Ainda
não era meio-dia o relógio, do campanário da Igreja, ainda não o tinha
anunciado. Mas pouco devia faltar.
Ramiro limpou algumas bagas de suor que começavam a escorrer na testa, o calor era muito e não ia ficar por aqui, o dia prometia ser muito quente.
Finalmente, as doze badaladas, entoaram pela aldeia quebrando, por um pouco, o silêncio das ruas desertas.
Tinham combinado ao meio dia, não estava atrasado mas esperar não estava nos seus hábitos, era pontual e não aceitava ficar, feito espantalho, parado em qualquer esquina numa espera, que afinal não sabia bem para que.
Foi durante a última sessão da junta que o fulano o abordou com farinhas mansas, já o conhecia mas nunca tinham falado. Ramiro era um reles desempregado a viver de biscates enquanto o tipo fazia parte da família dos Malcatas, gente de teres e haveres, donos de quase tudo, que a nossa vista conseguia abarcar.
Ramiro era um brutamontes, não voltava a cara a nada nem a ninguém, era homem para tirar a camisa para agasalhar um necessitado, como também, capaz de fazer saltar os dentes a qualquer fanfarrão que se atrevesse a pisar o risco ou, a tratar mal algum dos seus amigos. Vivia sozinho na casa que fora dos pais, era modesta mas sobressaia pelo aspecto, muito arranjada e pintada de branco com frisos em cor ocre. Diziam os vizinhos que muitas mulheres não tinham a arrumação, nem o asseio e o bom gosto que o Ramiro mostrava no seu lar.
Nas traseiras, a pequena horta, ajudava na subsistência com as batatas, as cebolas, algumas couves, alfaces e todas as ervas aromáticas que terra ia dando.
Ramiro, em tempos, esteve para casar, era mesmo um caso de amor mas o destino não deixou, um cancro consumiu a moça de um dia para o outro.
Passou a ser um homem diferente, taciturno, fechado num mundo muito próprio. Acudia a quem o chamava para arranjar uma torneira, a antena da televisão, as telhas que deixavam verter a chuva ou, até, uma porta que rangia. Para ele estes pequenos trabalhos não tinham segredo, aprendeu com um tio. Depois isolava-se e só voltava a sair de casa quando algum dever o chamava.
Hoje foi um desses momentos, uma reunião da junta que o presidente, José Desidério, convocou para o povo decidir o que seria mais importante para a aldeia, se arranjar o caminho da fonte ou mandar colocar candeeiros, públicos, no largo da Igreja, afinal só havia dinheiro para uma.
Depois de muitas opiniões, foi resolvido voltar a reunir na próxima semana. Foi ai, que Luís Malcata lhe disse quase de chofre:
-Preciso
de um serviço teu e pago muito bem!
Ramiro
ficou um pouco baralhado, não aceitava que os eventuais clientes fizessem o
preço dos seus trabalhos e esse - pago muito bem - ficou a baralhar-lhe a
cabeça. Respirou fundo antes de responder:
-Oiça bem Sr. Malcata, essa do eu pago muito bem não vem nada a propósito, sou eu que faço os meus preços, sou justo e apenas levo o valor que eu acho certo.
Logo, por esse motivo lhe digo que, agora, não tenho vagar para aceitar novos trabalhos.
Luís
Malcata não estava preparado para esta resposta, engoliu em seco e voltou à
carga:
-Oh
homem, não te amofines! Isto um trabalho muito especial e tenho a certeza que
nunca te passou pelas mãos nada igual.
-Bom,
disse Ramiro, se é assim tão especial como sabe se eu sou capaz do fazer?
-Vamos
ao que interessa, insistiu Malcata, tenho um servicinho muito especial, mas
mesmo muito especial e tu és a pessoa indica para ele. Pago 25.000 Euros à
partida e outros 25.000 quando estiver acabado.
-Mas
está a mangar comigo ou que? Acha que eu, Ramiro da Conceição, consigo sozinho
construir algum palacete? Sei fazer muitas coisas mas desse tamanho nem pensar!
Malcata soltou uma gargalhada antes de responder:
-Mas quem falou em fazer um palacete! Anda! Vamos sentar naquele banco, à sombra daquela árvore e apontou o caminho.
Estava um pouco melhor, embora um bafo quente mantivesse as camisas coladas ao corpo.
Malcata, num quase sussurrar, começou a explicar:
-Sabes que desde que a minha mãe morreu, há três anos, e atendendo à idade do meu pai deveria ser eu a tomar conta dos negócios. Era justo, mas o velho não deixou e continua a dar ordens e a fazer asneiras. Tenho aceitado, mas agora as coisas estão a complicar. O meu pai embeiçou-se por uma gaja de 25 anos, vê bem, 50 anos mais nova e ela, anda toda dengosa, aproveitando a sorte grande que lhe está a cair à porta.
O velho, agora, só pensa em duas coisas, na caça e na sua Guida, como diz. Não posso aceitar, pois se ela entra naquela casa vai dar-lhe volta à cabeça, sacar o que poder e tomar conta de tudo. O velho é teso e está para durar e eu vou continuar a ser um corpo presente, uma espécie de moço de mandados. Não pode ser, tenho um curso superior, percebo do negócio e ando às ordens de um velho tonto. Não pode ser!
-Mas, perguntou Ramiro, porque me diz isso e o que é tenho com o assunto, problema seu, que o senhor tem que resolver. Olhe, vá para a justiça, os advogados é que percebem dessas leis.
-É ai que tu entras e ganhas uma pipa de massa.
O velho
vai todas as tardes à caça e sei que tu também vais. Se ele tiver um acidente
fica tudo mais fácil, e tu 50.000 Euros mais rico.
Tenho aqui, nesta pasta, 25.000 em notas que te entrego, já, se aceitares o trabalho!
Tenho aqui, nesta pasta, 25.000 em notas que te entrego, já, se aceitares o trabalho!
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O povo estava em alvoroço, dois guardas sustinham o pessoal que se acotovelava junto ao velho carvalho do jardim. No chão jazia, Luís Malcata, com uma pasta bem aberta, onde se descortinavam uns maços de notas.
Nunca descobriram quem cometeu o crime, a autópsia concluiu ter sido estrangulado por umas mãos poderosas, e o móbil não foi o roubo, a pasta continha 25.000 Euros, valor que a vítima tinha levantado, na véspera, como comprovava o extracto bancário.






