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sábado, 20 de dezembro de 2014

Quase um conto de Natal.......









Esta história, que aqui vos deixo, faz parte das minhas mais gratas recordações. É real, não é apenas uma, estória, fruto da minha imaginação.

                                  **************

Há alguns anos atrás, quando eu ainda sentia a magia do Natal, havia um homem de cerca de 80 anos, alto, elegante e com uns olhos azuis cheios dos mistérios de uma vida longa e dolorosa, que todos os meses, invariavelmente, pelo mesmo dia e, sempre, pelas sete e meia da noite batia à minha porta a pedir esmola.

Rogava, sempre, algo que pudesse levar para ajudar a uma refeição. Não queria dinheiro.

Vestia, com distinção, um fato já muito puído pelo uso, uma camisa branca deformada e uma gravata quase tão velha como o dono.

Era de grande eloquência e senhor de uma sabedoria fruto da experiencia de uma longa vida.

Num dia de Dezembro, à hora de sempre, tocou a campainha e, com a distinção habitual, pediu ajuda para aconchegar o estômago.

Eu, talvez imbuído pelo espirito de Natal que já se sentia no ar, perguntei-lhe se não queria jantar comigo?
Notei o brilho do azul dos olhos cintilar de forma mais intensa.

Timidamente respondeu:

-Gostava muito, vou-me sentar aqui nas escadas e agradeço de todo o coração!

-Vai jantar comigo, na minha casa, na minha mesa, confirmei eu.

                          **********
Comeu com uma delicadeza que, fazia adivinhar, ser alguém de princípios que a vida abandonou no fim da jornada.

Falou pouco, contou, apenas, que tinha feito 81 anos em Novembro, não se lembrava bem do dia. Disse que o filho, que deveria ter agora 45 anos, era advogado mas, que se havia esquecido que tinha um pai velho.

Vivia, por caridade, num quarto que uma, bondosa, senhora lhe 
dispensava.

Só pedia, em cada casa apenas, uma vez por mês.

Assim, dizia ele, não se tornava maçador e sempre o iam ajudando.

Acabada a refeição, recordo como se fosse hoje, olhou-me e, de forma acanhada disse-me:

-Há uma coisa que não bebo há longos anos mas, se hoje, me desse um eu aceitava!

-Diga, balbuciei, se eu tiver!

Olhou-me, quase com timidez, antes de responder:

-Era um cafezinho!

Bebeu-o com satisfação, pediu licença para se levantar, agradeceu e encaminhou-se para o frio da noite.

Não resisti, fui buscar a minha única gabardine e disse-lhe para a vestir.

Espreitei pela janela, vi-o desaparecer na esquina da rua. 

Figura alta e elegante, a que a minha ex-gabardine dava conforto, para vencer o gélido ar dessa noite.

Para mim, esse inverno foi mais frio, era o meu único agasalho e, eu, gostava tanto dele.

Mas valeu a pena e nunca me arrependi.

Foi a última vez que o vi, não mais apareceu.

Provavelmente, o filho, voltou a lembrar-se que tinha um pai.

Velho sim!

Mas era o seu pai!





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Amor para sempre








Já são 10 horas e eu ainda na cama, não é normal, este laxismo está a bulir com o meu pensamento.

Sou, como dizia alguém, o galo da manhã. Gosto de ver o sol a aparecer, timidamente, no cume do monte que se adivinha da minha janela e, digo adivinha, porque quando vou espreitar, para esses lados, o monte não é mais do que uma pequena elevação, porque a minha casa fica no vale e provoca a ilusão de um monte que não o chega a ser.

Mas isto é fugir à questão porque hoje foi diferente, não madruguei e ainda, agora, a vontade de sair da cama não é muita. Antes, quando eu tinha a Luzia, muitas vezes, deixava-me estar para não perturbar-lhe o sono de tão cingida que estava ao meu peito. Hoje estou só, ela abalou, consumida pela doença má.

Lembro o último sorriso na doçura das derradeiras palavras:

-Diogo, meu amor, vou partir mas fui a mulher mais feliz do mundo, só porque te tive para mim.
Vais seguir a tua vida e encontra outra que saiba, como eu soube, ser uma estrela na tua vida.
Sorriu, sorriso pálido, e morreu com os olhos fitando os meus numa, quase promessa, de continuar sempre a olhar por mim.

Foi há 11 meses e eu acordo, sempre, com essa sensação de a ter ao meu lado, enroscada no meu corpo.

Hoje foi diferente, acordei tarde sem qualquer sensação de companhia, só uma sensação de desconforto, que não me é habitual.

****

Há qualquer coisa que me preocupa, a minha lucidez não é a mesma, são dez horas e eu continuo na cama, não me apetece levantar, não me lembro de qualquer compromisso, não tenho nada para fazer só, mesmo, estar aqui deitado à espera nem eu sei bem do quê.

Ontem, foi o mesmo, deixei-me ficar neste torpor, neste preguiçar doce, com o pensamento de não ter nada para fazer e, afinal, tinha o casamento da Raquel e do Henrique. Foi um esquecimento inexplicável, se o Amadeu não tivesse telefonado, à noite, a saber o que se passava nem desculpa teria pedido ao casal.

Vou-me levantar, vou ver o meu monte e imaginar que, às 6 horas e 57 minutos, o sol nasceu, além, naquele sitio. Não vi, mas nasceu!

Levantei-me, não sei bem para que, não tenho nada para fazer! Ou tenho  e não me lembro! Agora ando assim!

Antes levantava-me cedo e ia trabalhar, agora fico em casa não sei porque, eu acho que tenho um emprego, mas não sei qual nem onde.
Um dia vou-me lembrar!

A Minha cozinha está um desalinho, a empregada não tem aparecido.
Ou será que a Guida já não  é nossa empregada?

Não me lembro, quando tiver vontade vou arrumar, deito fora as latas vazias, são de conservas, só tenho comido conservas, quando acabarem tenho que ir comprar mais. Não recordo onde se vendem mas, sou inteligente, vou descobrir.

Não sei se o cão tem comido, mas se calhar a Luzia não se tem esquecido, não o tenho ouvido ladrar.

Eu acho que vou fazer anos um dia destes, tenho que descobrir, é uma vergonha mas não me lembro. Não faz mal é muitas vezes assim, mas a Luzia convida os nossos amigos, faz uma festa e encomenda um bolo, de morango, como eu gosto, com velas a lembrar que é de aniversário, senão as pessoas até se podem confundir.

A casa de banho cheira mal, é dos esgotos, isso passa. O fulano que está no espelho não o conheço, como está aquele tipo, no meu espelho? Despenteado e com uma barba horrorosa. Não me vou preocupar, deve ser alguém conhecido, da Luzia, que veio tratar dos esgotos.

Tenho estranhado a televisão sempre apagada, a Luzia liga-a logo de manhã e fica até irmos para a cama. Se calhar já se fartou das telenovelas, não me admira é sempre a mesma porcaria.

Não percebo bem dessas coisas, mas devemos estar na Primavera, tantos pássaros, lá fora, esse chilreado está-me a incomodar, eu gosto dos pássaros mas podiam andar calados.

Tenho uma dor de cabeça enorme, a Luzia dá-me um café forte com limão e passa, mas ela deve ter ido à escola buscar o nosso filho, ou será filha? Não me lembro mesmo se temos filhos, acho que não!
Deve ter ido a qualquer lado, não costuma ir só, mas como me doía a cabeça quis poupar-me.

Já não tenho nada na dispensa. Será que a Luzia foi as compras? Sozinha? Não é normal!

Vou-me deitar até que ela chegue, não gosto de estar só, sem a Luzia, sem o cão e, até o gato desapareceu.
Acho que tínhamos um gato, mas posso estar a fazer confusão, ando numa fase que baralho tudo. Vou, então, para a cama depois a Luzia acorda-me para o jantar.

Sem ela eu não era nada!


*****


Foi o cheiro que alertou os vizinhos.

As autoridades abriram a porta e encontraram o Diogo, na cama, em adiantado estado de decomposição.

Segundo os médicos estava morto, pelo menos, há dez dias.

Deve ter morrido no dia em que completava 52 anos.




sábado, 30 de novembro de 2013

A Rival








Joana estava deslumbrante, as calças de ganga, muito esticadas nas pernas, e o camiseiro vermelho apertado no peito, punham em evidência os fartos seios. O cabelo loiro, num estudado desalinho, caia em reflexos dourados nos ombros descobertos.

Mirou-se pela terceira vez ao espelho, deu uma pequena volta para ver o efeito e, sem modéstia, achou-se linda e, como dizem os rapazes, sentiu-se "boa como o milho".

Ia ter com o André e queria arrasar, queria deixa-lo guloso, arfante como um cãozinho cansado.

Não era por ser o André, filho do dono das Industrias Portofinos, um dos dez mais ricos do país, isso era importante mas havia, também, uma questão de orgulho. O gajo andou sempre embeiçado naquela lambisgóia da Ana e, logo a Ana que não tinha graça nenhuma nem pejo de se enrolar com qualquer um.

Joana não era assim, não quer dizer que rejeitasse um bom enrolanço, mas tinha que ser, ou parecer, difícil.

Hoje era diferente, o André ia inaugurar o Rodopio, não a convidou formalmente, mas deu-lhe um ingresso e, a entender que se ela aparecesse, seria bem-vinda. Para Joana isso era mais de que uma incitação, era um desejo que deixou, no vago, com medo de alguma nega.

Joana estava impaciente, embora ainda fosse cedo mas, tinha por hábito, não sair antes de a mãe chegar. Não devia tardar, a mãe era advogada na firma Perestrelo & Filipa Advogados Associados, e em regra por volta das oito horas estava em casa. Muitas vezes chegava e, depois de jantar, ficava a trabalhar até as tantas.

Ela adorava a, sabia tudo da vida. Ficou viúva tinha, a Joana, 2 anos e soube ser pai e mãe ao mesmo tempo,

Era uma bela mulher, quando saiam juntas, tantas vezes, as confundiram como irmãs. Mas era falta de atenção, não se podia confundir uma senhora de 40 anos com uma miúda de 19, mas as pessoas gostam de dizer coisas e, como elogio à mãe, era justo.

A mãe chegou, um pouco antes das oito, estava linda, tinha arranjado o cabelo e as unhas.

-Então Joana pronta para a galderice?

-Estou doutora Filipa, estou à tua espera, hoje vou a uma festa!

-Aproveita rapariga, eu também vou sair, tenho um evento. Coisa simples!

*****

Estava uma noite quente, havia muita gente na rua, mas táxi nem um. Foi experimentar na curva, como estava perto dos restaurantes podia ter mais sorte. Nada e o tempo a passar, devia ter pedido uma boleia à mãe, mas não teve coragem, ela chegava cansada e, além do mais, hoje também tinha um compromisso. Já podia ter tirado a carta, mas depois tinha carta e não tinha carro, ficava na mesma e, confessa que não tem muita vontade de o fazer, faz-lhe confusão guiar um carro, é uma trapalhada com os malucos que andam por aí.
Oi...finalmente um táxi:

-É senhor aqui, táxi, táxi.....oi...!

Nem sequer olhou, sacana, deve estar para recolher.

Quase nove e meia, quando chegar já a festa está no fim, e alguma atrevida já sacou o André. As gajas andavam todas atrás dele e, compreende, é um gato e tem dinheiro.

Se tivesse ido de transporte já lá estava, quase dava tempo de ir a pé.

Agora é verdade, um táxi e parou.

Havia pouco transito, graças a Deus!

Dez e um quarto, chegou à porta da nova discoteca, que estava linda!
Néon, de diversas cores, davam um ar feérico de festa.
O segurança era enorme mas, com um sorriso, franqueou-lhe a porta.

A sala era imensa, grandes esferas brilhantes, giravam no tecto espalhando pontos de luz, que iam percorrendo os pares que se movimentavam ao som, daquele barulho a que chamavam música.

Tinha que encontrar o André, não iria ser difícil, afinal era o anfitrião.

Olhou em volta, andou entre os pares que, de copo na mão, pulavam ao som de um ritmo da moda.

Nada do André, possivelmente, só lhe ofereceu o convite por cortesia.
Era isso! O tipo sabe insinuar-se, todas as raparigas o disputam, ele sorri, faz charme e nada de compromissos. Se podia ter muitas porque deixar enfeudar apenas por uma?
Este era o pensamento de Joana, mas o convite pareceu diferente, tinha algo de esperança.

Foi até ao balcão, pareceu-lhe o mais lógico, e perguntou:

-Boa noite! Sabe dizer onde posso encontrar o senhor André Vilaça?
Combinamos aqui, eu sou quase a namorada!

O emprego olhou-a, de uma forma muito profissional, e sem deixar de abanar o misturador, limitou-se a uma resposta muito simples:

-O senhor André, está no gabinete, no primeiro andar, com uma senhora que não é, pelo menos parece, quase namorada!

Joana sentiu um rubor, as pernas fraquejaram um pouco, mas disfarçou o suficiente para agradecer e confundir-se, entre os pares, que freneticamente continuavam num baloiçar ao som do barulho.

Foi ao fundo da sala e olhou para as escadas de acesso ao piso superior, mas calculou que o segurança seria um obstáculo.
Ia experimentar.

Aproximou-se de forma muito subtil e, com a voz mais doce possível pediu:

-Posso subir ao gabinete do André? Sabe! O senhor não me conhece mas eu sou a namorada e queria fazer uma surpresa!

O homem não perdeu a postura e, com a voz mais calma possível, retorquiu:

-Desculpe menina mas não a posso deixar subir, além disso, não seria ele a ter a surpresa! Quando está com a doutora Filipa não gosta que o incomodem!

-Doutora Filipa? Qual? A advogada?

O segurança, apenas, resmungou:

-O que ela é não sei, não me pagam para saber o que as pessoas são!





terça-feira, 30 de abril de 2013

O Pai








Nunca lhe passou pela cabeça uma situação destas, era impossível pensar que agora aos 35 anos lhe queriam mudar a vida.

Viveu, quase sempre, numa espécie de miséria envergonhada, num misto do parece e do faz de conta.

As dificuldades eram imensas, as refeições eram um entremear de açordas e de sopas de feijão, durante o Inverno, e de gaspachos com um pedaço de conduto, durante o Verão.

Poupava em tudo, se é que não ter, se pode considerar poupar.
Banhos só de água fria e apenas um sabonete para desencardir as partes mais necessárias, a pasta de dentes tinha que servir, apenas, para tirar o sabor estranho da espuma do sabonete.

Na rua a aparência era importante, as pessoas avaliam a apresentação, era preciso parecer mesmo que isso fosse à custa de sacrifícios, imensos sacrifícios.

Tinha duas camisas, tão poidas, que mais pareciam uma frágil rede a cobrir o abaulado peito, já não as podia lavar, apenas as mergulhava suavemente na água e, sem esfregar, pendurava cuidadosamente na corda para que fossem escorrendo até secar.

A gravata, estampada, que a falecida madrinha, um ano, lhe ofereceu pelo Natal era uma boa protecção da fragilidade da camisa e, ao mesmo tempo, davam um certo ar de respeitabilidade.

Não que fosse necessário, pois sendo filho do saudoso mestre Malaquias já era o principio de consideração.

O pai foi um homem muito estimado, era o barbeiro e ao mesmo tempo regedor, tinha uma vida equilibrada até que a desgraça lhe caiu à porta e não aguentou. Um dia apareceu morto sentado numa cadeira de verga olhando o infinito. Dizem que foi de desgosto e, os mais afoitos, até, se atrevem a segredar que se deve ter envenenado, mas o doutor Gameiro passou a certidão de óbito com a ideia que foi um ataque cardíaco. Bom! Agora, que já lá está, não interessa conjecturar! A verdade é que o desgosto e a vergonha, de uma forma ou doutra, o levaram à morte tão novo, deixando a mulher e o rapaz numa penúria que faziam dó.

Foi numa invernosa tarde, de segunda-feira, que dois guardas apareceram, na modesta barbearia, e arrastaram para a vergonha o pobre regedor, acusado de algo que não fez e de que nem sequer sabia.

Dizem que foi o presidente da câmara que mandou, os guardas, deter o desgraçado, acusando-o de ter desviado as verbas que tinha mandado para arranjar a abobada da escola dos rapazes, que ameaçava cair a qualquer momento e quando a professora, Dona Laura, lembrou o presidente do perigo para as crianças este, na certeza de ter mandado as verbas há muito tempo, concluiu que o regedor se tinha apropriado daqueles contos de réis e, mandou os guardas deter o pobre e honesto Malaquias.

Quando o homem chegou ao posto, os próprios guardas o trataram com respeito, pois estavam convencidos que o barbeiro não era para o crime de que o acusavam e tinham razão, na desorganização da câmara, descobriram que afinal as verbas tinham ido para pagar umas melhorias na casa do senhor presidente.

Os guardas, caso inédito, pediram desculpa ao mestre Malaquias e mandaram o homem em paz. Ele foi, mas paz nunca mais a encontrou, a tristeza subiu no seu corpo como um arrepio de frio, o sorriso constante perdeu-o para sempre e os olhos pareciam lobrigar, apenas, um ponto distante. Sentou-se naquela cadeira, nunca mais segurou o filho nos joelhos naquelas brincadeiras, que os dois tanto gostavam, até que, numa tarde deu um suspiro tão fundo que todas as mágoas, desgostos e desilusões se fundiram com a luz da sua alma e abalaram para além do infinito. Morreu!

A mulher, dona Bebiana, deixou partir com o suspiro do marido, o gosto de viver e nunca mais disse coisa com coisa. Endoidou! Disseram os vizinhos.

O rapaz, na ingenuidade dos seus 11 anos, não compreendia o que se estava a passar, a dona Marcolina, na catequese dizia que havia um Deus justo e misericordioso, ajudava as crianças, protegia os mais fracos e recompensava os bons. O pai era dos melhores, a mãe era muito fraca e ele uma criança e Deus não fez nada disso, dona Marcolina não percebia dessas coisas ou andava a mentir às crianças.

Foi obrigado a crescer, deixou de ser menino para tratar da mãe que, nos momentos de lucidez, lhe afagava o rosto e, com um brilho bom nos olhos, dizia:

-Se não fosse o meu José que seria feito de mim! Depois sorria, olhava algo que mais ninguém via e ficava naquela letargia onde havia mergulhado.

A casa do povo, dentro das suas poucas possibilidades, deu à dona Bebiana uma pensão de 113 Euros, para amenizar a miséria que, de repente, caiu naquela casa.

Mas 113 Euros mal chegavam para os remédios da pobre viúva e José não tinha forças para trabalhos, mais, pesados por isso apenas ia ganhando umas moedas fazendo uns mandados.

Quando a mãe morreu as coisas que já estavam más ficaram muito piores. Estava no princípio do desespero, era difícil camuflar mais a desgraça que se tinha abatido sobre esta casa e, só a ajuda da vizinha dona Carlota conseguia mitigar um pouco a extrema miséria.

Foi no meio desse desespero que a notícia apareceu, de repente, como uma bomba que apenas se ouve quando já nos caiu em cima.
        *********

Mas voltemos 36 anos no tempo. Bebiana era uma moçoila de encher o olho, trigueira, peito farto e quadris que baloiçavam ao ritmo do andar, Malaquias era um moço mal-amanhado, magro, fartos cabelos negros espetados mas de uma simpatia que contagiava. Bebiana, quando ele a foi procurar, aceitou-o como namorado, era diferente dos outros que a assediavam porque era apetitosa e ele, Malaquias, queria casar.

Passado pouco tempo a alegria encheu a modesta casa, Bebiana estava grávida. Malaquias espalhou a notícia enquanto ia pagando uma rodada de copos aos amigos.

Coincidências? No dia em que completavam um ano de casados, José abrindo os olhos e a plenos pulmões anunciou a chegada.

É lindo disseram todos, só dona Mariquinhas se atreveu num pormenor que saltava à vista mas todas faziam por não notar.
Bebiana tinha cabelos negros como a noite, Malaquias também e o rapaz era ruivo.

-É como a minha tia Carolina, irmã de minha mãe que tal como a minha bisavó também era assim, dizia Bebiana!

Todos acreditaram, quase todos, embora para alguns era muita coincidência que um dos grandes amigos de Bebiana, médico veterinário, dono da herdade dos rouxinóis, casado com a professora Aurora, ter os cabelos da cor de uma cenoura acabada de colher e, muito mais confusão quando o veterinário e a professora foram os padrinhos do José.

Houve alguns falatórios mas o assunto acabou por morrer, embora quando a professora abalou deixando abandonado o marido, acusando-o de ter, ou de ter tido, outras mulheres entre elas a comadre fosse causa para mais falatórios, mas de pouca dura pois o veterinário era homem de muita influência e tantos dependiam do trabalho na herdade dos rouxinóis.
         **********

Mas voltando ao princípio, hoje véspera de José fazer 35 anos, o doutor Toscano, ilustre advogado da herdade e dos proprietários, mandou-o chamar ao seu escritório.

-Assunto urgente! Disse o rapaz que trazia o recado.

José ficou em pânico, chamado ao doutor Toscano, ele que nunca fez mal a uma mosca. Lembrou logo o pai preso, acusado e arrastada como Cristo, com umas algemas, ao posto da guarda.

Apetecia-lhe chorar, pensava que possivelmente o iam prender por ser pobre, mas não tinha culpa pois já nasceu assim. Não sabia o que vestir, a roupa para andar na vila remediava mas, para tão ilustre visita, se calhar estava imprópria.

Mas era a que tinha! Esticou com o ferro o colarinho da camisa e alisou, um pouco, a gravata, escovou o melhor que soube o blusão.
Mirou-se ao velho espelho, já era da avó, não lhe pareceu má a figura, tinha uns olhos bonitos e o cabelo em reflexos ruivos, dispostos em argolinhas e cuidadosamente penteado.
Foi perguntar à vizinha se estava em condições de aparecer no escritório do advogado.

-Tas lindo José! Exclamou dona Carlota com um riso nos olhos.

Foi atendido por uma menina, toda jeitosa, ele já a tinha visto passar na rua, mas hoje parecia ainda mais vistosa.

A medo balbuciou:

-Boa tarde, venho para......bom....

-Eu sei, pode entrar o doutor atende já, disse a moça com um sorriso, que deixou as pernas do José a tremer.

A sala era enorme, cabia lá a sua casa com quintal e tudo. Tinha uma secretaria maior que a mesa de bilhar da sociedade e uns sofás, em pele castanha, que o atemorizavam. Tinha receio de se afundar.

O doutor Toscano era imponente, alto e com uma barriga maior que a da Rosa Periquita que estava prestes a ter o quinto filho. Era grande, estendeu-lhe uma mão enorme, deu um forte passou bem antes de se sentar atrás daquela enorme mesa.

Pegou numa pasta, de capa preta, folheou uns papéis. Pousou a pasta e firmou os dois cotovelos na secretária, abriu um sorriso enorme, parecia estar a ganhar coragem, mas acabou por começar:

-Sabe que eu estou a falar com um dos homens mais ricos desta vila?

José pensou que o homem tinha endoidado, como dizia dona Carlota, pois, bem, olhou para trás e não estava ninguém.

Lá se atreveu a responder:

-Sabe, senhor doutor, que não vim aqui para o senhor mangar comigo? Sou pobre, mas mereço ser respeitado como todos os outros.

-Calma amigo José! Calma! Exclamou o causídico. Não me entendeu bem! Estou a falar de si e para si! Depois de assinar uns documentos que lhe vou dar, vai tomar posse de todos os bens que era do nosso saudoso doutor Pedroso!

-Mas hoje tirou o dia para brincar comigo? Pergunto José.

-Tem razão! Disse o advogado. Vou explicar tudo. O doutor Pedroso era o seu padrinho e também o seu verdadeiro pai. Tenho toda a documentação que ele tratou, ainda, em vida para reconhecer a paternidade e deixar tudo ao filho, bem arrependido de não ter tido coragem de o fazer mais cedo. Só agora o fazia. Que Deus lhe tenha a alma em descanso!

José mordeu a língua para ter a certeza de estar acordado, a vida estava a dar uma volta, o Chico da Nora deu-lhe um emprego de ajudante de marceneiro, a ganhar 400 euros, ia começar no fim do mês e agora isto. Emprego, herdeiro e rico.

Pensou na vida e sentiu umas lágrimas no rosto, o advogado pensou em alegria, mas não, eram de raiva. Numa vida de 35 anos teve 11, apenas 11, de felicidade e 24 de infortúnio e miséria.

Em todos estes anos, teve falta de tudo e, o padrinho, em 35 Páscoas, nem uma simples amêndoa lhe ofereceu e de repente, quando sentiu que o tempo lhe faltava e que tudo o que tinha não o podia levar, aparece um testamento e uma paternidade.

Paternidade! Nem pensar, sempre foi filho do Malaquias Silva e não era agora que deixaria de ser.
Quem sabe até se a bisavó não era ruiva! A mãe jurava que sim, o pai acreditou e ele também acreditava.

O advogado parecia impaciente, José estava a sentir-se importante com essa impaciência.
-Sabe doutor! Exclamou por fim, sempre fui filho de um homem bom e vou continuar a ser. O nosso pai é o que nos cria e dá amor.

Não quero essa tal paternidade que nada me diz!

O advogado estava de olhos arregalados, transpirava e tentava manter a aparência. Por fim, com um sorriso postiço, continuou:

-Mas, meu caro José, a herança foi deixado em exclusividade ao filho, se não for para o filho fica para o estado, tem que assinar o documento da paternidade para poder tomar conta da herança!

José levantou-se, pela primeira vez, parecia seguro e determinado:

-Caro doutor, sempre fui pobre não vou estranhar a falta da herança, pode entrega-la aos porcos porque eu, FUI E VOU CONTINUAR A SER, filho do Malaquias da Silva, um homem bom.

Levantou-se e, sem se despedir, veio respirar o ar puro da rua.




sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Dona Chica








Ia a escape rua acima, lenço na cabeça e curvada pelo peso da idade. 

Passou por mim como cão por vinha vindimada, se eu não lhe tivesse bradado, tenho a certeza que nem me via.

-Credo! Gritei, onde vai com essa pressa toda?

Parou, endireitou o corpo com esforço e só depois respondeu:

-Nem te vi, ia tão encismada nos meus pensamentos, que nem dava por ti.
Vou à pressa chamar a dona Chicha para ir benzer o Justino, marido da Perpétua. O raio do homem está com cobranto, não faz outra coisa que não seja abrir e fechar a boca, está com um bochechar que dá dó!

-Não será quebranto e bocejar? Emendei eu.

-Seja isso, retorquiu, a verdade é que o homem tem que ser benzido contra o olhado! Não sabemos se são invejas ou se foi apanhado pela lua! A gente não sabe dessas modernices, sempre foi cobranto e vai continuar a ser cobranto!
Não posso perder tempo, vou depressa não vá a velha Chica sair!

E lá abalou ladeira acima.

Não tardaram mais que 15 minutos e ai vinham as duas, braço dado, num tagarelar cheio de sussurros.

Aproximei-me, estava curioso e, com vontade de assistir ao tratamento do Justino, fui-me insinuando e tratei de meter conversa com as duas:

-Não se importam que vá com vossemecês? Aproveito para ver como está o amigo Justino!

-À vontade homem, disseram as duas, quase, em uníssono.

***


O homem estava mesmo mal, estendido num canapé, olhos parados, corpo tapado com uma grossa manta de ramagens amarelas.

Dona Chicha, ajeitou duas tigelas, uma com água e outra, mais pequena, com azeite.

Começou uma reza, enquanto com a mão ia fazendo cruzes, sobre a água, ia molhando um dedo no azeite e deixava cair algumas gotas que, quase por milagre, desapareciam no líquido.

Repetiu a operação por três vezes, depois, meteu os dedos no líquido benzido e fez umas cruzes na testa do doente.

Deu o trabalho por terminado e exclamou, com muita convicção:

-O pobre coitado estava na última, isto são grandes invejas, não tarda fica melhor!

Eu, um pouco à parte, estava preocupado com o Justino, estava num estado que metia dó.

Aproximei-me e tentei segurar-lhe a mão que pendia num lado da manta e, não tenho dúvidas, o desgraçado está morto e bem morto. Não acredito que uma benzedura o traga de volta.

Olhei as mulheres, sentadas em estado de velório, e gritei:o
-Chamem as autoridades, o Justino está morto!

Parecia que uma mola tinha disparado, ergueram-se e, quase em coro, rogaram:

-Deus lhe guarde a sua alma!

Dona Chicha ajeitou o lenço na cabeça, persignou-se e foi saindo enquanto, numa ladainha, ia murmurando:

-Estava apanhadinho de todo, cobranto muito
forte! 
Chamaram-me tarde de mais! Se fosse, um bocadinho, mais cedo ainda o tinha salvo!
Deus sabe que tinha!
Oh se tinha!
Já livrei tantos!