Aproximou-se de Joana, colocou-lhe a cabeça no ombro e começou num choro convulsivo.
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Era quase irreal, aquele homem que Joana endeusara estava ali, tão frágil e tão insignificante.
Deixou-o lavar a alma, as lágrimas foram substituídas
por leves soluços que, a pouco e pouco, foram morrendo num esmorecer até que, o
senhor doutor, recuperou a compostura.
Olhou Joana, como se a estivesse a ver pela primeira vez, depois voltou para a secretaria, tomou o porte habitual e voltou a ser o Senhor Presidente.
A voz saiu-lhe um pouco alterada, mas Joana quase não notou:
-Desculpa, Joana, sou muito racional e não me
deixo, normalmente, levar pelas emoções mas foi superior às minhas forças. Ando
há 25 anos a sonhar com este momento e, agora que a encontrei, já não tenho a
certeza se é isso que eu desejo.
A rapariga não sabia o que fazer. Tentou manter alguma serenidade mas, era difícil, estava convencida de haver uma série de circunstâncias que faziam parecer real o que eram, apenas, coincidências.
A rapariga não sabia o que fazer. Tentou manter alguma serenidade mas, era difícil, estava convencida de haver uma série de circunstâncias que faziam parecer real o que eram, apenas, coincidências.
A mãe, que soubesse, nunca foi casada, ela era a única filha e nunca na vida foi Malcata, ou então andaram, todos durante estes 23 anos a esconder segredos e a mentir.
Não sabia se os poderia perdoar.
Encontrou coragem e tentou tomar conta da situação:
-Senhor doutor, tenho a certeza que existe uma grande confusão, uma enorme coincidência. Vou descobrir tudo e, se aceitar, voltarei com provas do que penso.
Espero, que esta confusão, não prejudique a minha bolsa!
O senhor Presidente, finalmente, recomposto aflorou um sorriso:
Encontrou coragem e tentou tomar conta da situação:
-Senhor doutor, tenho a certeza que existe uma grande confusão, uma enorme coincidência. Vou descobrir tudo e, se aceitar, voltarei com provas do que penso.
Espero, que esta confusão, não prejudique a minha bolsa!
O senhor Presidente, finalmente, recomposto aflorou um sorriso:
-Vai Joana! A bolsa é tua porque a mereces, o resto deixo nas tuas mãos, Toma o número do meu telemóvel. Liga quando quiseres.
Joana saiu, nem se despediu, levava no pensamento a fragilidade daquele homem, que procurou no seu ombro a força que, de repente, o abandonou.
Foi um momento difícil, não estava preparada mas, gostou, confessa que gostou de sentir o calor, do rosto molhado, no aconchego do seu ombro.
Ia permitir-se uma extravagância, chamou um táxi e foi a caminho de casa.
Não estava ninguém, os pais deviam ter ido ao supermercado.
Era bom, ia para o quarto, punha uma música baixinha
e tentava por em ordem o turbilhão que tomara conta do seu cérebro.
Deitou-se e acabou por adormecer!
Teve um sonho confuso, estava com o doutor mas de repente já não era ele era o Maurício, depois a mãe já não era mãe, era uma estranha que aparecia a reclamar o filho, gritava que lho tinham roubado e, ela Joana, estava no meio de todos que lhe apontavam um dedo, como se a estivessem a acusar de algo que não sabia o que era.
Felizmente os pais chegaram e saiu ilesa da confusão de um pesadelo.
-Então, Joana, como correu essa coisa da tua bolsa?
Preferiu não falar, por enquanto, do sucedido queria fazer as coisas à sua maneira, limitou-se a dizer:
-Tudo em ordem, pai, foi para assinar uns papéis, o valor deste mês já foi transferido para a minha conta.
Deu-lhe um beijo, fingiu distracção e saiu sem dar um beijo à mãe.
*****
Maria do Rosário não gostou, nada, do gesto da filha e comentou:
-Vistes que a fedelha saiu sem me dar um beijo? Tão importante que ficou de repente, se calhar pensa por ter uma bolsa é rica e esquece os sacrifícios que temos feito! É para isto que estamos guardados!
-Oh, mulher não sejas assim! A rapariga anda nervosa, é uma carga muito grande, os estudos e os problemas, é muito nova para tantas ralações. Podes ter a certeza que ela pensa que se despediu de ti. Nem sei como podes ter essas ideias da nossa menina!
******
Joana saiu de casa sem saber bem que fazer, precisava de conselhos de falar com alguém que a soubesse ouvir e orientar. Era muito para ela, tudo assim tão de repente.
Foi o acabar com o Maurício, não foi o pior, pelo
menos não a abalou tanto como pensava, depois a bolsa de estudos, a expectativa
criada, a seguir foi conhecer um homem que ficou a bailar no pensamento, a ter
desejos, a fazer projectos, a olhar para ela própria com perspectiva diferente
e como se tudo isso não fosse, já muito, a fita melodramático do homem que se diz
ser filho da mesma mãe.
Ela tem a certeza que, o Presidente, deve ter algum
trauma, e torna as coincidências em realidades, e ele preparou toda a
encenação, tinha a certeza que algo, recalcado, no cérebro do homem estava a
toldar-lhe as ideias e a fazê-lo ver Juno onde apenas estava a nuvem.
Há outra coisa que a confunde, porque não estava a Doutora Cândida nesse dia?
Era isso mesmo, ia telefonar à doutora e pedir ajuda, era abusar, um pouco, afinal quase a não conhecia, mas gostou dela e não lhe pareceu capaz de negar um conselho.
Ia telefonar-lhe.
Ligou a primeira vez e não teve sorte, o telemóvel foi para as mensagens, deixou uma muito simples:
-Boa tarde senhora doutora, sou a Joana dos Reis e gostava de um conselho seu. Volto a ligar mais tarde se me permitir!
Não precisou de ligar, a doutora, passado pouco tempo, respondeu-lhe:
-Olá Joana que bom receber noticias tuas! Já sei que a reunião, com o senhor Presidente, correu bem. Tive pena por não estar mas, fui representar o chefe num evento. Não é normal, eu fazer essas coisas, mas o doutor insistiu e não tive outro remédio. E tu, minha querida, como estás?
Joana pareceu ficar a ganhar coragem. Por fim lá se atreveu:
-Sabe, senhora doutora, estou com muitos problemas e muitas dúvidas, não sabia a quem pedir orientação e tomei a liberdade de a incomodar. Espero não se zangue comigo? Um dia, em que tenha um bocadinho, pode dar-me um ou dois conselhos?
A doutora ficou feliz, muito feliz, gostou da escolha e foi pronta a responder:
-Que diz almoçarmos, amanhã, as duas?
Espera por mim, às 13 horas, no café que fica na esquina, em frente, é o Café do Zico!
-Conte comigo, senhora doutora, muito obrigada!
Foi para a faculdade, tinha uma aula de Anatomia Patológica, precisava estudar pois não lhe estava a correr muito bem. Mas ia recuperar!
******
Começava mal, tinha acabado de cruzar os portões e deu de caras com o Maurício, quase que passava sem o ver mas ele estava atento:
-Olá, Joana, pensei que tinhas emigrado!
-Não, Maurício, respondeu, por enquanto ainda não precisei, mas se chegar a altura, e for solução, não vejo problema nisso.
-Desculpa, Joana, não queria ser desagradável! Já sei que conseguistes uma bolsa e mereces e, também sei, que tens um novo amor, alguém muito importante. Estou a par de tudo! Não sei, ainda, quem é o gajo e se descobrir que foi por causa dele que vazastes, eu dou-lhe cabo da cara bonita. Nunca mais se vai querer ver ao espelho!
Joana perdeu as estribeiras e gritou, mas gritou mesmo:
-Continuas o mesmo menino mimado, não há maneira de cresceres, parvo como sempre! Eu não vazei, como dizes, tu é que te esquecestes de que tinhas um compromisso!
Começava mal, tinha acabado de cruzar os portões e deu de caras com o Maurício, quase que passava sem o ver mas ele estava atento:
-Olá, Joana, pensei que tinhas emigrado!
-Não, Maurício, respondeu, por enquanto ainda não precisei, mas se chegar a altura, e for solução, não vejo problema nisso.
-Desculpa, Joana, não queria ser desagradável! Já sei que conseguistes uma bolsa e mereces e, também sei, que tens um novo amor, alguém muito importante. Estou a par de tudo! Não sei, ainda, quem é o gajo e se descobrir que foi por causa dele que vazastes, eu dou-lhe cabo da cara bonita. Nunca mais se vai querer ver ao espelho!
Joana perdeu as estribeiras e gritou, mas gritou mesmo:
-Continuas o mesmo menino mimado, não há maneira de cresceres, parvo como sempre! Eu não vazei, como dizes, tu é que te esquecestes de que tinhas um compromisso!
Não tenho gajo nenhum, bastou-me um para ficar farta. Desaparece, vai ter com a Lisete antes que ela te troque por outro.
Desapareceu com os saltos dos sapatos a fazer saltar as pedras, da gravilha, do caminho.
Ainda olhou, de soslaio, Maurício continuava pregado no mesmo sítio, com cara de quem acabou de engolir um sabonete.
*******
Cinco minutos depois das 13 horas, a doutora Cândida chegou ao café, como
combinado, pegou no braço de Joana e encaminharam-se para um pequenino
restaurante, numa travessa próxima.
Só então falou:
-Venho aqui, quase sempre, é muito simpático, não é caro e tem boa comida.
-Por mim está bom, só queria era falar com o senhora doutora.
-Então vamos começar por acabar com a senhora doutora. Cândida é o meu nome e agora somos amigas. Não somos?
-Somos e vou ver se consigo, disse Joana.
Joana pediu um peixe grelhado e a doutora, como não apreciava peixe, preferiu umas salsichas com couve lombarda.
Conversaram de trivialidades, pareciam duas amigas de longa data. Joana parecia estar a ganhar coragem, não sabia exactamente como começar mas, tinha que ser e começou:
-Cândida, afinal não foi difícil, sabe que na entrevista com, o senhor presidente, as coisas não saíram muito bem! Foi muito simpático, recebeu-me muito bem mas, de repente, entrou em confusão com o nome da minha mãe, dizia que podia ser a dele, com um apelido diferente, depois perdeu o controlo e começou a chorar.
-Venho aqui, quase sempre, é muito simpático, não é caro e tem boa comida.
-Por mim está bom, só queria era falar com o senhora doutora.
-Então vamos começar por acabar com a senhora doutora. Cândida é o meu nome e agora somos amigas. Não somos?
-Somos e vou ver se consigo, disse Joana.
Joana pediu um peixe grelhado e a doutora, como não apreciava peixe, preferiu umas salsichas com couve lombarda.
Conversaram de trivialidades, pareciam duas amigas de longa data. Joana parecia estar a ganhar coragem, não sabia exactamente como começar mas, tinha que ser e começou:
-Cândida, afinal não foi difícil, sabe que na entrevista com, o senhor presidente, as coisas não saíram muito bem! Foi muito simpático, recebeu-me muito bem mas, de repente, entrou em confusão com o nome da minha mãe, dizia que podia ser a dele, com um apelido diferente, depois perdeu o controlo e começou a chorar.
-Foi difícil até acalmar, disse que procura a mãe
há 25 anos e que a minha pode ser a dele.
Fiquei assustada, pensei que tinha endoidecido e que me ia tirar a bolsa.
Depois acalmou, sossegou-me, disse que a tinha ganho por mérito.
Fiquei assustada, pensei que tinha endoidecido e que me ia tirar a bolsa.
Depois acalmou, sossegou-me, disse que a tinha ganho por mérito.
-Tentei, juro que tentei, manter-me calma e acho que consegui.
-Falei-lhe de coincidências e prometi descobrir alguma coisa e depois telefonar.
-Não o quero fazer! Tenho receio de fazer perguntas
lá em casa, tenho a certeza que a minha mãe não teve outra vida diferente da
que tem.
-Que me aconselha a fazer?
-É difícil de perceber, respondeu a doutora, o presidente não é homem dessas coisas, é muito pouco emotivo, ou sabe esconder bem, as emoções.
Eu trabalho com ele há muitos anos, sempre o tenho acompanhado e nunca lhe conheci família e nem o ouvi falar dela.
-É difícil de perceber, respondeu a doutora, o presidente não é homem dessas coisas, é muito pouco emotivo, ou sabe esconder bem, as emoções.
Eu trabalho com ele há muitos anos, sempre o tenho acompanhado e nunca lhe conheci família e nem o ouvi falar dela.
-Sabes, Joana, um dia assim como quem não quer as coisas, dás a entender à tua mãe que tens um novo amigo, muito interessante, que se chama Albino Manuel Vicente Malcata. Pela reacção ficas a saber, há coisas que não se conseguem esconder.
-Obrigada, Cândida, vou fazer isso. Pagamos a meia o almoço, pode ser?
Assim o fizeram.
*******
Foi uma noite interminável, tinha sono mas a cabeça cheia de ideias não lhe deixavam o mínimo de tranquilidade para adormecer mas, finalmente, o cansaço foi mais forte e ajudou a uma noite de sono.
Acordou com a chuva intensa e o vento forte a abanar as persianas. Soube mais tarde que os aguaceiros tinham feito muitos estragos, garagens inundadas e lojas, meias de água, e muitas mercadorias totalmente estragadas. Tem pena, de tantos que vão sobrevivendo, em barracas, sem um mínimo de condições, mas nada pode fazer. Não tem poder para isso.
*******
O pai já tinha saído, a mãe ainda dormia.
O pai já tinha saído, a mãe ainda dormia.
Tentou não fazer barulho, saiu de mansinho e foi
tomar, o pequeno-almoço, ao café do senhor Esteves. Uma torrada com doce de
tomate e meia de leite.
Na faculdade foi apanhada de surpresa, o Maurício e a Lisete estavam à sua espera. Que desagradável surpresa, para começo de dia era um, muito mau, agoiro.
Na faculdade foi apanhada de surpresa, o Maurício e a Lisete estavam à sua espera. Que desagradável surpresa, para começo de dia era um, muito mau, agoiro.
Foi o Maurício que tomou a iniciativa:
-Joana quero que oiças a Lisete para saberes que não aconteceu nada do que pensas, era um encontro inocente e casual.
Joana deu uma gargalhada que lhe compensou o mau acordar:
-Ouve menino, o que tu queres é-me indiferente, é contigo e eu, para não ser mal-educada, estou-me lixando para isso. Tenham bom dia e, de uma vez por todas, desemparem-me a loja.
Maurício ficou espumando de raiva, e entre dentes deixou uma espécie de ameaça:
-Ainda te vais arrepender e ter pena do que perdestes!
******
Chegou a casa um pouco tarde, foi um dia muito intenso, as aulas de anatomia ainda mexiam, muito, com ela, mas com o tempo havia de se habituar.
Os pais já estavam à espera para o jantar.
-Então filha tão tarde! Como foi o teu dia? Perguntou a mãe. Podias-me ter acordado de manhã!
-Estavas a dormir tão calma que, não tive coragem e, o meu dia foi cansativo mas óptimo. Conheci um tipo muito “giraço” que pareceu que, também, engraçou comigo. É uma pessoa importante, director de uma grande Empresa, um tal Albino Manuel Vicente Malcata, até o nome é chique.
-Como? Perguntou a mãe, enquanto ia desfalecendo e caindo, como um boneco de gelatina, deslizando num soalho.
Vou
tentar acabar na próxima. Vou tentar!




