sábado, 9 de novembro de 2013

A Mâe






Ainda não era meio-dia  e a mãe já chamava para o almoço, era sempre assim, quanto mais depressa nos despachasse tanto melhor.

O almoço era, quase sempre, a mesmo sopa de couves com uns feijões a boiar no caldo, um pedaço de pão e uma fruta.
O pão era a única coisa nova, porque a sopa era igual à de todos os dias. Fazia uma panela enorme, congelava em tigelas de plástico e, ao almoço, saiam duas, uma para mim e outra para a Clotilde, depois desaparecia e só voltava ao anoitecer.
Nós ficávamos livres para calcorrear as ruas do bairro.

Mas hoje foi diferente, tivemos um prato de arroz com ovos mexidos, nem queríamos acreditar.
Mas era verdade! A Clotilde até se atreveu a perguntar:

-Mãe hoje é algum dia especial?

A mãe deu uma pequena gargalhada, antes de responder:

-Come e não sejas parva, a vizinha Adelaide deu-me seis ovos!

****

A mãe era única, o nosso pai morreu naquele tractor tinha eu, três anos e a Clotilde um.
Foi difícil, ela só sabia trabalhar na lavoura a ajudar o pai, por isso teve que deitar mãos à vida. Tratava de nós, tínhamos pouco, mas fome, nunca passámos.
A nossa roupa estava já, um pouco delida pelo uso, mas sempre imaculada, pois quando chegava, já muito de noite, enchia a selha e, com sabão azul e branco, deixava tudo a brilhar.

Às vezes, quando vinha cansada, sentava-se no velho canapé de buinho, pegava na Clotilde ao colo, segurava a minha mão e, com lágrimas no meio daquele sorriso lindo,  prometia:

-Um dia, saímos desta miséria. Juro que saímos!

Vou deixar de estar agarrada à loiça suja, vocês vão ter roupa nova, bonita, e refeições como todos, os meninos, devem ter.

A Clotilde, só tinha cinco anos, por isso acreditava e sorria, mas eu sou quase um homem, com sete anos, sabia que a mãe dizia essas coisas para nos animar.

A mãe era linda! Diziam, as vizinhas, que foi das moças mais jeitosas da freguesia, não lhe faltaram pretendentes ricos, mas ela embeiçou-se pelo nosso pai e casaram.
Mesmo depois do pai morrer, muitos a procuraram mas, sempre educadamente, dizia que quando ficou viúva tinha sido para a vida, foi do seu Ernesto, nunca seria de mais homem nenhum.

***

A mãe, ultimamente, andava estranha, não que tivesse mudado o tratamento, continuava carinhosa e cheia de esperança, por mais humilde que fosse a nossa vida, ela continuava a dizer que tudo ia mudar e não tardava nós, os seus meninos, íamos ter tudo a que as crianças têm direito.

Eu e a Clotilde queríamos saber onde a mãe trabalhava, já pensamos ir espreitar mas ela apanha um autocarro e desaparece, se fosse a pé era fácil embora a Clotilde, ainda tenha uns passos curtinhos.
Quem sabe, um dia, temos dinheiro e vamos espreitar onde a mãe trabalha e calar todos os que dizem que a mãe está a fazer coisas feias.

***

Hoje, como todos os dias, a mãe chamou:

-Venham almoçar que eu tenho que me despachar.

Foi uma festa, salsichas e batatas fritas, a Clotilde batia as palmas de contente, não se conteve:

-A mãe é a maior!

A mãe sorriu, deu-nos um beijo na testa e saiu para o trabalho.

****

Começamos a estar com medo, já é tarde e a mãe ainda não chegou, se calhar teve mais louça para lavar. O homem da televisão disse que eram 22 horas, fui perguntar à vizinha Adelaide, o que era isso de 22 horas, ela disse que eram 10 horas e explicou que depois do almoço as horas eram doutra maneira, não percebi nada, complicações dos crescidos.
A Clotilde estava enrolada no canapé com as lágrimas, quase, a romperem nos olhos.
Sosseguei-a, disse que a mãe teve mais trabalho e vinha tarde.
Peguei num pão, não sei muito bem como se corta ao meio, não ficou muito bem, mas deu para o untar com manteiga, muita, como a mana gostava, lavei e parti, às tirinhas, uma maçã encarnada e ela comeu, ficou melhor e acabou por adormecer.
Custou-me um bocadinho mas, consegui leva-la para a cama. Ficou sossegadinha, não a tapei com a coberta, estava muito calor.

Sentei-me no canapé a olhar para a televisão e devo ter adormecido.

***

Era muito cedo quando bateram à porta, levantei-me assustado. Pensei que a mãe perdera a chave, fui abrir a porta que só estava no trinco.

Não era a mãe, em frente estavam dois polícias, com a dona Adelaide, e uma senhora toda fina, com um chapéu na cabeça. A mãe dizia que as senhoras que tinham chapéu, eram pessoas da alta.

O policia  que tinha um bigode, como o meu professor, perguntou:

-És o Luís?

Abanei a cabeça a confirmar.

-E a tua irmã? Voltou a perguntar.

A voz não me saiu muito bem, se calhar vinha prender-me por ter arranhado o gordo, mas eu fiz o certo, a mãe sempre me disse para me defender, a mim e à minha irmã, mas respondi:

-A minha mana está a dormir, mas ela não tem nada a ver com o gordo, fui eu que lhe bati!

O polícia fez, por cima daquele bigode, uma espécie de sorriso, mandou-me acordar a Clotilde e disse para nos vestirmos, pois tínhamos que ir com a senhora, a do chapéu.

Repliquei:

-Não podemos ir, temos que esperar pela mãe, que está atrasada.

O polícia voltou a insistir:

-Vão tratar de vocês que, a vossa mãe, já não vem hoje.

Dona Adelaide falou lá de trás:

-Vão com os senhores que eu fico aqui e trato do resto!

-Diga, à minha mãe, onde estamos, pedi já numa espécie de choro. Eu sou um homem, mas a mãe sempre disse que chorar, não é vergonha pois, até os homens choram.

A casa para onde nos levaram era muito grande, havia mais meninos a brincar mas, nem deram pela nossa chegada.
A senhora do chapéu, chamou uma Deolinda e disse para nos dar banho.
Em casa, também, tomávamos banho na selha, a mãe aquecia uma panela de água, depois misturava com a fria. Eu gostava mas, a Clotilde choramingava.
Aqui era diferente, tinha duche, foi assim que a senhora disse. Foi bom, até a mana gostou.
Vestiram-nos umas roupas que não eram as nossas, mas tinha que ser, as que trazíamos não estavam muito limpas.

-Agora vão almoçar, disse uma senhora com um avental aos quadradinhos amarelos.

Ficamos numa mesa com uma menina de olhos azuis e um rapaz, da minha idade, cabelo vermelho e com muitas sardas.
A menina era muito bonita, fiquei a gostar dela e expliquei:

-A nossa mãe nunca mais chega, está muito atrasada!

-Se calhar morreu, como a minha, respondeu.

-Não gritei! Não morreu nada! A nossa mãe não morre, tem que trabalhar, trabalha muito e às vezes chega atrasada.

A senhora, do avental, apareceu com uma coisa que parecia a nossa terrina, mas muito maior. Com uma concha  ia deitando nas nossas tigelas, uma sopa, que parecia caldo verde. A Clotilde gostava muito eu, nem por isso.
Depois do caldo-verde, um prato de esparguete com carne, nunca tinha comido nada tão bom!
Um dia, pedi à mãe para fazer esparguete, ela prometeu que quando tivesse carne fazia.

No fim, ainda, nos deram uma taça, parecia de lata, com fruta aos pedacinhos, chamavam-lhe salada de frutas.

Durante o dia estávamos nas aulas, eu com os crescidos, a Clotilde com os mais pequenos.

À noite a Clotilde chorava, queria a mãe, mas a menina, de bata branca, fazia-lhe uma festa na cabeça, dizia coisas bonitas e ela adormecia.

Um dia perguntei-lhe quando chegava a nossa mãe, ela pareceu não saber, pois, disse que não tinha a certeza, mas que um dia vinha!

Comecei a ter pensamentos estranhos, será que a mãe se fartou de nós e foi com um homem, como diziam algumas pessoas que não acreditavam no trabalho da mãe?

Hoje é domingo, muitos meninos têm visitas e nós também. A nossa vizinha apareceu, numa roupa bonita, e deu-nos chocolates.
Apanhou a Clotilde ao colo e lambuzou-lhe a cara com tantos beijos, depois acalmou para suspirar:

-Tinha tantas saudades, tantas! Mas só hoje consegui!

-E a nossa mãe quando nos vem buscar? Perguntamos nós.

A Dona Adelaide ficou com cara de envergonhada, entrelaçou os dedos e só nos disse:

-Não sei filhos, a santinha está a descansar. Quando forem crescidos logo ficam a saber.

A Clotilde não percebeu mas, eu fiquei desconfiada de alguma coisa má, fiquei calado por causa dela.

 
Passado muito tempo, a Clotilde, foi adoptada por um casal muito simpático e está feliz.
Eu já era muito crescido, quase um homem, como dizia a mãe, ninguém me quis.

*******

Hoje vou fazer 15 anos e, o casal simpático, deram-me a melhor prenda que poderia esperar, vieram com a Clotilde.

Como estava linda a minha mana! Tinha 11 anos e parecia mais alto do que eu.

Falamos de tantas coisas mas, por coincidência ou de propósito, nenhum falou da mãe, parece que dentro de nós havia uma revolta escondida, não dizíamos, mas lá no fundo, sempre pensámos que a mãe tinha abalado sem se lembrar dos filhos.

Clotilde esteve pouco tempo, os novos pais, tinham coisas para fazer mas, eles não sabiam,  tinham-me feito muito feliz. Uma hora com a minha irmã!

Ainda não deviam ter chegado ao automóvel, agora a Clotilde andava de automóvel, e apareceu a dona Adelaide, estava a ficar velha, já tinha alguma dificuldade em andar, mas como em todos estes anos não se esqueceu deste dia.

Deu-me um beijo, bem sonoro, e entregou-me um pequeno embrulho:

-Toma filho! Tens já idade para a guardares.

Abri nervoso, parecia uma moldura. Era mesmo uma moldura com uma fotografia da mãe, com aquele sorriso que nos aquecia o coração.
Uma lágrima escorreu, tentei limpar, mas não lhe passou despercebido:

-Sabes Luís, não chores! Já passou muito tempo, recorda os tempos que estiveram juntos, muito pobrezinhos, como todos nós, mas cheios de amor e felicidade.

Foi mais forte do que eu, tinha jurado não perguntar, não fui capaz:

-Dona Adelaide, agora que a Clotilde não nos ouve, diga-me por que foi que ela nos abandonou?

Abriu muito os olhos, respirou fundo como quem  tenta ganhar coragem, apanhou-me o queixo com muita ternura:

-A vossa mãe nunca vos abandonou, ela morreu porque os queira recompensar com tudo, o que nunca vos conseguiu dar. Agora já estás crescido para saber toda a verdade.
A tua mãe, com outros dois, tinham um plano para assaltar um armazém de ouro. Tinham, mas não contaram com o alarme.
Os outros dois fugiram, ela tentou mas não conseguiu, e os dois tiros do guarda foram ter ela. Morreu mesmo ali.
Morreu por que vos amava muito!
****

Sai a correr, deixei o lar, com uma vingança no pensamento.
Vou encontrar quem puxou o gatilho e dar cabo dele.

Não se mata uma mãe que, apenas, queria dar uma vida melhor aos filhos.

Vou descobrir o assassino, vou descobrir!
Juro que que vou!






domingo, 3 de novembro de 2013

Vaidade.







Não gosto dos dias de vento, deve ser mania mas não gosto, pronto!
É o cabelo que abala do sítio e, depois, é mirar as montras para tentar dar um jeito, mas não resulta, fica sempre fora do lugar.

Foi na segunda-feira, julgo que andava o diabo à solta, rajadas que pareciam querer varrer tudo e todos e, o meu cabelo num desalinho total.
Sou tão vaidoso! Corri para a montra, da pastelaria, na esperança do reflexo me deixar ordenar o desalinho da marrafa, não era importante mas, como disse, sou vaidoso com o meu cabelo.

Era quase impossível, ajeitava dum lado e logo outros, rebeldes,  repunham o desalinho.

Estava nesta tarefa, quase desnecessária, quando vi ao lado do meu reflexo, uma imagem de alguém que do mesmo modo tentava, também, com os dedos fazer uma escova.

Sou curiosos olhei, era uma bela mulher. Alta, morena, cabelos negros esvoaçando, mas demasiadamente pintada, para o meu gosto, com cores muito garridas.
Mas isso é um pormenor, pois uns gostam outros não.
Mas não havia dúvidas era uma bela mulher!

Tinha tudo e, aparentemente nos sítios devidos e proporções certas, apenas os olhos denotavam alguma lassidão. Talvez cansaço!

Sorri, devolveu um sorriso morno, olhou-me de alto abaixo e fez, pareceu-me, um ar de aprovação. Só sou vaidoso no cabelo mas, confesso, fiquei agradado.

Arrisquei um olá! Tímido e tentando ser o mais natural possível.

Não gostei da voz, era sussurrante:

-Olá para si também!

Não me pareceu bem, ou talvez, esteja desactualizado, mas - Olá para si também! – afigurou-se-me descontextualizado.

Ia seguir o meu caminho quando, a senhora, perguntou:

-Não me quer pagar uma bica?

Fiquei surpreendido mas não consigo ser deselegante e respondi:

-Com muito gosto!

Pedimos dois cafés para a mesa da esplanada, ainda não tinha acabado de mexer o meu e já tinha sorvido o dela.

Levantei-me, depois de pagar, ia despedir-me para seguir o meu caminho quando, a fulana, com uma voz quase sussurrante, perguntou:

-Não quer passar uma tarde agradável comigo? Para si, que é giro, faço 50 euros.

Não me despedi e jurei para, mim próprio, acabar com a vaidade do cabelo.

Que se lixasse, estivesse como estivesse!





sábado, 26 de outubro de 2013

Uma questão de nomes








-Bom dia senhor Simão!

-Romão menina! Romão!

-Ai desculpe! Não sabia que o senhor Simão, agora, se chamava Romão!

-Oh mulher que me dá cabo do juízo, eu sou só Romão!

-Pronto não se amofine, já percebi que o senhor Simão é só Romão. Nunca mais me esqueço!

-Tá bem dona Manuela, fiquemos assim!

-Não podemos ficar assim, eu não sou Manuela eu sou Marcela, tal como a minha madrinha que Deus tenha!

-Mas marcela é nome de planta para fazer chá, quem pode ter um nome desses?

-Que graça senhor Simão, será que nome de marido da romã é nome de gente? Romão, onde já se viu!

-Mas está a gozar comigo, desde quando é que romã tem marido?

-Passou a ter desde que o Senhor Simão passou a ser Romão!

-Mas dona Morcela, Romão é um bonito nome!

-Morcela deve ser quem lhe fez esse nariz de pica-pau, eu tenho um nome bem bonito, se não sabe, até lhe digo que há uma santa com o meu nome. Agora não sei se há santo com nome de marido de romã. Não acredito!

-De santos, não percebo nada, mas só por estar a aturar uma melga como você já passou a haver um, que sou eu!

-Com a parvoíce, da sua conversa, já me esqueceu do que vinha fazer!

-Se calhar vinha beber um chá de marcela. Tenho pena, mas não há!

-Ainda bem, é sinal que alguma romã já o bebeu!

-Mas, você, mulher tirou o dia para me atenazar o juízo? Se calhar foi por isso que o seu marido abalou.

-Oiça homem o meu marido não abalou, fui eu que o pus a mexer! Já não dava nada. Agora você, que me conste, nunca teve ninguém para esbugalhar as bagas da romã, se calhar nem bagas dá!

-Isso é o que você pensa, dá bagas e muito mais. Quer experimentar?

-Com a crise que por aí vai, se calhar até não me importo!

-Pois, experimente e não se arrepende!

-Afinal Romão até é um nome bonito. Eu gosto, tem algo de aristocrático.

-É verdade, mas deixe lá que Marcela também é muito belo. Tive uma tia com esse nome e sempre disse que, se um dia tivesse uma filha, seria Marcela!

-Oh Romão! Posso chamar assim? Você é especial, quando entrei vi logo que a gente se ia entender

-Querida Marcela, vamos embora! Para a tua casa ou para a minha?

-Não interessa, vamos para uma depressa, que até me falta o tempo!




quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Mudar de vida








Caramba, estava farto da rotina! Todos os dias a mesma coisa, até enjoava. Todos os dias levantar à mesma hora, o mesmo pequeno-almoço à pressa, corrida para o transporte, as mesmas caras na viagem, a caminhada, de sempre, do autocarro até à fábrica. No trabalho os mesmos colegas, com as mesmas caras enjoadas, a mesma máquina,  no mesmo ritmo, a coser entretelas, para não falar no mesmo salário, há muito tempo.

Estava mesmo chateado com esta monotonia do nada de novo, farto da mesma marmita, daquela comida esquentada na mesa da tasca do Ermidas, a mesma garrafinha de tinto, da mesma duvidosa qualidade.

Tudo igual, nunca mudou nada, a culpa era dele, mas começava a sentir um certo cansaço. Até a mulher era a mesma há sete anos, com a mesma conversa, a mesma falta de interesse e, sempre, com a mesma dor de cabeça na hora de ele querer, sabia ela, a mesma monotonia.

Queria reagir, mas a mesma preguiça e a mesma falta de imaginação não deixavam e continuava no mesmo ritmo estafado, na mesma sensaboria.

Já pensou em dar um pontapé nesta crise de ideias, largar a mulher, mudar de hábitos, emigrar, encontrar outros interesses. Podia, até, ficar com a mulher mas, começar de novo, fazer coisas novas, ser original e surpreender, mas as ideias eram sempre as mesmas e voltava a trilhar, o mesmo ramerrame, com a mesma ladainha.

Hoje estava farto da mesma toada chata, daquela máquina em movimento, com entretela a passar naquele ritmo estúpido.

Chegou a hora ia tentar dar, finalmente, o pontapé na coisa insossa que o estava a entorpecer.

Pediu, ao mesmo chefe, para sair mais cedo.

Sair antes da hora, já era um quebrar do ritmo, era o principio da uma mudança. Não quis o transporte de todos os dias, se era para mudar ia voltar a casa, de táxi.

Ia ser um homem novo, nova vida, novos hábitos e novos prazeres.

Irrompeu casa dentro, ia contar à mulher a mudança de vida, mas não conseguiu, o quadro estava muito à frente da mudança que ele queria.

A mulher já a tinha começado, também estava farta do mesmo.

Feliz da vida, na maior safadeza, gemia de prazer com um, dos chatos, dos seus amigos.




sexta-feira, 11 de outubro de 2013

O Regresso




Muitos me incentivaram a voltar, no fundo era esse o meu desejo, mas por outro lado, um certo comodismo impedia essa vontade.                                                                                                
Hoje voltei e, a todos, estou grato. Vou dedicar este pequeno ensaio a uma amiga, que foi especial nesta fase.                                                                                                                     
Obrigado Dila!






Senti uma lágrima deslizar, suavemente, pelo rosto e cair em borrão, na folha que estava a escrevinhar.

Já não era a primeira vez que me deixava emocionar com as pieguices, que eu próprio inventava, agora, as lágrimas, apenas se perdem no espaço, quase se evaporam, já não tem folhas para manchar.

Mas voltando a esse tempo, em que os computares eram apenas uma visão do futuro, lembro-me, perfeitamente, dos rabiscos que se iam alinhando, na estória duma infância e que, a pouco-e-pouco, se iam diluindo na memória da saudade.

Eu era pequeno, talvez adolescente, e morava numa pequena casa nas margens de um rio, talvez de um oceano, mas para mim era apenas um regato que me deixava adivinhar o que acontecia na outra margem.

Olhava, mas precisava  fechar os olhos para poder, com mais clareza, vislumbrar pequenos momentos de encanto ou, quiçá, de magia.

No outro lado, por entre a neblina da distância, adivinhava alguém que iria mexer com a minha imaginação.

Cerrava com mais força os meus olhos, mas o pensamento não me trazia a imagem, só os sentimentos, uma certa candura e um enorme romantismo, pois só quem é romântico vagueia, assim, por entre a flores e, se espraia nas frases de encantamento dos poetas.

O tempo passou, cresci, a casa já não é  mesma, só se mantém o imenso, desse, oceano.

Os computadores, deixaram de ser uma visão, são tão reais que as águas se abriram, como a Moisés, e deixaram-me perceber que os sonhos podem transformar-se na realidade.

Continuo sem ver a imagem, é distante, mas adivinho-a cheia de beleza.

A beleza está no coração, nas palavras no momento certo, nas frases eivadas de ternura,  nas flores entrelaçadas em corações ternos, no bom fim-de-semana desejado, enfim, nos pormenores que nos dão o ânimo que,  tantas vezes, já nos vai faltando.

Hoje, o impensável deixou de ser um sonho, o oceano já não é imenso, a outra banda ficou aqui, ao meu lado.

A imagem, deixou de ser penumbra, passou a brilhar no meu mundo virtual.

Agora a magia da DILA faz parte do meu presente.

É minha amiga e quer que eu volte.

Convenceu-me com as suas palavras e eu prometi.

Prometi, Dila, estou a cumprir!




segunda-feira, 15 de julho de 2013

Despedida







Há palavras que doem, há momentos dolorosos  e decisões que nos tolhem.

Quem me conhece, um pouco mais do que aqueles que fazem o favor de me acompanhar, por aqui, sabem que eu sempre vivi rabiscando os blocos que me acompanharam, hoje, substituídos pelo computador ou IPad.

Vivi momentos em quem o escrever, era bem mais que escrever. Sem ser cura, disfarçava as dores que me apertavam, me oprimiam e que só vão morrer quando eu partir.

Mas, confesso! Estou muito cansado e desiludido, sinto um vazio que nem as frases já conseguem preencher, sinto uma nostalgia letárgica, um sentimento que não sei, bem, explicar.

Ando pelos vossos Blogues, que amo, porque sempre me acompanharam, e apenas deixo palavras de circunstâncias porque me falta a verve para ir mais além.

Eu queria e, há muitos meses que o penso, mas só hoje ganhei a coragem que me tem tolhido o desejo.

Vou fechar este Blogue, devagar, da forma menos dolorosa, quase sem o sentir.

Tudo, tal a vida, tem um fim!

Vou sofrer, vou ter a sensação de, mais uma vez, perder parte da minha existência. Mas vou fechar!

Devagar, quase despercebido.

Se um dia aqui chegarem e,  este espaço, seja apenas espaço, fiquem certos de que ando por ai, a espreitar, no silêncio, mas sem nunca os esquecer.

Afinal, todos vós, já fazem parte de mim!

Perdoem esta lágrima rebelde!
Manuel





O que me dói não é 
O que há no coração 
Mas essas coisas lindas 
Que nunca existirão... 

São as formas sem forma 
Que passam sem que a dor 
As possa conhecer 
Ou as sonhar o amor. 

São como se a tristeza 
Fosse árvore e, uma a uma, 
Caíssem suas folhas 
Entre o vestígio e a bruma. 

Fernando Pessoa

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A escolha







Dona Matilde limpou as mãos ao avental, num gesto quase casual, tentou abafar a raiva mas não conseguiu, foi mais forte que ela e gritou:

-Ah filha de um chibo, se te ponho as mãos deixo-te sem conserto!

Rosinha ficou sem pinga de sangue, nunca pensou que a mãe fosse senhora para tamanha linguagem.

-Filha de um chibo!  Como podia dizer tal coisa, o defunto pai não era nada disso. Se fosse, então o que chamar à mãe?

Arranjou coragem e enfrentou-a:

-Então mãe é preciso essa linguagem e esses palavrões?

-Palavrões? Palavrões vais tu ouvir quando te puser as mãos em cima. Ou pensas que isto fica assim? Pensas que eu vou aturar essas modernices! Não te passe isso pela cabeça, prefiro ver-te num caixão!

-Oh mãe, não digas isso, Deus ainda te castiga! Choramingou Rosinha.

-Ouve rapariga, não venhas com lágrimas de crocodilo, não queiras apelar a sentimentos, porque isso é uma coisa que tu não tens, se os tivesses olhavas para o pobre do Hilário que parece um cão vadio, ofegante a seguir os teus passos, a beber as tuas palavras, a adivinhar os teus pensamentos. E tu, tu, minha cabra, miras e finges não ver! Olhas, aproveitas as benesses e nem uma festa na cabeça do pobre cachorro.

-Mas mãe não compreendes, a minha felicidade para ti não conta! E sabes mais? Prefiro que me vejas num caixão, nem irias sentir minha falta, mas posso garantir que não te vou dar esse prazer! Vou seguir a minha vida! Gostes ou não gostes! Se o pai fosse vivo, tenho a certeza que me ia compreender e dar-me a apoio que tu não me dás.

Matilde corou, parecia que lhe ia dar uma coisa má, enrolou as mãos no avental num gesto nervoso e gritou:

-Deixa o desgraçado do teu pai em paz! Porque se ele voltasse e visse, o que eu ando a ver, morria outra vez, e desta vez ia morrer feliz!

Rosinha empinou o nariz, limpou os olhos, empertigou-se naquele orgulho mascarada de altivez e bateu com a porta, enquanto ia sussurrando:

-Vou respirar para a rua, aqui só cheira a retrógradas, a velhas!

Saiu rápida, mas ainda sentiu um sapato a bater na porta, que acabara de fechar.

A mãe era para esquecer, antiquada, bota-de-elástico. Não tinha paciência para a aturar. Tentou, Deus sabe que sim.

Mas que havia de fazer, o raio da velha, não aceitava que a filha se tivesse apaixonado por outra mulher, mas estava decidida ia viver com a Clarisse.

Clarisse era a mulher da sua vida!