-Zé, Zé!!! Anda cá homem, que eu não me entendo com
estas modernices da internet e, a nossa filha, está num tal Skype a falar e eu
não sei o que fazer.
-Mulher nunca mais aprendes! Só sabes mexer na televisão porque dá as telenovelas, senão nem isso sabias fazer.
-Então agora estás a dar uma de parvo, ou que? Eu não vejo só telenovelas, também gosto muito daquela da Casa dos Segredos, eu não sou assim tão burra como estás a dizer.
-Pois não mulher, não és assim tão burra, és muito
pior. Quem vê aquele ninho de víboras e, de poucas vergonhas, não é parvo é um
IMBECIL chapado. E a tua filha, em vez de estar nesse tal do Skype, se
estivesse aqui, em casa, ao pé dos pais, estava muito melhor.
-Mas homem! A rapariga é nova e precisa de se
divertir!
-Pois é mulher, deve ser um divertimento muito especial. Não quer estudar, trabalhar é bom para os pais que são velhos, anda sempre em festas e, nessa coisa que ela diz, eventos. Nem sei bem o que são esses eventos, nem para o que servem?
-Oh homem, que feitio o teu, os eventos são para se cultivar e conhecer pessoas importantes.
-Sabes que mais? Vai lá, a esse Skype, e pergunta-lhe onde está, para precisar dele. E diz que a quero aqui, em casa, antes da hora do jantar.
A mulher foi, mas voltou de imediato. Parecia estar preocupado, ou mais propriamente receosa.
-Zé, aquilo já estava desligado, a rapariga estava longe e essas chamadas devem ser caras.
-Caras? Qual caras! Aquilo é de graça, todos tem essa coisa no computador para falar à borla.
-Se calhar, disse a mulher, era por estar em Espanha que é longe!
-Mas, perguntou o homem, está em Espanha como? A fazer o que? Como tem dinheiro para essas passeatas?
A mulher começou a enrolar as mãos na saia o que, para ela, era sinal de algum nervosismo.
Ela reconhecia que o homem tinha razão, mas a rapariga era nova, ainda só tinha 28 anos, precisava de se divertir.
Tinha que enfrentar o marido, ia defender a filha até ao fim.
-Fui eu que lhe paguei as viagens e como não trabalho fora, mas trabalho muito em casa, tenho direito a ajudar a minha menina. Ela tem ainda muito tempo para enfrentar os problemas da vida, muito tempo, por isso queria ver os Supertramp em Madrid e foi a Madrid ver. Pronto!
-E mais nada! É assim que se fala, a menina quis e pronto, não importa que o pai trabalhe, do nascer ao por do Sol, não interessa que ande há três meses com uma dor num dente e sem possibilidade de ir ao dentista. Não interessa o importante é que aquela inútil, que nunca sujou as mãos a trabalhar, que desistiu de estudar, diz ela que foi só por que não gosta de se levantar cedo, quando todos sabem que é burra, burra como a mãe que lhe apara todos os golpes. Eu estou farto, faaarrrrtttooo, disto tudo e vou resolver à minha maneira. Vais ver se não resolvo!
-Mas ouve lá homem, o que é que vais resolver? Não há nada que possas fazer e não te metas onde não deves! Ouviste bem?
O homem não queria acreditar no que estava a ouvir a mulher, sempre apagada, de repente espevita, mostra as garras como uma leoa, a defender a filha. Não estava a gostar do aspecto, não fazia parte do programa.
Apeteceu-lhe vestir o casaco sair pela porta fora mas, era dar o flanco, perder o pouco de respeito que ainda lhe tinham.
Cegou, de repente perdeu a cabeça, e fez a maior asneira da sua vida.
Deu uma valente surra na mulher. Depois arrependeu-se, não era desses tipo de homem, arrependeu-se mas era tarde.
Agora sim, vestiu o casaco e foi apanhar uma
bebedeira.
*****
Voltou, eram duas da manhã, em ziguezagues, numa rua que parecia um carrossel.
Estava perdido, encharcado em vinho, pensamento embotado pelo álcool mas preocupado, não tinha chave de casa e não queria acordar ninguém.
Dirigiu-se, cambaleante, para a porta mas dois policias, que pareciam ter aparecido do nada, pegaram-lhe nos braços e perguntaram:
-O senhor é o José Godofredo Machado?
Que giro, os tipos conheciam-no, mas ele não, e se o conheciam era melhor responder:
-Sou sim senhor, um criado às vossas ordens!
O mais alto, o que tinha bigode, segurou com mais força e, numa espécie, de grunhido convidou-o:
-Tem que nos acompanhar à esquadra, está detido para ser presente a juiz.
O carro, os polícias e todos tiveram sorte, pois quando se ia a voltar, o estômago, deu uma volta, as entranhas pareciam ter subido à boca e zás, foi como se abrissem a comporta, o vómito saltou e foi projectar-se, com estrondo, na calçada e na parede. Se não estivesse seguro tinha ido atrás da enxurrada.
Os polícias desistiram do carro, foram a pé, um de
cada lado, arrastando a triste figura de um homem, salpicado de alto abaixo, de
uma mistura com um cheiro misto de vinho e azedo.
Quando chegaram à esquadra, o colega que fazia sentinela, não conseguiu suster o riso, o quadro era digno de uma comédia, e teve que comentar:
-Então encontraram esse, no lixo, e trazem para aqui o pivete?
O do bigode aproveitou para ripostar:
-Pois, como estás a ver! E agora vais dar-lhe um banhinho para ver se melhora.
******
Foi um fim-de-semana na esquadra, deixaram-no tomar banho, não havia outra hipótese, e lá lhe amanharam uma roupa limpa para ouvir o que o juiz tinha para lhe dizer.
****
Teve sorte, sempre foi pessoa de bem, não tinha antecedentes e a mulher desistiu da queixa.
Ouviu uma reprimenda, ficou a saber que numa próxima não teria desculpa mas, por agora podia ir em paz.
****
As coisas estavam diferentes, falavam mas as palavras não tinham emoção, o respeito e a delicadezas foram com a primeira bofetada, o amor esse há muito se tinha perdido nos meandros das rotinas.
Passavam ao lado, um do outro, estavam perto mas tão distantes.
Ele tinha pena, muita pena, mas sabia que o destino não volta, o mal não se apaga e as feridas saram mas deixam a marca, marca que por vezes dói mais que a ferida que a provocou.
Não foi, totalmente, culpado mas sabe que a maior parte lhe cabe, está arrependido e quer dar uma oportunidade à vida, não será igual mas pode ser o suficiente.
Hoje foi mais cordial com a mulher, deu-lhe um bom dia mais emotivo, meteu conversa e quis saber notícias da filha. Com delicadeza perguntou:
-Sabes se aquele concerto, dos Supertramp, ainda vai durar muito?
-Já me tinha esquecido, disse a mulher, a nossa Vanessa arranjou um namorado, em Espanha, um rapaz muito fino e de boas famílias.
Vêm viver, aqui, para nossa casa, estou a pensar em
dar o nosso quarto e, nós, vamos para o quarto que era da nossa menina.
Achas bem, não achas?
-Depende de quem vai dormir no chão, a cama da Vanessa é pequenina! Não reconheces?
-Já pensei em tudo, vou comprar outra cama, uma para mim e outra para ti. Não precisamos de cama de casal, já não somos, isso, há muito tempo.
-É verdade, eu, não aprecio bonecas insufláveis! E onde é que trabalha, esse tal, teu futuro genro?
-Em nada, agora fica aqui com a gente e logo se vê, onde comem três, também, comem quatro. Respondeu a mulher.
-Só mais uma pergunta, se eu repetir a dose, da última vez, o que me acontece?
A mulher pareceu não ficar assustada, olhou-o nos olhos e respondeu:
-Vais preso e nunca mais te podes aproximar de mim. Nunca mais! Ouvistes!
-Que bom! Respondeu Zé, é isso mesmo que eu quero.
-Depende de quem vai dormir no chão, a cama da Vanessa é pequenina! Não reconheces?
-Já pensei em tudo, vou comprar outra cama, uma para mim e outra para ti. Não precisamos de cama de casal, já não somos, isso, há muito tempo.
-É verdade, eu, não aprecio bonecas insufláveis! E onde é que trabalha, esse tal, teu futuro genro?
-Em nada, agora fica aqui com a gente e logo se vê, onde comem três, também, comem quatro. Respondeu a mulher.
-Só mais uma pergunta, se eu repetir a dose, da última vez, o que me acontece?
A mulher pareceu não ficar assustada, olhou-o nos olhos e respondeu:
-Vais preso e nunca mais te podes aproximar de mim. Nunca mais! Ouvistes!
-Que bom! Respondeu Zé, é isso mesmo que eu quero.
Podes começar a gritar e a chamar a polícia!
Porque nunca mais me quero aproximar de ti!






