Já foi há muito tempo e a minha memória
já me atraiçoa, só o pensamento me mantêm algumas recordações.
Tenho a certeza que foi em Maio, as tardes primaveris traziam o chilrear dos pardais que, em bando, tomavam conta das árvores.
Eu estava à janela, a tentar descobrir como me desenvencilhar de um nó de gravata que se tinha ensarilhado de forma estranha. Foi aí que a vi. Estava na rua em frente ao café do Esgalho, o Sol batia-lhe na cabeça e os cabelos pareciam espigas de milho douradas.
Desci a escada a dois e dois e, num
instante, fiquei ao seu lado, descobri o melhor sorriso e meti conversa:
-És a Susana que mora na Travessa do Possolo, filha do Zé da Nora, não és?
Escarneceu e com ironia foi dizendo:
-Deves estar a armar-te em parvo ou que?
Tás farto de saber quem sou! Até andamos, na primária, na mesma escola, tu nos rapazes e eu nas raparigas.
Tive que me esforçar, pois o raio da rapariga desconcertou-me.
-Tens razão, desculpa mas não sabia como
meter conversa. Sou mesmo parvo!
-Se tu o dizer quem sou eu para
contradizer, mas afinal o que queres? Perguntou.
-Estar contigo, conhecer-te melhor. Até
quem sabe sermos amigos, respondi.
-Bom! Começou ela, posso ser isso tudo e até mais, é só uma questão de preço, comigo nada é à borla! Queres passear comigo uma hora, pagas vinte e cinco tostões, para ser amigo, só amigo, é o mesmo preço, se quiseres algo de mais especial o preço começa nos 10 escudos e pode ir até aos cinquenta. E, para tudo, quero pagamento adiantado, nada de paga depois.
-Bom! Começou ela, posso ser isso tudo e até mais, é só uma questão de preço, comigo nada é à borla! Queres passear comigo uma hora, pagas vinte e cinco tostões, para ser amigo, só amigo, é o mesmo preço, se quiseres algo de mais especial o preço começa nos 10 escudos e pode ir até aos cinquenta. E, para tudo, quero pagamento adiantado, nada de paga depois.
Com essa de não receber antes, o padre Virgulino levou-me à certa e ficou a dever-me 5 escudos, mas lixou-se porque caiu no alçapão da Igreja e partiu o pescoço. Alguém o abriu sem ele dar por isso. Gozou, não pagou, mas não lhe fez proveito!
Fiquei sem palavras, não sabia o que dizer, foi tudo tão inesperado e só me saiu:
-Mas isso é pecado e é proibido.
Deu uma gargalhada, virou-me as costas e
foi dizendo:
-Se os padres gostam é porque não é
pecado! Além disso o físico é meu!
Fiquei com uma sensação de frio a percorrer-me o corpo, como que um arrepio que começou nas pernas, percorreu a coluna e se concentrou num ponto do cérebro, que me dava como que uma agastura difícil de explicar.
***
Estou a ser parvo, pensei, a rapariga esteve a gozar comigo, ela não é nada disso. Se fosse já muita gente comentava e eu nunca ouvi nada.
Fiquei com uma sensação de frio a percorrer-me o corpo, como que um arrepio que começou nas pernas, percorreu a coluna e se concentrou num ponto do cérebro, que me dava como que uma agastura difícil de explicar.
***
Estou a ser parvo, pensei, a rapariga esteve a gozar comigo, ela não é nada disso. Se fosse já muita gente comentava e eu nunca ouvi nada.
Que o padre Virgulino, de forma que ninguém soube explicar, se emborcou pelo alçapão abaixo e o encontraram no outro dia mais morto que morto, isso é verdade, mas se calhar aproveitou este episódio para caçoar comigo. A gaja é tramada!
Amanhã vou falar com ela, não quero ser mais gozado. Isto tem a ver com a escola, eu como era filho de um Morgado era a vítima das brincadeiras dos rapazes, até que um dia me deu a veneta e dei uma valente sova no Marcolino, foi remédio santo, nunca mais me atazanaram o juízo.
****
Encontrei-a no Café Central, foi fácil, o cabelo brilhava ao longe, estava só, numa mesa, ao lado da janela. Quando me viu não se conteve:
-Sch, Roberto, ainda te lembras de mim? Pagas um café?
Pedi dois ao balcão e fui sentar-me na mesa, mas antes perguntei:
-Posso?
Deu uma sonora gargalhada:
-Podes eu não te cobro nada, companhia à
borla!
Bebemos, calmamente, os cafés em
pequenos sorvos, quase como num ritual.
-Sabes? Comecei, ontem
desconcertaste-me, quase acreditei em ti. És tramada!
-Mas, perguntou ela, e agora em que
parte deixastes de acreditar?
-Em tudo rapariga, em tudo!
-Pois, disse ela, não acreditas que
virei puta!
Mas é verdade, não me considero mas sou,
eu não quero ficar nesta parvalheira, quero sair daqui, quero respirar e para
isso preciso de dinheiro. Os meus pais são os melhores, mas não tem onde cair
mortos, trabalho não há e eu, quero e preciso de dinheiro. Tenho um corpo que
muitos desejam, não tenho pejo em explorar o que é meu. Mas sabes que a crise
até nisso existe, até hoje não tive um único cliente, contínuo casta e pura
como quando nasci, mas tenho esperança que as coisas melhorem, quero ir para
Lisboa estudar.
-Mas, balbuciei, disseste que o padre te ficou a dever 5 escudos!
Olhou-me de uma forma, tão angelical, que voltei a sentir o tal arrepio.
-Acredita Rodolfo, o safado do padre apalpou-me o rabo, gritei com ele e disse-lhe que ia fazer queixa. Prometeu dar-me 5 escudos para ficar calada mas o sacana nunca me pagou!
-Mas, diz-me, Susana tens mesmo vontade de fazer isso?
Percebi uma lágrima disfarçada, talvez fosse impressão minha, mas os olhos azuis brilhavam intensamente:
-Não sei e tenho medo de quando chegar a isso não ser capaz! Tenho mesmo muito medo!
Foi aqui, tenho a certeza, que as lagrimas correram pelo rosto.
-Seca essas lágrimas! Pedi. Vou-te fazer
uma proposta, esqueces esses planos malucos, eu empresto-te o dinheiro para
ires estudar. Depois, quando arranjares emprego vais-me pagando. Que dizes?
Agora chorou mesmo, vi o peito arfar e o rosto ficar sulcado por riscos brilhantes. Passou os braços em volta do meu pescoço e:
Agora chorou mesmo, vi o peito arfar e o rosto ficar sulcado por riscos brilhantes. Passou os braços em volta do meu pescoço e:
-Juras que fazes isso? Juras mesmo? Porque não vamos os dois?
* * *
Durante dois anos, pontualmente, todos os meses lhe enviei um vale.
Um dia recebi uma carta, lacónica, só percebi que tinha um emprego, não precisava mais do empréstimo e que um dia me iria pagar tudo. Só isso, mais nada, nenhum agradecimento.
Pensei, um dia aparece, por aí, e logo
agradece!
Vão passados, talvez 50 anos, e estou na mesma janela apanhando um pouco do Sol que me ajuda a aquecer as articulações e me alivia as dores destas malditas artroses.
Vão passados, talvez 50 anos, e estou na mesma janela apanhando um pouco do Sol que me ajuda a aquecer as articulações e me alivia as dores destas malditas artroses.
Olhei para onde fora o café do Esgalho, hoje é uma loja de chineses. Parece-me ver um cabelo brilhando, como espigas de milho douradas, e lembrei-me da Susana que depois daquela carta nunca mais deu notícias.
Passou tanto tempo e nunca a esqueci, e ainda hoje, decorridos todos estes anos tenho a certeza, que ainda a amo e vou continuar a amar!
Faltou-me coragem para tudo ter sido diferente!



