Ia a escape rua acima, lenço na cabeça e
curvada pelo peso da idade.
Passou por mim como cão por vinha vindimada, se eu não lhe tivesse bradado,
tenho a certeza que nem me via.
-Credo! Gritei, onde vai com essa pressa toda?
Parou, endireitou o corpo com esforço e
só depois respondeu:
-Nem te vi, ia tão encismada nos meus pensamentos, que nem dava por ti.
Vou à pressa chamar a dona Chicha para
ir benzer o Justino, marido da Perpétua. O raio do homem está com cobranto, não
faz outra coisa que não seja abrir e fechar a boca, está com um bochechar que
dá dó!
-Não será quebranto e bocejar? Emendei eu.
-Seja isso, retorquiu, a verdade é que o homem tem que ser benzido contra o
olhado! Não sabemos se são invejas ou se foi apanhado pela lua! A gente não
sabe dessas modernices, sempre foi cobranto e vai continuar a ser cobranto!Não posso perder tempo, vou depressa não
vá a velha Chica sair!
E lá abalou ladeira acima.
Não tardaram mais que 15 minutos e ai vinham as duas, braço dado, num tagarelar
cheio de sussurros.
Aproximei-me, estava curioso e, com vontade de assistir ao tratamento do
Justino, fui-me insinuando e tratei de meter conversa com as duas:
-Não se importam que vá com vossemecês? Aproveito para ver como está o amigo
Justino!
-À vontade homem, disseram as duas, quase, em uníssono.
***
O homem estava mesmo mal, estendido num canapé, olhos parados, corpo tapado com
uma grossa manta de ramagens amarelas.
Dona Chicha, ajeitou duas tigelas, uma
com água e outra, mais pequena, com azeite.
Começou uma reza, enquanto com a mão ia fazendo cruzes, sobre a água, ia molhando
um dedo no azeite e deixava cair algumas gotas que, quase por milagre,
desapareciam no líquido.
Repetiu a operação por três vezes, depois, meteu os dedos no líquido benzido e
fez umas cruzes na testa do doente.
Deu o trabalho por terminado e exclamou, com muita convicção:
-O pobre coitado estava na última, isto são grandes invejas, não tarda fica
melhor!
Eu, um pouco à parte, estava preocupado com o Justino, estava num estado que
metia dó.
Aproximei-me e tentei segurar-lhe a mão que pendia num lado da manta e, não
tenho dúvidas, o desgraçado está morto e bem morto. Não acredito que uma
benzedura o traga de volta.
Olhei as mulheres, sentadas em estado de velório, e gritei:o
-Chamem as autoridades, o Justino está morto!
Parecia que uma mola tinha disparado, ergueram-se e, quase em coro, rogaram:
-Deus lhe guarde a sua alma!
Dona Chicha ajeitou o lenço na cabeça, persignou-se e foi saindo enquanto, numa
ladainha, ia murmurando:
-Estava apanhadinho de todo, cobranto muito
forte! Chamaram-me tarde de mais! Se fosse, um bocadinho, mais cedo ainda o
tinha salvo!
Estava sentada num banco junto à muralha,
pernas delicadamente cruzadas.
Era uma posse estudada, pois o brilhante
bronzeado, descaindo de uma curta saia e terminando numas sandálias vermelhas,
era motivo para muitos olhares.
O rosto, parecia, perfeito pois uns enormes óculos de sol escondiam a maior
parte, mas deixavam ver uns lábios carnudos onde, um leve carmim, contrastava
com uma blusa branca atada de forma, quase, displicente deixando perceber dois
hemisférios, tão bronzeados como as pernas.
Estava serena, contemplando o mar, como se mais nada existisse em seu redor.
Elias estava vidrado, a visão daquela deusa era superior a tudo o que alguma
vez tinha imaginado.
Era linda, de uma beleza calma e tranquila.
Os homens passavam num embasbacamento,
misto de admiração e desejo, as mulheres não deixavam perceber mas transpiravam
uma inveja difícil de disfarçar.
Aproximou-se quase como se flutuasse e, consegue jurar, que apenas queria ver
mais de perto a obra perfeita do criador. Muito timidamente perguntou:
-Posse sentar-me, aqui, no banco?
Sem mudar um milímetro, nem o rosto mexeu,
respondeu:
-Caro senhor, o banco é público e desde que tenha lugares, pode estar à sua
vontade!
Elias ficou sem jeito, queria replicar mas a frase ficou como que enrolada na
garganta. Olhou ao longe tentando esconder um certo constrangimento, mirou o
mar que, calmamente, se desfazia em espuma contra as rochas. Ganhou coragem
para retorquir:
-Peço perdão, quis apenas ser delicado, não tome as minhas palavras como uma
tentativa de nada, só quis partilhar o gosto por observar o mar.
A moça, sem alterar a posição sorriu:
-Mas não tomei a mal a sua pergunta, achei natural, mas eu não observo o mar,
apenas o escuto, sinto o seu cheiro e aqueles sons que apenas, ele, nos sabe
transmitir.
Hoje já tenho a minha parte, não tarda vai arrefecer!Boa tarde cavalheiro!
Ergueu um braço num gesto de quem chama alguém.
Um senhor, que pareceu surgir do nada, deu-lhe a mão e encaminharam-se para um
descapotável prateado.
Elias nem teve tempo de responder, foi tudo tão rápido. Uma meia despedida, um
gesto e um homem que aparece como se sempre ali tivesse estado.
Não devia ser marido, não tinha aliança e era demasiado velho e demasiado
formal.
Seria motorista? Era isso, ainda há pessoas que têm, também, dessas
coisas.
******
Elias ficou naquele desespero, que é um
misto de impotência e de aselhice, primeiro porque não sabia o que fazer e
depois, porque não soube reagir e tentar saber algo mais, sobre a moça que o
perturbara daquela maneira.
Ficou em trivialidades como um pateta, falar sobre o mar! Sim como se fosse o
mais importante! Nem lhe perguntou o nome.
O mar continuava ali, onde sempre esteve, mas
ela foi, quase, numa áurea de mistério.
Era mesmo burro!
Agora só lhe restava a esperança de que um
dia voltasse.
Sempre, desde que adivinhasse um raio de sol, ia passear à beira mar e
sentar-se naquele banco, talvez Deus o brindasse, novamente, com aquela
celestial aparição.
Todos os fins-de-semana, Elias, vestia a sua melhor roupa, salpicava o corpo de
Davidoff, o seu predilecto. Uns Ray-Ban, espelhados, davam-lhe aquele ar que,
pensava ele, o deixava irresistível.
Andava no cais num passo miúdo, olhando todos os cantos onde o sol pudesse
aquecer os corpos, onde um banco servisse de recanto a quem, com cabelos cor de
fogo, olhasse o mar como se nada mais valesse a pena.
De soslaio adivinhava um descapotável que,
também, primava pela ausência.
Foram semanas seguidas de desespero. De vez em quando, talvez pela necessidade
de não desistir, parecia-lhe ver a mulher mistério mas, quando se aproximava
caia na realidade, não era ela.
A frustração começava a fazer parte do seu dia-a-dia, não só por não voltar a
encontrar a deusa mas, sobretudo, pela burrice de não ter perguntado algo mais.
Nem sequer o nome!
Para a semana, pensou, ia alargar a procura, todos os dias percorreria o
espaço, pois, a meteorologia anunciava sol, o que aumentava a expectativa.
Segunda-feira ia recomeçar a viver a esperança, que aos poucos se ia diluindo,
pois a semana estava a terminar e nada que lhe desse animo.
Foi no sábado, um grupo de crianças brincavam numa alegre algazarra e, no mesmo
banco, quase na mesma posição, estava a sua diva.
Os mesmos óculos de sol, os lábios com o mesmo brilho de sensualidade.
Uma t-shirt branca, com uns desenhos bizarros, da cor dos curtos calções rosa,
davam maior realce ao brilhante bronzeado das elegantes pernas.
Estava tão concentrada no leve e suave bater das ondas que, imaginou, nem deu
pela sua chegada.
Ficou quieto, a embriagar o seu espírito no quadro, que estava perante os seus
olhos. Meu Deus era uma visão quase divina!
Ia abrir a boca para a desnecessária pergunta, mas ela antecipou-se:
-Não vai pedir permissão para ocupar um lugar vago e que não me pertence?
Sentou-se e esperou que o fitasse mas não, continuava observando as águas como
se nada, mais, existisse.
Ganhou coragem para desabafar:
-Porque me castigou? Ando, há três semanas, na esperança de a voltar a ver e só
hoje a sorte me bafejou.
Voltou a cara na sua direcção, era linda embora os óculos não deixassem ver-lhe
os olhos, sorriu num sorriso que ofuscou, por momentos, o brilho do sol, antes
de responder:
-Posso ver melhor o seu rosto?
Ficou vaidoso, fez o melhor sorriso, que
não lhe deve ter saído muito bem, abanou a cabeça e foi dizendo:
-É isto que está à vista mas pode ver à sua vontade!
Ergueu umas mãos delicadas, dedos longos,
unhas cuidadosamente tratadas. Com suavidade percorreu-lhe o rosto, os dedos
deslizaram suavemente na depressão das suas órbitas, deslizaram pela testa e,
com vagar, desceram às maçãs do rosto e quedaram-se num leve deslizar no
contorno dos seus lábios.
Recolheu as mãos, voltou a olhar o mar e ergueu o braço, naquele gesto que já
conhecia.
O senhor apareceu e estendeu-lhe a mão. Levantou-se, olhou-o de frente, sorriu e
deixou numa despedida:
-É muito bonito! Foi o que os meus
sentidos me disseram, já que os meus olhos, são os deste senhor que me
acompanha.
Dirigiram-se para o carro, não era o mesmo, mas tal como o outro, desapareceu
suavemente na avenida marginal.
A situação estava difícil, as convulsões
sociais eram a causa de muito do que acontecia e de tudo o que estava para vir.
Dona Brites não conseguia compreender as razões, porque o pobre do marido,
Tobias da Silva, estava condicionada nos pensamentos políticos que o norteavam.
Era um homem de convicções, quase um sonhador, pois tinha na sua imaginação,
que um dia os homens podiam expressar livremente as suas ideias e ideais, sem
medo da polícia política. que parecia nascer em cada esquina das ruas da
cidade.
Hoje, ainda a manhã não tinha rompido e já tinham levado o pobre homem e alguns
livros da sua estante, a caminho da Rua António Maria Cardoso, onde ia ser
sujeito a tortura e humilhações para denunciar pessoas, que ele próprio não conhecia,
mas para a Pide, quem tinha ideias mais progressistas fazia, decerto, parte de
alguma organização tenebrosa preparada para por em causa este Estado Novo, que
era tenaz a manter a mordaça em todos os que suspiravam pela democracia.
Em norma, passados oito dias, voltava a casa mais velho e muito desgastado, mas
mais convicto da justeza dos seus anseios.
Naquele dia vieram ao cair do dia e o desgraçado do Tobias, mais uma vez, foi
manietado e arrastado como se fosse o mais perigoso facínora.
Era um pobre homem, magro e indefeso, que aqueles algozes, meteram numa
carrinha que desapareceu no escuro da noite.
Voltaram os interrogatórios violentos, sem nexo, a tortura de horas intermináveis
em pé, os sonos proibidos para amolecer as vontades e quebrar a resistência dos
mais tenazes.
Tobias já tinha sentido todas as torturas, sempre resistiu sem um queixume, sem
um lamento e sem abrir a boca para pronunciar uma palavra.
Mas hoje eram de mais, as tremuras e o mau
estar sobrepunham-se ao cansaço.
A idade e a forma como lhe iam moendo o
corpo, para lhe chegarem ao pensamento, estavam a tirar-lhe a noção do local, a
quebrar a pouca força física que ainda lhe restava.
Queria morrer, desejava que o deixassem
dormir!
Fechou os olhos, perdeu o conhecimento e desfaleceu
pendurada nas correias com o que mantinham amarrado.
Já não ouviu, alguém, gritar:
-Levem esse gajo, já deu o que tinha a
dar!
Não percebeu nem sentiu mas, parece que
tinha conseguido a liberdade sonhada.
*****
Desta vez dona Brites estranhou tão grande
ausência.
Arrastou as dores que faziam parte do seu dia-a-dia
e foi saber notícias do seu homem.
Dias e dias e sempre a mesma resposta, nunca tinham ouvido falar nesse senhor
Tobias Moreira da Silva, naqueles serviços nunca entrou.
Devem estar a fazer confusão!
Dona Brites insistiu e foi ameaçada.
Tinham muito que fazer e não podiam estar
a aturar os devaneios de uma mulher que perdeu o marido.
Se voltasse ia arrepender-se!
Ela consultou um advogado, pagou 10 contos de réis, para nada pois quando
voltou a saber noticias o advogado aconselhou:
-Não se meta com essa gente! Não vale a pena. O seu marido já não deve estar
vivo e o corpo nunca vai aparecer!
*****
A existência sem o seu Elias era diferente, não era vida. Quando estavam juntos
e, foram 18 anos, sentia que estava completa, o marido preenchia a sua vida,
pelo amor, pelo carinho e pela forma boa e plena, como completava todos os instantes
da sua existência.
A política era a única discordância no seu quotidiano, ela não concordava com
essa ideia do marido, querer mudar o que era imutável, o regime já existia há
três décadas e estava firme e controlava tudo e todos, como podia um homem
fraco e indefeso, como o seu Elias, mudar o que os fortes e poderosos não conseguiam?
Agora estava só, vivia das recordações, das memórias e de uma dor de nunca ter
feito o luto de um marido, que sabia morto mas queria pensar que ainda podia
estar vivo.
****
Quando o telefone tocou, tão cedo,
arrastou as dores que lhe tolhiam o corpo, e atendeu.
-Olha Brites houve uma revolução e o regime caiu! Gritou o cunhado do outro
lado da linha.
-Oh Jorge e isso é bom ou mau? Perguntou na sua ingenuidade.
-Todos esperam que seja o princípio da
liberdade porque o Elias tanto lutou e, também, tenho a esperança que agora
consigamos saber o que lhe aconteceu. Vamos fazer o nosso luto e o funeral que
anda dentro de nós!
******
Estávamos no final de Abril de 1974, numa bonita tarde de primavera, quando uma
pancada na porta despertou dona Brites, do cochilar a seguir ao almoço.
Como o ouvido já lhe ia pregando partidas,
aproximou-se e espreitou pelo ralo da porta.
Estava alguém no outro lado.
Abriu uma fresta protegida pela corrente segurança.
Devia ser um mendigo, era habitual
aparecerem.
Coitados que havia de fazer?
-Espere um pouco, disse com voz triste, vou ver se tenho alguma coisa para o ajudar!
O homem, do lado de fora, curvado, roupa desalinhada e com uma velha boina
bilbaína na cabeça, numa voz cansada gritou:
-Abre a porta amor! Tenho saudades tuas e da nossa casa.
Quando ela lhe apareceu, naquela “lingerie” vaporosa, sentiu um fogo a
percorrer-lhe o corpo.
As pernas altas, enfiadas numas meias de
ligas e o corpo nu, apenas envolto num trapo vermelho, totalmente transparente,
eram um doce pecado.
Sentiu o sangue subir à cabeça e algo se
alterou no seu corpo.
Atirou a mulher para cima da cama,
desenvencilhou-a daquele empecilho e deixou as mãos percorrerem aquele corpo
ardente, que ia gemendo aos sentidos de uns afagos, quase de veludo, descendo devagar,
deslizando na cintura, acariciando a anca e terminando numa afago nos joelhos,
depois, subiu lentamente das coxas ao rabo, acarinhando suavemente a
nádega.
Ela apenas gemia numa espera desesperada, ele continuava em enlevos, deixando a
língua percorrer-lhe a boca, entrar os ouvidos e descer, lascivamente, até dois
bicos túmidos, num corpo ardente e impaciente em sentir o marido dentro dela.
Tomou a iniciativa e puxou-o, para lhe sentir o peso e levou a mão na procura
do que mais desejava.
O marido sentiu a mensagem, largou e mulher e gemeu:
-Desculpa! Mas não sou capaz!
Depois chorou em desespero.
A mulher transpirava raiva, vermelha
como a “lingerie” que estava abandonada no chão frio.
Olhou o marido, olhos brilhando de frustração e raiva, com ódio na voz gritou:
-Desgraçado, incapaz! Quarenta anos e acabado, é a segunda nega numa semana, ou
estás morto, ou as putas com que andas, já te tiraram a tesão. O que tu
precisas e estás a pedir, é um belo par a ornar-te a testa.
-Desaparece! Deixa-me em paz! Ou sais tu da cama ou vou eu!
O homem desapareceu. A mulher completou-se em contorções e adormeceu
profundamente.
****
Raimundo fugiu para a sala, enroscou o corpo nu no sofá e chorou, chorou
convulsivamente, até que o desespero e o ódio se acalmaram no seu corpo.
Era a segunda vez, nunca tinha
acontecido, na primeira foi a uma consulta de andrologia, o doutor Fagundes
fez-lhe testes, descansou-o, era uma situação de stress, de ansiedade,
cansaço, excesso de trabalho.
Devia acalmar e, com a ajuda da
companheira, tudo ia voltar ao normal.
Aquela frase, ajuda da mulher,
gritava-lhe aos ouvidos
... ajuda
dacompanheira,
…ajuda da companheira,
… ajuda
da companheira,
não valia a pena, a mulher não sabia o
que era ajudar. Egoísta, esperava tudo e não dava nada!
Começou a odiar quem, até agora, foi o
amor da sua vida.
Vestiu um fato de treino, fez a barba,
massajou o rosto, verteu uma boa porção, de Carolina Herrera 212, nas mãos,
esfregou no pescoço e alisou os cabelos.
Espreitou o quarto. O monstro dormia
profundamente.
Desceu à garagem, foi buscar o escadote
e atou, à trave central do tecto, uma corda, deixando-a pendurada com um nó de
corrediça na ponta suspensa.
Arrumou cuidadosamente o escadote,
voltou à cozinha, desfez alguns comprimidos num copo de água, engoliu com uma
careta, lavou o copo, limpou e guardou-o no armário.
Voltou
à cave, com um pedaço de um pau deu alguns golpes na nuca, até notar sinais de
sangue e alguns cabelos agarrados, deitou o pau para um canto, escondido, da
garagem.
De seguida, agilmente e à força de
braços, percorreu a trave até ao local da corda, a custo, passou a cabeça no
laço e, quando enfiou o pescoço, largou as mãos.
Apenas um pequeno gemido, um estremecer e um corpo, num leve balanço.
******
Narcisa acordou com a claridade que trespassava as persianas, olhou o lugar do
marido e lembrou-se que devia estar a dormir no sofá. Era para aprender!
Foi espionar.
Não estava na sala, nem na cozinha, nem
em lado nenhum. Safado! Se calhar foi dormir com alguma cabra, mas não percebia
para que, o gajo já não dava nada.
Foi espreitar o carro, parecia estar na
garagem. Desceu, entrou e viu um corpo balouçando, suavemente, na trave do tecto.
Era o marido, roxo, língua pendurada ao canto da boca.
Subiu em pânico e ligou para o 112.
-Não mexa em nada, disseram do outro lado da linha.
Demoraram 45 minutos. Uma ambulância e um carro da polícia.
A mulher soluçava, o corpo tremia-lhe em ligeiras convulsões.
Os paramédicos olharam o corpo e
abanaram a cabeça:
-Nada a fazer!
Os guardas selaram o local, montaram
guarda e ficaram a aguardar, o médico-legista e a polícia judiciária.
Demoraram algum tempo.
O médico calçou umas luvas, subiu a uma cadeira e observou, minuciosamente, o
corpo.
Olhou os agentes e observou:
-Já está morto há mais de oito horas,
apresenta sinais de ter sido agredido. Podem mandar descer o cadáver só depois,
na autópsia, posso adiantar mais alguma coisa.
Os agentes examinaram cuidadosamente todo o local, fotografaram, guardaram indícios.
Encontraram o pedaço de madeira com
vestígios de sangue e com alguns, cabelos agarrados.
O agente mais velho, olhou o colega e comentou:
-Este gajo não tinha asas, não há nada
que pudesse estar debaixo dos pés para se pendurar, tem ferimentos na cabeça,
ou muito me engano ou foi assassinado. Vamos mandar recolher o cadáver e
aguardar o resultado da autópsia. Mas tenho poucas dúvidas!
*****
Oito horas da manhã, Narcisa é acordada com fortes batidas na porta. Vai, meia
estremunhada, espreitar. São dois homens que mandam abrir.
-Mas quem são os senhores? Pergunta.
-Policia Judiciaria, abra depressa!
Gritou um dos homens.
Abriu-a, tentando tapar o peito com o roupão. Um dos agentes segurou-lhe um
abraço e disse-lhe:
-Tem que nos acompanhar! Está detida por suspeita na morte do seu marido.
Ela ficou sem saber que responder, apenas murmurou:
-Posso ir vestir-me?
****
Foi interrogada e por mais que clamasse a sua inocência, não conseguia demover
os agentes que insistiam:
-Era melhor dizer quem é o seu cúmplice neste crime, o juiz vai levar isso em
conta e, sempre pode, ter uma pena mais leve.
A mulher chorava e insistia:
-Eu amava o meu marido e não lhe ia
fazer mal, ele suicidou-se.
O agente respondeu com sarcasmo:
-Pois, já sabemos isso! Mas… as evidências
e a autópsia dizem outra coisa. A senhora não fala, mas nós, vamos explicar.
Primeiro, deu-lhe uma bebida com uns calmantes e quando ele adormeceu com a
ajuda, se calhar de um amante, uma pancada na cabeça para ele não acordar. Depois,
os dois, penduraram o desgraçado pelo pescoço. Não deve ter sido fácil, ainda
eram 70 e tal quilos!
Tinham tudo bem estudado mas, esqueceram um pormenor, pequeno mas importante,
ele para se enforcar precisava de um banco ou de um caixote. Não tinha
asas!
****
Foi condenada a 18 anos, apesar de jurar a sua inocência.