Foi há três meses atrás que a viu pela primeira vez mas, ficou-lhe no pensamento o porte altivo, os fartos cabelos negros, em caracóis, a emoldurarem um rosto, quase, angelical onde uns olhos, de verde intenso, tornavam o quadro quase surreal.
Estava no pequeno jardim do largo em frente aos correios, telemóvel encostado ao ouvido, enquanto os lábios cor de romã se iam entreabrindo em frases que ele não conseguia ouvir.
Quis avançar mas não conseguiu quebrar a timidez, não era a primeira vez que as pernas lhe paralisavam a vontade, que o coração disparava à alegria do olhar e o corpo deixava morrer o desejo entorpecido pelo medo da rejeição.
Fechou os olhos para ganhar coragem, esteve assim alguns segundos até que a ousadia parecia ter vencido o medo, abriu e, a imagem, tinha desaparecido como por encanto.
Apeteceu-lhe chorar, mas em público não teve ânimo, não queria mostrar como era fraco, tímido e falho de iniciativa.
Durante três meses, todos os dias à mesma hora, no mesmo local, sentava-se num banco na esperança de a voltar a ver. Passava, quase, uma hora olhando o espaço e imaginando, o milagre de a ver correndo na sua direcção, braços abertos para o estreitar contra o coração.
Sempre ouviu dizer que a esperança era a ultima a morrer e ele sentia, que ela ainda um dia, ia reparar no amor que lhe tinha e de como a poderia fazer feliz, só precisava de ser perseverante.
A mãe dizia-lhe que o tempo que perdia o podia usar a procurar emprego, mas a mãe não percebia nada do amor! Para a mãe, amor era um homem a trabalhar e uma mulher, em casa, a lavar a roupa e a fazer comida.
Esses tempos mudaram a vida agora é diferente, a juventude descobriu um novo conceito, mais puro, mais romântico, nada de trabalho, nada de panelas, agora a vida é para curtir, andar numa boa e cada um viver na casa dos pais.
O pai esta “bué” de atrasado, sai de madrugada e volta ao fim do dia, a trabalhar, sempre a trabalhar.
Para
que? Nem dinheiro tem para trocar o "chaço" que está estacionado à porta.
O velho agora nem lhe fala. "Tasse" lixando para isso, ficou chateado porque pôs uma argola, muita curtida no lábio, diz que os porcos é que usam argolas para não cavarem a terra, como se alguém acreditasse numa coisa dessas, o velho está mesmo a ficar marado.
Já esta a ficar "pró" lixado com a “garina”, andou um dia a pavonear-se para lhe chamar a atenção, depois dá-lhe o amoque e desaparece, mas um dia vai encontra-la e ela vai ver o que custa. Não se brinca, assim, com os sentimentos cá do menino.
Mais uma tarde perdida olhando uns velhotes num barulhento jogo de sueca, pareciam que estavam a jogar a vida. Batiam as cartas com violência, gesticulavam e acusavam os parceiros de não terem jogado este ou aquele trunfo.
Ia desistir, por hoje, mas ia voltar e um dia a gaja ia aparecer e ele, talvez, nem para a tromba lhe fosse olhar, não se brinca assim com os sentimentos de uma pessoa.
Ele não a conhecia, só a viu naquele dia a falar ao telemóvel, mas a maneira como o olhou, foi de soslaio, mas disse tudo e ele sentiu a mensagem.
*****
Foi até ao café do Rebocho, era lá que a malta se reunia, para combinar com o pessoal o programa para o dia. Já estava a imaginar o Isaías a inventar uma ida ao cinema, o merdoso do Aníbal a descobrir umas cenas maradas à porta do liceu das miúdas e o Toni a escolher não fazer nada. Ele ao cinema não ia, estava tesinho e não conseguiu sacar “népia” à velha! Para o liceu não ia, o “chui” já o topava e não estava interessado em ir passar uma noite na esquadra, não fazer nada era agradável, mas hoje não estava virado para isso.
Foi até ao café do Rebocho, era lá que a malta se reunia, para combinar com o pessoal o programa para o dia. Já estava a imaginar o Isaías a inventar uma ida ao cinema, o merdoso do Aníbal a descobrir umas cenas maradas à porta do liceu das miúdas e o Toni a escolher não fazer nada. Ele ao cinema não ia, estava tesinho e não conseguiu sacar “népia” à velha! Para o liceu não ia, o “chui” já o topava e não estava interessado em ir passar uma noite na esquadra, não fazer nada era agradável, mas hoje não estava virado para isso.
De repente teve uma ideia luminosa e juntando os amigos num círculo, todos tesos como ele, perguntou:
-Quem está disposto a alinhar num esquema para sacar uns dinheirinhos? É, quase, uma brincadeira eu tenho tudo estudado!
-É pá, disse o Toni, não estou interessado em ir dormir à “choldra” !
-Mas qual “choldra”, qual merda! Exclamou irritado, isto está tudo previsto. O velho fecha a loja, dos telemóveis, às 7 horas e é a melhor altura para avançarmos e sacar o dinheiro e algum material.
É,
fácil o Aníbal que tem mais “caparro”, imobiliza o velho e os outros sacam tudo
o que valer dinheiro, mas nada de violências porque o velhote até é “bacano”. O
Isaías, que tem carro, aguenta para nos pirarmos.
-Parece “porreiro”! Disseram.
-Tá combinado, às seis, todos no largo. O Isaías vai á frente estaciona, sem dar nas vistas, à porta da loja. Nós vamos de seguida e no momento de fechar a porta metemos o ombro que o ginga cai de pantanas, o Aníbal aguenta-o, nós fanamos o dinheiro, enfiamos os telemóveis no saco e arrancamos para o carro. Não demoramos mais que três minutos.
***
O
senhor Apolinário já arrastava, um pouco, o peso dos anos mas tinha que viver.
Estava há 52 anos nesta loja. Começou ao 14 com o tio Ernesto, era uma
retrosaria, vendiam tudo e a casa estava sempre cheia, eram outros tempos, com
o pronto-a-vestir o negócio foi por água abaixo e o tio desistiu, estava
cansado.
Apolinário
ficou com o negócio e, acompanhando a evolução, transformou as linhas e os
botões em telemóveis, acabou o retroseiro e começou uma nova etapa, era
necessário acompanhar o progresso.
Hoje o dia foi bom, não se podia queixar. Estava, no entanto, preocupado com um “gajo”, mal-encarado, que tinha estacionado um velho Ford à porta da loja, o tipo estava nervoso, olhava para todos os lados esperando alguma coisa e boa não era, com toda a certeza! Ia telefonar à polícia, o seguro morreu de velho.
-Vamos mandar já uma patrulha, prometeram.
Sete horas, ia fechar a porta e descer os taipais, quando de roldão entraram três marmanjos, que o imobilizaram contra o balcão, tiraram o dinheiro da caixa e começaram a descarregar as prateleiras para um saco de lona.
No momento em que se preparavam para sair, com o saque, uma surpresa os aguardava, a polícia apareceu em força. O Isaías ainda tentou arrancar com o carro mas não teve tempo.
Foram mandados ajoelhar e mãos atrás das costas, para serem algemados.
O
Timóteo, finalmente, voltou a encontrar a mulher dos seus sonhos, transformados
em pesadelos.
A
diva, dos cabelos negros, com lábios cor de romã, era a agente Susana que, com perícia,
o manietou.





