A situação estava difícil, as convulsões
sociais eram a causa de muito do que acontecia e de tudo o que estava para vir.
Dona Brites não conseguia compreender as razões, porque o pobre do marido, Tobias da Silva, estava condicionada nos pensamentos políticos que o norteavam. Era um homem de convicções, quase um sonhador, pois tinha na sua imaginação, que um dia os homens podiam expressar livremente as suas ideias e ideais, sem medo da polícia política. que parecia nascer em cada esquina das ruas da cidade.
Hoje, ainda a manhã não tinha rompido e já tinham levado o pobre homem e alguns livros da sua estante, a caminho da Rua António Maria Cardoso, onde ia ser sujeito a tortura e humilhações para denunciar pessoas, que ele próprio não conhecia, mas para a Pide, quem tinha ideias mais progressistas fazia, decerto, parte de alguma organização tenebrosa preparada para por em causa este Estado Novo, que era tenaz a manter a mordaça em todos os que suspiravam pela democracia.
Em norma, passados oito dias, voltava a casa mais velho e muito desgastado, mas mais convicto da justeza dos seus anseios.
Naquele dia vieram ao cair do dia e o desgraçado do Tobias, mais uma vez, foi manietado e arrastado como se fosse o mais perigoso facínora.
Era um pobre homem, magro e indefeso, que aqueles algozes, meteram numa carrinha que desapareceu no escuro da noite.
Voltaram os interrogatórios violentos, sem nexo, a tortura de horas intermináveis em pé, os sonos proibidos para amolecer as vontades e quebrar a resistência dos mais tenazes.
Tobias já tinha sentido todas as torturas, sempre resistiu sem um queixume, sem um lamento e sem abrir a boca para pronunciar uma palavra.
Mas hoje eram de mais, as tremuras e o mau
estar sobrepunham-se ao cansaço.
A idade e a forma como lhe iam moendo o
corpo, para lhe chegarem ao pensamento, estavam a tirar-lhe a noção do local, a
quebrar a pouca força física que ainda lhe restava.
Queria morrer, desejava que o deixassem
dormir!
Fechou os olhos, perdeu o conhecimento e desfaleceu
pendurada nas correias com o que mantinham amarrado.
Já não ouviu, alguém, gritar:
-Levem esse gajo, já deu o que tinha a
dar!
Não percebeu nem sentiu mas, parece que
tinha conseguido a liberdade sonhada.
*****
Desta vez dona Brites estranhou tão grande
ausência.
Arrastou as dores que faziam parte do seu dia-a-dia
e foi saber notícias do seu homem.
Dias e dias e sempre a mesma resposta, nunca tinham ouvido falar nesse senhor Tobias Moreira da Silva, naqueles serviços nunca entrou.
Devem estar a fazer confusão!
Dona Brites insistiu e foi ameaçada.
Tinham muito que fazer e não podiam estar
a aturar os devaneios de uma mulher que perdeu o marido.
Se voltasse ia arrepender-se!
Ela consultou um advogado, pagou 10 contos de réis, para nada pois quando voltou a saber noticias o advogado aconselhou:
-Não se meta com essa gente! Não vale a pena. O seu marido já não deve estar vivo e o corpo nunca vai aparecer!
*****
A existência sem o seu Elias era diferente, não era vida. Quando estavam juntos e, foram 18 anos, sentia que estava completa, o marido preenchia a sua vida, pelo amor, pelo carinho e pela forma boa e plena, como completava todos os instantes da sua existência.
A política era a única discordância no seu quotidiano, ela não concordava com essa ideia do marido, querer mudar o que era imutável, o regime já existia há três décadas e estava firme e controlava tudo e todos, como podia um homem fraco e indefeso, como o seu Elias, mudar o que os fortes e poderosos não conseguiam?
Agora estava só, vivia das recordações, das memórias e de uma dor de nunca ter feito o luto de um marido, que sabia morto mas queria pensar que ainda podia estar vivo.
****
Quando o telefone tocou, tão cedo,
arrastou as dores que lhe tolhiam o corpo, e atendeu.
-Olha Brites houve uma revolução e o regime caiu! Gritou o cunhado do outro lado da linha.
-Oh Jorge e isso é bom ou mau? Perguntou na sua ingenuidade.
-Todos esperam que seja o princípio da
liberdade porque o Elias tanto lutou e, também, tenho a esperança que agora
consigamos saber o que lhe aconteceu. Vamos fazer o nosso luto e o funeral que
anda dentro de nós!
******
Estávamos no final de Abril de 1974, numa bonita tarde de primavera, quando uma pancada na porta despertou dona Brites, do cochilar a seguir ao almoço.
Como o ouvido já lhe ia pregando partidas,
aproximou-se e espreitou pelo ralo da porta.
Estava alguém no outro lado.
Abriu uma fresta protegida pela corrente segurança.
Devia ser um mendigo, era habitual
aparecerem.
Coitados que havia de fazer?
-Espere um pouco, disse com voz triste, vou ver se tenho alguma coisa para o ajudar!
O homem, do lado de fora, curvado, roupa desalinhada e com uma velha boina bilbaína na cabeça, numa voz cansada gritou:
-Abre a porta amor! Tenho saudades tuas e da nossa casa.
Abre!
Estou há muito tempo preso!
Suspirou.



