domingo, 22 de dezembro de 2013

Um conto de Natal A guitarra do João

                  



  


Para o meu sobrinho Martim
 (Natal 2013)


Joãozinho tinha seis anos e era muito pobrezinho, pois os pais foram um dia, para o Brasil, e nunca mais voltaram.


Foi a avó Emília que tomou conta do menino. A avó era uma simpática velhinha, muito doce mas muito pobre. Vivia numa casa, pequenina, num pátio de gente boa que tanto a ajudavam.

Hoje, o Joãozinho está muito triste, tão triste que até o Sol parece querer por um raio de luz, nos olhos do menino, mas ele nem dá por isso.

Tem a cabeça escondida entre os braços, para que os outros meninos não possam ver as lágrimas que lhe escorrem pela cara.

Luís, que é o seu melhor amigo, achou estranha a posição do colega e foi-se aproximando para lhe perguntar:

-Dói-te a cabeça? Queres que eu chame a nossa professora para te ajudar?

-Não é preciso, respondeu o João, já passa!

Luís bem viu que ele estava a chorar, as lagrimas ainda se viam na cara.
Queria ajudar mas estava um pouco sem jeito, ainda era muito novo, e só a mãe é que sabia como isso se fazia. Mas tentou:

-Sabes João, no outro dia também chorei com dor neste ouvido, mas a minha mãe deitou umas gotas, de um remédio, e passado um bocadinho já não doía!


-A mamã mãe disse que quem chora não é mariquinhas e, disse mais umas coisas, que não percebi bem, mas aprendi que os homens grandes também choram.

-Não tenhas vergonha! Eu não conto aos outros meninos!

-Queres que eu peça à minha mãe o remédio para tratar o teu ouvido?

-Mas o meu ouvido está bom, respondeu o Joãozinho! Vou-te contar um segredo mas não digas nada, eu não queria chorar, mas não consegui, e as lágrimas apareceram sozinhas.

Luís estava sem perceber nada, ainda tinha só seis anos e, às vezes, não percebia bem as coisas.

-Mas se não te doí nada, porque estás então com lágrimas na cara?
Agora Joãozinho parecia querer sorrir, mas não lhe correu muito bem, o desgosto devia ser grande e o sorriso não apareceu.

-Vou-te contar tudo, mas juras que não dizes a ninguém? Suplicou o João.

-Eu pedi, ao Pai Natal, uma guitarra mas a minha avó disse que ele não tinha dinheiro, para guitarras, e só me podia trazer um chocolate.

-Eu queria tanto uma guitarra igual à que está na montra do senhor Elias!

-Eu porto-me bem, todo o ano, e nunca tenho prenda no sapatinho!

-Quando peço à minha avó um chocolate, diz que me faz mal aos dentes e não compra! Agora o Pai Natal vai trazer um e já não faz mal!

Luís ficou pensativo, também não percebia porque não davam prendas ao amigo, ele era tão bonzinho!

Queria dizer qualquer coisa mas, não sabia bem como fazer, havia palavras de crescidos que ainda não compreendia.
Pegou no braço do amigo e convidou:

-Anda, vamos brincar, se calhar a tua avó está muito velhinha e não percebe nada e o Pai Natal tem uma guitarra para ti.

No resto do dia, Luís, não largou o amigo para ele se esquecer da guitarra.

Quando fosse grande ia comprar uma e oferecia ao amigo, ou então se o Pai Natal lhe der duas, vai pedir à mãe que o deixe oferecer uma ao João. A mãe deve deixar!

No fim das aulas deram um abraço de amizade e, cada um foi para sua casa.
                             
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Agora só voltavam na segunda-feira.

No sábado, o Luís, foi com o pai à padaria e quando passaram à montra do senhor Elias parou para ver a guitarra do João, era bonita, brilhava e tinha enfeites à volta do buraco. Luís não se conteve e pediu ao pai:

-Pai podia perguntar quanto custa aquela guitarra?

-Está ali o preço, naquela etiqueta, respondeu o pai!

-Mas quanto é, insistiu o Luís.

-Cinquenta euros, disse o pai. Mas para que queres saber?

-Não é nada, só para saber mesmo, respondeu.

Quando chegou a casa Luís perguntou à mãe:

-Oh mãe quanto é que eu tenho no meu mealheiro?
A mãe deu uma gargalhada e foi contar as moedas.


-Olha, disse ela, se não fosses gastador podias ter mais, assim só tens oito euros.

Na segunda-feira, Joãozinho, não foi à escola e a professora disse que a avó telefonou a dizer que ele estava doente, com febre.

Luís, quando encontrou, a professora, no recreio, aproximou-se um pouco acanhado. Ela percebeu e perguntou-lhe:

-Então Luís! O que me queres dizer?

Ficou um bocadinho envergonhado mas atreveu-se:

-Eu tenho, oito euros no mealheiro, para cinquenta quanto falta?

-Olha Luís, lá mais para diante já vão aprender essas contas, mas para teres os cinquenta faltam quarenta e dois.
Luís ficou a magicar, quarenta e dois euros são muitas moedas.

-Eu sei, continuou, porque é que o João Cosme está doente! Se tivesse os cinquenta euros conseguia que ele ficasse bom!

A professora, a muito custo, conseguiu evitar uma gargalhada.

-Senta-te aqui ao meu lado e explica bem porque eu não percebi nada!

-É assim, o João pediu ao Pai Natal a guitarra da loja do senhor Elias e, o 
Pai Natal, disse que ele só merecia uma tablete de chocolate e o João ficou triste e adoeceu.

A professora, dona Irene, ficou totalmente baralhada.

-Então Luís o João falou com o pai natal? Como é que ele fez isso?

-Ele só falou com a avó e ela é que falou com o Pai Natal e ele disse à avó que não tinha dinheiro e então o João chorou aqui no banco do recreio e eu vi.

-Vamos ver se entendi tudo! O João pediu essa guitarra mas, como não a pode receber, tu queres comprar mas só tens oito euros?

-Muito bonito o teu gesto, nós vamos arranjar uma maneira.


-Mas, pediu ele, o João não pode saber que não foi o pai Natal.
-Não vai saber querido! Disse a professora.

Luís estava radiante a professora Irene disse que nós íamos resolver.
 
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À tarde, a professora, disse assim a todos os meninos:

-Tomem atenção, o João Cosme está doente e aqui o Luís, descobriu que temos que o ajudar. Como sabem, ele vive só com a avó que é muito pobrezinha, e não tem dinheiro para o Pai Natal comprar a prenda que o João tanto quer.

-Eu estive a pensar que podíamos, entre todos, ajudar. Que dizem?
-Siiiiiimmm, responderam os meninos.

A professora Irene, sorriu, estava feliz:

-Eu sabia que os meus alunos não iam esquecer um colega que agora precisa!

-Vamos fazer assim, se cada um der 2 euros ficamos com 36 euros, são 18 meninos, eu ponho o resto e compramos o brinquedo, falem com os vossos pais e se eles estiverem de acordo vamos em frente.

Luís levantou-se, levantou a mão e perguntou:

-Mas assim ele fica a saber que não foi o Pai Natal!
A professora sossegou:

-Não fica, é um segredo nosso! Eu vou a casa do vosso colega, na véspera de Natal, e digo que o Pai Natal se enganou na morada e deixou na escola.

-Booaa! Gritaram todos.


Luís não se conteve e perguntou:

-E, os meninos, também vão com a professora à casa do João?

A professora Irene sorriu, feliz, e respondeu:

-Se os vossos pais deixarem porque não?!
Os rapazes responderam em coro:

-Deixam pois! Os nossos pais até vão com a gente.

Quando bateram à porta, foi o João que abriu. Ficou, quase assustado, não esperava.

A avó gritou, lá de dentro:

-Quem é João?

-É a minha professora e os meus amigos.

-Então manda entrar! Que educação é a tua que deixas as pessoas à porta!

-Não vale a pena, disse a professora, vimos só entregar, ao João, um presente que o Pai Natal deixou na escola.

-Toma João, o Pai Natal não encontrou a tua morada.

 O João não sabia o que dizer, abraçou os amigos e apenas lhe saiu.

-A minha guitarra!

Voltaram todos, às suas casas, felizes porque tinham dado uma alegria a um amigo.





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Cresceram, hoje já são homens, mas no Natal todos se recordam da guitarra do João.




sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

BOM NATAL








                 Para todos o meu desejo de um feliz natal








sábado, 7 de dezembro de 2013

Maurício






Estavam muitos à sua volta mas, ele estava tão distante que, nem se apercebeu daqueles murmúrios, que iam dispersando, como se fosse uma oração numa sintonia perfeita.
A cova estava ali, como uma boca ávida, para devorar os despojos de uma vida.
Maurício olhava mas, o pensamento toldava-lhe a visão, apenas aquele ruído de vozes,  sussurrantes, que o deixavam numa confusão entre o real e o sonho. Fechava os olhos, na esperança de estar num pesadelo, mas não, era tudo tão real, a solenidade, o compasso, os sussurros e aquela boca à espera de engolir a urna, que não tardava, iria desaparecer sobre os sons cavos, da terra, que a iriam cobrir.

Sentiu o pasmo, as pernas a quebrar numa dormência, o rodopiou na cabeça que não conseguiu controlar. Quando bateu com a cara no chão, duro, já nada sentiu, tinha perdido a noção do espaço, do tempo e da vida.

Acordou, disseram-lhe, vinte e cinco dias depois, num quarto que não era seu, num desconforto de um cérebro vazio. Olhava sem saber, porque estava naquele sítio que não conhecia, quem era, donde tinha vindo.

Entrou uma mulher, de branco, e um homem de bata azul que perguntaram:

-Como se sente senhor Maurício?

Quem seria esse Maurício? Se calhar até conhecia mas não se lembrava.

A mulher de branco devia ser enfermeira, apalpou-lhe a testa, olhou para o nível de um saco pendurado a pingar, lentamente, para um tubo ligado ao seu braço.

Laivos de memória, pareciam, querer aflorar mas eram tão ténues que, logo se diluíam na confusão, que lhe tomava conta dos pensamentos.

O sujeito que deveria ser o médico falou também:

-Amanhã vai ter alta, vai voltar à sua vida lá fora!

Maurício olhou os tubos ligados ao braço, o médico percebeu a interrogação:

-A enfermeira Natália vai tirar tudo isso, já não precisa!

-Mas, perguntou, onde é a minha casa? Não me lembro onde moro!

O médico abanou a cabeça, olhou como a procurar uma resposta no espaço, maneou os ombros e saiu.

A enfermeira Natália sossegou-o:

-Não se preocupe alguém o vem buscar!

******

Vieram, eram muitos mas para ele era a primeira que os via, um casal chamou-o de filho, a rapariga do casaco vermelho e o rapaz alto, com uma barba alourado, chamaram-lhe mano.

Havia outro casal, tristes nos modos e no vestir, pareciam da família, mas não o chamaram de nada, possivelmente eram tios ou primos.

Todos simpáticos, como se o conhecessem há muito e falavam em coisas como se ele soubesse a que se referiam.

Aquela que lhe chamou filho, não se calou um segundo, tinha feito o seu prato favorito, a propósito não tinha nenhum, tinha à sua espera a musse como ele gostava, não sabia como podiam saber se não o conheciam e ele, achava que nunca tinha comido essa coisa.

O casal triste suspirava, a mulher enxugou umas lágrimas, e disse com voz triste, ele era muito amigo da nossa filha, vê o estado a que chegou, não conhece ninguém, não diz coisa com coisa, está mesmo parvinho de todo. Pobre Maurício!

A que lhe chamou mano, mascava pastilha elástica e o da barba mandava mensagens, dum telemóvel, com uma sofreguidão como se o mundo estivesse para acabar.

Parecia um estranho no meio de pessoas que nunca vira, diziam que eram família mas a família a gente não esquece e não se recordava de nenhum deles. Julgou que estava acordado, não era um sonho, beliscou a perna e doeu, era real.

Afinal o que se passava, seria que era extraterrestre e não sabia. Não podia ser, esta gente parecia conhece-lo, até sabiam o nome, porque ele tinha uma leve ideia de ser Maurício.

A rapariga que mascava a pastilha, pegou-lhe no braço e encostou-se como se fossem velhos amigos, com um sorriso feliz disse:

-Vens com a mana e os pais, o mano vai levar os teus sogros!

Sogros, pensou, se tenho sogros é porque sou casado!
Ainda não tinha falado mas, não se conteve:

-Mas sogros como?

Olhou os seus denominados pais, antes de responder:

-São os pais da Mila, logo são teus sogros, mas não penses nisso! Um dia vais recuperar a memória e ficarás a par de tudo.

Não estava confortável com esta situação, tinha acordado, talvez, há dois dias, de um sono que lhe deixou um buraco negro no cérebro, limpou-lhe as memórias e criou um vazio angustiante. Não sabia quem era, donde tinha vindo e agora estavam-lhe a impingir uma família, talvez fossem simpáticos, mas era pouco, ele não os tinha escolhido.
 Estava como uma criança para adopção, a família escolhe a criança mas, a criança, não tem a possibilidade de escolher a família.
Estava farto duma irmã que mascava pastilhas, dum irmão de barba rala agarrado ao telemóvel, duns pais tão apagados e ausentes que pareciam dois estranhos, no assento traseiro.
Não podia continuar, estava a tempo de por fim  a esta palhaçada.

Tomei coragem e gritou:

-Parem esta merda, estou farto disto, quero sair!

A mana estancou o carro, mas de forma tão desastrosa que o mesmo rodopiou, bateu com força no separador, saltou e só parou no fundo da ribanceira.

Maurício foi a única vitima, o lugar ao lado do condutor é, quase sempre, o pior.


Agora, se lhe fosse permitido, ficava a saber que a boca ávida, daquela cova, esperava por ele.



sábado, 30 de novembro de 2013

A Rival








Joana estava deslumbrante, as calças de ganga, muito esticadas nas pernas, e o camiseiro vermelho apertado no peito, punham em evidência os fartos seios. O cabelo loiro, num estudado desalinho, caia em reflexos dourados nos ombros descobertos.

Mirou-se pela terceira vez ao espelho, deu uma pequena volta para ver o efeito e, sem modéstia, achou-se linda e, como dizem os rapazes, sentiu-se "boa como o milho".

Ia ter com o André e queria arrasar, queria deixa-lo guloso, arfante como um cãozinho cansado.

Não era por ser o André, filho do dono das Industrias Portofinos, um dos dez mais ricos do país, isso era importante mas havia, também, uma questão de orgulho. O gajo andou sempre embeiçado naquela lambisgóia da Ana e, logo a Ana que não tinha graça nenhuma nem pejo de se enrolar com qualquer um.

Joana não era assim, não quer dizer que rejeitasse um bom enrolanço, mas tinha que ser, ou parecer, difícil.

Hoje era diferente, o André ia inaugurar o Rodopio, não a convidou formalmente, mas deu-lhe um ingresso e, a entender que se ela aparecesse, seria bem-vinda. Para Joana isso era mais de que uma incitação, era um desejo que deixou, no vago, com medo de alguma nega.

Joana estava impaciente, embora ainda fosse cedo mas, tinha por hábito, não sair antes de a mãe chegar. Não devia tardar, a mãe era advogada na firma Perestrelo & Filipa Advogados Associados, e em regra por volta das oito horas estava em casa. Muitas vezes chegava e, depois de jantar, ficava a trabalhar até as tantas.

Ela adorava a, sabia tudo da vida. Ficou viúva tinha, a Joana, 2 anos e soube ser pai e mãe ao mesmo tempo,

Era uma bela mulher, quando saiam juntas, tantas vezes, as confundiram como irmãs. Mas era falta de atenção, não se podia confundir uma senhora de 40 anos com uma miúda de 19, mas as pessoas gostam de dizer coisas e, como elogio à mãe, era justo.

A mãe chegou, um pouco antes das oito, estava linda, tinha arranjado o cabelo e as unhas.

-Então Joana pronta para a galderice?

-Estou doutora Filipa, estou à tua espera, hoje vou a uma festa!

-Aproveita rapariga, eu também vou sair, tenho um evento. Coisa simples!

*****

Estava uma noite quente, havia muita gente na rua, mas táxi nem um. Foi experimentar na curva, como estava perto dos restaurantes podia ter mais sorte. Nada e o tempo a passar, devia ter pedido uma boleia à mãe, mas não teve coragem, ela chegava cansada e, além do mais, hoje também tinha um compromisso. Já podia ter tirado a carta, mas depois tinha carta e não tinha carro, ficava na mesma e, confessa que não tem muita vontade de o fazer, faz-lhe confusão guiar um carro, é uma trapalhada com os malucos que andam por aí.
Oi...finalmente um táxi:

-É senhor aqui, táxi, táxi.....oi...!

Nem sequer olhou, sacana, deve estar para recolher.

Quase nove e meia, quando chegar já a festa está no fim, e alguma atrevida já sacou o André. As gajas andavam todas atrás dele e, compreende, é um gato e tem dinheiro.

Se tivesse ido de transporte já lá estava, quase dava tempo de ir a pé.

Agora é verdade, um táxi e parou.

Havia pouco transito, graças a Deus!

Dez e um quarto, chegou à porta da nova discoteca, que estava linda!
Néon, de diversas cores, davam um ar feérico de festa.
O segurança era enorme mas, com um sorriso, franqueou-lhe a porta.

A sala era imensa, grandes esferas brilhantes, giravam no tecto espalhando pontos de luz, que iam percorrendo os pares que se movimentavam ao som, daquele barulho a que chamavam música.

Tinha que encontrar o André, não iria ser difícil, afinal era o anfitrião.

Olhou em volta, andou entre os pares que, de copo na mão, pulavam ao som de um ritmo da moda.

Nada do André, possivelmente, só lhe ofereceu o convite por cortesia.
Era isso! O tipo sabe insinuar-se, todas as raparigas o disputam, ele sorri, faz charme e nada de compromissos. Se podia ter muitas porque deixar enfeudar apenas por uma?
Este era o pensamento de Joana, mas o convite pareceu diferente, tinha algo de esperança.

Foi até ao balcão, pareceu-lhe o mais lógico, e perguntou:

-Boa noite! Sabe dizer onde posso encontrar o senhor André Vilaça?
Combinamos aqui, eu sou quase a namorada!

O emprego olhou-a, de uma forma muito profissional, e sem deixar de abanar o misturador, limitou-se a uma resposta muito simples:

-O senhor André, está no gabinete, no primeiro andar, com uma senhora que não é, pelo menos parece, quase namorada!

Joana sentiu um rubor, as pernas fraquejaram um pouco, mas disfarçou o suficiente para agradecer e confundir-se, entre os pares, que freneticamente continuavam num baloiçar ao som do barulho.

Foi ao fundo da sala e olhou para as escadas de acesso ao piso superior, mas calculou que o segurança seria um obstáculo.
Ia experimentar.

Aproximou-se de forma muito subtil e, com a voz mais doce possível pediu:

-Posso subir ao gabinete do André? Sabe! O senhor não me conhece mas eu sou a namorada e queria fazer uma surpresa!

O homem não perdeu a postura e, com a voz mais calma possível, retorquiu:

-Desculpe menina mas não a posso deixar subir, além disso, não seria ele a ter a surpresa! Quando está com a doutora Filipa não gosta que o incomodem!

-Doutora Filipa? Qual? A advogada?

O segurança, apenas, resmungou:

-O que ela é não sei, não me pagam para saber o que as pessoas são!





domingo, 24 de novembro de 2013

A Despedida



Para o meu cunhado, António Nunes, companheiro de muitas jornadas.










O raio da gaiata era tão linda como um radioso nascer do Sol.
Branca como a neve, cabelos ruivos, em pendentes caracóis, davam-lhe um ar quase angelical, que era desmentido pela sensualidade de uns lábios carnudos, que apetecia morder, e por uns olhos amendoados onde o brilho de avelãs eram um constante desafio.

Sabia como era e fazia questão em o realçar, vestia uma camisola justa e bem decotada, de forma a por em evidencia dois hemisférios que pareciam querer saltar. A saia parecia um cinto largo, donde pendiam duas pernas longas e torneadas, por um artista que percebia da poda. 

Até os joelhos, coisa rara, eram perfeitos.

Deslizava elegante, ecoando o saltitar dumas elegantes sandálias vermelhas com incrustações coloridas.

Ia distribuindo charme e recebendo olhares gulosos de tantos homens, como outros, invejosos, de algumas mulheres.

Passava numa estudada inocência, numa vaidade
que se compreendia, ela não tinha culpa era a obra de um, qualquer, Deus!

***
Não sou nada de especial, apenas a simpatia me torna aceitável. Nasci, algures, numa terra que nem vem nos mapas, tão pequena que um dia descobri que não tinha espaço para mim, sufocava-me os pensamentos, cerceava-me as ideias e não me deixava dar azo às minhas fantasias.

O ar era respirável, o problema estava mais no horizonte limitado, na falta de ideias, na monotonia das parcas conversas no café, que também era mercearia, loja de ferragens e vendia, ao mesmo tempo, roupas de gosto duvidoso.

As noites começavam cedo e as manhãs ainda mais.

Acho que 99,9%, dos homens, trabalhavam na agricultura, o 0,1% que falta era eu, que pensava que a escrita podia ser uma ocupação e não apenas um gosto.

Foi num dia invernoso, que às 7 da manhã, entrei na velha camioneta da carreira e, sem olhar para trás, abalei à procura de outros horizontes.

Já passaram alguns anos, deixei a falta de espaço e vim encontrar um mundo que não era, propriamente, o que espera, mas fui-me adaptando.

Hoje transformei-me numa espécie de free-lance. Vou escrevinhando umas crónicas para umas revistas e, quando calha, uns artigos para um jornal. Não é muito mas, o suficiente para uma vida decente, com a vantagem de fazer aquilo que mais gosto.

****

O dia acordou azul, não sei se há dias azuis mas, eu caracterizo os dias, tenho essa mania. Hoje acordei inspirado, com grandes ideias para uma crónica, vou escrever sobre a influencia do acordar no comportamento das pessoas, se calhar não é uma grande ideia, mas acordei, com ela, neste dia azul.

******

Não acredito, propriamente no acaso, mas hoje, por acaso a minha vida deu uma volta.
Descia o Chiado e uma visão toldou-me os pensamentos. Era linda, cabelos ruivos, pele leitosa, olhos cor de avelã e uns lábios como cerejas maduras esperando ser colhidas.
Fiquei a olhar com um sorriso meio aparvalhado e sorri-lhe, olhou-me e sorriu também. Afinal, se calhar, não sou só simpático.

Não resisti e perguntei-lhe:

-Sabe? Para este dia  ser o melhor, da minha vida, só a sua companhia num café!

Quando abriu mais o sorriso, o dia ficou mais claro e quando disse que aceitava, para mim, ficou totalmente azul.

Sentámos na esplanada e pedimos os cafés, perguntei se não queria um bolo, abanou a cabeça e respondeu:

-Não obrigado, aceitei este café para me poder sentar um pouco e, também, porque o seu sorriso foi o único que hoje me pareceu sincero.

Ficamos perdidos durante muito tempo, ela desenvolta, à vontade, eu embevecido nas palavras.

Vivia nos arredores de Lisboa e hoje era já a terceira entrevista.

Vestia, reconhecia, para evidenciar o que sabia ter e, percebia, que as roupas compradas nas lojas dos chineses no seu corpo ganhavam o glamour das grandes marcas, não tinha culpa, não foi ela que se fez, foi obra de Deus e, a felicidade de ser parecida com a mãe ajudava.
A mãe era linda!

Tinha acabado um curso de economia, fez dezenas de currículos que, enviou para tudo o que era conhecido, respondia a todos os anúncios que apareciam, foi a 12 entrevistas e apenas recebeu, dalguns homens, propostas pouco profissionais ou, então, para distribuição de panfletos na via pública, não tinha dúvidas em aceitar se as condições fossem minimamente decentes, agora 300 euros, sem qualquer subsídio para refeição e transporte, pareceu-lhe uma espécie de escravatura.

Ouvi encantado, não só pela doçura da voz mas também pelo desespero e necessidade de desabafo, suspirei fundo antes de responder:

-Perdoe a minha deselegância nem sequer me apresentei. Sou Rodrigo, licenciado em comunicação social e vivendo de trabalhos esporádicos, embora não me possa queixar, há piores.

Fugi, é o termo, duma pequena aldeia na busca de horizontes e não sei se os encontrei, mas vou continuar essa busca.

Não me disse o seu nome, se calhar não é importante, mas fico feliz porque confiou em mim.

-Sou Esmeralda, peço também desculpa. Tenho que ir embora o comboio não espera. Este é o meu telefone, quando não estiver muito ocupado dê-me noticias, gostei de o conhecer!

Levantou-se rodando as pernas e começou a descer a Rua Garrett com a graça natural que a natureza lhe ofereceu.

Olhou para trás e sorriu.

Foi o princípio.

*****

Levantei-me e o dia tinha um ar rosado, o meu coração estava sobressaltado, o meu pensamento numa rodilha de ideias descoordenadas. A vontade dizia-me sim, o bom senso refreava o desejo.
Ganhou a vontade, foi mais forte. Ia telefonar.

-Bom dia Esmeralda!

Do outro lado uma voz entoou:

-Esmeralda! É para ti filha.

Senti o restolhar dum telemóvel a mudar de mão:

-Bom dia, não conheço o número.

Dei uma pequena gargalhada:

-É natural só espero que, ainda, se lembre do dono!

Senti uma mudança no tom da voz, ficou mais doce:

-Não acredito! É o Rodrigo?

-Sim, respondi, sou o Rodrigo e não quero ser inconveniente, mas dormi num sonho cor-de-rosa consigo no pensamento.

Ficou calada, sabia que estava lá, ouvia o respirar, mas foi por pouco tempo:

-Sabe Rodrigo, não fique vaidoso, mas também pensei muito em si.

Ganhei coragem e convidei-a para almoçarmos amanhã, pensei num jantar mas. alguém me disse um dia  " nunca se convida, na primeira vez, uma mulher para jantar pode parecer que estamos a incluir o pequeno-almoço"  nunca esqueci o conselho.

Apareceu como combinado, vinha linda o que era fácil, fomos almoçar a um pequeno restaurante em Belém, foi um almoço de  frases simples, de olhares cúmplices, de toques casuais, de quase promessas, de vontades perceptíveis.

Longos silêncios de olhos nos olhos, de adivinhar pensamentos e de ganhar coragem para, confessarem que tudo tinha mudado nas suas vidas.

Nunca mais se deixaram, ele embebedava-se naqueles olhos amendoados, nos lábios de mel e no sorriso que partia corações, ela bebia as palavras dele, os devaneios, os sonhos e aquele desejo de encontrar o espaço que há tanto tempo procura.

Estavam, verdadeiramente, apaixonados.

*****

São 6 horas e 50 minutos, de uma manhã de Primavera, o aeroporto de Lisboa regurgita de pessoas que andam de um lado para o outro, malas que se arrastam, despedidas em olhos vítreos por lágrimas contidas.

O altifalante dá os últimos avisos:

-Ultimo chamada para os senhores passageiros do voo, 127542 da TAP, com destino a Boston , é favor dirigirem-se à porta de embarque  número 26.

Esmeralda e Rodrigo despediram-se, mais uma vez, da família e encaminharam-se para o voo.

Iam procurar, longe, o que o seu país lhe tinha negado.






domingo, 17 de novembro de 2013

Além







Sabia que era hoje, há muito tempo que tinha essa certeza, mas  tinha uma vontade enorme de adiar. Não era propriamente medo, há muito que o bani da minha mente, mas a incerteza do que está para além daquilo que eu entendo.

Compreendo a vida, faço parte dela, sei da morte, faz parte da própria vida, ou será, como já ouvi, que a vida é uma pequena pausa da morte!

São conjecturas, divagações pela incerteza, receios pelo desconhecimento ou, talvez, uma vontade enorme por estar deste lado, não sendo tão bom, mas já o conhecemos.

***

Foi numa tarde, de Setembro, que o doutor Osório, olhando-me por cima dos óculos, me foi preparando:

-Caro Aniceto, as noticias não são as que gostaria de lhe dar, pelos sintomas eu já suspeitava, mas queria estar enganado, por isso estes exames todos!

Não me contive com aquela ladainha e, sou perito nisso, interrompi:

-Passe à frente doutor e vá ao que interessa.

O médico pareceu compreender os meus modos bruscos, tirou os óculos, ridículos, e foi duro e seco:

-Vamos ao que interessa, tem um tumor maligno.

Afinal, pensava, mas não estava preparado, senti como um enorme soco no estômago, até pareceu que o cérebro chocalhou. Recobrei, uma calma aparente, e apenas me saiu:

-E agora doutor?

O médico, conhecido de há muito tempo, parecia ter a resposta já preparada:

-É assim! Se não fizer nada, dou-lhe seis meses de vida, se formos para a operação tem 60% de hipóteses, se Deus o ajudar, pode ficar com alguns problemas, mas com sorte fica bom.

Levei algum tempo a remoer, passei algumas ideias em branco e  pensamentos negros.
Escondi de todos, até da família.

Ontem sonhei que tinha sido operado, foi estranho!
 Eu ajudei a mexer naquela confusão de órgãos, de sangue muito vermelho, de ganchos a segurar a abertura, de homens e mulheres de mascaras numa azáfama de bisturis, tesouras curvas e uns alicates que seguravam, enquanto iam cortando pedaços.
Acordei esbaforido, aos gritos. Foi a Mila que me sossegou.

Foi nessa manhã que ganhei coragem e contei tudo. Primeiro choramos, os dois, num abraço deixando que as nossas lágrimas se encontrassem num mesmo lamento.

Mila foi a primeira a enxugar os olhos, a recuperar das emoções.
Segurou-me as mãos e, com a maior ternura, foi dizendo:

-Sabes amor, tu és um homem bom, forte e a razão da minha felicidade. Deus não pode ficar indiferente, vai ouvir as nossas preces, vai ser justo. Não tenhas medo, vai correr bem e, eu, estarei sempre a teu lado.


******


Vim ontem para o hospital, disseram que me iam preparar para, amanhã à tarde, ser operado.

Tiraram sangue para análises, espetaram-me uma agulha na veia, com um tubinho ligado a um saco de soro, que ia pingando numa cadência programada.
A enfermeira tinha um sorriso lindo, ajeitou-me a roupa, enquanto ia dizendo:

-Agora durma, descanse!

Vieram, com uma espécie de cama com rodas, e meteram-me num elevador, maior que a minha cozinha, e levaram-me para uma sala enorme, com uma imensa luz, transbordaram-me para uma mesa.

O cirurgião, julgo que Dr. Norton, sossegou-me com palavras positivas.

-A Dra. Cidália vai dar-lhe a anestesia, quando acordar é um homem novo!

*****

Acho que já acordei mas não sei quem sou nem onde estou.

O sítio é lindo, a luz brilha, a música é suave.

Devo estar, ainda, no efeito da anestesia.

Bom! Já devo estar acordado, tenho aqui todos os meus amigos, meus pais e até os meus avós, afinal estavam vivos, confusão a minha.

Só falta a Mila o que é estranho!

Porque será que a minha mulher não está?




sábado, 9 de novembro de 2013

A Mâe






Ainda não era meio-dia  e a mãe já chamava para o almoço, era sempre assim, quanto mais depressa nos despachasse tanto melhor.

O almoço era, quase sempre, a mesmo sopa de couves com uns feijões a boiar no caldo, um pedaço de pão e uma fruta.
O pão era a única coisa nova, porque a sopa era igual à de todos os dias. Fazia uma panela enorme, congelava em tigelas de plástico e, ao almoço, saiam duas, uma para mim e outra para a Clotilde, depois desaparecia e só voltava ao anoitecer.
Nós ficávamos livres para calcorrear as ruas do bairro.

Mas hoje foi diferente, tivemos um prato de arroz com ovos mexidos, nem queríamos acreditar.
Mas era verdade! A Clotilde até se atreveu a perguntar:

-Mãe hoje é algum dia especial?

A mãe deu uma pequena gargalhada, antes de responder:

-Come e não sejas parva, a vizinha Adelaide deu-me seis ovos!

****

A mãe era única, o nosso pai morreu naquele tractor tinha eu, três anos e a Clotilde um.
Foi difícil, ela só sabia trabalhar na lavoura a ajudar o pai, por isso teve que deitar mãos à vida. Tratava de nós, tínhamos pouco, mas fome, nunca passámos.
A nossa roupa estava já, um pouco delida pelo uso, mas sempre imaculada, pois quando chegava, já muito de noite, enchia a selha e, com sabão azul e branco, deixava tudo a brilhar.

Às vezes, quando vinha cansada, sentava-se no velho canapé de buinho, pegava na Clotilde ao colo, segurava a minha mão e, com lágrimas no meio daquele sorriso lindo,  prometia:

-Um dia, saímos desta miséria. Juro que saímos!

Vou deixar de estar agarrada à loiça suja, vocês vão ter roupa nova, bonita, e refeições como todos, os meninos, devem ter.

A Clotilde, só tinha cinco anos, por isso acreditava e sorria, mas eu sou quase um homem, com sete anos, sabia que a mãe dizia essas coisas para nos animar.

A mãe era linda! Diziam, as vizinhas, que foi das moças mais jeitosas da freguesia, não lhe faltaram pretendentes ricos, mas ela embeiçou-se pelo nosso pai e casaram.
Mesmo depois do pai morrer, muitos a procuraram mas, sempre educadamente, dizia que quando ficou viúva tinha sido para a vida, foi do seu Ernesto, nunca seria de mais homem nenhum.

***

A mãe, ultimamente, andava estranha, não que tivesse mudado o tratamento, continuava carinhosa e cheia de esperança, por mais humilde que fosse a nossa vida, ela continuava a dizer que tudo ia mudar e não tardava nós, os seus meninos, íamos ter tudo a que as crianças têm direito.

Eu e a Clotilde queríamos saber onde a mãe trabalhava, já pensamos ir espreitar mas ela apanha um autocarro e desaparece, se fosse a pé era fácil embora a Clotilde, ainda tenha uns passos curtinhos.
Quem sabe, um dia, temos dinheiro e vamos espreitar onde a mãe trabalha e calar todos os que dizem que a mãe está a fazer coisas feias.

***

Hoje, como todos os dias, a mãe chamou:

-Venham almoçar que eu tenho que me despachar.

Foi uma festa, salsichas e batatas fritas, a Clotilde batia as palmas de contente, não se conteve:

-A mãe é a maior!

A mãe sorriu, deu-nos um beijo na testa e saiu para o trabalho.

****

Começamos a estar com medo, já é tarde e a mãe ainda não chegou, se calhar teve mais louça para lavar. O homem da televisão disse que eram 22 horas, fui perguntar à vizinha Adelaide, o que era isso de 22 horas, ela disse que eram 10 horas e explicou que depois do almoço as horas eram doutra maneira, não percebi nada, complicações dos crescidos.
A Clotilde estava enrolada no canapé com as lágrimas, quase, a romperem nos olhos.
Sosseguei-a, disse que a mãe teve mais trabalho e vinha tarde.
Peguei num pão, não sei muito bem como se corta ao meio, não ficou muito bem, mas deu para o untar com manteiga, muita, como a mana gostava, lavei e parti, às tirinhas, uma maçã encarnada e ela comeu, ficou melhor e acabou por adormecer.
Custou-me um bocadinho mas, consegui leva-la para a cama. Ficou sossegadinha, não a tapei com a coberta, estava muito calor.

Sentei-me no canapé a olhar para a televisão e devo ter adormecido.

***

Era muito cedo quando bateram à porta, levantei-me assustado. Pensei que a mãe perdera a chave, fui abrir a porta que só estava no trinco.

Não era a mãe, em frente estavam dois polícias, com a dona Adelaide, e uma senhora toda fina, com um chapéu na cabeça. A mãe dizia que as senhoras que tinham chapéu, eram pessoas da alta.

O policia  que tinha um bigode, como o meu professor, perguntou:

-És o Luís?

Abanei a cabeça a confirmar.

-E a tua irmã? Voltou a perguntar.

A voz não me saiu muito bem, se calhar vinha prender-me por ter arranhado o gordo, mas eu fiz o certo, a mãe sempre me disse para me defender, a mim e à minha irmã, mas respondi:

-A minha mana está a dormir, mas ela não tem nada a ver com o gordo, fui eu que lhe bati!

O polícia fez, por cima daquele bigode, uma espécie de sorriso, mandou-me acordar a Clotilde e disse para nos vestirmos, pois tínhamos que ir com a senhora, a do chapéu.

Repliquei:

-Não podemos ir, temos que esperar pela mãe, que está atrasada.

O polícia voltou a insistir:

-Vão tratar de vocês que, a vossa mãe, já não vem hoje.

Dona Adelaide falou lá de trás:

-Vão com os senhores que eu fico aqui e trato do resto!

-Diga, à minha mãe, onde estamos, pedi já numa espécie de choro. Eu sou um homem, mas a mãe sempre disse que chorar, não é vergonha pois, até os homens choram.

A casa para onde nos levaram era muito grande, havia mais meninos a brincar mas, nem deram pela nossa chegada.
A senhora do chapéu, chamou uma Deolinda e disse para nos dar banho.
Em casa, também, tomávamos banho na selha, a mãe aquecia uma panela de água, depois misturava com a fria. Eu gostava mas, a Clotilde choramingava.
Aqui era diferente, tinha duche, foi assim que a senhora disse. Foi bom, até a mana gostou.
Vestiram-nos umas roupas que não eram as nossas, mas tinha que ser, as que trazíamos não estavam muito limpas.

-Agora vão almoçar, disse uma senhora com um avental aos quadradinhos amarelos.

Ficamos numa mesa com uma menina de olhos azuis e um rapaz, da minha idade, cabelo vermelho e com muitas sardas.
A menina era muito bonita, fiquei a gostar dela e expliquei:

-A nossa mãe nunca mais chega, está muito atrasada!

-Se calhar morreu, como a minha, respondeu.

-Não gritei! Não morreu nada! A nossa mãe não morre, tem que trabalhar, trabalha muito e às vezes chega atrasada.

A senhora, do avental, apareceu com uma coisa que parecia a nossa terrina, mas muito maior. Com uma concha  ia deitando nas nossas tigelas, uma sopa, que parecia caldo verde. A Clotilde gostava muito eu, nem por isso.
Depois do caldo-verde, um prato de esparguete com carne, nunca tinha comido nada tão bom!
Um dia, pedi à mãe para fazer esparguete, ela prometeu que quando tivesse carne fazia.

No fim, ainda, nos deram uma taça, parecia de lata, com fruta aos pedacinhos, chamavam-lhe salada de frutas.

Durante o dia estávamos nas aulas, eu com os crescidos, a Clotilde com os mais pequenos.

À noite a Clotilde chorava, queria a mãe, mas a menina, de bata branca, fazia-lhe uma festa na cabeça, dizia coisas bonitas e ela adormecia.

Um dia perguntei-lhe quando chegava a nossa mãe, ela pareceu não saber, pois, disse que não tinha a certeza, mas que um dia vinha!

Comecei a ter pensamentos estranhos, será que a mãe se fartou de nós e foi com um homem, como diziam algumas pessoas que não acreditavam no trabalho da mãe?

Hoje é domingo, muitos meninos têm visitas e nós também. A nossa vizinha apareceu, numa roupa bonita, e deu-nos chocolates.
Apanhou a Clotilde ao colo e lambuzou-lhe a cara com tantos beijos, depois acalmou para suspirar:

-Tinha tantas saudades, tantas! Mas só hoje consegui!

-E a nossa mãe quando nos vem buscar? Perguntamos nós.

A Dona Adelaide ficou com cara de envergonhada, entrelaçou os dedos e só nos disse:

-Não sei filhos, a santinha está a descansar. Quando forem crescidos logo ficam a saber.

A Clotilde não percebeu mas, eu fiquei desconfiada de alguma coisa má, fiquei calado por causa dela.

 
Passado muito tempo, a Clotilde, foi adoptada por um casal muito simpático e está feliz.
Eu já era muito crescido, quase um homem, como dizia a mãe, ninguém me quis.

*******

Hoje vou fazer 15 anos e, o casal simpático, deram-me a melhor prenda que poderia esperar, vieram com a Clotilde.

Como estava linda a minha mana! Tinha 11 anos e parecia mais alto do que eu.

Falamos de tantas coisas mas, por coincidência ou de propósito, nenhum falou da mãe, parece que dentro de nós havia uma revolta escondida, não dizíamos, mas lá no fundo, sempre pensámos que a mãe tinha abalado sem se lembrar dos filhos.

Clotilde esteve pouco tempo, os novos pais, tinham coisas para fazer mas, eles não sabiam,  tinham-me feito muito feliz. Uma hora com a minha irmã!

Ainda não deviam ter chegado ao automóvel, agora a Clotilde andava de automóvel, e apareceu a dona Adelaide, estava a ficar velha, já tinha alguma dificuldade em andar, mas como em todos estes anos não se esqueceu deste dia.

Deu-me um beijo, bem sonoro, e entregou-me um pequeno embrulho:

-Toma filho! Tens já idade para a guardares.

Abri nervoso, parecia uma moldura. Era mesmo uma moldura com uma fotografia da mãe, com aquele sorriso que nos aquecia o coração.
Uma lágrima escorreu, tentei limpar, mas não lhe passou despercebido:

-Sabes Luís, não chores! Já passou muito tempo, recorda os tempos que estiveram juntos, muito pobrezinhos, como todos nós, mas cheios de amor e felicidade.

Foi mais forte do que eu, tinha jurado não perguntar, não fui capaz:

-Dona Adelaide, agora que a Clotilde não nos ouve, diga-me por que foi que ela nos abandonou?

Abriu muito os olhos, respirou fundo como quem  tenta ganhar coragem, apanhou-me o queixo com muita ternura:

-A vossa mãe nunca vos abandonou, ela morreu porque os queira recompensar com tudo, o que nunca vos conseguiu dar. Agora já estás crescido para saber toda a verdade.
A tua mãe, com outros dois, tinham um plano para assaltar um armazém de ouro. Tinham, mas não contaram com o alarme.
Os outros dois fugiram, ela tentou mas não conseguiu, e os dois tiros do guarda foram ter ela. Morreu mesmo ali.
Morreu por que vos amava muito!
****

Sai a correr, deixei o lar, com uma vingança no pensamento.
Vou encontrar quem puxou o gatilho e dar cabo dele.

Não se mata uma mãe que, apenas, queria dar uma vida melhor aos filhos.

Vou descobrir o assassino, vou descobrir!
Juro que que vou!