sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Regresso




Muitos me incentivaram a voltar, no fundo era esse o meu desejo, mas por outro lado, um certo comodismo impedia essa vontade.                                                                                                
Hoje voltei e, a todos, estou grato. Vou dedicar este pequeno ensaio a uma amiga, que foi especial nesta fase.                                                                                                                     
Obrigado Dila!






Senti uma lágrima deslizar, suavemente, pelo rosto e cair em borrão, na folha que estava a escrevinhar.

Já não era a primeira vez que me deixava emocionar com as pieguices, que eu próprio inventava, agora, as lágrimas, apenas se perdem no espaço, quase se evaporam, já não tem folhas para manchar.

Mas voltando a esse tempo, em que os computares eram apenas uma visão do futuro, lembro-me, perfeitamente, dos rabiscos que se iam alinhando, na estória duma infância e que, a pouco-e-pouco, se iam diluindo na memória da saudade.

Eu era pequeno, talvez adolescente, e morava numa pequena casa nas margens de um rio, talvez de um oceano, mas para mim era apenas um regato que me deixava adivinhar o que acontecia na outra margem.

Olhava, mas precisava  fechar os olhos para poder, com mais clareza, vislumbrar pequenos momentos de encanto ou, quiçá, de magia.

No outro lado, por entre a neblina da distância, adivinhava alguém que iria mexer com a minha imaginação.

Cerrava com mais força os meus olhos, mas o pensamento não me trazia a imagem, só os sentimentos, uma certa candura e um enorme romantismo, pois só quem é romântico vagueia, assim, por entre a flores e, se espraia nas frases de encantamento dos poetas.

O tempo passou, cresci, a casa já não é  mesma, só se mantém o imenso, desse, oceano.

Os computadores, deixaram de ser uma visão, são tão reais que as águas se abriram, como a Moisés, e deixaram-me perceber que os sonhos podem transformar-se na realidade.

Continuo sem ver a imagem, é distante, mas adivinho-a cheia de beleza.

A beleza está no coração, nas palavras no momento certo, nas frases eivadas de ternura,  nas flores entrelaçadas em corações ternos, no bom fim-de-semana desejado, enfim, nos pormenores que nos dão o ânimo que,  tantas vezes, já nos vai faltando.

Hoje, o impensável deixou de ser um sonho, o oceano já não é imenso, a outra banda ficou aqui, ao meu lado.

A imagem, deixou de ser penumbra, passou a brilhar no meu mundo virtual.

Agora a magia da DILA faz parte do meu presente.

É minha amiga e quer que eu volte.

Convenceu-me com as suas palavras e eu prometi.

Prometi, Dila, estou a cumprir!




segunda-feira, 15 de julho de 2013

Despedida







Há palavras que doem, há momentos dolorosos  e decisões que nos tolhem.

Quem me conhece, um pouco mais do que aqueles que fazem o favor de me acompanhar, por aqui, sabem que eu sempre vivi rabiscando os blocos que me acompanharam, hoje, substituídos pelo computador ou IPad.

Vivi momentos em quem o escrever, era bem mais que escrever. Sem ser cura, disfarçava as dores que me apertavam, me oprimiam e que só vão morrer quando eu partir.

Mas, confesso! Estou muito cansado e desiludido, sinto um vazio que nem as frases já conseguem preencher, sinto uma nostalgia letárgica, um sentimento que não sei, bem, explicar.

Ando pelos vossos Blogues, que amo, porque sempre me acompanharam, e apenas deixo palavras de circunstâncias porque me falta a verve para ir mais além.

Eu queria e, há muitos meses que o penso, mas só hoje ganhei a coragem que me tem tolhido o desejo.

Vou fechar este Blogue, devagar, da forma menos dolorosa, quase sem o sentir.

Tudo, tal a vida, tem um fim!

Vou sofrer, vou ter a sensação de, mais uma vez, perder parte da minha existência. Mas vou fechar!

Devagar, quase despercebido.

Se um dia aqui chegarem e,  este espaço, seja apenas espaço, fiquem certos de que ando por ai, a espreitar, no silêncio, mas sem nunca os esquecer.

Afinal, todos vós, já fazem parte de mim!

Perdoem esta lágrima rebelde!
Manuel





O que me dói não é 
O que há no coração 
Mas essas coisas lindas 
Que nunca existirão... 

São as formas sem forma 
Que passam sem que a dor 
As possa conhecer 
Ou as sonhar o amor. 

São como se a tristeza 
Fosse árvore e, uma a uma, 
Caíssem suas folhas 
Entre o vestígio e a bruma. 

Fernando Pessoa

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A escolha







Dona Matilde limpou as mãos ao avental, num gesto quase casual, tentou abafar a raiva mas não conseguiu, foi mais forte que ela e gritou:

-Ah filha de um chibo, se te ponho as mãos deixo-te sem conserto!

Rosinha ficou sem pinga de sangue, nunca pensou que a mãe fosse senhora para tamanha linguagem.

-Filha de um chibo!  Como podia dizer tal coisa, o defunto pai não era nada disso. Se fosse, então o que chamar à mãe?

Arranjou coragem e enfrentou-a:

-Então mãe é preciso essa linguagem e esses palavrões?

-Palavrões? Palavrões vais tu ouvir quando te puser as mãos em cima. Ou pensas que isto fica assim? Pensas que eu vou aturar essas modernices! Não te passe isso pela cabeça, prefiro ver-te num caixão!

-Oh mãe, não digas isso, Deus ainda te castiga! Choramingou Rosinha.

-Ouve rapariga, não venhas com lágrimas de crocodilo, não queiras apelar a sentimentos, porque isso é uma coisa que tu não tens, se os tivesses olhavas para o pobre do Hilário que parece um cão vadio, ofegante a seguir os teus passos, a beber as tuas palavras, a adivinhar os teus pensamentos. E tu, tu, minha cabra, miras e finges não ver! Olhas, aproveitas as benesses e nem uma festa na cabeça do pobre cachorro.

-Mas mãe não compreendes, a minha felicidade para ti não conta! E sabes mais? Prefiro que me vejas num caixão, nem irias sentir minha falta, mas posso garantir que não te vou dar esse prazer! Vou seguir a minha vida! Gostes ou não gostes! Se o pai fosse vivo, tenho a certeza que me ia compreender e dar-me a apoio que tu não me dás.

Matilde corou, parecia que lhe ia dar uma coisa má, enrolou as mãos no avental num gesto nervoso e gritou:

-Deixa o desgraçado do teu pai em paz! Porque se ele voltasse e visse, o que eu ando a ver, morria outra vez, e desta vez ia morrer feliz!

Rosinha empinou o nariz, limpou os olhos, empertigou-se naquele orgulho mascarada de altivez e bateu com a porta, enquanto ia sussurrando:

-Vou respirar para a rua, aqui só cheira a retrógradas, a velhas!

Saiu rápida, mas ainda sentiu um sapato a bater na porta, que acabara de fechar.

A mãe era para esquecer, antiquada, bota-de-elástico. Não tinha paciência para a aturar. Tentou, Deus sabe que sim.

Mas que havia de fazer, o raio da velha, não aceitava que a filha se tivesse apaixonado por outra mulher, mas estava decidida ia viver com a Clarisse.

Clarisse era a mulher da sua vida!






segunda-feira, 1 de julho de 2013

A vida








Maria do Rosário estava apaixonada, nunca se sentiu assim, uma doçura desinquieta, um formigueiro na barriga, um acelerar no coração.

Já muitas vezes desejou e se sentiu atraída por rapazes,  ia com eles no sentido e adormecia com uma humidade, lascívia e confortante, mas agora era diferente, sonhava com um de mãos dadas, pensava em passeios à beira mar, olhos nos olhos, suspiros doces, beijos gordos e molhados, agora era um amor diferente, preenchia o corpo, alimentava a alma e dava sentido à vida.
Agora, sabia ela, era amor de verdade.

Conheceu-o, por acaso, é daquelas coisas que acontecem, deve ser o destino. Foi na casa da Margarida, num fim de tarde que prometia mas, de repente, começou a chover intensamente. O boletim meteorológico já a tinha avisado mas, como sempre, não ligou.

Ele estava lá, era primo do marido da amiga.

Prendeu-lhe os olhos, percorreu-lhe o corpo, sentiu-lhe o cheiro, tomou conta do seu querer. Queria falar mas ficou sem graça, aparvalhada.

-Que se passa rapariga, perguntou Margarida. Nunca te vi, assim, tão calada!

-Desculpa amiga, sussurrou Maria do Rosário, mas há momentos de magia e até as mais tagarelas, como eu, se deixam prender.

Depois arrependeu-se de ter falado, corou, gaguejou e foi até à janela fingindo ir espreitar a chuva.

Mário, assim se chamava o Apolo, percebeu o encabulamento da rapariga, já era normal causar esse enlevo nas mulheres.
E gostava!

Mas esta parecia diferente, não foi só físico, sentiu magia, uma atracção feita do desejo da presença, de gosto pelo olhar e do prazer pelo estar. 

Era linda, assim lhe pareceu, olhos que brilhavam, intensamente, numa cor indefinida,  rosto emoldurado por fartos  caracóis negros, lábios maduros e um corpo com tudo no sitio certo e nas quantidades devidas. Deus, quando a concebeu, não estava de férias, redundante, mas graças a Deus!

A tarde ia caindo e a chuva parecia querer continuar, eles bem avisaram!  Mário aproveitou para perguntar:

-Maria do Rosário, julgo ser esse o teu nome, posso deixar-te em qualquer lado? Está o chover e eu tenho o carro mesmo defronte da porta!

A rapariga tremeu, sentia algo a trepar pelas pernas, jura que um frio lhe percorreu a espinha e se foi diluir, num doce calor, num sítio que não era capaz de dizer.
Quis falar - muito obrigado não vale a pena! - mas o desejo deu-lhe uma martelada na cabeça e apenas lhe saiu:

-Muito obrigado mas vou aceitar, nem guarda-chuva tenho!


*****

Começou assim, como a nascente de um regato, timidamente, depois tonou-se firme, intenso e apaixonado.
Correram todos os caminhos do amor, ternos, doces, relaxantes, brutos e loucos.
Foram brisas e tempestades, doidos, irracionais e meigos, tão meigos como as sedas deslizantes dos lençóis.

***
Um dia, desgraçadamente, há sempre um dia, ele não apareceu.

­-É a minha ânsia, dizia Maria do Rosário, afinal ainda é cedo!
Já passou uma hora, nunca se atrasou cinco minutos.

-Estará farto de mim! Imaginou com pavor.
 Não pode ser, ainda ontem fizemos o amor mais doce e intenso, mais firme e mais selvagem, tal como ele, como nós, gostamos.

-Foi o trânsito, deve estar numa zona sem rede, o telemóvel não dá sinal.

-Será que me usou e agora desaparece, assim, subtil como apareceu!
-Não lhe perdoaria nunca, era capaz de o matar, não seria de mais ninguém!

Telefonou para todo o seu mundo, e para o mundo comum.

Ninguém sabia dele.

-Alguma das suas parvoíces! Disse a tia Aninhas. Tal como o ano passado, quando se meteu no avião e foi para umas maluquices em África!

-Não, não pode ser, gritou Maria do Rosário, ele não me fazia isso!

********

Nem sempre as más notícias são as primeiras a chegar, foi no dia seguinte, às 11 horas, que o telemóvel tocou, Era a Emília:

-Rosário, vem já a minha casa! E desligou.

Sentiu uma agonia que lhe deixou um zoar na cabeça, queria pensar e nada, as ideias troavam num desalinho total. Que terá acontecido?

Não gostou do que encontrou, caras pesadas, olhos vermelhos de choro, um cheio acre a desgraça.

-Mas o que se passa?  Perguntou Maria do Rosário. Que foi? Contem-me por favor?

-Tem calma, pediu Emília, vamos ter fé, vamos rezar. O Mário teve um acidente, com a mota, está no hospital e muito mal mas ele é forte. Vamos pedir a Deus!

-Se ele morrer eu morro com ele, juro, chorou Rosário.

Deus não os ouviu, ou não quis ouvir, ou então, fingiu que não estava atento e o pobre Mário não resistiu.
Morreu nesse dia as 21 horas e sete minutos.

******

Maria do Rosário carregou um luto de três dias, pensou com tristeza nos bons momentos, nos passeios românticos à beira rio, recordou com saudades as serenatas que ele improvisava, não cantava bem mas a voz rouca tinha uma certa magia, reviveu  aqueles momentos, de pura loucura, nos imagináveis lugares onde aconteciam , sem tabus, sem medos, quase irracionais.

Viu, como num filme, o cadáver sereno naquela urna cheia de dourados, o mesmo sorriso que a morte não soube apagar, depois aquela mole imensa a caminho dum cemitério onde, o forno grande, transformou em cinzas o que restou de uma vida.

Foi o regresso a casa, agora mais vazia, diferente, sem as gargalhadas roucas. Silencio, apenas silencio que dói, de forma estranha, dentro de nós.

******

Encontraram o corpo passados dois dias, vestida de noiva, com um esgar de sofrimento no rosto.
As pessoas dizem que foi do desgosto, os médicos sabem que foi do veneno.




Esta bela música foi oferta de uma grande amiga , no sexto aniversário do meu Blogue.


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Mais um ano vai passado

  24 de Junho de 2007



                                              24 de Junho de 2013







Para todos os que me tem ajudado com palavras, amizade e carinho o meu muito obrigado.

Façamos um brinde!






terça-feira, 18 de junho de 2013

Os dez sofrimentos







Qualquer semelhança com personagens ou factos existentes pode não ser pura coincidência.


                                                  1


-Mãe os meninos da minha escola só gozam comigo! Chamam-me caga-tacos e padre!

-Não ligue Gaspar, é inveja! Tu não és caga-tacos, és pequenino mas muito inteligente e a tua voz é especial. É verdade que, às vezes, quando te oiço fico com sono! Mas é contemplação!
 Não ligues querido, estuda e, ainda, um dia os vais castigar.
Agora vai dar de comer ao teu coelho e, de caminho, trás um cavaco para a lareira.


                                                  2


-Mãe, eu, sou o melhor a fazer contas e a minha professora diz que me engano muito.

-Não ligue, é inveja! Tu não te enganas, ela é básica e não tem inteligência para te acompanhar. Estuda filho que um dia, eles vão engolir isso tudo!
Lava as mãos e vamos comer, já dei uma ração ao teu coelho e, hoje, não preciso de nenhum cavaco.



                                                  3


-Mãe, hoje, um menino disse que eu, para ser parvo não me falta nada. Achas que eu sou parvo?

-Não ligue a esses pés rapados, não tem onde cair mortos. Continua a estudar e ainda os vais meter a todos na ordem!
O teu coelho tem que levar nas orelhas, anda a abusar, só faz merda, não tarde vai para o tacho. E cavacos já não são precisos mais, comprei um aquecer a óleo.


                                                      4


-Mãe vou para a faculdade, vou estudar para ministro das finanças!

-Mas Gaspar também se estuda para isso? Vais tirar Economia. Para ministro das finanças qualquer parvo serve, não é preciso estudar.

Mas mãe, eu quero ser especial, quero ser diferente e para isso tenho que estudar muito!
Quando entrar para a faculdade, vamos fazer um sacrifício para alegrar os Deuses. Vamos imolar o coelho, não é matar, e vai para o forno com bacon e cogumelos. Tem que ser, este já fez a merda que tinha a fazer, outro virá a caminho, que adora relvas e que nos vai fazer esquecer este!


                                                       5

-Afinal, mãe, os gajos da faculdade são a mesma coisa, não são tão directos, mas já os ouvi comentários sobre um caga-tacos e a voz de padre. Não sei se será por minha causa, sou pequenino mas essa da voz é que não compreendo.

-Oh Gasparzinho, são invejas por ser o melhor, o mais inteligente e o mais capaz para um futuro ministro das finanças. Quando à voz não te preocupes, sais à tua avó paterna, também falava assim, nesse jeito clerical.       

      
                                                 6


-Mãe já sou doutor, acabei a faculdade agora vou tirar meia dúzia de mestrados e pós graduações. A seguir vou fazer parte de muitas coisas, vou ser chefe de Comissões, Delegações e tudo isso. Sou pequenino mas vou chegar lá a cima.

-Mas como sabe essas coisas todas, Gasparzinho?

-Não digas a ninguém, mãe, mas foi uma cigana no Jardim da Estrela que me leu a sina.


                                                          7

-Sabes mãe, o meu coelhinho deve ter ressuscitado, telefonou-me a convidar-me para ministro das finanças. Vou aceitar, toda a vida estudei para a vingança, agora vão ver quem é o caga-tacos e o vózinha de padre!

A maioria dos meus ex-colegas são funcionários públicos estão bem lixados vão pagar pela má-língua. Vou esmifrá-los com baixas de ordenados e impostos. Vão ficar a saber quem eu sou! Vão pagar com língua de palmo e se pensam que os pais os vão ajudar, que tirem o cavalinho da chuva, vou lixar as reformas dos velhos, não há ajuda para ninguém, que imigrem. Malandros!

-O Gasparzinho já está a abusar um bocadinho?

-Não mamã, eu já expliquei aos gajos, não sei se perceberam, pois quando acabei de falar, metade tinha abalado e a outra metade dormia profundamente.

-Mas filho assim, qualquer dia, as pessoas deixam de gostar de ti!

-Cada vez gostam mais, uma loucura total, onde vou estão à minha espera e cantam-me uma tal Grândola Vila Morena, não sabem outra. Gostam muito,  se não fosse a polícia vinham para cima de mim para me abraçar, mas não deixo, não gosto dessas manifestações de carinho.

-Mas filho o povo está queixoso!

-Não tenho culpa, se o Benfica tivesse ganho e se chovesse, todos os dias, seria diferente, mas assim tenho que carregar nos gajos.
Parece que já me estou a ouvir:
-Gaspar mais um roubito para compensar!

Tem que ser assim, não lhe posso chamar impostos senão esta cambada vai para o Tribunal Constitucional e, eles lá, não são muito melhores.

-Sabes uma coisa Gaspar, já começo a estar arrependida de te ter parido!


                                                      8

-Sabes mãe que aqueles cavacos que punhas no lume, também ressuscitaram?

-Não diga asneiras rapaz, aquilo eram cepos!

-E o que pensas que este é ? Mas é um gajo porreiro, nós fazemos tudo e ele fala no Facebook. Mas quem lê essas coisas se tem um BigBrother?
Até eu vejo muitas vezes, ando a estudar uma maneira de cobrar uns impostos, impostos não, umas massas àquela palhaçada.

-Ai Gaspar, estás cada vez pior!     


                                                     9

-Sabes uma coisa mãe, o nosso coelhinho, o que ressuscitou, agora é primeiro-ministro, é um espectáculo como se lembra de mim. Faz o que eu quero e digo. Tem cá um respeitinho!

-Porque não deixas isso e vais para Bruxelas como sonhas?

-Tudo a seu tempo, mãe! Ainda há gajos que respiram, ainda não acabei a minha missão.


                                                    10


-Houve filho de um comboio, a partir de agora não me chame mais mãe, não sou tua mãe! Eu pari um rapaz e não um monstro!

-Houve lá velha, não é assim! Se deixas de ser minha mãe tens que pagar umas taxas, não penses que te safas. Vou mandar aí os fiscais da finanças para cobrar e, não penses que fazes como o Viegas, que mandou os desgraçados a levar no cú.





terça-feira, 11 de junho de 2013

A partida






Há muitos dias que a ideia lhe bailava na cabeça,  era um pouco estranha mas era uma ideia que ia crescendo. Primeiro surgiu quase por acaso, foi um pensamento subtil, quase tímido mas cresceu e agora fazia parte do seu quotidiano.

Tentava pensar numa solução e, por mais voltas que desse à cabeça, não lobrigada uma maneira de se libertar. Por vezes até parecia gostar da situação, tal o amorfismo e um certo deixa andar, como se o tempo, que tudo resolve, pudesse vir em seu auxílio.

De repente, foi como se uma luz se tivesse acendido no seu cérebro, um fogacho e a ideia instalou-se como uma lapa. Primeiro devagarinho, para ganhar espaço, depois grudou de tal forma que parecia fazer parte da própria cabeça.

****

Ao princípio não se importou muito, pareceu-lhe quase natural mas, com o decorrer do tempo, uma certa estranheza foi-se instalando, não era normal, depois de um namoro romântico, de palavras doces sussurradas em surdina, veio um casamento que parecia abençoado.
Depois esta violência. Primeiro eram as palavras ladradas em frases cruéis, a ausência dos carinhos, depois os sopapos que doíam mais na alma que no corpo.

A alegria morreu no medo da companhia, antes tão desejada.

As noites eram pesadelos sofridos nos bafos de vinho ordinário, numa entrega, ausente, de corpo massacrado num uso de afecto forçada.

Depois os interregnos, curtos, muito curtos, de arrependimentos que morriam no saciar dos desejos.

Não queria mais nódoas negras, nem cremes para as disfarçar, não queria mais desculpas para esconder o que todos já sabiam.

Ia perder o medo, afinal já tinha morrido há tanto tempo que se morresse, mais uma vez, não ia notar, mesmo nada.

*****

Pensou em tantas coisas que já estava baralhada, imaginou acabar com a raça do gajo ou cortar-lhe, algo, com a tesoura de podar. Havia riscos, se lhe acabasse com a existência ia presa, se lhe cortasse, aquilo, corria o risco de ele acordar e então, havia um cadáver mas não seria o dele.

Estava confusa, no fundo ainda sentia algo por ele, não sabia bem o quê, mas sentia.

*****

De verdade, ainda gostava dele.
Talvez as coisas pudessem mudar.
Mais uma oportunidade. Afinal, ele, não era assim!