Ramiro olhou a rapariga e não se
conteve:
-A gaja e boa como o milho!
Não querendo entrar em brejeirices sou obrigado a concordar, de facto, a rapariga era de fazer perder a respiração.
Longilínea, torneada e com tudo a que
uma mulher tem direito.
Os cabelos negros, emolduravam um rosto
angelical, olhos de cor de avelã, lábios carnudos e um sorriso como o sol a
nascer numa manhã, radiosa, de primavera.
Era, de facto, boa como o milho!
Mas voltando, como sói dizer-se, à vaca
fria, a exclamação de Ramiro não passou despercebida, Lúcia captou a mensagem,
sorriu, pensou responder mas acabou por fingir não se ter ouvido. Não convinha!
Não era a primeira vez que se apercebia
de galanteios parvos e, embora lhe balançassem o ego, entristeciam-na a forma babosa.
Teve que fazer de conta, passou pelo galanteador e apresentou-se à menina, que estava na secretaria, ao fundo da sala.
Teve que fazer de conta, passou pelo galanteador e apresentou-se à menina, que estava na secretaria, ao fundo da sala.
Esperou a atenção e perguntou:
-Será que estou no local certo? Sou Lúcia
de Sá e fui convidada para uma entrevista!
A recepcionista, olhou-a com um sorriso tranquilizador, sorriu e indicou-lhe uma cadeira antes de responder:
-Sente-se por um momento, o doutor Marcelo está a atender outra candidata e, a seguir entra a menina.
Sentou-se com uma elegância estudada, puxou delicadamente a saia sobre os joelhos, que rodou de forma a ficar composta e elegante.
Esperou, precisamente, doze minutos.
Quando entrou, no gabinete, não pode passar sem deixar um bruaá de admiração, nunca tinha visto nada assim, ou melhor, viu em
filmes mas isso era surreal. Aqui era verdade.
Uma sala, para ai, com 50 metros quadrados, paredes forradas em tecido almofadado, ao meio uma secretaria enorme, com montes de papéis, escrupulosamente alinhadas e protegidos por pisa-papéis em cristal colorido.
O fulano que estava no outro lado daquela secretaria, doutor Marcelo, era um tipo esquisito, macilento, dedos enegrecidos pelo tabaco, olhos encovados por detrás de uns óculos sem aros.
Lúcia ficou perfilada, do lado de cá da
secretaria, numa atitude estática e expectante.
Finalmente o homem levantou-se, estendeu
um mão marcada pela nicotina e apontou uma cadeira.
Abriu uma pasta, leu atentamente uns papéis,
de vez em quando, olhava a rapariga e maneava a cabeça, voltava a ler as
folhas. Por fim, arrumou meticulosamente a pasta e perguntou:
-É casada? Aqui no seu currículo não faz qualquer referência!
-Achei que, para o caso, não seria
relevante! Respondeu Lúcia.
O homem ajeitou os, invisíveis, óculos antes de replicar:
-Neste caso é importante,
muito importante! Precisamos de alguém com muita disponibilidade de tempo, desocupada
para viajar.
Uma senhora casada, muito legitimamente,
tem obrigações que podem ser obstáculo a essa disponibilidade. Só por isso!
Lúcia, brindou-o com um sorriso capaz de derreter um coração, mas o homem nem sequer o notou, e voltou à entrevista:
Lúcia, brindou-o com um sorriso capaz de derreter um coração, mas o homem nem sequer o notou, e voltou à entrevista:
-Bom! A doutora Lúcia, olhou o papel a
confirmar o nome, Lúcia Pimentel tem uma boa formação académica,
uma belíssima presença, não tem muita experiência mas, com a formação que a
Companhia proporciona, não lhe será difícil!
Eu vou aconselhar a sua contratação! Num prazo de 15 dias será, novamente, convocada para uma conversa com o seu futuro chefe, assim espero!
Estendeu a mão numa despedida.
++++++
Quando respondeu ao anúncio, não sabia bem ao que estava a candidatar-se. Era vago.
Quando respondeu ao anúncio, não sabia bem ao que estava a candidatar-se. Era vago.
Dizia apenas:
"Empresa líder na sua área, admite profissionais com formação académica superior nas áreas de Design, Gestão ou Ciências Sociais.
Responder com "cv" detalhado para....."
Lúcia, tinha acabado um mestrado. Entrar no mercado de trabalho era a prioridade. Mandou dezenas de "cv" para todas as Empresas que poderiam, eventualmente, estar interessadas, mas o tempo ia passando e nenhuma resposta.
Estava a ficar com uma certa frustração e, emigrar não estava no seu horizonte, não queria deixar a família.
Tinha um curso superior, com um mestrado
em sociologia e, relações de trabalho, dominava além da língua materna, também,
inglês e alemão.
Não tinha, evidentemente, experiência
profissional mas considerava-se inteligente, de fácil adaptação e com
capacidade para assumir qualquer cargo, na sua área.
A entrevista não correu mal, gostaram do "cv", parece que, tirando o parvo da “boa como o milho”, deixou boa impressão pelo aspecto e pela apresentação.
A entrevista não correu mal, gostaram do "cv", parece que, tirando o parvo da “boa como o milho”, deixou boa impressão pelo aspecto e pela apresentação.
*******
Estava nervosa, quando aquele Dr.
Marcelo a atendeu, nem sequer perguntou quais as funções que, em caso de admissão,
iria desempenhar. Possivelmente, esperava, um cargo que lhe desse um acesso
rápido a um lugar na chefia.
Ia aguardar!
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******
Passaram 10 dias, quando lhe telefonaram a marcar a segunda entrevista. Pareceu-lhe ser, a menina da recepção, que a convidou para amanhã às 16 horas.
Chegou antes da hora, aproveitou para olhar melhor e tentar saber qual a actividade, apenas uma frase se destacava nos, diversos, painéis espalhados na entrada.
Temos nas nossas mãos o futuro, queremos repartir com todos. Iremos ao vosso encontro.
Não lhe acrescentou muito, dirigiu-se à mesma menina que a mandou esperar, na mesma cadeira. Hoje não ouviu nenhum galanteio, apenas olhares!
Pegou numa revista, era da própria Empresa.
Um organigrama, com um Presidente no topo da árvore, depois ramificações com directores e Chefes de departamentos, disposto por uma ordem que lhe pareceu um pouco confusa. Um dia, quando já tivesse uma palavra na estrutura, iria propor uma reformulação desse quadro, para um mais consentâneo com as novas realidades dos mercados.
Bom, mas isso seria depois!
Desta vez esperou um pouco mais, quase 20 minutos, para a mandarem entrar naquela imensa sala.
Desta vez esperou um pouco mais, quase 20 minutos, para a mandarem entrar naquela imensa sala.
Hoje havia dois personagens, um homem
grande, demasiado gordo, encaixado na cadeira, com os braços a ocuparem grande
parte da secretaria, ao seu lado, de pé, o fuinha do piropo.
O homem grande, estendeu uma mão sapuda
num cumprimento mole e desajeitado. Olhou a moça de alto abaixo, mas fez de
forma casual, antes de se apresentar:
-Sou Jaime Ventura, director do
departamento comercial e este, apontou o cromo, é o senhor Ramiro Parente,
coordenador dessa área.
Somos, julgo que já deve saber, espero que o nosso director de recursos humanos, Dr. Marcelo, lhe tenha explicado na primeira entrevista. Como ia dizendo, somos uma Empresa vocacionada para o bem-estar das pessoas e temos uma gama de produtos que tornam, mais fácil o dia-a-dia de cada um. Mas aqui o Ramiro irá, depois, fazer uma apresentação mais detalhada.
Estamos dispostos a considerar a sua admissão, como deve compreender, faremos um primeiro contrato e, bem…,depois logo se verá!
Somos, julgo que já deve saber, espero que o nosso director de recursos humanos, Dr. Marcelo, lhe tenha explicado na primeira entrevista. Como ia dizendo, somos uma Empresa vocacionada para o bem-estar das pessoas e temos uma gama de produtos que tornam, mais fácil o dia-a-dia de cada um. Mas aqui o Ramiro irá, depois, fazer uma apresentação mais detalhada.
Estamos dispostos a considerar a sua admissão, como deve compreender, faremos um primeiro contrato e, bem…,depois logo se verá!
Lúcia estava expectante e, um pouco, incomodada pelo olhar aparvalhado e baboso do tal Ramiro, não sabia como poderia, algum dia, trabalhar com tão triste figura!
-Mas, perguntou, qual vai ser o meu papel nesta Empresa?
-Vamos lá chegar! Disse, um pouco
agastado, o Dr. Jaime. Vamos por partes! Nós trabalhamos por objectivos e os
ganhos podem ser grandes. Num bom mês, pode fazer 5.000 Euros, ou mais!
Tem sempre garantido, um ordenado mínimo nacional, subsidio de deslocação, quando estiver fora e comissões graduadas em função, dos valores dos negócios que conseguir fechar.
Tem sempre garantido, um ordenado mínimo nacional, subsidio de deslocação, quando estiver fora e comissões graduadas em função, dos valores dos negócios que conseguir fechar.
-Mas, insistiu Lúcia, quais vão ser as minhas funções? Ainda não me disse!
O homem estava vermelho com o desplante
da catraia, queria parecer calmo mas a rapariga era irreverente e ele não
gostava disso. Acalmou antes de responder:
-Mas o doutor Marcelo não lhe explicou?
Lúcia abonou a cabeça e confirmou:
-Não disse e eu esqueci de perguntar!
Bateu com a mão, repetidamente, na testa e
falando, com ele próprio foi dizendo:
-Ele deveria ter explicado e a menina
devia ter perguntado! É assim que as coisas devem funcionar!
-Tem razão, disse Lúcia, eu devia ter
perguntado mas, estava tão nervosa e, não perguntei!
Deu duas pancadinhas, com os nós dos dedos, no tampo da mesa, largou um pequeno suspiro, antes de continuar:
-Vai bater à porta das pessoas, demonstrar o nosso equipamento e conseguir contractos. Quanto mais, melhores comissões!
Lúcia levantou-se de forma lenta e
estudada, não descruzou as pernas como uma "Sharon Stone", mas fez
furor. O gordo parecia um besugo enraivecido e o Ramiro, desorbitado, parecia
um cão uivando à lua.
Lúcia olhou-os e teve pena de tanta tristeza. Foi saindo
mas eles ainda a ouviram:
-Preferia ir lavar escadas, que ir vender trastes com um cromo desses, atrás de mim!
Deus me livre!
Bateu com a porta e foi respirar o ar puro da rua.
Bateu com a porta e foi respirar o ar puro da rua.



