Ainda
não era meio-dia e a mãe já chamava para o almoço, era sempre assim,
quanto mais depressa nos despachasse tanto melhor.
O almoço era, quase sempre, a mesmo sopa de couves com uns feijões a boiar no
caldo, um pedaço de pão e uma fruta.
O pão
era a única coisa nova, porque a sopa era igual à de todos os dias. Fazia uma
panela enorme, congelava em tigelas de plástico e, ao almoço, saiam duas, uma
para mim e outra para a Clotilde, depois desaparecia e só voltava ao anoitecer.
Nós ficávamos livres para
calcorrear as ruas do bairro.
Mas hoje foi diferente, tivemos um prato de arroz com ovos mexidos, nem queríamos
acreditar.
Mas era
verdade! A Clotilde até se atreveu a perguntar:
-Mãe
hoje é algum dia especial?
A mãe
deu uma pequena gargalhada, antes de responder:
-Come e não sejas parva, a vizinha Adelaide deu-me seis ovos!
****
A mãe
era única, o nosso pai morreu naquele tractor tinha eu, três anos e a Clotilde
um.
Foi
difícil, ela só sabia trabalhar na lavoura a ajudar o pai, por isso teve que
deitar mãos à vida. Tratava de nós, tínhamos pouco, mas fome, nunca passámos.
A nossa
roupa estava já, um pouco delida pelo uso, mas sempre imaculada, pois quando
chegava, já muito de noite, enchia a selha e, com sabão azul e branco, deixava
tudo a brilhar.
Às vezes, quando vinha cansada, sentava-se no velho canapé de buinho, pegava na
Clotilde ao colo, segurava a minha mão e, com lágrimas no meio daquele sorriso
lindo, prometia:
-Um dia, saímos desta miséria. Juro que saímos!
Vou
deixar de estar agarrada à loiça suja, vocês vão ter roupa nova, bonita, e refeições
como todos, os meninos, devem ter.
A Clotilde, só tinha cinco anos, por isso acreditava e sorria, mas eu sou quase
um homem, com sete anos, sabia que a mãe dizia essas coisas para nos animar.
A mãe era linda! Diziam, as vizinhas, que foi das moças mais jeitosas da
freguesia, não lhe faltaram pretendentes ricos, mas ela embeiçou-se pelo nosso
pai e casaram.
Mesmo
depois do pai morrer, muitos a procuraram mas, sempre educadamente, dizia que
quando ficou viúva tinha sido para a vida, foi do seu Ernesto, nunca seria de
mais homem nenhum.
***
A mãe, ultimamente, andava estranha, não que tivesse mudado o tratamento,
continuava carinhosa e cheia de esperança, por mais humilde que fosse a nossa
vida, ela continuava a dizer que tudo ia mudar e não tardava nós, os seus
meninos, íamos ter tudo a que as crianças têm direito.
Eu e a Clotilde queríamos saber onde a mãe trabalhava, já pensamos ir espreitar
mas ela apanha um autocarro e desaparece, se fosse a pé era fácil embora a
Clotilde, ainda tenha uns passos curtinhos.
Quem
sabe, um dia, temos dinheiro e vamos espreitar onde a mãe trabalha e calar
todos os que dizem que a mãe está a fazer coisas feias.
***
Hoje, como todos os dias, a mãe chamou:
-Venham almoçar que eu tenho que me despachar.
Foi uma festa, salsichas e batatas fritas, a Clotilde batia as palmas de contente,
não se conteve:
-A mãe é a maior!
A mãe sorriu, deu-nos um beijo na testa e saiu para o trabalho.
****
Começamos
a estar com medo, já é tarde e a mãe ainda não chegou, se calhar teve mais
louça para lavar. O homem da televisão disse que eram 22 horas, fui perguntar à
vizinha Adelaide, o que era isso de 22 horas, ela disse que eram 10 horas e
explicou que depois do almoço as horas eram doutra maneira, não percebi nada,
complicações dos crescidos.
A Clotilde estava enrolada no canapé com as lágrimas, quase, a romperem nos
olhos.
Sosseguei-a, disse que a mãe teve mais trabalho e vinha tarde.
Peguei num pão, não sei muito bem como se corta ao meio, não ficou muito bem,
mas deu para o untar com manteiga, muita, como a mana gostava, lavei e parti,
às tirinhas, uma maçã encarnada e ela comeu, ficou melhor e acabou por
adormecer.
Custou-me
um bocadinho mas, consegui leva-la para a cama. Ficou sossegadinha, não a tapei
com a coberta, estava muito calor.
Sentei-me no canapé a olhar para a televisão e devo ter adormecido.
***
Era muito cedo quando bateram à porta, levantei-me assustado. Pensei que a mãe
perdera a chave, fui abrir a porta que só estava no trinco.
Não era a mãe, em frente estavam dois polícias, com a dona Adelaide, e uma
senhora toda fina, com um chapéu na cabeça. A mãe dizia que as senhoras que
tinham chapéu, eram pessoas da alta.
O policia que tinha um bigode, como o meu professor, perguntou:
-És o Luís?
Abanei a cabeça a confirmar.
-E a tua irmã? Voltou a perguntar.
A voz não me saiu muito bem, se calhar vinha prender-me por ter arranhado o
gordo, mas eu fiz o certo, a mãe sempre me disse para me defender, a mim e à
minha irmã, mas respondi:
-A minha mana está a dormir, mas ela não tem nada a ver com o gordo, fui eu que
lhe bati!
O polícia fez, por cima daquele bigode, uma espécie de sorriso, mandou-me
acordar a Clotilde e disse para nos vestirmos, pois tínhamos que ir com a
senhora, a do chapéu.
Repliquei:
-Não podemos ir, temos que esperar pela mãe, que está atrasada.
O polícia voltou a insistir:
-Vão tratar de vocês que, a vossa mãe, já não vem hoje.
Dona Adelaide falou lá de trás:
-Vão com os senhores que eu fico aqui e trato do resto!
-Diga, à minha mãe, onde estamos, pedi já numa espécie de choro. Eu sou um
homem, mas a mãe sempre disse que chorar, não é vergonha pois, até os homens
choram.
A casa para onde nos levaram era muito grande, havia mais meninos a brincar mas,
nem deram pela nossa chegada.
A senhora do chapéu, chamou uma Deolinda e disse para nos dar banho.
Em casa, também, tomávamos banho na selha, a mãe aquecia uma panela de água,
depois misturava com a fria. Eu gostava mas, a Clotilde choramingava.
Aqui era diferente, tinha duche, foi assim que a senhora disse. Foi bom, até a
mana gostou.
Vestiram-nos umas roupas que não eram as nossas, mas tinha que ser, as que
trazíamos não estavam muito limpas.
-Agora vão almoçar, disse uma senhora com um avental aos quadradinhos amarelos.
Ficamos numa mesa com uma menina de olhos azuis e um rapaz, da minha idade,
cabelo vermelho e com muitas sardas.
A menina era muito bonita, fiquei a gostar dela e expliquei:
-A nossa mãe nunca mais chega, está muito atrasada!
-Se calhar morreu, como a minha, respondeu.
-Não gritei! Não morreu nada! A nossa mãe não morre, tem que trabalhar,
trabalha muito e às vezes chega atrasada.
A senhora, do avental, apareceu com uma coisa que parecia a nossa terrina, mas
muito maior. Com uma concha ia deitando nas nossas tigelas, uma sopa, que
parecia caldo verde. A Clotilde gostava muito eu, nem por isso.
Depois do caldo-verde, um prato de esparguete com carne, nunca tinha comido
nada tão bom!
Um dia,
pedi à mãe para fazer esparguete, ela prometeu que quando tivesse carne fazia.
No fim, ainda, nos deram uma taça, parecia de lata, com fruta aos pedacinhos,
chamavam-lhe salada de frutas.
Durante o dia estávamos nas aulas, eu com os crescidos, a Clotilde com os mais
pequenos.
À noite a Clotilde chorava, queria a mãe, mas a menina, de bata branca,
fazia-lhe uma festa na cabeça, dizia coisas bonitas e ela adormecia.
Um dia perguntei-lhe quando chegava a nossa mãe, ela pareceu não saber, pois,
disse que não tinha a certeza, mas que um dia vinha!
Comecei a ter pensamentos estranhos, será que a mãe se fartou de nós e foi com
um homem, como diziam algumas pessoas que não acreditavam no trabalho da mãe?
Hoje é domingo, muitos meninos têm visitas e nós também. A nossa vizinha
apareceu, numa roupa bonita, e deu-nos chocolates.
Apanhou a Clotilde ao colo e lambuzou-lhe a cara com tantos beijos, depois
acalmou para suspirar:
-Tinha tantas saudades, tantas! Mas só hoje consegui!
-E a nossa mãe quando nos vem buscar? Perguntamos nós.
A Dona
Adelaide ficou com cara de envergonhada, entrelaçou os dedos e só nos disse:
-Não sei filhos, a santinha está a descansar. Quando forem crescidos logo ficam
a saber.
A Clotilde não percebeu mas, eu fiquei desconfiada de alguma coisa má, fiquei
calado por causa dela.
Passado muito tempo, a Clotilde, foi adoptada por um casal muito simpático e
está feliz.
Eu já
era muito crescido, quase um homem, como dizia a mãe, ninguém me quis.
*******
Hoje vou fazer 15 anos e, o casal simpático, deram-me a melhor prenda que
poderia esperar, vieram com a Clotilde.
Como estava linda a minha mana! Tinha 11 anos e parecia mais alto do que eu.
Falamos de tantas coisas mas, por coincidência ou de propósito, nenhum falou da
mãe, parece que dentro de nós havia uma revolta escondida, não dizíamos, mas lá
no fundo, sempre pensámos que a mãe tinha abalado sem se lembrar dos filhos.
Clotilde esteve pouco tempo, os novos pais, tinham coisas para fazer mas, eles
não sabiam, tinham-me feito muito feliz. Uma hora com a minha irmã!
Ainda não deviam ter chegado ao automóvel, agora a Clotilde andava de automóvel,
e apareceu a dona Adelaide, estava a ficar velha, já tinha alguma dificuldade
em andar, mas como em todos estes anos não se esqueceu deste dia.
Deu-me um beijo, bem sonoro, e entregou-me um pequeno embrulho:
-Toma filho! Tens já idade para a guardares.
Abri nervoso, parecia uma moldura. Era mesmo uma moldura com uma fotografia da
mãe, com aquele sorriso que nos aquecia o coração.
Uma lágrima escorreu, tentei limpar, mas não lhe passou despercebido:
-Sabes Luís, não chores! Já passou muito tempo, recorda os tempos que estiveram
juntos, muito pobrezinhos, como todos nós, mas cheios de amor e felicidade.
Foi mais forte do que eu, tinha jurado não perguntar, não fui capaz:
-Dona Adelaide, agora que a Clotilde não nos ouve, diga-me por que foi que ela
nos abandonou?
Abriu muito os olhos, respirou fundo como quem tenta ganhar coragem,
apanhou-me o queixo com muita ternura:
-A vossa mãe nunca vos abandonou, ela morreu porque os queira recompensar com
tudo, o que nunca vos conseguiu dar. Agora já estás crescido para saber toda a
verdade.
A tua
mãe, com outros dois, tinham um plano para assaltar um armazém de ouro. Tinham,
mas não contaram com o alarme.
Os
outros dois fugiram, ela tentou mas não conseguiu, e os dois tiros do guarda
foram ter ela. Morreu mesmo ali.
Morreu
por que vos amava muito!
****
Sai a correr, deixei o lar, com uma vingança no pensamento.
Vou encontrar quem puxou o gatilho e dar cabo dele.
Não se
mata uma mãe que, apenas, queria dar uma vida melhor aos filhos.
Vou descobrir o assassino, vou descobrir!
Juro que que vou!