domingo, 17 de fevereiro de 2013

Podia ter sido diferente!







Já foi há muito tempo e a minha memória já me atraiçoa, só o pensamento me mantêm algumas recordações.

Tenho a certeza que foi em Maio, as tardes primaveris traziam o chilrear dos pardais que, em bando, tomavam conta das árvores.

Eu estava à janela, a tentar descobrir como me desenvencilhar de um nó de gravata que se tinha ensarilhado de forma estranha. Foi aí que a vi.         
Estava na rua em frente ao café do Esgalho, o Sol batia-lhe na cabeça e os cabelos pareciam espigas de milho douradas.
Desci a escada a dois e dois e, num instante, fiquei ao seu lado, descobri o melhor sorriso e meti conversa:

-És a Susana que mora na Travessa do Possolo, filha do Zé da Nora, não és?

Escarneceu e com ironia foi dizendo:

-Deves estar a armar-te em parvo ou que? Tás farto de saber quem sou! Até andamos, na primária, na mesma escola, tu nos rapazes e eu nas raparigas.

Tive que me esforçar, pois o raio da rapariga desconcertou-me.

-Tens razão, desculpa mas não sabia como meter conversa. Sou mesmo parvo!

-Se tu o dizer quem sou eu para contradizer, mas afinal o que queres? Perguntou.

-Estar contigo, conhecer-te melhor. Até quem sabe sermos amigos, respondi.
-Bom! Começou ela, posso ser isso tudo e até mais, é só uma questão de preço, comigo nada é à borla! Queres passear comigo uma hora, pagas vinte e cinco tostões, para ser amigo, só amigo, é o mesmo preço, se quiseres algo de mais especial o preço começa nos 10 escudos e pode ir até aos cinquenta. E, para tudo, quero pagamento adiantado, nada de paga depois.

Com essa de não receber antes, o padre Virgulino levou-me à certa e ficou a dever-me 5 escudos, mas lixou-se porque caiu no alçapão da Igreja e partiu o pescoço. Alguém o abriu sem ele dar por isso. Gozou, não pagou, mas não lhe fez proveito!

Fiquei sem palavras, não sabia o que dizer, foi tudo tão inesperado e só me saiu:

-Mas isso é pecado e é proibido.

Deu uma gargalhada, virou-me as costas e foi dizendo:

-Se os padres gostam é porque não é pecado! Além disso o físico é meu!

Fiquei com uma sensação de frio a percorrer-me o corpo, como que um arrepio que começou nas pernas, percorreu a coluna e se concentrou num ponto do cérebro, que me dava como que uma agastura difícil de explicar.

***

Estou a ser parvo, pensei, a rapariga esteve a gozar comigo, ela não é nada disso. Se fosse já muita gente comentava e eu nunca ouvi nada.

Que o padre Virgulino, de forma que ninguém soube explicar, se emborcou pelo alçapão abaixo e o encontraram no outro dia mais morto que morto, isso é verdade, mas se calhar aproveitou este episódio para caçoar comigo. A gaja é tramada!

Amanhã vou falar com ela, não quero ser mais gozado. Isto tem a ver com a escola, eu como era filho de um Morgado era a vítima das brincadeiras dos rapazes, até que um dia me deu a veneta e dei uma valente sova no Marcolino, foi remédio santo, nunca mais me atazanaram o juízo.

****

Encontrei-a no Café Central, foi fácil, o cabelo brilhava ao longe, estava só, numa mesa, ao lado da janela. Quando me viu não se conteve:

-Sch, Roberto, ainda te lembras de mim? Pagas um café?

Pedi dois ao balcão e fui sentar-me na mesa, mas antes perguntei:

-Posso?

Deu uma sonora gargalhada:

-Podes eu não te cobro nada, companhia à borla!

Bebemos, calmamente, os cafés em pequenos sorvos, quase como num ritual.

-Sabes? Comecei, ontem desconcertaste-me, quase acreditei em ti. És tramada!

-Mas, perguntou ela, e agora em que parte deixastes de acreditar?

-Em tudo rapariga, em tudo!

-Pois, disse ela, não acreditas que virei puta!

Mas é verdade, não me considero mas sou, eu não quero ficar nesta parvalheira, quero sair daqui, quero respirar e para isso preciso de dinheiro. Os meus pais são os melhores, mas não tem onde cair mortos, trabalho não há e eu, quero e preciso de dinheiro. Tenho um corpo que muitos desejam, não tenho pejo em explorar o que é meu. Mas sabes que a crise até nisso existe, até hoje não tive um único cliente, contínuo casta e pura como quando nasci, mas tenho esperança que as coisas melhorem, quero ir para Lisboa estudar.

-Mas, balbuciei, disseste que o padre te ficou a dever 5 escudos!
Olhou-me de uma forma, tão angelical, que voltei a sentir o tal arrepio.

-Acredita Rodolfo, o safado do padre apalpou-me o rabo, gritei com ele e disse-lhe que ia fazer queixa. Prometeu dar-me 5 escudos para ficar calada mas o sacana nunca me pagou!

-Mas, diz-me, Susana tens mesmo vontade de fazer isso?

Percebi uma lágrima disfarçada, talvez fosse impressão minha, mas os olhos azuis brilhavam intensamente:

-Não sei e tenho medo de quando chegar a isso não ser capaz! Tenho mesmo muito medo!

Foi aqui, tenho a certeza, que as lagrimas correram pelo rosto.

-Seca essas lágrimas! Pedi. Vou-te fazer uma proposta, esqueces esses planos malucos, eu empresto-te o dinheiro para ires estudar. Depois, quando arranjares emprego vais-me pagando. Que dizes?

Agora chorou mesmo, vi o peito arfar e o rosto ficar sulcado por riscos brilhantes. Passou os braços em volta do meu pescoço e:

-Juras que fazes isso? Juras mesmo? Porque não vamos os dois?



* * *
Durante dois anos, pontualmente, todos os meses lhe enviei um vale.

Um dia recebi uma carta, lacónica, só percebi que tinha um emprego, não precisava mais do empréstimo e que um dia me iria pagar tudo. Só isso, mais nada, nenhum agradecimento.
Pensei, um dia aparece, por aí, e logo agradece!

Vão passados, talvez 50 anos, e estou na mesma janela apanhando um pouco do Sol que me ajuda a aquecer as articulações e me alivia as dores destas malditas artroses.

Olhei para onde fora o café do Esgalho, hoje é uma loja de chineses. Parece-me ver um cabelo brilhando, como espigas de milho douradas, e lembrei-me da Susana que depois daquela carta nunca mais deu notícias.

Passou tanto tempo e nunca a esqueci, e ainda hoje, decorridos todos estes anos tenho a certeza, que ainda a amo e vou continuar a amar!

Faltou-me coragem para tudo ter sido diferente!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Quase perfeita – Conclusão





Esta estória é para ter acabado como a publiquei no dia 24 de Janeiro, mas pediram-me a continuação. Eu não me apetecia, porque adivinhava um final pouco romântico, mas a vida é mesmo assim!




De repente o rapaz alegre, desprendido e que encarava a vida como um jogo, que cada dia desfrutava da melhor maneira, olhava o Sol de manhã e já não via a magia.

Perdeu a alegria, ficou apático, refugiou-se nos estudos e mais nada lhe despertava o interesse.

Queria comer, mas os alimentos ficavam enrolados na garganta.
Perdeu o apetite!

Dona Ângela, a mãe, estada preocupado, o filho sempre foi um rapaz alegre, pronto para a brincadeira e, de repente, a tristeza tomou conta dele, como se algo de muito grave tivesse acontecido.

-Elias, que se passa contigo filho? Perguntou dona Ângela? Se calhar posso ajudar, fala comigo!

Os olhos de Elias ficaram cheios de lágrimas, tapou a cara com as mãos, enquanto ia arrepelando o cabelo.

Quase num lamento, com a voz distorcida pela insegurança, respondeu:

-Mãe estou apaixonado!

-Mas, Elias, isso é sinal de alegria e eu só vejo, em ti, tristeza!

Respondeu num soluço:

-Era mãe! Se eu soubesse por quem! Mas não sei quem é, como se chama e onde a posso encontrar!
Estou perdido e não consigo deixar de pensar em alguém, que vive dentro de mim, mas não a consigo descobrir cá fora!

Dona Ângela ficou em silêncio, não tinha palavras, era uma situação para a qual não estava preparada.

Tinha que reagir, o filho estava a atravessar uma fase difícil e ela tinha que fazer qualquer coisa.

Sentou-se ao seu lado e pediu:

-Vá, conta tudo à mãe!

Elias, olhou-a com os olhos embaciados, mas sentiu um enorme conforto em poder compartilhar, toda a mágoa que sentia dentro do peito.

-Sabes mãe? A primeira vez que a vi pareceu-me que, Tétis, tinha emergido das águas para me encantar. Olhei, aquela imagem, e senti que tudo tinha mudado, pensei que o destino estava a traçar o meu caminho.

Mas fui ingénuo e deixei-a fugir sem, sequer, lhe ter perguntado o nome. Mas não desisti, procurei e Deus deu-me, uma segunda oportunidade.

Lá estava ela, novamente radiosa, como se estivesse à minha espera.

Voltei a meter conversa! Não me tinha esquecido! Conheceu-me pelas mãos tão suaves e delicadas.
Foi aí, que percebi que era cega, fiquei tão perturbado que a deixe ir embora, outra vez, sem sequer, lhe perguntar o nome.

-Mas o facto de ser cega faz alguma diferença? Perguntou a mãe.

-Não mãe! Gritou Elias.

Dona Ângela abraçou o filho, limpou-lhe as lágrimas e prometeu:

-Eu vou ajudar-te, juro que vou!

***
Ângela do Carmo era uma mulher determinada, de convicções, viúva há 14 anos. Foi pai e foi mãe e estava orgulhosa, da forma como tinha criado e educado o filho.

Mantiveram, sempre, uma grande cumplicidade, partilhavam as mágoas e as alegrias. Nunca tiveram segredos, aliás, apenas um que ainda, agora, não tem coragem de contar.

Ela tem um amante!

Uma relação de oito anos. Não queria casar, nem uma vida em comum, queria, apenas, um companheiro numa relação aberta, sem compromissos, sem amarras e sem obrigações.

Era como dizia, para ela própria, uma necessidade para se sentir viva.

Hoje, o filho, precisava e ia estar presente.

Prometeu ajuda mas, confessava, não sabia por onde começar. Talvez o Licínio, o seu namorado a pudesse ajudar.
Tem tempo e é muito perspicaz!

****
Licínio adorou a ideia, desde que se reformou, apenas se sentia bem na companhia da Ângela, o resto do dia era passado num total enfado, numa pasmaceira.

Pensou escrever um livro mas as ideias, que eram muitas, não saiam fluídas quando as queria por no papel. Pensou, se calhar esta coisa, da escrita, não é para quem quer, deve ser preciso algo mais que vontade!

Mas, Ângela, escondia do mundo o namoro como se fosse algum sacrilégio ou pecado, quando todos, incluindo o Elias, sabiam dessa relação.

*****

A estratégia estava montada, se Elias a viu, por acaso, em dias sem qualquer ligação lógica, era preciso estar atento a todos os momentos.

Sempre que o Sol fizesse parte do dia, Licínio, montava uma espécie de sentinela móvel, perscrutando todos os que se sentassem nos bancos ao longo do cais, nos carros de estilo que por ali estacionassem e pelos motoristas fardados em espera atenta.

Foram doze longos dias, também o tempo não ajudou, mas naquele sábado, um descapotável, estacionou na marginal e um motorista, com guarda pó cinzento, pegou delicadamente nas mãos de uma linda mulher e conduziu-a, carinhosamente, para um lugar vago num banco.

Com a mesma destreza voltou ao carro, encostou-se e ficou atento.

Chegou a hora, pensou Licínio, vou começar pelo motorista.

Aproximou-se, quase de forma casual, olhou com ar de aprovação o automóvel, e de um modo a mostrar apreço perguntou:

-Este modelo é recente?

O homem era estranho, magro, macilento e tão pálido que parecia ter saído de uma longa doença.

Olhou o recém-chegado, sem estranheza, e de forma natural respondeu:

-Este carro será sempre recente, tenha a idade que tiver!

Não lhe pareceu muito lógica a resposta, mas não podia desarmar:

-Hoje está um belo dia para, trazer a menina……a apreciar esta bela paisagem!

-Joana! Exclamou o homem, a menina Joana!

Fingiu desinteressar-se, anotou a matricula deixou umas boas tardes e foi espreitar a rapariga.

Elias tinha razão, era uma bela e linda mulher. Vestida de forma simples mas com, estudada, elegância e requinte.

***

Telefonou à Ângela, quando ela atendeu, com a voz mais misteriosa que conseguiu disse-lhe:

- Sabes amor! Tenho notícias muito boas, mas só te conto tudo se aceitares, finalmente, casar comigo!
Logo falamos, em minha casa. Tá bem?

Desligou e dirigiu-se para o autocarro, ia falar com um ex-colega, precisava saber em que nome estava registado o automóvel.

Ângela chegou às oito horas, vinha ansiosa, transpirava curiosidade por todos os poros, mas aos olhos de Licínio estava, como sempre, linda.

Deu-lhe um beijo fugidio e pediu:

-Conta tudo, diz-me o que descobristes homem, antes que eu rebente de ansiedade!

Licínio sorriu, fez um ar importante, antes de responder:

-A diva chama-se Joana, mora em Cascais! Tenho aqui a morada e o Elias tem bom gosto, a rapariga é cá um borracho que nem te digo!

Ângela deu uma gargalhada antes de responder:

-Pois tem, é como a mãe! Podemos ir amanhã a Cascais falar com a rapariga?
Mas, por enquanto não conto nada ao rapaz!

-Contigo vou a todo o lado! Respondeu o namorado.

Foi fácil encontrar a Vivenda, era enorme, rodeada por um jardim mal tratado, onde as ervas cresciam juntas com as flores, a relva há muito não era aparada.

Tocaram ao portão, o som de um carrilhão fez-se soar ao longe.

Passaram alguns minutos e ninguém respondeu, Licínio voltou a insistir e o mesmo som distante, mas agora alguém abriu a porta e espreitou.

Uma voz velha, algo sumida e denotando muito cansaço perguntou:

-Quem é?                                                               

Ângela, respondeu:

-Minha senhora, vimos de Lisboa e gostaríamos de falar com a Joana!

A voz, ainda, pareceu mais velha e cansada:

-Entrem, mas já disse tudo o que sabia!

O portão rangeu, como se há muito não tivesse servido, mas lentamente abriu o suficiente para poderem entrar.

Percorreram o pequeno caminho, de saibro, onde as ervas despontavam por entre as pedras.

A mulher tinha um ar, mesmo muito cansado ou, talvez seriamente doente. Magra, extremamente magra, as olheiras fundas davam-lhe um aspecto tão triste que contagiava.

Olhou-os do fundo de uns olhos piscos e perguntou:

-São da polícia, não são?

Os dois, quase, em uníssono:

-Não, não temos nada a ver com a polícia, só queremos falar com a Joana!

A velha deixou cair umas lágrimas  das poucas que lhe pareciam restar. Deu um aí, tão fundo que doeu ouvir. Depois com aquela voz cansada e sumida falou:

-Vai fazer três meses, agora no dia 25, que a minha neta Joana e o Ambrósio, o nosso motorista, tiveram aquele terrível acidente.
Deus não quis que se salvassem, morreram os dois.
O Ambrósio ficou ali mesmo, a Joana ainda esteve dois dias em coma, mas não aguentou, partiu também. A minha neta era doida por estar ao pé do mar, ficava horas olhando as ondas, enquanto o Ambrósia esperava como um cachorro dedicado.

Parou, um pouco, para ganhar força e continuou:

-Naquele dia, um doido chocou contra eles, foi uma coisa horrível! Não consigo esquecer!

Ângela estava petrificada Licínio, mais racional, perguntou:

-A sua neta era invisual?

-Não! Respondeu a velha, mas se tem resistido, segundo o médico, ia mesmo ficar cega, os olhos ficaram muito mal tratados. Pobrezinha!

-E o carro? Perguntou, Licínio.

-O carro? Bom o carro não tem conserto, foi por isso que pensei que fosse a polícia, por causa do seguro.

Desculpem mas estou muito cansada, agora têm que ir embora!
Não me achem indelicada!



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dona Chica








Ia a escape rua acima, lenço na cabeça e curvada pelo peso da idade. 

Passou por mim como cão por vinha vindimada, se eu não lhe tivesse bradado, tenho a certeza que nem me via.

-Credo! Gritei, onde vai com essa pressa toda?

Parou, endireitou o corpo com esforço e só depois respondeu:

-Nem te vi, ia tão encismada nos meus pensamentos, que nem dava por ti.
Vou à pressa chamar a dona Chicha para ir benzer o Justino, marido da Perpétua. O raio do homem está com cobranto, não faz outra coisa que não seja abrir e fechar a boca, está com um bochechar que dá dó!

-Não será quebranto e bocejar? Emendei eu.

-Seja isso, retorquiu, a verdade é que o homem tem que ser benzido contra o olhado! Não sabemos se são invejas ou se foi apanhado pela lua! A gente não sabe dessas modernices, sempre foi cobranto e vai continuar a ser cobranto!
Não posso perder tempo, vou depressa não vá a velha Chica sair!

E lá abalou ladeira acima.

Não tardaram mais que 15 minutos e ai vinham as duas, braço dado, num tagarelar cheio de sussurros.

Aproximei-me, estava curioso e, com vontade de assistir ao tratamento do Justino, fui-me insinuando e tratei de meter conversa com as duas:

-Não se importam que vá com vossemecês? Aproveito para ver como está o amigo Justino!

-À vontade homem, disseram as duas, quase, em uníssono.

***


O homem estava mesmo mal, estendido num canapé, olhos parados, corpo tapado com uma grossa manta de ramagens amarelas.

Dona Chicha, ajeitou duas tigelas, uma com água e outra, mais pequena, com azeite.

Começou uma reza, enquanto com a mão ia fazendo cruzes, sobre a água, ia molhando um dedo no azeite e deixava cair algumas gotas que, quase por milagre, desapareciam no líquido.

Repetiu a operação por três vezes, depois, meteu os dedos no líquido benzido e fez umas cruzes na testa do doente.

Deu o trabalho por terminado e exclamou, com muita convicção:

-O pobre coitado estava na última, isto são grandes invejas, não tarda fica melhor!

Eu, um pouco à parte, estava preocupado com o Justino, estava num estado que metia dó.

Aproximei-me e tentei segurar-lhe a mão que pendia num lado da manta e, não tenho dúvidas, o desgraçado está morto e bem morto. Não acredito que uma benzedura o traga de volta.

Olhei as mulheres, sentadas em estado de velório, e gritei:o
-Chamem as autoridades, o Justino está morto!

Parecia que uma mola tinha disparado, ergueram-se e, quase em coro, rogaram:

-Deus lhe guarde a sua alma!

Dona Chicha ajeitou o lenço na cabeça, persignou-se e foi saindo enquanto, numa ladainha, ia murmurando:

-Estava apanhadinho de todo, cobranto muito
forte! 
Chamaram-me tarde de mais! Se fosse, um bocadinho, mais cedo ainda o tinha salvo!
Deus sabe que tinha!
Oh se tinha!
Já livrei tantos!


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Quase perfeita...






Estava sentada num banco junto à muralha, pernas delicadamente cruzadas.

Era uma posse estudada, pois o brilhante bronzeado, descaindo de uma curta saia e terminando numas sandálias vermelhas, era motivo para muitos olhares.

O rosto, parecia, perfeito pois uns enormes óculos de sol escondiam a maior parte, mas deixavam ver uns lábios carnudos onde, um leve carmim, contrastava com uma blusa branca atada de forma, quase, displicente deixando perceber dois hemisférios, tão bronzeados como as pernas.

Estava serena, contemplando o mar, como se mais nada existisse em seu redor.

Elias estava vidrado, a visão daquela deusa era superior a tudo o que alguma vez tinha imaginado.

Era linda, de uma beleza calma e tranquila.

Os homens passavam num embasbacamento, misto de admiração e desejo, as mulheres não deixavam perceber mas transpiravam uma inveja difícil de disfarçar.

Aproximou-se quase como se flutuasse e, consegue jurar, que apenas queria ver mais de perto a obra perfeita do criador. Muito timidamente perguntou:

-Posse sentar-me, aqui, no banco?

Sem mudar um milímetro, nem o rosto mexeu, respondeu:

-Caro senhor, o banco é público e desde que tenha lugares, pode estar à sua vontade!

Elias ficou sem jeito, queria replicar mas a frase ficou como que enrolada na garganta. Olhou ao longe tentando esconder um certo constrangimento, mirou o mar que, calmamente, se desfazia em espuma contra as rochas. Ganhou coragem para retorquir:

-Peço perdão, quis apenas ser delicado, não tome as minhas palavras como uma tentativa de nada, só quis partilhar o gosto por observar o mar.

A moça, sem alterar a posição sorriu:

-Mas não tomei a mal a sua pergunta, achei natural, mas eu não observo o mar, apenas o escuto, sinto o seu cheiro e aqueles sons que apenas, ele, nos sabe transmitir.

Hoje já tenho a minha parte, não tarda vai arrefecer!Boa tarde cavalheiro!

Ergueu um braço num gesto de quem chama alguém.
Um senhor, que pareceu surgir do nada, deu-lhe a mão e encaminharam-se para um descapotável prateado.

Elias nem teve tempo de responder, foi tudo tão rápido. Uma meia despedida, um gesto e um homem que aparece como se sempre ali tivesse estado.

Não devia ser marido, não tinha aliança e era demasiado velho e demasiado formal.

Seria motorista? Era isso, ainda há pessoas que têm, também, dessas coisas. 

******

Elias ficou naquele desespero, que é um misto de impotência e de aselhice, primeiro porque não sabia o que fazer e depois, porque não soube reagir e tentar saber algo mais, sobre a moça que o perturbara daquela maneira.

Ficou em trivialidades como um pateta, falar sobre o mar! Sim como se fosse o mais importante! Nem lhe perguntou o nome.

O mar continuava ali, onde sempre esteve, mas ela foi, quase, numa áurea de mistério.
Era mesmo burro!

Agora só lhe restava a esperança de que um dia voltasse.

Sempre, desde que adivinhasse um raio de sol, ia passear à beira mar e sentar-se naquele banco, talvez Deus o brindasse, novamente, com aquela celestial aparição.

Todos os fins-de-semana, Elias, vestia a sua melhor roupa, salpicava o corpo de Davidoff, o seu predilecto. Uns Ray-Ban, espelhados, davam-lhe aquele ar que, pensava ele, o deixava irresistível.

Andava no cais num passo miúdo, olhando todos os cantos onde o sol pudesse aquecer os corpos, onde um banco servisse de recanto a quem, com cabelos cor de fogo, olhasse o mar como se nada mais valesse a pena.
De soslaio adivinhava um descapotável que, também, primava pela ausência.

Foram semanas seguidas de desespero. De vez em quando, talvez pela necessidade de não desistir, parecia-lhe ver a mulher mistério mas, quando se aproximava caia na realidade, não era ela.

A frustração começava a fazer parte do seu dia-a-dia, não só por não voltar a encontrar a deusa mas, sobretudo, pela burrice de não ter perguntado algo mais.
Nem sequer o nome!

Para a semana, pensou, ia alargar a procura, todos os dias percorreria o espaço, pois, a meteorologia anunciava sol, o que aumentava a expectativa.

Segunda-feira ia recomeçar a viver a esperança, que aos poucos se ia diluindo, pois a semana estava a terminar e nada que lhe desse animo.

Foi no sábado, um grupo de crianças brincavam numa alegre algazarra e, no mesmo banco, quase na mesma posição, estava a sua diva.

Os mesmos óculos de sol, os lábios com o mesmo brilho de sensualidade.

Uma t-shirt branca, com uns desenhos bizarros, da cor dos curtos calções rosa, davam maior realce ao brilhante bronzeado das elegantes pernas.

Estava tão concentrada no leve e suave bater das ondas que, imaginou, nem deu pela sua chegada.

Ficou quieto, a embriagar o seu espírito no quadro, que estava perante os seus olhos. Meu Deus era uma visão quase divina!

Ia abrir a boca para a desnecessária pergunta, mas ela antecipou-se:

-Não vai pedir permissão para ocupar um lugar vago e que não me pertence?

Sentou-se e esperou que o fitasse mas não, continuava observando as águas como se nada, mais, existisse.

Ganhou coragem para desabafar:

-Porque me castigou? Ando, há três semanas, na esperança de a voltar a ver e só hoje a sorte me bafejou.

Voltou a cara na sua direcção, era linda embora os óculos não deixassem ver-lhe os olhos, sorriu num sorriso que ofuscou, por momentos, o brilho do sol, antes de responder:

-Posso ver melhor o seu rosto?

Ficou vaidoso, fez o melhor sorriso, que não lhe deve ter saído muito bem, abanou a cabeça e foi dizendo:

-É isto que está à vista mas pode ver à sua vontade!

Ergueu umas mãos delicadas, dedos longos, unhas cuidadosamente tratadas. Com suavidade percorreu-lhe o rosto, os dedos deslizaram suavemente na depressão das suas órbitas, deslizaram pela testa e, com vagar, desceram às maçãs do rosto e quedaram-se num leve deslizar no contorno dos seus lábios.

Recolheu as mãos, voltou a olhar o mar e ergueu o braço, naquele gesto que já conhecia.

O senhor apareceu e estendeu-lhe a mão. Levantou-se, olhou-o de frente, sorriu e deixou numa despedida:

-É muito bonito! Foi o que os meus sentidos me disseram, já que os meus olhos, são os deste senhor que me acompanha.

Dirigiram-se para o carro, não era o mesmo, mas tal como o outro, desapareceu suavemente na avenida marginal.

Burro! Gritou. Nem sequer lhe perguntei o nome!