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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Foi assim que aconteceu…ou o sonho de uma noite mal dormida.

Qualquer facto, semelhança ou parecença com algo que tenham visto, lido ou escutado será por mera coincidência.
Isto foi um, ou é, sonho meu.
Que me perdoem.






Há coisas difíceis de explicar, foram enraizadas no espirito das pessoas ao longo dos séculos e ficam como que fazendo parte da própria existência. Não vale a pena tentar contar a verdade, ninguém vai acreditar, pois ainda nos olham de través como se, o que dizemos, fosse alguma heresia.

Era um dia de Dezembro, Jedi acordou mais cedo com a agitação da mulher. Miriam estava com dores e, não admirava nada que a hora do parto estivesse próxima. Olhou-a de forma terna, passou-lhe a mão rude pelo rosto antes de lhe dizer:

-Vou chamar a tua mãe, ela vai tratar de tudo, a tua hora está próxima, não tarda, vamos ser brindados pelo   Senhor com uma criança para dar sentido á nossa vida.
 Pousou-lhe um leve beijo na testa e saiu para a quietude do dia que estava a nascer.

Jedi era carpinteiro, naqueles tempos era uma arte difícil, não havia ferramentas apropriadas e só a habilidade dos artesãos para dar forma aos toscos objectos da época. Não tinha razão de queixa, havia sempre algo para fazer, arranjar as rodas dos carros que o empedrado dos caminhos quebrava, ou outros pequenos artefactos que lhe iam encomendando.

Conheceu Miriam em casa de Lucas e ficou, desde logo, preso pela beleza, pela suavidade dos movimentos, pela doçura da voz e, sobretudo, pelo encanto do olhar.
Sabia que ela era uma criança e ele, um homem feito, mas o coração não escolhe e se a família o aceitasse era ela a eleita para sua esposa.

Miriam também sentiu uma grande atracção por aquele homem maduro que de forma tão terna a observava e, quando ele lhe sorriu não foi capaz de desviar o olhar, como convinha a uma donzela e sorriu também.

Foi fácil, Jedi era muito conceituado, a mãe e os homens da família aceitaram o pedido e deram como esposa Miriam a Jedi.

Foi simples o casamento, mataram um borrego, dançaram no terreiro e o vinho animou a cerimónia.


A casa de Jedi era modesta, feita por ele, mas tinha conforto suficiente para o casal e para os filhos que o Senhor lhes reservasse.
Jedi amava Miriam e ela sentia, pelo esposo, uma adoração que não sabia bem explicar, dava-lhe uma segurança que ela não sentia desde que o pai morreu. Era terno, delicado e parecia adivinhar-lhe os pensamentos.

Agora que a idolatrada esposa ficou grávida Jedi sentiu que a sua vida fazia sentido, tinha um motivo para se sentir feliz, apetecia-lhe gritar para que todos pudessem partilhar da sua felicidade.

Foi procurar os seus únicos amigos, para poder compartilhar a alegria que o invadia e para dar larga ao orgulho que o deixava vaidoso.

Baltazar, Belchior e Gaspar, os reis das prendas, ficaram surpreendidos com a presença de Jedi e saudaram-no com alegria.

-Por aqui, Jedi, tão cedo! Olha que o Sol, ainda, mal aparece no horizonte!

Jedi acariciou as longas barbas, enrolou desajeitadamente o quipá entre as mãos nodosas, sorriu de uma 
forma tão franca que os outros ficaram surpresos.

-Não podia esperar mais, teriam que ser vós os primeiros a partilhar da felicidade com que o Senhor me abençoou, vou ser pai, Miriam está esperançada, um menino ou uma menina vem a caminho.

-Vamos saudar a tua alegria, disse Belchior, enquanto enchia quatro canecas de um delicioso vinho da sua colheita particular.


A hora estava a chegar, ia chamar Eli, sua sogra, para juntamente com as mulheres dos partos ajudarem Miriam nesta hora de sofrimento e de alegria.

Jedi gostava que fosse uma menina, mas sabia que Miriam sonhava com um menino, o Senhor, em toda a sua sabedoria  iria decidir.

Foi uma noite longa, as mulheres estiveram numa azáfama constante mas, eram cinco horas da madrugada, de um dia que se adivinhava frio, quando a criança deu o primeiro vagido.

-É um rapaz, gritou Eli, vão chamar Jedi!




Jedi rejubilou e esqueceu, desde logo, que tinha pensado numa filha.

Olhou embevecido o rapaz que tentava desajeitadamente mamar, enquanto Miriam olhava com doçura o rosto do filho e se apercebia da alegria do esposo.

-Jedi, disse Miriam, este é o filho que o Senhor nos mandou.

Jedi sorriu, a felicidade era tanta que nem se apercebeu das palavras da esposa.

-Vai ser Yeshua, vai ser esse o nome do nosso filho.

 Miriam gostou do nome, olhou o marido com ternura, depois adormeceu vencida pelo cansaço.




Yeshua cresceu feliz, ajudava o pai nos trabalhos do campo. Baltazar ensinou-o a ler com a Bíblia, Gaspar falou-lhe dos Romanos que os oprimiam e Belchior contou-lhe de um Messias que estava para aparecer.

Yeshua pensou, se vem um Messias é necessário levar a todos a palavra, anunciar a sua vinda, preparar o caminho para a sua chegada.



 Jedi morreu numa tarde quente de Verão, partiu sereno, com a mesma tranquilidade com que sempre viveu.

Yeshua não verteu uma lagrima, meteu-se ao caminho e começou a lançar a semente do que estava para vir.

Falou de coisas que as pessoas não entendiam. Dar a outra face, quando nos agrediam uma. Perdoar aos nossos inimigos. Dividir o nosso pão pelos que nada tem, não cobiçar a mulher do próximo.

Não havia dúvida que este Yeshua era um idealista, falava em sociedade sem classes, em sermos todos iguais e outras coisa que levaram os seguidores a pensar e a dizer baixinho, embora não sabendo ainda o que isso era:

-O fulano deve ser comunista!



Era estranho, os correligionários não entendiam os ensinamentos, mas gostavam e eram muitos os que se iam juntando, embevecidos nas suas palavras e promessas de um Mundo melhor e de um reino onde todos seriam iguais.


Certo dia na margem do rio Jordão, encontrou o seu primo João, um profeta que apregoava a vinda de um Salvador. João era um homem de grandes convicções. Baptizou Yeshua e gritou a necessidade de libertarem a sua terra do jugo dos Romanos.

Yeshua disse então:

-Vamos construir o nosso exército, enfrentaremos os Romanos e expulsá-los-emos para além deste mar que nos divide, mas sem usar a brutalidade. Vamos fazer como uma grande pacifista, Gandhi, que daqui a 1.900 anos, irá construir um grande estado, sem recorrer a guerras e a violências.

-Assim seja, gritaram os milhares de fiéis, enquanto entoavam cânticos de louvor a um Messias que estava anunciado.




Yeshua e os seus doze mais chegados companheiros, reuniram-se num jantar a que resolveram chamar a Ultima Ceia, para combinar a estratégia.
Dividiram o pão e o vinho, sem desconfiarem que entre eles um espião, Loudas, ia tomando nota de tudo para entregar ao inimigo a troco de 12 shekels de ouro.



  
Os romanos, bélicos, habituados a grandes batalhas, olharam incrédulos para aquele exército, mole humana, encabeçada por homens que apenas agitavam ramos de oliveiras e de palmeiras.

Foi uma hecatombe, dos poucos seguidores que restaram nada se sabe, parece que voltaram aos seus lares.


Segundo diz o livro, dos que se sentaram à mesa na tal ceia, julga-se que:

-Loudas apareceu pendurado pelo pescoço numa figueira. Quando chegou o IMEN já era cadáver.

-Onze emigraram, sabiam que isso um dia isso lhe iria ser sugerido, tornaram-se apóstolos e foram pregar o Evangelho por esse mundo fora.

-Yeshua não mais apareceu.


 Muito se fala, mas ninguém tem a certeza do que aconteceu.

 Pensam que morreu mas que ressuscitará.

Dizem os iluminados que um dia vai aparecer para consertar, se ainda for possível, este mundo que se está a afundar.






Ad imo corde, tenho esse direito, que seja em Portugal com uma vassoura para dar uma varredeira nessa corja que se governa e, que, tal como expulsou os vendilhões do templo, enxote os palradores do parlamento.


 

sábado, 24 de julho de 2010

A recusa







Pousou os cotovelos no encardido balcão mirou a empregada nos olhos e pediu um café.

Estava nervoso e isso via-se na forma como se agitava, no entrelaçar das mãos e num ligeiro tique nos olhos.

Olhou, mais uma vez, a empregada que de soslaio também o ia observando enquanto maquinalmente ia tirando o café.

-O senhor parece preocupado, atirou ela.

Olhou-a de forma displicente e sorriu.

-Estou um pouco chateado. Sabe? É a vida.

Ela acenou a cabeça em sinal de compreensão, sabia como a vida era difícil.

O homem continuava no canto do balcão, sorvendo o café em pequenos goles e olhando abstracto para um vazio que só ele via.

Era agora ela que parecia agitada, limpando a louça de forma um pouco descoordenada e olhando, de forma um pouco descarada, o cliente que continuava absorto contemplando uma chávena vazia.

Era um homem interessante, pensava Beatriz, enquanto paulatinamente ia arrumando as chávenas que ia retirando da máquina de lavar.

-Vou fechar, disse ela com um sorriso enlevado.

-Quer ir jantar comigo? Atirou ele, com um esgar a fingir um sorriso que não chegou a nascer

Beatriz corou, um intenso rubor tomou conta do seu rosto. Ficou sem saber que dizer, não queria parecer fácil, a vontade dizia-lhe que sim mas a prudência dizia-lhe que não.

Fingiu não ter ouvido o convite na esperança que ele o repetisse.

-Dá-me uma garrafa de água fresca, pediu o homem.

-Aqui está, agora desculpe, mas tenho que fechar o café disse Beatriz.

Ele, com o mesmo trejeito, repetiu o convite:

-Mas não quer vir jantar comigo?

-Mas eu não o conheço! Disse Beatriz com um ar tão cândido que, quase, parecia verdade.

Mirou-a com um franzir de sobrolho, rutilou os olhos num fogacho sem brilho. Atirou umas moedas para cima do balcão e saiu para o escuro da noite que ia caindo.

Beatriz ainda lhe apeteceu fazer a vontade ao que a desejo lhe pedia, quis aceitar esse jantar que o destino lhe colocou no balcão encardido do pequeno café, onde as ilusões morriam diluídas nos cheiros acres dos bagaços que as gargantas ressequidas tragavam em sorvos ligeiros.

*********

Apagou as luzes, fechou a porta e embrenhou-se no breu que a tragou na esquina da rua.

Foi então que uns braços fortes lhe envolveram o pescoço, mal podia respirar e apenas o hálito quente do homem lhe aquecia a nuca e a voz áspera lhe agredia os ouvidos:

-Ouve, minha puta, convidei-te para jantar e apenas o silencio me respondeu. Não aceito negas. Se tivesses vindo talvez te comesse e te deixasse ir à tua vida, mas quisestes ser pudica e agora vais pagar.

*********

Encontraram-na de madrugada, ainda tinha sinais de vida que lentamente se ia esvaindo pelo corte profundo que a havia degolado



quinta-feira, 15 de julho de 2010

O convite





Talvez fossem os olhos que me fascinaram.
Fundos e de uma negrura que me deixaram perturbado.

Não é que eu me atarante com facilidade, mas aqueles olhos mexiam comigo.
Eram intensos e frios, pareciam dois gumes de aço prontos a cortar.

E era pena, pois o sorriso era radioso como o nascer do Sol.

Mas os olhos, esses tinham algo de soturno e, ao mesmo tempo de misterioso, que me deixava desconfortável.

Quando se sentou na cadeira, à frente da minha secretária, não cruzou as pernas deixando-me um pouco desiludido pois, nos filmes, é normal cruzarem as pernas num enorme mostrar de calcinha.

Mas tive azar, apenas juntou os joelhos e puxou a saia numa forma natural. Gesto casual mas de uma elegância que denotava ser pessoa de requinte.

Olhou-me com um sorriso de dentes que cintilavam em suaves reflexos de pérolas, os olhos rebolaram de uma forma tão lânguida que senti um formigueiro a tomar conta de mim.

Tentei fingir não me deixar impressionar e aguçando a voz perguntei:
-A que devo a sua simpática visita?

Olhou-me, mais uma vez, daquela maneira que arrepia, pousou as mãos na minha secretária, aproximou a boca do meu ouvido e segredou:
-Quero pagar-lhe para matar o meu marido! Quanto leva?

Fiquei siderado, primeiro pela visão que um farto decote proporcionava, depois pelo insólito da desconcertante pergunta.

-Matar o seu marido? Quando levo? Mas a senhora endoideceu?

Olhou-me do fundo daqueles lagos frios e, com um calma desconcertante atirou:

-Não seja tonto eu sei que é detective e que se encarrega de casos difíceis.

-Minha senhora, balbuciei, eu trato de casos difíceis mas não sou assassino.

Sorriu, mostrou mais um pouco do que o decote tinha para desvendar. Semicerrou os olhos que ficaram como dois traços cintilantes e, com um rilhar de dentes sibilou:

-Não se faça difícil seu sacana!

Deitou-me as mãos ao pescoço e começou violentamente a sacudir-me.

Estava totalmente transtornada, colérica.

Tentei defender-me, gesticulei em vão. Era mais forte do que pensava e começava a sentir dificuldade em respirar, arrisquei lutar e ripostei com força. Levantei os braços e as pernas numa tentativa de me libertar.

Ia caindo da cama.

Maldito pesadelo.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

A agonia do Belchior




Não me importo que seja tarde.

Eu sei, tenho plena consciente que os factos deveriam ter sido na altura própria. Tudo na vida tem a sua ocasião, as coisas estão feitas de forma a encaixar no momento, Depois parece que se cria um hiato, um vazio como se uma peça do puzzle ficasse por ajustar.

Mas por vezes, muitas vezes, deixamos o tempo passar e as realidades ficam fora de controlo, sem jeito, imprecisas.

Naquele Inverno as coisas precipitaram-se duma forma difícil de prever, parecia tudo normal, mas não, havia algo de diferente. Talvez fosse o cheiro da chuva, pois a chuva tem um cheiro muito especial, nem todos o notam, mas tem esse cheiro.

Depois, sim, depois as confusões que nos assaltam quando a nossa fragilidade é mais acentuada, fazem que a nossa visão fique mais reduzida e apenas conseguimos ver aquilo, apenas aquilo, que queremos ver.

Não sei explicar muito bem, pois há situações que me ultrapassam e, quando dou conta, já as coisas se enredaram de tal maneira que se quiser fazer algo apenas irei atrapalhar.

Mas, ando em redor do assunto sem coragem. Absorto como se nada tivesse acontecido. Talvez seja a minha inadaptação a assuntos melindrosos.

Mas um dia tenho que deitar fora a angustia que me persegue, tenho que contar para que o nó que me oprime se solte e as minhas noites passem a ser mais tranquilas.

Foi há três anos, mas as coisas estão tão presentes que pareço topa-las a cada momento.

Quando a GNR levou o professor Belchior a notícia ribombou na povoação como se uma bomba tivesse deflagrado.

Não era que motivasse muito espanto, pois o professor sempre foi um tipo esquisito, meloso e um pouco melífluo. Os homens normalmente diziam que o gajo era maricas, com aquele ar untuoso e saracoteado, mas nunca esperaram que as coisas tivessem este fim tão traumatizante para este povo habituado a uma vida linear e sem escândalos a assombrar a quietude do dia-a-dia.

Agora com a detenção por abuso, ou tentativa, de uma menor de seis anos era demasiado chocante para este povo. Ninguém pensava noutra coisa, era um nojo e indignação que se sentia, era como que um envergonhar colectivo, como se o pecado fosse geral, como se todos tivessem culpa, como se qualquer se sentisse responsável.

Mas, bradem aos céus, quando o povo soube que o maldito foi mandado em paz como se nada se tivesse passado então, a indignação tomou conta de todos como se uma peste se tivesse espalhado, o juiz, quem sabe se não pedófilo, mandou o professor Belchior em paz para a sua vida e para as suas pobres crianças, pois não reconheceu nada de mal no comportamento.

-Quem sabe, disse ele, se não foi a menina que se lembrou de manchar o bom nome deste pobre mestre?

Foi então que as coisas começaram a tomar este rumo, que me trouxe toda a angustia que carrego.

Foi o Chico da Murteira, tio da pequena abusada, quem teve a ideia. Naquele seu jeito um pouco enigmático, disse:

-Se fossemos, os oito, falar com esse tal de professor e tirar a limpo o que se passou?

Olhamos uns para os outros, baralhados e confusos, pensando se seria uma boa ideia.

Mas, na calada da noite, fomos todos, Chico Murteira, Zé Pedro, António Faria, Albano Pocinhas, Manuel Almeida, João Augusto, Armando Coitado e eu, Fred, como qualquer me conhece.

Quando batemos à porta do professos houve como que uma comunhão de pensamentos, ou melhor, houve como que um esvaziar de entendimentos, pois todos nos olhamos confusos e sem saber bem ao que íamos.

O professor, grotesco num roupão, olhou incrédulo o aço frio de 16 olhos que o alvejavam em interrogações.

Mas, balbuciou:

-Em que posso ser útil?

Dezasseis mãos se ergueram mas só uma segurava o aceiro que seis vezes o perfurou.

Gritou como um porco no estertor da morte e, quase com graciosidade, deslizou por umas pernas que ficaram inertes e inúteis para sempre.

Foi-se, com um esgar de interrogação. Perdeu a vida nos golfes de sangue que iam purificando o espírito pérfido que aquele corpo albergava.

Nunca descobriram como morreu o professor.

Agora estou mais aliviado.

Já posso dormir mais tranquilo.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O meu neto





Hoje apenas quero apresentar o meu neto Rodrigo.

Foto tirado no dia em que fez quatro meses.

Sou um avô babado mas, penso, tenho razões para isso.