O (Tem uma bolinha)
Quando ela lhe apareceu, naquela “lingerie” vaporosa, sentiu um fogo a percorrer-lhe o corpo.
As pernas altas, enfiadas numas meias de
ligas e o corpo nu, apenas envolto num trapo vermelho, totalmente transparente,
eram um doce pecado.
Sentiu o sangue subir à cabeça e algo se
alterou no seu corpo.
Atirou a mulher para cima da cama,
desenvencilhou-a daquele empecilho e deixou as mãos percorrerem aquele corpo
ardente, que ia gemendo aos sentidos de uns afagos, quase de veludo, descendo devagar,
deslizando na cintura, acariciando a anca e terminando numa afago nos joelhos,
depois, subiu lentamente das coxas ao rabo, acarinhando suavemente a
nádega.
Ela apenas gemia numa espera desesperada, ele continuava em enlevos, deixando a língua percorrer-lhe a boca, entrar os ouvidos e descer, lascivamente, até dois bicos túmidos, num corpo ardente e impaciente em sentir o marido dentro dela.
Tomou a iniciativa e puxou-o, para lhe sentir o peso e levou a mão na procura do que mais desejava.
O marido sentiu a mensagem, largou e mulher e gemeu:
-Desculpa! Mas não sou capaz!
Depois chorou em desespero.
A mulher transpirava raiva, vermelha
como a “lingerie” que estava abandonada no chão frio.
Olhou o marido, olhos brilhando de frustração e raiva, com ódio na voz gritou:
-Desgraçado, incapaz! Quarenta anos e acabado, é a segunda nega numa semana, ou estás morto, ou as putas com que andas, já te tiraram a tesão. O que tu precisas e estás a pedir, é um belo par a ornar-te a testa.
-Desaparece! Deixa-me em paz! Ou sais tu da cama ou vou eu!
O homem desapareceu. A mulher completou-se em contorções e adormeceu profundamente.
****
Raimundo fugiu para a sala, enroscou o corpo nu no sofá e chorou, chorou convulsivamente, até que o desespero e o ódio se acalmaram no seu corpo.
Era a segunda vez, nunca tinha
acontecido, na primeira foi a uma consulta de andrologia, o doutor Fagundes
fez-lhe testes, descansou-o, era uma situação de stress, de ansiedade,
cansaço, excesso de trabalho.
Devia acalmar e, com a ajuda da
companheira, tudo ia voltar ao normal.
Aquela frase, ajuda da mulher,
gritava-lhe aos ouvidos
... ajuda
da companheira,
…ajuda da companheira,
… ajuda
da companheira,
não valia a pena, a mulher não sabia o
que era ajudar. Egoísta, esperava tudo e não dava nada!
Começou a odiar quem, até agora, foi o
amor da sua vida.
Vestiu um fato de treino, fez a barba,
massajou o rosto, verteu uma boa porção, de Carolina Herrera 212, nas mãos,
esfregou no pescoço e alisou os cabelos.
Espreitou o quarto. O monstro dormia
profundamente.
Desceu à garagem, foi buscar o escadote
e atou, à trave central do tecto, uma corda, deixando-a pendurada com um nó de
corrediça na ponta suspensa.
Arrumou cuidadosamente o escadote,
voltou à cozinha, desfez alguns comprimidos num copo de água, engoliu com uma
careta, lavou o copo, limpou e guardou-o no armário.
Voltou
à cave, com um pedaço de um pau deu alguns golpes na nuca, até notar sinais de
sangue e alguns cabelos agarrados, deitou o pau para um canto, escondido, da
garagem.
De seguida, agilmente e à força de
braços, percorreu a trave até ao local da corda, a custo, passou a cabeça no
laço e, quando enfiou o pescoço, largou as mãos.
Apenas um pequeno gemido, um estremecer e um corpo, num leve balanço.
******
Narcisa acordou com a claridade que trespassava as persianas, olhou o lugar do marido e lembrou-se que devia estar a dormir no sofá. Era para aprender!
Foi espionar.
Não estava na sala, nem na cozinha, nem
em lado nenhum. Safado! Se calhar foi dormir com alguma cabra, mas não percebia
para que, o gajo já não dava nada.
Foi espreitar o carro, parecia estar na
garagem. Desceu, entrou e viu um corpo balouçando, suavemente, na trave do tecto.
Era o marido, roxo, língua pendurada ao canto da boca.
Subiu em pânico e ligou para o 112.
-Não mexa em nada, disseram do outro lado da linha.
Demoraram 45 minutos. Uma ambulância e um carro da polícia.
A mulher soluçava, o corpo tremia-lhe em ligeiras convulsões.
Os paramédicos olharam o corpo e
abanaram a cabeça:
-Nada a fazer!
Os guardas selaram o local, montaram
guarda e ficaram a aguardar, o médico-legista e a polícia judiciária.
Demoraram algum tempo.
Demoraram algum tempo.
O médico calçou umas luvas, subiu a uma cadeira e observou, minuciosamente, o corpo.
Olhou os agentes e observou:
-Já está morto há mais de oito horas,
apresenta sinais de ter sido agredido. Podem mandar descer o cadáver só depois,
na autópsia, posso adiantar mais alguma coisa.
Os agentes examinaram cuidadosamente todo o local, fotografaram, guardaram indícios.
Os agentes examinaram cuidadosamente todo o local, fotografaram, guardaram indícios.
Encontraram o pedaço de madeira com
vestígios de sangue e com alguns, cabelos agarrados.
O agente mais velho, olhou o colega e comentou:
-Este gajo não tinha asas, não há nada
que pudesse estar debaixo dos pés para se pendurar, tem ferimentos na cabeça,
ou muito me engano ou foi assassinado. Vamos mandar recolher o cadáver e
aguardar o resultado da autópsia. Mas tenho poucas dúvidas!
*****
Oito horas da manhã, Narcisa é acordada com fortes batidas na porta. Vai, meia estremunhada, espreitar. São dois homens que mandam abrir.
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Oito horas da manhã, Narcisa é acordada com fortes batidas na porta. Vai, meia estremunhada, espreitar. São dois homens que mandam abrir.
-Mas quem são os senhores? Pergunta.
-Policia Judiciaria, abra depressa!
Gritou um dos homens.
Abriu-a, tentando tapar o peito com o roupão. Um dos agentes segurou-lhe um abraço e disse-lhe:
-Tem que nos acompanhar! Está detida por suspeita na morte do seu marido.
Ela ficou sem saber que responder, apenas murmurou:
-Posso ir vestir-me?
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Foi interrogada e por mais que clamasse a sua inocência, não conseguia demover os agentes que insistiam:
-Era melhor dizer quem é o seu cúmplice neste crime, o juiz vai levar isso em conta e, sempre pode, ter uma pena mais leve.
A mulher chorava e insistia:
-Eu amava o meu marido e não lhe ia
fazer mal, ele suicidou-se.
O agente respondeu com sarcasmo:
-Pois, já sabemos isso! Mas… as evidências
e a autópsia dizem outra coisa. A senhora não fala, mas nós, vamos explicar.
Primeiro, deu-lhe uma bebida com uns calmantes e quando ele adormeceu com a
ajuda, se calhar de um amante, uma pancada na cabeça para ele não acordar. Depois,
os dois, penduraram o desgraçado pelo pescoço. Não deve ter sido fácil, ainda
eram 70 e tal quilos!
Tinham tudo bem estudado mas, esqueceram um pormenor, pequeno mas importante, ele para se enforcar precisava de um banco ou de um caixote. Não tinha asas!
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Foi condenada a 18 anos, apesar de jurar a sua inocência.
E desta vez estava, mesmo, inocente!
Mas isso, só nós sabemos!




