Para
o meu cunhado, António Nunes, companheiro de muitas jornadas.
O raio
da gaiata era tão linda como um radioso nascer do Sol.
Branca como a neve, cabelos ruivos, em pendentes caracóis, davam-lhe um ar quase angelical, que era desmentido pela sensualidade de uns lábios carnudos, que apetecia morder, e por uns olhos amendoados onde o brilho de avelãs eram um constante desafio.
Branca como a neve, cabelos ruivos, em pendentes caracóis, davam-lhe um ar quase angelical, que era desmentido pela sensualidade de uns lábios carnudos, que apetecia morder, e por uns olhos amendoados onde o brilho de avelãs eram um constante desafio.
Sabia como era e fazia questão em o realçar, vestia uma camisola justa e bem decotada, de forma a por em evidencia dois hemisférios que pareciam querer saltar. A saia parecia um cinto largo, donde pendiam duas pernas longas e torneadas, por um artista que percebia da poda.
Até os joelhos, coisa rara,
eram perfeitos.
Deslizava elegante, ecoando o saltitar dumas elegantes sandálias vermelhas com incrustações coloridas.
Deslizava elegante, ecoando o saltitar dumas elegantes sandálias vermelhas com incrustações coloridas.
Ia distribuindo charme e recebendo olhares gulosos de tantos homens, como
outros, invejosos, de algumas mulheres.
Passava numa estudada inocência, numa vaidade
que se compreendia, ela não tinha culpa era a obra de um, qualquer, Deus!
***
Não sou nada de especial, apenas a simpatia me torna aceitável. Nasci, algures, numa terra que nem vem nos mapas, tão pequena que um dia descobri que não tinha espaço para mim, sufocava-me os pensamentos, cerceava-me as ideias e não me deixava dar azo às minhas fantasias.
O ar era respirável, o problema estava mais no horizonte limitado, na falta de ideias, na monotonia das parcas conversas no café, que também era mercearia, loja de ferragens e vendia, ao mesmo tempo, roupas de gosto duvidoso.
As
noites começavam cedo e as manhãs ainda mais.
Acho que
99,9%, dos homens, trabalhavam na agricultura, o 0,1% que falta era eu, que
pensava que a escrita podia ser uma ocupação e não apenas um gosto.
Foi num dia invernoso, que às 7 da manhã, entrei na velha camioneta da carreira e, sem olhar para trás, abalei à procura de outros horizontes.
Foi num dia invernoso, que às 7 da manhã, entrei na velha camioneta da carreira e, sem olhar para trás, abalei à procura de outros horizontes.
Já passaram alguns anos, deixei a falta de espaço e vim encontrar um mundo que não era, propriamente, o que espera, mas fui-me adaptando.
Hoje transformei-me numa espécie de free-lance. Vou escrevinhando umas crónicas para umas revistas e, quando calha, uns artigos para um jornal. Não é muito mas, o suficiente para uma vida decente, com a vantagem de fazer aquilo que mais gosto.
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O dia
acordou azul, não sei se há dias azuis mas, eu caracterizo os dias, tenho essa
mania. Hoje acordei inspirado, com grandes ideias para uma crónica, vou
escrever sobre a influencia do acordar no comportamento das pessoas, se calhar
não é uma grande ideia, mas acordei, com ela, neste dia azul.
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Não acredito, propriamente no acaso, mas hoje, por acaso a minha vida deu uma volta.
Descia o Chiado e uma visão toldou-me os pensamentos. Era linda, cabelos ruivos, pele leitosa, olhos cor de avelã e uns lábios como cerejas maduras esperando ser colhidas.
Fiquei a olhar com um sorriso meio aparvalhado e sorri-lhe, olhou-me e sorriu também. Afinal, se calhar, não sou só simpático.
Não resisti e perguntei-lhe:
-Sabe? Para este dia ser o melhor, da minha vida, só a sua companhia num café!
Quando abriu mais o sorriso, o dia ficou mais claro e quando disse que
aceitava, para mim, ficou totalmente azul.
Sentámos na esplanada e pedimos os cafés, perguntei se não queria um bolo, abanou a cabeça e respondeu:
-Não obrigado, aceitei este café para me poder sentar um pouco e, também, porque o seu sorriso foi o único que hoje me pareceu sincero.
Ficamos
perdidos durante muito tempo, ela desenvolta, à vontade, eu embevecido nas
palavras.
Vivia nos arredores de Lisboa e hoje era já a terceira entrevista.
Vestia, reconhecia, para evidenciar o que sabia ter e, percebia, que as roupas
compradas nas lojas dos chineses no seu corpo ganhavam o glamour das grandes
marcas, não tinha culpa, não foi ela que se fez, foi obra de Deus e, a
felicidade de ser parecida com a mãe ajudava.
A mãe era linda!
Tinha acabado um curso de economia, fez dezenas de currículos que, enviou para
tudo o que era conhecido, respondia a todos os anúncios que apareciam, foi a 12
entrevistas e apenas recebeu, dalguns homens, propostas pouco profissionais ou, então, para distribuição de panfletos na via pública, não tinha dúvidas em aceitar se
as condições fossem minimamente decentes, agora 300 euros, sem qualquer subsídio
para refeição e transporte, pareceu-lhe uma espécie de escravatura.
Ouvi
encantado, não só pela doçura da voz mas também pelo desespero e necessidade de
desabafo, suspirei fundo antes de responder:
-Perdoe a minha deselegância nem sequer me apresentei. Sou Rodrigo, licenciado em comunicação social e vivendo de trabalhos esporádicos, embora não me possa queixar, há piores.
Fugi, é o termo, duma pequena aldeia na busca de horizontes e não sei se os encontrei, mas vou continuar essa busca.
Não me disse o seu nome, se calhar não é importante, mas fico feliz porque
confiou em mim.
-Sou Esmeralda, peço também desculpa. Tenho que ir embora o comboio não espera.
Este é o meu telefone, quando não estiver muito ocupado dê-me noticias, gostei
de o conhecer!
Levantou-se rodando as pernas e começou a descer a Rua Garrett com a graça natural que a natureza lhe ofereceu.
Olhou
para trás e sorriu.
Foi o princípio.
*****
Levantei-me e o dia tinha um ar rosado, o meu coração estava sobressaltado, o meu pensamento numa rodilha de ideias descoordenadas. A vontade dizia-me sim, o bom senso refreava o desejo.
Ganhou a vontade, foi mais forte. Ia telefonar.
*****
Levantei-me e o dia tinha um ar rosado, o meu coração estava sobressaltado, o meu pensamento numa rodilha de ideias descoordenadas. A vontade dizia-me sim, o bom senso refreava o desejo.
Ganhou a vontade, foi mais forte. Ia telefonar.
-Bom
dia Esmeralda!
Do
outro lado uma voz entoou:
-Esmeralda!
É para ti filha.
Senti o
restolhar dum telemóvel a mudar de mão:
-Bom
dia, não conheço o número.
Dei uma
pequena gargalhada:
-É natural só espero que, ainda, se lembre do dono!
Senti
uma mudança no tom da voz, ficou mais doce:
-Não
acredito! É o Rodrigo?
-Sim, respondi, sou o Rodrigo e não quero ser inconveniente, mas dormi num sonho cor-de-rosa consigo no pensamento.
Ficou
calada, sabia que estava lá, ouvia o respirar, mas foi por pouco tempo:
-Sabe
Rodrigo, não fique vaidoso, mas também pensei muito em si.
Ganhei
coragem e convidei-a para almoçarmos amanhã, pensei num jantar mas. alguém me
disse um dia " nunca se convida, na
primeira vez, uma mulher para jantar pode parecer que estamos a incluir o pequeno-almoço" nunca esqueci o conselho.
Apareceu como combinado, vinha linda o que era fácil, fomos almoçar a um pequeno restaurante em Belém, foi um almoço de frases simples, de olhares cúmplices, de toques casuais, de quase promessas, de vontades perceptíveis.
Longos silêncios de olhos nos olhos, de adivinhar pensamentos e de ganhar coragem para, confessarem que tudo tinha mudado nas suas vidas.
Nunca
mais se deixaram, ele embebedava-se naqueles olhos amendoados, nos lábios de
mel e no sorriso que partia corações, ela bebia as palavras dele, os devaneios,
os sonhos e aquele desejo de encontrar o espaço que há tanto tempo procura.
Estavam,
verdadeiramente, apaixonados.
*****
São 6 horas e 50 minutos, de uma manhã de Primavera, o aeroporto de Lisboa regurgita de pessoas que andam de um lado para o outro, malas que se arrastam, despedidas em olhos vítreos por lágrimas contidas.
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São 6 horas e 50 minutos, de uma manhã de Primavera, o aeroporto de Lisboa regurgita de pessoas que andam de um lado para o outro, malas que se arrastam, despedidas em olhos vítreos por lágrimas contidas.
O altifalante dá os últimos avisos:
-Ultimo
chamada para os senhores passageiros do voo, 127542 da TAP, com destino a Boston
, é favor dirigirem-se à porta de embarque número 26.
Esmeralda e Rodrigo despediram-se, mais uma vez, da família e encaminharam-se para o voo.
Iam procurar, longe, o que o seu país lhe tinha negado.
Esmeralda e Rodrigo despediram-se, mais uma vez, da família e encaminharam-se para o voo.
Iam procurar, longe, o que o seu país lhe tinha negado.






