sábado, 9 de março de 2013

Pesadelo







 



Era um crepúsculo diferente, no colorido de um Sol que desaparecia, apenas a contraluz das gaivotas, davam um ar de vida.

Maria do Amparo, tirou os óculos escuros, o Sol há muito deixara de a encandear, e foi sentar-se na esplanada, o dia estava tão linda que ir para casa era o que menos lhe apetecia.

Ia ficar só mais um pouco, não podia atrasar-se muito, pois a mãe não estava tranquila quando demorava mais um bocado.
A velhota não era assim, mas desde que o pai morreu, tornou-se obsessiva, não lhe dava um momento de folga.

Controlava-lhe as horas de uma forma que a sufocava.

Hoje, para esta saltada à beira mar, teve que inventar uma urgência no escritório, mas mesmo assim, ainda, perguntou:

-Trabalho ao sábado, Maria do Amparo?

-Sim mãe, tenho que ir!

****

Andava cansada, no emprego eram simpáticos, mas havia alguma monotonia e, parecia-lhe que as colegas, não lhe perdoavam por ser nova e bonita, ela tinha esse sentimento, era perfeita.

Não era muito alta, mas Deus tinha distribuído tudo, nas doses certas e de forma segura.

Tinha uma beleza simpática, serena onde a doçura do sorriso ajudava a sua parte.

Hoje, sábado, apetecia-lhe passear. Gostava de percorrer, em passadas lentas, o caminho à beira mar e depois sentar-se na esplanada com um gelado, um imenso gelado, de chocolate e baunilha, com muito chantilly, mas mesmo muito!

Esperou o sorvete, enquanto os seu olhar percorria os restantes companheiros deste fim de sábado.

Na sua frente, um homem não desviava os olhos, Maria do Amparo fingia não reparar, mas na verdade até estava a apreciar esse interesse.

O tipo era, pensava ela, um pão, cabelo preto num estudado desalinho, olhos castanhos muito intenso e um sorriso cativante, debaixo de um fino bigode.

O doce ia desaparecendo, em colheradas lambidas, de forma um pouco libidinosa, pois a língua ia afagando de um modo sensual o colorido gelado, enquanto pelo canto do olho espreitava a forma, gulosa, como o homem a olhava.

Estava a gostar, há muito que andava esquecida dela própria, a mãe absorvia-lhe o tempo e cerceava-lhe, de certa forma, os sentimentos.

Se calhar o sujeito só estava curioso, ela sabia que despertava apetites mas, provavelmente, era apenas o gosto pelo olhar.

Terminou a guloseima, estava tão boa que se pudesse comia outra!

Começou a preparar-se para o regresso, quando o cavalheiro, se aproximou, sorriso rasgado e, quase, num lamento:

-Vai já embora, agora que arranjei coragem para me aproximar? Fique mais um pouco, ainda é cedo e a tarde está tão linda!

-Bom, disse Maria do Amparo, tenho mesmo que ir!

O homem não desarmou:

-Tem carro, ou posso levá-la a algum lado?

Maria do Amparo sentiu um formigueiro a subir o corpo, um dilema tomou-lhe conta dos sentidos, por um lado agradava-lhe a ideia e a companhia, o comboio a essa hora não era muito agradável, mas o bom senso martelava-lhe a cabeça, não devia aceitar boleia de estranhos.

O homem estava na expectativa, mas parecia ter adivinhado os pensamentos.

-Sabe menina, não tenha receio, pode confiar, eu deixo-a onde quiser, mas primeiro deixe-me apresentar, sou Miguel Lopes, advogado e, sorriu, bom rapaz!

Os dois diabinhos continuavam na sua cabeça, naquela luta do aceito, não aceito e, um tinha que vencer.

Maria do Amparo aceitou o convite.

*****


Começou um romance, primeiro devagar, encontros fortuitos, passear de mãos dadas, jantar à luz de velas e uns beijos, fortuitos, que faziam corar de prazer Maria do Amparo.

Um dia, foi numa quinta-feira, Miguel naquela voz rouca que a entontecia, perguntou:

-Vamos fazer um fim-de-semana diferente?
Os meus pais têm uma casa de férias em Sesimbra, podíamos aproveitar para ficarmos juntos. Que dizes?

-Mas, pergunto Maria do Amparo, vou conhecer os teus pais?

O homem pareceu mostrar algum incómodo, cofiou com o dedo o fino bigode. Limpou, com um leve pigarro, a garganta antes de responder:

-Amor, os meus pais estão em Évora, eu vivo com a minha irmã, mas um dia vou juntar toda a família para te apresentar. Quero que eles fiquem a conhecer a minha linda namorada, a mulher da minha vida!

-Bom! Suspirou ela, eu acho que, ainda, é muito cedo! Mas, tá bem, vamos!

*****

O tempo foi passando, cada dia se sentia mais apaixonada.
Bendita a hora em que aceitou aquela boleia, estava feliz e hoje estava radiosa, tinha um cheiro a pêssegos frescos. Pegou com mais força, do que o habitual, na mão do namorado. 
Havia felicidade no seu olhar, mas notava-se algum receio na voz.

-Sabes amor que vamos ser pais!
-Que estas a dizer mulher? Gritou Miguel. Perdestes a cabeça? Queres dar cabo da minha vida? Eu não vou ser nada disso e tu, se quiseres, podes ser mas não contas comigo!

Voltou a costas e desapareceu.

Maria do Amparo quis chorar mas nem uma única lágrima chegou aos seus olhos. Mordeu, de desespero, os lábios. 
******

Miguel, apareceu no dia seguinte mas, pelo semblante carregado, ela percebeu que algo estava mal. Não tinha aquele sorriso que a cativava, o fino bigode parecia, apenas, um traço inexpressivo naquele rosto, hoje, tão diferente do habitual.

Nem sequer lhe deu um beijo, limitou-se a dizer:

-Os meus sentimentos são verdadeiros, o resto é uma mentira pegada. Não sou Miguel Lopes, não sou advogado, não sou livre, tenho mulher!
Se quiseres vais tirar essa criança, que não tem culpa, continuas a ser a minha namorada, até que eu um dia eu seja livre, depois pensamos na nossa vida.

Teve sorte, ela tinha apenas uma revista na mão, mas mesmo assim sentiu a força a golpear-lhe a cara, sentiu nos olhos a saliva, quando ela lhe cuspiu no rosto e ouviu o martelar, nos tímpanos, da raiva das palavras:

-Desaparece canalha! Desaparece! Desaparece, antes que te arranque os olhos, com as minhas próprias mãos!


*****

Maria do Amparo nunca mais quis saber, desse homem que era falso, em tudo, até no nome.

Ia viver a vida, a vida como sempre vivera, mas agora tinha uma missão muito delicada e muito difícil.

Tinha que esconder uma gravidez, sabia quão difícil ia ser, o corpo ia perder as formas, muitas transformações que precisava disfarçar, com roupas mais largas e apropriadas.
Queria passar a gravidez sem ninguém saber. Em casa ia ser mais difícil, mas tinha que conseguir!

O pior período seria no Inverno e, nessa estação, era mais fácil disfarçar o corpo, trajes mais grossos iam ajudar.

Pelas contas, dela, devia acontecer no princípio de Dezembro, tinha que preparar tudo, ia marcar férias, ninguém podia desconfiar, a criança nunca ia aparecer, sem parto não havia bebé, sem bebé não tinha havido parto.

Tinha que ser inteligente, calculista e não se deixar levar por sentimentos, tinha que esquecer essa coisa do instinto maternal.

Era só um momento, depois acabava, um recém-nascido não chega a sentir a vida. 

Tinha que ir preparando, dentro da cabeça, todos os detalhes, tinha que inventar a coragem que lhe faltava, carregar e disfarçar uma gravidez, ter um parto sem ajuda e longe de tudo e todos e, por fim, fazer desaparecer uma criança que, para o mundo, nunca nasceu.
Só esperava que Deus compreendesse, o suficiente, para a perdoar.

A mãe não suspeitava da verdade, mas estava preocupada com a filha.
Estranhava porque andava sempre agoniada, de manhã era um castigo para se levantar, não deixava ninguém entrar no quarto e, até no corpo, sempre tão jeitoso, se notava um grande descuido.
Agora a mania de férias em Dezembro. Sim no Inverno, com tanto frio queria ir para a aldeia, para uma casa que era dos avós!

E foram, mesmo, para a aldeia.

A casa era enorme, estava fria e algumas teias de aranhas enfeitavam os cantos.

Uma vassoura, dois troncos e um molho de chamiços fizeram a transformação.

Agora já havia conforto.

Maria do Amparo tinha tudo preparado, havia uma cabana ao fundo do quintal, que em tempos foi usada, pelo avô, para recolher a mula. Estava limpa e com as paredes caiadas.

Num dos lados, improvisou uma espécie de tarimba, com umas velhas passadeiras.

Foi lá, também, que ao canto cavou uma cova, guardou a terra numa caixa, depois ia precisar.

Juntou, num saco, o que julgou precisar sem esquecer um pano branco, que iria servir de mortalha, pensou num saco mas, o plástico, levava muitos anos a ser corrompido.

Agora era aguardar, não faltava muito tempo, já ia sentindo os sinais da aproximação, pelo menos era o que tinha lido, a barriga descaída,  necessidade constante de urinar, o feto não mexia tanto e algum corrimento. Tinha que estar preparada.

Dia 8 de Dezembro, seis horas da manhã, umas grandes contracções avisaram da hora, enrolou-se num cobertor e sem fazer barulho, raspou-se a caminho da cabana.

Deitou-se no canto que tinha reservado, as dores eram mais constantes e rebentaram as águas.

Muitas dores, força que não queria perder. Soprava como se tivesse uma vela para apagar e, de repente, o filho foi mostrando a cabeça, depois os ombros e por fim estava todo cá fora.

Estava exausta, pegou na criança, ia acabar o que começou.

Ganhou coragem e limpou-o com o pano que ia servir de sudário.
Depois, olhou-o nos olhos e perdeu a coragem.
Embrulhou-o no cobertor, encostou-o contra o peito. Não ia fazer mais nada, o seu menino era tão bonito!

Levantou-se a custo, sempre com a criança junto ao coração, entrou no quarto da mãe e gritou:

-Mãe, preciso que me ajudes a criar o teu neto! Ajudas mãe?
É tão lindo o nosso menino! Olha para ele! Olha!







sexta-feira, 1 de março de 2013

O último abraço






Acordei com a intensidade da chuva a fustigar as inseguras persianas das janelas, o vento soprava de forma irregular como se estivesse apostado em arrancar tudo à sua passagem.

Levantei-me a custo, as articulações reagiam, sempre, a todos os movimentos com uma dor aguda e persistente. Acendi uma lanterna e tentei com os pés encontrar os chinelos, mas foi difícil a procura, as pernas não me obedeciam. Por fim lá consegui. Agora o problema era aquela, difícil, tarefa de sair desta posição e ficar de pé, encontrar a bengala e conseguir arrastar as pernas até a janela para baixar, totalmente, as persianas de forma a não baterem tão intensamente.

Na cama ao lado, Odete, dormia tão calma e tão serena que me deixou admirado, normalmente respirava com dificuldade e um ressonar cavo acompanhavam o sono difícil, hoje não, estava num sossego que me reconfortou. Ia ter cuidado para não lhe perturbar o sono.

Somos casados, vai fazer 65 anos, sempre compartilhámos a mesma cama mas, agora, as nossas maleitas obrigaram a duas camas, de forma a um, não incomodar o outro, com as voltas e o mau estar nocturno. Não gostamos muito mas compreendemos, que era o melhor para aproveitar as poucas horas de descanso, que a dores nos proporcionavam.

Finalmente, venci a batalha, estava numa vertical periclitante mas estava o suficiente para conseguir chegar à janela e puxar bem abaixo as persianas.

Olhei, outra vez, a Odete estava tão serena. As rugas sulcavam-lhe o rosto mas mantinha, ainda, aqueles traços que a tornavam, para mim, tão diferente, naquela doçura e serenidade que me enchiam o coração. Se calhar o que sentimos agora é já apenas amizade, mas no meu decrépito coração mora, ainda, um amor tão intenso que me tolda a vista quando penso que, um dia, a morte nos vai separar. Não acredito noutra vida, sempre me habituei a encarar a morte como o fim de uma longa caminhada, depois o descanso total.

A luz da lanterna orientou-me embora a luminescência, dos relâmpagos, fosse suficiente para guiar os meus passos.

Cerrei as persianas, conquanto tremessem com a fúria do vento, amortecerem o barulho o que seria suficiente para a Odete não acordar. Felizmente, ela, tinha um sono pesado, que juntamente com aquela remessa de comprimidos a deixavam num torpor doce e tranquilo, embora com um sono agitado.

Voltei para a cama, Odete, continuava na mesma posição, de quase beatitude.
Apalpei-lhe a testa estava gelada, é natural aos 85 anos, o sangue já não nos aquece o corpo da mesma forma, e ela, coitadinho estava tão magrinha que maior dificuldade tinha, ainda, para manter o pouco calor que lhe restava.

Não penso voltar para a minha cama, vou ficar junta da Odete, vou-me agarrar com força para lhe dar algum do, pouco, calor que me resta.

Enrosquei-me, como fazíamos quando éramos mais novos, numa espécie de conchinha aconchegante.

Colei o meu corpo e abracei-a com carinho, alisei-lhe o cabelo e senti o gelo do seu corpo invadir o meu.
Firmei-me com a força que me resta e disse-lhe de mansinho ao ouvido:

-Vá querida, vamos descansar os dois como fazíamos antigamente!
Depois adormeci profundamente.


****

Dois dias depois, os bombeiros, arrombaram a porta. Continuavam abraçados.
Nem a morte foi capaz de os separar!




sábado, 23 de fevereiro de 2013

Quase perfeita – Fim








Agora acaba mesmo! Nunca pensei ter que ressuscitar os mortos, para dar continuação a este estória. Não deve ter saído muito bem! Peço desculpa! Mas fiz o possível!



Saíram em silêncio, Ângela agarrou com força a mão de Licínio, as ideias entrecortavam-se na cabeça, queria ser racional mas o pensamento não a deixava ter um raciocínio lógico.

Licínio sentiu aquela procura de apoio e protecção, segurou-lhe a mão com um carinho tão grande, que ela olhou-o e sorriu.
Foram até ao carro sem trocar uma palavra, os pensamentos pareciam querer saltar, era um silêncio que parecia ecoar.

Começaram viagem e, Ângela, não se conteve:

-Sabes amor, houve qualquer coisa naquela velha que me pareceu falso! O choro não era sentido, era forçado e só a fragilidade lhe dava alguma credibilidade, a polícia não vai às casas por causa de um seguro, não sei o que é mas… fiquei com uma pedra no sapato!

Licínio gostou do sabes amor, Ângela era terna mas faltava-lhe uma pequena dose de romantismo.
Sorriu-lhe de forma, quase embevecida, antes de responder:

-Fiquei baralhado, não queria dizer nada para não parecer insensível, mas juro, que não acreditei na história que nos contaram.
Naquela idade, quem perde um ente querido veste luto carregado e a mulher estava com roupa de cor.

Ficaram os dois em silêncio, tentavam alinhar as ideias, mas não era fácil, pois havia duvidas e interrogações, a que não sabiam responder.

Ângela foi a primeira a quebrar o silêncio:

-Tenho estado a pensar, se o acidente foi no dia 25, de há três meses, tem que haver noticias nos jornais e registos na polícia, ou nos hospitais!
Licínio olhou-a embevecido:

-Tenho a namorada mais esperta de Lisboa e arredores! É isso, vou começar por ai, vou ver todos os jornais do dia e dos dias seguintes, vou falar com um amigo da bófia que me vai ajudar.

Não digas, por enquanto, nada ao Elias!


*****

Licínio encarnou com satisfação este papel de detective, estava entusiasmado.

Pegou na esferográfica e estabeleceu um plano, não podia esquecer nenhum pormenor.

Anotou, cuidadosamente, tudo o que a avó de Joana tinha dito, embora parecendo que havia fantasias e contradições convinha analisar, pois, apesar das suas dúvidas podiam corresponder à realidade, realidade que não queriam mas que tinham que aceitar, pois, podia ser verdade.

Anotou a compra dos principais jornais dos dias 25 e 26 de Maio, depois ia falar com o amigo Albino que era comissário da polícia. Estava na dúvida por onde começar, mas se calhar o primeiro passo era falar com o amigo. Os jornais vinham depois!

Foram três dias intensos, falou com o comissário que lhe prometeu ir indagar, passou um dia de visitas a jornais onde comprou, como tinha previsto, os diários que normalmente publicam essas notícias.

Leu, de fio a pavio, todas as notícias, muitos acidentes, mas nada relacionado com o que procurava.

O Albino telefonou-lhe eram 10 horas e confirmou a notícia que já esperava, nenhuma emergência em relação a esse, hipotético, desastre.
Pegou no telemóvel e ligou para Ângela, quando a ouviu, com a voz mais doce que conseguiu:

-Olá amor, estou cansado mas muito entusiasmado. Tem calma! Vamos combinar assim, vens passar a noite comigo, aqui, e amanhã vamos a caminho de Cascais para desmascarar a velha que nos intrujou. Pois é verdade! Não querida, não houve nenhum acidente! Eu preparo o jantar. Um beijo!

****

Ângela acordou esfomeada, a noite abriu-lhe o apetite!
Sentiu, na cozinha, o reboliço atarefado de Licínio, o cheiro a café acabado de fazer aguçou, ainda mais, o desejo de um pequeno-almoço reforçado.

Estômagos aconchegados depois de uma noite bem colorida, meteram-se à estrada.
Havia um certo nervosismo, Licínio queria parecer forte mas um nervoso tolhia-lhe os pensamentos e tinha medo, pois algo que o ultrapassava estava a acontecer. Mas tinha que parecer forte, tinha que impressionar a sua Ângela.

Quando chegaram à porta da vivenda, a primeira surpresa. Estacionado, mesmo em frente, estava o carro que o Licínio já conhecia.

-Sabes, Ângela, estou a ficar nervoso, aquele automóvel é o deles!

Ângela, muito serena, tentou acalmar o namorado, a voz não lhe saiu muito convincente mas tentou:

-Mas isso é bom vem confirmar o que já suspeitávamos! Vamos estacionar e visitar, outra vez, os senhores.

A vivenda não parecia a mesma, os canteiros bem arrumados, a relva cuidadosamente aparada e os muros de buxo delimitando os carreiros.

O som do carrilhão era diferente, aquela dingue-dongue, suou de uma forma um pouco mais estridente.

Surpresa geral, na porta ao longe, apareceu a cabeça do Ambrósio que com voz cerimoniosa perguntou:

-Em que os posso servir?

Quase em simultâneo responderam:

-Precisamos falar consigo ou com a menina Joana!

O portão disparou e com toda a suavidade foi-se escancarando. Entraram, alguma relutância, mas avançaram resolutos.

Ambrósio mandou-os entrar e, indicou-lhes lugares para se sentarem, antes de responder:

-Com a menina Joana não vão poder falar, está muito longe e, ainda, vai demorar algum tempo, mas se eu puder ajudar, digam por favor!

Ângela contou-lhe da última vez que aqui estiveram e da conversa com a avó da Joana.
O homem pareceu surpreendido e perguntou:

-Tem a certeza que estiveram aqui, nesta casa?
-Temos a certeza! Responderam os dois.

Ambrósio ficou pensativo, puxou um Cadeira e sentou-se em frente deles.

-Mas qual o interesse em falar com Joana?

Ângela contou o sofrimento do filho e da promessa que fez em o ajudar.

-Já sei quem é, respondeu o homem, a menina contou-me e parece-me que o seu filho também lhe deixou recordações.

Se calhar não devia, mas eu tenho uma enorme dedicação pela Joana e vou contar.

A Joana como sabem é invisual, tem uma Neurite óptica retrobular, não se sabem bem as causas mas pensamos que foi a partir do acidente, que os sintomas se agravaram.

-Mas que acidente? Perguntou Ângela.

-Foi há doze anos atras, o pai da Joana teve um acidente muito grave. Um despiste onde, infelizmente, o meu cunhado e a avó da Joana perderam a vida, Joana, por milagre, sofreu poucos danos mas os médicos pensam que o choque pode ter causado a inflamação do nervo óptico, Salvou a vida mas perdeu a visão!

A minha irmã, mãe da Joana ficou, com devem calcular, destroçada perdeu o marido, a sogra e ia perdendo a filha.

Foi aí, que eu me tornei o seu guardião e os seus olhos, passei a ser a sua luz e ao mesmo tempo a sua sombra.

Agora apareceu a esperança, uma clinica em Sidney, tem conseguido grandes avanços na cura desta doença.

A Joana e a mãe estão na Austrália, a minha sobrinha vai ser operada e temos esperança no sucesso da intervenção.

Quando regressarem, prometo, que se a minha menina recuperar a visão vos telefono e combinamos um encontro!

Ângela, com o entusiamo, agarrou nas mãos do Ambrósio e, quase, com violência pediu:

-Promete que vai telefonar, seja em que condições forem, não importa o resultado da operação! O meu filho está apaixonado pela Joana!
O resto não importa!

-Prometo, conclui Ambrósio, deixem o vosso cartão!

****

Hoje, na Basílica da Estrela, realizam-se dois casamentos.
Joana e Elias, Ângela e Licínio juram, perante Deus, o amor que os une.












domingo, 17 de fevereiro de 2013

Podia ter sido diferente!







Já foi há muito tempo e a minha memória já me atraiçoa, só o pensamento me mantêm algumas recordações.

Tenho a certeza que foi em Maio, as tardes primaveris traziam o chilrear dos pardais que, em bando, tomavam conta das árvores.

Eu estava à janela, a tentar descobrir como me desenvencilhar de um nó de gravata que se tinha ensarilhado de forma estranha. Foi aí que a vi.         
Estava na rua em frente ao café do Esgalho, o Sol batia-lhe na cabeça e os cabelos pareciam espigas de milho douradas.
Desci a escada a dois e dois e, num instante, fiquei ao seu lado, descobri o melhor sorriso e meti conversa:

-És a Susana que mora na Travessa do Possolo, filha do Zé da Nora, não és?

Escarneceu e com ironia foi dizendo:

-Deves estar a armar-te em parvo ou que? Tás farto de saber quem sou! Até andamos, na primária, na mesma escola, tu nos rapazes e eu nas raparigas.

Tive que me esforçar, pois o raio da rapariga desconcertou-me.

-Tens razão, desculpa mas não sabia como meter conversa. Sou mesmo parvo!

-Se tu o dizer quem sou eu para contradizer, mas afinal o que queres? Perguntou.

-Estar contigo, conhecer-te melhor. Até quem sabe sermos amigos, respondi.
-Bom! Começou ela, posso ser isso tudo e até mais, é só uma questão de preço, comigo nada é à borla! Queres passear comigo uma hora, pagas vinte e cinco tostões, para ser amigo, só amigo, é o mesmo preço, se quiseres algo de mais especial o preço começa nos 10 escudos e pode ir até aos cinquenta. E, para tudo, quero pagamento adiantado, nada de paga depois.

Com essa de não receber antes, o padre Virgulino levou-me à certa e ficou a dever-me 5 escudos, mas lixou-se porque caiu no alçapão da Igreja e partiu o pescoço. Alguém o abriu sem ele dar por isso. Gozou, não pagou, mas não lhe fez proveito!

Fiquei sem palavras, não sabia o que dizer, foi tudo tão inesperado e só me saiu:

-Mas isso é pecado e é proibido.

Deu uma gargalhada, virou-me as costas e foi dizendo:

-Se os padres gostam é porque não é pecado! Além disso o físico é meu!

Fiquei com uma sensação de frio a percorrer-me o corpo, como que um arrepio que começou nas pernas, percorreu a coluna e se concentrou num ponto do cérebro, que me dava como que uma agastura difícil de explicar.

***

Estou a ser parvo, pensei, a rapariga esteve a gozar comigo, ela não é nada disso. Se fosse já muita gente comentava e eu nunca ouvi nada.

Que o padre Virgulino, de forma que ninguém soube explicar, se emborcou pelo alçapão abaixo e o encontraram no outro dia mais morto que morto, isso é verdade, mas se calhar aproveitou este episódio para caçoar comigo. A gaja é tramada!

Amanhã vou falar com ela, não quero ser mais gozado. Isto tem a ver com a escola, eu como era filho de um Morgado era a vítima das brincadeiras dos rapazes, até que um dia me deu a veneta e dei uma valente sova no Marcolino, foi remédio santo, nunca mais me atazanaram o juízo.

****

Encontrei-a no Café Central, foi fácil, o cabelo brilhava ao longe, estava só, numa mesa, ao lado da janela. Quando me viu não se conteve:

-Sch, Roberto, ainda te lembras de mim? Pagas um café?

Pedi dois ao balcão e fui sentar-me na mesa, mas antes perguntei:

-Posso?

Deu uma sonora gargalhada:

-Podes eu não te cobro nada, companhia à borla!

Bebemos, calmamente, os cafés em pequenos sorvos, quase como num ritual.

-Sabes? Comecei, ontem desconcertaste-me, quase acreditei em ti. És tramada!

-Mas, perguntou ela, e agora em que parte deixastes de acreditar?

-Em tudo rapariga, em tudo!

-Pois, disse ela, não acreditas que virei puta!

Mas é verdade, não me considero mas sou, eu não quero ficar nesta parvalheira, quero sair daqui, quero respirar e para isso preciso de dinheiro. Os meus pais são os melhores, mas não tem onde cair mortos, trabalho não há e eu, quero e preciso de dinheiro. Tenho um corpo que muitos desejam, não tenho pejo em explorar o que é meu. Mas sabes que a crise até nisso existe, até hoje não tive um único cliente, contínuo casta e pura como quando nasci, mas tenho esperança que as coisas melhorem, quero ir para Lisboa estudar.

-Mas, balbuciei, disseste que o padre te ficou a dever 5 escudos!
Olhou-me de uma forma, tão angelical, que voltei a sentir o tal arrepio.

-Acredita Rodolfo, o safado do padre apalpou-me o rabo, gritei com ele e disse-lhe que ia fazer queixa. Prometeu dar-me 5 escudos para ficar calada mas o sacana nunca me pagou!

-Mas, diz-me, Susana tens mesmo vontade de fazer isso?

Percebi uma lágrima disfarçada, talvez fosse impressão minha, mas os olhos azuis brilhavam intensamente:

-Não sei e tenho medo de quando chegar a isso não ser capaz! Tenho mesmo muito medo!

Foi aqui, tenho a certeza, que as lagrimas correram pelo rosto.

-Seca essas lágrimas! Pedi. Vou-te fazer uma proposta, esqueces esses planos malucos, eu empresto-te o dinheiro para ires estudar. Depois, quando arranjares emprego vais-me pagando. Que dizes?

Agora chorou mesmo, vi o peito arfar e o rosto ficar sulcado por riscos brilhantes. Passou os braços em volta do meu pescoço e:

-Juras que fazes isso? Juras mesmo? Porque não vamos os dois?



* * *
Durante dois anos, pontualmente, todos os meses lhe enviei um vale.

Um dia recebi uma carta, lacónica, só percebi que tinha um emprego, não precisava mais do empréstimo e que um dia me iria pagar tudo. Só isso, mais nada, nenhum agradecimento.
Pensei, um dia aparece, por aí, e logo agradece!

Vão passados, talvez 50 anos, e estou na mesma janela apanhando um pouco do Sol que me ajuda a aquecer as articulações e me alivia as dores destas malditas artroses.

Olhei para onde fora o café do Esgalho, hoje é uma loja de chineses. Parece-me ver um cabelo brilhando, como espigas de milho douradas, e lembrei-me da Susana que depois daquela carta nunca mais deu notícias.

Passou tanto tempo e nunca a esqueci, e ainda hoje, decorridos todos estes anos tenho a certeza, que ainda a amo e vou continuar a amar!

Faltou-me coragem para tudo ter sido diferente!