Há
muitos dias que a ideia lhe bailava na cabeça, era um pouco estranha mas
era uma ideia que ia crescendo. Primeiro surgiu quase por acaso, foi um pensamento
subtil, quase tímido mas cresceu e agora fazia parte do seu quotidiano.
Tentava pensar numa solução e, por mais voltas que desse à cabeça, não
lobrigada uma maneira de se libertar. Por vezes até parecia gostar da situação,
tal o amorfismo e um certo deixa andar, como se o tempo, que tudo resolve,
pudesse vir em seu auxílio.
De repente, foi como se uma luz se tivesse acendido no seu cérebro, um fogacho
e a ideia instalou-se como uma lapa. Primeiro devagarinho, para ganhar espaço,
depois grudou de tal forma que parecia fazer parte da própria cabeça.
****
Ao princípio
não se importou muito, pareceu-lhe quase natural mas, com o decorrer do tempo,
uma certa estranheza foi-se instalando, não era normal, depois de um namoro romântico,
de palavras doces sussurradas em surdina, veio um casamento que parecia
abençoado.
Depois
esta violência. Primeiro eram as palavras ladradas em frases cruéis, a ausência
dos carinhos, depois os sopapos que doíam mais na alma que no corpo.
A
alegria morreu no medo da companhia, antes tão desejada.
As
noites eram pesadelos sofridos nos bafos de vinho ordinário, numa entrega,
ausente, de corpo massacrado num uso de afecto forçada.
Depois os interregnos, curtos, muito curtos, de arrependimentos que morriam no
saciar dos desejos.
Não
queria mais nódoas negras, nem cremes para as disfarçar, não queria mais
desculpas para esconder o que todos já sabiam.
Ia perder o medo, afinal já tinha morrido há tanto tempo que se morresse, mais
uma vez, não ia notar, mesmo nada.
*****
Pensou em tantas coisas que já estava baralhada, imaginou acabar com a raça do
gajo ou cortar-lhe, algo, com a tesoura de podar. Havia riscos, se lhe acabasse
com a existência ia presa, se lhe cortasse, aquilo, corria o risco de ele
acordar e então, havia um cadáver mas não seria o dele.
Estava
confusa, no fundo ainda sentia algo por ele, não sabia bem o quê, mas sentia.
*****
De verdade,
ainda gostava dele.
Talvez as
coisas pudessem mudar.
Mais
uma oportunidade. Afinal, ele, não era assim!
Tentou
abrir os olhos mas, a dor aguda que o percorria, apenas lhe deixou entrar uma
confusão de luzes, barulhos e sons que não conseguia compreender. Havia uma
espiral de claridades azul, girândola que lhe atravessava as pálpebras
cerradas.
Queria falar
mas as palavras ficavam perdidas num emaranhado de confusão, que não sabia
explicar.
Não
sentia o corpo, estava leve, num levitar doce e tranquilo.
Viu o
pai, chamava-o de joelhos na areia molhada da praia. Correu para os braços,
fortes, que abraçaram com amor o seu corpo ainda tão frágil.
Era tão
criança a correr, atrás da bola que o pai atirou para longe. Correu molhando os
pés na água que se espraiava na areia.
Ao
longe a mãe sorria.
Viu-se
a receber o canudo da formatura, a mãe tinha os olhos molhados das lágrimas, de
satisfação, pelo seu menino. A Laura, estava ao lado e, sorria com
tanto amor, que lhe apetecia deixar a formatura e correr para os seus braços e,
beijá-la com todo o amor que sentia.
Lembrou
o dia do casamento, sentiu-se ridículo naquele trajo de cerimónia. A Laura
estava deslumbrante, tão radiosa.
Sentiu-se
a levitar, numa doçura e, numa tranquilidade como nunca sentira antes.
Era uma
música diferente, sons que nunca antes escutara, uma harmonia, que o embalava
como se flutuasse num mar de pétalas perfumadas.
A luz
avançava devagar, num salomónico de luzes suaves, que o levavam enleado em
reflexos de rostos que conhecia mas de que se não lembrava.
Depois………...
foi o silêncio.
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Jornal
Correio da Manhã do dia 24 de Dezembro.
Mais um
grave acidente ceifou uma vida na flor da idade e deixou outra em estado muito
grave.
João
Gomes, um jovem de 23 anos, quando chegou ao Hospital já era cadáver, a sua
esposa Laura Gomes está em observação com prognóstico muito reservado.
Segundo
testemunhas do acidente, pode ter sido o excesso de velocidade e o estado do
piso, devido ao mau tempo, os causadores do grave despiste que originou mais
uma tragédia na véspera do Natal.
Quatro
da tarde, ou talvez mais, e as notícias são, apenas, um enorme silêncio.
Esta situação não era nova, já se vinha repetindo há muitas semanas, mas ela,
continuava a acreditar que um dia o milagre ia acontecer.
Não tinha relógio, não a deixavam usar, mas pela posição do Sol, nas frestas
das persianas, deviam ser quatro horas.
Talvez
não fossem mas, na imaginação de Marta, deviam ser mesmo essas horas.
Ontem, quando aquele médico horrível, achava ela, a veio visitar a luz do Sol incidia
da mesma maneira e eram quatro horas, ela ouviu a enfermeira Helena, ou talvez
seja Filomena, dizer ao médico:
-Hoje veio cedo senhor doutor são só quatro horas! Ele resmungou, qualquer
coisa, uma espécie de grunhido que ninguém percebeu, só a enfermeira Filomela -
ou será Helena? - deve ter compreendido. Mas isso agora não interessa, é só
para verem que embora todos pensem que está maluca, mas não está! Se estivesse doida
não reparava para este pormenor do Sol nas persianas.
Foi no último domingo - ou seria no sábado? - que lhe disseram que vinha hoje.
Mas mentiram, ou ele como de costume, mais uma vez, dizia uma coisa e fazia
outro. Sempre foi assim, um belo rapaz, bom e amigo, mas muito esquecido.
Não valia a pena esperar mais, as persianas tinham escurecido.
Se calhar estava a fazer confusão, não era
hoje, é capaz de ser amanhã, estes comprimidos amarelos que a enfermeira Helena
- ou será Filomena? - a obriga a engolir deixa-a um pouco esquecida.
Não tarda muito, metem na cama e fica à espera porque amanhã, tem
certeza, vem mesmo.
Tem que vir, tem que lhe explicar porque a meteu neste casarão! Sem nada, sem
dinheiro, especada à espera, nem sabe bem do que.
Confessa que tem muitas saudades da sua casinha.
Gosta tanto de falar, um pouco, com a dona Gracinda - ou será Gracinha? - a
cabeça não esta nada boa, são os comprimidos amarelos, podem ter certeza
que são. Já pensou fingir que os toma e deita-los fora, mas a enfermeira
Filomena - ou será Helena? - obriga-a e ela é tão boazinha que não tem coragem
de a enganar.
Amanhã, quando o Carlos a vier ver - vem de certeza! - é um bom menino, vai
pedir-lhe para a levar para a sua casa, já está aqui há tanto tempo que começa
a estar farta.
Este sono, vem assim de repente, quer abrir os olhos e não consegue, são os
comprimidos amarelos, tem a certeza que são.
Vai dormir, quer acordar bonita para quando o Carlos chegar. Ele gosta tanto
que a mãe se arranje e esteja assim linda!
****
A enfermeira foi ajeitar-lhe a roupa, olhou-a com carinho e suspirou:
-Pobre
dona Marta, desde que o filho morreu, na naquele acidente de mota, ficou neste
estado!
-Está
sempre com um ao colo e a gente não gosta de estar ali sentados.
-Nunca
estão satisfeitos, quando a dona Otília dava a catequese, diziam que era
uma mal disposta. O senhor padre, porque as meninas se queixavam, tomou ele por
sua conta essa tarefa e, agora é chato porque é carinhoso? Vocês não sabem o que
querem, valha-me Deus!
********
O padre Isidoro apareceu, qual Dom Sebastião, numa nevoenta manhã de Novembro, o
povo estava no adro da Igreja para o receber, com a solenidade e respeito que
tão desejado personagem merecia.
Parecia
dia de festa. A simpatia e delicadeza, do vigário, facilmente conquistaram os
corações dos paroquianos, um pouco desiludidos com o padre Moreira que se
acabou de reformar, rabugento, com preconceitos e incapaz de se adaptar a
abertura da Igreja aos tempos modernos. Era um pouco inquisitorial, arreigado a
princípios dogmáticos, sem compreender que a evolução faz parte da vida.
Foi uma autêntica revolução, a missa deixou aquela monotonia monocórdica, a
guitarra acompanhava os cantos solenes, a juventude começou a animar as
cerimónias.
A
catequese, quase um castigo para as crianças, deixou de ser um momento tedioso.
A catequista, dona Otília, foi mandada em paz.
Agora o
padre Isidoro tomava a seu cargo essa missão.
O padre ensinava, fazia jogos, organizava passeios e mantinha um dinamismo que
os miúdos adoravam. Só achavam que o padre era carinhoso demais e estrafegava
os meninos, tornando-se chato.
******
Tinha começado o mês de Julho, muito calor e grande euforia.
A costureira, da aldeia, não tinha mãos a medir, os vestidos para as meninas
que iam fazer a comunhão solene, tinham que ficar prontos. As mães andam num
corrupio para os seus rebentos, poderem brilhar nos vestidos brancos, bordados.
O padre Isidoro juntou na Igreja todos, os que iam confirmar o baptismo,
era preciso ensaiar a cerimónia, para tudo bater certo e para os meninos
ficarem preparados e saberem os lugares a ocupar.
Correu bem, saíram da Igreja qual bando de pássaros, em alegre chilrada, a
caminho das suas casas.
Começou a entardecer, dona Mafalda, começou a ficar preocupada, Clarinha já
devia ter regressado do ensaio, eram cinco horas e ainda não apareceu.
Meteu os pés numas sandálias e foi a caminho da Igreja.
Estava fechada, bateu na porta da sacristia mas só o silencio lhe respondeu.
A preocupação começou a tomar conta do seu pensamento, não era a primeira vez
que a rapariga lhe pregava uma partida desta. O ano passado, mais ou menos por
esta altura, meteu-se a caminho da Coutada, com uma pequena caixa e a ideia de
apanhar um grilo, para a gaiola que estava pendurada num prego da marquise.
Foi uma tarde de agastura, e quando a encontrou. não se aguentou sem lhe dar
uma grande nalgada naquele rabo.
-É para
aprenderes, gritou no desespero.
A noite estava a cair e o raio da rapariga sem aparecer, foi ao posto da guarda
já lavada em lágrimas.
O sargento Acácio mandou uma patrulha ajudar os populares que se ofereceram
para participar nas buscas.
Voltaram quando o Sol já tinha desaparecido, no horizonte, e a noite já ia
caindo.
Na manhã seguinte, todos voltaram ao terreno. Vasculharam todos os recantos,
não esqueceram a ribeira, que nesta altura do ano, estava quase seca, foi tudo
em vão, nenhum sinal da Clarinha.
Nuvens negras começaram a povoar a cabeça daquela gente, o temor tomou conta de
todos, o pior começou a pairar nos pensamentos.
Foi então que a voz de Mafalda ecoou no silêncio:
-Foi o padre, a minha filha bem me avisou e eu não a quis ouvir!
O povo agitou-se, olharam-se como se vissem pela primeira vez. Um sururu tomou
a praça, os ânimos exaltaram-se e uma onda de homens, tisnados pelo sol, tomou
o caminho da Igreja.
O
sargento Acácio disparou um tiro, para o ar, e o povo, como por encanto,
estacou.
-Mas afinal o que se passa aqui! Gritou a autoridade.
-Foi o
padre, é pedófilo, senta as crianças no colo, foi ele, só pode ter sido ele!
Gritou Mafalda.
O sargento olhou-a de alto a baixo, segurou-lhe o braço e perguntou:
-Tem
alguma prova disso, ou quer ser cúmplice de um linchamento?
O povo acalmou e aos poucos foram abandonando a praça.
****
O padre
foi investigado e ficou provado nada ter de suspeito, no dia do ensaio, saiu
muito depois das crianças. Foi confirmado pelo sacristão e por alguns fiéis que
estavam na Igreja, a Clarinha saiu para rua, com os restantes companheiros.
Ficou desgostoso, tão triste, incapaz de encarar quem tão mal o tratou. Fez a
mala e desapareceu daquela terra sem vontade, sequer, de olhar para trás.
*****
Em Agosto, o Chico Brotoeja, um pobre diabo, meio lerdo, que passava os dias
acomodado, num mocho, à porta da tasca do Basílio, lembrou-se de perguntar ao
taberneiro:
-Oh mestre Basílio, porque será que o homem do carro azul nunca mais apareceu?
-Qual
homem do carro azul? Perguntou, de maus modos, o taberneiro.
-O que foi casado com a dona Mafaldinha, a que mora nas casas do João da Nora!
-O
divorciado que abalou para Lisboa? Inquiriu Basílio.
-Esse mesmo, mestre Basílio, esse mesmo! Gritou o Chico.
-Porra que ideia a tua! O homem vazou há anos e agora vens com essa do carro
azul. Ele nem carro tinha!
-Não
tinha mas agora tem! Eu vi-o outro dia quando levou a menina.
-Menina?
Qual menina?
-Qual
menina, qual menina! Qual menina havia de ser? A filha deles, a Clarinha!
Nunca
lhe passou pela cabeça uma situação destas, era impossível pensar que agora aos
35 anos lhe queriam mudar a vida.
Viveu, quase sempre, numa espécie de miséria envergonhada, num misto do parece
e do faz de conta.
As dificuldades eram imensas, as refeições eram um entremear de açordas e de
sopas de feijão, durante o Inverno, e de gaspachos com um pedaço de conduto,
durante o Verão.
Poupava em tudo, se é que não ter, se pode considerar poupar.
Banhos
só de água fria e apenas um sabonete para desencardir as partes mais
necessárias, a pasta de dentes tinha que servir, apenas, para tirar o sabor
estranho da espuma do sabonete.
Na rua a aparência era importante, as pessoas avaliam a apresentação, era
preciso parecer mesmo que isso fosse à custa de sacrifícios, imensos
sacrifícios.
Tinha duas camisas, tão poidas, que mais pareciam uma frágil rede a cobrir o
abaulado peito, já não as podia lavar, apenas as mergulhava suavemente na água
e, sem esfregar, pendurava cuidadosamente na corda para que fossem escorrendo
até secar.
A gravata, estampada, que a falecida madrinha, um ano, lhe ofereceu pelo Natal
era uma boa protecção da fragilidade da camisa e, ao mesmo tempo, davam um
certo ar de respeitabilidade.
Não que fosse necessário, pois sendo filho do saudoso mestre Malaquias já era o
principio de consideração.
O pai foi um homem muito estimado, era o barbeiro e ao mesmo tempo regedor,
tinha uma vida equilibrada até que a desgraça lhe caiu à porta e não aguentou.
Um dia apareceu morto sentado numa cadeira de verga olhando o infinito. Dizem
que foi de desgosto e, os mais afoitos, até, se atrevem a segredar que se deve
ter envenenado, mas o doutor Gameiro passou a certidão de óbito com a ideia que
foi um ataque cardíaco. Bom! Agora, que já lá está, não interessa conjecturar!
A verdade é que o desgosto e a vergonha, de uma forma ou doutra, o levaram à
morte tão novo, deixando a mulher e o rapaz numa penúria que faziam dó.
Foi numa invernosa tarde, de segunda-feira, que dois guardas apareceram, na
modesta barbearia, e arrastaram para a vergonha o pobre regedor, acusado de
algo que não fez e de que nem sequer sabia.
Dizem que foi o presidente da câmara que mandou, os guardas, deter o desgraçado,
acusando-o de ter desviado as verbas que tinha mandado para arranjar a abobada
da escola dos rapazes, que ameaçava cair a qualquer momento e quando a
professora, Dona Laura, lembrou o presidente do perigo para as crianças este,
na certeza de ter mandado as verbas há muito tempo, concluiu que o regedor se
tinha apropriado daqueles contos de réis e, mandou os guardas deter o pobre e
honesto Malaquias.
Quando o homem chegou ao posto, os próprios guardas o trataram com respeito,
pois estavam convencidos que o barbeiro não era para o crime de que o acusavam
e tinham razão, na desorganização da câmara, descobriram que afinal as verbas
tinham ido para pagar umas melhorias na casa do senhor presidente.
Os guardas, caso inédito, pediram desculpa ao mestre Malaquias e mandaram o
homem em paz. Ele foi, mas paz nunca mais a encontrou, a tristeza subiu no seu
corpo como um arrepio de frio, o sorriso constante perdeu-o para sempre e os
olhos pareciam lobrigar, apenas, um ponto distante. Sentou-se naquela cadeira,
nunca mais segurou o filho nos joelhos naquelas brincadeiras, que os dois tanto
gostavam, até que, numa tarde deu um suspiro tão fundo que todas as mágoas,
desgostos e desilusões se fundiram com a luz da sua alma e abalaram para além
do infinito. Morreu!
A mulher, dona Bebiana, deixou partir com o suspiro do marido, o gosto de viver
e nunca mais disse coisa com coisa. Endoidou! Disseram os vizinhos.
O rapaz, na ingenuidade dos seus 11 anos, não compreendia o que se estava a
passar, a dona Marcolina, na catequese dizia que havia um Deus justo e
misericordioso, ajudava as crianças, protegia os mais fracos e recompensava os
bons. O pai era dos melhores, a mãe era muito fraca e ele uma criança e Deus
não fez nada disso, dona Marcolina não percebia dessas coisas ou andava a
mentir às crianças.
Foi obrigado a crescer, deixou de ser menino para tratar da mãe que, nos
momentos de lucidez, lhe afagava o rosto e, com um brilho bom nos olhos, dizia:
-Se não fosse o meu José que seria feito de mim! Depois sorria, olhava algo que
mais ninguém via e ficava naquela letargia onde havia mergulhado.
A casa do povo, dentro das suas poucas possibilidades, deu à dona Bebiana uma
pensão de 113 Euros, para amenizar a miséria que, de repente, caiu naquela
casa.
Mas 113 Euros mal chegavam para os remédios da pobre viúva e José não tinha
forças para trabalhos, mais, pesados por isso apenas ia ganhando umas moedas
fazendo uns mandados.
Quando a mãe morreu as coisas que já estavam más ficaram muito piores. Estava
no princípio do desespero, era difícil camuflar mais a desgraça que se tinha
abatido sobre esta casa e, só a ajuda da vizinha dona Carlota conseguia mitigar
um pouco a extrema miséria.
Foi no meio desse desespero que a notícia apareceu, de repente, como uma bomba
que apenas se ouve quando já nos caiu em cima.
*********
Mas voltemos 36 anos no tempo. Bebiana era uma moçoila de encher o olho,
trigueira, peito farto e quadris que baloiçavam ao ritmo do andar, Malaquias
era um moço mal-amanhado, magro, fartos cabelos negros espetados mas de uma
simpatia que contagiava. Bebiana, quando ele a foi procurar, aceitou-o como
namorado, era diferente dos outros que a assediavam porque era apetitosa e ele,
Malaquias, queria casar.
Passado pouco tempo a alegria encheu a modesta casa, Bebiana estava grávida.
Malaquias espalhou a notícia enquanto ia pagando uma rodada de copos aos
amigos.
Coincidências? No dia em que completavam um ano de casados, José abrindo os
olhos e a plenos pulmões anunciou a chegada.
É lindo disseram todos, só dona Mariquinhas se atreveu num pormenor que saltava
à vista mas todas faziam por não notar.
Bebiana tinha cabelos negros como a noite, Malaquias também e o rapaz era
ruivo.
-É como a minha tia Carolina, irmã de minha mãe que tal como a minha bisavó
também era assim, dizia Bebiana!
Todos acreditaram, quase todos, embora para alguns era muita coincidência que
um dos grandes amigos de Bebiana, médico veterinário, dono da herdade dos
rouxinóis, casado com a professora Aurora, ter os cabelos da cor de uma cenoura
acabada de colher e, muito mais confusão quando o veterinário e a professora
foram os padrinhos do José.
Houve alguns falatórios mas o assunto acabou por morrer, embora quando a
professora abalou deixando abandonado o marido, acusando-o de ter, ou de ter
tido, outras mulheres entre elas a comadre fosse causa para mais falatórios,
mas de pouca dura pois o veterinário era homem de muita influência e tantos
dependiam do trabalho na herdade dos rouxinóis.
**********
Mas voltando ao princípio, hoje véspera de José fazer 35 anos, o doutor
Toscano, ilustre advogado da herdade e dos proprietários, mandou-o chamar ao
seu escritório.
-Assunto urgente! Disse o rapaz que trazia o recado.
José
ficou em pânico, chamado ao doutor Toscano, ele que nunca fez mal a uma mosca.
Lembrou logo o pai preso, acusado e arrastada como Cristo, com umas algemas, ao
posto da guarda.
Apetecia-lhe chorar, pensava que possivelmente o iam prender por ser pobre, mas
não tinha culpa pois já nasceu assim. Não sabia o que vestir, a roupa para
andar na vila remediava mas, para tão ilustre visita, se calhar estava imprópria.
Mas era
a que tinha! Esticou com o ferro o colarinho da camisa e alisou, um pouco, a
gravata, escovou o melhor que soube o blusão.
Mirou-se ao velho espelho, já era da avó, não lhe pareceu má a figura, tinha
uns olhos bonitos e o cabelo em reflexos ruivos, dispostos em argolinhas e
cuidadosamente penteado.
Foi
perguntar à vizinha se estava em condições de aparecer no escritório do
advogado.
-Tas
lindo José! Exclamou dona Carlota com um riso nos olhos.
Foi atendido por uma menina, toda jeitosa, ele já a tinha visto passar na rua,
mas hoje parecia ainda mais vistosa.
A medo
balbuciou:
-Boa
tarde, venho para......bom....
-Eu sei, pode entrar o doutor atende já, disse a moça com um sorriso, que
deixou as pernas do José a tremer.
A sala
era enorme, cabia lá a sua casa com quintal e tudo. Tinha uma secretaria maior
que a mesa de bilhar da sociedade e uns sofás, em pele castanha, que o
atemorizavam. Tinha receio de se afundar.
O doutor Toscano era imponente, alto e com uma barriga maior que a da Rosa
Periquita que estava prestes a ter o quinto filho. Era grande, estendeu-lhe uma
mão enorme, deu um forte passou bem antes de se sentar atrás daquela enorme
mesa.
Pegou numa pasta, de capa preta, folheou uns papéis. Pousou a pasta e firmou os
dois cotovelos na secretária, abriu um sorriso enorme, parecia estar a ganhar
coragem, mas acabou por começar:
-Sabe que eu estou a falar com um dos homens mais ricos desta vila?
José pensou que o homem tinha endoidado, como dizia dona Carlota, pois, bem,
olhou para trás e não estava ninguém.
Lá se
atreveu a responder:
-Sabe, senhor doutor, que não vim aqui para o senhor mangar comigo? Sou pobre,
mas mereço ser respeitado como todos os outros.
-Calma
amigo José! Calma! Exclamou o causídico. Não me entendeu bem! Estou a falar de
si e para si! Depois de assinar uns documentos que lhe vou dar, vai tomar posse
de todos os bens que era do nosso saudoso doutor Pedroso!
-Mas hoje tirou o dia para brincar comigo? Pergunto José.
-Tem razão! Disse o advogado. Vou explicar tudo. O doutor Pedroso era o seu
padrinho e também o seu verdadeiro pai. Tenho toda a documentação que ele
tratou, ainda, em vida para reconhecer a paternidade e deixar tudo ao filho,
bem arrependido de não ter tido coragem de o fazer mais cedo. Só agora o fazia.
Que Deus lhe tenha a alma em descanso!
José
mordeu a língua para ter a certeza de estar acordado, a vida estava a dar uma
volta, o Chico da Nora deu-lhe um emprego de ajudante de marceneiro, a ganhar
400 euros, ia começar no fim do mês e agora isto. Emprego, herdeiro e rico.
Pensou na vida e sentiu umas lágrimas no rosto, o advogado pensou em alegria,
mas não, eram de raiva. Numa vida de 35 anos teve 11, apenas 11, de felicidade
e 24 de infortúnio e miséria.
Em todos estes anos, teve falta de tudo e, o padrinho, em 35 Páscoas, nem uma
simples amêndoa lhe ofereceu e de repente, quando sentiu que o tempo lhe
faltava e que tudo o que tinha não o podia levar, aparece um testamento e uma
paternidade.
Paternidade! Nem pensar, sempre foi filho do Malaquias Silva e não era agora
que deixaria de ser.
Quem sabe até se a bisavó não era ruiva! A mãe jurava que sim, o pai acreditou
e ele também acreditava.
O advogado parecia impaciente, José estava a sentir-se importante com essa
impaciência.
-Sabe doutor! Exclamou por fim, sempre fui filho de um homem bom e vou
continuar a ser. O nosso pai é o que nos cria e dá amor.
Não quero essa tal paternidade que nada me diz!
O advogado estava de olhos arregalados, transpirava e tentava manter a
aparência. Por fim, com um sorriso postiço, continuou:
-Mas, meu caro José, a herança foi deixado em exclusividade ao filho, se não
for para o filho fica para o estado, tem que assinar o documento da paternidade
para poder tomar conta da herança!
José levantou-se, pela primeira vez, parecia seguro e determinado:
-Caro doutor, sempre fui pobre não vou estranhar a falta da herança, pode
entrega-la aos porcos porque eu, FUI E VOU CONTINUAR A SER, filho do Malaquias
da Silva, um homem bom.
Levantou-se e, sem se despedir, veio respirar o ar puro da rua.
E foi
assim, quase de repente, a tarde entristeceu, aquele olhar que nos hipnotizava
o pensamento, deixou o brilho na tristeza de uma partida esperada, num abalar
na procura doutro espaço, das estepes geladas, dos campos brancos onde a alma
se liberta e o tempo pára.
Vamos sentir em cada canto, em cada pensamento, uma presença como se a verdade
fosse apenas um sonho mau.
Sabes?
Agora,
quando o teu olhar me fitava nesse vazio, o teu corpo se arrastava na nobreza
da tua vontade e sentia, no teu pensamento, a impotência do querer e não
conseguir, pensei muitas vezes que o fim devia chegar para puderes partir com a
postura que o teu passado merecia. Não queria e mesmo agora penso que não é
verdade, mas desejava que o sofrimento não fizesse parte do fim anunciado.
Hoje, na tristeza de uma tarde esquecida, o fim chegou.
Da vida todos sabemos um pouco, da morte ninguém conhece nada.
Quem sabe, Alex, quem sabe um dia não nos encontraremos por aí!
Vou
fazer um pequeno interregno, volto em Maio. Vou sentir a vossa falta!
Era
estranho, esquelético, com uns tiques que incomodavam.
Levantava
o olho direito franzindo o canto da boca, fungava como um cheirador de rapé, e
olhava as pessoas de través.
Diziam,
os mais antigos, que foi um rapaz normal vítima de uma assombração, não
obedeceu as regras do além e foi castigado por forças ocultas, mas isso era o
que se dizia, um pouco, a medo. As pessoas tinham receio de falar em coisas que
iam para além da sua própria imaginação, factos em que as forças do além se
sobrepunham ao conhecimento das pessoas.
Dona Inácia, na sabedoria dos seus 90 anos,
contava que tudo tinha a ver com umas marcações de terras, parece que avô do
Libório tinha desviado uns marcos e, de forma indevida, tomou para si terras
que não lhe pertenciam, quando chegou a hora de se apresentar ao criador foi
recambiado para desfazer o mal que tinha feito.
Uma tarde, continua dona Inácia, estava o pobre Libório agarrado à rabiça do
arado, quando avô, qual alma penada, se lhe apresentou aparecido do nada, com
voz cavernosa lhe ordenou a troca dos marcos.
Obedeceu no medo que o tolhia e fez tudo o que
lhe mandou sentindo um tremor que o inibia. Acabada a tarefa o avô, naquela voz
do além, ordenou que enquanto ia desaparecendo não devia olhar para trás para
nunca se arrepender. Mas o terror era tanto que o pobre rapaz apenas olhou de
soslaio, o que enxergou ninguém sabe, apenas ficou como agora se vê, alheio,
como se estivesse sem estar.
Anda pela aldeia por entre as gentes como se não fizesse parte delas, vagueia
pelas ruas nos seus tiques, passando indiferente à caçoada dos rapazes, olha
algo que, possivelmente, apenas ele vê.
****
Agosto quente, ainda agora se tinha levantado a manhã e já as pessoas andam num
desconforto de roupas coladas ao corpo, com uma vontade enorme de se encostarem
no agradável trabalho de não fazer nada.
Mas é apenas vontade, pois o dever chama e há muito que labutar.
Todos
têm que dar a sua ajuda, no sábado começam as festas em honra da padroeira e,
os filhos da terra, começam a alegrar as ruas, com as falsas pronúncias de um
francês com sotaque transmontano.
Chegam em carros que regalam a vista e dão aquele ar de prosperidade, que por
vezes, não passa de um faz de conta, num carro alugado para esconder as
dificuldades que sentem no dia-a-dia.
Nas tabernas as malgas do verde, matam a secura que o calor deixa na garganta e,
com alegre verborreia, entoam de forma ensurdecedora.
No largo da Igreja, o som dos martelos ultimavam o palanque onde iriam desfilar
todas as atracções, guardadas, para dar brilho às festividades.
Sábado, logo pela manhã, o troar dos foguetes anunciavam aos quatro cantos da
aldeia, o início de uma semana de folguedo, musica, bailes, cantares, largada
de vacas e, a culminar, a procissão que iria dar o toque religioso para os
pagadores das promessas pelas graças recebidas.
Á tarde o largo regurgitava, não havia espaço para mais ninguém, Libório
parecia alheio, mas tinha garantido um lugar na fila da frente. O olhar
distante parecia procurar algo que estava para além da imaginação, não soltava
uma palavra, não mostrava qualquer afecto, estava ali como se não estivesse.
O mestre da banda, com a batuta, deu umas pancadas na estante da pauta, os
músicos alinharam os instrumentos de forma, quase, cerimoniosa. O mestre do
alto do seu poiso, olhou os seus músicos e sentiu o nervosismo dos mais novos,
com um leve sorriso deixou a mensagem, era hora de começar.
Primeiro os violinos naquele melodioso lamento, depois os metais encheram a
praça de magia, os acordes tomaram conta dos sentidos e a emoção encheu os
ares, apoderou-se de todos e conseguiu, com o fascínio da música, passar
despercebida as limitações destes amadores.
Quando a banda silencio algumas lágrimas bailavam nalguns olhos mas o milagre
deu-se depois.
Libório
que há cinco longos anos não botava uma palavra, que passava os dias num
alheamento total, num quase autismo, saltou de repente, bateu as palmas, olhou
o mestre e gritou:
-Mais uma vez, toquem mais uma vez!
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Hoje,
os mais cépticos, dizem que foi a magia da música.
Os
outros, dizem que foi um milagre da santa padroeira