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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Nasce um Anjo……






E de repente as flores começaram a cair, de todas as cores, imensas  em nuvens de pétalas que cobriam o espaço como o esvoaçar de milhares de borboletas.

Delicadas, pareciam dançar ao som de uma melodia inaudível, como se o espaço existisse apenas para ser pincelado por esta miríade de cores, que doíam na intensidade de tons, fortes ou desmaiados.

Maria do Amparo, era pequenina, tinha só sete anos, e mais pequena se sentiu perante esta avalanche que continuava a pairar em magia e cor.

Apeteceu-lhe cantar, gostava e sabia cantar, mas não se lembrava da letra, tinha que ser especial tanto como o momento.

Olhou as cores, o aroma era tão suave e inebriante, mas a voz não saiu, nem conseguiu mexer os lábios, estava imóvel, apenas a visão da cor continuava.

Queria pensar mas não tinha memórias, apenas via o momento, a doçura, a melodia suave, tão suave que as pétalas pareciam dançar de uma forma que só ela conseguia cismar. Não sabia se estava a ver ou se era apenas uma imaginação onde, apenas, ela pertencia.

Queria olhar, em redor, mas não conseguia, era etérea, não sabia do corpo, era um brilho de estrelas que a levavam num suave levitar.

Deixou as flores, não havia mais pétalas, a melodia não era mais melodia, mas as memórias continuavam, tão ausentes como a própria imaginação.

Houve assim, como que uma dádiva, um momento terreno, uma visão que ia desaparecendo à medida que o túnel de luz se aproximava.

Era um campo, muitas cruzes, imensas flores e pessoas, muitas pessoas, que se afastavam taciturnas duma pequena campa, onde dois homens iam dispondo ramos de flores, muitas flores, de todas as cores.

Não viu mais nada, o túnel brilhante tinha chegado, fechou as pequenas asas brancas e entrou no paraíso.




terça-feira, 21 de abril de 2015

ELA












Era sempre assim, embora, por vezes, a memória, lhe trouxesse recordações que lhe contrariavam a vontade.

Á tarde, quando os sentimentos não viajavam nas asas da imaginação, sentava-se na amurada e contemplava a imensidão do mar como se as ondas o levassem no balançar de sonhos perdidos.

Sentia no corpo o arfar dos momentos que existiram e que se deixavam, de forma lasciva, morrer em suspiros de mãos deslizantes em seios túmidos, em corpos colados no calor húmido do prazer.

Hoje as saudades tolhiam os pensamentos, as recordações eram espirais que não conseguia reter, vinham e desapareciam no emaranhado confuso de um cérebro cansado, nas memórias que o faziam sofrer mas, ao mesmo tempo, lhe deixavam um travo ténue de uma felicidade que foi tão fugaz mas tão doce.

O mar ia e vinha naquela toada sincopada como se quisesse acompanhar a batida do seu coração. Mas era impossível o coração já parecia não bater, perdeu o ritmo no dia em que ela partiu, naquele dia em que, sem saber porque, apenas lhe ficou um enorme cansado, uma angústia que doía dentro do peito.

******

Foi num dia, frio e chuvoso, de Dezembro, o chapéu-de-chuva com uma rajada mais forte deixou o pano voar ficando, apenas, um esqueleto de arame vergado ao sabor do vento. Ele reparou e foi célere na ajuda:

-Abrigue-se aqui, e estendeu o seu chapéu, vamos até aquele café para se recompor.

Ela aceitou, sem uma palavra, só lhe apetecia chorar, sentia-se ridícula, encharcada e com os despojos de algo que foi um chapéu-de-chuva.

Só quando chegou ao café, recobrou e, viu como ele era bonito, mas isso, era apenas um pormenor.
Aceitou um café, por agradecimento e para recuperar da raiva e daquela sensação de impotência perante uma simples rajada de vento.
De repente, os dois, riam às gargalhadas pelo insólito e ela, um pouco, pelos nervos acumulados.

Ele atreveu-se:

-Não pense mal, mas tenho o carro, muito próximo, posso leva-la a casa ou onde desejar.

Ela sorriu, era linda mesmo com os olhos esborratados, com a pintura misturada, com a água da chuva.

Aceitou e, apenas, pediu:

-Dá-me, só, um momento para compor a desgraça da minha cara?


****

Morava num bairro, de vivendas geminadas, muito calmo e florido.

-Fico aqui, disse, agradeço a sua amabilidade.

Abriu a porta, estendeu-lhe a mão e preparava-se para sair, mas ele não se conteve:

-E acaba aqui? Não nos voltamos a ver?
Porque não vamos, um dia destes ao cinema, ao teatro ou simplesmente almoçar! Ou será que não pode?

Sorriu e, agora reparou melhor, era linda, e quando sorria fazia duas covinhas ,nas faces, o que lhe davam um encanto especial.

Respondeu-lhe:

-Poder, posso! Só não sei de devo, afinal nem nos conhecemos!

-Mas, replicou, é essa a oportunidade de nos conhecermos um pouco melhor.

-Está bem, disse, que acha sábado, ao meio dia, no café da desgraça?

-Combinado, lá estarei! Respondeu.

*****

Hoje não chovia mas o dia estava frio.
Ele escolheu o mesmo lugar, não por saudosismo, mas por algo que não sabia explicar.

Ela chegou enrolada num belo casaco vermelho, luvas e sapatos da mesma cor. O cabelo, negro, caia em suaves caracóis nos ombros.

O sorriso, um pouco tímido, vincava aquelas covinhas, que realçavam toda a sensualidade que a envolviam.

Ele, levantou-se e ajeitou uma cadeira, não sem antes desabafar:

-Está linda! Meu Deus, no outro dia mesmo com a chuva, também estava, mas hoje supera!

-Obrigada, respondeu, com este frio nem sabia o que vestir. Venho um pouco a dar nas vistas.

******

Ela, tal como ele, gostavam de comida italiana.
Foram ao restaurante do Alessandro onde, segundo ele, serviam os melhores raviólis e um  Capeleti à Napolitana de comer e chorar por mais.

Depois, passearam à beira mar, conversas que sairam naturalmente. Ele abriu o coração, ela foi mais prudente, foi escutando. Vivia com os pais, não tinha por agora compromissos.
Quase sem darem por isso começaram a caminhar de mãos dadas.

-Curioso, constatou ele, estamos de mãos dadas e ainda não sabemos os nossos nomes!

-É verdade, tens razão, eu sou Lúcia. E tu és Luís, não és?

-Como sabes? Perguntou, admirado.

-Ouvi o empregado do restaurante tratar-te por senhor Luís.

Sentaram-se nesta mesma amurada, nela trocaram o primeiro beijo, furtivo, suave mas intenso.


****

Depois foi o paraíso, todos os momentos eram poucos para estarem juntos. Amaram-se como se o amanhã jamais existisse, promessas eternas. Os dias de trabalho pareciam não ter fim para voltarem para os braços um do outro.

Iam quatro meses passados, a primavera começava a perfumar o ar e as flores, timidamente, iam colorindo os jardins.

Lúcia e Luís continuavam na maior paixão e os planos para o futuro começavam a fazer parte dos seus pensamentos.

Num fim do dia, abraçados no doce torpor dum momento especial, Lúcia, perguntou-lhe:

-Luís se eu saísse da tua vida ias sentir saudades?

-Minha tonta, respondeu, como podes sair da minha vida se tu já és a minha vida. Sem ti a minha deixava de ter sentido. Amor não gosto dessas perguntas, deixam-me com pensamentos negativos e isso não quero. 


*******

Algo não está certo, nem uma única vez Lúcia atendeu o telemóvel, sempre a mesma mensagem "o número que marcou não está disponível, tente mais tarde".

Bom não se vai inquietar, deve ter acabado a carga ou deixou cair o telemóvel.
Logo ao fim do dia vão estar juntos e isso é o mais importante.

Agora já começa a ficar preocupado, Lúcia não atende e, pior ainda, está atrasada mais de uma hora. Não é normal, nunca aconteceu.

Sabe onde mora, ainda se lembra quando a levou a casa, mas ela pode não gostar é, quase, quebrar-lhe a privacidade. Pode ser mas se está doente e precisa dele? Tem que se decidir, vai mesmo.

O bairro estava muito sossegado, apenas as luzes das habitações davam, alguma, claridade pois o candeeiro público não estava a funcionar.
É aquela porta. Tocou e aguardou.

-Quem é, disse uma voz?

-Boa noite, sou o Luís e preciso saber da Lúcia !

A mesma voz insistiu:

-Não percebi quem é e não mora aqui nenhuma Lúcia. E a estas horas não é prudente abrir a porta.

Luís voltou a insistir:

-Caro senhor eu compreendo o seu receio, fui eu que no dia de chuva deixei, aqui, a Lúcia. Pode confiar. Pode chamar um vizinho, ou quem quiser, para não ter receio mas preciso falar com a sua filha.

Do outro lado o homem pareceu contemporizar:

-Vou ai, não devia mas gosto do seu tom de voz.

Abriu-se a porta e um homem, não muito novo, apareceu com ar sorridente.

-Meu senhor deve haver uma confusão, a minha neta contou de um senhor que lhe deu boleia num dia de chuva, mas ela não se chama como disse, ela é Joana.

O homem tirou o telemóvel e mostrou  uma foto:

-É esta a Lúcia!

-Não, não,  respondeu o morador essa é a minha neta Joana.

O homem estava confuso, mas que importava se era Lúcia ou Joana, desde que fosse ela.

Perguntou:

-Posso falar com ela? Devo ter confundido o nome.

-Tenho pena senhor mas não pode, a minha neta embarcou hoje muito cedo para Luanda. Ela vive com o marido em Angola e esteve em Lisboa a fazer um curso pela Empresa, acabou e ela voltou para o trabalho e para o marido.





sábado, 4 de abril de 2015

P.... de Vida









-Zé, Zé!!! Anda cá homem, que eu não me entendo com estas modernices da internet e, a nossa filha, está num tal Skype a falar e eu não sei o que fazer.

-Mulher nunca mais aprendes!  Só sabes mexer na televisão porque dá as telenovelas, senão nem isso sabias fazer.

-Então agora estás a dar uma de parvo, ou que? Eu não vejo só telenovelas, também gosto muito daquela da Casa dos Segredos, eu não sou assim tão burra como estás a dizer.

-Pois não mulher, não és assim tão burra, és muito pior. Quem vê aquele ninho de víboras e, de poucas vergonhas, não é parvo é um IMBECIL chapado. E a tua filha, em vez de estar nesse tal do Skype, se estivesse aqui, em casa, ao pé dos pais, estava muito melhor.

-Mas homem! A rapariga é nova e precisa de se divertir!

-Pois é mulher, deve ser um divertimento muito especial. Não quer estudar, trabalhar é bom para os pais que são velhos, anda sempre em festas e, nessa coisa que ela diz, eventos. Nem sei bem o que são esses eventos, nem para o que servem?

-Oh homem, que feitio o teu, os eventos são para se cultivar e conhecer pessoas importantes.

-Sabes que mais? Vai lá, a esse Skype, e pergunta-lhe onde está, para precisar dele. E diz que a quero aqui, em casa, antes da hora do jantar.

A mulher foi, mas voltou de imediato. Parecia estar preocupado, ou mais propriamente  receosa.

-Zé, aquilo já estava desligado, a rapariga estava longe e essas chamadas devem ser caras.

-Caras? Qual caras! Aquilo é de graça, todos tem essa coisa no computador para falar à borla.

-Se calhar, disse a mulher, era por estar em Espanha que é longe!

-Mas, perguntou o homem, está em Espanha como? A fazer o que? Como tem dinheiro para essas passeatas?

A mulher começou a enrolar as mãos na saia o que, para ela, era sinal de algum nervosismo.

Ela reconhecia que o homem tinha razão, mas a rapariga era nova, ainda só tinha 28 anos, precisava de se divertir.
Tinha que enfrentar o marido, ia defender a filha até ao fim.

-Fui eu que lhe paguei as viagens e como não trabalho fora, mas trabalho muito em casa, tenho direito a ajudar a minha menina. Ela tem ainda muito tempo para enfrentar os problemas da vida, muito tempo, por isso queria ver os
Supertramp em Madrid e foi a Madrid ver. Pronto!

-E mais nada! É assim que se fala, a menina quis e pronto, não importa que o pai trabalhe, do nascer ao por do Sol, não interessa que ande há três meses com uma dor num dente e sem possibilidade de ir ao dentista. Não interessa o importante é que aquela inútil, que nunca sujou as mãos a trabalhar, que desistiu de estudar, diz ela que foi só por que não gosta de se levantar cedo, quando todos sabem que é burra, burra como a mãe que lhe apara todos os golpes. Eu estou farto, faaarrrrtttooo, disto tudo e vou resolver à minha maneira. Vais ver se não resolvo!

-Mas ouve lá homem, o que é que vais resolver? Não há nada que possas fazer e não te metas onde não deves! Ouviste bem?

O homem não queria acreditar no que estava a ouvir a mulher, sempre apagada, de repente espevita, mostra as garras como uma leoa, a defender a filha. Não estava a gostar do aspecto, não fazia parte do programa.

Apeteceu-lhe vestir o casaco sair pela porta fora mas, era dar o flanco, perder o pouco de respeito que ainda lhe tinham.

Cegou, de repente perdeu a cabeça, e fez a maior asneira da sua vida.
Deu uma valente surra na mulher. Depois arrependeu-se, não era desses tipo de homem, arrependeu-se mas era tarde.
Agora  sim, vestiu o casaco e foi apanhar uma bebedeira.

*****

Voltou, eram duas da manhã, em ziguezagues, numa rua que parecia um carrossel.
Estava perdido, encharcado em vinho, pensamento embotado pelo álcool mas preocupado, não tinha chave de casa e não queria acordar ninguém.

Dirigiu-se, cambaleante, para a porta mas dois policias, que pareciam ter aparecido do nada, pegaram-lhe nos braços e perguntaram:

-O senhor é o José Godofredo Machado?

Que giro, os tipos conheciam-no, mas ele não, e se o conheciam era melhor responder:

-Sou sim senhor, um criado às vossas ordens!

O mais alto, o que tinha bigode, segurou com mais força e, numa espécie, de grunhido convidou-o:

-Tem que nos acompanhar à esquadra, está detido para ser presente a juiz.

O carro, os polícias e todos tiveram sorte, pois quando se ia a voltar, o estômago, deu uma volta, as entranhas pareciam ter subido à boca e zás, foi como se abrissem a comporta, o vómito saltou e foi projectar-se, com estrondo, na calçada e na parede. Se não estivesse seguro tinha ido atrás da enxurrada.

Os polícias desistiram do carro, foram a pé, um de cada lado, arrastando a triste figura de um homem, salpicado de alto abaixo, de uma mistura com um cheiro misto de vinho e azedo.

Quando chegaram à esquadra, o colega que fazia sentinela, não conseguiu suster o riso, o quadro era digno de uma comédia, e teve que comentar:

-Então encontraram esse, no lixo, e trazem para aqui o pivete?

O do bigode aproveitou para ripostar:

-Pois, como estás a ver! E agora vais dar-lhe um banhinho para ver se melhora.

******

Foi um fim-de-semana na esquadra, deixaram-no tomar banho, não havia outra hipótese,  e lá lhe amanharam uma roupa limpa para ouvir o que o juiz tinha para lhe dizer.

****

Teve sorte, sempre foi pessoa de bem, não tinha antecedentes e a mulher desistiu da queixa.
Ouviu uma reprimenda, ficou a saber que numa próxima não teria desculpa mas, por agora podia ir em paz.

****

As coisas estavam diferentes, falavam mas as palavras não tinham emoção, o respeito e a delicadezas foram com a primeira bofetada, o amor esse há muito se tinha perdido nos meandros das rotinas.

Passavam ao lado, um do outro, estavam perto mas tão distantes.

Ele tinha pena, muita pena, mas sabia que o destino não volta, o mal não se apaga e as feridas saram mas deixam a marca, marca que por vezes dói mais que a ferida que a provocou.

Não foi, totalmente, culpado mas sabe que a maior parte lhe cabe, está arrependido e quer dar uma oportunidade à vida, não será igual mas pode ser o suficiente.

Hoje foi mais cordial com a mulher, deu-lhe um bom dia mais emotivo, meteu conversa e quis saber notícias da filha. Com delicadeza perguntou:

-Sabes se aquele concerto, dos
Supertramp, ainda vai durar muito?

-Já me tinha esquecido, disse a mulher, a nossa Vanessa arranjou um namorado, em Espanha, um rapaz muito fino e de boas famílias.
Vêm viver, aqui, para nossa casa, estou a pensar em dar o nosso quarto e, nós, vamos para o quarto que era da nossa menina.
Achas bem, não achas?

-Depende de quem vai dormir no chão, a cama da Vanessa é pequenina! Não reconheces?

-Já pensei em tudo, vou comprar outra cama, uma para mim e outra para ti. Não precisamos de cama de casal, já não somos, isso, há muito tempo.

-É verdade, eu, não aprecio bonecas insufláveis! E onde é que trabalha, esse tal, teu futuro genro?

-Em nada, agora fica aqui com a gente e logo se vê, onde comem três, também, comem quatro. Respondeu a mulher.


-Só mais uma pergunta, se eu repetir a dose, da última vez, o que me acontece?

A mulher pareceu não ficar assustada, olhou-o nos olhos e respondeu:

-Vais preso e nunca mais te podes aproximar de mim. Nunca mais! Ouvistes!

-Que bom! Respondeu Zé, é isso mesmo que eu quero.
Podes começar a gritar e a chamar a polícia!

Porque nunca mais me quero aproximar de ti!











quinta-feira, 26 de março de 2015

A máquina











Eu sei que ninguém me conhece, sou assim muito tímido e passo tão despercebido, que por vezes nem eu dou por mim próprio.

Acho que é uma questão hereditária, difícil de explicar, até poderá ser considerada como uma doença rara, mas não é. Aqueles, como eu, parecem muito infelizes, uma espécie de inexistentes. Mas não, porque são o futuro.

Diz a minha mãe, que o meu pai, era tal e qual o mesmo, talvez ainda mais subtil do que eu, viveu com ele e não se lembra de alguma vez o ter visto.
O problema não é nosso, tenho a certeza que o mal está em todos os outros, que não aguentam o nosso magnetismo e ficam possuídos de uma prosopagnosia total, não têm culpa mas não aguentam o nosso poder.
Poder? Disse poder, mas não é bem poder é muito mais do que isso, algo que vem de um futuro controlado por uma máquina, que já está instalada, e ninguém sabe que existe.
Ninguém não é, totalmente, verdade porque nós, os predestinados, sabemos. Temos que saber porque foi a nossa mente, superdotada, que a construiu.

Poucos de nós se lembram como tudo aconteceu, só alguns, os legítimos os originais, porque os outros  já são híbridos, que a máquina clonou, e daqui em diante muitos mais, vão engrossar a nossa legião de colonizadores.

****
As coisas aconteceram porque tinham que acontecer, ou era assim ou seria o fim, o Armagedão, não propriamente como o que  bíblia nos apregoa, não é nenhuma luta entre o bem e o mal. É mais uma necessidade de assegurar a continuação porque o futuro já não é ali, está comprometido, a natureza criou e, os homens, destruíram.

Foi preciso materializar a máquina.

*****

A máquina é apenas um nome pois máquina, propriamente, não existe é algo difícil de explicar, talvez não seja difícil. O impossível será perceber.

Como se pode explicar, se nós próprios, os eleitos, temos dificuldade?

Mas, eu, como um, dos coordenadores, da dinastia da Nova Era, posso adiantar que a máquina é formada por bruuuuu, bem por brumuuu, por, mas estou bloqueado, não estou autorizado,  foram-me embotadas as memórias e mesmo que queira não sei explicar.
Fica assim, um dia, todos vão perceber.

Disse todos e não foi por acaso, é um aviso, pois não tarda vão ser todos prosopagnosiados, não sei se o termo é válido ou se acabei de criar um neologismo. Mas é uma das minhas virtudes, a criação.

As coisas vão começar, uma nova era está reservada a todos, quase todos, pois políticos e governantes estão excluídos, ficam na classe dos impuros, dos inaptos, impossíveis de reciclar, passam a
lixo, aliás, estão habituados, sempre o foram.

Os outros, estejam atentos, porque não tarda a transformação vai começar, e ninguém se vai aperceber.

Começa, por um alheamento, como se a vida fosse fácil e tudo tivesse uma explicação lógica.
Depois é facilidade, tudo existe e tudo parece estar à nossa disposição, basta pensar e acontece.

Vai ser lenta a mudança, mesmo muito lenta, quase imperceptível, não pode haver choques tudo, deve ser, muito natural.
Não vale a pena olhar, para o lado, na procura do que está  a ficar diferente, não vão notar, ainda não tem essa capacidade.

Mas não desesperem, porque um dia, quando se olharem ao espelho e a imagem que se reflectir vos for totalmente desconhecida, ai sim estão salvos, acabaram de entrar na nova dimensão, estão no futuro.

Serei eu, quando chegarem, o vosso anfitrião, vou ser eu a dizer:

-Sejam Bem-Vindos!




quinta-feira, 19 de março de 2015

A inimiga alemã








Já sentia um pouco a idade, eram os ossos, os malditos ossos que o atormentavam, o pior eram os joelhos, uma dor aguda e dificuldade em mover as pernas. Depois, conforme se ia mexendo as coisas compunham-se um bocadinho.


O neto dizia:

Vai aquecendo e melhora!

Se calhar tinha razão.

Já pediu ao filho, Afonso, que lhe mandasse vir uns daqueles comprimidos que anunciam na televisão, mas torto com era, dizia que eram charlatanices para apanhar o dinheiro aos papalvos.

O filho era um sovina, isso é que era, ficava-lhe com o dinheiro da pensão, era pouco mas era a sua pensão.

É verdade que não lhe faltava nada, até podia beber uma pinga, ou um café, no Zé da Esquina, que o filho deu ordem, para o que fosse, ele depois ia pagar.

Mas a mezinha, da televisão, dizia que era uma banha da cobra. Mas não é! O Marcelo toma e diz que está melhor, coxeia na mesma mas diz que já não tem dor, só não percebe uma coisa "se não lhe dói porque será que continua a coxear?". Quando o vir já lhe pergunta.

Há uma coisa que o preocupa, antes lembrava-se de tudo, mas mesmo de tudo, até sabia os dias em que os filhos e os netos faziam anos, nunca se esquecia.
Agora já lhe escapam muitas coisas. É verdade que tem 81 anos e, que depois que a sua Emília morreu, ficou muito abalado, mas ele sabia que as coisas eram mesmo assim, a pobrezinha era muito doente e aquela falta de ar não a ajudou nada, mesmo nada.
Um dia, coitada, sentiu-se mal, ainda a levaram para o hospital mas não havia nada a fazer.

Só não percebe, gostava muito da sua Emília, foram 52 anos de casamento mas não sentiu muito a sua morte. Foi mais o pensar que não tardava lhe podia calhar a vez.

Ontem foi dar uma volta, para desentorpecer as pernas, e não é que às tantas se perdeu.

Não sabe como fez aquilo e já estava a ficar preocupado quando ouviu:

-Então Tóino! Que anda a fazer para estas bandas?

Era a Benedita, não quis dar parte fraca, por isso disfarçou:

-Olha rapariga ando a estender as pernas e, agora já estava confuso, não costumo vir para estes lados.

-Ai Tóino, Tóino, que se passa contigo? Não tardava muito estavas no pinhal e ainda te perdias!

-Quem, eu? Achas que me perdia? Conheço estes caminhos como os dedos da minha mão. Estou só cansado, mais nada!

-Vá, anda comigo! Exclamou Benedita, sempre vamos acompanhados.

Voltou a casa, sentou-se no sofá e adormeceu. Foi o filho que o foi chamar:

-Então pai hoje não tem fome? Dorme e nem se lembra de jantar.

-Não, respondeu, não estou a dormir! Estava só a pensar na minha vida!

-Mas que se passa consigo? Insistiu o filho, a Benedita disse-me que andava perdido ao pé do pinhal do Cerco?

-Quem eu? Respondeu, deves estar a mangar comigo, não vou para esses sítios há muito tempo e não vejo a Benedita desde o funeral da tua mãe. Estás sempre na brincadeira! Vamos lá jantar porque tenho fome.


Manhã, não muito cedo, depois do pequeno-almoço, saiu para ir ao café do Zé da esquina, fazer um joguinho de dominó com quem lá estivesse. Fosse quem fosse, ia para ganhar e alguém ia pagar as minis.

A cabeça estava num reboliço, quando deu por ele estava numa estrada que não conhecia, devia ser nova pois nunca a tinha visto antes.
São coisas desses tipos da câmara, chegam mudam as ruas sem dizer nada e de repente uma pessoa pensa que tem que virar à direita, sempre foi assim, e chega e agora já é a esquerda, quando não é em frente.

Mas a estrada não está ali para nada, nem um carro, nem viva alma, foi desperdício de dinheiro fazer uma estrada onde não havia carros. Estes autarcas!

Ia atravessar aquelas arvores para encontrar, de certeza, uma rua conhecida, no outro lado, e não tardava estava na praça e daí já se orientava.

Ai esta cabeça! Quem havia de dizer que se ia desorientar.

Estava tanto calor e as pernas já reclamavam descanso, que ia sentar-se um bocadinho à sombra daquela árvore grande. Parecia uma oliveira, mas não se lembra de nenhum olival neste sítio. Mas está lá e se está é de alguém. De quem será?


Bem vai descansar um pouco, os torrões fazem roer o rabo mas dá para cochilar um bocadinho.

********

Afonso estava a ficar preocupado, oito horas e o pai que era, sempre, o primeiro quando chegava a hora da janta sem aparecer.

Já foi ao café e dizem que o pai não apareceu por lá hoje, nem neste nem em nenhum dos poisos habituais.

Foi à polícia e aos bombeiros, pediu ajuda aos vizinhos mas hoje pouco puderam fazer a noite estava a cair e era difícil a busca, amanhã bem cedo iam dividir-se e fazer uma batida a todos os cantos e espreitar todos os poços.
Não era que pensassem em algum acto do Ti Tónio, mas podia ter havido alguma distracção, era melhor espreitar.

Ainda mal tinha rompido a madrugada e, o pessoal dividido por grupos e orientados pelos bombeiros, mais experientes, começaram a vasculhar todos os cantos.
O pinhal, como o mais provável, foi esquadrilhado de forma minuciosa, não houve moita nem recanto que ficasse por observar.
O Portela levou dois cães, bons farejadores, para ajudar mas os bichos andavam mais interessados nas rolas que esvoaçavam entre os pinheiros.

A noite não tardava e embora os homens se tenham revezado o desalento começava a invadir a moral de todos.
Os piores pensamentos surgiam e, em surdina, já se ouvia a hipótese de o velhote puder estar morto em algum canto, ao fim do dia arrefece e nem todos aguentam uma noite, sem comer e ao relento.

Às 8 horas era noite, nem com lanternas se conseguia enxergar no meio dos pinheiros e das urzes, era hora de desistir e recomeçar amanhã de manhã.

******

Na casa do Afonso, também do Ti Tónio, o desalento era total, até os netos sempre na brincadeira, estavam num sossego que doía.

Jantaram mas parecia, mais, um velório pois só o barulho dos talheres quebrava o silêncio que enchia a casa.

Afonso recriminava-se, já devia ter notado que o pai não estava o mesmo, aqueles esquecimentos, aquela falta de orientação era indício de algo de não estar muito bem.

Começava a ter receio e só pedia a Deus que o encontrassem. Se possível bem.

Já passava da uma da madrugada quando duas pancadas fortes, na porta, tiraram Afonso dos seus pensamentos.
Ficou muito assustado, pensou o pior mas correu para ver quem batia.

Abriu a porta e, na sua frente, o pai sujo de terra e com ar muito cansado.

-Oh pai que susto pregou a toda a gente! Meu Deus obrigado.
Entra e vai descansar que eu trato de ti.
Mas por onde andastes perdido?

Olhou o filho sem perceber bem toda a aflição.

-A culpa é desses da Camara, que mudam as ruas, vê lá tu que até puseram um olival no caminho do café do Zé da Esquina. Entrei nele e se não fosse a tua mãe não conseguia dar com o caminho.
Foi ela que me encontrou e me trouxe para casa.
Não sei o que seria sem ela!





terça-feira, 15 de julho de 2014

Pergaminhos







Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.

Olhos fundos e encovados têm um brilho de memórias, encerradas, num cérebro gasto pelos anos decorridos.

Na cadeira do lar, olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri, com um sorriso desdentado.

Olha em volta e fita um longínquo horizonte, de lembranças, que o tempo vai apagando. As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.

Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado, distante, que guarda e que vive.

Esquece o momento, baralha as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado, de recordações, que baralha ao sabor das suas fantasias.

Sente-se como, quando a mãe lhe arranjava as tranças, e o pai, pela mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.

Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.

Lembra o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.

Lembra os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.

Tem, no pensamento, as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.

Foi uma princesa, quiçá uma rainha.

Teve brilho nos olhos e na pele, rosada, a maciez do pêssego.

Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.

Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente, dia a dia.

Na boca, desdentada, o sorriso velho, e apagado, vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada. 

Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.


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sexta-feira, 6 de junho de 2014

A longa Espera







Faz hoje um ano, parece que o foi ontem, o tempo passa tão depressa que quando tentamos recuperar os pensamentos já se perderam na memória do tempo.
Mas há coisas que ficam, não se perdem, são absorvidas de tal forma que passam a fazer parte do nosso quotidiano.

Como ia dizendo, faz hoje um ano, e recordo bem, era uma sexta-feira soalheira, um pouco quente e eu estava recostado no banco do jardim, um pouco contemplativo sobre as águas do tempo, que em leves ondulares se iam diluindo em espuma nas paredes do cais.

As gaivotas, um pouco atrevidas, descansavam nas amuradas, indiferentes às correrias da garotada.

Foi quase por acaso mas, reparei nela, talvez pela forma, um pouco excêntrica, como estava vestida. Na cabeça um enorme chapéu, de palha, amarelo, contrastava com duas enormes flores vermelhas.
Vestia uma espécie de túnica, da cor das flores, e nos olhos uns enormes óculos escuros, com umas armações de florinhas douradas.

Era um pouco surreal, parecia uma personagem tirada da Alice no País das Maravilhas, mas fascinou-me a figura e, embora disfarçando atraia-me o olhar. Tentei encobrir, mas ela reparou, e olhando com um sorriso aberto cumprimentou-me:

-Boa tarde cavalheiro! Já me conhece? Deve conhecer pois eu estou aqui todos os dias, só nos dias de chuva me recolho, ali, na paragem do autocarro, tem que ser!

Fiquei  intrigado, isto tem que encerrar, decerto, uma história que a minha curiosidade queria conhecer.

Retribui o sorriso e fiquei sem saber, bem, o que dizer mas arrisquei:

-Não me recordo de já a ter visto, é raro vir para estes lados, pois se viesse, decerto, já tinha reparado numa senhora tão simpática!

-Oh que gentil! Venho sempre, faltei uns dias porque a saúde me deixou, mas estou de volta! Só espero que ele não tenha chegado nos dias em que faltei, mas tenho a certeza que não, ainda se deve recordar da morada.

Tirou os óculos, por um momento, devia ter sido uma mulher muito interessante mas, agora, um emaranhado de rugas e vincos mostravam os estragos que os anos fizeram. Voltou a colocá-los e fitou o horizonte, na procura de algo que apenas ela sabia.

-Mas, arrisquei, quem espera tão devotadamente?

-Desculpe não lhe tinha dito, espero o meu Ernesto! É o meu marido, deve chegar um dia destes e eu tenho que estar aqui, para o levar para casa!

-Desculpe a minha ignorância, repliquei, mas ele quando vier deve avisar, não é?

-Tenho receio que não, ele saiu muito zangado, e com razão, eu era uma parva com os ciúmes, ele é muito bonito e as mulheres não o largam. Nesse dia discutimos e ele saiu de casa, para embarcar, era comissário num barco, e nunca mais voltou.

-Há quantos dias,  perguntei?

-Dias não sei, não os contei, mas fez 12 anos em Maio.

Fiquei um pouco perturbado. Doze anos? É estranho é muito tempo!

-Mas Dona, ia eu dizer.

-Rosete, sou Rosete, completou.

-Mas dona Rosete o que lhe disseram na companhia, a que pertence o barco?

-Foram simpáticos, muito simpáticos mas devem ter pensado que eu era maluquinha. Na marinha não tinham, nem nunca tiveram um comissário com o nome do meu marido.
Eu sei que não quiseram dizer, deve ter ido nalguma missão secreta, uma espécie de espião, é o que é!

-Oiça lá, perguntei, como era mesmo o nome do seu marido? Eu fui da marinha, estou reformado mas lembro nome de muitos colegas.

-Todos o conheciam, era o comissário Ernesto Vieira da Silva Pilrito.

-Pilrito? Conheci um, mas não é e, acho que, nunca foi da marinha!

-Que pena, disse ela, quando o vi a si até pensei que poderia ser o meu Ernesto, os mesmos olhos, o queixo voluntarioso, o nariz aquilino, tantas semelhanças mas, já vi que não é, o Ernesto tem um cabelo preto, bem cheio e o seu é branco e já um pouco calvo.

Que pena!


Mas gostei de o conhecer é simpático como o meu Ernesto.

                ********

Pobre senhora, pensei, à espera do nada, tal como eu que voltei, da guerra, e não sei quem sou.

Amnésia, dizem, eles!

Se calhar até me chamo Ernesto. 
Mas não! 
Não me lembro da senhora!





sábado, 1 de março de 2014

No Outono








Foi numa tarde de Outono, num dia em que a chuva descansou e nos deixou, apenas, a magia das folhas voando ao sabor do vento.


Sou suspeito pois, para mim, o Outono tem uma magia que não consigo encontrar noutras épocas. Gosto daquela luz a esconder-se por entre as folhas secas e a penumbra translúcida do cair do dia.

Talvez, porque sou um romântico.

Mas como ia dizendo, foi numa tarde de Outono que, quase, por acaso olhei pela minha janela, primeiro vi as nuvens pardacentas que corriam, mudando os desenhos surrealistas, que, sempre, me faziam lembrar algo ou alguém por momentos, para de seguida se transformarem em formas diferentes.

Na rua, em frente, mesmo no portal da casa que, em tempos, foi da dona Filomena estava um vulto que me deixou confuso. A penumbra que, entretanto, descera não me permitia ver bem mas, parecia mesmo a pobre dona Filomena, já falecida há alguns anos.

 Eu apenas bebi um trago de whisky, foi tão pouco que era impossível ter embotado os meus olhos, a dona Filomena morreu, julgo que há dois anos, mas não havia dúvidas era ela, o mesmo xaile cinzento, o corpo dobrado pelas dores e pelo peso dos anos. Conseguiu abrir a porta e entrar, fiquei confuso se era o fantasma da senhora porque abriu a porta, sempre me disseram que atravessavam as paredes e uma porta, penso, é mais fácil que uma parede. Estou a divagar, a tentar desviar o pensamento, mas na verdade tenho um arrepio que me atravessa o corpo, um frio na coluna e, julgo, as cuecas muito próximas de estarem borradas.

Não pode ser, deve ser destes óculos, já os devia ter mudado, mas a preguiça e esta mania de poupar acabam por dar mau resultado.

Mas o que é isto? Acenderam- se as luzes do andar da morta, isto e surreal, não são os óculos, deve ser um pouco de senilidade que me faz ver coisas, ou talvez não, porque algo anda naquela casa, vejo as sombras que passam como acontecia quando a morta ainda estava viva.

Vou fechar as persianas e vou espreitar pelos intervalos, apagou as luzes, só ficou a escuridão.

Vou tomar um ou, mesmo, dois comprimidos de Xanax, acho  que vou dormir como um anjo. Será que os Anjos dormem? Não acredito, ou fazem turnos ou, então, á noite ficávamos entregues à bicharada,

Acordei cedo e bem-disposto, tinha esquecido aquela aparição e prometi a mim mesmo que whisky, só ao serão e pouco pois anda a confundir- me e a fazer- me ver coisas.

O dia está como o de ontem, escuro, não chove mas mais
valia, assim só aquela penumbra e um frio que enregela e que nos obriga a um trago para aconchegar o corpo. Mas vou resistir, jurei e juras são para cumplir.

 Vou espreitar a casa da saudosa dona Filomena, assim fico a saber que as visões são o fruto de uns goles durante a tarde. Hoje não bebi nada, por isso vou ficar tranquilo e não penso mais em visões.

Oh meu Deus não pode ser! Neste momento, exacto, o vulto da pobre morta está a entrar na antiga morada. Estou confuso, ela morreu mesmo, fui ao funeral e vi que o caixão foi enterrado na campa. Hoje não bebi, a não ser que o leite agora tenha álcool, mas não, não tem. Tenho que ir ao psiquiatra, estou a ficar apanhado da cabeça, tenho visões e imagino ver o inimaginável.

Antes de me considerar maluco vou bater à porta, pode ser que a defunta tenha alguma irmã gémea, ou algo parecido, que ande a arrumar as coisas para desocuparem a casa.
Não me apetece muito, está frio e tenho que me vestir, mas vou senão a minha cabeça não para de girar.

Estou a caminho, enfiado num grosso sobretudo e com um gorro, de lã, tapando a cabeça.

Estou à porta mas, algo, parece estar a tolher a minha mão.

Quero bater à porta mas, confesso, o medo deixa-me paralisado, e se a mulher me aparece, a abrir, que faço eu?
Desato a fugir gritando histericamente, ou desmaio mesmo ali?
Se calhar é melhor voltar depois. Não já que aqui cheguei vou em frente!

Bati, primeiro, suavemente e escutei. Nada, bati com mais força e, então, ouvi um arrastar de correntes, uns passos como que deslizando em chão encharcado, faziam um "tchloque" estranho, como se pisassem algo viscoso.

Entreabriram a porta e, os meus olhos ficaram esbugalhados perante a imagem. Alta, totalmente nua, longos cabelos e olhos brilhantes, pegou-me pelo braço e arrastou-me por um longo corredor que terminava num espaço infindável, onde a música, parecia dos “Dire Straits”, enormes fontes jorravam chocolate, mesas intermináveis repletas das maiores iguarias. Pares, vestidos como vieram ao mundo, balançavam- se ao som estridente da música que abafava todos os ruídos. Luzes faiscavam, dando um ar feérico ao ambiente que nos absorvia.

Balbuciei:

-E a dona Filomena?

A minha acompanhante, com um sorriso luminoso, convidou:

-Esqueça a essa, era apenas a tua guia!
Vá, aproveita o melhor que souberes.

-Mas, perguntei, estamos no paraíso?

Olhou- me com ar enigmático antes de responder:

-No paraíso? Não! O paraíso é monótono, estamos muito melhor!
Estamos no Inferno!





domingo, 5 de janeiro de 2014

A proposta






Ainda não era meio-dia o relógio, do campanário da Igreja, ainda não o tinha anunciado. Mas pouco devia faltar.

Ramiro limpou algumas bagas de suor que começavam a escorrer na testa, o calor era muito e não ia ficar por aqui, o dia prometia ser muito quente.

Finalmente, as doze badaladas, entoaram pela aldeia quebrando, por um pouco, o silêncio das ruas desertas.
Tinham combinado ao meio dia, não estava atrasado mas esperar não estava nos seus hábitos, era pontual e não aceitava ficar, feito espantalho, parado em qualquer esquina numa espera, que afinal não sabia bem para que.

Foi durante a última sessão da junta que o fulano o abordou com farinhas mansas, já o conhecia mas nunca tinham falado. Ramiro era um reles desempregado a viver de biscates enquanto o tipo fazia parte da família dos Malcatas, gente de teres e haveres, donos de quase tudo, que a nossa vista conseguia abarcar.
Ramiro era um brutamontes, não voltava a cara a nada nem a ninguém, era homem para tirar a camisa para agasalhar um necessitado, como também, capaz de fazer saltar os dentes a qualquer fanfarrão que se atrevesse a pisar o risco ou, a tratar mal algum dos seus amigos. Vivia sozinho na casa que fora dos pais, era modesta mas sobressaia pelo aspecto, muito arranjada e pintada de branco com frisos em cor ocre. Diziam os vizinhos que muitas mulheres não tinham a arrumação, nem o asseio e o bom gosto que o Ramiro mostrava no seu lar.
Nas traseiras, a pequena horta, ajudava na subsistência com as batatas, as cebolas, algumas couves, alfaces e todas as ervas aromáticas que terra ia dando.
Ramiro, em tempos, esteve para casar, era mesmo um caso de amor mas o destino não deixou, um cancro consumiu a moça de um dia para o outro.
Passou a ser um homem diferente, taciturno, fechado num mundo muito próprio. Acudia a quem o chamava para arranjar uma torneira, a antena da televisão, as telhas que deixavam verter a chuva ou, até, uma porta que rangia. Para ele estes pequenos trabalhos não tinham segredo, aprendeu com um tio. Depois isolava-se e só voltava a sair de casa quando algum dever o chamava.

Hoje foi um desses momentos, uma reunião da junta que o presidente, José Desidério, convocou para o povo decidir o que seria mais importante para a aldeia, se arranjar o caminho da fonte ou mandar colocar candeeiros, públicos, no largo da Igreja, afinal só havia dinheiro para uma.

Depois de muitas opiniões, foi resolvido voltar a reunir na próxima semana. Foi ai, que Luís Malcata lhe disse quase de chofre:

-Preciso de um serviço teu e pago muito bem!

Ramiro ficou um pouco baralhado, não aceitava que os eventuais clientes fizessem o preço dos seus trabalhos e esse - pago muito bem - ficou a baralhar-lhe a cabeça. Respirou fundo antes de responder:

-Oiça bem Sr. Malcata, essa do eu pago muito bem não vem nada a propósito, sou eu que faço os meus preços, sou justo e apenas levo o valor que eu acho certo.
Logo, por esse motivo lhe digo que, agora, não tenho vagar para aceitar novos trabalhos.

Luís Malcata não estava preparado para esta resposta, engoliu em seco e voltou à carga:

-Oh homem, não te amofines! Isto um trabalho muito especial e tenho a certeza que nunca te passou pelas mãos nada igual.

-Bom, disse Ramiro, se é assim tão especial como sabe se eu sou capaz do fazer?

-Vamos ao que interessa, insistiu Malcata, tenho um servicinho muito especial, mas mesmo muito especial e tu és a pessoa indica para ele. Pago 25.000 Euros à partida e outros 25.000 quando estiver acabado.

-Mas está a mangar comigo ou que? Acha que eu, Ramiro da Conceição, consigo sozinho construir algum palacete? Sei fazer muitas coisas mas desse tamanho nem pensar!

Malcata soltou uma gargalhada antes de responder:

-Mas quem falou em fazer um palacete! Anda! Vamos sentar naquele banco, à sombra daquela árvore e apontou o caminho.

Estava um pouco melhor, embora um bafo quente mantivesse as camisas coladas ao corpo.
Malcata, num quase sussurrar, começou a explicar:

-Sabes que desde que a minha mãe morreu, há três anos, e atendendo à idade do meu pai deveria ser eu a tomar conta dos negócios. Era justo, mas o velho não deixou e continua a dar ordens e a fazer asneiras. Tenho aceitado, mas agora as coisas estão a complicar. O meu pai embeiçou-se por uma gaja de 25 anos, vê bem, 50 anos mais nova e ela, anda toda dengosa, aproveitando a sorte grande que lhe está a cair à porta.
O velho, agora, só pensa em duas coisas, na caça e na sua Guida, como diz. Não posso aceitar, pois se ela entra naquela casa vai dar-lhe volta à cabeça, sacar o que poder e tomar conta de tudo. O velho é teso e está para durar e eu vou continuar a ser um corpo presente, uma espécie de moço de mandados. Não pode ser, tenho um curso superior, percebo do negócio e ando às ordens de um velho tonto. Não pode ser!

-Mas, perguntou Ramiro, porque me diz isso e o que é tenho com o assunto, problema seu, que o senhor tem que resolver. Olhe, vá para a justiça, os advogados é que percebem dessas leis.

-É ai que tu entras e ganhas uma pipa de massa.

O velho vai todas as tardes à caça e sei que tu também vais. Se ele tiver um acidente fica tudo mais fácil, e tu 50.000 Euros mais rico.
Tenho aqui, nesta pasta, 25.000 em notas que te entrego, já, se aceitares o trabalho!

******

O povo estava em alvoroço, dois guardas sustinham o pessoal que se acotovelava junto ao velho carvalho do jardim. No chão jazia,  Luís Malcata, com uma pasta bem aberta, onde se descortinavam uns maços de notas.

Nunca descobriram quem cometeu o crime, a autópsia concluiu ter sido estrangulado por umas mãos poderosas, e o móbil não foi o roubo, a pasta continha 25.000 Euros, valor que a vítima tinha levantado, na véspera, como comprovava o extracto bancário.





sexta-feira, 22 de março de 2013

In illo tempore






Já vão passados trinta anos mas raro é o dia em que as recordações não me atormentam. Não porque me sinta responsável mas, mais, por não ter tido talento para resolver aquele estranho caso. 

A justiça divina, na altura própria, foi-se encarregando de dar seguimento, ao que os homens não conseguiram. 

Todos os protagonistas já fazem parte do passado, apenas resto eu, possivelmente, fui poupado para poder dar a conhecer tudo o que aconteceu naquele tempo.

*****
Foi numa tarde de inverno, o tempo estava seco, mas o frio era muito, quando fomos chamados aquele, luxuoso, apartamento no bairro da Lapa.

Estávamos habituados a cenários onde a violência deixa marcas, mas este era diferente, a violência era implícita, não se via mas estava tão presente, que se sentia.

A idosa estava num sofá, tinha um feio buraco negro na testa, a roupa rasgada deixava à vista uma mama velha, encardida e pendente. como um trapo molhado. Os olhos, vítreos, deixavam ver, ainda, uma expressão de terror.

A sala, luxuosa, mobilada num estilo clássico, mostrava gavetas desarrumadas e os conteúdos espalhados pelo chão.

Eu e o meu colega, agente Meireles, fomos destacados para este caso, que se afigurava difícil.
Mesmo, muito difícil!

A vítima era uma conhecida figura da sociedade, mulher de muitos amores e desamores, segredos e alguns escândalos à mistura.

Tinha 73 anos e estava a sair de um casamento controverso com um jovem 43 anos mais novo, acusando-o de infidelidade com uma jovem, empregada dum SPA, que costumavam frequentar.

Os peritos da criminologia fizeram uma busca minuciosa na procura de pistas e indícios, fotografaram o que havia para registar, procuraram impressões digitais, muito embora, naquela época a dermatoglifia não tivesse o mesmo alcance de hoje.

A desarrumação era total, mas não deram pela falta de nada, dava a impressão que o assassino procurou algo, que não se sabia se encontrou.

Agora havia um árduo trabalho em interrogar, todos, os que na nossa óptica, pudessem ser suspeitos.

******

Acabei o curso de direito, curso que fiz quase por imposição familiar, o meu pai era advogado e todos me marcaram, tinha também que ser advogado. Nunca me imaginei num gabinete e, quando tive a possibilidade de concorrer à polícia não hesitei, fui em frente e a minha licenciatura foi um factor determinante.

Comecei em trabalho de gabinete, mas não tardou estava, onde queria, no terreno.

Muitos casos se tinham deparado no nosso caminho mas este, tinha todos os ingredientes para se tornar, quase um acontecimento, havia motivos passionais, invejas, herdeiros desesperados pela seu quinhão e, ódios. Muitos ódios!

A Dona Josefa Malapico, assim se chamava a defunta, não era flor que se cheirasse. Habituada a uma vida de ociosidade e ostentação, considerava-se o centro de um mundo onde todos os outros, eram peças secundarias.

Esperámos o resultado da autópsia e para nossa surpresa a morte tinha sido causada por asfixia, alguém lhe tinha colocado uma almofada na cara, depois encenaram a violência, terminando com um tiro, de ódio, à queima-roupa, no cadáver.

A morte deve ter ocorrido entre as três e as seis horas da madrugada.



A lista de suspeitos era enorme e tivemos que estabelecer prioridades, embora na nossa mente o ex-marido da vítima, Samuel, estava na fila da frente.

Havia, naturalmente, Elisa a empregada do SPA, o sobrinho e a sobrinha, a secretária, as duas empregadas da casa e o motorista.

O primeiro a ser interrogado foi o viúvo. Era o maior beneficiado, herdeiro e, único, candidato a receber um milhão, do seguro da vítima.

Estivemos duas horas à volta dele, jurava que desde que a mulher o expulsou não tinha voltado a casa, ela tinha-o proibido, apenas lhe telefonou duas vezes e estava convencido que o ia perdoar e aceitar de volta, aquela coisa com a Elisa foi uma fraqueza, ele gostava da mulher, não dizia que havia amor, era difícil mas tratava-a bem, dava-lhe respeitabilidade, carinho e protecção.
Desde que estava separado, ficava no seu apartamento de solteiro. Não tinha testemunhas, dormia sozinho.
Na noite anterior, dizia, tinha ido a uma pizzeria, depois para casa, viu um filme na televisão, não se recordava do nome, adormeceu no sofá até cerca das 3 horas e só depois foi para cama, teve conhecimento do acontecido quando a empregada, a Susete, telefonou a contar a grande desgraça.

Não acreditámos em muito do que nos relatou e agora teríamos que tentar confirmar, ou contrariar, tudo o que nos disse.

Também podia ser verdade, o que nos contou, e ter um cúmplice a quem tenha encomendado o trabalho. Mas havia um pormenor que contrariava essa hipótese, este crime tinha indícios de ódio e um assassinato por encomenda, em regra, era feito de forma simples.

As duas empregadas tinham saído à hora habitual, oito da noite, e regressado, como todos, os dias às 10 da manhã.

Rosa foi directa à cozinha aprontar o pequeno-almoço da senhora, enquanto Susete foi preparar a mesa, foi aí que se lhe deparou tamanha desgraça.
Chamou a colega, telefonou para a polícia e para o senhor Samuel.
As duas deixaram de ser suspeitas, os seus álibis eram perfeitos, tinham estado nas suas casas com os maridos e filhos.
O motorista nunca foi suspeito, estava há cinco dias no hospital, operado a uma hérnia discal.

Falamos com a secretaria, ia duas vezes por semana reunir, com a dona Josefa, estabeleciam as prioridades, escolhiam e confirmavam os convites para os diversos eventos. 
Nada levava a desconfiar, pensavam reunir nesse dia, às 16 horas, tinha falado com a senhora na véspera por volta das 17 horas a confirmar e não notou, na dona Josefa, qualquer alteração.

Passou a noite em casa o que foi confirmado pelos pais e irmãos. 

Restava interrogar a presumível amante do Samuel e os dois sobrinhos.

A empregada do SPA, jurou que nunca teve qualquer intimidade com o senhor Samuel, apenas as massagens a que tinha direito.
Sabia que ele dizia que sim, mas era mentira, ele bem tentou mas ela nunca lhe deu azo.

Tinha, confessava, ódio a dona Zefa, não tinha pena do que lhe aconteceu, era uma mulher má e possessiva, tinha conseguido que a despedissem do gabinete com o escândalo que arranjou a acusá-la, de andar a desviar os maridos das outras. Mas Deus fez justiça!

Tinha provas e confirmamos, passou a noite em casa com o namorado.

Faltavam os sobrinhos, filhos de uma irmã e de um cunhado, da dona Josefa, falecidos num acidente de viação.
Marcelo era o mais velho, rapaz de muitas tatuagens e piercings. Trabalhava numa loja de informática, não via a tia há mais de um ano e não lhe tinha qualquer amizade, não estava à espera de ajudas ou heranças da megera.

Prometeu à irmã, na hora das morte, ajudar e proteger os sobrinhos mas foi apenas uma promessa que nunca cumpriu, se não fossem os avós paternos teriam sido criados ao Deus dará.
Para ele, não fazia parte da família.

Vivia na outra margem com uma companheira, apanhou a camioneta das 20 horas, os parceiros habituais de viagem podiam confirmar, assim como a namorada e os vizinhos.
E, era verdade, batia tudo certo!

Por fim ouvimos a sobrinha, Eulália, moça muito cativante, sorrido sedutor e de palavra fácil.
Adorava, dizia ela, a tia Zefa porque era uma mulher de muita visibilidade, muitos conhecimentos e que conseguia abrir algumas portas. Tinha-lhe prometido um casting, tinha a certeza que lhe ia conseguir o acesso a uma carreira. Sim, tinha a certeza, que a tia lhe ia conseguir um papel numa novela.
Era verdade que teve uma discussão, com ela, quando soube que ia casar com aquele tipo de 30 anos, um aproveitador da fragilidade de uma mulher de 73 anos.

Mas foi uma coisa de momento e até foi a única pessoa da família que esteve na cerimónia, embora confrangedora, um jovem bonito, cheio de energia a casar com uma mulher onde as plásticas já não conseguiam disfarçar a erosão do tempo.

Mas se a tia era feliz, ela tinha que apoiar, pois queria o que fosse melhor.
Tinha passado, como sempre, a noite em casa.
Tinha que se deitar cedo para manter a frescura do rosto, a beleza tem que se cultivar.

Além disso, perguntou:

-Acha que uma pessoa frágil, como eu, conseguia sufocar alguém na cama e depois carrega-la para um sofá para lhe dar um tiro? Isso é trabalho para um homem e forte.

*****

Fizemos o nosso trabalho, transcrevemos os interrogatórios, as diligencias, as confirmações possíveis e entregamos o nosso trabalho mas, sempre, tive uma sensação de que algo não batia certo.

Bem! Depois, os advogados e os juízes, iriam esmiuçar e tirar conclusões.

****

O processo levou anos a ir a julgamento, entre adiamentos, recursos e todas aquelas habilidades dos causídicos arrastou-se por três longos e penosos invernos.

Samuel, dado a fragilidade das provas, foi condenado apenas a sete anos de prisão.
Cumpriu dois, um dia foi encontrado, na cela, enforcado com um pedaço de tecido enrolado como se fosse uma corda.

Morreu sem nunca admitir culpa, sempre gritou a sua inocência.


***

Vão passados trinta anos, o meu colega Simões já não faz parte deste mundo, um aneurisma levou-o aos 53 anos.

Eu estou reformado há três meses, mas este caso de "a morte da jet-set", como nós o baptizamos, tem-me perseguido todo este tempo.

Sim! Só agora que o tempo passa por mim, sem eu ter onde o gastar, é que se fez luz no meu espirito.

Agora que tudo prescreveu e que o bom Deus já se encarregou, com a justiça divina, numa “overdose” de heroína eu descobri que Eulalia, tinha sido o carrasco da tia Josefa.

Nunca dissemos, em nenhum relatório constava, por isso só quem estivesse implicado podia saber.

Lembram-se da frase "Acha que uma pessoa frágil, como eu, conseguia sufocar alguém na cama e depois, carrega-la para um sofá para lhe dar um tiro?"
Só quem estivesses implicado o podia saber.

Logo, foi ela, só ou com ajuda, mas foi ela a criminosa!