domingo, 19 de janeiro de 2014

Vitoriana










Ia tão apressada que se eu não fosse tão listo, o telemóvel tinha-me voado, das mãos, com o encontrão.

Virei-me com vontade, nem sei bem de que, mas o sorriso e aquele ar angelical deixou-me sem coragem para refilar.

Era tão doce e aquele:

-Desculpa tá! Tão açucarado, foi suficiente para quebrar toda a minha vontade, apenas me saiu:

-Desculpo com uma condição, vem beber um café comigo!

Deu uma gargalhada, saracoteou aquele rabo que parecia esculpido, por um qualquer Miguel Ângelo e desapareceu na confusão, dos embrulhos das compras de Natal.

Eu, ainda, tinha coisas a comprar, este ano, deixei para o fim algumas das prendas do Natal, é o costume, tenho que me habituar a fazer as coisas a tempo e horas.

Faltava alguma coisa para a minha mana Alzira, uma Nitendo para o meu sobrinho André, foi o que ele me pediu, o difícil era encontrar, parece que todos os miúdos se lembraram do mesmo. 

Para a minha afilhada Margarida, era fácil, um envelope um cartão e umas notas, foi o que me pediu:

-Padrinho não me compre nada, no Natal dá-me uma nota para eu juntar para comprar um IPad!

Pedido é pedido, vou fazer isso!

Para a Alzira, gostava de uma camisola, igual à da moça que tropeçou comigo. Era diferente, mas onde vou agora encontrar uma camisola assim?

Estou farto, ando há duas horas num entra e sai de lojas e apenas consegui a Nitendo, para o André, camisola nem sei por onde começar, acho que vou desistir e ofereço um cheque brinde para ela escolher à vontade. Não gosto desta solução mas o que hei-de fazer?

Que se passa? Meu dia de sorte! No meio de uma dúzia de sacos lobriguei a menina do encontrão.

Que borracho, meu Deus! O Pai Natal bem podia deixar uma igual no meu sapatinho.

Que bom, reparou em mim e brindou-me com um rasgado sorriso antes de me dizer:

-Oi que bom que o encontro, agora aceito o tal cafezinho, preciso mesmo descansar as pernas.

-Com muito gosto! Respondi. Vamos, é no piso de cima!

Ia à minha frente, saltitando numas botas de saltos de sete centímetros, calças muito justas que deixavam antever uma coxas firmes e um traseiro que fazia corar um santo.

Procuramos uma mesa vaga, largamos os embrulhos numa cadeira e repousamos o cansaço das pernas.

-Que quer para beber, ou comer para ir buscar? Perguntei

-Você vai pégar? Disse de forma açucarada.

Tentei imitar, sem muito jeito:

-Vou pégar mesmo, com muito gosto!

Estava agradável a conversa, ela, Vitoriana era um autêntico furacão.  Nasceu em Porto Alegre, filha de um português e de uma brasileira, aos 8 anos foi com os pais para o Rio. Quando o pai morreu tinha, ela, 16 anos a mãe regressou a Portugal onde voltou a casar. Ficou a viver com os avós, podia estar com o mãe e o padrasto mas prefere estar com os avós, está mais à vontade!
Acabou o curso, de Relações Internacionais, e sonha com uma carreira diplomática.
Mas, interrompi:
-Qual é o teu nome?
-Oi, nome difícil mesmo! Sou Vitoriana! Papai queria um rapaz, um Vítor, mamãe queria menina que seria Ana, mamãe ganhou mesmo, mas acertaram os nomes e fiquei com os dois.

-Sabe, disse Vitoriana, não sei porque estou falando para você tudo isto! As vezes pareço um pouco boba.

-Não, respondi, fez bem falar e eu adorei ouvir e agora quero uma ajuda sua. Pode ser?

-Ai parou! Depende do que quer cobrar. Respondeu com uma saudável gargalhada.

-Pouca coisa, respondi, só quero que me ajudes a comprar, para a minha mana, uma camisola como a tua, coisas para mulheres não tenho muito jeito.

-Só isso? Perguntou, não é demais pelo café e o docinho! Anda, vamos, eu sei onde encontrar!

Levou-me ao piso superior, seguiu o corredor até ao meio, entrou numa loja que eu nem conhecia, mexeu no expositor e mostrou-me uma camisola quase igual á que tinha vestida e perguntou.

-Tá bem esta? Agora é só escolher a cor!

Era mesmo o que procurava, a empregada sugeriu verde-tília, dizia que era a cor da moda. O tamanho, eu sabia, era o 36. Paguei e pedi um embrulho para oferta.

Enquanto a empregada tratava da embalagem, procurei a Vitoriana. Devia estar no corredor!

Não estava, corri o centro comercial, olhei em todas as lojas, subi e desci escadas rolantes, olhei para tudo o que era lado, nada da Vitoriana.

Não há dúvida, escafedeu-se, mesmo.

Nunca mais a vi mas, juro, sonho com ela.

Por isso é que eu não gosto do Natal!
 






domingo, 12 de janeiro de 2014

A aposta








Quando nasceu, a parteira, limpou a testa e exclamou:

-A rapariga é forte como um toiro!

Podia parecer uma profecia, mas não, a recém-nascida era mesmo poderosa.

E assim cresceu, nunca conheceu doenças, na escola tomou as rédeas e passou a liderar tudo e todos. Os mais fracos procuravam a sua companhia, que lhes garantia estarem protegidos.

Aos oito anos já se batia, ao almoço, com uma malga de sopa de cavalo cansado, aos 12 pegava no machado e, com mestria, ia lascando um tronco para tirar as achas para a fogueira.

Nasceu forte e assim continuou, era uma mulher interessante, mas impunha um certo respeito e os rapazes só se aproximavam, mas tinham receio, pois quem a levasse sabia, como dizia mestre Malaquias, que precisava ter tomates para domar potra tão difícil.

Nunca se preocupou com isso, saía de manhã, com o pai e a enxada, que nas suas mãos, ia sulcando a terra para as sementes que o progenitor ia, atrás, espalhando.

Parecia um homem, mangas arregaçadas, limpava a testa com o braço, cuspia na mãos e o aço entrava na terra que, a pouco-e-pouco, ficava arroteada e pronta para receber o grão que era o sustento da família.

Ao fim do dia, depois da janta ia, com os restantes homens, beber uma malga de vinho na tasca do Ti Emílio.

Gracejava com todos e nenhum se atrevia a um braço de ferro, tinham receio de ficar envergonhados.

O dono da taberna, Ti Emílio como todos o tratavam, enquanto com um pano, encardido,  ia limpando o tosco balcão perguntou:

-Então vossemecês já ouviram falar dum lobisomem, que dizem, aparece à meia-noite no cemitério?

Alguns sentiram uma espécie de arrepio, um frio na coluna e os pelos eriçavam, mas não davam parte fraca. O Esteves bradou alto e bom som:

-Quem acredita nessas coisas? São mesmo uns cagarolas!

-Então, perguntou o Ti Emílio, és homem para ir sozinho e depois contas à gente como é?

Esteves ficou um pouco enrascado, não estava à espera dessa, mas ainda resmungou:

-Até ia se tivesse vagar, mas tenho umas coisas a tratar!

Foi uma risada geral e em coro disseram:

-Pois, bela desculpa! Então não tens vagar?

Ti Emílio estava com disposição para a brincadeira e voltou à carga:

-Dou 100 mil réis a quem for e mostrar que os tem no sítio!

-Alto ai, falou Mercedes, eu não tenho nada disso, mas por 150 mil réis vou sem ter medo!

-Calma, disse Isidoro, não temos homem  mas temos mulher, Ti Emílio dá os 100 eu dou os 50 e está feito.

-Então, confirmou Mercedes, preparem o dinheirinho que eu vou e volto num ai!

******

O cemitério ficava, mais ou menos, a um quilómetro da saída do povoado. Era pequeno, com uma vetusta capela em granito, no topo de uma pequena elevação, o único acesso era um caminho em saibro que ondulava entre urzes e silvas.

De noite, o local, era um pouco tenebroso e poucos, ou nenhum, se atrevia a deambular por esses sítios.

*****

Mercedes não se intimidou, colocou o xaile nos ombros e meteu as tamancas ao caminho.
O saibro saltava com ruído perante os passos apressados, mas, a rapariga, tinha fôlego suficiente, por isso ia apressando o andamento.

No fundo, lá no íntimo, estava arrependida desta ousadia, só os 150 mil réis a faziam esquecer a parvoíce em que se tinha metido.

Mas não era mulher de falhar e seguiu em frente, no alto já avistava os contornos da capela que, recortada na luz baça do luar, tinha um aspecto um pouco sinistro.

Estugou os passos, chegou ao terreiro, olhou pelo portão mas um
 fogo-fátuo brilhou.
Mercedes olhou estarrecida, mas quando se voltou a ponta do xaile ficou presa na grade do portão.

Foi o pânico total, largou numa correria, só parou no fim do carreiro, já na entrada do povoado, com os bofes a saltarem pela boca.

Recuperou antes de entrar na tasca, depois como se nada tivesse passado, em alto e bom som, reclamou o prémio.

Ti Emílio estava surpreso com a ousadia. Tinha que largar o dinheirinho. Raio da rapariga era mesmo tesa!

-Mas ouve lá cachopa, perguntou Isidoro, quem nos garante que fostes mesmo ao cemitério?

Mercedes nem alterou a voz, olhou os homens de frente e com a maior calma possível atirou:

-Fui ao cemitério e voltava se fosse necessário, mas já sabia que na altura de pagar se iam cortar, por isso e por causa das dúvidas deixei o xaile pendurado no portão.

Vá! Podem ir ver se tiverem coragem!

Agora passem para cá o dinheiro, cambada de covardolas!






 

domingo, 5 de janeiro de 2014

A proposta






Ainda não era meio-dia o relógio, do campanário da Igreja, ainda não o tinha anunciado. Mas pouco devia faltar.

Ramiro limpou algumas bagas de suor que começavam a escorrer na testa, o calor era muito e não ia ficar por aqui, o dia prometia ser muito quente.

Finalmente, as doze badaladas, entoaram pela aldeia quebrando, por um pouco, o silêncio das ruas desertas.
Tinham combinado ao meio dia, não estava atrasado mas esperar não estava nos seus hábitos, era pontual e não aceitava ficar, feito espantalho, parado em qualquer esquina numa espera, que afinal não sabia bem para que.

Foi durante a última sessão da junta que o fulano o abordou com farinhas mansas, já o conhecia mas nunca tinham falado. Ramiro era um reles desempregado a viver de biscates enquanto o tipo fazia parte da família dos Malcatas, gente de teres e haveres, donos de quase tudo, que a nossa vista conseguia abarcar.
Ramiro era um brutamontes, não voltava a cara a nada nem a ninguém, era homem para tirar a camisa para agasalhar um necessitado, como também, capaz de fazer saltar os dentes a qualquer fanfarrão que se atrevesse a pisar o risco ou, a tratar mal algum dos seus amigos. Vivia sozinho na casa que fora dos pais, era modesta mas sobressaia pelo aspecto, muito arranjada e pintada de branco com frisos em cor ocre. Diziam os vizinhos que muitas mulheres não tinham a arrumação, nem o asseio e o bom gosto que o Ramiro mostrava no seu lar.
Nas traseiras, a pequena horta, ajudava na subsistência com as batatas, as cebolas, algumas couves, alfaces e todas as ervas aromáticas que terra ia dando.
Ramiro, em tempos, esteve para casar, era mesmo um caso de amor mas o destino não deixou, um cancro consumiu a moça de um dia para o outro.
Passou a ser um homem diferente, taciturno, fechado num mundo muito próprio. Acudia a quem o chamava para arranjar uma torneira, a antena da televisão, as telhas que deixavam verter a chuva ou, até, uma porta que rangia. Para ele estes pequenos trabalhos não tinham segredo, aprendeu com um tio. Depois isolava-se e só voltava a sair de casa quando algum dever o chamava.

Hoje foi um desses momentos, uma reunião da junta que o presidente, José Desidério, convocou para o povo decidir o que seria mais importante para a aldeia, se arranjar o caminho da fonte ou mandar colocar candeeiros, públicos, no largo da Igreja, afinal só havia dinheiro para uma.

Depois de muitas opiniões, foi resolvido voltar a reunir na próxima semana. Foi ai, que Luís Malcata lhe disse quase de chofre:

-Preciso de um serviço teu e pago muito bem!

Ramiro ficou um pouco baralhado, não aceitava que os eventuais clientes fizessem o preço dos seus trabalhos e esse - pago muito bem - ficou a baralhar-lhe a cabeça. Respirou fundo antes de responder:

-Oiça bem Sr. Malcata, essa do eu pago muito bem não vem nada a propósito, sou eu que faço os meus preços, sou justo e apenas levo o valor que eu acho certo.
Logo, por esse motivo lhe digo que, agora, não tenho vagar para aceitar novos trabalhos.

Luís Malcata não estava preparado para esta resposta, engoliu em seco e voltou à carga:

-Oh homem, não te amofines! Isto um trabalho muito especial e tenho a certeza que nunca te passou pelas mãos nada igual.

-Bom, disse Ramiro, se é assim tão especial como sabe se eu sou capaz do fazer?

-Vamos ao que interessa, insistiu Malcata, tenho um servicinho muito especial, mas mesmo muito especial e tu és a pessoa indica para ele. Pago 25.000 Euros à partida e outros 25.000 quando estiver acabado.

-Mas está a mangar comigo ou que? Acha que eu, Ramiro da Conceição, consigo sozinho construir algum palacete? Sei fazer muitas coisas mas desse tamanho nem pensar!

Malcata soltou uma gargalhada antes de responder:

-Mas quem falou em fazer um palacete! Anda! Vamos sentar naquele banco, à sombra daquela árvore e apontou o caminho.

Estava um pouco melhor, embora um bafo quente mantivesse as camisas coladas ao corpo.
Malcata, num quase sussurrar, começou a explicar:

-Sabes que desde que a minha mãe morreu, há três anos, e atendendo à idade do meu pai deveria ser eu a tomar conta dos negócios. Era justo, mas o velho não deixou e continua a dar ordens e a fazer asneiras. Tenho aceitado, mas agora as coisas estão a complicar. O meu pai embeiçou-se por uma gaja de 25 anos, vê bem, 50 anos mais nova e ela, anda toda dengosa, aproveitando a sorte grande que lhe está a cair à porta.
O velho, agora, só pensa em duas coisas, na caça e na sua Guida, como diz. Não posso aceitar, pois se ela entra naquela casa vai dar-lhe volta à cabeça, sacar o que poder e tomar conta de tudo. O velho é teso e está para durar e eu vou continuar a ser um corpo presente, uma espécie de moço de mandados. Não pode ser, tenho um curso superior, percebo do negócio e ando às ordens de um velho tonto. Não pode ser!

-Mas, perguntou Ramiro, porque me diz isso e o que é tenho com o assunto, problema seu, que o senhor tem que resolver. Olhe, vá para a justiça, os advogados é que percebem dessas leis.

-É ai que tu entras e ganhas uma pipa de massa.

O velho vai todas as tardes à caça e sei que tu também vais. Se ele tiver um acidente fica tudo mais fácil, e tu 50.000 Euros mais rico.
Tenho aqui, nesta pasta, 25.000 em notas que te entrego, já, se aceitares o trabalho!

******

O povo estava em alvoroço, dois guardas sustinham o pessoal que se acotovelava junto ao velho carvalho do jardim. No chão jazia,  Luís Malcata, com uma pasta bem aberta, onde se descortinavam uns maços de notas.

Nunca descobriram quem cometeu o crime, a autópsia concluiu ter sido estrangulado por umas mãos poderosas, e o móbil não foi o roubo, a pasta continha 25.000 Euros, valor que a vítima tinha levantado, na véspera, como comprovava o extracto bancário.





domingo, 22 de dezembro de 2013

Um conto de Natal A guitarra do João

                  



  


Para o meu sobrinho Martim
 (Natal 2013)


Joãozinho tinha seis anos e era muito pobrezinho, pois os pais foram um dia, para o Brasil, e nunca mais voltaram.


Foi a avó Emília que tomou conta do menino. A avó era uma simpática velhinha, muito doce mas muito pobre. Vivia numa casa, pequenina, num pátio de gente boa que tanto a ajudavam.

Hoje, o Joãozinho está muito triste, tão triste que até o Sol parece querer por um raio de luz, nos olhos do menino, mas ele nem dá por isso.

Tem a cabeça escondida entre os braços, para que os outros meninos não possam ver as lágrimas que lhe escorrem pela cara.

Luís, que é o seu melhor amigo, achou estranha a posição do colega e foi-se aproximando para lhe perguntar:

-Dói-te a cabeça? Queres que eu chame a nossa professora para te ajudar?

-Não é preciso, respondeu o João, já passa!

Luís bem viu que ele estava a chorar, as lagrimas ainda se viam na cara.
Queria ajudar mas estava um pouco sem jeito, ainda era muito novo, e só a mãe é que sabia como isso se fazia. Mas tentou:

-Sabes João, no outro dia também chorei com dor neste ouvido, mas a minha mãe deitou umas gotas, de um remédio, e passado um bocadinho já não doía!


-A mamã mãe disse que quem chora não é mariquinhas e, disse mais umas coisas, que não percebi bem, mas aprendi que os homens grandes também choram.

-Não tenhas vergonha! Eu não conto aos outros meninos!

-Queres que eu peça à minha mãe o remédio para tratar o teu ouvido?

-Mas o meu ouvido está bom, respondeu o Joãozinho! Vou-te contar um segredo mas não digas nada, eu não queria chorar, mas não consegui, e as lágrimas apareceram sozinhas.

Luís estava sem perceber nada, ainda tinha só seis anos e, às vezes, não percebia bem as coisas.

-Mas se não te doí nada, porque estás então com lágrimas na cara?
Agora Joãozinho parecia querer sorrir, mas não lhe correu muito bem, o desgosto devia ser grande e o sorriso não apareceu.

-Vou-te contar tudo, mas juras que não dizes a ninguém? Suplicou o João.

-Eu pedi, ao Pai Natal, uma guitarra mas a minha avó disse que ele não tinha dinheiro, para guitarras, e só me podia trazer um chocolate.

-Eu queria tanto uma guitarra igual à que está na montra do senhor Elias!

-Eu porto-me bem, todo o ano, e nunca tenho prenda no sapatinho!

-Quando peço à minha avó um chocolate, diz que me faz mal aos dentes e não compra! Agora o Pai Natal vai trazer um e já não faz mal!

Luís ficou pensativo, também não percebia porque não davam prendas ao amigo, ele era tão bonzinho!

Queria dizer qualquer coisa mas, não sabia bem como fazer, havia palavras de crescidos que ainda não compreendia.
Pegou no braço do amigo e convidou:

-Anda, vamos brincar, se calhar a tua avó está muito velhinha e não percebe nada e o Pai Natal tem uma guitarra para ti.

No resto do dia, Luís, não largou o amigo para ele se esquecer da guitarra.

Quando fosse grande ia comprar uma e oferecia ao amigo, ou então se o Pai Natal lhe der duas, vai pedir à mãe que o deixe oferecer uma ao João. A mãe deve deixar!

No fim das aulas deram um abraço de amizade e, cada um foi para sua casa.
                             
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Agora só voltavam na segunda-feira.

No sábado, o Luís, foi com o pai à padaria e quando passaram à montra do senhor Elias parou para ver a guitarra do João, era bonita, brilhava e tinha enfeites à volta do buraco. Luís não se conteve e pediu ao pai:

-Pai podia perguntar quanto custa aquela guitarra?

-Está ali o preço, naquela etiqueta, respondeu o pai!

-Mas quanto é, insistiu o Luís.

-Cinquenta euros, disse o pai. Mas para que queres saber?

-Não é nada, só para saber mesmo, respondeu.

Quando chegou a casa Luís perguntou à mãe:

-Oh mãe quanto é que eu tenho no meu mealheiro?
A mãe deu uma gargalhada e foi contar as moedas.


-Olha, disse ela, se não fosses gastador podias ter mais, assim só tens oito euros.

Na segunda-feira, Joãozinho, não foi à escola e a professora disse que a avó telefonou a dizer que ele estava doente, com febre.

Luís, quando encontrou, a professora, no recreio, aproximou-se um pouco acanhado. Ela percebeu e perguntou-lhe:

-Então Luís! O que me queres dizer?

Ficou um bocadinho envergonhado mas atreveu-se:

-Eu tenho, oito euros no mealheiro, para cinquenta quanto falta?

-Olha Luís, lá mais para diante já vão aprender essas contas, mas para teres os cinquenta faltam quarenta e dois.
Luís ficou a magicar, quarenta e dois euros são muitas moedas.

-Eu sei, continuou, porque é que o João Cosme está doente! Se tivesse os cinquenta euros conseguia que ele ficasse bom!

A professora, a muito custo, conseguiu evitar uma gargalhada.

-Senta-te aqui ao meu lado e explica bem porque eu não percebi nada!

-É assim, o João pediu ao Pai Natal a guitarra da loja do senhor Elias e, o 
Pai Natal, disse que ele só merecia uma tablete de chocolate e o João ficou triste e adoeceu.

A professora, dona Irene, ficou totalmente baralhada.

-Então Luís o João falou com o pai natal? Como é que ele fez isso?

-Ele só falou com a avó e ela é que falou com o Pai Natal e ele disse à avó que não tinha dinheiro e então o João chorou aqui no banco do recreio e eu vi.

-Vamos ver se entendi tudo! O João pediu essa guitarra mas, como não a pode receber, tu queres comprar mas só tens oito euros?

-Muito bonito o teu gesto, nós vamos arranjar uma maneira.


-Mas, pediu ele, o João não pode saber que não foi o pai Natal.
-Não vai saber querido! Disse a professora.

Luís estava radiante a professora Irene disse que nós íamos resolver.
 
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À tarde, a professora, disse assim a todos os meninos:

-Tomem atenção, o João Cosme está doente e aqui o Luís, descobriu que temos que o ajudar. Como sabem, ele vive só com a avó que é muito pobrezinha, e não tem dinheiro para o Pai Natal comprar a prenda que o João tanto quer.

-Eu estive a pensar que podíamos, entre todos, ajudar. Que dizem?
-Siiiiiimmm, responderam os meninos.

A professora Irene, sorriu, estava feliz:

-Eu sabia que os meus alunos não iam esquecer um colega que agora precisa!

-Vamos fazer assim, se cada um der 2 euros ficamos com 36 euros, são 18 meninos, eu ponho o resto e compramos o brinquedo, falem com os vossos pais e se eles estiverem de acordo vamos em frente.

Luís levantou-se, levantou a mão e perguntou:

-Mas assim ele fica a saber que não foi o Pai Natal!
A professora sossegou:

-Não fica, é um segredo nosso! Eu vou a casa do vosso colega, na véspera de Natal, e digo que o Pai Natal se enganou na morada e deixou na escola.

-Booaa! Gritaram todos.


Luís não se conteve e perguntou:

-E, os meninos, também vão com a professora à casa do João?

A professora Irene sorriu, feliz, e respondeu:

-Se os vossos pais deixarem porque não?!
Os rapazes responderam em coro:

-Deixam pois! Os nossos pais até vão com a gente.

Quando bateram à porta, foi o João que abriu. Ficou, quase assustado, não esperava.

A avó gritou, lá de dentro:

-Quem é João?

-É a minha professora e os meus amigos.

-Então manda entrar! Que educação é a tua que deixas as pessoas à porta!

-Não vale a pena, disse a professora, vimos só entregar, ao João, um presente que o Pai Natal deixou na escola.

-Toma João, o Pai Natal não encontrou a tua morada.

 O João não sabia o que dizer, abraçou os amigos e apenas lhe saiu.

-A minha guitarra!

Voltaram todos, às suas casas, felizes porque tinham dado uma alegria a um amigo.





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Cresceram, hoje já são homens, mas no Natal todos se recordam da guitarra do João.




sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

BOM NATAL








                 Para todos o meu desejo de um feliz natal








sábado, 7 de dezembro de 2013

Maurício






Estavam muitos à sua volta mas, ele estava tão distante que, nem se apercebeu daqueles murmúrios, que iam dispersando, como se fosse uma oração numa sintonia perfeita.
A cova estava ali, como uma boca ávida, para devorar os despojos de uma vida.
Maurício olhava mas, o pensamento toldava-lhe a visão, apenas aquele ruído de vozes,  sussurrantes, que o deixavam numa confusão entre o real e o sonho. Fechava os olhos, na esperança de estar num pesadelo, mas não, era tudo tão real, a solenidade, o compasso, os sussurros e aquela boca à espera de engolir a urna, que não tardava, iria desaparecer sobre os sons cavos, da terra, que a iriam cobrir.

Sentiu o pasmo, as pernas a quebrar numa dormência, o rodopiou na cabeça que não conseguiu controlar. Quando bateu com a cara no chão, duro, já nada sentiu, tinha perdido a noção do espaço, do tempo e da vida.

Acordou, disseram-lhe, vinte e cinco dias depois, num quarto que não era seu, num desconforto de um cérebro vazio. Olhava sem saber, porque estava naquele sítio que não conhecia, quem era, donde tinha vindo.

Entrou uma mulher, de branco, e um homem de bata azul que perguntaram:

-Como se sente senhor Maurício?

Quem seria esse Maurício? Se calhar até conhecia mas não se lembrava.

A mulher de branco devia ser enfermeira, apalpou-lhe a testa, olhou para o nível de um saco pendurado a pingar, lentamente, para um tubo ligado ao seu braço.

Laivos de memória, pareciam, querer aflorar mas eram tão ténues que, logo se diluíam na confusão, que lhe tomava conta dos pensamentos.

O sujeito que deveria ser o médico falou também:

-Amanhã vai ter alta, vai voltar à sua vida lá fora!

Maurício olhou os tubos ligados ao braço, o médico percebeu a interrogação:

-A enfermeira Natália vai tirar tudo isso, já não precisa!

-Mas, perguntou, onde é a minha casa? Não me lembro onde moro!

O médico abanou a cabeça, olhou como a procurar uma resposta no espaço, maneou os ombros e saiu.

A enfermeira Natália sossegou-o:

-Não se preocupe alguém o vem buscar!

******

Vieram, eram muitos mas para ele era a primeira que os via, um casal chamou-o de filho, a rapariga do casaco vermelho e o rapaz alto, com uma barba alourado, chamaram-lhe mano.

Havia outro casal, tristes nos modos e no vestir, pareciam da família, mas não o chamaram de nada, possivelmente eram tios ou primos.

Todos simpáticos, como se o conhecessem há muito e falavam em coisas como se ele soubesse a que se referiam.

Aquela que lhe chamou filho, não se calou um segundo, tinha feito o seu prato favorito, a propósito não tinha nenhum, tinha à sua espera a musse como ele gostava, não sabia como podiam saber se não o conheciam e ele, achava que nunca tinha comido essa coisa.

O casal triste suspirava, a mulher enxugou umas lágrimas, e disse com voz triste, ele era muito amigo da nossa filha, vê o estado a que chegou, não conhece ninguém, não diz coisa com coisa, está mesmo parvinho de todo. Pobre Maurício!

A que lhe chamou mano, mascava pastilha elástica e o da barba mandava mensagens, dum telemóvel, com uma sofreguidão como se o mundo estivesse para acabar.

Parecia um estranho no meio de pessoas que nunca vira, diziam que eram família mas a família a gente não esquece e não se recordava de nenhum deles. Julgou que estava acordado, não era um sonho, beliscou a perna e doeu, era real.

Afinal o que se passava, seria que era extraterrestre e não sabia. Não podia ser, esta gente parecia conhece-lo, até sabiam o nome, porque ele tinha uma leve ideia de ser Maurício.

A rapariga que mascava a pastilha, pegou-lhe no braço e encostou-se como se fossem velhos amigos, com um sorriso feliz disse:

-Vens com a mana e os pais, o mano vai levar os teus sogros!

Sogros, pensou, se tenho sogros é porque sou casado!
Ainda não tinha falado mas, não se conteve:

-Mas sogros como?

Olhou os seus denominados pais, antes de responder:

-São os pais da Mila, logo são teus sogros, mas não penses nisso! Um dia vais recuperar a memória e ficarás a par de tudo.

Não estava confortável com esta situação, tinha acordado, talvez, há dois dias, de um sono que lhe deixou um buraco negro no cérebro, limpou-lhe as memórias e criou um vazio angustiante. Não sabia quem era, donde tinha vindo e agora estavam-lhe a impingir uma família, talvez fossem simpáticos, mas era pouco, ele não os tinha escolhido.
 Estava como uma criança para adopção, a família escolhe a criança mas, a criança, não tem a possibilidade de escolher a família.
Estava farto duma irmã que mascava pastilhas, dum irmão de barba rala agarrado ao telemóvel, duns pais tão apagados e ausentes que pareciam dois estranhos, no assento traseiro.
Não podia continuar, estava a tempo de por fim  a esta palhaçada.

Tomei coragem e gritou:

-Parem esta merda, estou farto disto, quero sair!

A mana estancou o carro, mas de forma tão desastrosa que o mesmo rodopiou, bateu com força no separador, saltou e só parou no fundo da ribanceira.

Maurício foi a única vitima, o lugar ao lado do condutor é, quase sempre, o pior.


Agora, se lhe fosse permitido, ficava a saber que a boca ávida, daquela cova, esperava por ele.



sábado, 30 de novembro de 2013

A Rival








Joana estava deslumbrante, as calças de ganga, muito esticadas nas pernas, e o camiseiro vermelho apertado no peito, punham em evidência os fartos seios. O cabelo loiro, num estudado desalinho, caia em reflexos dourados nos ombros descobertos.

Mirou-se pela terceira vez ao espelho, deu uma pequena volta para ver o efeito e, sem modéstia, achou-se linda e, como dizem os rapazes, sentiu-se "boa como o milho".

Ia ter com o André e queria arrasar, queria deixa-lo guloso, arfante como um cãozinho cansado.

Não era por ser o André, filho do dono das Industrias Portofinos, um dos dez mais ricos do país, isso era importante mas havia, também, uma questão de orgulho. O gajo andou sempre embeiçado naquela lambisgóia da Ana e, logo a Ana que não tinha graça nenhuma nem pejo de se enrolar com qualquer um.

Joana não era assim, não quer dizer que rejeitasse um bom enrolanço, mas tinha que ser, ou parecer, difícil.

Hoje era diferente, o André ia inaugurar o Rodopio, não a convidou formalmente, mas deu-lhe um ingresso e, a entender que se ela aparecesse, seria bem-vinda. Para Joana isso era mais de que uma incitação, era um desejo que deixou, no vago, com medo de alguma nega.

Joana estava impaciente, embora ainda fosse cedo mas, tinha por hábito, não sair antes de a mãe chegar. Não devia tardar, a mãe era advogada na firma Perestrelo & Filipa Advogados Associados, e em regra por volta das oito horas estava em casa. Muitas vezes chegava e, depois de jantar, ficava a trabalhar até as tantas.

Ela adorava a, sabia tudo da vida. Ficou viúva tinha, a Joana, 2 anos e soube ser pai e mãe ao mesmo tempo,

Era uma bela mulher, quando saiam juntas, tantas vezes, as confundiram como irmãs. Mas era falta de atenção, não se podia confundir uma senhora de 40 anos com uma miúda de 19, mas as pessoas gostam de dizer coisas e, como elogio à mãe, era justo.

A mãe chegou, um pouco antes das oito, estava linda, tinha arranjado o cabelo e as unhas.

-Então Joana pronta para a galderice?

-Estou doutora Filipa, estou à tua espera, hoje vou a uma festa!

-Aproveita rapariga, eu também vou sair, tenho um evento. Coisa simples!

*****

Estava uma noite quente, havia muita gente na rua, mas táxi nem um. Foi experimentar na curva, como estava perto dos restaurantes podia ter mais sorte. Nada e o tempo a passar, devia ter pedido uma boleia à mãe, mas não teve coragem, ela chegava cansada e, além do mais, hoje também tinha um compromisso. Já podia ter tirado a carta, mas depois tinha carta e não tinha carro, ficava na mesma e, confessa que não tem muita vontade de o fazer, faz-lhe confusão guiar um carro, é uma trapalhada com os malucos que andam por aí.
Oi...finalmente um táxi:

-É senhor aqui, táxi, táxi.....oi...!

Nem sequer olhou, sacana, deve estar para recolher.

Quase nove e meia, quando chegar já a festa está no fim, e alguma atrevida já sacou o André. As gajas andavam todas atrás dele e, compreende, é um gato e tem dinheiro.

Se tivesse ido de transporte já lá estava, quase dava tempo de ir a pé.

Agora é verdade, um táxi e parou.

Havia pouco transito, graças a Deus!

Dez e um quarto, chegou à porta da nova discoteca, que estava linda!
Néon, de diversas cores, davam um ar feérico de festa.
O segurança era enorme mas, com um sorriso, franqueou-lhe a porta.

A sala era imensa, grandes esferas brilhantes, giravam no tecto espalhando pontos de luz, que iam percorrendo os pares que se movimentavam ao som, daquele barulho a que chamavam música.

Tinha que encontrar o André, não iria ser difícil, afinal era o anfitrião.

Olhou em volta, andou entre os pares que, de copo na mão, pulavam ao som de um ritmo da moda.

Nada do André, possivelmente, só lhe ofereceu o convite por cortesia.
Era isso! O tipo sabe insinuar-se, todas as raparigas o disputam, ele sorri, faz charme e nada de compromissos. Se podia ter muitas porque deixar enfeudar apenas por uma?
Este era o pensamento de Joana, mas o convite pareceu diferente, tinha algo de esperança.

Foi até ao balcão, pareceu-lhe o mais lógico, e perguntou:

-Boa noite! Sabe dizer onde posso encontrar o senhor André Vilaça?
Combinamos aqui, eu sou quase a namorada!

O emprego olhou-a, de uma forma muito profissional, e sem deixar de abanar o misturador, limitou-se a uma resposta muito simples:

-O senhor André, está no gabinete, no primeiro andar, com uma senhora que não é, pelo menos parece, quase namorada!

Joana sentiu um rubor, as pernas fraquejaram um pouco, mas disfarçou o suficiente para agradecer e confundir-se, entre os pares, que freneticamente continuavam num baloiçar ao som do barulho.

Foi ao fundo da sala e olhou para as escadas de acesso ao piso superior, mas calculou que o segurança seria um obstáculo.
Ia experimentar.

Aproximou-se de forma muito subtil e, com a voz mais doce possível pediu:

-Posso subir ao gabinete do André? Sabe! O senhor não me conhece mas eu sou a namorada e queria fazer uma surpresa!

O homem não perdeu a postura e, com a voz mais calma possível, retorquiu:

-Desculpe menina mas não a posso deixar subir, além disso, não seria ele a ter a surpresa! Quando está com a doutora Filipa não gosta que o incomodem!

-Doutora Filipa? Qual? A advogada?

O segurança, apenas, resmungou:

-O que ela é não sei, não me pagam para saber o que as pessoas são!