Eu não queria, juro que não, é mesmo contrariando a minha vontade que o vou
fazer.
Tinha jurado que nem caneta, lápis, esferográficas ou teclados de computadores
ou tabletes sentiriam o prazer de se sentirem abraçadas pelos meus dedos ou por,
eles, tecladas.
Não me perguntem porque, não vou responder, de verdade, nem eu próprio sei bem.
É talvez um certo desencanto, quem sabe se é cansaço, não físico, mas de
pensamentos.
Eu, por vezes, escrevo umas palavras, o resto vem em catadupa, nem penso, sai
quase por instinto e brota uma estória, um conto ou um emaranhado de palavras
que gosto de botar no Blogue.
Mas, quase sempre, acabo por me arrepender. Devia guardar, deixar num baú de
recordações para um dia, mais tarde, recordar.
O que escrevemos é como se o paríssemos, saem de dentro de nós, são as nossas angústias,
desejos, pensamentos, fazem parte da nossa vida e dos nossos mais íntimos
pensamentos, mas depois ficam, ali, abandonados, inúteis sem deixarem a
mensagem que imaginava.
Por isso tinha jurado, jurado não, prometido que nem uma linha, mais, para o
Blogue.
Ficam esquecidos, poucos vão ler e acabam por morrer na indiferença. Não gosto,
acho que mereciam um pouco mais.
Acho, eu, mas parece que não.
Há muito que tinha prometido, mas não consegui cumprir, não fui forte.
Agora vou ser.
Escrever sim, está no meu sangue, faz parte de mim só deixarei naquele dia, não
sei quando, ninguém sabe mas, esse dia, aparece e tudo acaba.
Até lá, vou continuar a deixar parte dos meus sonhos, da minha imaginação,
escrevinhados e guardados num canto de "Coisas minhas", no meu
computador.
A pouco cumplicidade que, apesar de tudo existia, morreu nesse momento.
Raimundo, o bem comportado, rompeu as regras e estava arrependido, mas agora
nada podia fazer, já estava feito.
Mónica, olhou o irmão num misto de ódio e desprezo, atirou-lhe à cara o que
restava do café, levantou-se, furiosa, praguejando:
-Nunca tive duvidas, és um maricas camuflado, um lambe cús, um fingidor, sonso e
falso como um judas. Tenho nojo de ti e vou fazer da tua vida um inferno!
Vais-te arrepender para sempre!
Bateu com a porta e desapareceu.
***
Foi mudar de roupa, o café que a irmã lhe atirou fez os seus estragos. Não parecia
preocupado, estava habituado ao chorrilho de ameaças constantes, era por tudo e
por nada. Mas ela precisava dele e muito, quando estava falida, o que era
constante, retirava as ameaças e aparecia mansa como um cordeiro.
"Sabes mano que um dia te pago tudo,
com juros, maspreciso de duas notas
de 20 Euros."
E, isso, ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.
Mas agora ia ser duro e inflexível, nem um tostão mais, nem a ponta de um
corno. Se queria ter dinheiro que fosse trabalhar, em vez de andar a roçar o
rabo, com o namorado, pelas esplanadas e a fazer vida de menina rica.
Ela, agora, pensava que era treta, mas não, ele tinha um segredo, um segredo,
que guardava porque precisava de certezas, absolutas, e ainda não as tinha. Mas
ia ter, não tardava, ia ter!
Agora não está feliz, muito pelo contrário, adora a irmã, embora reconheça que
ela não é flor que se cheire, é egoísta, só pensa no próprio bem-estar, mas é a
mana mais velha.
Não foi, sempre assim, o namoro é que a modificou, da irmã carinhosa, e
protectora, tornou-se uma mulher calculista e, um pouco, gananciosa.
A mãe, um dia, perguntou-lhe porque não trazia o namorado cá a casa, para o
apresentar à família. A resposta não convenceu. Disse, que ele, só iria quando
a fosse pedir em casamento. Quem podia acreditar nisso.
Raimundo é uma pessoa pacífica, parece um deixa andar, mas puro engano, está sempre
atento, observa e tenta perceber todas as situações de uma forma subtil, sem
deixar rastos.
Muitas vezes pensa, perdoando a redundância, se
fosse um psicólogo, era um bom psicólogo.
Ele ama a irmã mas não compreende a mudança, desde que anda com esse tal
Daniel, um gajo de mau aspecto, tipo chulo.
Raimundo conheceu-o por acaso. Foi num domingo, que
viu a irmã toda agarrada a um tipo a caminho do metro, tão absorvida que quase
chocava com o ele sem o ver.
Teve que a acordar:
-Então Mónica não falas ao mano?
Notou que ela ficou um pouco constrangida, mas emendou a tempo:
-Tu aqui? Não estava à espera, vou ao cinema com o meu namorado! Olha
apresento-te o Daniel, o meu querido!
O tal, Daniel, olhou-o de alto-a-baixo antes de lhe estender a mão, balbuciou
um muito prazer, pegou no braço da Mónica e seguiram no caminho das escadas do
metro.
Raimundo ficou muito desiludido, não esperava grande coisa mas era muito pior.
Untuoso, ar encardido, aspecto de cão vadio.
Não gostou, nada mesmo, não era homem para a irmã, mas nada podia fazer, ela
era grande para saber o que queria, só era pena não escolher o que devia.
Nessa noite, a Mónica, estava mais atenciosa do que era normal, quase
simpática. Estava ansiosa pela chegada do irmão, mal ele abriu a porta:
-Então Raimundo, que me dizes do meu Daniel?
-Não tenho nada para dizer, é a tua escolha, tu é que sabes! A propósito o que
é que ele faz? Qual é o trabalho dele?
Mónica rasgou um sorriso, de orelha a orelha, mas respondeu:
-O meu Daniel não faz nada, a não ser gerir as fábricas do pai que é muito
rico. Ele é o único herdeiro e, um dia, será tudo dele. A agora só tem que
tomar conta e dar ordens para os outros cumprirem. É um senhor!
-E, tu, mana já conheces os teus futuros sogros?
-Em breves todos nos vão conhecer, o meu Daniel vai preparar uma festa para me
pedir em casamento e, todos se ficam a conhecer.
Não tarda
vamos ser uma família!
******
As coisas não estavam famosas mas havia uma aparente calma que, de repente,
desapareceu com aquela mensagem que não devia ter espreitado. Jura, que não foi
com intenção de bisbilhotar foi, mais, para acabar com o barulho irritante do
aviso do telemóvel. Fez mal, reconhece, mas também foi muita falta de prudência
mandar uma mensagem dessa forma, sujeito a acontecer o que acabou por suceder.
Podia ter telefonado, seria mais seguro.
Agora não tinha outro remédio, tinha que ir adiante, tinha que arriscar, sem
ter certezas absolutas, mas estava certo de poder avançar com o que tinha, até
agora, descoberto.
Foram muitas horas de espera, espreitar pelas
esquinas, seguir, com todos os riscos, o alvo da sua investigação.
Ainda havia pontos que precisava de acertar, melhor,
mas não tinha tempo e, sabia que, um descuido lhe podia sair caro. Muito caro
mesmo.
Hoje mesmo, ia armar-se em Hercule Poirot, vai avançar e libertar a irmã duma
situação e livrar-se ele, ele próprio, duma enrascada onde se meteu sem saber
como sair.
Seja o que Deus quiser!
Mal a irmã chegou, nem a deixou pensar:
-Preciso falar, contigo, com muita urgência, é muito importante! Vem ao meu
quarto sem os pais perceberem! É muito importante para ti!
Mónica encarou-o de fronha franzida, antes de responder:
-Se é para pedires desculpa prepara-te, porque comigo tudo tem um preço.
-Anda, não sejas parva, confia no mano.
Fechou a porta antes de começar:
-Tu não és a melhor irmã do mundo, mas és a minha e eu gosto muito de ti.
Gosto tanto, que me sujeitei a alguns perigos para descobrir a verdade, pois as
desculpas do teu namorado não são normais, não convencem, pelo menos a mim. Tu
andas cega e acreditas em tudo o que te diz.
Achas normal não saberes nada da vida dele? Acreditas nessa de te pedir, em
casamento, num festa com toda a família? Acreditas?
Estás mesmo cega!
Eu não acreditei e, não gostei nada da pinta do gajo, fui à procura e descobri
tudo.
É esse o segredo que me tem andado a engasgar, o segredo que tu querias mas que
eu queria que não fosse verdade.
-Deixa-te de merdas, disse Mónica, o Daniel é o melhor que há no mundo e não
penses que me vais fazer mudar de ideias, ele é o homem da minha vida é o que
eu escolhi para casar, não percas tempo com tretas.
-Ouve rapariga, gritou Raimundo, ouve o resto. Ouve com atenção! O teu Daniel é
um fantasma, não existe, tu andas com um Viriato, um fulano que nunca trabalhou
a vida e que mora, na Quinta do Mocho com a mulher e dois filhos menores.
É este o meu segredo, agora já o podes usar, tenta fazer o dinheiro que
querias.
Não lhe
apetecia falar, não o podiam obrigar, por isso, ia ficar mudo como uma mosca
morta.
Ele estava atento e percebia a forma indirecta como o abordavam, sub-reptícia e
camuflando as intenções. Mas estava preparado para tudo e nem com ameaças ou
promessas ia abrir a boca.
A verdade é que não sabia nada mas, os outros, pensavam que sim e ele
alimentava essa convicção, sentia-se importante e gostava.
Fazia um ar circunspecto, misterioso e, por dentro, ria com o gozo da situação.
A mãe era a mais descarada, não fingia, era directa e insistia:
-Mas Raimundo porque não conta tudo à mãe?
Podes confiar em mim que eu não digo nada a ninguém! Em que problema estás
metido, filho? Já sabes que a mãe te ajuda!
Sorria. Um esgar, um pouco sacana, mas era o suficiente.
-Mas o queres que conte? Sabes, bem, que não posso, fiz uma promessa! Concluiu
Raimundo, com uma gargalhada.
Ao jantar ele percebia os olhares da irmã, até parecia ouvir-lhe os
pensamentos, pareciam moedas tilintando num bolso imaginário. A irmã, Mónica,
só pensava no dinheiro que lhe podia render, se soubesse, o que julgava que ele
sabia.
Não se importava nada de esmifrar, fosse quem fosse, para estar calada e não
badalar se isso desse algum lucro.
O parvo
do irmão devia saber tudo, sabia quase de certeza, senão a agitação que
percebia, nos outros, não fazia sentido. Não sabia o que era, o que podia ter
acontecido mas, tinha a certeza, que era um grande furo que podia dar umas boas
notinhas.
O irmão era um parvo, dos grandes, se fosse esperto partilhava com a mana e ela
se encarregava de sacar umas massas e, ele, podia continuar a fazer o papel de
santinho, bem comportado. Mas o tipo não confiava e não sonhava alto.
Ela já tinha o filme todo, feito na cabeça, ou a mãe tinha posto um par de
chavelhos no pai, ou o contrário, o pai andou em algum enrolanço e o gajo
topou.
Havia de descobrir, não sabia como mas ia conseguir saber tudo.
Agora havia uma coisa que lhe bailava na cabeça, se o pai e a mãe pareciam
receosos era porque não estavam tranquilos, alguma tinham feito.
A mãe não acreditava muito, ela tinha olhos de quem gostava mas, dai a fazer
uma escapadinha não lhe parecia. Já o pai era capaz de tudo e um pouco mais,
ela topava os olhos dele e a forma como se babava quando a vizinha, do andar de
baixo, estava à janela com as mamas a quererem saltar pelo decote.
******
Raimundo estava metido num sarilho, começou com uma brincadeira, parva,
mas uma brincadeira.
Um dia chegou a casa com cara de caso, ar enigmático e um bocado misterioso.
A mãe, sempre atenta aos filhos, perguntou:
-Raimundo que se passa? Parece que vistes alguma aparição!
Fingiu um ar compungido, coçou a cabeça, junto à testa, e deixou sair com um
suspiro:
-Ai mãe se eu pudesse falar! Mas não posso porque muitas desgraças podiam acontecer.
A mãe ficou arrepiada, mas pensou que fosse mais uma aparvoada do rapaz e não
ligou.
Raimundo arrependeu-se mas estava dito e, agora, nada havia a fazer.
A irmã, ele bem a ouvia, entrava no quarto às escuras e ia vasculhar-lhe a
roupa, mirava todos os papéis na esperança de encontrar uma pista. Ele fingia
dormir enquanto abafava um riso de gozo. Era lixada, não vendia o pai e a mãe,
porque sabia, que ninguém os comprava.
O pai está na fase de só gostar de ver e a mãe no deixa andar, já não têm
mercado.
Raimundo está, como que entalado, meteu-se em trampa, até ao queixo, e agora
esta com medo das ondas, para não se engasgar com a agitação da maré.
Mas já que que começou vai aguentar, o máximo, até dar, depois alguma coisa
deve acontecer, logo se vê.
*****
E aconteceu, coisas do acaso ou desígnios de Deus, mas a verdade é que o pseudo
segredo, do Raimundo, acabou por acontecer.
********
Foi por acaso, ouviu o som de mensagem no telemóvel da irmã, não devia, mas foi
espreitar e antes não o tivesse feito, pois ficou a saber o que não queria.
Mas agora tinha um segredo, não estava feliz, mas tinha acontecido e o segredo
existia.
******
Foi no Domingo, os pais foram à missa, iam sempre à das nove horas. Não era,
propriamente, por devoção mas parecia bem e era uma forma de socializar
com as pessoas chiques.
A irmã, como sempre, foi a ultima a sair do quarto, desgrenhada e com os olhos
inchados de dormir.
-Até que enfim que te levantas, disse Raimundo, estava a ver que fazias uma
directa!
Ela, esfregou os olhos, antes de responder:
-Sabes menino quais são as duas melhores coisa do mundo? Não deves saber mas
são as duas feitas na cama, uma não te posso dizer, a outra posso: É dormir!
Foi direita à casa de banho, demorou meia hora mas valeu a pena. Saiu outra,
cabelo composto, olhos arranjados e cara pintada. Aspecto de gente.
Sentou-se, à mesa, e começou a barrar uma torrada. Mesmo de boca cheia tentou a
sorte:
-Sabes, mano, que eu ando a precisar de uns dinheirinhos e tu podias, também,
receber algum. Que dizes?
-Nem tenho assim nada de especial, mas dinheiro faz sempre jeito! Respondeu o
irmão.
-Então conta, à mana, o segredo que sabes do pai ou da mãe e eu, sacana como
sou, faço uma pequenina chantagem e saco algum que pudemos dividir. Que dizes?
-Sabes, Mónica, que por acaso, sei um segredo e grande. Mas tenho a certeza que
não consegues com ele sacar dinheiro a ninguém.
-Parece que não me conheces, mas podes ter a certeza que consigo. Conta lá!
-Queres que conte, então aqui vai:
O
Daniel, o teu namorado, diz que já tratou com uma parteira de tudo, podes ir
quando quiseres tratar do teu problema.
Olho em redor e não encontro nada a não ser uma angústia que sorrateiramente se apodera de mim e me consome ardilosamente.
Não sei explicar, mas as palavras morrem cá dentro, agrilhoadas num desconforto que dói, ficam presas e desaparecem num silêncio que magoa.
Quero reagir mas o cansaço anicha-me nos seus braços e vai minando uma vontade que deixou de existir.
As ideias agitam-se na minha cabeça, a inspiração continua a fervilhar esperando que as mãos botem em frases coloridas este emaranhado de coisas que quero dizer, que quero libertar.
Mas o cansaço é maior que a vontade, esta fadiga que se apodera do desejo apenas me levam a adiar o que quero contar hoje.
Penso que depois vai ser mais fácil, mas a seguir é como hoje e o cansaço adormece o desejo. Só me resta adiar.
Era uma casa à beira mar, bonita mas a precisar de umas boas obras. O tempo, a intempérie e a salinidade tinham-se encarregue de todas as mazelas que apresentava.
Apesar de tudo continuava a ser uma bela casa, amplas janelas rasgadas para um oceano alteroso, onde as vagas num contínuo vaivém deixavam no ar os sons poderosos da natureza.
A casa fascinava-me, não sei explicar muito bem porque, mas havia um encantamento que se colava à minha pele.
Dizem os mais antigos, não sei se è verdade, mas os mais velhos embora enredados pelos sonhos que lhes povoam a cabeça encontram sempre laivos de veracidade nas suas recordações. Mas, como ia dizendo, contam os mais antigos que foi ali que morreu de forma estranha Maria do Amparo.
Era, contam eles, a rapariga mais bonita e alegre que conheciam, cabelos de oiro emolduravam um rosto angelical, onde dois olhos da cor do céu pareciam enfeitiçar quem se atrevia a fita-los.
Era, diziam, linda como os anjos, doce como o mel e radiosa como a estrela polar. Não havia homem na aldeia que não sonhasse, todos os dias, com a candura daquele sorriso que os levava enlevados.
José da Bernarda, diziam, era o único que parecia prender o interesse da Maria do Amparo mas, por desgraça parecia ser o único que não se mostrava interessado na rapariga.
Os olhos dela, lagos de água cristalinos, capazes de afogar o mais afoito bem se derramavam sobre o homem que o seu coração assinalara como o eleito, mas ele parecia arredado e indiferente aquela paixão que se deixava adivinhar.
Um dia, contam os antigos, a rapariga em rodeios de mariposa pôs a delicada mão no ombro do José e com um sorriso capaz de encadear o Sol e convidou-o para um café. José com um sorriso delicado, retirou a mão que havia aterrado e pediu desculpa por não aceitar, mas corajosamente explicou que as mulheres não lhe despertavam interesse.
Dizem, os mais antigos, que Maria do Amparo nunca mais saiu de casa e definhou como uma flor arrancada da terra.
Deixou de aparecer e quando foram por ela encontraram o cadáver sentado em frente à janela onde uns olhos já apagados pareciam querer abarcar o mar que ondeava indiferente.
Passaram muitos anos e a casa continua vazia, as paredes sentem as mazelas do abandono e, como dizem todos, a alma de Maria do Amparo continua a encher nas noites escuras a casa à beira mar.
O cão não tinha culpa mas levou um pontapé e ganiu de dor.
Foi-se anichar debaixo de uma mesa com um olhar tão triste que metia dó.
Era sempre assim, irascível com os mais fracos e na sua covarde frustração batia nos que não se podiam defender.
Hoje foi humilhado, enxovalhado na presença de todos. Corou, resmungou entre dentes, boca cheia de impropérios que ninguém percebeu. Meteu o rabo entre as pernas e saiu espumando a raiva em frases surdas.
Foi jurando vingança que começou no pobre animal que sem saber porque, sentiu no lombo o bico da bota. Se não fosse o dono as coisas seriam diferentes, pois não era bicho para se ficar.
A segunda vítima foi uma cadeira que voou contra a parede e se quedou estática de pernas para o ar.
Depois largou tudo e, no refúgio do lar, chorou todo o seu desapontamento em soluços, convulsivos, fundos de ódio e de vinganças anunciadas.
Quando acalmou fez uma festa no pobre bicho que se tinha enroscado aos seus pés, com um olhar tão triste que metia dó.
-Desculpa tu não tens culpa, mas enquanto não descobrir e matar o sacana do padre que me desgraçou perco as estribeiras e não dou conta de mim.
O Lorde parece que percebeu, abanou a cauda e lambeu a bota que, há pouco, tão mal o tratara.
-Ouve cão, eu vou descobrir esse malvado, vou-lhe furar os olhos, arrancar-lhe a língua e cortar-lhe algo que os padres não deviam usar.
O animal ficou assustado, toda essa raiva estava a meter-lhe medo e ele não sabia que parte lhe podia estar reservada. Mas o dono, desta vez, percebeu o receio e tranquilizou:
-Não te assustes, quando matar o filho da puta que me violou, há quinze anos na catequese, o meu pesadelo termina e vou ser o melhor dono do mundo.
O cão latiu, abanou o rabo e voltou a enroscar-se aos pés do dono.
As imagens são longínquas e encontram-se muito esbatidas no álbum da memória.
Fogachos iluminam, a curto espaço, a dormência de um cérebro confuso num emaranhado de emoções que morrem logo que tentam nascer.
Por vezes, parece querer sorrir e a boca desdentada faz um ligeiro esgar numa procura de articulação, que teima em não responder ao fraco estímulo de um cérebro já meio parado.
O olhar, difuso, vagueia como chama a bruxulear num sopro, numa aparente tentativa de encontrar algo que já não sabe bem o que é.
Os olhos piscos, deixam antever fogachos de uns recônditos flashes de memória que logo se esbatem em ténuas imagens pardacentas.
Esteve, até ontem, num pardieiro a que chamavam lar. Depósito de velhos que estiolam no recôndito de lembranças, olhos parados no tempo. Abandonados em recordações que os povoam e na tristeza em não descobrir o motivo. Largados, quase esquecidos. A filha, doutora, é a recompensa duma vida de lutas e sacrifícios.
O coração cansou e deu o primeiro alerta.
Hoje na cama o hospital espera, não sabe bem o que, mas espera.
Sabe que o fim não tarda já soam, ao longe, as trombetas que ribombam, já vislumbra o anjo negro que se aproxima.
Ainda olhou num olhar desbotado mas a filha não apareceu.
Há coisas que já não sei descrever. Não porque me falte o engenho, mas a memória perde-se nos meandros de outras histórias, que se deixam entrelaçar e acabam confundidas no emaranhado de recordações que habitam nas conexões sinápticas do meu cansado cérebro.
Tenho a ideia, um pouco baralhada, dos rostos que povoam o meu pensamento mas os nomes, esses, já os vou misturando.
As cenas andam presentes nos episódios que guardo na ânsia de um dia os expor nestas linhas, alinhadas num ordenado carreiro de lembranças, são momentos que me marcaram e que se me colaram à pele, como tatuagens que nem o tempo consegue apagar.
Os sítios são, sempre, aqueles onde os meus pés calcorrearam a desinquietude própria de quem tem pressa de crescer para encontrar o espaço a que julgava ter direito.
Quando me lembro há sempre umas lágrimas a adornar um sulco na saudade. Não da magia dos tempos maus e difíceis, mas da nostalgia duns pés que caminhavam sem cansaço e de um corpo escorreito e incólume ao frio e ao calor. É uma melancolia da vida.
Depois, deixo-me embrenhar nestas cogitações e acabo por olvidar o que tinha para contar.
Confesso que me esqueci e garanto que era importante.
Notícia da primeira página do Jornal “A Gazeta do Dia”:
A Doutora Maria Odete Ramalho, a nossa estimada médica, foi encontrada hoje de manhã, morta na sua residência. Segundo o que nos foi dado a conhecer suspeita-se que tenha posto termo à própria vida. Os familiares e amigos estão consternados e não vem que motivos a poderão ter levado a este trágico acto. Só a autópsia poderá esclarecer convenientemente o que se terá passado. À família enlutada apresentamos as nossas sentidas condolências.
Dia 1 de Outubro de 1970
Notícia da terceira página do Jornal “A Gazeta do Dia”
Um comunicado publicado pela Policia Judiciária revela que, pelas análises e pesquisas feitas, se chegou à conclusão que a causa da morte da Doutora Maria Odete Ramalho foi o suicídio, pela ingestão de um potente veneno que se suspeita ser Estricina. Estricina é um poderoso veneno para o qual não se conhecem antídotos. Posta de parte a hipótese de crime a P.J. vai continuar na averiguação dos motivos, que podem ter dado origem a este nefasto acontecimento.
Dia 14 de Setembro de 2000
Página 246 do Diário da Doutora Sofia Pinto Lacerda
Meu querido diário, vão passados 30 anos de insónias, pesadelos e angústias. Pensava que com o desaparecimento da Maria Odete o descanso voltaria à minha vida, mas puro engano. Durante o dia, com a azáfama da clínica e o carinho dos meus pacientes, suporto mais facilmente mas as noites são grandes e dolorosas. São os hipnóticos a única solução que encontro para o descanso que me permita levar a minha vida de trabalho. O facto de ser médica tem ajudado mas as habituações são constantes e a minha saúde sinto-a minada e cada vez mais frágil. Naquela maldito dia 14, há trinta anos, pensei que tinha encontrado a solução e que fazendo desaparecer a causadora da minha infelicidade a vida podia voltar-me a sorrir. Mas não, o Ricardo não voltou. O Ricardo foi, continua a ser, o grande amor da minha vida. Tínhamos projectado o nosso futuro na base desse amor que fomos alicerçando desde o tempo da Faculdade onde os três cursamos. Éramos dois mas sentíamos a vida como se apenas fossemos um. Um dia, ela, roubou-me o amor da minha vida, levou-me a razão do meu viver. Um dia, ela, arrancou-me a outra parte do meu eu, fiquei truncada da maior porção de mim. Perdi a amiga e perdi o homem que me preenchia. Ganhei dentro de mim o ódio, o rancor e o desejo de vingança. O entusiasmo deles durou apenas dois anos, pois o Ricardo não aguentou mais, deixou tudo e fugiu para África. Fugiu dela, pensei, quem sabe se um dia não poderá voltar para mim? Naquele dia 14 fui fazer-lhe uma visita. Nem sequer ficou surpreendida, recebeu-me como se a minha ida fosse, ainda, habitual. Falamos de nada na confrangedora situação da ambiguidade. Falou do Ricardo, como se houvesse alguma coisa a falar -Sabes, O Ricardo fez-me a mim o mesmo que te fez a ti. Usou, abusou e quando estava farto desapareceu. Apeteceu-me perder a calma, mas não. Ela roubou-mo e sabe que fugiu porque não aguentou as leviandades e as frivolidades a que o sujeitava. Perguntou, quase cerimoniosamente: -Queres um chá? Não queria outra coisa, não pelo chá, mas pela ocasião. Colocou duas chávenas na mesa e foi buscar os biscoitos. Era a hora para verter o produto na xícara. Estava nervosa. Bebeu enquanto ia mordiscando o biscoito. Depois foram os espasmos, as convulsões a asfixia. Olhou-me como que a pedir ajuda. Sorri. Lavei e arrumei a minha chávena. Fui embora, Nunca lá tinha estado. Agora, meu diário, estou a dar-te a conhecer, pela primeira vez, ao fim de trinta anos. Não estou arrependida, mas estou infeliz porque não valeu a pena e o preço que tenho pago é demasiado alto.
Dia 13 de Dezembro de 1970
Notícia da primeira página do Jornal “A Gazeta do Dia”
Vítima de doença prolongada morreu, esta madrugada, no Hospital Central a Doutora Sofia Pinto Lacerda. Tinha acabado de completar 56 anos esta eminente cirurgiã a quem, a nossa sociedade, muito fica a dever. O funeral realiza-se amanhã, pelas 12 horas, para o Cemitério local. À família enlutada apresentamos as nossas sentidas condolências.
Esta história parece mais uma estória mas não, aconteceu mesmo numa pequena aldeia alentejana.
Foi há muitos anos mas as coisas continuam presentes como se tivesse sido ontem.
O tempo passa e muitas recordações vão-se esvaindo no percurso de um esquecimento que a pouco e pouco nos vai tomando, mas outras ficam enraizadas e passam a fazer parte de nós, como um sinal que nos marca e não nos deixa nunca mais.
Quando tento que as recordações que me perseguem, se esfumem no entorpecimento natural dum cérebro que envelhece, fico surpreendido porque elas persistem com um brilho que as torna cada vez mais firmes.
Às vezes, são tantas vezes, quero esquecer e deixo os meus pensamentos entrarem por outros meandros, ziguezagueando em quiméricos pensamentos e, as ideias, ficam perdidas como se nunca tivesses existido.
Mas essa quietude rapidamente se desvanece e as recordações voltam e ficam exigindo que as não deixe esquecer.
O Outono corria célere e as tardes eram curtas, pois o escuro bem cedo tomava conta do dia, e obrigava a que todos tivessem pressa de se aconchegar junto às lareiras que aqueciam as frias noites. Os mais afoitos, por vezes, acalentavam a alma e o corpo num copo antes de se recolherem ao seguro das portas, bem trancadas, das suas casas.
Depois das nove não se via vivalma na aldeia, pois o medo estava instalado e mesmo os mais afoitos, ou que se diziam como tal, fumavam o ultimo cigarro para a janela do quintal, pois para a rua a coragem não os deixava.
Era por essa hora que as coisas estranhas e demoníacas, como pensavam, se tornavam mais intensas e os barulhos de correntes que se arrastavam penosamente só podiam ser de almas que tinham que carregar todos os pecados que as acompanharam.
Ninguém se atrevia a espreitar pois, diziam os mais entendidos, que quem as avistasse podia ficar possuído para todo o sempre, pela penosa incumbência de trazer amarrada ao corpo a desdita de um arrastar de tantos males.
Um dia, houve quem se arriscasse a espreitar por uma fisga da velha porta e pareceu-lhe lobrigar, entre o escuro da noite, um vulto negro onde pequenos reflexos de fogo queriam iluminar, fugazmente, um rosto perdido no breu.
O medo estava instalado, as mulheres já tinham receio de sair mesmo de dia. Os homens, esses, diziam-se valentes mas andavam silenciosos e cabisbaixos.
Era preciso tomar uma solução e as autoridades da aldeia tinham-se escusado a tratar de coisas não terrenas pois, diziam eles, a sua incumbência era resguardar da ordem e respeito público.
Foi então que José da Boina, Chico da Aurora e Policarpo do Café Central resolveram fazer uma espera a esses penados medos que os atormentavam e dar descanso a quem lhos estava a tirar.
Muniram-se das coisas necessárias para estas incumbências, um crucifixo benzido pelo Padre Miguel, um frasco com água benta para aspergir alguma alma mais afoita e uns dentes de alho para refrear algum instinto mais vampiresco e lá foram ficar de tocaia na esquina da Travessa Nova, que era o sítio onde mais se notavam os fenómenos.
Pouco passava das 10 da noite e os corpos dos três foram percorridos por frémito de medo pois o barulho que se aproximava era aquele que ali os tinha levado.
Chico da Aurora, tal como lhe ensinaram, saltou com o crucifixo ao alto saiu gritando:
-Vá de retro Satanás
O pobre espírito ainda quis fugir mas as pernas enredaram-se nas correntes e estatelou-se no empedrado da rua, para tranquilidade dos três valentes que lhe fizeram frente.
As almas penadas, perdão a alma penada, era o Professor Simões que arranjou esta artimanha para poder ir ter com a sua amante sem arriscar ser visto por alguém que, um dia, pudesse contar ao ausente marido os devaneios da esposa solitária.
Afinal o medo que a todos apoquentava era só um artifício que o amor arranjou.
Há muito que o pensamento não o deixava tranquilo.
Queria mas não era fácil.
Muitas noites acordava com uma voz que lhe gritava aos ouvidos: -Vai, tens que o fazer!
No decorrer do dia ia deixando que os pensamentos negros se esfumassem nos problemas do quotidiano.
Havia uma monotonia de factos, uma onda de vazios que enchiam o eco que o acompanhavam.
Não eram propriamente insónias que lhe perturbavam e confundiam o sono, mas sobretudo um choque de pesadelos fantasmagóricos que povoavam a sua conturbada mente.
Por vezes, tantas vezes, acordava alagado no suor da perturbação de pensamentos que o conduziam a uma falsa libertação.
Ouvia gritos, gritos que queriam ser libertadores mas apenas tinham o condão de o deixarem mais, e mais, agarrado a essa louca necessidade de acabar com o sofrimento de um vazio que o enchia de medos e frustrações, que se alapavam no seu conturbado pensamento.
Não queria mas parecia ser a única solução, a única forma de o libertar dessa amálgama de medos que o sufocavam e angustiavam.
Nada lhe saía bem. A mulher, sem olhar para trás, partiu com um funâmbulo do circo que visitou a aldeia. Deixou num pequeno papel razões para essa fuga ao ócio num panorama limitado. Queria mais, precisava de espaço.
Inácio quis chorar, quis gritar toda a frustração do abandona mas as lágrimas tinham secado e a garganta calou os sons.
Queria desistir, o fim podia ser o princípio do descanso que a vida lhe tinha tirado. Tinha um baraço forte, de sisal entrançado, que servia para segurar o baloiço onde ELA se deixava embalar, ao fim do dia, no remanso de uma canção do Júlio Iglésias.
Ia fazer um laço à volta do pescoço e tal como o outro, o da Bíblia, escolheria uma oliveira, árvore que dá vida e que pode levar a existência de quem da vida mais nada espera.
Manhã cedo, na timidez de um Sol que despertava para o dia, foi à procura da árvore da vida.
Era uma oliveira imponente, nodosa e onde os reflexos dum Sol que despertava inundavam o olhar de verde de oiro.
Subiu na força do braço onde repousava inerte o baraço que o ia libertar de todo o cansaço.
Prendeu-o no tronco mais forte capaz de o segurar quando se libertasse na procura do espaço que nunca encontrou.
Olhou em redor numa despedida, quiçá, já com saudades desta vida.
Ali, mesmo ao lado, num ninho tosco e desajeitado pipilavam duas aves implumes, bicos abertos num desespero de olhos fechados, quase monstros na agonioza procura de uma mãe que não apareceu quando se libertaram daqueles cascas em que metamorfosearam durante doze dias.
Deu-se o milagre Inácio encontrou, finalmente, uma razão.
Tirou a corda, pegou no ninho e correu para casa.
Queria viver para cuidar das duas rolas que o destino lhe colocou no caminho.
Sinto no rosto o frio da noite, enquanto um desencanto se esvai nas espirais de fumo de um cigarro que arde no tédio de umas mãos frias.
Os pensamentos povoam a imensidão de um cérebro vazio, enquanto um chiar ensurdecedor enxameia os meus ouvidos.
A névoa que me tolda os olhos, apenas me deixa lobrigar as sombras ténuas de orgias de segredos que não consigo desvendar.
Os silêncios doem como estiletes no sabugo duma indiferença que me possui, como se o meu sentir fosse o sentimento de uma prostituta que se evapora em lascivos gestos de torpor.
Compreendo os que precisam do ácido que lhes aqueça os sentidos e lhes liberte os pensamentos.
Entendo o afogar, no álcool, das agruras da escuridão dos pensamentos que nos minam e nos possuem.
Aceito os que desistem de viver e se apagam num flash, na procura de uma escuridão que os liberte do desconforto de uma luz que oprime.
Alguém me pediu para amenizar, por isso, deixo isto a contra-gosto. Os outros que me perdoem.
Há quem diga que é bonita e eu não quero tomar qualquer posição nesse assunto.
Cada um de nós tem o seu próprio conceito de beleza e, felizmente, nem sempre podemos estar de acordo.
De facto a rapariga é vistosa, têm um peito profícuo e um rabo que parece falar quando ela se saracoteia pelas ruas do bairro.
A cara, bem quanto à cara, as opiniões estão um pouco mais divididas.
Como disse, eu, não vou tomar partido e até acho que o mal não vem por ai.
Tem um rosto agradável, bem emoldurado por uns fartos cabelos negros, onde uns olhos dengosos, mas agradáveis, conseguem dar um certo ar de mistério.
Ela, a Rosinha como lhe chamam, é muito jovem, logo, a vida ainda não teve tempo para deixar marca a precisar de camuflagem, só algumas borbulhas irritantes precisam, por vezes, ser disfarçadas com um milagroso creme de beleza.
Mas isso são, apenas, contingências que facilmente se ultrapassam.
Logo como se vê a moça pode, com toda a certeza, aventurar-se a” miss” qualquer coisa, pois pelo aspecto é sempre uma séria candidata a uma coroa.
É o seu sonho e tentou.
Um amigo inscreveu-a num concurso de “Miss bairro dos aflitos» mas, foi uma verdadeira catástrofe.
Desfilou.
Deslumbrou e tudo parecia correr estar muito bem.
Mas chegou a hora da entrevista, ai… abriu a boca e foi um desastre, a magia acabou.
Olhou-a de forma mais intensa, quase descarada. Há muito que a notava e estava decidido a fazer-se notar.
Sentia que ela não ficava indiferente aos seus olhares. Furtava os olhos mas sentia um sorriso de satisfação.
Hoje, estava decidido, iria tentar uma abordagem um pouco mais ousada.
Aproximou-se da sua mesa, perfilou-se e, com o sorriso mais cativante que descortinou, perguntou:
-Posso sentar-me à tua mesa para tomar o meu café?
Corou, um ténue rubor tingiu as suas faces. Desejava este momento mas, na verdade, não estava preparada para ele.
-Sou o Jorge foi dizendo enquanto ocupava o lugar à mesa. Vejo-a todos os dias a tomar o seu café mas só hoje arranjei coragem para dar este passo. Gostava de a conhecer melhor. Será que logo, quando sairmos do trabalho, nos poderíamos voltar a encontrar aqui?
-És mesmo descarado, mas às seis e quinze estarei á tua espera.
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Foi uma tarde longa, os minutos pareciam eternos e a ansiedade aumentava à medida que se aproximava das seis horas.
Nem sequer sabia o seu nome, com a ansiedade nem lho chegou a perguntar. Não fazia mal, logo iria saber isso tudo e muito mais.
Era curioso, mal a conhecia e já sentia algo que não sabia explicar.
Chegada a hora saiu disparado. Na sua cabeça apenas estava o desejo de chegar junto dela, de a ver, de a ouvir.
Atravessou a avenida de forma desabrida, não olhou.
Foi o ruído intenso de uma travagem desesperada, um corpo pelo ar.
Baque brutal no asfalto.
Gritos, desespero.
Depois o silencio.
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Ela foi pontual, à hora aprazada estava sentada na mesma mesa.
Olhou para o relógio mais uma vez. Nada.
Seis e meia e tudo na mesma. Não apareceu, era mentira,
Não valia a pena, os homens são todos a mesma coisa.
Vestiu-se quase mecanicamente, movimentos simples e automáticos.
O pensamento bailava na sua cabeça, irreal, sem nexo.
Catadupas de ideias acotovelavam-se num tropel de confusão e irrealismos.
Sempre fora covarde, ou melhor, sempre fora um homem simples e comedido que fugia às confusões para poder viver em paz.
Em criança foi o bombo na escola, todos lhe batiam e ele fugia, dizia, não por medo mas porque não queria alimentar guerras, pois sabia que atrás de violência mais violência viria.
Andou na vida de forma calma e comedida, sem atropelos, quase despercebido.
Cumpriu, sempre, todas as regras sem nunca perguntar: - porque ou para que?
Agora tinha chegado ao limite, não podia mais.
Estava farto de sorrir, de dizer sim.
Estava cansado de ser atropelado e ultrapassado. Não queria mais ser pisado e vexado.
Tentou reagir mas ninguém o levou a sério.
Gritou que estava farto, mas todos se riram.
Hoje estava calmo embora confuso.
Olhou-se ao espelho e a imagem que se reflectia era diferente da habitual,havia nos olhos um ódio que nunca tinha sabido, uma firmeza que desconhecia, uma determinação que estranhava.
Abotoou o caso e confirmou que tinha a arma bem segura no bolso.
Suspirou como se, hoje, fosse o princípio de um mudar de rumo.
Quando entrou no gabinete do chefe já sabia que daqui para diante tudo seria diferente.
Sim, embora a tristeza não seja um estado da alma.
A tristeza é diferente, a tristeza é algo que se apodera das pessoas e as vai minando por dentro, como o bicho da madeira que não se vê mas que corrói de forma sistemática, inexorável e impiedosa.
Toma conta de nós, apodera-se do nosso pensamento, do nosso ser, da nossa vontade. É como que uma espiral de sentimentos, difusos e confusos, que se enrolam no emaranhado das emoções que já não sabemos gerir.
Por vezes reagimos e escondemos a tristeza. Aprendemos a viver com ela, camuflamos esse sentimento.
Mas há tristezas que fazem parte de nós, que nos acompanham e que, tal como nós, acabam quando a vida acabar.
Os salpicos do meu Blogue, são lágrimas da minha vida; Pedaços que o tempo deu. Memória nunca esquecida; São lamentos que eu deixei. São coisas do meu passado; Ternuras que recebi, dum destino mal fadado; Agruras nunca esquecidas, que carrego no meu ser; Imagens que nunca morrem, não as quero deixar morrer; Grito, lágrimas e desgosto que o destino me reservou; Saudades, que me atormentam, de quem foi e me deixou: São salpicos disfarçados em poesia sem rima; Para enganar a tristeza que me postaram em cima; São canções que eu não canto e ninguém as quer cantar; Emoção tão reprimida, que ainda me há-de matar; Lágrimas do meu sofrer. Poemas do meu sentir; Saudades do que passou, medos do que está para vir; Tormentas que me angustiam de forma tão dolorosa; Saudade do que não tenho, desta vida tão penosa; Romance do infortúnio, que um dia hei-de escrever; Palavras gravadas por mim e que ninguém irá ler; Renascer no tempo vindo, num tempo que chegará; Num dia que não existe e que nunca existirá; Morrer como quem nasce, na dor de quem nos pariu; Deixar por fim esta vida... pensando que não existiu.
Resposta difícil a uma questão tão simples. Dizer que não, é mentir. Dizer que sim, é alimentar uma lenda de “cocas” e “papões” que não tem razão de existir.
-Não querida. Porque havia de ter medo do escuro? O escuro não existe, o escuro é só porque a luz está apagada.
Mas a verdade é que muitas vezes tenho medo do escuro. Quantas noites, eu, fico perscrutando os indetermináveis sons que a minha imaginação alberga.
-Sabes amor, é natural que quando não vemos as coisas fiquemos com receios. Mas medo não devemos ter.
Tantas vezes, sinto que algo se move no meu medo. Oiço as vozes do meu desassossego.
-Mas tio todos os meninos e meninas tem medo!
Todos os meninos e tantos adultos. Nós dizemos que não, mas há algo que nos atemoriza. O escuro é como o desconhecido e, só os mais intrépidos se aventuram nessa descoberta.
-Tio agora que estás ao pé de mim, podes apagar a luz que eu não tenho medo.
-E eu ao pé de ti também não. Dorme descansada!
Fico absorto no enlevo do sono tranquilo. Os meus medos ficam para depois, para quando a solidão se alberga dentro de mim.