Vou
fazer um pequeno interregno, volto em Maio. Vou sentir a vossa falta!
Era
estranho, esquelético, com uns tiques que incomodavam.
Levantava
o olho direito franzindo o canto da boca, fungava como um cheirador de rapé, e
olhava as pessoas de través.
Diziam,
os mais antigos, que foi um rapaz normal vítima de uma assombração, não
obedeceu as regras do além e foi castigado por forças ocultas, mas isso era o
que se dizia, um pouco, a medo. As pessoas tinham receio de falar em coisas que
iam para além da sua própria imaginação, factos em que as forças do além se
sobrepunham ao conhecimento das pessoas.
Dona Inácia, na sabedoria dos seus 90 anos,
contava que tudo tinha a ver com umas marcações de terras, parece que avô do
Libório tinha desviado uns marcos e, de forma indevida, tomou para si terras
que não lhe pertenciam, quando chegou a hora de se apresentar ao criador foi
recambiado para desfazer o mal que tinha feito.
Uma tarde, continua dona Inácia, estava o pobre Libório agarrado à rabiça do
arado, quando avô, qual alma penada, se lhe apresentou aparecido do nada, com
voz cavernosa lhe ordenou a troca dos marcos.
Obedeceu no medo que o tolhia e fez tudo o que
lhe mandou sentindo um tremor que o inibia. Acabada a tarefa o avô, naquela voz
do além, ordenou que enquanto ia desaparecendo não devia olhar para trás para
nunca se arrepender. Mas o terror era tanto que o pobre rapaz apenas olhou de
soslaio, o que enxergou ninguém sabe, apenas ficou como agora se vê, alheio,
como se estivesse sem estar.
Anda pela aldeia por entre as gentes como se não fizesse parte delas, vagueia
pelas ruas nos seus tiques, passando indiferente à caçoada dos rapazes, olha
algo que, possivelmente, apenas ele vê.
****
Agosto quente, ainda agora se tinha levantado a manhã e já as pessoas andam num
desconforto de roupas coladas ao corpo, com uma vontade enorme de se encostarem
no agradável trabalho de não fazer nada.
Mas é apenas vontade, pois o dever chama e há muito que labutar.
Todos
têm que dar a sua ajuda, no sábado começam as festas em honra da padroeira e,
os filhos da terra, começam a alegrar as ruas, com as falsas pronúncias de um
francês com sotaque transmontano.
Chegam em carros que regalam a vista e dão aquele ar de prosperidade, que por
vezes, não passa de um faz de conta, num carro alugado para esconder as
dificuldades que sentem no dia-a-dia.
Nas tabernas as malgas do verde, matam a secura que o calor deixa na garganta e,
com alegre verborreia, entoam de forma ensurdecedora.
No largo da Igreja, o som dos martelos ultimavam o palanque onde iriam desfilar
todas as atracções, guardadas, para dar brilho às festividades.
Sábado, logo pela manhã, o troar dos foguetes anunciavam aos quatro cantos da
aldeia, o início de uma semana de folguedo, musica, bailes, cantares, largada
de vacas e, a culminar, a procissão que iria dar o toque religioso para os
pagadores das promessas pelas graças recebidas.
Á tarde o largo regurgitava, não havia espaço para mais ninguém, Libório
parecia alheio, mas tinha garantido um lugar na fila da frente. O olhar
distante parecia procurar algo que estava para além da imaginação, não soltava
uma palavra, não mostrava qualquer afecto, estava ali como se não estivesse.
O mestre da banda, com a batuta, deu umas pancadas na estante da pauta, os
músicos alinharam os instrumentos de forma, quase, cerimoniosa. O mestre do
alto do seu poiso, olhou os seus músicos e sentiu o nervosismo dos mais novos,
com um leve sorriso deixou a mensagem, era hora de começar.
Primeiro os violinos naquele melodioso lamento, depois os metais encheram a
praça de magia, os acordes tomaram conta dos sentidos e a emoção encheu os
ares, apoderou-se de todos e conseguiu, com o fascínio da música, passar
despercebida as limitações destes amadores.
Quando a banda silencio algumas lágrimas bailavam nalguns olhos mas o milagre
deu-se depois.
Libório
que há cinco longos anos não botava uma palavra, que passava os dias num
alheamento total, num quase autismo, saltou de repente, bateu as palmas, olhou
o mestre e gritou:
-Mais uma vez, toquem mais uma vez!
****
Hoje,
os mais cépticos, dizem que foi a magia da música.
Os
outros, dizem que foi um milagre da santa padroeira
Já vão passados trinta anos mas raro é o
dia em que as recordações não me atormentam. Não porque me sinta responsável
mas, mais, por não ter tido talento para resolver aquele estranho caso.
A justiça divina, na altura própria, foi-se encarregando de dar seguimento, ao
que os homens não conseguiram.
Todos os protagonistas já fazem parte do passado, apenas resto eu,
possivelmente, fui poupado para poder dar a conhecer tudo o que aconteceu
naquele tempo.
*****
Foi numa tarde de inverno, o tempo estava seco, mas o frio era muito, quando
fomos chamados aquele, luxuoso, apartamento no bairro da Lapa.
Estávamos habituados a cenários onde a violência deixa marcas, mas este era
diferente, a violência era implícita, não se via mas estava tão presente, que
se sentia.
A idosa estava num sofá, tinha um feio buraco negro na testa, a roupa rasgada
deixava à vista uma mama velha, encardida e pendente. como um trapo molhado. Os
olhos, vítreos, deixavam ver, ainda, uma expressão de terror.
A sala, luxuosa, mobilada num estilo clássico, mostrava gavetas desarrumadas e
os conteúdos espalhados pelo chão.
Eu e o meu colega, agente Meireles,
fomos destacados para este caso, que se afigurava difícil.
Mesmo, muito difícil!
A vítima era uma conhecida figura da
sociedade, mulher de muitos amores e desamores, segredos e alguns escândalos à mistura.
Tinha 73 anos e estava a sair de um
casamento controverso com um jovem 43 anos mais novo, acusando-o de infidelidade
com uma jovem, empregada dum SPA, que costumavam frequentar.
Os peritos da criminologia fizeram uma
busca minuciosa na procura de pistas e indícios, fotografaram o que havia para
registar, procuraram impressões digitais, muito embora, naquela época a
dermatoglifia não tivesse o mesmo alcance de hoje.
A desarrumação era total, mas não deram
pela falta de nada, dava a impressão que o assassino procurou algo, que não se
sabia se encontrou.
Agora havia um árduo trabalho em
interrogar, todos, os que na nossa óptica, pudessem ser suspeitos.
******
Acabei o curso de direito, curso que fiz quase por imposição familiar, o meu
pai era advogado e todos me marcaram, tinha também que ser advogado. Nunca me
imaginei num gabinete e, quando tive a possibilidade de concorrer à polícia não
hesitei, fui em frente e a minha licenciatura foi um factor determinante.
Comecei em trabalho de gabinete, mas não
tardou estava, onde queria, no terreno.
Muitos casos se tinham deparado no nosso
caminho mas este, tinha todos os ingredientes para se tornar, quase um
acontecimento, havia motivos passionais, invejas, herdeiros desesperados pela
seu quinhão e, ódios. Muitos ódios!
A Dona Josefa Malapico, assim se chamava
a defunta, não era flor que se cheirasse. Habituada a uma vida de ociosidade e
ostentação, considerava-se o centro de um mundo onde todos os outros, eram
peças secundarias.
Esperámos o resultado da autópsia e para nossa surpresa a morte tinha sido
causada por asfixia, alguém lhe tinha colocado uma almofada na cara, depois
encenaram a violência, terminando com um tiro, de ódio, à queima-roupa, no
cadáver.
A morte deve ter ocorrido entre as três e as seis horas da madrugada.
A lista de suspeitos era enorme e tivemos que estabelecer prioridades, embora
na nossa mente o ex-marido da vítima, Samuel, estava na fila da frente.
Havia, naturalmente, Elisa a empregada do SPA, o sobrinho e a sobrinha, a
secretária, as duas empregadas da casa e o motorista.
O primeiro a ser interrogado foi o viúvo. Era o maior beneficiado, herdeiro e,
único, candidato a receber um milhão, do seguro da vítima.
Estivemos duas horas à volta dele, jurava que desde que a mulher o expulsou não
tinha voltado a casa, ela tinha-o proibido, apenas lhe telefonou duas vezes e
estava convencido que o ia perdoar e aceitar de volta, aquela coisa com a Elisa
foi uma fraqueza, ele gostava da mulher, não dizia que havia amor, era difícil
mas tratava-a bem, dava-lhe respeitabilidade, carinho e protecção.
Desde que estava separado, ficava no seu apartamento de solteiro. Não tinha
testemunhas, dormia sozinho.
Na noite anterior, dizia, tinha ido a uma pizzeria, depois para casa, viu um
filme na televisão, não se recordava do nome, adormeceu no sofá até cerca das 3
horas e só depois foi para cama, teve conhecimento do acontecido quando a
empregada, a Susete, telefonou a contar a grande desgraça.
Não acreditámos em muito do que nos relatou e agora teríamos que tentar
confirmar, ou contrariar, tudo o que nos disse.
Também podia ser verdade, o que nos
contou, e ter um cúmplice a quem tenha encomendado o trabalho. Mas havia um pormenor
que contrariava essa hipótese, este crime tinha indícios de ódio e um
assassinato por encomenda, em regra, era feito de forma simples.
As duas empregadas tinham saído à hora habitual, oito da noite, e regressado, como
todos, os dias às 10 da manhã.
Rosa foi directa à cozinha aprontar o pequeno-almoço da senhora, enquanto
Susete foi preparar a mesa, foi aí que se lhe deparou tamanha desgraça.
Chamou a colega, telefonou para a polícia e para o senhor Samuel.
As duas deixaram de ser suspeitas, os seus álibis eram perfeitos, tinham estado
nas suas casas com os maridos e filhos.
O motorista nunca foi suspeito, estava há cinco dias no hospital, operado a uma
hérnia discal.
Falamos com a secretaria, ia duas vezes por semana reunir, com a dona Josefa,
estabeleciam as prioridades, escolhiam e confirmavam os convites para os
diversos eventos.
Nada levava a desconfiar, pensavam reunir nesse dia, às 16 horas, tinha falado
com a senhora na véspera por volta das 17 horas a confirmar e não notou, na
dona Josefa, qualquer alteração.
Passou a noite em casa o que foi confirmado pelos pais e irmãos.
Restava interrogar a presumível amante do Samuel e os dois sobrinhos.
A empregada do SPA, jurou que nunca teve
qualquer intimidade com o senhor Samuel, apenas as massagens a que tinha
direito.
Sabia que ele dizia que sim, mas era
mentira, ele bem tentou mas ela nunca lhe deu azo.
Tinha, confessava, ódio a dona Zefa, não tinha pena do que lhe aconteceu, era
uma mulher má e possessiva, tinha conseguido que a despedissem do gabinete com
o escândalo que arranjou a acusá-la, de andar a desviar os maridos das outras.
Mas Deus fez justiça!
Tinha provas e confirmamos, passou a noite em casa com o namorado.
Faltavam os sobrinhos, filhos de uma
irmã e de um cunhado, da dona Josefa, falecidos num acidente de viação.
Marcelo era o mais velho, rapaz de muitas tatuagens e piercings. Trabalhava
numa loja de informática, não via a tia há mais de um ano e não lhe tinha
qualquer amizade, não estava à espera de ajudas ou heranças da megera.
Prometeu à irmã, na hora das morte, ajudar e proteger os sobrinhos mas foi
apenas uma promessa que nunca cumpriu, se não fossem os avós paternos teriam
sido criados ao Deus dará.
Para ele, não fazia parte da família.
Vivia na outra margem com uma
companheira, apanhou a camioneta das 20 horas, os parceiros habituais de viagem
podiam confirmar, assim como a namorada e os vizinhos.
E, era verdade, batia tudo certo!
Por fim ouvimos a sobrinha, Eulália, moça muito cativante, sorrido sedutor e de
palavra fácil.
Adorava, dizia ela, a tia Zefa porque era uma mulher de muita visibilidade,
muitos conhecimentos e que conseguia abrir algumas portas. Tinha-lhe prometido
um casting, tinha a certeza que lhe ia conseguir o acesso a uma carreira. Sim,
tinha a certeza, que a tia lhe ia conseguir um papel numa novela.
Era verdade que teve uma discussão, com ela, quando soube que ia casar com
aquele tipo de 30 anos, um aproveitador da fragilidade de uma mulher de 73
anos.
Mas foi uma coisa de momento e até foi a única pessoa da família que esteve na
cerimónia, embora confrangedora, um jovem bonito, cheio de energia a casar com
uma mulher onde as plásticas já não conseguiam disfarçar a erosão do tempo.
Mas se a tia era feliz, ela tinha que
apoiar, pois queria o que fosse melhor.
Tinha passado, como sempre, a noite em casa.
Tinha que se deitar cedo para manter a frescura do rosto, a beleza tem que se
cultivar.
Além disso, perguntou:
-Acha que uma pessoa frágil, como eu, conseguia sufocar alguém na cama e depois
carrega-la para um sofá para lhe dar um tiro? Isso é trabalho para um homem e
forte.
*****
Fizemos o nosso trabalho, transcrevemos os interrogatórios, as diligencias, as
confirmações possíveis e entregamos o nosso trabalho mas, sempre, tive uma
sensação de que algo não batia certo.
Bem! Depois, os advogados e os juízes, iriam esmiuçar e tirar conclusões.
****
O processo levou anos a ir a julgamento, entre adiamentos, recursos e todas
aquelas habilidades dos causídicos arrastou-se por três longos e penosos invernos.
Samuel, dado a fragilidade das provas, foi condenado apenas a sete anos de
prisão.
Cumpriu dois, um dia foi encontrado, na cela, enforcado com um pedaço de tecido
enrolado como se fosse uma corda.
Morreu sem nunca admitir culpa, sempre gritou a sua inocência.
***
Vão passados trinta anos, o meu colega Simões já não faz parte deste mundo, um
aneurisma levou-o aos 53 anos.
Eu estou reformado há três meses, mas este caso de "a morte da
jet-set", como nós o baptizamos, tem-me perseguido todo este tempo.
Sim! Só agora que o tempo passa por mim, sem eu ter onde o gastar, é que se fez
luz no meu espirito.
Agora que tudo prescreveu e que o bom
Deus já se encarregou, com a justiça divina, numa “overdose” de heroína eu
descobri que Eulalia, tinha sido o carrasco da tia Josefa.
Nunca dissemos, em nenhum relatório constava, por isso só quem estivesse
implicado podia saber.
Lembram-se da frase "Acha que uma pessoa frágil, como eu, conseguia
sufocar alguém na cama e depois, carrega-la para um sofá para lhe dar um
tiro?"
Só quem estivesses implicado o podia
saber.
Logo, foi ela, só ou com ajuda, mas foi ela a criminosa!
Escrevi
e publiquei este conto em 2009, um amigo que por aqui costuma passar e que está
a passar um momento muito grave, pediu-me para o voltar a dar a conhecer.
Por
ele, esperando um milagre, aqui fica.
Era um
amor feito de coisas velhas, estranho, desbotado pelo tempo, mas era um amor,
embora impregnado de mistérios e camuflado em beijos amorfos e sentimentos que
há muito tinham morrido.
Nem sempre foi assim, pois começou numa tarde amena de Primavera, ao som de um
slow que obrigava a cingir os corpos em passos vagarosos e sensuais numa
"salle de danse" em Paris.
Depois, foi o encanto de tardes de mãos dadas, noites intensas em plenitude de
corpos fundidos em arroubos de desejos incontidos.
Tardes no Melody, ao som de uma imitação de Jaque Brell, no lamento de um
fastidioso “Ne Me Quites Pas”, sorvendo em pequenos goles um, intragável,
Bacardi como se fosse a melhor bebida do mundo. Ela, na saia travada, ajeitava
as pernas escondendo dos olhares, dos homens, que à socapa iam mirando as coxas
firmes generosamente expostas. Ele, intelectual vanguardista, citava
frequentemente Cesar Vallejo, como se nas palavras conseguisse arranjar remédio
para a falsa dialética com que se arvorava no caminho da cultura.
Casaram numa manhã de chuva, no Consulado, perante a autoridade e quatro
acompanhantes, dois militantes de um partido ecologista, a Paulette empregada
da pensão e o namorado, um português transmontano, dono de um pequeno bar.
Não houve lua-de-mel, não era necessária, pois já andavam há muito nesse
enlevo.
********
Foram dois meses de encanto, longos passeios ao longo do rio que lavava as
margens da cidade.
Os serões eram passados em tertúlias onde se discutiam “Les nouvelle vagues”,
se bebiam Pastis e se recitavam versos de Neruda, Borges e Rimbaud. As
gargalhadas confundiam-se com o cheiro do canábis, que iam inalando até o entorpecimento
tomar contas dos corpos e toldar os pensamentos. Matilde assistia, primeiro, na
curiosidade da descoberta, dos falatórios que não percebia, dos versos que nada
lhe diziam, das discussões pseudo-intelectuais sobre liberalizações,
globalizações e outras coisas que não entendia. Depois, foi o enjoo daquela
bebida onde o sabor de anis lhe deixava um travo acre na garganta, o adocicado
e enjoativo cheiro daquela maconha em que iam imbuindo a mente, na procura de
uma liberdade que os prendia.
As noites mágicas perderam a magia e passaram a ter a monotonia das processionárias.
*****
Deixou de acompanhar o marido, tinha náuseas e tédio dos velórios em que se
tornaram as noites macambuzianas, das retóricas, dos cheiros e das palavras
soletradas, por desenraizados, na procura de algo que nem eles sabiam bem o que.
Matilde começou por passar as noites só, depois com Paulette ia até ao bar do
transmontano. As pernas, na saia travada, continuavam a prender os olhares
gulosos que em sorrisos as iam conquistando e, ela, começava a apreciar toda
essa embasbacação.
Depois foi fácil, a troca de olhares, as conversas em redor de uma bebida, as
mãos que se tocavam numa casualidade provocada, o sortilégio dos homens que se
diziam sós e carentes.
Eram sortidas rápidas, mas o suficiente para restabelecer o equilíbrio e
a estabilidade.
*****
Matilde e Balduíno continuam o seu amor.
Ele, durante o dia, dorme na ressaca do Pastis, do entorpecimento da erva e da interiorização
das prédicas das noites “tertulianas”.
Ela, passeia pelas cosmopolitas ruas de Paris.
À noite encontram-se no quarto da pensão, cruzam-se antes das suas missões.
Trocam um beijo cansado, amorfo e desbotado, um beijo do que resta do amor.
Eles
continuam a amar-se, num amor estranho, desbotado pelo tempo.
Era um crepúsculo diferente, no colorido
de um Sol que desaparecia, apenas a contraluz das gaivotas, davam um ar de
vida.
Maria do Amparo, tirou os óculos escuros, o Sol há muito deixara de a
encandear, e foi sentar-se na esplanada, o dia estava tão linda que ir para
casa era o que menos lhe apetecia.
Ia ficar só mais um pouco, não podia atrasar-se muito, pois a mãe não estava
tranquila quando demorava mais um bocado.
A velhota não era assim, mas desde que o
pai morreu, tornou-se obsessiva, não lhe dava um momento de folga.
Controlava-lhe as horas de uma forma que a sufocava.
Hoje, para esta saltada à beira mar, teve que inventar uma urgência no escritório,
mas mesmo assim, ainda, perguntou:
-Trabalho ao sábado, Maria do Amparo?
-Sim mãe, tenho que ir!
****
Andava cansada, no emprego eram simpáticos, mas havia alguma monotonia e,
parecia-lhe que as colegas, não lhe perdoavam por ser nova e bonita, ela tinha
esse sentimento, era perfeita.
Não era muito alta, mas Deus tinha distribuído tudo, nas doses certas e de forma
segura.
Tinha uma beleza simpática, serena onde a doçura do sorriso ajudava a sua
parte.
Hoje, sábado, apetecia-lhe passear. Gostava de percorrer, em passadas lentas, o
caminho à beira mar e depois sentar-se na esplanada com um gelado, um imenso
gelado, de chocolate e baunilha, com muito chantilly, mas mesmo muito!
Esperou o sorvete, enquanto os seu olhar percorria os restantes companheiros
deste fim de sábado.
Na sua frente, um homem não desviava os olhos, Maria do Amparo fingia não
reparar, mas na verdade até estava a apreciar esse interesse.
O tipo era, pensava ela, um pão, cabelo preto num estudado desalinho, olhos
castanhos muito intenso e um sorriso cativante, debaixo de um fino bigode.
O doce ia desaparecendo, em colheradas lambidas, de forma um pouco libidinosa,
pois a língua ia afagando de um modo sensual o colorido gelado, enquanto pelo
canto do olho espreitava a forma, gulosa, como o homem a olhava.
Estava a gostar, há muito que andava esquecida dela própria, a mãe absorvia-lhe
o tempo e cerceava-lhe, de certa forma, os sentimentos.
Se calhar o sujeito só estava curioso, ela sabia que despertava apetites mas, provavelmente,
era apenas o gosto pelo olhar.
Terminou a guloseima, estava tão boa que se pudesse comia outra!
Começou a preparar-se para o regresso, quando o cavalheiro, se aproximou,
sorriso rasgado e, quase, num lamento:
-Vai já embora, agora que arranjei coragem para me aproximar? Fique mais um
pouco, ainda é cedo e a tarde está tão linda!
-Bom, disse Maria do Amparo, tenho mesmo
que ir!
O homem não desarmou:
-Tem carro, ou posso levá-la a algum
lado?
Maria do Amparo sentiu um formigueiro a
subir o corpo, um dilema tomou-lhe conta dos sentidos, por um lado agradava-lhe
a ideia e a companhia, o comboio a essa hora não era muito agradável, mas o bom
senso martelava-lhe a cabeça, não devia aceitar boleia de estranhos.
O homem estava na expectativa, mas parecia
ter adivinhado os pensamentos.
-Sabe menina, não tenha receio, pode confiar, eu deixo-a onde quiser, mas
primeiro deixe-me apresentar, sou Miguel Lopes, advogado e, sorriu, bom rapaz!
Os dois diabinhos continuavam na sua
cabeça, naquela luta do aceito, não aceito e, um tinha que vencer.
Maria do Amparo aceitou o convite.
*****
Começou um romance, primeiro devagar, encontros fortuitos, passear de mãos
dadas, jantar à luz de velas e uns beijos, fortuitos, que faziam corar de
prazer Maria do Amparo.
Um dia, foi numa quinta-feira, Miguel naquela voz rouca que a entontecia,
perguntou:
-Vamos fazer um fim-de-semana diferente?
Os meus pais têm uma casa de férias em Sesimbra, podíamos aproveitar para
ficarmos juntos. Que dizes?
-Mas, pergunto Maria do Amparo, vou conhecer os teus pais?
O homem pareceu mostrar algum incómodo, cofiou com o dedo o fino bigode.
Limpou, com um leve pigarro, a garganta antes de responder:
-Amor, os meus pais estão em Évora, eu vivo com a minha irmã, mas um dia vou
juntar toda a família para te apresentar. Quero que eles fiquem a conhecer a
minha linda namorada, a mulher da minha vida!
-Bom! Suspirou ela, eu acho que, ainda, é muito cedo! Mas, tá bem, vamos!
*****
O tempo foi passando, cada dia se sentia mais apaixonada.
Bendita a hora em que aceitou aquela boleia,
estava feliz e hoje estava radiosa, tinha um cheiro a pêssegos frescos. Pegou
com mais força, do que o habitual, na mão do namorado.
Havia felicidade no seu olhar, mas
notava-se algum receio na voz.
-Sabes amor que vamos ser pais!
-Que estas a dizer mulher? Gritou
Miguel. Perdestes a cabeça? Queres dar cabo da minha vida? Eu não vou ser nada
disso e tu, se quiseres, podes ser mas não contas comigo!
Voltou a costas e desapareceu.
Maria do Amparo quis chorar mas nem uma única lágrima chegou aos seus olhos.
Mordeu, de desespero, os lábios.
******
Miguel, apareceu no dia seguinte mas, pelo semblante carregado, ela percebeu
que algo estava mal. Não tinha aquele sorriso que a cativava, o fino bigode
parecia, apenas, um traço inexpressivo naquele rosto, hoje, tão diferente do
habitual.
Nem sequer lhe deu um beijo, limitou-se a dizer:
-Os meus sentimentos são verdadeiros, o resto é uma mentira pegada. Não sou
Miguel Lopes, não sou advogado, não sou livre, tenho mulher!
Se quiseres vais tirar essa criança, que não tem culpa, continuas a ser a minha
namorada, até que eu um dia eu seja livre, depois pensamos na nossa vida.
Teve sorte, ela tinha apenas uma revista na mão, mas mesmo assim sentiu a força
a golpear-lhe a cara, sentiu nos olhos a saliva, quando ela lhe cuspiu no rosto
e ouviu o martelar, nos tímpanos, da raiva das palavras:
-Desaparece canalha! Desaparece! Desaparece, antes que te arranque os olhos,
com as minhas próprias mãos!
*****
Maria do Amparo nunca mais quis saber, desse homem que era falso, em tudo, até
no nome.
Ia viver a vida, a vida como sempre vivera, mas agora tinha uma missão muito
delicada e muito difícil.
Tinha que esconder uma gravidez, sabia
quão difícil ia ser, o corpo ia perder as formas, muitas transformações que
precisava disfarçar, com roupas mais largas e apropriadas.
Queria passar a gravidez sem ninguém
saber. Em casa ia ser mais difícil, mas tinha que conseguir!
O pior período seria no Inverno e, nessa estação, era mais fácil disfarçar o
corpo, trajes mais grossos iam ajudar.
Pelas contas, dela, devia acontecer no princípio de Dezembro, tinha que
preparar tudo, ia marcar férias, ninguém podia desconfiar, a criança nunca ia
aparecer, sem parto não havia bebé, sem bebé não tinha havido parto.
Tinha que ser inteligente, calculista e não se deixar levar por sentimentos, tinha
que esquecer essa coisa do instinto maternal.
Era só um momento, depois acabava, um recém-nascido não chega a sentir a
vida.
Tinha que ir preparando, dentro da cabeça, todos os detalhes, tinha que inventar
a coragem que lhe faltava, carregar e disfarçar uma gravidez, ter um parto sem
ajuda e longe de tudo e todos e, por fim, fazer desaparecer uma criança que,
para o mundo, nunca nasceu.
Só esperava que Deus compreendesse, o
suficiente, para a perdoar.
A mãe não suspeitava da verdade, mas estava preocupada com a filha.
Estranhava porque andava sempre
agoniada, de manhã era um castigo para se levantar, não deixava ninguém entrar
no quarto e, até no corpo, sempre tão jeitoso, se notava um grande descuido.
Agora a mania de férias em Dezembro. Sim
no Inverno, com tanto frio queria ir para a aldeia, para uma casa que era dos
avós!
E foram, mesmo, para a aldeia.
A casa era enorme, estava fria e algumas teias de aranhas enfeitavam os cantos.
Uma vassoura, dois troncos e um molho de chamiços fizeram a transformação.
Agora já havia conforto.
Maria do Amparo tinha tudo preparado, havia uma cabana ao fundo do quintal, que
em tempos foi usada, pelo avô, para recolher a mula. Estava limpa e com as
paredes caiadas.
Num dos lados, improvisou uma espécie de tarimba, com umas velhas passadeiras.
Foi lá, também, que ao canto cavou uma cova, guardou a terra numa caixa,
depois ia precisar.
Juntou, num saco, o que julgou precisar sem esquecer um pano branco, que
iria servir de mortalha, pensou num saco mas, o plástico, levava muitos anos a
ser corrompido.
Agora era aguardar, não faltava muito tempo, já ia sentindo os sinais da aproximação,
pelo menos era o que tinha lido, a barriga descaída, necessidade constante de
urinar, o feto não mexia tanto e algum corrimento. Tinha que estar preparada.
Dia 8 de Dezembro, seis horas da manhã, umas grandes contracções avisaram da
hora, enrolou-se num cobertor e sem fazer barulho, raspou-se a caminho da
cabana.
Deitou-se no canto que tinha reservado, as dores eram mais constantes e
rebentaram as águas.
Muitas dores, força que não queria perder. Soprava como se tivesse uma vela
para apagar e, de repente, o filho foi mostrando a cabeça, depois os ombros e
por fim estava todo cá fora.
Estava exausta, pegou na criança, ia acabar o que começou.
Ganhou coragem e limpou-o com o pano que ia servir de sudário.
Depois, olhou-o nos olhos e perdeu a
coragem.
Embrulhou-o no cobertor, encostou-o
contra o peito. Não ia fazer mais nada, o seu menino era tão bonito!
Levantou-se a custo, sempre com a criança junto ao coração, entrou no quarto da mãe e gritou:
-Mãe, preciso que me ajudes a criar o teu neto! Ajudas mãe?
Acordei
com a intensidade da chuva a fustigar as inseguras persianas das janelas, o
vento soprava de forma irregular como se estivesse apostado em arrancar tudo à
sua passagem.
Levantei-me
a custo, as articulações reagiam, sempre, a todos os movimentos com uma dor
aguda e persistente. Acendi uma lanterna e tentei com os pés encontrar os
chinelos, mas foi difícil a procura, as pernas não me obedeciam. Por fim lá
consegui. Agora o problema era aquela, difícil, tarefa de sair desta posição e
ficar de pé, encontrar a bengala e conseguir arrastar as pernas até a janela
para baixar, totalmente, as persianas de forma a não baterem tão intensamente.
Na cama
ao lado, Odete, dormia tão calma e tão serena que me deixou admirado,
normalmente respirava com dificuldade e um ressonar cavo acompanhavam o sono difícil,
hoje não, estava num sossego que me reconfortou. Ia ter cuidado para não lhe
perturbar o sono.
Somos casados, vai fazer 65 anos, sempre compartilhámos a mesma cama mas, agora,
as nossas maleitas obrigaram a duas camas, de forma a um, não incomodar o outro,
com as voltas e o mau estar nocturno. Não gostamos muito mas compreendemos, que
era o melhor para aproveitar as poucas horas de descanso, que a dores nos
proporcionavam.
Finalmente,
venci a batalha, estava numa vertical periclitante mas estava o suficiente para
conseguir chegar à janela e puxar bem abaixo as persianas.
Olhei,
outra vez, a Odete estava tão serena. As rugas sulcavam-lhe o rosto mas
mantinha, ainda, aqueles traços que a tornavam, para mim, tão diferente,
naquela doçura e serenidade que me enchiam o coração. Se calhar o que sentimos
agora é já apenas amizade, mas no meu decrépito coração mora, ainda, um amor
tão intenso que me tolda a vista quando penso que, um dia, a morte nos vai
separar. Não acredito noutra vida, sempre me habituei a encarar a morte como o
fim de uma longa caminhada, depois o descanso total.
A luz
da lanterna orientou-me embora a luminescência, dos relâmpagos, fosse
suficiente para guiar os meus passos.
Cerrei as persianas, conquanto tremessem com a fúria do vento, amortecerem o
barulho o que seria suficiente para a Odete não acordar. Felizmente, ela, tinha
um sono pesado, que juntamente com aquela remessa de comprimidos a deixavam num
torpor doce e tranquilo, embora com um sono agitado.
Voltei
para a cama, Odete, continuava na mesma posição, de quase beatitude. Apalpei-lhe
a testa estava gelada, é natural aos 85 anos, o sangue já não nos aquece o corpo
da mesma forma, e ela, coitadinho estava tão magrinha que maior dificuldade tinha,
ainda, para manter o pouco calor que lhe restava.
Não penso
voltar para a minha cama, vou ficar junta da Odete, vou-me agarrar com força
para lhe dar algum do, pouco, calor que me resta.
Enrosquei-me,
como fazíamos quando éramos mais novos, numa espécie de conchinha aconchegante.
Colei o
meu corpo e abracei-a com carinho, alisei-lhe o cabelo e senti o gelo do seu
corpo invadir o meu.
Firmei-me com a força que me resta e disse-lhe de mansinho ao ouvido:
-Vá
querida, vamos descansar os dois como fazíamos antigamente!
Depois
adormeci profundamente.
****
Dois dias depois, os bombeiros, arrombaram a porta. Continuavam abraçados.
Nem a
morte foi capaz de os separar!