sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Uma vida – Parte 1


 


 

 

Esta é a primeira parte de um conto, demasiado grande para um Blogue, vou publicar por fases. Possivelmente poucos o vão ler e eu compreendo!

 

Julgo que era uma sexta-feira mas, passou tanto tempo que é difícil garantir.

Um dia ainda vou procurar, num Google qualquer, há sempre alguém que sabe dessas coisas. Mas para o caso pouco importa, só sei que era um fim de dia, frio e chuvoso.

As pessoas passavam, na rua, apressadas e encolhidos debaixo de enormes guarda-chuvas que o vento tentava, furiosamente, virar.

O homem entrou em casa, sacudindo a água que lhe ensopava a roupa, mas um pouco incomodado com o reboliço que veio encontrar.

 
Mulheres numa azáfama a que não estava habituado. Cafeteiras de agua quente, toalhas e lençóis empilhados numa cadeira como se alguém se tivesse esquecido de os arrumar.

Não se conteve, não era capaz tinha que mostrar, sempre, algum desagrado:

-Mas que raio de confusão vai nesta casa e será que não tem nada que fazer nas vossas?

A mulher mais velha, que parecia chefiar a confusão, ajeitou o lenço na cabeça e respondeu de maus modos:

-Ou se senta ai muito sossegado, ou volta para a chuva e volta daqui a umas horas. A sua mulher entrou em trabalho de parto e aquilo que menos precisamos é de maus modos.

De repente pareceu que todo o silêncio do mundo se quedou naquela casa. O homem ajeitou as pernas altas e desajeitadas, numa cadeira de buinho, com as mãos a cobrir-lhe o rosto, ninguém percebeu se por vergonha ou ansiedade.

 
As mulheres desapareceram no quarto, o reboliço era enorme e, alguns gritos, se sobrepunham a algazarra que se tinha apoderado daquele momento.


De repente caiu o silêncio, um choro tímido tomou conta do sossego e entoou como se não fizesse parte do cenário. A mulher, a que parecia coordenar as operações, sobressaiu aos tímidos vagidos e gritou:

-É um rapaz, um belo rapagão.
O homem continuou na posição a que se tinha remetido, parecia estar alheado ou como se nada de bom tivesse acontecido. 



****

Foi um pequeno momento, quase um instante, mas foi o princípio de um longo caminho, foi o começo de algo que atravessou os anos como se fosse natural.


**

O Inverso foi mais rigoroso que o normal, o vento fustigava com violência e a chuva infiltrava-se pelas desalinhadas telhas, fazendo regos de humidade nas encardidas paredes do quarto. O rapaz ia crescendo mas não se notava felicidade, tinha um olhar carregado e nunca aprendeu a sorrir, as pessoas bem tentavam aquelas aparvoadas habituais Mas o bico, do beiço da criança, mantinha sempre um taciturnismo que os olhos espelhavam como reflexo de uma alma.


O tempo não tem contemplação e é impiedoso na sua marcha e, de repente, a criança que nunca tal se sentiu era o rapaz, apenas o rapaz, não se lembra de ter sido chamado de outra forma, era o rapaz, menino nunca foi.


Brincou, brincou muito, com os brinquedos que a imaginação lhe oferecia.

Dos outros nunca teve, mas as fantasias criavam os melhores e mais sofisticados jogos e divertimentos, muitos mesmo antes de serem descobertos.



***

Chegou o momento, a escola iria fazer parte de uma nova vida que não pediu mas que lhe estava destinada. Os outros rapazes estavam, tal como ele, receosos do que estava para vir, uma professora que os olhou do alto de um estrado, descansou-os com a tranquilidade das palavras e com doçura na voz.

-Todos sentados! Vamos começar a estudar coisas novas, vamos aprender a ler e a escrever.

O rapaz, que agora passou a ter um nome e um número, começou a ter medo.

Não era a senhora professora, até gostava dela. Não eram os outros meninos, sabia subsistir.

Tinha medo do que estava para vir, todos tinham uma mala, livros, uma pedra, cadernos, lápis e borracha, ele tinha um taleigo feito de pano-cru, um caderno e um lápis Viarco, que o senhor Domingos lhe tinha oferecido.



********

 
O dia prometia chuva, aquelas nuvens que se levantavam, no horizonte, eram pronuncio de borrasca.

 

***

Hoje fazia 14 anos, não era que alguém se preocupasse, pois além daquele postal que recebia da avó, era sempre igual, um rapaz bem arranjinho fazendo uma, espécie de, serenata a uma beleza num alpendre emoldurado, de rosas vermelhas, letras bem desenhadas numa caligrafia antiga, com a mesma frase do ano passado e do outro e, decerto, de todos os anteriores.



Era o único sinal, mas tão importante que ainda hoje, passados todos estes anos, neste dia, sente saudades daquele postal colorido, daquele pequeno, mas enorme, pedaço de amor.
 

*****

As nuvens não enganaram, o vento apoderou-se do espaço e o céu abriu as comportas. A chuva, impiedosa, começou a tornar as ruas em verdadeiras ribeiras, com a água a saltar, em verdadeiras cascatas, no empedrado das calçadas. Era cedo, poucas pessoas se atreviam a enfrentar o dia, apenas alguns, mais afoitos, se encaminhavam para os seus afazeres. 

Tinha prometido que seria hoje, dia dos 14 anos, pois mais facilmente ficaria na memória.


O tempo não queria ser cúmplice, a força da chuva era um estorvo, a roupa não era muita e capa para a chuva nunca teve. Se, como imaginara, se metesse a estrada apenas iria arranjar uma valente constipação e, possivelmente, mais um castigo.


Passou a manhã á janela na esperança de um milagre, mas não via o momento de um raio de sol a quebrar este diluvio.

 
*******

Acabou a quarta classe com distinção e a professora mandou, para casa num caderno, um recado a pedir a presença do encarregado da educação, foi um dos maiores sustos da sua vida, não via motivos pois sempre seguiu e cumpriu todas as regras, mas a mente dos adultos era cheia de ideias difíceis de perceber.



Afinal foi apenas uma miragem da senhora professora, se lhe tivesse contado ele logo lhe diria que era tempo perdido, ele não tinha nascido voltado para a lua.

Ainda hoje, vão passados mais de 4 anos, se lembra do diálogo:


-Pedi para falar convosco, pois o moço tem qualidades e capacidade para ir longe, é o melhor aluno que alguma vez me passou pelas mãos, inteligente, de raciocino acima do normal, muito interessado em saber e conhecer, podia e devia continuar a estudar. Até podíamos falar com o padre Severino ele conhece muita gente e quem sabe se não lhe arranjava um lugar no seminário. No seminário, nem sempre vão para padre, um dia podem sair e levam boas bases para continuarem na vida.



Primeiro veio um silêncio que doía, uma lágrima nos olhos de uma mãe que apenas sabia obedecer, uns olhares agastados e muito, mas mesmo muito, desconforto, depois a resposta ríspida e cortante:


-Eu não tive nada disso e nunca precisei, o rapaz fica cá e vai trabalhar, o trabalho é o maior estudo que uma pessoa pode ter.


Nem se despediram e, ainda bem, não olharam para os olhos de uma criança onde enormes lagrimas faziam esforço para não saltarem.

*******


Ninguém lhe perguntou nada, como não o consultaram para nascer também não perguntaram se queira ser abegão e foi isso que escolheram. Abegão é uma profissão com futuro, diziam. Agora que os automóveis começavam a ser vulgares, construtor de carroças era uma profissão com futuro? Que ideias!


Passava os dias a varrer a serradura que, o mestre, ia largando no constante aplainar de tabuas, ou raspando o sebo negro, que pingava das rodas, para evitar aquela chiadeira que irritava quem tinha que a escutar.

Não aprendia nada, pois mesmo o varrer ninguém lho ensinou, apenas lhe meteram uma vassoura artesanal nas mãos e o mandaram varrer. Era triste ser aprendiz de abegão, contra vontade, e acabar em ser o apanhador do lixo que os outros faziam.


Hoje, ao fim do dia, fazia 14 anos e ia dar, finalmente, o rumo que desejava para a sua vida. Tinha reunido, numa bolsa de lona, os parcos haveres e o pouco dinheiro que foi amealhando ao longo destes quatro anos, não era muito pois o que lhe iam dando eram as poucas moedas dos trocos dos vizinhos que o encarregavam de pequenos serviços. Ah! Ia esquecendo, e uma moeda de um tostão, brilhante como se tivesse sido acabada de fazer.

Fazia parte da fortuna mas essa não a queria gastar, tinha um significado e, ao mesmo tempo, era um símbolo pois foi a única prenda de Natal que, o simpático menino Jesus, um dia lhe deixou na alpargata, sim foi o menino Jesus, acho que nessa altura o Pai Natal ainda não era nascido.

Tinha tudo pensado, ia até à fábrica do papel, julgo que lhe chamavam Fabrica das Celuloses, mas isso não interessa, para o caso, o que precisa é entrar na zona onde carregam os rolos e tentar esconder-se no meio da confusão e ficar quieto até chegar à cidade. Não se podia esquecer do cantil com água, não era porque bebesse muito mas, quando não temos as coisas é que nos lembramos dela.
Programou para hoje, quarta-feira, mas o dia não deixava, a chuva foi impiedosa e o vento foi cúmplice dessas forças da natureza.


Tinha que adiar uma semana, não seria dia de aniversário, mas era quarta-feira e só podia ser nesse dia, era o único em que a abegoaria estava fechada, o mestre Crispim não trabalhava à quarta e ao domingo. «Porque?» nunca cheguei a saber. Alguns rapazes mais velhos diziam que ia ter com uma amante. Mas era o que diziam.


********
 

Foi mais fácil do que pensava, a azáfama era tanta que ninguém reparou num rapaz, com uma bolsa a tiracolo, que calmamente ia observando como se apenas tivesse interessado em ver camiões de três rodados.

Os homens olharam, mas sem interesse, uns pensavam que o rapaz seria filho de um deles, era comum aparecerem filhos de colegas a olhar esta confusão do carrega e descarrega.

O problema, agora, era entrar para debaixo duma daquelas lonas e não ficar entalado num enorme rolo de papel, estavam demasiados encostados e se algum deslizasse ficava transformado numa fatia de presunto prensado.

Presunto? Que coisa para lhe vir a memória, adorava e poucas vezes teve oportunidade de comer, só quando o levaram a casa de um senhor, que diziam ser seu padrinho, lhe deram um papo-seco com uma bela fatia de presunto e gostou mesmo daquele gosto diferente, daquela mescla de sabores que se derretiam no palato.

Alguns colegas, não muitos, levavam para a merenda fatias de pão recheadas com grossas fatias de presunto, depois iam comendo o magro e deitavam, aos cães, o gordo. Olhava de través, não porque os cães não tivessem direito a comer presunto, mas pelo desperdício da escolha, o presunto era mesmo bom naquela mistura de febra e gordura. Ainda um dia, pensou, ia ter um presunto só para ele poder retalhar grossas fatias e comer esticando entre os dentes os saborosos pedaços.
 

Os homens gritavam, uns com os outros e ele aproveitou para se esgueirar por baixo do oleado e aconchegar-se ao fundo da camioneta, no espaço, entre um rolo e a esquina do atrelado. Não era cómodo, pois mal se podia sentar, mas era seguro pois os lados do taipal mantinham a bobina segura.

Esperou algum tempo e sentia o corpo um pouco dormente, tinha que ir esticando, o possível, para o sangue correr e o deixar voltar a normalidade. Quando começasse a andar já podia ajeitar-se melhor.

Finalmente sentiu, alguém, dar à manivela para a camioneta começar a trabalhar, o motor pegou e num repelão começou a marcha. O terreno era muito irregular e os solavancos faziam doer o rabo, em constantes saltos, no fundo duro, enquanto as costas iam sendo marteladas de encontro ao taipal. A custo mudou a posição e ficou com as costelas protegidas pelo rolo do papel, sempre era melhor que a madeira dura.

Começava a ter fome mas o farnel era pobre e tinha que ser comedido, pois o dia era longo. Comeu um marmelo que tinha apanhado no quintal da dona Cacilda, foi mesmo ela que o mandou tirar um ou dois marmelos, sabia que ele gostava. Ficou com a boca áspera, mas como demorou muito a come-lo o estômago acalmou.

Apesar do incómodo julgou que tinha adormecido. Pensou na mãe e no desgosto que ia sentir, embora ela tantas vezes tenha desabafado que se tivesse para onde ir há muito tinha abalado, mas os tempos eram outros e o remédio era aguentar e ter esperanças que as pessoas mudem, mas não mudam nunca. Deixou-lhe um pequeno papel onde lhe dizia para não se preocupar com ele, tinha ido à procura da vida, e que um dia voltava para a levar. Sabia que ia chorar mas, tinha a certeza, que ia compreender.

 
A camioneta parou no caminho, espreitou pelo buraco onde passava a corda que segurava o oleado, e viu os dois homens entrar na taberna para almoçar. Sentiu a saliva a inundar-lhe a boca, comeu o outro marmelo e a acidez que lhe engrossou a boca foi um lenitivo para o buraco que sentia no estômago.

Não tinha relógio, embora lhe tenham prometido um quando fizesse a quarta classe, não soube que tempo passou mas mais de uma hora, de certeza, quando os dois homens voltaram. Um deu à manivela, quando o motor começou a trabalhar recomeçaram a marcha.


Quando se estava a preparar para fazer a quarta classe, um dia que lhe pareceu diferente, prometeram-lhe que se passasse ia ter um relógio de pulso. Acreditou, nunca lhe tinham prometido nada, por isso, acreditou, e ficou a remirar o pulso a imaginar um Butex, gostava desse nome e sabia que o senhor Armindo, da drogaria, os vendia trazidos de Espanha. Havia uns que precisavam de corda e outros que não precisavam, era preciso dormir com ele porque era a gente a mexer que lhe dava a corda, não sabia qual lhe iria calhar, teve vontade de ir falar com o Senhor Armindo, sem ninguém saber, e pedir para ajudar na escolha mas teve medo, pois se soubessem não havia relógio e, se calhar, as orelhas eram mais esticadas.

Fez a quarta classe, nessa época era o ensino obrigatório, passou com distinção, até ouviu dizer que foi o melhor desse ano. Não era fácil, pois tinham que ir à cidade fazer exame. Não estava nervoso, sabia tudo o que a professora lhe ensinou e tinha lido todos os livros que ela lhe ia emprestando, até aqueles de poesia que às vezes não percebia bem, mas que o deixavam com uma sensação de conforto. Ainda, um dia, ia escrever um para, os outros, poderem saber tudo o que sentia.

Quando a professora lhe deu um beijo e os parabéns porque a tinha deixado orgulhosa, ele sentiu que ia ganhar o relógio. Foi aí que ela lhe pediu o caderno para mandar para casa o recado para lhe irem falar e, se calhar, foi por isso que o relógio nunca chegou a poisar no seu pulso.

Ainda fez um, recortou num cartão branco, desenhou os números e os ponteiros e enrolou à volta do pulso, mas nunca acertou nas horas, quando olhava ou já tinha passado a hora ou, então, ainda não tinha chegado. Tirou do pulso e guardou, era um dos tesouros que levava na sacola.

 
****

Estavam a entrar numa grande povoação, se calhar tinham chegado à cidade grande, havia carros nas ruas e as pessoas, nos passeios, caminhavam em roupas mais elegantes do que aquelas a que estava habituado. Os homens todos de chapéu, não viu nenhum de boina como na aldeia, as mulheres em roupas coloridas e sem lenços na cabeça. Alguns rapazes corriam, com uma gancheta de arame, controlando uma roda de aço que saltava nos socalcos do empedrado. 

A camioneta fez algumas manobras e entrou, de marcha atrás, num armazém enorme.

Sentiu arrumarem as coisas, fechar o portão e abalarem para o escuro que começava a cair na rua.

Saltou do esconderijo, esticou as pernas e os braços, na tentativa de fazer voltar ao lugar os ossos e os nervos que estavam todos fora do sítio, totalmente dormentes.

Apeteceu-lhe, então chorar, não propriamente por medo mas pela frustração de ter nascido diferente, ou talvez, por ter nascido numa família que não sabia o que era ser família.

Agora tinha que pensar como ia sair dali, havia uma janela lá em cima, estava alta e tinha umas grades apertadas. O portão estava bem fechado.

O melhor era passar ali a noite, estava abrigado e podia descansar num daqueles montes de sacas que se encontravam encostadas à parede. Comeu um pedaço de pão, estava duro mas sabia bem, com a maçã vermelha que antes poliu, contra a camisola, que a tia lhe ofereceu um dia em que os foi visitar. Foi ela que a fez com umas lãs que tinha lá em casa.

A maçã era boa mas, deu-lhe um peso na consciência, não lha tinham dado, tirou-a do prato da fruta que estava em cima da mesa da cozinha, tinha a certeza que a mãe ia compreender e não ia dizer a ninguém que tinha roubado uma peça de fruta.

Adormeceu, totalmente, com o cansaço do corpo a ajudar, mas com a preocupações de acordar antes da chegada das pessoas, tinha que se esconder e tentar sair passando despercebido.

Correu tudo bem, a confusão que reinava, naquele armazém, era um bom cúmplice para sair sem ninguém o notar.

Na rua estava um pouco de frio, não tanto como lá na terra, mas a roupa era pouca e tinha que se encolher para poder aguentar melhor. Parou junto à montra de uma casa de bolos, dizia em cima pastelaria! E lembrou-se que ainda não tinha comido, tirou um pedaço de pão, já duro, e foi comendo enquanto ia olhando os bolos, como se isso mudasse o sabor da côdea, mas o pão estava bom e não podia deixar que qualquer tentação o desviasse dos objectivos, um dia ainda havia de provar de todos aqueles bolos.

Agora ia arranjar emprego, sabia que ia ser difícil, havia muitos, mas um qualquer rapaz, sozinho, entrar num qualquer sítio e dizer se tinham um lugar para ele trabalhar. Não sabia fazer muita coisa a não ser varrer e ter muita vontade de aprender.

Foi difícil, calcorreou, a cidade, na busca de uma ocupação mas as pessoas olhavam desconfiados e iam deixando desculpas, és muito novo, és fraco para carregar o cesto, não tens prática ou se tens vindo antes!

Tinha esgotado as provisões e sentia muita fome, não queria pedir, não foi para isso que enfrentou nesta aventura, tinha que aguentar. Pensou rezar mas não valia a pena, sabia que o único Deus era dos ricos, os pobres não tem direito a essas coisas. Um dia, quando fosse rico, ia ter um Deus mas, nessa altura, se calhar já não precisava pois ia ter dinheiro para comprar o que lhe fosse necessário.

Estava nestas cogitações olhando para a montra farta de uma pastelaria, quando um homem lhe perguntou:

-Tens fome?

Ficou engasgado, um tremor tomou conta do corpo e um rubor transformou-lhe o rosto. Acanhado respondeu:

-Obrigado senhor, só estava a olhar!

O homem percebeu a vergonha, pegou- lhe no braço e com um sorriso descansou-o:

-Sabes rapaz, eu já passei por aí por onde estás a passar. Anda, vem escolher alguma coisa para comer, não te acanhes, um dia farás o mesmo a outro que tal, como tu, esteja a precisar.

Comprou-lhe uma sandes de presunto, calculem de presunto, um bolo enorme com creme e uma garrafa de gasosa. Deu-lhe uma ligeira palmada no ombro e desapareceu para donde tinha aparecido.

Afinal, se calhar, pensou, também há um Deus dos pobres.

******** 

Ele ainda tinha os 25 escudos e o tostão, mas os escudos não os queria gastar podia precisar de comprar alguma coisa se arranjasse emprego e a moeda, essa, era sagrada.

Tinha passado, as noites num portal do adro da Igreja, era abrigado do vento e ninguém tinha embirrado com ele, mas acordava com o corpo dorido e com muito frio. Lavava a cara no chafariz e puxava os cabelos, para o sítio, no reflexo de uma montra.

Estava há três dias e não queria começar a desesperar mas, pensou que ia ser mais fácil.

Hoje ia mudar de sítio, ia apanhar um eléctrico, afinal eram só alguns tostões e ia experimentar o centro, a baixa como aqui diziam, podia ter mais sorte.

*****

Bom, era diferente, muito comércio e muita gente janota nas ruas. As mulheres, nas montras, e ficavam a olhar e a comentar as coisas bonitas que estavam expostas.

Os homens passavam, olhavam as mulheres enquanto fingiam olhar as montras.

Os cafés eram diferentes, maiores e com uma imensidade de guloseimas que ele nem sequer imaginava que pudessem existir.


****
 

Estava com sorte, na montra daquele café, estava um papel a dizer:

“Precisamos de um marçano, mesmo sem prática”.

Não sabia bem o que era um marçano, mas devia ser qualquer coisa a ver com pastelaria.

Alisou o cabelo, passou os dedos pelos olhos, endireitou a roupa e entrou.

-Faz favor, disse um senhor, de casaco branco, que estava ao balcão.

-Desculpe, balbuciou o rapaz, vinha pelo papel do emprego.

O senhor esqueceu o sorriso, postiço, que tinha afivelado, indicou-lhe uma porta ao fundo da sala.

Bateu, timidamente e quando ouviu entrou.

Era um pequeno cubículo, com uma secretaria apinhada de papéis, Um senhor gordo olhou-o de alto abaixo antes de perguntar:

-Vens só? Onde estão os teus pais?

Corou antes de responder:

-Não vivo com os meus pais, estão longe, vivo com uma velha tia que não tem muitas posses e preciso de trabalhar.

O homem limpou a testa, fechou os olhos como que a conciliar o pensamento e com um sorriso, quase carrancudo, terminou:

-Começas amanhã às 8 horas, duas refeições por dia, trabalhas até as 5, dormes no armazém e 100 escudos por mês. Está bem assim?

Só conseguiu acenar que sim, mas o contentamento estava bem visível nos olhos tristes.

Perguntou então:

-Já posso ficar cá, esta noite, para estar cedo ao serviço?

-Podes, respondeu o patrão, logo, às 9 horas, vais ter com o Senhor Godinho que ele explica o que há para explicar.

Entregou o bilhete de identidade, assinou um papel com as condições e saiu a assobiar, coisa que não se lembrava de alguma vez ter feito.
 

Ia, finalmente, gastar um pouco do, quase nada, que tinha, precisava de uma camisa, de meias e se, possível, de umas cuecas.

  

***

Albino raramente sorria mas tinha um ar que cativava, era uma espécie de doçura que inspirava confiança.

Ouvia tudo com muita atenção e mostrava, num ligeiro aceno de cabeça, que tinha assimilado, mas fazia duma forma cortês, sem enfado e dando confiança a quem o mandava sem deixar transparecer submissão.

Rapidamente foi aceite e, não tardou, estava ao balcão, sabia atender e ser delicado sem perder dignidade, aconselhava e as pessoas aceitavam porque transmitia confiança e um certo profissionalismo.

Os clientes já o procuravam, gostavam do modo como os atendia. O patrão também se apercebeu e deixou, a pedido, que fosse estudar, de noite, no liceu.

Começava a ter a vida organizada era tempo de ir buscar a mãe, voltou à terra.

A casa estava diferente, tinha mais um andar com varandas floridas e estava pintada de cores alegres, aqueles cinzentos doentios tinham desaparecido.

Os novos moradores, não conhecia, nem o conheciam a ele.

Soube pelo senhor Domingos, da drogaria, que a mãe deixou o pai e foi viver para a cidade, com um homem que ninguém sabia quem era. O pai desapareceu e nunca mais souberam nada, pensam que tenha ido para Espanha, mas ninguém tem a certeza.

Voltou desiludido, quis cumprir a promessa, mas a mãe depressa se esqueceu e fez como sempre, escolheu o mais simples.

******

(continua em breve)

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Mais um cigarro?









Começou a subir as escadas, pareciam muitas e as pernas começavam a sentir umas guinadas que as deixavam hirtas. Parou um bocadinho, encostado ao muro. Tinha o peito ofegante e o ar parecia que lhe ia queimando o peito.

Era do tabaco, ele sabia, maldito vicio. Já tentou algumas vezes mas não é fácil, esteve dois meses, sonhava com o cigarro, e um dia não aguentou mais, acabou de almoçar e vai disto, um cigarrito.


A primeira passa não soube bem, mas depois foi um prazer que o invadiu, até lhe pareceu que as ideias ficaram mais claras.

Agora estava a sentir os efeitos. Sentou-se num degrau, tirou a cigarreira e enfiou um no canto da boca, quando o fósforo o fez crepitar sentiu os pulmões serem invadidos, por aquele prazer inebriante e, parece que, as forças voltaram para o resto da subida.


Voltou à tarefa, parecia difícil, os degraus aparentavam estar mais empinados e, o efeito do cigarro não valeu de nada, as pernas continuavam hirtas e o peito, parecia pequeno para tanto cansaço.

Finalmente chegou ao fim, dobrou-se com as mãos apoiadas nos joelhos, boca aberta num arfar de peixe fora da água, mas não aguentou muito nessa posição, as pernas cederam, os braços perderam o apoio e, por instinto, defenderam a cara antes de tombar no empedrado da calçada.
 

*******

Foi um casal, ainda jovem, que lhe acudiu e o ajudou a sentar num degrau.

Devagar, muito mesmo, a cabeça deixou de girar, a névoa desapareceu dos olhos e conseguiu um sorriso muito ténue, antes de agradecer:


-Muito obrigado pelo apoio e ajuda!

Foi a mulher, muito nervosa, que sugeriu:

-Acho que devíamos chamar ajuda e ir ao hospital, teve sorte porque os braços protegeram a cara. Vou ligar para o 112!


-Não, respondeu aflito, não vale a pena, já estou bem, foi do esforço de subir esta escadaria. Estou bem, muito obrigado!

Agora foi o homem:


-Fica bem? Com a saúde não se brinca. Telefone a algum familiar, nós temos que ir.


-Muito obrigado, respondeu, estou totalmente bem. Deus lhe pague o vosso cuidado.


O casal afastou-se, iam olhando para trás, até que desapareceram na esquina.


Deixou-se estar sentado no degrau, apoiou as costas na parede e meteu na boca um cigarro, calmamente foi fazendo espirais de fumo até que o ultimo morrão caiu. Só depois se levantou e se meteu ao caminho, faltava pouco, a paragem do autocarro era já ali.

*******

O jovem casal ficou apreensivo, aquela imagem do homem a deslizar como boneco articulado e ficar estatelado como um morto, no duro da calçada, ficou a bailar nas suas cabeças, mas seguiram em silêncio.


A mulher rompeu a calma:

-Não me sai do pensamento o pobre homem, pensei que estava morto, nem calculas como fiquei, tive medo.

-Sabes o que me fez lembrar, disse o homem, o meu tio Xavier, morreu numa cena dessas. Baixou-se para arranjar os sapatos, baldou de frente e quando deram por ele tinha lerpado.

-Pois, disse a mulher, fomos uns inconscientes deixamos o homem à sua sorte, devíamos ter pedido ajuda, se o homem morreu somos, moralmente, responsáveis. Vamos voltar ainda pudemos ir a tempo.

-Mas vou fazer o que? Agora já passou!

-Eu vou, disse a mulher!

Voltou numa correria, era perto, mas do homem nada, tinha desaparecido como por encanto.

-Pois, suspirou a mulher, ou conseguiu ir embora ou alguém o ajudou.

Que mal procedemos, a culpa é tua que estás sempre apressado e não pensas nos outros. És tu e só tu! Às vezes penso como, ainda, encontro paciência para aturar as tuas madurezas egoístas.

-Mas que conversa é essa, gritou o homem, que culpa tenho eu que o velho tenha batido com os queixos no chão, se calhar estava bêbedo!

-És mesmo bruto, sibilou ela, não tens mesmo sentimentos, nem sei como consigo aturar todo esse egoísmo. Nem sei se consigo e, nem sei, se quero conseguir!

-Mas isso é uma ameaça, gritou ele, pensas que és uma santa quando não passas de uma convencida, dando sermões quando não tens moral para abrir a boca. Falas, falas e nunca te vi pegar na carteira para dares uma esmola a um pobre.

-Isso foi de mais, já estou farta de ti, nem sei como te tenho aturado, vai para o raio que te parta!

Empinou a cara e desapareceu, rua abaixo, fazendo ruído com os saltos, dos sapatos, na calçada.

Ainda se ouviram as ultimas palavras:

-Finalmente livre deste aborto!

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Malefícios do tabaco?

Talvez!

Afinal não faz só mal à saúde!




sexta-feira, 5 de setembro de 2014

O Medo






  

A noite estava muito fria e as ruas escuras quase desertas.

Não gostava mesmo nada de andar, na rua, nestas condições mas foi o trabalho que encontrou, na cozinha de um bar. Trabalhava muitas horas mas o ordenado compensava e era bem tratada pelos patrões.

Era difícil  passar a maior parte do dia fora de casa, longe da Ritinha, mas não tinha outro remédio, o pai bazou, mandava uma mesada para ajudar a filha, mas não chegava e tinha que ser ela porque à filha nada havia de faltar.

Antes de ir para o trabalho, deixava a menina no colégio e à tarde a vizinha, dona Rosalinda, ia buscar o neto e trazia a Ritinha. Era uma vizinha tão boa que nunca lhe conseguiria pagar tudo o que fazia por ela, nem uma mãe seria tão boa e tão prestável.

Tinha todos os dias, este trajecto, e nunca se sentiu assim tão insegura, e com tantos pensamentos negativos para as sombras que apareciam nos recantos das ruas. Tinha o sonho, de ainda, um dia conseguir juntar dinheiro para comprar um carro, mesmo velho. Desde que andasse! Fazia a viagem mais segura e, chegava mais cedo, a tempo de estar mais um bocadinho com a filha.

Apressou, um pouco os passos, mas foi pior, ficou com a sensação que alguém a seguia e também tinha aumentado o andamento. Olhou para trás e ninguém, nem vivalma, na rua, estava próxima do largo onde havia um café e havia sempre pessoas, mas com este frio se calhar estavam recolhidas.

Tinha que deixar este medo, afinal já fazia este trajecto há tantos dias, sem problemas, e tantos outros ainda ia ter pela frente e a ideia do carro, era isso, apenas uma ideia que se calhar nunca deixaria de o ser.

Ufa! Finalmente o largo, o café estava aberto, pelo menos tinha a luzes acesas. Ia entrar, não precisava mas ia, tinha que acalmar, comprava um chupa-chupa daqueles que deixam a língua colorida, a Ritinha adorava e, sempre acalmava os maus pensamentos que a assolavam. Se calhar foi por causa daquela notícia no jornal, do homem que perseguiu a ex-mulher e a tentou matar, mas disso estava livre ele é que se pirou, sem dar cavaco, e não ia aparecer de certeza. Tinha lá uma finória que o mantinha de rédea curta.

Este caminho, durante o dia, era fácil, até tinha transporte mas o ultimo autocarro era as 8 horas e a essa hora ainda estava a trabalhar.

***

O marido foi, ainda é, o grande amor da sua vida, conheceu-o num fim do ano na casa da Natércia, foi uma coisa que não sabe explicar, o coração saltou como se fosse uma mola, ficou numa agitação que nunca tinha conhecido, não sabe bem porque, ele é normal, tem um sorriso lindo e um bigode muito fininho por cima da boca, se calhar foi o bigode mas tem visto tantos homens com bigode e nenhum a perturbou dessa maneira. Ficou agitada o resto da noite até que, a Natércia, percebeu e perguntou:

-Que se passa Joana? Houve algum problema?

-Não querida, exclamou, estou bem! Quem é aquele tipo ali de bigode cinéfilo?

Natália percebeu e, com um sorriso cúmplice, disse:

-É o Beto, eu vou-te apresentar!

Corou desde as pontas do cabelo e só fui capaz de dizer:

-Que vergonha, não faças isso!

Mas ela fingiu não a ouvir, pegou num braço do Beto e apresentou:

-Beto! Quero apresentar-te a minha melhor amiga, a Joana.

Tinha um sorriso bonito e, aquele pequeno bigode, dava-lhe um ar romântico que a deixou com borboletas na barriga.

Falaram muito, nada de importante, mas falaram nos anseios, nos sonhos, nos planos e no futuro.
Quando ele a convidou para se encontrarem não ficou surpreendida, afinal era o que mais desejava.

Foram seis meses, de namoro intenso, e quando ela lhe disse:

-Beto, estou grávida!

Ele ficou nas nuvens, a alegria transbordou dos seus olhos, agarrou-a com muita ternura, e sussurrou-lhe aos ouvidos:

-Vamos casar já, não quero o nosso menino, ou menina, filho de pais solteiros.

Foi um casamento simples, família e os amigos mais chegados, Joana teve que se beliscar para ter a certeza que não estava a sonhar, mas era verdade, ia ser mãe e estava ao lado do homem da sua vida. Ela estava, totalmente, feliz.

Iam ter uma menina, era o que os dois desejavam, já tinham escolhido o nome, ia ser Rita.

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Joana apressou um pouco os passos, afinal já não faltava muito, mais 15 minutos e estava em casa, enquanto caminhava todos esses pensamentos fervilharam na sua cabeça e, incriminava-se porque foi ela a responsável pela separação, era a única culpada, tinha que viver com isso.

Quando a Rita nasceu, sentiu que tinha conseguido, da vida, tudo o que desejava, mas esqueceu que o amor é um pouco como as flores, tem que ser regado para se manter viçoso
.
Descuidou-se, vivia para a filha e esqueceu que, também, tinha um marido.

Aquelas pequenas coisas que tornam as mulheres mais femininas deixaram fazer parte do seu dia-a-dia, a filha era o mais importante, para o marido deixou de ter tempo.

-Joana, dizia o Beto, hoje podíamos ir jantar fora e depois ao cinema, a minha mãe ficava com a Ritinha. Que dizes amor?

-Não, não pode ser! Não deixo a menina, pode acontecer qualquer coisa, vai tu ao cinema que eu fico com a nossa filha.

Beto não disse nada, amuou e ficou o resto da noite a olhar para a televisão.

A pouco e pouco algo foi desaparecendo, havia amor, mas a paixão não era suficiente para o alimentar, o diálogo passou a ser monocórdico, monótono cheio de ambiguidades.

Quando iam para a cama ela apenas levava o cansaço e adormecia, com olhos meio abertos e ouvidos à escuta, não fosse a Ritinha acordar.

*******

Foi na terça-feira, quando ia com a filha ao pediatra, consulta de rotina por causa dos dentes, que encontrou a Natércia que já não via há tempos, ficaram felizes eram amigas.

Natércia pegou na menina e não deixou de comentar como estava linda e crescida.
Parecia querer dizer algo mas estava ou, parecia estar, um pouco receosa, por fim atreveu-se:

-Que pena o teu casamento não ter resultado, eram um casal tão bonito e pareciam tão felizes!

-E somos! Exclamou Joana. Porque dizes isso?

-Se calhar falei de mais! Esquece amiga!

Deu-lhe um beijo, rápido, e desapareceu avenida abaixo.

Joana ficou apreensiva, não percebeu, mas entrou no consultório com a frase a martelar-lhe a cabeça, havia alguma coisa que precisava esclarecer.

O Beto chegou, às 9 horas, deu-lhe um beijo seco e perguntou:

-Posso por a mesa para o jantar?

-Não é preciso, já fiz isso, respondeu Joana, mas talvez me possas explicar porque é, que a Natércia me disse que era uma pena, o nosso casamento não ter resultado?

Beto pareceu ficar desconfortável, tentou coordenar ideias, ganhar coragem antes de responder:

-Ainda bem que aconteceu, assim podemos resolver de vez a nossa relação. É verdade! A Natércia viu-me com alguém, só é pena eu não ter tido a coragem de te dizer, podes chamar-me cobarde, mas não sou. Vou deixar esta casa, não aguento mais a nossa maneira de viver, não esquecerei os meus deveres para com a Rita, mas casei para ser fez e já não me sinto.
Vou arranjar as coisas de que mais preciso e vou embora. Desculpa, talvez a culpa seja minha, mas não consigo mais.
Encheu duas malas e uma mochila. Saiu pela porta por onde tinha entrada.
Joana não conseguiu chorar, foi tudo tão rápido.

*****

Não gostou deste reviver de memórias, sabia que tinha perdido o marido e agora, sabia também, que fora a única culpada, ele tinha razão, a esposa e amante que jurara ser, tinha esquecido que o amor é para repartir.
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Começou a ficar preocupada, faltava pouco, mas na esquina, ao cimo da rua, estava um homem encostado à parede, com este frio a esta hora não lhe parecia normal. Não lhe apetecia voltar para trás e, dar uma volta enorme mas, estava com muito medo, se soubesse que alguém ia aparecer esperava, mas com este frio e a estas horas era muito difícil, as pessoas estavam recolhidas.

Ficou como paralisada, estática, numa espera nem sabe bem de quem.

Olhou para todos os lados e, nem réstia, só uma luz acesa, num terceiro andar do prédio, junto à esquina, se houvesse alguma coisa, decerto, se gritasse alto, alguém iria acudir.

Continuou a medo, quase terror, que aumentava à medida
que se ia aproximando.
O vulto mexeu-se e, vinha na sua direcção, pensou começar com um berreiro, mas o estranho acalmou-a:

-Joana, sou eu. Tenho tantas saudades tuas, será que ainda pudemos ter uma segunda oportunidade?  
Não consigo esquecer-te! Será que me podes perdoar?

-Oh Beto! Meu amor, não peças perdão, fui eu que falhei como mulher, como amante e como companheira mas aprendi e não vou esquecer esta lição.

Pegou-lhe no braço, esqueceu todos os medos e com carinho convidou-o:

-Anda meu amor, vamos para casa. Temos tanto a festejar!