sexta-feira, 14 de março de 2014

Mistério







Foi um cruzar de olhares daqueles que apenas acontecem uma vez na vida, intenso, provocador e com uma enorme promessa de desejos.
Ele parou e ficou na expectativa, ela seguiu, olhando para trás, com um sorriso de desafio.

O bambolear do traseiro, os cabelos soltos ao vento, a gaiatice do sorriso e aquele olhar de desafio deixou Ernesto confuso, ficou indeciso.

A mente, em segundos, trabalhou intensamente.

A cabeça contrariava a vontade, mas o desejo era mais forte e foi  a vontade que venceu.

Foi aumentando os passos, ela já tinha virado a esquina da rua, um pouco envergonhado deu uma corrida e dobrou, também a esquina, mas a rapariga parecia ter-se evaporado.

Era estranho, só havia uma pequena loja de venda de artigos religiosos, depois um muro alto com um portão ao fundo. Não tinha tempo de ter chegado ao portão, na loja só um senhor, já de idade, olhava para uns papéis.
Perguntou:

-Desculpe, senhor, não entrou aqui, agora, uma amiga minha?

Olhou-o, quase, com indiferença mas foi dizendo:

-Há dias, que aqui, eu sou o único que entra. Isto está mau. Será que foi ao cemitério? Mas não as estas horas, olhou para o relógio, já está fechado!

-Qual cemitério? Não conheço nenhum aqui.

Deu uma gargalha rouca antes de responder:

-É aqui o meu vizinho do lado, sem ele o meu negócio já tinha acabado.

Saiu disparado, o velhote tinha razão, ao lado era o cemitério, foi até ao portão, estava fechado. Espreitou por uma fresta e lá estavam as campas alinhadas. Voltou as costas e jura que ouviu uma gargalhada, que lhe percorreu o corpo como um arrepio.

Depois falou para ele mesmo:

-Não pode ser, não devo ter ouvido nada, foi aquela sensação de insegurança que faz ouvir coisas.  Gargalhada? Sou mesmo parvo!

A noite não foi fácil, no sonho a rapariga ia à frente, olhava-o com um sorriso cheio de promessas, ele acelerava o passo, mais e mais, mas a distancia não se alterava, depois desaparecia num novelo de fumo e apenas ficava a gargalhada, a mesma gargalhada.

Acordou a tremer, transpirado e com a sensação de não estar só. Acendeu a luz e olhou medroso e envergonhado, o quarto estava normal.
Sou mesmo parvo, pensou, era apenas um sonho.

Apagou a luz mas ficou com a convicção que não era assim tão tonto, um "frufru" percorreu o escuro e um cheiro adocicado a jasmim invadiu o espaço.

Acendeu a luz e o pouco que dormiu foi com toda a claridade.
Levantou-se e quase não se reconheceu ao espelho, macilento e com umas olheiras de zumbi, mas pouco importava estava decidido, hoje, agora mesmo, ia ao cemitério. Não ia resolver, se calhar nada, mas deixava de cismar em coisas que lhe tiravam o sono e lhe abalavam a tranquilidade.

A loja estava no mesmo sítio mas o velhote não. Entrou, mais por curiosidade e perguntou ao moço que estava ao balcão:

-Será possível falar com o outro senhor que costuma estar aqui?

O rapaz pareceu surpreendido, esboçou um sorriso antes de responder:

-Só posso ser eu, estou aqui há dois anos, desde que o meu avô faleceu!

Estava a perder a paciência, quase gritou:

-Mas como? Ainda ontem estive aqui e falei com um senhor de idade, magro e um pouco careca. Tinha uma bata  azul escura, uns óculos de vidros cortados  e olhou-me por cima das lentes.

-Se tirou o dia para gozar comigo perdeu o seu tempo, respondeu o rapaz. Esse, de que o senhor fala, era o meu avô, morreu em Julho de 2011. Pode ir espreitar, aqui mesmo ao lado a campa 387, tem até uma foto. Não se importa deixa-me trabalhar porque não tenho tempo para brincadeiras! Nem paciência!

Saiu, irritado, a caminho do cemitério, ia ver todas as campas, uma a uma, principalmente as que tinham fotos.

Pela primeira vez na vida, entrou com medo, medo estranho que se impregnava nos ossos e parecia tolher o raciocínio.
Havia muito poucas pessoas, duas ou três mulheres compondo as jarras das flores, em gestos mecânicos, movimentos muito suaves como se tivessem receio de perturbar os descansos.

A campa 387, ficava mesmo ao fundo da álea, estava bem tratada, pedra mármore negra, uma imagem de um anjo, uma placa com duas datas e, ao centro, uma foto esmaltada. Não havia duvida era o velhote que viu, jurava que viu, na loja da esquina.

Seguiu todas as campas, principalmente com fotos, tinha a esperança, já agora, de encontrar a da menina do olhar provocador. Andou nesta pesquisa tempo de mais, pois quando olhou já tinham fechado o cemitério, não deu por nada.

Começou a ficar em pânico, o vento que sussurrava nas copas dos ciprestes pareciam gargalhadas, em todos os lados adivinhava movimentos, mas era apenas o pavor que se havia apoderado de si.

O muro era demasiado alto, bateu no portão com todas as suas forças, mas era difícil, pois a rua, além da loja, só tinha campo abandonado, ninguém se atrevia a construir em frente a um cemitério.

Tinha que saltar o portão, tarefa difícil, era alto e encimado por uma espécie de lanças bicudas.

Tentou pular o máximo, com as pernas e os braços bem estendidos, mas faltava muito.

Olhou ao redor, mas não via nada que pudesse servir de base. Tentou mais algumas vezes, quanto mais tentava maior era o cansaço e menor o alcance.
Pensou em arrancar uma jarra mas isso seria profanação. 
Teve medo, não fazia.

A noite começava a cair, olhava à volta e imaginava sombras.
No desespero viu uma tábua encostada à casa dos lavabos.
Empinou-a ao portão e trepou o possível, tentou passar o corpo mas a tábua não aguentou e caiu no momento que o corpo passava as lanças que encimavam o portão.

O resto é previsível.

******

O velho da loja e a moça do sorriso gaiato, tinham completado a sua missão, ninguém os podia ver e agora já podiam descansar em paz.

Foi feito justiça, estes, nunca mais violariam ninguém.






sábado, 1 de março de 2014

No Outono








Foi numa tarde de Outono, num dia em que a chuva descansou e nos deixou, apenas, a magia das folhas voando ao sabor do vento.


Sou suspeito pois, para mim, o Outono tem uma magia que não consigo encontrar noutras épocas. Gosto daquela luz a esconder-se por entre as folhas secas e a penumbra translúcida do cair do dia.

Talvez, porque sou um romântico.

Mas como ia dizendo, foi numa tarde de Outono que, quase, por acaso olhei pela minha janela, primeiro vi as nuvens pardacentas que corriam, mudando os desenhos surrealistas, que, sempre, me faziam lembrar algo ou alguém por momentos, para de seguida se transformarem em formas diferentes.

Na rua, em frente, mesmo no portal da casa que, em tempos, foi da dona Filomena estava um vulto que me deixou confuso. A penumbra que, entretanto, descera não me permitia ver bem mas, parecia mesmo a pobre dona Filomena, já falecida há alguns anos.

 Eu apenas bebi um trago de whisky, foi tão pouco que era impossível ter embotado os meus olhos, a dona Filomena morreu, julgo que há dois anos, mas não havia dúvidas era ela, o mesmo xaile cinzento, o corpo dobrado pelas dores e pelo peso dos anos. Conseguiu abrir a porta e entrar, fiquei confuso se era o fantasma da senhora porque abriu a porta, sempre me disseram que atravessavam as paredes e uma porta, penso, é mais fácil que uma parede. Estou a divagar, a tentar desviar o pensamento, mas na verdade tenho um arrepio que me atravessa o corpo, um frio na coluna e, julgo, as cuecas muito próximas de estarem borradas.

Não pode ser, deve ser destes óculos, já os devia ter mudado, mas a preguiça e esta mania de poupar acabam por dar mau resultado.

Mas o que é isto? Acenderam- se as luzes do andar da morta, isto e surreal, não são os óculos, deve ser um pouco de senilidade que me faz ver coisas, ou talvez não, porque algo anda naquela casa, vejo as sombras que passam como acontecia quando a morta ainda estava viva.

Vou fechar as persianas e vou espreitar pelos intervalos, apagou as luzes, só ficou a escuridão.

Vou tomar um ou, mesmo, dois comprimidos de Xanax, acho  que vou dormir como um anjo. Será que os Anjos dormem? Não acredito, ou fazem turnos ou, então, á noite ficávamos entregues à bicharada,

Acordei cedo e bem-disposto, tinha esquecido aquela aparição e prometi a mim mesmo que whisky, só ao serão e pouco pois anda a confundir- me e a fazer- me ver coisas.

O dia está como o de ontem, escuro, não chove mas mais
valia, assim só aquela penumbra e um frio que enregela e que nos obriga a um trago para aconchegar o corpo. Mas vou resistir, jurei e juras são para cumplir.

 Vou espreitar a casa da saudosa dona Filomena, assim fico a saber que as visões são o fruto de uns goles durante a tarde. Hoje não bebi nada, por isso vou ficar tranquilo e não penso mais em visões.

Oh meu Deus não pode ser! Neste momento, exacto, o vulto da pobre morta está a entrar na antiga morada. Estou confuso, ela morreu mesmo, fui ao funeral e vi que o caixão foi enterrado na campa. Hoje não bebi, a não ser que o leite agora tenha álcool, mas não, não tem. Tenho que ir ao psiquiatra, estou a ficar apanhado da cabeça, tenho visões e imagino ver o inimaginável.

Antes de me considerar maluco vou bater à porta, pode ser que a defunta tenha alguma irmã gémea, ou algo parecido, que ande a arrumar as coisas para desocuparem a casa.
Não me apetece muito, está frio e tenho que me vestir, mas vou senão a minha cabeça não para de girar.

Estou a caminho, enfiado num grosso sobretudo e com um gorro, de lã, tapando a cabeça.

Estou à porta mas, algo, parece estar a tolher a minha mão.

Quero bater à porta mas, confesso, o medo deixa-me paralisado, e se a mulher me aparece, a abrir, que faço eu?
Desato a fugir gritando histericamente, ou desmaio mesmo ali?
Se calhar é melhor voltar depois. Não já que aqui cheguei vou em frente!

Bati, primeiro, suavemente e escutei. Nada, bati com mais força e, então, ouvi um arrastar de correntes, uns passos como que deslizando em chão encharcado, faziam um "tchloque" estranho, como se pisassem algo viscoso.

Entreabriram a porta e, os meus olhos ficaram esbugalhados perante a imagem. Alta, totalmente nua, longos cabelos e olhos brilhantes, pegou-me pelo braço e arrastou-me por um longo corredor que terminava num espaço infindável, onde a música, parecia dos “Dire Straits”, enormes fontes jorravam chocolate, mesas intermináveis repletas das maiores iguarias. Pares, vestidos como vieram ao mundo, balançavam- se ao som estridente da música que abafava todos os ruídos. Luzes faiscavam, dando um ar feérico ao ambiente que nos absorvia.

Balbuciei:

-E a dona Filomena?

A minha acompanhante, com um sorriso luminoso, convidou:

-Esqueça a essa, era apenas a tua guia!
Vá, aproveita o melhor que souberes.

-Mas, perguntei, estamos no paraíso?

Olhou- me com ar enigmático antes de responder:

-No paraíso? Não! O paraíso é monótono, estamos muito melhor!
Estamos no Inferno!





quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A grande viagem








Era um estranho acordar, uma luz intensa tomou conta do espaço e deixou-me numa total paralisia. Tentei mexer o corpo mas era uma luta perdida, o meu pensamento, os meus desejos deixaram de existir, apenas me queria libertar mas, aquela espiral de luz, absorveu-me totalmente e senti-me deslizar num vórtice e, depois, o nada, apenas uma sensação estranha de existência.

Não sei quanto tempo passou, pareceu-me ser muito pouco, quando o canudo de luz me largou num lugar que não existe, num espaço que me custa a descrever, era surreal. Era uma espécie de uma sala onde uma penumbra fumegante não me deixava descortinar, bem, aqueles vultos altos e de aspecto desengonçado. Tinham uns rostos bicudos, uma espécie de cara de peixe, a boca era apenas um bico em fole que abria e fechava em pequenos movimentos. Eram muito estranhos e, muito mais estranho, o facto de estar aqui no meio destes seres.

Começo a perceber. Eles não falam, transmitem o que pretendem através do pensamento e, eu, pareço ser uma espécie de cobaia.
Andam à minha volta e estudam e analisam cada movimento, observam-me como coisa estranha, como se eu fosse algo de bizarro.

Os seres parecem todos iguais e só há uma pequena diferença, os mais altos têm, no meio da testa, uma pequena válvula que abre, e fecha, como se fosse um orifício para respirar mas, o que me confunde é os mais pequenos não terem essa válvula, mas sim, uma pequena protuberância, uma espécie de minúsculo chifre. Pensei que seria uma questão de casta.

Olhavam-me como se fosse um animal raro e tentaram comunicar mas, ao meu cérebro, apenas chegavam como que zunidos impossíveis de descodificar.
 De repente um dos personagens, dos mais pequenos, deslizou numa espécie de pé mecânico e desapareceu no meio daquela espécie de penumbra fumegante. Voltou, passado pouco tempo, com algo pendurado no gancho que lhe enfeitava um dos seis braços, pendentes, naquela espécie de tronco. Era um capacete, cheio de luzes e fios com ventosas que me enfiaram na cabeça enquanto, aqueles tentáculos, iam colando as ventosas em todos os espaços livres da minha testa.
                                                
De repente, fantástico, comecei a perceber tudo o que aquelas cabeças, de pargos mulatos, estavam a pensar e eles, pior ainda, compreendiam todos os meus pensamentos e ficaram baralhados, com essa comparação a pargo mulato.

Queriam saber muita coisa e prometeram devolver-me, ao mesmo local, se eu lhe fosse útil, caso contrário seria largado no espaço sideral.

Prometi, em pensamento, toda a colaboração. Queria voltar ao meu lar!

Começaram as perguntas, como era o sistema que governava a terra, como nos reproduzíamos, quais as classes sociais e um sem número de dúvidas que tive dificuldade em memorizar. Fui concentrando o, meu, pensamento, fui-lhes baralhando as ideias e deixando sair, em catadupa, a estrutura do planeta, países que mal se entendiam entre si.
No meu país, sermos governados por um presidente que tinha deixado a inteligência em Boliqueime, um primeiro-ministro a que só faltavam umas botas para ser igual ao Salazar.

Acho que leram bem o meu pensamento pois sabiam dum Salazar, não sei se o mesmo, mas isso não interessa, há tantos!

Percebi que queriam saber se havia oposição, havia (oh se havia!) mas eram todos iguais, davam tudo quando não tinham responsabilidade e depois era um fartar vilanagem.

Queriam saber se havia um comité de sábios. Tentei explicar que não, nada dos sábios, havia uma cambada de deputados que apenas se iam governando em trafulhices, corrupção e fingindo defender os interesses do povo, mas acabavam só por defender os interesses próprios. De quatro em quatro anos, renovavam mas ficava tudo na mesma.

Olhei para o lado e algumas daquelas figuras bizarras choravam. Nos grandes, as lágrimas, escorriam da pequena válvula, dos mais baixos um esguicho mas sem qualquer emoção.

Um, dos mais reluzentes, aproximou o bico do meu rosto, cheirava a  algo ácido, uma espécie de vinagre, perguntou como era a reprodução no nosso planeta?
Expliquei e, o meu pensamento foi tão real que, senti um suspirante bruaá de aprovação dos mais altos. O da válvula na testa, o que me fez pensar, que eram as fêmeas daquele planeta.

Deixaram-me especado e reuniram-se num círculo, tentei escutar mas os pensamentos não me chegavam. Estavam afastados!
Voltaram, os mais baixos à frente, pegaram-me com dúzias de pinças, enfiaram-me naquele tubo, feito de luz, e despacharam-me, penso que, pelo que pelo caminho da volta.

Senti o repelão, perdi a noção de tudo e acordei quando bati, com as costas, num amontoado de pedras que dividiam os canteiros de um jardim.

***

Era tudo estranho, tinha a noção de ter voltado à terra, mas não sabia onde estava. Era esquisito, não conhecia nada nem ninguém! Fui sugado na porta, de uma pequena vivenda, e era cuspido num jardim que ladeava um arranha-céus que parecia tocar o Sol.
Meu Deus, onde estou eu?

Em frente aos arranha-céus, eram muitos, passava uma avenida com seis faixas de rodagem e um imenso e bem organizado transito, havia carros muito sofisticados, que flutuavam, mas a maioria eram uma espécie de motas, sem rodas, que deslizavam sobre uma coluna de ar, totalmente suspensas sem qualquer contacto com o asfalto.

As pessoas passavam apressadas, roupas de cores de tons metálicos, eu parecia mascarado no meio destas pessoas. Dirigi a palavra a um passante, respondeu um rápido não tenho tempo! Mas foi bom, falava português, sabia que estava no meu país, só me falta saber onde.

Vou procurar um posto da polícia, conto tudo e eles vão ajudar-me, é a sua obrigação.

Vi um hotel com um sujeito, à porta, que parece um general, tantas são as estrelas e galões que lhe enfeitam o casaco.

Com ar humilde dirigi-me e comecei:

-Peço desculpa acabei de chegar da província e ando baralhado nesta confusão, só preciso me indique onde fica, o mais próximo posto da polícia?

Olhou-me, de alto a baixo, antes de com algum sarcasmo responder:

-É evidente que chegou da província, o seu aspecto e o desconhecimento mostram isso. Nem sabe que já não há postos de polícias. Quando precisamos ligamos o XOPT e, algum aparece e trata do resto.

Comecei a ficar um pouco nervoso, mas fingi o melhor possível:

-Mas não tenho telemóvel!

O raio do homem deixou uma gargalhada, que só não me irritou porque precisava dele, se não fosse isso tinha levado um estalo nas ventas.
Ai tinha, tinha!

-Sabe provinciano? Insistiu. Agora todos usam um phonebloks. Mas vou chamar um polícia, estou bem-disposto!

Tirou uma espécie de rectângulo de vidro que se iluminou quando lhe pegou. Não sei o que fez, apenas o ouvi dizer:
-Sou o concierge do Hotel Fairmont e tenho aqui um provinciano em apuros. Escutou o que lhe disseram, do outro lado, agradeceu, tocou no vidro que guardou no bolso.
 Olhou-me com altivez:

-Espere ali na esquina não tarda chega ajuda!

Na demorou, mesmo nada, e apareceu um policia que parecia tirado dum filme de ficção, farda metálica em tons dourados. Montava uma daquelas motas esquisitas que pareciam flutuar.

Perguntou-me:

-Afinal qual é o problema?

Gaguejei e a custo tentei explicar:

-Eu morava aqui, fui raptado e quando me devolveram não existe nada que eu conheça.

Vi pela cara, do guarda, que pensou que tinha um maluco para aturar.
Mandou-me subir para aquela coisa, quando me sentei umas cintas metálicas imobilizaram-me. Saltou para o lugar da frente e flutuamos durante algum tempo, até um edifício enorme. O veículo entrou por uma porta que, automaticamente, se abriu.

As cintas desbloquearam e o guarda conduziu-me a uma sala com paredes gradeadas. Mandou-me esperar. Foi pouco tempo, entrou uma mulher polícia de olhos amendoados.

Mandou-me sentar e pediu:

-Explique bem o seu problema.

Contei tudo desde que me senti sugado até que o tubo me largou nesta cidade.

Vi o olhar incrédulo, o que era normal.

-Bem, disse a senhora, enquanto com um ligeiro toque abriu um ecrã no tampo da secretaria, vamos elaborar um processo.

Perguntou-me nome, morada, profissão e data de nascimento.

Respondi:

-Sou António Policarpo da Silva, moro na Rua dos Eucaliptos na Vivenda Policarpo, sou cortador de carnes verdes e nasci no dia 7 de Maio de 1975.

-Em que ano? Insistiu.

-Respondi em 1975.

Olhou-me com um ar muito desconfiado, bateu com os dedos no teclado virtual, antes de me responder:

-Sabe que não falar verdade, às autoridades, é um crime muito grave e ocupar o nosso tempo com fantasias é muito pior. Estamos em Junho do no 2239, não me diga que tem 264 anos!

Só tenho uma solução, amanhã, será apresentado ao Juiz Comunitário e ao psicólogo, são eles decidem se vai preso ou se é internado no centro de pessoas com deficiências mentais. Garanto que nenhuma das hipóteses é boa!

******

Por vezes acordo com uma ligeira dor de cabeça, mas hoje é de mais! Dor insuportável, parece que vou endoidecer.
É natural depois deste pesadelo tão estranho, nem sei o que aconteceria se não tivesse acordado!
Ufa!






quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Amor para sempre








Já são 10 horas e eu ainda na cama, não é normal, este laxismo está a bulir com o meu pensamento.

Sou, como dizia alguém, o galo da manhã. Gosto de ver o sol a aparecer, timidamente, no cume do monte que se adivinha da minha janela e, digo adivinha, porque quando vou espreitar, para esses lados, o monte não é mais do que uma pequena elevação, porque a minha casa fica no vale e provoca a ilusão de um monte que não o chega a ser.

Mas isto é fugir à questão porque hoje foi diferente, não madruguei e ainda, agora, a vontade de sair da cama não é muita. Antes, quando eu tinha a Luzia, muitas vezes, deixava-me estar para não perturbar-lhe o sono de tão cingida que estava ao meu peito. Hoje estou só, ela abalou, consumida pela doença má.

Lembro o último sorriso na doçura das derradeiras palavras:

-Diogo, meu amor, vou partir mas fui a mulher mais feliz do mundo, só porque te tive para mim.
Vais seguir a tua vida e encontra outra que saiba, como eu soube, ser uma estrela na tua vida.
Sorriu, sorriso pálido, e morreu com os olhos fitando os meus numa, quase promessa, de continuar sempre a olhar por mim.

Foi há 11 meses e eu acordo, sempre, com essa sensação de a ter ao meu lado, enroscada no meu corpo.

Hoje foi diferente, acordei tarde sem qualquer sensação de companhia, só uma sensação de desconforto, que não me é habitual.

****

Há qualquer coisa que me preocupa, a minha lucidez não é a mesma, são dez horas e eu continuo na cama, não me apetece levantar, não me lembro de qualquer compromisso, não tenho nada para fazer só, mesmo, estar aqui deitado à espera nem eu sei bem do quê.

Ontem, foi o mesmo, deixei-me ficar neste torpor, neste preguiçar doce, com o pensamento de não ter nada para fazer e, afinal, tinha o casamento da Raquel e do Henrique. Foi um esquecimento inexplicável, se o Amadeu não tivesse telefonado, à noite, a saber o que se passava nem desculpa teria pedido ao casal.

Vou-me levantar, vou ver o meu monte e imaginar que, às 6 horas e 57 minutos, o sol nasceu, além, naquele sitio. Não vi, mas nasceu!

Levantei-me, não sei bem para que, não tenho nada para fazer! Ou tenho  e não me lembro! Agora ando assim!

Antes levantava-me cedo e ia trabalhar, agora fico em casa não sei porque, eu acho que tenho um emprego, mas não sei qual nem onde.
Um dia vou-me lembrar!

A Minha cozinha está um desalinho, a empregada não tem aparecido.
Ou será que a Guida já não  é nossa empregada?

Não me lembro, quando tiver vontade vou arrumar, deito fora as latas vazias, são de conservas, só tenho comido conservas, quando acabarem tenho que ir comprar mais. Não recordo onde se vendem mas, sou inteligente, vou descobrir.

Não sei se o cão tem comido, mas se calhar a Luzia não se tem esquecido, não o tenho ouvido ladrar.

Eu acho que vou fazer anos um dia destes, tenho que descobrir, é uma vergonha mas não me lembro. Não faz mal é muitas vezes assim, mas a Luzia convida os nossos amigos, faz uma festa e encomenda um bolo, de morango, como eu gosto, com velas a lembrar que é de aniversário, senão as pessoas até se podem confundir.

A casa de banho cheira mal, é dos esgotos, isso passa. O fulano que está no espelho não o conheço, como está aquele tipo, no meu espelho? Despenteado e com uma barba horrorosa. Não me vou preocupar, deve ser alguém conhecido, da Luzia, que veio tratar dos esgotos.

Tenho estranhado a televisão sempre apagada, a Luzia liga-a logo de manhã e fica até irmos para a cama. Se calhar já se fartou das telenovelas, não me admira é sempre a mesma porcaria.

Não percebo bem dessas coisas, mas devemos estar na Primavera, tantos pássaros, lá fora, esse chilreado está-me a incomodar, eu gosto dos pássaros mas podiam andar calados.

Tenho uma dor de cabeça enorme, a Luzia dá-me um café forte com limão e passa, mas ela deve ter ido à escola buscar o nosso filho, ou será filha? Não me lembro mesmo se temos filhos, acho que não!
Deve ter ido a qualquer lado, não costuma ir só, mas como me doía a cabeça quis poupar-me.

Já não tenho nada na dispensa. Será que a Luzia foi as compras? Sozinha? Não é normal!

Vou-me deitar até que ela chegue, não gosto de estar só, sem a Luzia, sem o cão e, até o gato desapareceu.
Acho que tínhamos um gato, mas posso estar a fazer confusão, ando numa fase que baralho tudo. Vou, então, para a cama depois a Luzia acorda-me para o jantar.

Sem ela eu não era nada!


*****


Foi o cheiro que alertou os vizinhos.

As autoridades abriram a porta e encontraram o Diogo, na cama, em adiantado estado de decomposição.

Segundo os médicos estava morto, pelo menos, há dez dias.

Deve ter morrido no dia em que completava 52 anos.




segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O redil







Ainda a geada, da noite, cobria os campos e já o pequeno José abria o redil e deixava as ovelhas saírem, em correria, controladas pelo piloto, velho rafeiro, que sabia onde e como conduzir os animais.

José com um taleigo, às costas, onde levava o pão e o conduto para um dia, ia dando as suas instruções e parecia que todos o percebiam:

-Malhada para aqui! Piloto olha a branquinha!

 A vida do José não tinha sido fácil, tinha feito agora sete anos e já sentia, no corpo, as agruras de uma vida. O pai, tinha ele três anos, disse à mãe: - Vou ali fazer um mandado já volto! E nunca mais apareceu, houve um homem que disse que ele estava em África, que lhe pareceu vê-lo por lá, mas nunca se soube nada.

A mãe era muito fraca, dos pulmões, e fechou olhos tinha ele completado cinco anos, os médicos disseram que era dos pulmões mas a tia, que percebia muito dessas coisas, disse que a cunhada morreu de desgosto.

Ficou, só, com a tia Celeste que era pobrezinha e andava com a ajuda de um cajado, não podia trabalhar o que lhe valia era uma pensão, da casa do povo, as quinze ovelhas e de um pedaço de horta onde ia colhendo os legumes, para os dois. Leite e queijo tinham do rebanho, peixe e carne era mais difícil, só em dias muito especiais. Valiam os bons vizinhos que os ajudavam, mesmo também com poucas posses.

Tomou conta do sobrinho que era uma bênção, bom menino, prestável e bondoso como a mãe.

Mas ela queria, para o sobrinho, mais. Queria que tivesse tudo a que uma criança tem direito, miséria não é direito de criança.

O petiz voltava, sempre, por volta das seis horas acomodava o gado no redil, distribuía alguma ração e ia aconchegar-se á lareira para aquecer as mãos roxas pelo frio.

A tia deva-lhe um beijo e acariciava-lhe o rosto, tal e qual o do pai, e fazia a pergunta habitual:

-Como foi o dia José?

-Foi assim, o bode andou maluco, se não fosse o piloto e o bordão não sei o que seria. O senhor Alfredo disse que era do cio, não sei se é doença mas, a tia, tem que perguntar ao veterinário.

Sabes tia? Tenho andado a pensar porque é que eu não vou à escola, como os rapazes da minha idade!

-Um dia também vais, prometo! Agora a tia tem que sair, vais jantar o que está no fogão, e ficas aqui com o piloto. Não tens medo?

-Medo? Respondeu, eu e o piloto não temos medo de nada. Mas onde vais tia agora de noite?

A tia enquanto, ia ajeitando um lenço preto na cabeça foi respondendo:

-Sabes quem é o Gonçalinho, filho da dona Perpetua e do senhor doutor Juiz?

-Acho que o vi um dia na feira da festa, de São Gonçalo, mas nunca brincou comigo.

-Pois filho, disse a tia, esse menino teve um acidente com um cavalo a foi para o céu. Vou á Igreja, ao velório, eles também foram ao da tua mãe.

A manhã acordou muito chuvosa, era difícil levar o rebanho, não havia condições para os animais e a tia concordou com o rapaz, afinal ele já percebia mais do que ela.

O redil tinha cobertura e os animais estavam protegidos, teve que separar o bode não fosse ele, maluco como andava, magoar alguma ovelha, foi preciso aumentar a ração e deixar uma boa porção de forragem.

Hoje ia ficar todo o dia a brincar com o piloto e a ajudar a tia.
Ia ter um almoço diferente, um caldo com sopas de pão migadas, estava muito bom, já estava farto de pão com queijo ou torresmos.
Comeram à lareira, a chuva era cada vez mais intensa. A tia deu um leve suspiro e murmurou:

-Ainda bem que não fostes para o campo, agora ficava muito preocupada. Ontem, como te disse, fui ao velório do menino do senhor Juiz e queira que tu não te esqueças do que te vou dizer, depois explico porque, o menino que hoje, neste dia tão mau, vai a enterrar estava vestido todo de branco, camisa branca com bordados, casaco, calça e sapatinhos também brancos, estava lindo parecia que estava a dormir. A família, coitada, está destroçada. Pobre criança!

Foi então que José se lembrou:

-Estão o Gonçalinho está, agora, ao pé da minha mãe?

A tia ficou pensativa antes de responder:

-Estão juntos e querem que tu fiques junto da mãe dele.
José não estava a perceber nada e disse-o à tia:

-Não estou a perceber nada!

-Pois querido é natural, mas eu, um dia, vou explicar e acabas por perceber.

Nunca te esqueças de como estava vestido o menino.

Esteve dois dias sem levar, os pobres animais, ao pasto mas a chuva era muita, hoje já não chove e, lá vai a caminho, estava com saudades de andar atrás dos gafanhotos, também não há mais nada pois, os grilos. só aparecem no verão.

O piloto estava contente, corria que nem um doido de um lado para o outro sem deixar as ovelhas pisar o risco.

Ele, e o Piloto, almoçaram debaixo do castanheiro grande que estava ao pé daquele ribeiro, que hoje parecia um rio.
A tia caprichou, pão, omeleta com salsa e duas laranjas.

Chegou a hora de voltar a casa, ele não sabe as horas nem sequer aprendeu, ainda, como se vêm mas o piloto sabe e, quando chega o momento, começa a virar as ovelhas no sentido do redil.

A tia estava à espera na esquina da horta, não era costume, mas estava apoia no cajado, com ar muito lavado e o lenço de algodão bem esticado na cabeça.

Pegou-lhe no braço antes de dizer:

-Vamos conversar uma coisa muito importante, vai ser o nosso maior segredo, mas eu sei que era o que a tua mãe queria. Ela tem, agora, o Gonçalinho e a dona Perpetua vai ficar contigo.

Eu estou velha e doente e, se um dia fecho os olhos, que vai ser feito de ti.
Agora vai-te lavar e põe a tua roupa de domingo, vamos fazer uma visita.
Vamos a casa do Juiz e da mulher, eu falo e tu dizes que sim, ao que eu te disser.
Ainda te lembras como o menino estava vestido?

-Sei! Respondeu, camisa branca com coisas bordadas e o resto todo de branco.

******

Bateram à porta dos fidalgos, era assim que os tratavam, não tardou uma empregada, a Zulmira, veio abrir e quando viu os visitantes avisou:

-Sabes, Celeste, que esta porta e só para as visitas, devias ter batido na porta das traseiras!

A tia fez um ar empertigado apoiando-se com força no cajado, antes de responder:
-Então fica sabendo que eu não te disse que não era visita!
Anda, mexe-te, vai dizer à senhora que tenho uma coisa muito importante a falar.

-Então entra e espera ai! Respondeu a serviçal.


Não demorou muito e a Dona Perpetua desceu, com certo solenidade e totalmente derrotada, as escadarias, olhos vermelhos de lágrimas reprimidas. Olhou-os com um sorriso apagado antes de perguntar:

-Que precisa Celeste? Sabe que o momento está a ser muito difícil.

A tia fez um ar tão compungido que ele próprio acreditou.

-Sabe Dona Perpetua, é muito importante e muito sigiloso. O meu sobrinho, aqui, hoje quando vinha de apascentar as ovelhas diz que viu, junto à oliveira grande, ao pé da Fonte da Horta Nova, uma criança que lhe pareceu o saudoso menino Gonçalo.

Dona Perpetua ficou hirta, parecia que lhe ia dar uma coisa má, tapou a cara com as duas mãos e voltando-se para o José perguntou:

-Como era ele, que disse, o que fez?

José começou a choramingar e a custo apenas conseguiu dizer:

-Era muito bonito, estava todo vestido de branco e não sei mais nada, as ovelhas e o piloto fugiram e eu fugi também.
Depois encostou-se à tia e chorou consultivamente.

Dona Perpetua acarinhou e tentou acalmar a criança.
Curvou-se colocou-lhe a mão no rosto e pediu:

-Agora tenta ser um rapazinho corajoso e, se voltar a acontecer, vais pedir, ao menino de branco que te diga, por amor de Deus, o que quer.

Vais fazer isso por ti, por mim e pela alminha que quer partir descansada.


Voltaram a casa, José tremia e não percebia nada dessa história, mas a tia sabia tudo e se calhar era preciso para o menino poder, como disse a mãe, descansar e ir para o céu.

Não se aguentou e quando chegaram a casa perguntou   :

-E agora tia o que vou fazer? Estou com tanto medo!

A tia abraçou-o com muita força, deixou uma lagrima percorrer um rio de rugas, no rosto, e sossegou-o:

-Sabes bem que a tia nunca te enganou, nunca te mentiu e sempre tem prometido que um dia a tua vida ia mudar e irias ter direito ao que todas as crianças devem ter.

Agora vai descansar e deixamos passar dois dias, depois vamos acabar a nossa missão. Não tarda compreendes e vais agradecer à tua velha tia.


José sossegou, um sossego aparente porque dentro dele ia um mundo de emoções e de dúvidas.

Durante dois dias, José, fez a sua faina normal mas, a alegria diária era um pouco diferente, pensava na mãe, na escola onde os outros meninos iam aprender a ler e a contar. A tia era muito amiga e fazia muito por ele mas, não tinha dinheiro para comprar as coisas, porém sempre lhe disse que um dia, para ele, a vida ia melhorar.

 Ao terceiro dia a tia estava, como da última vez, agarrada ao cajado na esquina da horta aguardando a chegada, gostava que ela os fosse esperar mas, agora, ficou intranquilo. Deu um beijo, há muito que não dava, e disse:

-Vamos! Vai-te pôr-te bonito, hoje vamos acabar o que começamos.

Quando a fidalga te perguntar, dizes que o menino estava lá que perguntaste como, ela disse, e que o menino apenas respondeu, estou à espera que o meu pai dê o lugar, que ficou vago, ao filho que o espera. Repete comigo, vá!

-Estou à espera que o meu pai de o lugar que ficou vago ao filho.

Muito bem, és muito inteligente e, quando fores estudar, vais chegar longe, muito longe.

Bateram à porta, veio a mesma Zulmira que, desta vez não disse nada, mandou entrar para uma salinha toda catita, quadros nas paredes, móveis com livros e sofás, pareciam de sola, mas eram bonitos.
Zulmira mandou sentar, que a senhora não tardava.

Dona Perpetua entrou, quase majestosa, deu um beijo no José e um aperto de mão à tia, antes de perguntar:

-Houve alguma coisa mulher?

A tia fez um ar muito angustiada, fungou e parecia não saber o que responder:

-Dona Perpetua estou a ver que tenho que pegar no rapaz e mudar daqui, a criança anda num nervoso que até tem medo de dormir sozinho, ele sempre tão afoito. Pois hoje, quando vinha para o redil, aconteceu o mesmo, não sei que fazer!

-Então, exclamou dona Perpetua, não perguntastes, por amor de Deus, o que queria?
A tia puxou-lhe o braço e disse para contar à senhora.
-Perguntei, disse o rapaz, mas só não percebi o que ele quis dizer com "estou à espera que o meu pai dê, ao filho, o lugar que ficou vago", porque depois desapareceu. Fiquei sem perceber.

-Pois, disse a fidalga, eu sei e já andava desconfiada, há muitos anos!
Vão para casa, não tenham medo que eu vou ajudar.

Passou uma semana, José já quase se tinha esquecido, quando bateram à porta. A estas horas só podia ser a vizinha, a trazer ou pedir qualquer coisa.

-José vai espreitar quem é!

-Tia, gritou José, chegue aqui que este eu não sei atender.

Era o motorista do senhor doutor Juiz, vinha para os levar a casa para falarem.

-José vai-te vestir depressa, chegou a hora.

O rapaz estava nas nuvens, ia andar de carro, nunca tinha andado.

*****
Foram recebidos naquela sala, naqueles sofás tão fofinhos.

O Juiz, Telles Cortes, era um homem austero mas tinha um ar bondoso e um sorriso cativante.

-Tu fica aqui, com a senhora, que eu e a tua tia vamos ter uma reunião com assuntos importantes a tratar, coisas de crescidos, que um dia também vais ter!
Saíram os dois da sala, a tia arrojando a perna, até se esqueceu que tinha um cajado. Ficou com a dona Perpetua, hoje tinha uma cara menos triste, perguntou-lhe:

-Queres um chocolate, ou um doce?

Agradeceu mas não aceitou, a tia não queria que aceitasse coisas de estranhos e a dona Perpetua, achava ele, ainda era uma estranha.

-Queres que acenda a televisão, insistiu?

Sorriu e ele percebeu, acendeu nos desenhos animados.

Quando voltaram, dessa tal de reunião, ele já tinha adormecido no sofá, só acordou porque a tia o chamou:

-Anda José, vamos descansar e preparar as tuas coisas, amanhã, esta vai ser a tua nova casa!

Apeteceu-lhe chorar mas tinha tanto sono que não conseguiu.

De manhã acordou cedo, como sempre, a tia estava sentado no mocho da cozinha, chamou para uma conversa de crescidos e explicou que agora ia ser um menino rico, ia ter boas roupas, boa escola e ia aprender a ser um homem. A dona Perpetua e o doutor juiz iriam ser os meus novos pais. Era esta a mensagem do menino Gonçalo.

-Mas, tia, não há nenhum menino.

-E eu não sei filho? Esse vai ser o nosso segredo para a vida.

-Oh tia, disse choramingando, e quem trata das ovelhas?

-Ouve filho, as ovelhas já não são minhas, agora são quase tuas, já as vendi ao juiz. Vendi tudo, as ovelhas e a casa, vou para um lugar onde cuidam de mim.

Deu-lhe um beijo, ajudou-o a levar a mala e meteu-o no carro.

***** 

São passados 12 anos, vou fazer dezoito, acabeu o liceu e espera entrar para a faculdade. Já não é José da Silva Galrito, agora mudou para José da Silva Telles Cortes. Está no bilhete de identidade! Tem o nome da mãe e o do juiz, como pai, não sabe porque, nunca lhe explicaram mas, um dia, vai descobrir.

*****
Sempre que o deixam vai visitar a tia, tem 73 anos mas está muito acabada! Vive num lar, a alguns quilómetros daqui, desconfia que é o juiz, actual pai, que o paga.

O piloto morreu pouco tempo depois de ele sair, a tia disse que foi velhice mas ele desconfio que, tal como a mãe, morreu de desgosto.

Hoje pediu para o levarem ao lar, vai para a cidade e não sebe se quando voltar, a tia, ainda está por cá.

Quando o viu, os olhos, luziram de alegria, agarrou na bengala, já não tinha o cajado, pegou-lhe no braço e levou-o para longe das outras colegas.

-José chegou a hora de saberes toda a verdade, se calhar já sabes algumas coisas, mas eu prometi que te contava e a tua tia nunca faltou a uma promessa. O meu irmão quando casou com a tua mãe, ela, trabalhava na casa do Juiz e já estava gravida de ti, mas ninguém sabia e se ela não falasse, nunca, ninguém viria a saber, mas não teve coragem e contou ao marido. Ele não a soube perdoar por isso se meteu ao caminho e abalou por essas Áfricas fora, nunca mais deu notícias. A tua mãe teve um momento de fraqueza, que o meu irmão, podia ter perdoado, mas não a perdoou.

Ela, pobrezinha, deixou-se consumir pelos remorsos e morreu.
Sempre desconfiei, tu és a cara chapada do teu pai, mas nada podia fazer, que podia uma pobre manca, contra um homem poderoso, só me restava aguardar.

Foram seis anos de angústia mas o pobre, Gonçalinho, que não tinha culpa nenhuma acabou por ajudar o irmão, que és tu.

Hoje tens o teu nome e os apelidos verdadeiros, o da tua mãe e o do teu pai.

O resto é o nosso segredo.

Vais prometer que é e será para a vida!

És meu sobrinho, és filho da minha cunhada e eu amo-te muito!

Depois beijou-o e abraçou-o como nunca o tinha feito.

***

Morreu passados oito meses.









domingo, 19 de janeiro de 2014

Vitoriana










Ia tão apressada que se eu não fosse tão listo, o telemóvel tinha-me voado, das mãos, com o encontrão.

Virei-me com vontade, nem sei bem de que, mas o sorriso e aquele ar angelical deixou-me sem coragem para refilar.

Era tão doce e aquele:

-Desculpa tá! Tão açucarado, foi suficiente para quebrar toda a minha vontade, apenas me saiu:

-Desculpo com uma condição, vem beber um café comigo!

Deu uma gargalhada, saracoteou aquele rabo que parecia esculpido, por um qualquer Miguel Ângelo e desapareceu na confusão, dos embrulhos das compras de Natal.

Eu, ainda, tinha coisas a comprar, este ano, deixei para o fim algumas das prendas do Natal, é o costume, tenho que me habituar a fazer as coisas a tempo e horas.

Faltava alguma coisa para a minha mana Alzira, uma Nitendo para o meu sobrinho André, foi o que ele me pediu, o difícil era encontrar, parece que todos os miúdos se lembraram do mesmo. 

Para a minha afilhada Margarida, era fácil, um envelope um cartão e umas notas, foi o que me pediu:

-Padrinho não me compre nada, no Natal dá-me uma nota para eu juntar para comprar um IPad!

Pedido é pedido, vou fazer isso!

Para a Alzira, gostava de uma camisola, igual à da moça que tropeçou comigo. Era diferente, mas onde vou agora encontrar uma camisola assim?

Estou farto, ando há duas horas num entra e sai de lojas e apenas consegui a Nitendo, para o André, camisola nem sei por onde começar, acho que vou desistir e ofereço um cheque brinde para ela escolher à vontade. Não gosto desta solução mas o que hei-de fazer?

Que se passa? Meu dia de sorte! No meio de uma dúzia de sacos lobriguei a menina do encontrão.

Que borracho, meu Deus! O Pai Natal bem podia deixar uma igual no meu sapatinho.

Que bom, reparou em mim e brindou-me com um rasgado sorriso antes de me dizer:

-Oi que bom que o encontro, agora aceito o tal cafezinho, preciso mesmo descansar as pernas.

-Com muito gosto! Respondi. Vamos, é no piso de cima!

Ia à minha frente, saltitando numas botas de saltos de sete centímetros, calças muito justas que deixavam antever uma coxas firmes e um traseiro que fazia corar um santo.

Procuramos uma mesa vaga, largamos os embrulhos numa cadeira e repousamos o cansaço das pernas.

-Que quer para beber, ou comer para ir buscar? Perguntei

-Você vai pégar? Disse de forma açucarada.

Tentei imitar, sem muito jeito:

-Vou pégar mesmo, com muito gosto!

Estava agradável a conversa, ela, Vitoriana era um autêntico furacão.  Nasceu em Porto Alegre, filha de um português e de uma brasileira, aos 8 anos foi com os pais para o Rio. Quando o pai morreu tinha, ela, 16 anos a mãe regressou a Portugal onde voltou a casar. Ficou a viver com os avós, podia estar com o mãe e o padrasto mas prefere estar com os avós, está mais à vontade!
Acabou o curso, de Relações Internacionais, e sonha com uma carreira diplomática.
Mas, interrompi:
-Qual é o teu nome?
-Oi, nome difícil mesmo! Sou Vitoriana! Papai queria um rapaz, um Vítor, mamãe queria menina que seria Ana, mamãe ganhou mesmo, mas acertaram os nomes e fiquei com os dois.

-Sabe, disse Vitoriana, não sei porque estou falando para você tudo isto! As vezes pareço um pouco boba.

-Não, respondi, fez bem falar e eu adorei ouvir e agora quero uma ajuda sua. Pode ser?

-Ai parou! Depende do que quer cobrar. Respondeu com uma saudável gargalhada.

-Pouca coisa, respondi, só quero que me ajudes a comprar, para a minha mana, uma camisola como a tua, coisas para mulheres não tenho muito jeito.

-Só isso? Perguntou, não é demais pelo café e o docinho! Anda, vamos, eu sei onde encontrar!

Levou-me ao piso superior, seguiu o corredor até ao meio, entrou numa loja que eu nem conhecia, mexeu no expositor e mostrou-me uma camisola quase igual á que tinha vestida e perguntou.

-Tá bem esta? Agora é só escolher a cor!

Era mesmo o que procurava, a empregada sugeriu verde-tília, dizia que era a cor da moda. O tamanho, eu sabia, era o 36. Paguei e pedi um embrulho para oferta.

Enquanto a empregada tratava da embalagem, procurei a Vitoriana. Devia estar no corredor!

Não estava, corri o centro comercial, olhei em todas as lojas, subi e desci escadas rolantes, olhei para tudo o que era lado, nada da Vitoriana.

Não há dúvida, escafedeu-se, mesmo.

Nunca mais a vi mas, juro, sonho com ela.

Por isso é que eu não gosto do Natal!