domingo, 2 de junho de 2013

Marcas







Tentou abrir os olhos mas, a dor aguda que o percorria, apenas lhe deixou entrar uma confusão de luzes, barulhos e sons que não conseguia compreender. Havia uma espiral de claridades azul, girândola que lhe atravessava as pálpebras cerradas.

Queria falar mas as palavras ficavam perdidas num emaranhado de confusão, que não sabia explicar.

Não sentia o corpo, estava leve, num levitar doce e tranquilo.

Viu o pai, chamava-o de joelhos na areia molhada da praia. Correu para os braços, fortes, que abraçaram com amor o seu corpo ainda tão frágil.

Era tão criança a correr, atrás da bola que o pai atirou para longe. Correu molhando os pés na água que se espraiava na areia.

Ao longe a mãe sorria.

Viu-se a receber o canudo da formatura, a mãe tinha os olhos molhados das lágrimas, de satisfação, pelo seu menino. A Laura, estava ao lado e, sorria com tanto amor, que lhe apetecia deixar a formatura e correr para os seus braços e, beijá-la com todo o amor que sentia.

Lembrou o dia do casamento, sentiu-se ridículo naquele trajo de cerimónia. A Laura estava deslumbrante, tão radiosa.

Sentiu-se a levitar, numa doçura e, numa tranquilidade como nunca sentira antes.

Era uma música diferente, sons que nunca antes escutara, uma harmonia, que o embalava como se flutuasse num mar de pétalas perfumadas.

A luz avançava devagar, num salomónico de luzes suaves, que o levavam enleado em reflexos de rostos que conhecia mas de que se não lembrava.

Depois………... foi  o silêncio.

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Jornal Correio da Manhã do dia 24 de Dezembro.

Mais um grave acidente ceifou uma vida na flor da idade e deixou outra em estado muito grave.
João Gomes, um jovem de 23 anos, quando chegou ao Hospital já era cadáver, a sua esposa Laura Gomes está em observação com prognóstico muito reservado.
Segundo testemunhas do acidente, pode ter sido o excesso de velocidade e o estado do piso, devido ao mau tempo, os causadores do grave despiste que originou mais uma tragédia na véspera do Natal.
As autoridades pensam que............

               



terça-feira, 28 de maio de 2013

A Espera





Quatro da tarde, ou talvez mais, e as notícias são, apenas, um enorme silêncio.

Esta situação não era nova, já se vinha repetindo há muitas semanas, mas ela, continuava a acreditar que um dia o milagre ia acontecer.

Não tinha relógio, não a deixavam usar, mas pela posição do Sol, nas frestas das persianas, deviam ser quatro horas.

Talvez não fossem mas, na imaginação de Marta, deviam ser mesmo essas horas.

Ontem, quando aquele médico horrível, achava ela, a veio visitar a luz do Sol incidia da mesma maneira e eram quatro horas, ela ouviu a enfermeira Helena, ou talvez seja Filomena, dizer ao médico:

-Hoje veio cedo senhor doutor são só quatro horas! Ele resmungou, qualquer coisa, uma espécie de grunhido que ninguém percebeu, só a enfermeira Filomela - ou será Helena? - deve ter compreendido. Mas isso agora não interessa, é só para verem que embora todos pensem que está maluca, mas não está! Se estivesse doida não reparava para este pormenor do Sol nas persianas.

Foi no último domingo - ou seria no sábado? - que lhe disseram que vinha hoje. Mas mentiram, ou ele como de costume, mais uma vez, dizia uma coisa e fazia outro. Sempre foi assim, um belo rapaz, bom e amigo, mas muito esquecido.

Não valia a pena esperar mais, as persianas tinham escurecido.

  
 Se calhar estava a fazer confusão, não era hoje, é capaz de ser amanhã, estes comprimidos amarelos que a enfermeira Helena - ou será Filomena? - a obriga a engolir deixa-a um pouco esquecida.

Não tarda muito, metem na cama e fica à espera porque amanhã, tem  certeza, vem mesmo.

Tem que vir, tem que lhe explicar porque a meteu neste casarão! Sem nada, sem dinheiro, especada à espera, nem sabe bem do que.

Confessa que tem muitas saudades da sua casinha.

Gosta tanto de falar, um pouco, com a dona Gracinda - ou será Gracinha? - a cabeça não esta nada boa, são os comprimidos amarelos, podem ter  certeza que são. Já pensou fingir que os toma e deita-los fora, mas a enfermeira Filomena - ou será Helena? - obriga-a e ela é tão boazinha que não tem coragem de a enganar.

Amanhã, quando o Carlos a vier ver - vem de certeza! - é um bom menino, vai pedir-lhe para a levar para a sua casa, já está aqui há tanto tempo que começa a estar farta.

Este sono, vem assim de repente, quer abrir os olhos e não consegue, são os comprimidos amarelos, tem a certeza que são.

Vai dormir, quer acordar bonita para quando o Carlos chegar. Ele gosta tanto que a mãe se arranje e esteja assim linda!

****

A enfermeira foi ajeitar-lhe a roupa, olhou-a com carinho e suspirou:

-Pobre dona Marta, desde que o filho morreu, na naquele acidente de mota, ficou neste estado!





terça-feira, 21 de maio de 2013

O Padre









-Mamã gostas do senhor padre Isidoro?

-Gosto, é boa pessoa e muito amigo das  crianças.

-Sabes mamã que já tou chateada com ele?

-E porque Clarinha?

-É chato com os meninos! 

-Se calhar os meninos não se portam bem!

-Portam pois, portam-se muito bem mamã!

-Se se portam bem porque é que ele é chato?

-Está sempre com um ao colo e a gente não gosta de estar ali sentados.

-Nunca estão satisfeitos, quando a dona Otília dava a catequese,  diziam que era uma mal disposta. O senhor padre, porque as meninas se queixavam, tomou ele por sua conta essa tarefa e, agora é chato porque é carinhoso? Vocês não sabem o que querem, valha-me Deus!

********

O padre Isidoro apareceu, qual Dom Sebastião, numa nevoenta manhã de Novembro, o povo estava no adro da Igreja para o receber, com a solenidade e respeito que tão desejado personagem merecia.
Parecia dia de festa. A simpatia e delicadeza, do vigário, facilmente conquistaram os corações dos paroquianos, um pouco desiludidos com o padre Moreira que se acabou de reformar, rabugento, com preconceitos e incapaz de se adaptar a abertura da Igreja aos tempos modernos. Era um pouco inquisitorial, arreigado a princípios dogmáticos, sem compreender que a evolução faz parte da vida.

Foi uma autêntica revolução, a missa deixou aquela monotonia monocórdica, a guitarra acompanhava os cantos solenes, a juventude começou a animar as cerimónias.

A catequese, quase um castigo para as crianças, deixou de ser um momento tedioso. A catequista, dona Otília, foi mandada em paz.
Agora o padre Isidoro tomava a seu cargo essa missão.

O padre ensinava, fazia jogos, organizava passeios e mantinha um dinamismo que os miúdos adoravam. Só achavam que o padre era carinhoso demais e estrafegava os meninos, tornando-se chato.

******

Tinha começado o mês de Julho, muito calor e grande euforia.

A costureira, da aldeia, não tinha mãos a medir, os vestidos para as meninas que iam fazer a comunhão solene, tinham que ficar prontos. As mães andam num corrupio para os seus rebentos, poderem brilhar nos vestidos brancos, bordados.

O padre Isidoro juntou na Igreja todos, os que iam confirmar o baptismo, era preciso ensaiar a cerimónia, para tudo bater certo e para os meninos ficarem preparados e saberem os lugares a ocupar.

Correu bem, saíram da Igreja qual bando de pássaros, em alegre chilrada, a caminho das suas casas.

Começou a entardecer, dona Mafalda, começou a ficar preocupada, Clarinha já devia ter regressado do ensaio, eram cinco horas e ainda não apareceu.
Meteu os pés numas sandálias e foi a caminho da Igreja.
Estava fechada, bateu na porta da sacristia mas só o silencio lhe respondeu.

A preocupação começou a tomar conta do seu pensamento, não era a primeira vez que a rapariga lhe pregava uma partida desta. O ano passado, mais ou menos por esta altura, meteu-se a caminho da Coutada, com uma pequena caixa e a ideia de apanhar um grilo, para a gaiola que estava pendurada num prego da marquise.

Foi uma tarde de agastura, e quando a encontrou. não se aguentou sem lhe dar uma grande nalgada naquele rabo.

-É para aprenderes, gritou no desespero.

A noite estava a cair e o raio da rapariga sem aparecer, foi ao posto da guarda já lavada em lágrimas.
O sargento Acácio mandou uma patrulha ajudar os populares que se ofereceram para participar nas buscas.
Voltaram quando o Sol já tinha desaparecido, no horizonte, e a noite já ia caindo.

Na manhã seguinte, todos voltaram ao terreno. Vasculharam todos os recantos, não esqueceram a ribeira, que nesta altura do ano, estava quase seca, foi tudo em vão, nenhum sinal da Clarinha.

Nuvens negras começaram a povoar a cabeça daquela gente, o temor tomou conta de todos, o pior começou a pairar nos pensamentos.

Foi então que a voz de Mafalda ecoou no silêncio:

-Foi o padre, a minha filha bem me avisou e eu não a quis ouvir!

O povo agitou-se, olharam-se como se vissem pela primeira vez. Um sururu tomou a praça, os ânimos exaltaram-se e uma onda de homens, tisnados pelo sol, tomou o caminho da Igreja.
O sargento Acácio disparou um tiro, para o ar, e o povo, como por encanto, estacou.

-Mas afinal o que se passa aqui! Gritou a autoridade.

-Foi o padre, é pedófilo, senta as crianças no colo, foi ele, só pode ter sido ele! Gritou Mafalda.

O sargento olhou-a de alto a baixo, segurou-lhe o braço e perguntou:

-Tem alguma prova disso, ou quer ser cúmplice de um linchamento?

O povo acalmou e aos poucos foram abandonando a praça.

****

O padre foi investigado e ficou provado nada ter de suspeito, no dia do ensaio, saiu muito depois das crianças. Foi confirmado pelo sacristão e por alguns fiéis que estavam na Igreja, a Clarinha saiu para rua, com os restantes companheiros.

Ficou desgostoso, tão triste, incapaz de encarar quem tão mal o tratou. Fez a mala e desapareceu daquela terra sem vontade, sequer, de olhar para trás.

*****

Em Agosto, o Chico Brotoeja, um pobre diabo, meio lerdo, que passava os dias acomodado, num mocho, à porta da tasca do Basílio, lembrou-se de perguntar ao taberneiro:

-Oh mestre Basílio, porque será que o homem do carro azul nunca mais apareceu?

-Qual homem do carro azul? Perguntou, de maus modos, o taberneiro.

-O que foi casado com a dona Mafaldinha, a que mora nas casas do João da Nora!

-O divorciado que abalou para Lisboa? Inquiriu Basílio.

-Esse mesmo, mestre Basílio, esse mesmo! Gritou o Chico.

-Porra que ideia a tua! O homem vazou há anos e agora vens com essa do carro azul. Ele nem carro tinha!

-Não tinha mas agora tem! Eu vi-o outro dia quando levou a menina.

-Menina? Qual menina?

-Qual menina, qual menina! Qual menina havia de ser? A filha deles, a Clarinha!






terça-feira, 30 de abril de 2013

O Pai








Nunca lhe passou pela cabeça uma situação destas, era impossível pensar que agora aos 35 anos lhe queriam mudar a vida.

Viveu, quase sempre, numa espécie de miséria envergonhada, num misto do parece e do faz de conta.

As dificuldades eram imensas, as refeições eram um entremear de açordas e de sopas de feijão, durante o Inverno, e de gaspachos com um pedaço de conduto, durante o Verão.

Poupava em tudo, se é que não ter, se pode considerar poupar.
Banhos só de água fria e apenas um sabonete para desencardir as partes mais necessárias, a pasta de dentes tinha que servir, apenas, para tirar o sabor estranho da espuma do sabonete.

Na rua a aparência era importante, as pessoas avaliam a apresentação, era preciso parecer mesmo que isso fosse à custa de sacrifícios, imensos sacrifícios.

Tinha duas camisas, tão poidas, que mais pareciam uma frágil rede a cobrir o abaulado peito, já não as podia lavar, apenas as mergulhava suavemente na água e, sem esfregar, pendurava cuidadosamente na corda para que fossem escorrendo até secar.

A gravata, estampada, que a falecida madrinha, um ano, lhe ofereceu pelo Natal era uma boa protecção da fragilidade da camisa e, ao mesmo tempo, davam um certo ar de respeitabilidade.

Não que fosse necessário, pois sendo filho do saudoso mestre Malaquias já era o principio de consideração.

O pai foi um homem muito estimado, era o barbeiro e ao mesmo tempo regedor, tinha uma vida equilibrada até que a desgraça lhe caiu à porta e não aguentou. Um dia apareceu morto sentado numa cadeira de verga olhando o infinito. Dizem que foi de desgosto e, os mais afoitos, até, se atrevem a segredar que se deve ter envenenado, mas o doutor Gameiro passou a certidão de óbito com a ideia que foi um ataque cardíaco. Bom! Agora, que já lá está, não interessa conjecturar! A verdade é que o desgosto e a vergonha, de uma forma ou doutra, o levaram à morte tão novo, deixando a mulher e o rapaz numa penúria que faziam dó.

Foi numa invernosa tarde, de segunda-feira, que dois guardas apareceram, na modesta barbearia, e arrastaram para a vergonha o pobre regedor, acusado de algo que não fez e de que nem sequer sabia.

Dizem que foi o presidente da câmara que mandou, os guardas, deter o desgraçado, acusando-o de ter desviado as verbas que tinha mandado para arranjar a abobada da escola dos rapazes, que ameaçava cair a qualquer momento e quando a professora, Dona Laura, lembrou o presidente do perigo para as crianças este, na certeza de ter mandado as verbas há muito tempo, concluiu que o regedor se tinha apropriado daqueles contos de réis e, mandou os guardas deter o pobre e honesto Malaquias.

Quando o homem chegou ao posto, os próprios guardas o trataram com respeito, pois estavam convencidos que o barbeiro não era para o crime de que o acusavam e tinham razão, na desorganização da câmara, descobriram que afinal as verbas tinham ido para pagar umas melhorias na casa do senhor presidente.

Os guardas, caso inédito, pediram desculpa ao mestre Malaquias e mandaram o homem em paz. Ele foi, mas paz nunca mais a encontrou, a tristeza subiu no seu corpo como um arrepio de frio, o sorriso constante perdeu-o para sempre e os olhos pareciam lobrigar, apenas, um ponto distante. Sentou-se naquela cadeira, nunca mais segurou o filho nos joelhos naquelas brincadeiras, que os dois tanto gostavam, até que, numa tarde deu um suspiro tão fundo que todas as mágoas, desgostos e desilusões se fundiram com a luz da sua alma e abalaram para além do infinito. Morreu!

A mulher, dona Bebiana, deixou partir com o suspiro do marido, o gosto de viver e nunca mais disse coisa com coisa. Endoidou! Disseram os vizinhos.

O rapaz, na ingenuidade dos seus 11 anos, não compreendia o que se estava a passar, a dona Marcolina, na catequese dizia que havia um Deus justo e misericordioso, ajudava as crianças, protegia os mais fracos e recompensava os bons. O pai era dos melhores, a mãe era muito fraca e ele uma criança e Deus não fez nada disso, dona Marcolina não percebia dessas coisas ou andava a mentir às crianças.

Foi obrigado a crescer, deixou de ser menino para tratar da mãe que, nos momentos de lucidez, lhe afagava o rosto e, com um brilho bom nos olhos, dizia:

-Se não fosse o meu José que seria feito de mim! Depois sorria, olhava algo que mais ninguém via e ficava naquela letargia onde havia mergulhado.

A casa do povo, dentro das suas poucas possibilidades, deu à dona Bebiana uma pensão de 113 Euros, para amenizar a miséria que, de repente, caiu naquela casa.

Mas 113 Euros mal chegavam para os remédios da pobre viúva e José não tinha forças para trabalhos, mais, pesados por isso apenas ia ganhando umas moedas fazendo uns mandados.

Quando a mãe morreu as coisas que já estavam más ficaram muito piores. Estava no princípio do desespero, era difícil camuflar mais a desgraça que se tinha abatido sobre esta casa e, só a ajuda da vizinha dona Carlota conseguia mitigar um pouco a extrema miséria.

Foi no meio desse desespero que a notícia apareceu, de repente, como uma bomba que apenas se ouve quando já nos caiu em cima.
        *********

Mas voltemos 36 anos no tempo. Bebiana era uma moçoila de encher o olho, trigueira, peito farto e quadris que baloiçavam ao ritmo do andar, Malaquias era um moço mal-amanhado, magro, fartos cabelos negros espetados mas de uma simpatia que contagiava. Bebiana, quando ele a foi procurar, aceitou-o como namorado, era diferente dos outros que a assediavam porque era apetitosa e ele, Malaquias, queria casar.

Passado pouco tempo a alegria encheu a modesta casa, Bebiana estava grávida. Malaquias espalhou a notícia enquanto ia pagando uma rodada de copos aos amigos.

Coincidências? No dia em que completavam um ano de casados, José abrindo os olhos e a plenos pulmões anunciou a chegada.

É lindo disseram todos, só dona Mariquinhas se atreveu num pormenor que saltava à vista mas todas faziam por não notar.
Bebiana tinha cabelos negros como a noite, Malaquias também e o rapaz era ruivo.

-É como a minha tia Carolina, irmã de minha mãe que tal como a minha bisavó também era assim, dizia Bebiana!

Todos acreditaram, quase todos, embora para alguns era muita coincidência que um dos grandes amigos de Bebiana, médico veterinário, dono da herdade dos rouxinóis, casado com a professora Aurora, ter os cabelos da cor de uma cenoura acabada de colher e, muito mais confusão quando o veterinário e a professora foram os padrinhos do José.

Houve alguns falatórios mas o assunto acabou por morrer, embora quando a professora abalou deixando abandonado o marido, acusando-o de ter, ou de ter tido, outras mulheres entre elas a comadre fosse causa para mais falatórios, mas de pouca dura pois o veterinário era homem de muita influência e tantos dependiam do trabalho na herdade dos rouxinóis.
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Mas voltando ao princípio, hoje véspera de José fazer 35 anos, o doutor Toscano, ilustre advogado da herdade e dos proprietários, mandou-o chamar ao seu escritório.

-Assunto urgente! Disse o rapaz que trazia o recado.

José ficou em pânico, chamado ao doutor Toscano, ele que nunca fez mal a uma mosca. Lembrou logo o pai preso, acusado e arrastada como Cristo, com umas algemas, ao posto da guarda.

Apetecia-lhe chorar, pensava que possivelmente o iam prender por ser pobre, mas não tinha culpa pois já nasceu assim. Não sabia o que vestir, a roupa para andar na vila remediava mas, para tão ilustre visita, se calhar estava imprópria.

Mas era a que tinha! Esticou com o ferro o colarinho da camisa e alisou, um pouco, a gravata, escovou o melhor que soube o blusão.
Mirou-se ao velho espelho, já era da avó, não lhe pareceu má a figura, tinha uns olhos bonitos e o cabelo em reflexos ruivos, dispostos em argolinhas e cuidadosamente penteado.
Foi perguntar à vizinha se estava em condições de aparecer no escritório do advogado.

-Tas lindo José! Exclamou dona Carlota com um riso nos olhos.

Foi atendido por uma menina, toda jeitosa, ele já a tinha visto passar na rua, mas hoje parecia ainda mais vistosa.

A medo balbuciou:

-Boa tarde, venho para......bom....

-Eu sei, pode entrar o doutor atende já, disse a moça com um sorriso, que deixou as pernas do José a tremer.

A sala era enorme, cabia lá a sua casa com quintal e tudo. Tinha uma secretaria maior que a mesa de bilhar da sociedade e uns sofás, em pele castanha, que o atemorizavam. Tinha receio de se afundar.

O doutor Toscano era imponente, alto e com uma barriga maior que a da Rosa Periquita que estava prestes a ter o quinto filho. Era grande, estendeu-lhe uma mão enorme, deu um forte passou bem antes de se sentar atrás daquela enorme mesa.

Pegou numa pasta, de capa preta, folheou uns papéis. Pousou a pasta e firmou os dois cotovelos na secretária, abriu um sorriso enorme, parecia estar a ganhar coragem, mas acabou por começar:

-Sabe que eu estou a falar com um dos homens mais ricos desta vila?

José pensou que o homem tinha endoidado, como dizia dona Carlota, pois, bem, olhou para trás e não estava ninguém.

Lá se atreveu a responder:

-Sabe, senhor doutor, que não vim aqui para o senhor mangar comigo? Sou pobre, mas mereço ser respeitado como todos os outros.

-Calma amigo José! Calma! Exclamou o causídico. Não me entendeu bem! Estou a falar de si e para si! Depois de assinar uns documentos que lhe vou dar, vai tomar posse de todos os bens que era do nosso saudoso doutor Pedroso!

-Mas hoje tirou o dia para brincar comigo? Pergunto José.

-Tem razão! Disse o advogado. Vou explicar tudo. O doutor Pedroso era o seu padrinho e também o seu verdadeiro pai. Tenho toda a documentação que ele tratou, ainda, em vida para reconhecer a paternidade e deixar tudo ao filho, bem arrependido de não ter tido coragem de o fazer mais cedo. Só agora o fazia. Que Deus lhe tenha a alma em descanso!

José mordeu a língua para ter a certeza de estar acordado, a vida estava a dar uma volta, o Chico da Nora deu-lhe um emprego de ajudante de marceneiro, a ganhar 400 euros, ia começar no fim do mês e agora isto. Emprego, herdeiro e rico.

Pensou na vida e sentiu umas lágrimas no rosto, o advogado pensou em alegria, mas não, eram de raiva. Numa vida de 35 anos teve 11, apenas 11, de felicidade e 24 de infortúnio e miséria.

Em todos estes anos, teve falta de tudo e, o padrinho, em 35 Páscoas, nem uma simples amêndoa lhe ofereceu e de repente, quando sentiu que o tempo lhe faltava e que tudo o que tinha não o podia levar, aparece um testamento e uma paternidade.

Paternidade! Nem pensar, sempre foi filho do Malaquias Silva e não era agora que deixaria de ser.
Quem sabe até se a bisavó não era ruiva! A mãe jurava que sim, o pai acreditou e ele também acreditava.

O advogado parecia impaciente, José estava a sentir-se importante com essa impaciência.
-Sabe doutor! Exclamou por fim, sempre fui filho de um homem bom e vou continuar a ser. O nosso pai é o que nos cria e dá amor.

Não quero essa tal paternidade que nada me diz!

O advogado estava de olhos arregalados, transpirava e tentava manter a aparência. Por fim, com um sorriso postiço, continuou:

-Mas, meu caro José, a herança foi deixado em exclusividade ao filho, se não for para o filho fica para o estado, tem que assinar o documento da paternidade para poder tomar conta da herança!

José levantou-se, pela primeira vez, parecia seguro e determinado:

-Caro doutor, sempre fui pobre não vou estranhar a falta da herança, pode entrega-la aos porcos porque eu, FUI E VOU CONTINUAR A SER, filho do Malaquias da Silva, um homem bom.

Levantou-se e, sem se despedir, veio respirar o ar puro da rua.




quinta-feira, 11 de abril de 2013

Adeus Alex!








E foi assim, quase de repente, a tarde entristeceu, aquele olhar que nos hipnotizava o pensamento, deixou o brilho na tristeza de uma partida esperada, num abalar na procura doutro espaço, das estepes geladas, dos campos brancos onde a alma se liberta e o tempo pára.

Vamos sentir em cada canto, em cada pensamento, uma presença como se a verdade fosse apenas um sonho mau.

Sabes?
Agora, quando o teu olhar me fitava nesse vazio, o teu corpo se arrastava na nobreza da tua vontade e sentia, no teu pensamento, a impotência do querer e não conseguir, pensei muitas vezes que o fim devia chegar para puderes partir com a postura que o teu passado merecia. Não queria e mesmo agora penso que não é verdade, mas desejava que o sofrimento não fizesse parte do fim anunciado.

Hoje, na tristeza de uma tarde esquecida, o fim chegou.

Da vida todos sabemos um pouco, da morte ninguém conhece nada.

Quem sabe, Alex, quem sabe um dia não nos encontraremos por !


10 de Abril 2013

10 de Abril 2013

terça-feira, 2 de abril de 2013

Um milagre?








Vou fazer um pequeno interregno, volto em Maio. Vou sentir a vossa falta!

Era estranho, esquelético, com uns tiques que incomodavam.
Levantava o olho direito franzindo o canto da boca, fungava como um cheirador de rapé, e olhava as pessoas de través.

Diziam, os mais antigos, que foi um rapaz normal vítima de uma assombração, não obedeceu as regras do além e foi castigado por forças ocultas, mas isso era o que se dizia, um pouco, a medo. As pessoas tinham receio de falar em coisas que iam para além da sua própria imaginação, factos em que as forças do além se sobrepunham ao conhecimento das pessoas.
 Dona Inácia, na sabedoria dos seus 90 anos, contava que tudo tinha a ver com umas marcações de terras, parece que avô do Libório tinha desviado uns marcos e, de forma indevida, tomou para si terras que não lhe pertenciam, quando chegou a hora de se apresentar ao criador foi recambiado para desfazer o mal que tinha feito.

Uma tarde, continua dona Inácia, estava o pobre Libório agarrado à rabiça do arado, quando avô, qual alma penada, se lhe apresentou aparecido do nada, com voz cavernosa lhe ordenou a troca dos marcos.
 Obedeceu no medo que o tolhia e fez tudo o que lhe mandou sentindo um tremor que o inibia. Acabada a tarefa o avô, naquela voz do além, ordenou que enquanto ia desaparecendo não devia olhar para trás para nunca se arrepender. Mas o terror era tanto que o pobre rapaz apenas olhou de soslaio, o que enxergou ninguém sabe, apenas ficou como agora se vê, alheio, como se estivesse sem estar.

Anda pela aldeia por entre as gentes como se não fizesse parte delas, vagueia pelas ruas nos seus tiques, passando indiferente à caçoada dos rapazes, olha algo que, possivelmente, apenas ele vê.
****
Agosto quente, ainda agora se tinha levantado a manhã e já as pessoas andam num desconforto de roupas coladas ao corpo, com uma vontade enorme de se encostarem no agradável trabalho de não fazer nada.

Mas é apenas vontade, pois o dever chama e há muito que labutar.
Todos têm que dar a sua ajuda, no sábado começam as festas em honra da padroeira e, os filhos da terra, começam a alegrar as ruas, com as falsas pronúncias de um francês com sotaque transmontano.

Chegam em carros que regalam a vista e dão aquele ar de prosperidade, que por vezes, não passa de um faz de conta, num carro alugado para esconder as dificuldades que sentem no dia-a-dia.

Nas tabernas as malgas do verde, matam a secura que o calor deixa na garganta e, com alegre verborreia, entoam de forma ensurdecedora.

No largo da Igreja, o som dos martelos ultimavam o palanque onde iriam desfilar todas as atracções, guardadas, para dar brilho às festividades.

Sábado, logo pela manhã, o troar dos foguetes anunciavam aos quatro cantos da aldeia, o início de uma semana de folguedo, musica, bailes, cantares, largada de vacas e, a culminar, a procissão que iria dar o toque religioso para os pagadores das promessas pelas graças recebidas.

Á tarde o largo regurgitava, não havia espaço para mais ninguém, Libório parecia alheio, mas tinha garantido um lugar na fila da frente. O olhar distante parecia procurar algo que estava para além da imaginação, não soltava uma palavra, não mostrava qualquer afecto, estava ali como se não estivesse.

O mestre da banda, com a batuta, deu umas pancadas na estante da pauta, os músicos alinharam os instrumentos de forma, quase, cerimoniosa. O mestre do alto do seu poiso, olhou os seus músicos e sentiu o nervosismo dos mais novos, com um leve sorriso deixou a mensagem, era hora de começar.

Primeiro os violinos naquele melodioso lamento, depois os metais encheram a praça de magia, os acordes tomaram conta dos sentidos e a emoção encheu os ares, apoderou-se de todos e conseguiu, com o fascínio da música, passar despercebida as limitações destes amadores.

Quando a banda silencio algumas lágrimas bailavam nalguns olhos mas o milagre deu-se depois.

Libório que há cinco longos anos não botava uma palavra, que passava os dias num alheamento total, num quase autismo, saltou de repente, bateu as palmas, olhou o mestre e gritou:

-Mais uma vez, toquem mais uma vez!

****

Hoje, os mais cépticos, dizem que foi a magia da música.
Os outros, dizem que foi um milagre da santa padroeira



sexta-feira, 22 de março de 2013

In illo tempore






Já vão passados trinta anos mas raro é o dia em que as recordações não me atormentam. Não porque me sinta responsável mas, mais, por não ter tido talento para resolver aquele estranho caso. 

A justiça divina, na altura própria, foi-se encarregando de dar seguimento, ao que os homens não conseguiram. 

Todos os protagonistas já fazem parte do passado, apenas resto eu, possivelmente, fui poupado para poder dar a conhecer tudo o que aconteceu naquele tempo.

*****
Foi numa tarde de inverno, o tempo estava seco, mas o frio era muito, quando fomos chamados aquele, luxuoso, apartamento no bairro da Lapa.

Estávamos habituados a cenários onde a violência deixa marcas, mas este era diferente, a violência era implícita, não se via mas estava tão presente, que se sentia.

A idosa estava num sofá, tinha um feio buraco negro na testa, a roupa rasgada deixava à vista uma mama velha, encardida e pendente. como um trapo molhado. Os olhos, vítreos, deixavam ver, ainda, uma expressão de terror.

A sala, luxuosa, mobilada num estilo clássico, mostrava gavetas desarrumadas e os conteúdos espalhados pelo chão.

Eu e o meu colega, agente Meireles, fomos destacados para este caso, que se afigurava difícil.
Mesmo, muito difícil!

A vítima era uma conhecida figura da sociedade, mulher de muitos amores e desamores, segredos e alguns escândalos à mistura.

Tinha 73 anos e estava a sair de um casamento controverso com um jovem 43 anos mais novo, acusando-o de infidelidade com uma jovem, empregada dum SPA, que costumavam frequentar.

Os peritos da criminologia fizeram uma busca minuciosa na procura de pistas e indícios, fotografaram o que havia para registar, procuraram impressões digitais, muito embora, naquela época a dermatoglifia não tivesse o mesmo alcance de hoje.

A desarrumação era total, mas não deram pela falta de nada, dava a impressão que o assassino procurou algo, que não se sabia se encontrou.

Agora havia um árduo trabalho em interrogar, todos, os que na nossa óptica, pudessem ser suspeitos.

******

Acabei o curso de direito, curso que fiz quase por imposição familiar, o meu pai era advogado e todos me marcaram, tinha também que ser advogado. Nunca me imaginei num gabinete e, quando tive a possibilidade de concorrer à polícia não hesitei, fui em frente e a minha licenciatura foi um factor determinante.

Comecei em trabalho de gabinete, mas não tardou estava, onde queria, no terreno.

Muitos casos se tinham deparado no nosso caminho mas este, tinha todos os ingredientes para se tornar, quase um acontecimento, havia motivos passionais, invejas, herdeiros desesperados pela seu quinhão e, ódios. Muitos ódios!

A Dona Josefa Malapico, assim se chamava a defunta, não era flor que se cheirasse. Habituada a uma vida de ociosidade e ostentação, considerava-se o centro de um mundo onde todos os outros, eram peças secundarias.

Esperámos o resultado da autópsia e para nossa surpresa a morte tinha sido causada por asfixia, alguém lhe tinha colocado uma almofada na cara, depois encenaram a violência, terminando com um tiro, de ódio, à queima-roupa, no cadáver.

A morte deve ter ocorrido entre as três e as seis horas da madrugada.



A lista de suspeitos era enorme e tivemos que estabelecer prioridades, embora na nossa mente o ex-marido da vítima, Samuel, estava na fila da frente.

Havia, naturalmente, Elisa a empregada do SPA, o sobrinho e a sobrinha, a secretária, as duas empregadas da casa e o motorista.

O primeiro a ser interrogado foi o viúvo. Era o maior beneficiado, herdeiro e, único, candidato a receber um milhão, do seguro da vítima.

Estivemos duas horas à volta dele, jurava que desde que a mulher o expulsou não tinha voltado a casa, ela tinha-o proibido, apenas lhe telefonou duas vezes e estava convencido que o ia perdoar e aceitar de volta, aquela coisa com a Elisa foi uma fraqueza, ele gostava da mulher, não dizia que havia amor, era difícil mas tratava-a bem, dava-lhe respeitabilidade, carinho e protecção.
Desde que estava separado, ficava no seu apartamento de solteiro. Não tinha testemunhas, dormia sozinho.
Na noite anterior, dizia, tinha ido a uma pizzeria, depois para casa, viu um filme na televisão, não se recordava do nome, adormeceu no sofá até cerca das 3 horas e só depois foi para cama, teve conhecimento do acontecido quando a empregada, a Susete, telefonou a contar a grande desgraça.

Não acreditámos em muito do que nos relatou e agora teríamos que tentar confirmar, ou contrariar, tudo o que nos disse.

Também podia ser verdade, o que nos contou, e ter um cúmplice a quem tenha encomendado o trabalho. Mas havia um pormenor que contrariava essa hipótese, este crime tinha indícios de ódio e um assassinato por encomenda, em regra, era feito de forma simples.

As duas empregadas tinham saído à hora habitual, oito da noite, e regressado, como todos, os dias às 10 da manhã.

Rosa foi directa à cozinha aprontar o pequeno-almoço da senhora, enquanto Susete foi preparar a mesa, foi aí que se lhe deparou tamanha desgraça.
Chamou a colega, telefonou para a polícia e para o senhor Samuel.
As duas deixaram de ser suspeitas, os seus álibis eram perfeitos, tinham estado nas suas casas com os maridos e filhos.
O motorista nunca foi suspeito, estava há cinco dias no hospital, operado a uma hérnia discal.

Falamos com a secretaria, ia duas vezes por semana reunir, com a dona Josefa, estabeleciam as prioridades, escolhiam e confirmavam os convites para os diversos eventos. 
Nada levava a desconfiar, pensavam reunir nesse dia, às 16 horas, tinha falado com a senhora na véspera por volta das 17 horas a confirmar e não notou, na dona Josefa, qualquer alteração.

Passou a noite em casa o que foi confirmado pelos pais e irmãos. 

Restava interrogar a presumível amante do Samuel e os dois sobrinhos.

A empregada do SPA, jurou que nunca teve qualquer intimidade com o senhor Samuel, apenas as massagens a que tinha direito.
Sabia que ele dizia que sim, mas era mentira, ele bem tentou mas ela nunca lhe deu azo.

Tinha, confessava, ódio a dona Zefa, não tinha pena do que lhe aconteceu, era uma mulher má e possessiva, tinha conseguido que a despedissem do gabinete com o escândalo que arranjou a acusá-la, de andar a desviar os maridos das outras. Mas Deus fez justiça!

Tinha provas e confirmamos, passou a noite em casa com o namorado.

Faltavam os sobrinhos, filhos de uma irmã e de um cunhado, da dona Josefa, falecidos num acidente de viação.
Marcelo era o mais velho, rapaz de muitas tatuagens e piercings. Trabalhava numa loja de informática, não via a tia há mais de um ano e não lhe tinha qualquer amizade, não estava à espera de ajudas ou heranças da megera.

Prometeu à irmã, na hora das morte, ajudar e proteger os sobrinhos mas foi apenas uma promessa que nunca cumpriu, se não fossem os avós paternos teriam sido criados ao Deus dará.
Para ele, não fazia parte da família.

Vivia na outra margem com uma companheira, apanhou a camioneta das 20 horas, os parceiros habituais de viagem podiam confirmar, assim como a namorada e os vizinhos.
E, era verdade, batia tudo certo!

Por fim ouvimos a sobrinha, Eulália, moça muito cativante, sorrido sedutor e de palavra fácil.
Adorava, dizia ela, a tia Zefa porque era uma mulher de muita visibilidade, muitos conhecimentos e que conseguia abrir algumas portas. Tinha-lhe prometido um casting, tinha a certeza que lhe ia conseguir o acesso a uma carreira. Sim, tinha a certeza, que a tia lhe ia conseguir um papel numa novela.
Era verdade que teve uma discussão, com ela, quando soube que ia casar com aquele tipo de 30 anos, um aproveitador da fragilidade de uma mulher de 73 anos.

Mas foi uma coisa de momento e até foi a única pessoa da família que esteve na cerimónia, embora confrangedora, um jovem bonito, cheio de energia a casar com uma mulher onde as plásticas já não conseguiam disfarçar a erosão do tempo.

Mas se a tia era feliz, ela tinha que apoiar, pois queria o que fosse melhor.
Tinha passado, como sempre, a noite em casa.
Tinha que se deitar cedo para manter a frescura do rosto, a beleza tem que se cultivar.

Além disso, perguntou:

-Acha que uma pessoa frágil, como eu, conseguia sufocar alguém na cama e depois carrega-la para um sofá para lhe dar um tiro? Isso é trabalho para um homem e forte.

*****

Fizemos o nosso trabalho, transcrevemos os interrogatórios, as diligencias, as confirmações possíveis e entregamos o nosso trabalho mas, sempre, tive uma sensação de que algo não batia certo.

Bem! Depois, os advogados e os juízes, iriam esmiuçar e tirar conclusões.

****

O processo levou anos a ir a julgamento, entre adiamentos, recursos e todas aquelas habilidades dos causídicos arrastou-se por três longos e penosos invernos.

Samuel, dado a fragilidade das provas, foi condenado apenas a sete anos de prisão.
Cumpriu dois, um dia foi encontrado, na cela, enforcado com um pedaço de tecido enrolado como se fosse uma corda.

Morreu sem nunca admitir culpa, sempre gritou a sua inocência.


***

Vão passados trinta anos, o meu colega Simões já não faz parte deste mundo, um aneurisma levou-o aos 53 anos.

Eu estou reformado há três meses, mas este caso de "a morte da jet-set", como nós o baptizamos, tem-me perseguido todo este tempo.

Sim! Só agora que o tempo passa por mim, sem eu ter onde o gastar, é que se fez luz no meu espirito.

Agora que tudo prescreveu e que o bom Deus já se encarregou, com a justiça divina, numa “overdose” de heroína eu descobri que Eulalia, tinha sido o carrasco da tia Josefa.

Nunca dissemos, em nenhum relatório constava, por isso só quem estivesse implicado podia saber.

Lembram-se da frase "Acha que uma pessoa frágil, como eu, conseguia sufocar alguém na cama e depois, carrega-la para um sofá para lhe dar um tiro?"
Só quem estivesses implicado o podia saber.

Logo, foi ela, só ou com ajuda, mas foi ela a criminosa!