segunda-feira, 1 de julho de 2013

A vida








Maria do Rosário estava apaixonada, nunca se sentiu assim, uma doçura desinquieta, um formigueiro na barriga, um acelerar no coração.

Já muitas vezes desejou e se sentiu atraída por rapazes,  ia com eles no sentido e adormecia com uma humidade, lascívia e confortante, mas agora era diferente, sonhava com um de mãos dadas, pensava em passeios à beira mar, olhos nos olhos, suspiros doces, beijos gordos e molhados, agora era um amor diferente, preenchia o corpo, alimentava a alma e dava sentido à vida.
Agora, sabia ela, era amor de verdade.

Conheceu-o, por acaso, é daquelas coisas que acontecem, deve ser o destino. Foi na casa da Margarida, num fim de tarde que prometia mas, de repente, começou a chover intensamente. O boletim meteorológico já a tinha avisado mas, como sempre, não ligou.

Ele estava lá, era primo do marido da amiga.

Prendeu-lhe os olhos, percorreu-lhe o corpo, sentiu-lhe o cheiro, tomou conta do seu querer. Queria falar mas ficou sem graça, aparvalhada.

-Que se passa rapariga, perguntou Margarida. Nunca te vi, assim, tão calada!

-Desculpa amiga, sussurrou Maria do Rosário, mas há momentos de magia e até as mais tagarelas, como eu, se deixam prender.

Depois arrependeu-se de ter falado, corou, gaguejou e foi até à janela fingindo ir espreitar a chuva.

Mário, assim se chamava o Apolo, percebeu o encabulamento da rapariga, já era normal causar esse enlevo nas mulheres.
E gostava!

Mas esta parecia diferente, não foi só físico, sentiu magia, uma atracção feita do desejo da presença, de gosto pelo olhar e do prazer pelo estar. 

Era linda, assim lhe pareceu, olhos que brilhavam, intensamente, numa cor indefinida,  rosto emoldurado por fartos  caracóis negros, lábios maduros e um corpo com tudo no sitio certo e nas quantidades devidas. Deus, quando a concebeu, não estava de férias, redundante, mas graças a Deus!

A tarde ia caindo e a chuva parecia querer continuar, eles bem avisaram!  Mário aproveitou para perguntar:

-Maria do Rosário, julgo ser esse o teu nome, posso deixar-te em qualquer lado? Está o chover e eu tenho o carro mesmo defronte da porta!

A rapariga tremeu, sentia algo a trepar pelas pernas, jura que um frio lhe percorreu a espinha e se foi diluir, num doce calor, num sítio que não era capaz de dizer.
Quis falar - muito obrigado não vale a pena! - mas o desejo deu-lhe uma martelada na cabeça e apenas lhe saiu:

-Muito obrigado mas vou aceitar, nem guarda-chuva tenho!


*****

Começou assim, como a nascente de um regato, timidamente, depois tonou-se firme, intenso e apaixonado.
Correram todos os caminhos do amor, ternos, doces, relaxantes, brutos e loucos.
Foram brisas e tempestades, doidos, irracionais e meigos, tão meigos como as sedas deslizantes dos lençóis.

***
Um dia, desgraçadamente, há sempre um dia, ele não apareceu.

­-É a minha ânsia, dizia Maria do Rosário, afinal ainda é cedo!
Já passou uma hora, nunca se atrasou cinco minutos.

-Estará farto de mim! Imaginou com pavor.
 Não pode ser, ainda ontem fizemos o amor mais doce e intenso, mais firme e mais selvagem, tal como ele, como nós, gostamos.

-Foi o trânsito, deve estar numa zona sem rede, o telemóvel não dá sinal.

-Será que me usou e agora desaparece, assim, subtil como apareceu!
-Não lhe perdoaria nunca, era capaz de o matar, não seria de mais ninguém!

Telefonou para todo o seu mundo, e para o mundo comum.

Ninguém sabia dele.

-Alguma das suas parvoíces! Disse a tia Aninhas. Tal como o ano passado, quando se meteu no avião e foi para umas maluquices em África!

-Não, não pode ser, gritou Maria do Rosário, ele não me fazia isso!

********

Nem sempre as más notícias são as primeiras a chegar, foi no dia seguinte, às 11 horas, que o telemóvel tocou, Era a Emília:

-Rosário, vem já a minha casa! E desligou.

Sentiu uma agonia que lhe deixou um zoar na cabeça, queria pensar e nada, as ideias troavam num desalinho total. Que terá acontecido?

Não gostou do que encontrou, caras pesadas, olhos vermelhos de choro, um cheio acre a desgraça.

-Mas o que se passa?  Perguntou Maria do Rosário. Que foi? Contem-me por favor?

-Tem calma, pediu Emília, vamos ter fé, vamos rezar. O Mário teve um acidente, com a mota, está no hospital e muito mal mas ele é forte. Vamos pedir a Deus!

-Se ele morrer eu morro com ele, juro, chorou Rosário.

Deus não os ouviu, ou não quis ouvir, ou então, fingiu que não estava atento e o pobre Mário não resistiu.
Morreu nesse dia as 21 horas e sete minutos.

******

Maria do Rosário carregou um luto de três dias, pensou com tristeza nos bons momentos, nos passeios românticos à beira rio, recordou com saudades as serenatas que ele improvisava, não cantava bem mas a voz rouca tinha uma certa magia, reviveu  aqueles momentos, de pura loucura, nos imagináveis lugares onde aconteciam , sem tabus, sem medos, quase irracionais.

Viu, como num filme, o cadáver sereno naquela urna cheia de dourados, o mesmo sorriso que a morte não soube apagar, depois aquela mole imensa a caminho dum cemitério onde, o forno grande, transformou em cinzas o que restou de uma vida.

Foi o regresso a casa, agora mais vazia, diferente, sem as gargalhadas roucas. Silencio, apenas silencio que dói, de forma estranha, dentro de nós.

******

Encontraram o corpo passados dois dias, vestida de noiva, com um esgar de sofrimento no rosto.
As pessoas dizem que foi do desgosto, os médicos sabem que foi do veneno.




Esta bela música foi oferta de uma grande amiga , no sexto aniversário do meu Blogue.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Mais um ano vai passado

  24 de Junho de 2007



                                              24 de Junho de 2013







Para todos os que me tem ajudado com palavras, amizade e carinho o meu muito obrigado.

Façamos um brinde!






terça-feira, 18 de junho de 2013

Os dez sofrimentos







Qualquer semelhança com personagens ou factos existentes pode não ser pura coincidência.


                                                  1


-Mãe os meninos da minha escola só gozam comigo! Chamam-me caga-tacos e padre!

-Não ligue Gaspar, é inveja! Tu não és caga-tacos, és pequenino mas muito inteligente e a tua voz é especial. É verdade que, às vezes, quando te oiço fico com sono! Mas é contemplação!
 Não ligues querido, estuda e, ainda, um dia os vais castigar.
Agora vai dar de comer ao teu coelho e, de caminho, trás um cavaco para a lareira.


                                                  2


-Mãe, eu, sou o melhor a fazer contas e a minha professora diz que me engano muito.

-Não ligue, é inveja! Tu não te enganas, ela é básica e não tem inteligência para te acompanhar. Estuda filho que um dia, eles vão engolir isso tudo!
Lava as mãos e vamos comer, já dei uma ração ao teu coelho e, hoje, não preciso de nenhum cavaco.



                                                  3


-Mãe, hoje, um menino disse que eu, para ser parvo não me falta nada. Achas que eu sou parvo?

-Não ligue a esses pés rapados, não tem onde cair mortos. Continua a estudar e ainda os vais meter a todos na ordem!
O teu coelho tem que levar nas orelhas, anda a abusar, só faz merda, não tarde vai para o tacho. E cavacos já não são precisos mais, comprei um aquecer a óleo.


                                                      4


-Mãe vou para a faculdade, vou estudar para ministro das finanças!

-Mas Gaspar também se estuda para isso? Vais tirar Economia. Para ministro das finanças qualquer parvo serve, não é preciso estudar.

Mas mãe, eu quero ser especial, quero ser diferente e para isso tenho que estudar muito!
Quando entrar para a faculdade, vamos fazer um sacrifício para alegrar os Deuses. Vamos imolar o coelho, não é matar, e vai para o forno com bacon e cogumelos. Tem que ser, este já fez a merda que tinha a fazer, outro virá a caminho, que adora relvas e que nos vai fazer esquecer este!


                                                       5

-Afinal, mãe, os gajos da faculdade são a mesma coisa, não são tão directos, mas já os ouvi comentários sobre um caga-tacos e a voz de padre. Não sei se será por minha causa, sou pequenino mas essa da voz é que não compreendo.

-Oh Gasparzinho, são invejas por ser o melhor, o mais inteligente e o mais capaz para um futuro ministro das finanças. Quando à voz não te preocupes, sais à tua avó paterna, também falava assim, nesse jeito clerical.       

      
                                                 6


-Mãe já sou doutor, acabei a faculdade agora vou tirar meia dúzia de mestrados e pós graduações. A seguir vou fazer parte de muitas coisas, vou ser chefe de Comissões, Delegações e tudo isso. Sou pequenino mas vou chegar lá a cima.

-Mas como sabe essas coisas todas, Gasparzinho?

-Não digas a ninguém, mãe, mas foi uma cigana no Jardim da Estrela que me leu a sina.


                                                          7

-Sabes mãe, o meu coelhinho deve ter ressuscitado, telefonou-me a convidar-me para ministro das finanças. Vou aceitar, toda a vida estudei para a vingança, agora vão ver quem é o caga-tacos e o vózinha de padre!

A maioria dos meus ex-colegas são funcionários públicos estão bem lixados vão pagar pela má-língua. Vou esmifrá-los com baixas de ordenados e impostos. Vão ficar a saber quem eu sou! Vão pagar com língua de palmo e se pensam que os pais os vão ajudar, que tirem o cavalinho da chuva, vou lixar as reformas dos velhos, não há ajuda para ninguém, que imigrem. Malandros!

-O Gasparzinho já está a abusar um bocadinho?

-Não mamã, eu já expliquei aos gajos, não sei se perceberam, pois quando acabei de falar, metade tinha abalado e a outra metade dormia profundamente.

-Mas filho assim, qualquer dia, as pessoas deixam de gostar de ti!

-Cada vez gostam mais, uma loucura total, onde vou estão à minha espera e cantam-me uma tal Grândola Vila Morena, não sabem outra. Gostam muito,  se não fosse a polícia vinham para cima de mim para me abraçar, mas não deixo, não gosto dessas manifestações de carinho.

-Mas filho o povo está queixoso!

-Não tenho culpa, se o Benfica tivesse ganho e se chovesse, todos os dias, seria diferente, mas assim tenho que carregar nos gajos.
Parece que já me estou a ouvir:
-Gaspar mais um roubito para compensar!

Tem que ser assim, não lhe posso chamar impostos senão esta cambada vai para o Tribunal Constitucional e, eles lá, não são muito melhores.

-Sabes uma coisa Gaspar, já começo a estar arrependida de te ter parido!


                                                      8

-Sabes mãe que aqueles cavacos que punhas no lume, também ressuscitaram?

-Não diga asneiras rapaz, aquilo eram cepos!

-E o que pensas que este é ? Mas é um gajo porreiro, nós fazemos tudo e ele fala no Facebook. Mas quem lê essas coisas se tem um BigBrother?
Até eu vejo muitas vezes, ando a estudar uma maneira de cobrar uns impostos, impostos não, umas massas àquela palhaçada.

-Ai Gaspar, estás cada vez pior!     


                                                     9

-Sabes uma coisa mãe, o nosso coelhinho, o que ressuscitou, agora é primeiro-ministro, é um espectáculo como se lembra de mim. Faz o que eu quero e digo. Tem cá um respeitinho!

-Porque não deixas isso e vais para Bruxelas como sonhas?

-Tudo a seu tempo, mãe! Ainda há gajos que respiram, ainda não acabei a minha missão.


                                                    10


-Houve filho de um comboio, a partir de agora não me chame mais mãe, não sou tua mãe! Eu pari um rapaz e não um monstro!

-Houve lá velha, não é assim! Se deixas de ser minha mãe tens que pagar umas taxas, não penses que te safas. Vou mandar aí os fiscais da finanças para cobrar e, não penses que fazes como o Viegas, que mandou os desgraçados a levar no cú.





terça-feira, 11 de junho de 2013

A partida






Há muitos dias que a ideia lhe bailava na cabeça,  era um pouco estranha mas era uma ideia que ia crescendo. Primeiro surgiu quase por acaso, foi um pensamento subtil, quase tímido mas cresceu e agora fazia parte do seu quotidiano.

Tentava pensar numa solução e, por mais voltas que desse à cabeça, não lobrigada uma maneira de se libertar. Por vezes até parecia gostar da situação, tal o amorfismo e um certo deixa andar, como se o tempo, que tudo resolve, pudesse vir em seu auxílio.

De repente, foi como se uma luz se tivesse acendido no seu cérebro, um fogacho e a ideia instalou-se como uma lapa. Primeiro devagarinho, para ganhar espaço, depois grudou de tal forma que parecia fazer parte da própria cabeça.

****

Ao princípio não se importou muito, pareceu-lhe quase natural mas, com o decorrer do tempo, uma certa estranheza foi-se instalando, não era normal, depois de um namoro romântico, de palavras doces sussurradas em surdina, veio um casamento que parecia abençoado.
Depois esta violência. Primeiro eram as palavras ladradas em frases cruéis, a ausência dos carinhos, depois os sopapos que doíam mais na alma que no corpo.

A alegria morreu no medo da companhia, antes tão desejada.

As noites eram pesadelos sofridos nos bafos de vinho ordinário, numa entrega, ausente, de corpo massacrado num uso de afecto forçada.

Depois os interregnos, curtos, muito curtos, de arrependimentos que morriam no saciar dos desejos.

Não queria mais nódoas negras, nem cremes para as disfarçar, não queria mais desculpas para esconder o que todos já sabiam.

Ia perder o medo, afinal já tinha morrido há tanto tempo que se morresse, mais uma vez, não ia notar, mesmo nada.

*****

Pensou em tantas coisas que já estava baralhada, imaginou acabar com a raça do gajo ou cortar-lhe, algo, com a tesoura de podar. Havia riscos, se lhe acabasse com a existência ia presa, se lhe cortasse, aquilo, corria o risco de ele acordar e então, havia um cadáver mas não seria o dele.

Estava confusa, no fundo ainda sentia algo por ele, não sabia bem o quê, mas sentia.

*****

De verdade, ainda gostava dele.
Talvez as coisas pudessem mudar.
Mais uma oportunidade. Afinal, ele, não era assim!





domingo, 2 de junho de 2013

Marcas







Tentou abrir os olhos mas, a dor aguda que o percorria, apenas lhe deixou entrar uma confusão de luzes, barulhos e sons que não conseguia compreender. Havia uma espiral de claridades azul, girândola que lhe atravessava as pálpebras cerradas.

Queria falar mas as palavras ficavam perdidas num emaranhado de confusão, que não sabia explicar.

Não sentia o corpo, estava leve, num levitar doce e tranquilo.

Viu o pai, chamava-o de joelhos na areia molhada da praia. Correu para os braços, fortes, que abraçaram com amor o seu corpo ainda tão frágil.

Era tão criança a correr, atrás da bola que o pai atirou para longe. Correu molhando os pés na água que se espraiava na areia.

Ao longe a mãe sorria.

Viu-se a receber o canudo da formatura, a mãe tinha os olhos molhados das lágrimas, de satisfação, pelo seu menino. A Laura, estava ao lado e, sorria com tanto amor, que lhe apetecia deixar a formatura e correr para os seus braços e, beijá-la com todo o amor que sentia.

Lembrou o dia do casamento, sentiu-se ridículo naquele trajo de cerimónia. A Laura estava deslumbrante, tão radiosa.

Sentiu-se a levitar, numa doçura e, numa tranquilidade como nunca sentira antes.

Era uma música diferente, sons que nunca antes escutara, uma harmonia, que o embalava como se flutuasse num mar de pétalas perfumadas.

A luz avançava devagar, num salomónico de luzes suaves, que o levavam enleado em reflexos de rostos que conhecia mas de que se não lembrava.

Depois………... foi  o silêncio.

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Jornal Correio da Manhã do dia 24 de Dezembro.

Mais um grave acidente ceifou uma vida na flor da idade e deixou outra em estado muito grave.
João Gomes, um jovem de 23 anos, quando chegou ao Hospital já era cadáver, a sua esposa Laura Gomes está em observação com prognóstico muito reservado.
Segundo testemunhas do acidente, pode ter sido o excesso de velocidade e o estado do piso, devido ao mau tempo, os causadores do grave despiste que originou mais uma tragédia na véspera do Natal.
As autoridades pensam que............

               



terça-feira, 28 de maio de 2013

A Espera





Quatro da tarde, ou talvez mais, e as notícias são, apenas, um enorme silêncio.

Esta situação não era nova, já se vinha repetindo há muitas semanas, mas ela, continuava a acreditar que um dia o milagre ia acontecer.

Não tinha relógio, não a deixavam usar, mas pela posição do Sol, nas frestas das persianas, deviam ser quatro horas.

Talvez não fossem mas, na imaginação de Marta, deviam ser mesmo essas horas.

Ontem, quando aquele médico horrível, achava ela, a veio visitar a luz do Sol incidia da mesma maneira e eram quatro horas, ela ouviu a enfermeira Helena, ou talvez seja Filomena, dizer ao médico:

-Hoje veio cedo senhor doutor são só quatro horas! Ele resmungou, qualquer coisa, uma espécie de grunhido que ninguém percebeu, só a enfermeira Filomela - ou será Helena? - deve ter compreendido. Mas isso agora não interessa, é só para verem que embora todos pensem que está maluca, mas não está! Se estivesse doida não reparava para este pormenor do Sol nas persianas.

Foi no último domingo - ou seria no sábado? - que lhe disseram que vinha hoje. Mas mentiram, ou ele como de costume, mais uma vez, dizia uma coisa e fazia outro. Sempre foi assim, um belo rapaz, bom e amigo, mas muito esquecido.

Não valia a pena esperar mais, as persianas tinham escurecido.

  
 Se calhar estava a fazer confusão, não era hoje, é capaz de ser amanhã, estes comprimidos amarelos que a enfermeira Helena - ou será Filomena? - a obriga a engolir deixa-a um pouco esquecida.

Não tarda muito, metem na cama e fica à espera porque amanhã, tem  certeza, vem mesmo.

Tem que vir, tem que lhe explicar porque a meteu neste casarão! Sem nada, sem dinheiro, especada à espera, nem sabe bem do que.

Confessa que tem muitas saudades da sua casinha.

Gosta tanto de falar, um pouco, com a dona Gracinda - ou será Gracinha? - a cabeça não esta nada boa, são os comprimidos amarelos, podem ter  certeza que são. Já pensou fingir que os toma e deita-los fora, mas a enfermeira Filomena - ou será Helena? - obriga-a e ela é tão boazinha que não tem coragem de a enganar.

Amanhã, quando o Carlos a vier ver - vem de certeza! - é um bom menino, vai pedir-lhe para a levar para a sua casa, já está aqui há tanto tempo que começa a estar farta.

Este sono, vem assim de repente, quer abrir os olhos e não consegue, são os comprimidos amarelos, tem a certeza que são.

Vai dormir, quer acordar bonita para quando o Carlos chegar. Ele gosta tanto que a mãe se arranje e esteja assim linda!

****

A enfermeira foi ajeitar-lhe a roupa, olhou-a com carinho e suspirou:

-Pobre dona Marta, desde que o filho morreu, na naquele acidente de mota, ficou neste estado!





terça-feira, 21 de maio de 2013

O Padre









-Mamã gostas do senhor padre Isidoro?

-Gosto, é boa pessoa e muito amigo das  crianças.

-Sabes mamã que já tou chateada com ele?

-E porque Clarinha?

-É chato com os meninos! 

-Se calhar os meninos não se portam bem!

-Portam pois, portam-se muito bem mamã!

-Se se portam bem porque é que ele é chato?

-Está sempre com um ao colo e a gente não gosta de estar ali sentados.

-Nunca estão satisfeitos, quando a dona Otília dava a catequese,  diziam que era uma mal disposta. O senhor padre, porque as meninas se queixavam, tomou ele por sua conta essa tarefa e, agora é chato porque é carinhoso? Vocês não sabem o que querem, valha-me Deus!

********

O padre Isidoro apareceu, qual Dom Sebastião, numa nevoenta manhã de Novembro, o povo estava no adro da Igreja para o receber, com a solenidade e respeito que tão desejado personagem merecia.
Parecia dia de festa. A simpatia e delicadeza, do vigário, facilmente conquistaram os corações dos paroquianos, um pouco desiludidos com o padre Moreira que se acabou de reformar, rabugento, com preconceitos e incapaz de se adaptar a abertura da Igreja aos tempos modernos. Era um pouco inquisitorial, arreigado a princípios dogmáticos, sem compreender que a evolução faz parte da vida.

Foi uma autêntica revolução, a missa deixou aquela monotonia monocórdica, a guitarra acompanhava os cantos solenes, a juventude começou a animar as cerimónias.

A catequese, quase um castigo para as crianças, deixou de ser um momento tedioso. A catequista, dona Otília, foi mandada em paz.
Agora o padre Isidoro tomava a seu cargo essa missão.

O padre ensinava, fazia jogos, organizava passeios e mantinha um dinamismo que os miúdos adoravam. Só achavam que o padre era carinhoso demais e estrafegava os meninos, tornando-se chato.

******

Tinha começado o mês de Julho, muito calor e grande euforia.

A costureira, da aldeia, não tinha mãos a medir, os vestidos para as meninas que iam fazer a comunhão solene, tinham que ficar prontos. As mães andam num corrupio para os seus rebentos, poderem brilhar nos vestidos brancos, bordados.

O padre Isidoro juntou na Igreja todos, os que iam confirmar o baptismo, era preciso ensaiar a cerimónia, para tudo bater certo e para os meninos ficarem preparados e saberem os lugares a ocupar.

Correu bem, saíram da Igreja qual bando de pássaros, em alegre chilrada, a caminho das suas casas.

Começou a entardecer, dona Mafalda, começou a ficar preocupada, Clarinha já devia ter regressado do ensaio, eram cinco horas e ainda não apareceu.
Meteu os pés numas sandálias e foi a caminho da Igreja.
Estava fechada, bateu na porta da sacristia mas só o silencio lhe respondeu.

A preocupação começou a tomar conta do seu pensamento, não era a primeira vez que a rapariga lhe pregava uma partida desta. O ano passado, mais ou menos por esta altura, meteu-se a caminho da Coutada, com uma pequena caixa e a ideia de apanhar um grilo, para a gaiola que estava pendurada num prego da marquise.

Foi uma tarde de agastura, e quando a encontrou. não se aguentou sem lhe dar uma grande nalgada naquele rabo.

-É para aprenderes, gritou no desespero.

A noite estava a cair e o raio da rapariga sem aparecer, foi ao posto da guarda já lavada em lágrimas.
O sargento Acácio mandou uma patrulha ajudar os populares que se ofereceram para participar nas buscas.
Voltaram quando o Sol já tinha desaparecido, no horizonte, e a noite já ia caindo.

Na manhã seguinte, todos voltaram ao terreno. Vasculharam todos os recantos, não esqueceram a ribeira, que nesta altura do ano, estava quase seca, foi tudo em vão, nenhum sinal da Clarinha.

Nuvens negras começaram a povoar a cabeça daquela gente, o temor tomou conta de todos, o pior começou a pairar nos pensamentos.

Foi então que a voz de Mafalda ecoou no silêncio:

-Foi o padre, a minha filha bem me avisou e eu não a quis ouvir!

O povo agitou-se, olharam-se como se vissem pela primeira vez. Um sururu tomou a praça, os ânimos exaltaram-se e uma onda de homens, tisnados pelo sol, tomou o caminho da Igreja.
O sargento Acácio disparou um tiro, para o ar, e o povo, como por encanto, estacou.

-Mas afinal o que se passa aqui! Gritou a autoridade.

-Foi o padre, é pedófilo, senta as crianças no colo, foi ele, só pode ter sido ele! Gritou Mafalda.

O sargento olhou-a de alto a baixo, segurou-lhe o braço e perguntou:

-Tem alguma prova disso, ou quer ser cúmplice de um linchamento?

O povo acalmou e aos poucos foram abandonando a praça.

****

O padre foi investigado e ficou provado nada ter de suspeito, no dia do ensaio, saiu muito depois das crianças. Foi confirmado pelo sacristão e por alguns fiéis que estavam na Igreja, a Clarinha saiu para rua, com os restantes companheiros.

Ficou desgostoso, tão triste, incapaz de encarar quem tão mal o tratou. Fez a mala e desapareceu daquela terra sem vontade, sequer, de olhar para trás.

*****

Em Agosto, o Chico Brotoeja, um pobre diabo, meio lerdo, que passava os dias acomodado, num mocho, à porta da tasca do Basílio, lembrou-se de perguntar ao taberneiro:

-Oh mestre Basílio, porque será que o homem do carro azul nunca mais apareceu?

-Qual homem do carro azul? Perguntou, de maus modos, o taberneiro.

-O que foi casado com a dona Mafaldinha, a que mora nas casas do João da Nora!

-O divorciado que abalou para Lisboa? Inquiriu Basílio.

-Esse mesmo, mestre Basílio, esse mesmo! Gritou o Chico.

-Porra que ideia a tua! O homem vazou há anos e agora vens com essa do carro azul. Ele nem carro tinha!

-Não tinha mas agora tem! Eu vi-o outro dia quando levou a menina.

-Menina? Qual menina?

-Qual menina, qual menina! Qual menina havia de ser? A filha deles, a Clarinha!