terça-feira, 18 de junho de 2013

Os dez sofrimentos







Qualquer semelhança com personagens ou factos existentes pode não ser pura coincidência.


                                                  1


-Mãe os meninos da minha escola só gozam comigo! Chamam-me caga-tacos e padre!

-Não ligue Gaspar, é inveja! Tu não és caga-tacos, és pequenino mas muito inteligente e a tua voz é especial. É verdade que, às vezes, quando te oiço fico com sono! Mas é contemplação!
 Não ligues querido, estuda e, ainda, um dia os vais castigar.
Agora vai dar de comer ao teu coelho e, de caminho, trás um cavaco para a lareira.


                                                  2


-Mãe, eu, sou o melhor a fazer contas e a minha professora diz que me engano muito.

-Não ligue, é inveja! Tu não te enganas, ela é básica e não tem inteligência para te acompanhar. Estuda filho que um dia, eles vão engolir isso tudo!
Lava as mãos e vamos comer, já dei uma ração ao teu coelho e, hoje, não preciso de nenhum cavaco.



                                                  3


-Mãe, hoje, um menino disse que eu, para ser parvo não me falta nada. Achas que eu sou parvo?

-Não ligue a esses pés rapados, não tem onde cair mortos. Continua a estudar e ainda os vais meter a todos na ordem!
O teu coelho tem que levar nas orelhas, anda a abusar, só faz merda, não tarde vai para o tacho. E cavacos já não são precisos mais, comprei um aquecer a óleo.


                                                      4


-Mãe vou para a faculdade, vou estudar para ministro das finanças!

-Mas Gaspar também se estuda para isso? Vais tirar Economia. Para ministro das finanças qualquer parvo serve, não é preciso estudar.

Mas mãe, eu quero ser especial, quero ser diferente e para isso tenho que estudar muito!
Quando entrar para a faculdade, vamos fazer um sacrifício para alegrar os Deuses. Vamos imolar o coelho, não é matar, e vai para o forno com bacon e cogumelos. Tem que ser, este já fez a merda que tinha a fazer, outro virá a caminho, que adora relvas e que nos vai fazer esquecer este!


                                                       5

-Afinal, mãe, os gajos da faculdade são a mesma coisa, não são tão directos, mas já os ouvi comentários sobre um caga-tacos e a voz de padre. Não sei se será por minha causa, sou pequenino mas essa da voz é que não compreendo.

-Oh Gasparzinho, são invejas por ser o melhor, o mais inteligente e o mais capaz para um futuro ministro das finanças. Quando à voz não te preocupes, sais à tua avó paterna, também falava assim, nesse jeito clerical.       

      
                                                 6


-Mãe já sou doutor, acabei a faculdade agora vou tirar meia dúzia de mestrados e pós graduações. A seguir vou fazer parte de muitas coisas, vou ser chefe de Comissões, Delegações e tudo isso. Sou pequenino mas vou chegar lá a cima.

-Mas como sabe essas coisas todas, Gasparzinho?

-Não digas a ninguém, mãe, mas foi uma cigana no Jardim da Estrela que me leu a sina.


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-Sabes mãe, o meu coelhinho deve ter ressuscitado, telefonou-me a convidar-me para ministro das finanças. Vou aceitar, toda a vida estudei para a vingança, agora vão ver quem é o caga-tacos e o vózinha de padre!

A maioria dos meus ex-colegas são funcionários públicos estão bem lixados vão pagar pela má-língua. Vou esmifrá-los com baixas de ordenados e impostos. Vão ficar a saber quem eu sou! Vão pagar com língua de palmo e se pensam que os pais os vão ajudar, que tirem o cavalinho da chuva, vou lixar as reformas dos velhos, não há ajuda para ninguém, que imigrem. Malandros!

-O Gasparzinho já está a abusar um bocadinho?

-Não mamã, eu já expliquei aos gajos, não sei se perceberam, pois quando acabei de falar, metade tinha abalado e a outra metade dormia profundamente.

-Mas filho assim, qualquer dia, as pessoas deixam de gostar de ti!

-Cada vez gostam mais, uma loucura total, onde vou estão à minha espera e cantam-me uma tal Grândola Vila Morena, não sabem outra. Gostam muito,  se não fosse a polícia vinham para cima de mim para me abraçar, mas não deixo, não gosto dessas manifestações de carinho.

-Mas filho o povo está queixoso!

-Não tenho culpa, se o Benfica tivesse ganho e se chovesse, todos os dias, seria diferente, mas assim tenho que carregar nos gajos.
Parece que já me estou a ouvir:
-Gaspar mais um roubito para compensar!

Tem que ser assim, não lhe posso chamar impostos senão esta cambada vai para o Tribunal Constitucional e, eles lá, não são muito melhores.

-Sabes uma coisa Gaspar, já começo a estar arrependida de te ter parido!


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-Sabes mãe que aqueles cavacos que punhas no lume, também ressuscitaram?

-Não diga asneiras rapaz, aquilo eram cepos!

-E o que pensas que este é ? Mas é um gajo porreiro, nós fazemos tudo e ele fala no Facebook. Mas quem lê essas coisas se tem um BigBrother?
Até eu vejo muitas vezes, ando a estudar uma maneira de cobrar uns impostos, impostos não, umas massas àquela palhaçada.

-Ai Gaspar, estás cada vez pior!     


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-Sabes uma coisa mãe, o nosso coelhinho, o que ressuscitou, agora é primeiro-ministro, é um espectáculo como se lembra de mim. Faz o que eu quero e digo. Tem cá um respeitinho!

-Porque não deixas isso e vais para Bruxelas como sonhas?

-Tudo a seu tempo, mãe! Ainda há gajos que respiram, ainda não acabei a minha missão.


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-Houve filho de um comboio, a partir de agora não me chame mais mãe, não sou tua mãe! Eu pari um rapaz e não um monstro!

-Houve lá velha, não é assim! Se deixas de ser minha mãe tens que pagar umas taxas, não penses que te safas. Vou mandar aí os fiscais da finanças para cobrar e, não penses que fazes como o Viegas, que mandou os desgraçados a levar no cú.





terça-feira, 11 de junho de 2013

A partida






Há muitos dias que a ideia lhe bailava na cabeça,  era um pouco estranha mas era uma ideia que ia crescendo. Primeiro surgiu quase por acaso, foi um pensamento subtil, quase tímido mas cresceu e agora fazia parte do seu quotidiano.

Tentava pensar numa solução e, por mais voltas que desse à cabeça, não lobrigada uma maneira de se libertar. Por vezes até parecia gostar da situação, tal o amorfismo e um certo deixa andar, como se o tempo, que tudo resolve, pudesse vir em seu auxílio.

De repente, foi como se uma luz se tivesse acendido no seu cérebro, um fogacho e a ideia instalou-se como uma lapa. Primeiro devagarinho, para ganhar espaço, depois grudou de tal forma que parecia fazer parte da própria cabeça.

****

Ao princípio não se importou muito, pareceu-lhe quase natural mas, com o decorrer do tempo, uma certa estranheza foi-se instalando, não era normal, depois de um namoro romântico, de palavras doces sussurradas em surdina, veio um casamento que parecia abençoado.
Depois esta violência. Primeiro eram as palavras ladradas em frases cruéis, a ausência dos carinhos, depois os sopapos que doíam mais na alma que no corpo.

A alegria morreu no medo da companhia, antes tão desejada.

As noites eram pesadelos sofridos nos bafos de vinho ordinário, numa entrega, ausente, de corpo massacrado num uso de afecto forçada.

Depois os interregnos, curtos, muito curtos, de arrependimentos que morriam no saciar dos desejos.

Não queria mais nódoas negras, nem cremes para as disfarçar, não queria mais desculpas para esconder o que todos já sabiam.

Ia perder o medo, afinal já tinha morrido há tanto tempo que se morresse, mais uma vez, não ia notar, mesmo nada.

*****

Pensou em tantas coisas que já estava baralhada, imaginou acabar com a raça do gajo ou cortar-lhe, algo, com a tesoura de podar. Havia riscos, se lhe acabasse com a existência ia presa, se lhe cortasse, aquilo, corria o risco de ele acordar e então, havia um cadáver mas não seria o dele.

Estava confusa, no fundo ainda sentia algo por ele, não sabia bem o quê, mas sentia.

*****

De verdade, ainda gostava dele.
Talvez as coisas pudessem mudar.
Mais uma oportunidade. Afinal, ele, não era assim!





domingo, 2 de junho de 2013

Marcas







Tentou abrir os olhos mas, a dor aguda que o percorria, apenas lhe deixou entrar uma confusão de luzes, barulhos e sons que não conseguia compreender. Havia uma espiral de claridades azul, girândola que lhe atravessava as pálpebras cerradas.

Queria falar mas as palavras ficavam perdidas num emaranhado de confusão, que não sabia explicar.

Não sentia o corpo, estava leve, num levitar doce e tranquilo.

Viu o pai, chamava-o de joelhos na areia molhada da praia. Correu para os braços, fortes, que abraçaram com amor o seu corpo ainda tão frágil.

Era tão criança a correr, atrás da bola que o pai atirou para longe. Correu molhando os pés na água que se espraiava na areia.

Ao longe a mãe sorria.

Viu-se a receber o canudo da formatura, a mãe tinha os olhos molhados das lágrimas, de satisfação, pelo seu menino. A Laura, estava ao lado e, sorria com tanto amor, que lhe apetecia deixar a formatura e correr para os seus braços e, beijá-la com todo o amor que sentia.

Lembrou o dia do casamento, sentiu-se ridículo naquele trajo de cerimónia. A Laura estava deslumbrante, tão radiosa.

Sentiu-se a levitar, numa doçura e, numa tranquilidade como nunca sentira antes.

Era uma música diferente, sons que nunca antes escutara, uma harmonia, que o embalava como se flutuasse num mar de pétalas perfumadas.

A luz avançava devagar, num salomónico de luzes suaves, que o levavam enleado em reflexos de rostos que conhecia mas de que se não lembrava.

Depois………... foi  o silêncio.

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Jornal Correio da Manhã do dia 24 de Dezembro.

Mais um grave acidente ceifou uma vida na flor da idade e deixou outra em estado muito grave.
João Gomes, um jovem de 23 anos, quando chegou ao Hospital já era cadáver, a sua esposa Laura Gomes está em observação com prognóstico muito reservado.
Segundo testemunhas do acidente, pode ter sido o excesso de velocidade e o estado do piso, devido ao mau tempo, os causadores do grave despiste que originou mais uma tragédia na véspera do Natal.
As autoridades pensam que............

               



terça-feira, 28 de maio de 2013

A Espera





Quatro da tarde, ou talvez mais, e as notícias são, apenas, um enorme silêncio.

Esta situação não era nova, já se vinha repetindo há muitas semanas, mas ela, continuava a acreditar que um dia o milagre ia acontecer.

Não tinha relógio, não a deixavam usar, mas pela posição do Sol, nas frestas das persianas, deviam ser quatro horas.

Talvez não fossem mas, na imaginação de Marta, deviam ser mesmo essas horas.

Ontem, quando aquele médico horrível, achava ela, a veio visitar a luz do Sol incidia da mesma maneira e eram quatro horas, ela ouviu a enfermeira Helena, ou talvez seja Filomena, dizer ao médico:

-Hoje veio cedo senhor doutor são só quatro horas! Ele resmungou, qualquer coisa, uma espécie de grunhido que ninguém percebeu, só a enfermeira Filomela - ou será Helena? - deve ter compreendido. Mas isso agora não interessa, é só para verem que embora todos pensem que está maluca, mas não está! Se estivesse doida não reparava para este pormenor do Sol nas persianas.

Foi no último domingo - ou seria no sábado? - que lhe disseram que vinha hoje. Mas mentiram, ou ele como de costume, mais uma vez, dizia uma coisa e fazia outro. Sempre foi assim, um belo rapaz, bom e amigo, mas muito esquecido.

Não valia a pena esperar mais, as persianas tinham escurecido.

  
 Se calhar estava a fazer confusão, não era hoje, é capaz de ser amanhã, estes comprimidos amarelos que a enfermeira Helena - ou será Filomena? - a obriga a engolir deixa-a um pouco esquecida.

Não tarda muito, metem na cama e fica à espera porque amanhã, tem  certeza, vem mesmo.

Tem que vir, tem que lhe explicar porque a meteu neste casarão! Sem nada, sem dinheiro, especada à espera, nem sabe bem do que.

Confessa que tem muitas saudades da sua casinha.

Gosta tanto de falar, um pouco, com a dona Gracinda - ou será Gracinha? - a cabeça não esta nada boa, são os comprimidos amarelos, podem ter  certeza que são. Já pensou fingir que os toma e deita-los fora, mas a enfermeira Filomena - ou será Helena? - obriga-a e ela é tão boazinha que não tem coragem de a enganar.

Amanhã, quando o Carlos a vier ver - vem de certeza! - é um bom menino, vai pedir-lhe para a levar para a sua casa, já está aqui há tanto tempo que começa a estar farta.

Este sono, vem assim de repente, quer abrir os olhos e não consegue, são os comprimidos amarelos, tem a certeza que são.

Vai dormir, quer acordar bonita para quando o Carlos chegar. Ele gosta tanto que a mãe se arranje e esteja assim linda!

****

A enfermeira foi ajeitar-lhe a roupa, olhou-a com carinho e suspirou:

-Pobre dona Marta, desde que o filho morreu, na naquele acidente de mota, ficou neste estado!





terça-feira, 21 de maio de 2013

O Padre









-Mamã gostas do senhor padre Isidoro?

-Gosto, é boa pessoa e muito amigo das  crianças.

-Sabes mamã que já tou chateada com ele?

-E porque Clarinha?

-É chato com os meninos! 

-Se calhar os meninos não se portam bem!

-Portam pois, portam-se muito bem mamã!

-Se se portam bem porque é que ele é chato?

-Está sempre com um ao colo e a gente não gosta de estar ali sentados.

-Nunca estão satisfeitos, quando a dona Otília dava a catequese,  diziam que era uma mal disposta. O senhor padre, porque as meninas se queixavam, tomou ele por sua conta essa tarefa e, agora é chato porque é carinhoso? Vocês não sabem o que querem, valha-me Deus!

********

O padre Isidoro apareceu, qual Dom Sebastião, numa nevoenta manhã de Novembro, o povo estava no adro da Igreja para o receber, com a solenidade e respeito que tão desejado personagem merecia.
Parecia dia de festa. A simpatia e delicadeza, do vigário, facilmente conquistaram os corações dos paroquianos, um pouco desiludidos com o padre Moreira que se acabou de reformar, rabugento, com preconceitos e incapaz de se adaptar a abertura da Igreja aos tempos modernos. Era um pouco inquisitorial, arreigado a princípios dogmáticos, sem compreender que a evolução faz parte da vida.

Foi uma autêntica revolução, a missa deixou aquela monotonia monocórdica, a guitarra acompanhava os cantos solenes, a juventude começou a animar as cerimónias.

A catequese, quase um castigo para as crianças, deixou de ser um momento tedioso. A catequista, dona Otília, foi mandada em paz.
Agora o padre Isidoro tomava a seu cargo essa missão.

O padre ensinava, fazia jogos, organizava passeios e mantinha um dinamismo que os miúdos adoravam. Só achavam que o padre era carinhoso demais e estrafegava os meninos, tornando-se chato.

******

Tinha começado o mês de Julho, muito calor e grande euforia.

A costureira, da aldeia, não tinha mãos a medir, os vestidos para as meninas que iam fazer a comunhão solene, tinham que ficar prontos. As mães andam num corrupio para os seus rebentos, poderem brilhar nos vestidos brancos, bordados.

O padre Isidoro juntou na Igreja todos, os que iam confirmar o baptismo, era preciso ensaiar a cerimónia, para tudo bater certo e para os meninos ficarem preparados e saberem os lugares a ocupar.

Correu bem, saíram da Igreja qual bando de pássaros, em alegre chilrada, a caminho das suas casas.

Começou a entardecer, dona Mafalda, começou a ficar preocupada, Clarinha já devia ter regressado do ensaio, eram cinco horas e ainda não apareceu.
Meteu os pés numas sandálias e foi a caminho da Igreja.
Estava fechada, bateu na porta da sacristia mas só o silencio lhe respondeu.

A preocupação começou a tomar conta do seu pensamento, não era a primeira vez que a rapariga lhe pregava uma partida desta. O ano passado, mais ou menos por esta altura, meteu-se a caminho da Coutada, com uma pequena caixa e a ideia de apanhar um grilo, para a gaiola que estava pendurada num prego da marquise.

Foi uma tarde de agastura, e quando a encontrou. não se aguentou sem lhe dar uma grande nalgada naquele rabo.

-É para aprenderes, gritou no desespero.

A noite estava a cair e o raio da rapariga sem aparecer, foi ao posto da guarda já lavada em lágrimas.
O sargento Acácio mandou uma patrulha ajudar os populares que se ofereceram para participar nas buscas.
Voltaram quando o Sol já tinha desaparecido, no horizonte, e a noite já ia caindo.

Na manhã seguinte, todos voltaram ao terreno. Vasculharam todos os recantos, não esqueceram a ribeira, que nesta altura do ano, estava quase seca, foi tudo em vão, nenhum sinal da Clarinha.

Nuvens negras começaram a povoar a cabeça daquela gente, o temor tomou conta de todos, o pior começou a pairar nos pensamentos.

Foi então que a voz de Mafalda ecoou no silêncio:

-Foi o padre, a minha filha bem me avisou e eu não a quis ouvir!

O povo agitou-se, olharam-se como se vissem pela primeira vez. Um sururu tomou a praça, os ânimos exaltaram-se e uma onda de homens, tisnados pelo sol, tomou o caminho da Igreja.
O sargento Acácio disparou um tiro, para o ar, e o povo, como por encanto, estacou.

-Mas afinal o que se passa aqui! Gritou a autoridade.

-Foi o padre, é pedófilo, senta as crianças no colo, foi ele, só pode ter sido ele! Gritou Mafalda.

O sargento olhou-a de alto a baixo, segurou-lhe o braço e perguntou:

-Tem alguma prova disso, ou quer ser cúmplice de um linchamento?

O povo acalmou e aos poucos foram abandonando a praça.

****

O padre foi investigado e ficou provado nada ter de suspeito, no dia do ensaio, saiu muito depois das crianças. Foi confirmado pelo sacristão e por alguns fiéis que estavam na Igreja, a Clarinha saiu para rua, com os restantes companheiros.

Ficou desgostoso, tão triste, incapaz de encarar quem tão mal o tratou. Fez a mala e desapareceu daquela terra sem vontade, sequer, de olhar para trás.

*****

Em Agosto, o Chico Brotoeja, um pobre diabo, meio lerdo, que passava os dias acomodado, num mocho, à porta da tasca do Basílio, lembrou-se de perguntar ao taberneiro:

-Oh mestre Basílio, porque será que o homem do carro azul nunca mais apareceu?

-Qual homem do carro azul? Perguntou, de maus modos, o taberneiro.

-O que foi casado com a dona Mafaldinha, a que mora nas casas do João da Nora!

-O divorciado que abalou para Lisboa? Inquiriu Basílio.

-Esse mesmo, mestre Basílio, esse mesmo! Gritou o Chico.

-Porra que ideia a tua! O homem vazou há anos e agora vens com essa do carro azul. Ele nem carro tinha!

-Não tinha mas agora tem! Eu vi-o outro dia quando levou a menina.

-Menina? Qual menina?

-Qual menina, qual menina! Qual menina havia de ser? A filha deles, a Clarinha!






terça-feira, 30 de abril de 2013

O Pai








Nunca lhe passou pela cabeça uma situação destas, era impossível pensar que agora aos 35 anos lhe queriam mudar a vida.

Viveu, quase sempre, numa espécie de miséria envergonhada, num misto do parece e do faz de conta.

As dificuldades eram imensas, as refeições eram um entremear de açordas e de sopas de feijão, durante o Inverno, e de gaspachos com um pedaço de conduto, durante o Verão.

Poupava em tudo, se é que não ter, se pode considerar poupar.
Banhos só de água fria e apenas um sabonete para desencardir as partes mais necessárias, a pasta de dentes tinha que servir, apenas, para tirar o sabor estranho da espuma do sabonete.

Na rua a aparência era importante, as pessoas avaliam a apresentação, era preciso parecer mesmo que isso fosse à custa de sacrifícios, imensos sacrifícios.

Tinha duas camisas, tão poidas, que mais pareciam uma frágil rede a cobrir o abaulado peito, já não as podia lavar, apenas as mergulhava suavemente na água e, sem esfregar, pendurava cuidadosamente na corda para que fossem escorrendo até secar.

A gravata, estampada, que a falecida madrinha, um ano, lhe ofereceu pelo Natal era uma boa protecção da fragilidade da camisa e, ao mesmo tempo, davam um certo ar de respeitabilidade.

Não que fosse necessário, pois sendo filho do saudoso mestre Malaquias já era o principio de consideração.

O pai foi um homem muito estimado, era o barbeiro e ao mesmo tempo regedor, tinha uma vida equilibrada até que a desgraça lhe caiu à porta e não aguentou. Um dia apareceu morto sentado numa cadeira de verga olhando o infinito. Dizem que foi de desgosto e, os mais afoitos, até, se atrevem a segredar que se deve ter envenenado, mas o doutor Gameiro passou a certidão de óbito com a ideia que foi um ataque cardíaco. Bom! Agora, que já lá está, não interessa conjecturar! A verdade é que o desgosto e a vergonha, de uma forma ou doutra, o levaram à morte tão novo, deixando a mulher e o rapaz numa penúria que faziam dó.

Foi numa invernosa tarde, de segunda-feira, que dois guardas apareceram, na modesta barbearia, e arrastaram para a vergonha o pobre regedor, acusado de algo que não fez e de que nem sequer sabia.

Dizem que foi o presidente da câmara que mandou, os guardas, deter o desgraçado, acusando-o de ter desviado as verbas que tinha mandado para arranjar a abobada da escola dos rapazes, que ameaçava cair a qualquer momento e quando a professora, Dona Laura, lembrou o presidente do perigo para as crianças este, na certeza de ter mandado as verbas há muito tempo, concluiu que o regedor se tinha apropriado daqueles contos de réis e, mandou os guardas deter o pobre e honesto Malaquias.

Quando o homem chegou ao posto, os próprios guardas o trataram com respeito, pois estavam convencidos que o barbeiro não era para o crime de que o acusavam e tinham razão, na desorganização da câmara, descobriram que afinal as verbas tinham ido para pagar umas melhorias na casa do senhor presidente.

Os guardas, caso inédito, pediram desculpa ao mestre Malaquias e mandaram o homem em paz. Ele foi, mas paz nunca mais a encontrou, a tristeza subiu no seu corpo como um arrepio de frio, o sorriso constante perdeu-o para sempre e os olhos pareciam lobrigar, apenas, um ponto distante. Sentou-se naquela cadeira, nunca mais segurou o filho nos joelhos naquelas brincadeiras, que os dois tanto gostavam, até que, numa tarde deu um suspiro tão fundo que todas as mágoas, desgostos e desilusões se fundiram com a luz da sua alma e abalaram para além do infinito. Morreu!

A mulher, dona Bebiana, deixou partir com o suspiro do marido, o gosto de viver e nunca mais disse coisa com coisa. Endoidou! Disseram os vizinhos.

O rapaz, na ingenuidade dos seus 11 anos, não compreendia o que se estava a passar, a dona Marcolina, na catequese dizia que havia um Deus justo e misericordioso, ajudava as crianças, protegia os mais fracos e recompensava os bons. O pai era dos melhores, a mãe era muito fraca e ele uma criança e Deus não fez nada disso, dona Marcolina não percebia dessas coisas ou andava a mentir às crianças.

Foi obrigado a crescer, deixou de ser menino para tratar da mãe que, nos momentos de lucidez, lhe afagava o rosto e, com um brilho bom nos olhos, dizia:

-Se não fosse o meu José que seria feito de mim! Depois sorria, olhava algo que mais ninguém via e ficava naquela letargia onde havia mergulhado.

A casa do povo, dentro das suas poucas possibilidades, deu à dona Bebiana uma pensão de 113 Euros, para amenizar a miséria que, de repente, caiu naquela casa.

Mas 113 Euros mal chegavam para os remédios da pobre viúva e José não tinha forças para trabalhos, mais, pesados por isso apenas ia ganhando umas moedas fazendo uns mandados.

Quando a mãe morreu as coisas que já estavam más ficaram muito piores. Estava no princípio do desespero, era difícil camuflar mais a desgraça que se tinha abatido sobre esta casa e, só a ajuda da vizinha dona Carlota conseguia mitigar um pouco a extrema miséria.

Foi no meio desse desespero que a notícia apareceu, de repente, como uma bomba que apenas se ouve quando já nos caiu em cima.
        *********

Mas voltemos 36 anos no tempo. Bebiana era uma moçoila de encher o olho, trigueira, peito farto e quadris que baloiçavam ao ritmo do andar, Malaquias era um moço mal-amanhado, magro, fartos cabelos negros espetados mas de uma simpatia que contagiava. Bebiana, quando ele a foi procurar, aceitou-o como namorado, era diferente dos outros que a assediavam porque era apetitosa e ele, Malaquias, queria casar.

Passado pouco tempo a alegria encheu a modesta casa, Bebiana estava grávida. Malaquias espalhou a notícia enquanto ia pagando uma rodada de copos aos amigos.

Coincidências? No dia em que completavam um ano de casados, José abrindo os olhos e a plenos pulmões anunciou a chegada.

É lindo disseram todos, só dona Mariquinhas se atreveu num pormenor que saltava à vista mas todas faziam por não notar.
Bebiana tinha cabelos negros como a noite, Malaquias também e o rapaz era ruivo.

-É como a minha tia Carolina, irmã de minha mãe que tal como a minha bisavó também era assim, dizia Bebiana!

Todos acreditaram, quase todos, embora para alguns era muita coincidência que um dos grandes amigos de Bebiana, médico veterinário, dono da herdade dos rouxinóis, casado com a professora Aurora, ter os cabelos da cor de uma cenoura acabada de colher e, muito mais confusão quando o veterinário e a professora foram os padrinhos do José.

Houve alguns falatórios mas o assunto acabou por morrer, embora quando a professora abalou deixando abandonado o marido, acusando-o de ter, ou de ter tido, outras mulheres entre elas a comadre fosse causa para mais falatórios, mas de pouca dura pois o veterinário era homem de muita influência e tantos dependiam do trabalho na herdade dos rouxinóis.
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Mas voltando ao princípio, hoje véspera de José fazer 35 anos, o doutor Toscano, ilustre advogado da herdade e dos proprietários, mandou-o chamar ao seu escritório.

-Assunto urgente! Disse o rapaz que trazia o recado.

José ficou em pânico, chamado ao doutor Toscano, ele que nunca fez mal a uma mosca. Lembrou logo o pai preso, acusado e arrastada como Cristo, com umas algemas, ao posto da guarda.

Apetecia-lhe chorar, pensava que possivelmente o iam prender por ser pobre, mas não tinha culpa pois já nasceu assim. Não sabia o que vestir, a roupa para andar na vila remediava mas, para tão ilustre visita, se calhar estava imprópria.

Mas era a que tinha! Esticou com o ferro o colarinho da camisa e alisou, um pouco, a gravata, escovou o melhor que soube o blusão.
Mirou-se ao velho espelho, já era da avó, não lhe pareceu má a figura, tinha uns olhos bonitos e o cabelo em reflexos ruivos, dispostos em argolinhas e cuidadosamente penteado.
Foi perguntar à vizinha se estava em condições de aparecer no escritório do advogado.

-Tas lindo José! Exclamou dona Carlota com um riso nos olhos.

Foi atendido por uma menina, toda jeitosa, ele já a tinha visto passar na rua, mas hoje parecia ainda mais vistosa.

A medo balbuciou:

-Boa tarde, venho para......bom....

-Eu sei, pode entrar o doutor atende já, disse a moça com um sorriso, que deixou as pernas do José a tremer.

A sala era enorme, cabia lá a sua casa com quintal e tudo. Tinha uma secretaria maior que a mesa de bilhar da sociedade e uns sofás, em pele castanha, que o atemorizavam. Tinha receio de se afundar.

O doutor Toscano era imponente, alto e com uma barriga maior que a da Rosa Periquita que estava prestes a ter o quinto filho. Era grande, estendeu-lhe uma mão enorme, deu um forte passou bem antes de se sentar atrás daquela enorme mesa.

Pegou numa pasta, de capa preta, folheou uns papéis. Pousou a pasta e firmou os dois cotovelos na secretária, abriu um sorriso enorme, parecia estar a ganhar coragem, mas acabou por começar:

-Sabe que eu estou a falar com um dos homens mais ricos desta vila?

José pensou que o homem tinha endoidado, como dizia dona Carlota, pois, bem, olhou para trás e não estava ninguém.

Lá se atreveu a responder:

-Sabe, senhor doutor, que não vim aqui para o senhor mangar comigo? Sou pobre, mas mereço ser respeitado como todos os outros.

-Calma amigo José! Calma! Exclamou o causídico. Não me entendeu bem! Estou a falar de si e para si! Depois de assinar uns documentos que lhe vou dar, vai tomar posse de todos os bens que era do nosso saudoso doutor Pedroso!

-Mas hoje tirou o dia para brincar comigo? Pergunto José.

-Tem razão! Disse o advogado. Vou explicar tudo. O doutor Pedroso era o seu padrinho e também o seu verdadeiro pai. Tenho toda a documentação que ele tratou, ainda, em vida para reconhecer a paternidade e deixar tudo ao filho, bem arrependido de não ter tido coragem de o fazer mais cedo. Só agora o fazia. Que Deus lhe tenha a alma em descanso!

José mordeu a língua para ter a certeza de estar acordado, a vida estava a dar uma volta, o Chico da Nora deu-lhe um emprego de ajudante de marceneiro, a ganhar 400 euros, ia começar no fim do mês e agora isto. Emprego, herdeiro e rico.

Pensou na vida e sentiu umas lágrimas no rosto, o advogado pensou em alegria, mas não, eram de raiva. Numa vida de 35 anos teve 11, apenas 11, de felicidade e 24 de infortúnio e miséria.

Em todos estes anos, teve falta de tudo e, o padrinho, em 35 Páscoas, nem uma simples amêndoa lhe ofereceu e de repente, quando sentiu que o tempo lhe faltava e que tudo o que tinha não o podia levar, aparece um testamento e uma paternidade.

Paternidade! Nem pensar, sempre foi filho do Malaquias Silva e não era agora que deixaria de ser.
Quem sabe até se a bisavó não era ruiva! A mãe jurava que sim, o pai acreditou e ele também acreditava.

O advogado parecia impaciente, José estava a sentir-se importante com essa impaciência.
-Sabe doutor! Exclamou por fim, sempre fui filho de um homem bom e vou continuar a ser. O nosso pai é o que nos cria e dá amor.

Não quero essa tal paternidade que nada me diz!

O advogado estava de olhos arregalados, transpirava e tentava manter a aparência. Por fim, com um sorriso postiço, continuou:

-Mas, meu caro José, a herança foi deixado em exclusividade ao filho, se não for para o filho fica para o estado, tem que assinar o documento da paternidade para poder tomar conta da herança!

José levantou-se, pela primeira vez, parecia seguro e determinado:

-Caro doutor, sempre fui pobre não vou estranhar a falta da herança, pode entrega-la aos porcos porque eu, FUI E VOU CONTINUAR A SER, filho do Malaquias da Silva, um homem bom.

Levantou-se e, sem se despedir, veio respirar o ar puro da rua.




quinta-feira, 11 de abril de 2013

Adeus Alex!








E foi assim, quase de repente, a tarde entristeceu, aquele olhar que nos hipnotizava o pensamento, deixou o brilho na tristeza de uma partida esperada, num abalar na procura doutro espaço, das estepes geladas, dos campos brancos onde a alma se liberta e o tempo pára.

Vamos sentir em cada canto, em cada pensamento, uma presença como se a verdade fosse apenas um sonho mau.

Sabes?
Agora, quando o teu olhar me fitava nesse vazio, o teu corpo se arrastava na nobreza da tua vontade e sentia, no teu pensamento, a impotência do querer e não conseguir, pensei muitas vezes que o fim devia chegar para puderes partir com a postura que o teu passado merecia. Não queria e mesmo agora penso que não é verdade, mas desejava que o sofrimento não fizesse parte do fim anunciado.

Hoje, na tristeza de uma tarde esquecida, o fim chegou.

Da vida todos sabemos um pouco, da morte ninguém conhece nada.

Quem sabe, Alex, quem sabe um dia não nos encontraremos por !


10 de Abril 2013

10 de Abril 2013