeliz do mundo e chorava pelos cantos a sua tristeza.
Era filha única de um casal que parecia feliz, mas apenas parecia pois a mãe Maria Emília sofria com a amargura da filha e compreendia pois na sua juventude sentiu, igualmente, essa forma de se julgar marginalizada.
O pai, José Coxo, como era conhecido na
aldeia, nasceu com um problema numa perna e ficou com uma dificuldade para a
vida.
Quando era moço os outros rapazes mangavam
com ele, pois com aquele andar balanceado era impossível ficar despercebido.
Às vezes disfarçava, tentando andar com um
pé no passeio e outro na rua, para dar a impressão que o bambolear era fruto do
desnível, mas todos o conheciam e continuo a ser o Zé Coxo.
Fez esforço para não arranjar conflitos e
todos o aceitavam e aos poucos foram esquecendo a diferença, mas só a
diferença, porque o nome esse ficou.
As raparigas respeitavam-no e, algumas até se atreviam a dançar com ele nas festas, pois apesar do seu problema era um exímio dançarino, rodopiava como nenhum ao compasso da valsa, e o deslizar dos seus pés, ao som de um tango, tinham quase magia.
Mas a festa eram cinco dias e acabada, os bailes passavam a fazer parte do passado.
Ele bem que tentava, um namoro, mas todas fugiam com aquelas frases tão fáceis de inventar. Desculpa mas tenho compromisso, ou, não penso em namoros sou muito nova ou até desculpa mas não fazes o meu tipo.
Ele sabia que era por ser manco daquela malvada perna, que quis crescer mais do que a outra.
Apenas uma rapariga parecia mostrar algum interesse a Maria Emília, mas era tão feia que até ele, mesmo coxo, tinha esperança de arranjar melhor.
A natureza tem destas coisas e um dia sem saber bem como, aconteceu, Era namorado da moça mais feia do povoado e, talvez, de todas as terras em redor.
Com o passar dos tempos, com o trato e o carinho Maria Emília começou a parecer-lhe menos feia. Bonita nunca a achou, mas menos feia sim.
Era feliz com ela, sentia-se bem, nunca notou qualquer olhar para a sua enfermidade, muito pelo contrário, sempre o considerou como dos homens mais bonitos da aldeia. E diga-se, em abono da verdade, se não fosse aquela dissimetria das pernas podia ser considerado um bonito homem.
Acabaram por casar, foi uma bela cerimónia e o princípio de um relacionamento feliz. Zé gostava da mulher e nem já notava que fosse menos bonita. Maria Emília já nem se apercebia que o marido andava um pouco desengonçado.
Casaram em Setembro e na véspera de Natal pegou nas mãos do marido, encostou-as à barriga e disse-lhe:
-Zé olha aqui a tua prenda de Natal. Estou grávida!
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Foram meses de alegria e expectativa. Seria um rapaz ou uma rapariga?
Zé olhava a mulher, e dizia:
-Sabes? Gostava que fosse uma menina,
assim doce como tu!
Maria Emília sorria, imaginava uma criança
a correr naquela casa.
-Eu gostava que fosse um rapaz, dizia com
receio na voz.
-Se for uma menina que seja bonita como o
pai e se for um rapaz que traga as duas perninhas parelhas!
Depois riam a bom rir com a felicidade estampada no rosto.
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Depois riam a bom rir com a felicidade estampada no rosto.
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Foi em Julho, estava uma manhã quente, quando Maria Emília gritou para o marido:
-Zé vai chamar o Doutor Óscar, está chegando a hora!
Era uma menina, foi um parto difícil e demorado, mas acabou por correr tudo bem.
Olhavam os dois fascinados para a filha, ainda estava um pouco congestionada.
Não parecia uma bebé muito bonita mas
nestas idades mudam muito. As perninhas, essas, eram perfeitas, o doutor Óscar
garantiu que era uma criança saudável e sem defeitos.
-Vai ser Maria Alzira, Maria como tu e Alzira como a minha mãe. Não te importas? Perguntou Zé.
-Gosto do nome, vai ser então Maria Alzira! Exclamou a mulher.
-Vai ser Maria Alzira, Maria como tu e Alzira como a minha mãe. Não te importas? Perguntou Zé.
-Gosto do nome, vai ser então Maria Alzira! Exclamou a mulher.
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Maria Alzira foi uma criança feliz, cresceu numa família que sempre transmitiu os valores do comportamento e da educação.
Muito inteligente. facilmente se foi
apercebendo que o espelho não mente.
Olhava-se e não percebia porque a achavam feia, tinha uns olhos muito pequenos, uma boca demasiado grande com lábios muito finos, pestanas ralas e pouco visíveis enquanto as sobrancelhas fartas quase se juntavam no meio dos olhos.
Mas, pensava, o que tinha isso de
especial?
Era só a cara, que representa uma
percentagem mínima do total?
Tinha umas mãos lindas, dedos longos com
unhas bem desenhadas, pernas altas e bem torneadas e uma cintura no sítio certo.
Um par de mamas que eram a inveja das outras raparigas e prendiam os olhares dos
rapazes. Eram certas, rijas, empinadas e terminando em dois pequenos botões de
rosa.
*****
A animação chegou à vila - sim a aldeia agora já era uma vila - as ruas estavam enfeitadas, a música percorria todos os recantos enquanto os festeiros faziam o peditório para ajuda nas despesas.
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A animação chegou à vila - sim a aldeia agora já era uma vila - as ruas estavam enfeitadas, a música percorria todos os recantos enquanto os festeiros faziam o peditório para ajuda nas despesas.
A população tinha duplicado com a chegada dos filhos da terra, imigrados por esse mundo fora e que, nesta data, voltavam para matar saudades.
Às portas das tabernas e cafés, os grupos
davam um ar de animação e alegravam o negócio.
Logo pela manhã os foguetes acordavam os mais preguiçosos.
Hoje, às 10 horas, era a primeira noite de
baile no pavilhão da Sociedade recreativa.
Era um acontecimento e a oportunidade para os mais jovens, tentarem uma aproximação aos eleitos dos seus corações.
A sala estava cheia, o conjunto “Brothers” começou os primeiros acordes na afinação dos instrumentos.
Os homens iam-se distribuindo pelas
bancadas de madeira e as mulheres procuravam, no lado contrario, lugares nas
cadeiras alinhadas.
Havia muita animação, os pares redopiavam ao som do barulho que a música deixava no ar.
Havia muita animação, os pares redopiavam ao som do barulho que a música deixava no ar.
Maria Alzira, num bonito vestido rosa, com um decote que sem ser generoso, deixava contudo perceber o orgulho da rapariga, olhava com interesse e alguma expectativa e esperava um convite, para poder sentir o calor de um par nas voltas de uma dança.
No tablado, em frente, estava um jovem que ela não conhecia. Não era da terra. Provavelmente amigo de alguém, ou forasteiro de terra próxima, mas a verdade é que não sabia quem era. Era bonito, vestia com algum requinte. Tinha uma expressão doce, rosto moreno bem delineado, o cabelo negro em desalinho nos suaves caracóis distribuídos de forma quase displicente, davam-lhe um encanto que obrigava as raparigas a olhar uma vez e mais uma, na esperança de um convite para a dança, mas ele continua de olhar passeante como se nada de especial lhe prendesse a atenção.
Maria Alzira pensou. E porque não? Se os homens iam pedir as mulheres porque não o contrario?
Se bem o pensou melhor o fez, chegou perto do jovem e perguntou:
-Aceita bailar comigo esta dança?
O rapaz pareceu surpreso, mas levantou-se
e foi dizendo:
-Gostava muito, mas só se for a menina a
conduzir.
Ela segurou-lhe a mão, enlaçou-o nos
braços e partiram embalados no barulho daquela música.
-Não o conheço! Não é de cá? Perguntou.
-Sou filho do Severino e Ana Galhardo, filhos da terra, mas nasci em França para onde os meus pais imigraram há cerca de 25 anos.
-Dança muito bem! Porque quer que seja eu a guiar a dança? Perguntou a rapariga.
-Ainda não percebeu? Sou cego, respondeu.
Dançaram toda a noite, e nas noites seguintes.
Felizes e esquecidos das belezas e
limitações.
Falaram da vida, dos anseios, das pessoas
e das coisas e conversaram, também, das coisas do coração.
Quem sabe se não começou aqui uma linda história de amor!
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Paradoxo
Havia
algo de estranho naquele amor, um pouco irracional e com tantas contradições,
mas era um amor.
Ricardo
era um rapaz que emergiu, quase por encanto do nada, apareceu assim de repente
de uma província que nunca explicou, filho de ricos fazendeiros que ninguém
conhecia e licenciado em direito numa qualquer universidade que nunca foi
confirmada. É uma pessoa de falas mansas, tímido, delicado em demasia e
com excessiva amabilidade. Quase fastidioso.
Mafalda
é uma morena a que Deus, generosamente, deu tudo o que qualquer mulher deseja,
beleza, sensualidade, inteligência e uma certa dose de estudada ingenuidade.
Eram
diferentes, ou mais propriamente, eram totalmente opostos, quase como a
luz e a sombra.
Havia,
no entanto, uma atracção inexplicável, um amor quase doentio, uma cumplicidade
que ninguém conseguia entender.
Viviam
numa paixão que parecia estranha, mas não, era apenas diferente pelos
contrastes, pelos comportamentos e, um pouco, pelo insólito.
Bebiam
as palavras, olhavam-se de uma forma tão doce que acabavam por enjoar quem os
observava.
Um dia desapareceram. Durante uns tempos ninguém os viu, tentaram adivinhar onde poderiam estar, o que teria acontecido?
Um dia desapareceram. Durante uns tempos ninguém os viu, tentaram adivinhar onde poderiam estar, o que teria acontecido?
Muitas
conjecturas, mas na verdade ninguém sabia os motivos dessa ausência.
Não foi
grande, foram apenas 28 dias, mas todos notaram, faziam falta para matar a
rotina, para alimentar os falatórios à porta do café, para amenizar as más
disposições da dona Efigénia que, debruçada na janela ia observando e
comentando todos os acontecimentos visíveis no escasso horizonte do seu poiso
habitual.
*****
De repente, tal como se eclipsaram, aparecerem de novo no seu mundo.
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De repente, tal como se eclipsaram, aparecerem de novo no seu mundo.
Tudo
parecia ter voltado à normalidade mas as coisas a, pouco e pouco, iam
mudando.
Aquele
amor, que iam pingando na doçura do olhar e a ternura, daqueles afagos, começaram
a escassear.
Deixaram
de ser os mesmos. Andavam juntos mas era como se não se conhecessem.
A troca
de caricias e os carinhos foram mudados para indiferença e ares sisudos. Não se
olhavam, davam o braço numa tentativa de encobrirem uma situação tão visível
que esconder era, apenas, uma forma de tornar mais visível o que todos já
tinham percebido.
Chegavam
no carro e ele já não lhe ia abrir a porta, como sempre o fizera.
Eram um
casal, mas não o mesmo que todos conheciam.
Parecia
que ainda havia amor, mas a chama era tão trémula que ninguém a percebia. Só
eles.
Ninguém sabia mas a dona Efigénia, no seu posto de observação, descobriu tudo.
Era fácil, agora os dois usavam aliança, tinham casado.
Afinal era tão óbvio.
Ninguém sabia mas a dona Efigénia, no seu posto de observação, descobriu tudo.
Era fácil, agora os dois usavam aliança, tinham casado.
Afinal era tão óbvio.
domingo, 18 de novembro de 2012
É o segredo da casa amarela
Alguns dos meus amigos, que por aqui
passam, perguntaram:
-Afinal qual era o segredo da Casa Amarela?
Confesso que também não sabia mas, por vós, fui inventar.
-Afinal qual era o segredo da Casa Amarela?
Confesso que também não sabia mas, por vós, fui inventar.
Estávamos no ano de 1820, as revoluções
liberais e nacionalistas tinham tomado conta da Europa, Portugal, tal com hoje,
atravessava um período de grandes convulsões com o desemprego, o fecho das fábricas,
a revolta do proletariado rural e o descontentamento do proletariado urbano,
custo de vida, insatisfação da burguesia que se via excluída do poder político
e atingida pela grave crise económica.
Dom Fagundes de Aragão, aquando da aprovação da constituição de 1822, revoltou-se quanto à transformação da monarquia absoluta em monarquia constitucional, arreigado aos principias de classes sociais dominantes, renegou o Rei João VI e pegando na família e criadagem foi-se refugiar nas suas terras de Barroso.
Esse lugar tornou-se num local de reuniões e conspirações que começaram a causar mau estar entre os absolutistas que resolveram acabar com o mal pela raiz.
Reuniram-se num grupo e avançaram contra o conspirador, encontraram-se no Alto do Trigueiro, largo num terreiro da propriedade, onde se deu uma verdadeira chacina, da família Aragão apenas restaram os mais novos que se tinham escondido numa capela em ruínas.
Os vencedores partiram na euforia da vitória, tendo deixado, entre os seus e os conspiradores, duas dezenas de corpos no campo da batalha, entre eles Dom Fagundes de Aragão que num estertor final, barba vermelha de sangue, gritou:
-Eu ia construir aqui uma casa amarela da cor das armas do nosso brasão, não consegui mas um dos que me sucederem irá dar continuação ao meu desejo.
Nós o que aqui estamos e todos os que aqui,
forem deixando esta vida, vão permanecer neste lugar que a crueldade dos homens
amaldiçoou.
Mas fica o segredo, um dia um Aragão a quem Deus vai dar a beleza que a todos os outros negou, aparecerá do desconhecido e com a força do seu sorriso irá libertar, todos estes que vivem nas trevas, com o ribombar do trovão, pela violência do raio e pela intensidade do fogo purificador.
Fechou os olhos e, tal como os restantes, desapareceu nas trevas, como se jamais ali, antes, tivesse estado.
Nunca encontraram os corpos.
Os mais novos, que escaparam à chacina, eram 14 crianças todas da família de Dom Fagundes. Dois filhos e duas filhas, dois sobrinhos, três sobrinhas, um irmão mais novo que sofria de um distúrbio mental, quatro primos e a Dona Juliana uma aia responsável por todos, principalmente, os mais novos.
Mas fica o segredo, um dia um Aragão a quem Deus vai dar a beleza que a todos os outros negou, aparecerá do desconhecido e com a força do seu sorriso irá libertar, todos estes que vivem nas trevas, com o ribombar do trovão, pela violência do raio e pela intensidade do fogo purificador.
Fechou os olhos e, tal como os restantes, desapareceu nas trevas, como se jamais ali, antes, tivesse estado.
Nunca encontraram os corpos.
Os mais novos, que escaparam à chacina, eram 14 crianças todas da família de Dom Fagundes. Dois filhos e duas filhas, dois sobrinhos, três sobrinhas, um irmão mais novo que sofria de um distúrbio mental, quatro primos e a Dona Juliana uma aia responsável por todos, principalmente, os mais novos.
Passaram a noite no refugio e no da seguinte procuraram, vasculharam e nem um vestígio dos parentes mais velhos.
A aia foi sossegando como lhe parecia
melhor:
-Se calhar Sua Majestade mandou-os para Lisboa,
um dia vão aparecer por ai.
Ela sabia que não era provável, pois o
sangue que ensopava o terreiro do jardim, no alto do trigueiro, era um mau
auguro, decerto mataram-nos a todos e levaram os corpos para não deixarem vestígios
da barbárie.
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A povoação estava surpreendida, um grupo de crianças, a mais velha com 16 anos, um meio demente e uma criada mantinham a quinta e tinham a maior e melhor produção de toda região.
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A povoação estava surpreendida, um grupo de crianças, a mais velha com 16 anos, um meio demente e uma criada mantinham a quinta e tinham a maior e melhor produção de toda região.
Ninguém sabia como e eles, nunca disseram,
mas também não o sabiam, que as coisas apareciam feitas, as terras lavradas, as árvores podadas, as sementes lançadas à terra, as colheitas feitas e em ordem
para as diversas distribuições.
-Era um milagre, dizia Juliana, grande devota de S. Bartolomeu padroeiro dos agricultores.
No íntimo ela pensava em algo mais místico, mas ficava com o pensamento dentro da simplicidade do seu raciocino.
Todas as mulheres foram esquecidas, pelo Ser Supremo, no dia em que distribuiu a formosura.
A mais velha, Raimunda, no dia em que completou 21 anos ao acordar teve um dos maiores sustos da sua vida. Despertou e sentado no banco junto à sua cama estava o pai.
Primeiro ficou assustada, depois recobrou e com alegria exclamou:
-Senhor meu pai, sempre tive esperança que
ias voltar e, melhor ainda hoje, dia do meu aniversario. A melhor prenda que
podia receber. Onde estivestes, todos estes anos, escondido?
Dom Fagundes, barbas manchadas, olhos sem expressão apenas murmurou numa voz cava:
-Ando no limbo, na indefinição, no lugar onde ninguém quer estar. Deus não te fez bela mas deu-te inteligência e bondade, eu não voltei porque sempre estive aqui, esperando pelo dia em que podia passar o segredo que há séculos amaldiçoa a nossa família.
Tens que o guardar e tens que o transmitir quando chegar a tua hora.
Dom Fagundes, barbas manchadas, olhos sem expressão apenas murmurou numa voz cava:
-Ando no limbo, na indefinição, no lugar onde ninguém quer estar. Deus não te fez bela mas deu-te inteligência e bondade, eu não voltei porque sempre estive aqui, esperando pelo dia em que podia passar o segredo que há séculos amaldiçoa a nossa família.
Tens que o guardar e tens que o transmitir quando chegar a tua hora.
-Mas que segredo é esse senhor meu pai? Gritou Raimunda.
-É simples mulher, multiplicai-vos até que
uma mulher bela apareça na nossa família. Quando ela surgir virá aqui, para dar
descanso ao que esperam a salvação.
De repente fez-se noite, o dia foi coberto por uma negrura assustadora, a terra tremeu e tremendos urros ecoaram no espaço.
De repente fez-se noite, o dia foi coberto por uma negrura assustadora, a terra tremeu e tremendos urros ecoaram no espaço.
Quando tudo voltou a normalidade, o homem tinha desaparecido e Raimunda jazia na cama, parecia morta. Mas não, estava apenas numa espécie de letargia.
Quando espertou sabia que, agora, era a guardiã de um segredo que não tinha percebido muito bem.
*****
Muitos anos se passaram, a monarquia caiu e os carbonários tentaram tomar conta da casa dos fidalgos. Foi um dos seus maiores erros, de todos os entraram na propriedade nenhum voltou a sair, foram tragados por um buraco negro que de repente se abriu e os engoliu.
Com o andar dos tempos, as convulsões sociais foram acalmando o espírito das pessoas e, os habitantes do Solar, começaram a ser considerados como fazendo parte daquela comunidade formada por pessoas que viviam da agricultura da pastorícia.
Já poucos restavam. Os casamentos, quase todos entre primos, que deram origem a uma descendência enfraquecida que facilmente ia desaparecendo tisicas, engolidas na peste cinzenta, tão vulgar na época.
*******
Foi por esse período que o nosso já conhecido, Doutor Alcides de Aragão, mandou erigir a casa Amarela no terreiro. Seria o seu refugio, continuava junto da família mas tinha um local para os seus livros, para a escrita e para receber, fora dos olhares curiosos, a Zezinha moça bonita de peito farto e ancas roliças que trazia embeiçado o nosso intelectual, que além de doidamente perdido pela sua Zezé, tinha a esperança que ela lhe desse uma filha linda, como a mãe, que fosse a força libertadora da maldição desta família.
Foi por esse período que o nosso já conhecido, Doutor Alcides de Aragão, mandou erigir a casa Amarela no terreiro. Seria o seu refugio, continuava junto da família mas tinha um local para os seus livros, para a escrita e para receber, fora dos olhares curiosos, a Zezinha moça bonita de peito farto e ancas roliças que trazia embeiçado o nosso intelectual, que além de doidamente perdido pela sua Zezé, tinha a esperança que ela lhe desse uma filha linda, como a mãe, que fosse a força libertadora da maldição desta família.
Não se pode condenar a Zezinha, Deus sabe que ela tentou e que a terra era fértil mas a semente, essa, já era muito má.
Na velha casa continuavam apenas as duas irmãs Dona Catarina a quem, dom Alcides, deu conta do segredo e do receio de nunca conseguirem dar aos que partiram a tranquilidade de que tanto necessitavam.
Ela já tinha passado do prazo e ele apenas
tinha força de vontade, o resto estava apagado.
A mais nova Adelaide era, como diziam as irmãs, uma songamonga que nem jeito tinha para arranjar um homem, por mais reles e pateta que fosse, desde que tivesse alguma beleza para transmitir a uma filha.
O desalento ia, aos poucos, tomando conta da família e nas noites mais escuras, já pressentiam alguma agitação nas sombras da casa, podia ser apenas impressão, mas Alcides tinha receio que o desassossego dos seus entes queridos os fosse atormentar.
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Foi numa tarde de Agosto, o calor era insuportável e Catarina chamou a irmã para ir encher uma infusa, de água fresca, à fonte.
Foi numa tarde de Agosto, o calor era insuportável e Catarina chamou a irmã para ir encher uma infusa, de água fresca, à fonte.
Chamou e nada de Adelaide. Onde raio se
ter metido a rapariga, se andava ali todo dia numa total pasmaceira?
Chamou o irmão. Correram toda a casa principal e mais a casa Amarela, espreitaram a adega, o curral e até o chiqueiro e nada de Adelaide.
Os cães continuavam num total sossego, por isso nada de estranhos pelas redondezas.
Alcides desceu ao povoado, ia avisar a guarda.
No caminho encontrou o mestre Zacarias,
que estranhou a ligeireza e o ar ofegante do fidalgo e, não sustendo a
curiosidade perguntou:
-Onde o leva essa pressa toda?
Alcides sem aligeirar os passos, respondeu:
-Vou às autoridades, a minha irmã Adelaide desapareceu, não sabemos dela.
O mestre, também lhe chamavam engenheiro, embora nunca tenha ido escola, mas era ele quem arranjava os engenhos que faziam os moinhos girar, descansou o homem:
-Escusa de ir com essa urgência toda porque a senhora dona Adelaide não tinha ar de desaparecida, muito pelo contrário, ia muito feliz e contente agarrada ao braço do Senhor Esteves a caminho do carro.
Sabe quem é o senhor Esteves? O caixeiro-viajante
que aparece por ai quase todos os meses?
Alcides, nem se despediu do mestre Zacarias, arrepiou caminho e voltou para a quinta.
Alcides, nem se despediu do mestre Zacarias, arrepiou caminho e voltou para a quinta.
Entrou esbaforido, o suor escorria-lhe pelo rosto abaixo e os bofes quase saltando-lhes pela boca, respirou fundo antes de dizer:
-Catarina a partir de hoje somos, só nós os dois e os nossos mortos, que povoam estas terras.
-Mas, balbuciou a irmã, o que é feito de Adelaide?
Os olhos do homem chisparam, ficou com um ar de apoplexia, vermelho, transpirando ódio.
-Nunca, mas mesmo nunca mais, esse nome é pronunciado nesta casa, foi como se tivesse morrido. Na nossa família, que vem desde o século XVIII, nunca houve rameiras e não é agora que essa dissoluta vem denegrir a nossa linhagem.
Esquece o nome, para nós desde hoje, nunca
existiu.
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Naquela tarde de inverno em que uma tão estranha procissão subia a ladeira que os levava à Casa Amarela, quando Sabrina apontou e disse:
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Naquela tarde de inverno em que uma tão estranha procissão subia a ladeira que os levava à Casa Amarela, quando Sabrina apontou e disse:
-É esta a minha herança?
A maldição quebrou perante a dádiva de Deus em ter dado, finalmente, uma mulher bela à família Aragão.
Hoje, graças a generosidade de todo o povo, no lugar onde um dia existiu a casa Amarela, foi inaugurada uma capela em honra de S. Bartolomeu.
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