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domingo, 3 de maio de 2015

Marcolino



Para acompanhar e dar assistencia, a um familiar, sujeito a intervenção cirurgica tenho andado arredado do Blogue.
Espero, em breve, voltar à normalidade.





Talvez fossem remorsos! Não que tivesse motivo para isso, mas há momentos que nos perturbam o pensamento e as coisas podem acontecer.

Marcolino era, um pouco, explosivo e facilmente se deixava levar pelas emoções, nada de violências ou de ofensas mas amuava e desconhecia as pessoas, não era propriamente um desconhecer absoluto, era mais um distanciamento, um faz de conta, uma maneira de mostrar uma insatisfação.

Mas, pobre de espirito e um pouco retrogrado, normalmente saía a perder, coisa que não sabia, ainda, controlar.

Agora a questão era um pouco mais delicada, havia interesses que ultrapassavam a sua própria vontade e, o seu raciocínio, não o ajudava a discernir o que era melhor para ele próprio.

As coisas, por vezes, acontecem e ultrapassam a nossa vontade, não conseguimos controlar e depois o arrependimento não vale nada.

Ele, Marcolino, viu a Cassilda, no baile da feira, no primeiro dia de festa na aldeia e, obedeceu às ordens, na forma da sua rudeza natural e, mesmo na frente de toda a gente, disparou:

-Ouve lá cachopa! Há muito tempo que ando de olho em ti, já me informei que não tens ninguém, por isso, podíamos namorar os dois!

Cassilda ficou para morrer, tal foi a vergonha porque passou. Quem lhe havia de dizer que Marcolino, que diziam ser meio tonto, a iria assediar dessa forma, neste sitio e, pior ainda, à frente de tanta gente que a conhecia. Não queria ser bruta, nem sequer ofender o rapaz, mas não sabia bem como sair desta situação.

Corou, sentia mesmo um calor enorme na cara, e o olhar fixo e embasbacado de Marcolino, só servia para piorar a situação.

Tentou falar mas, as palavras, enrolavam na garganta e não havia maneira de se transformarem em qualquer som e tinha medo, mesmo muito, pela reacção daquele homem de olhos desvairados.

****

O professor Eleutério reparou, no embaraço da moça e, no olhar guloso do Marcolino, pegou-lhe com suavidade, num braço, e com muita argúcia, foi-lhe segredando:

-Sabes, Marcolino, que nunca se deve abordar uma rapariga assim?

-Desculpe professor, interrompeu o rapaz, eu não bordei nada só a pedi em namoro.

O professor teve que suster o riso, com muita calma insistiu:

-Eu disse abordar que é o mesmo que, para perceberes, chegares ao pé.Não deves dizer, assim de repente, tens que ser esperto, carinhoso e com muito tacto.

-Mas senhor professor, insistiu o moço, a culpa foi do meu mano, ele é que anda, há muito, com a Cassilda na imaginação, eu também acho que é jeitosa, mas ele está mesmo entusiasmado. Vai daí, ontem, disse-me que eu tinha que a pedir em namoro, mas não podia dizer que era para os dois.

-Agora sou eu que não percebo! Explica lá isso devagarinho, como é isso de para os dois?

-Pois, professor, é isso que nós queremos, uma mulher para os dois! A gente dá-se bem, não somos ricos, por isso uma para os dois chega bem. Eu trato do gado, ele trata da lavoura, porque tem mais força, e ela vai tratar da casa.

Vai ser uma princesa, mas mesmo uma princesa como a dos filmes.

O Inácio chega a casa às 7 horas e tem a mulher à espera, linda, para ele. Eu tenho que recolher as ovelhas chego mais tarde, ai pelas 8 horas e é outra festa, lá estará ela, linda para mim.
Tem dois maridos, para esperar, e tem dois amores a chegar. Então não é bonito?

-E depois? Perguntou o professor?


-Então depois o que? Respondeu Marcolino.

-Sim e depois? Vocês querem uma criada ou uma esposa?

-Pode chamar isso, queremos uma mulher que, também, é essa coisa de esposa.

-E à noite como dividem? Perguntou o professor.

-Dividir? Isso não, não dividimos nada, nunca, mas mesmo nunca. Quase gritou Marcolino.

-Sabes que mais! Exclamou o professor, isto parece uma conversa de malucos!

-Olhe lá senhor professor, eu tenho muito respeito por si, mas não sou nenhum maluco, há muitas pessoas que pensam que sou, mas não sou. Sou um pouco fraco de juízo e as pessoas pensam que sou maluco e o meu mano ainda pior, nem se atreve a passar pela aldeia.
Se se atreve há logo um ou outro que grito "Olha o Inácio desmiolado" e ele não gosta, atira pedras aos rapazes. Eu também não gosto e, um dia apanho um desses malvados, dou cabo dele, estrafego-o de tal maneira que vai passar o resto da vida agarrado a um cajado. Pode ter a certeza que o faço!

-Mas ouve bem Marcolino, eu não chamei maluco a ninguém, só disse que parecia uma conversa de malucos, mas éramos os dois, cada um dizendo uma baboseira, sem chegarmos a lado nenhum, porque não nos explicámos bem.

Eu sei que és bom rapaz, mas perdes a cabeça com facilidade e o teu irmão, bem nem vale a pena falar.

Mas vamos à nossa conversa sobre a Cassilda, se bem percebi vocês querem casar os dois com a menina, coisa que não é permitida e, mesmo que fosse, era preciso que ela quisesse.

-Mas não precisamos de casar, ela vai lá pra casa, passa a ser a dona e senhora das coisas, nós os homens vamos trabalhar, quando voltamos ela está à nossa espera com a janta.

Chega um de cada vez, ela dá um beijinho e agradece a Deus por ter dois maridos tão bons.

O professor estava pasmado, não sabia se devia rir ou chorar, nunca na vida pensou ser apanhado numa coisa destas. Estava arrependido por se ter metido neste imbróglio, mas o olhar aterrorizado da rapariga, e o desvario do homem, obrigaram a tomar uma posição e agora estava num beco sem saída.

Tomou fôlego, e avançou:

-Ouve lá, parece que já têm tudo resolvido mas há uma coisa que me escapa:

-E qual dos dois vai ser o homem da casa?

-Que pergunta, senhor professor, parece que não percebeu nadinha de nada. Tá bom de ver que vamos ser os dois, os homens da casa, não podia ser doutra maneira!

-Pois, está bom de ver! Já calculava, disse o professor, mas qual dos dois dorme com a dona da casa?

-Ai alto, senhor professor! Misturas não. Ela vai ter um quarto, com uma cama, só para ela.

Eu e o meu mano continuamos a dormir juntos, como sempre, já estamos habituados ao cheiro um do outro. Náá... não há cá mudanças, nem misturas. Era o que faltava!

-Afinal os miúdos parece que têm razão!
E digo quase, porque na verdade eles deviam gritar.

São os dois varridos do miolo!!!!

Và desaparece e, se te vejo a incomodar alguma rapariga, vais direitinho à guarda e sou eu que te levo pelas orelhas. Eles logo te arranjam outra companhia para dormires.


-Eu cá não tenho culpa!

Foi o meu mano que me mandou.

Disse, Marcolino, a chorar.



domingo, 9 de dezembro de 2012

Esmeralda








Todos lhe chamavam Esmeralda, não sabia se pelo verde dos seus olhos ou se para esquecerem aquele nome horrível com que a baptizaram, Epifania, como se esse nome se pudesse dar a uma criança.

Pois Epifania, perdão Esmeralda, era uma moça roliça, farta de carnes, seios altos e volumosos.

Não era bonita, tinha uma pele borbulhenta, sobrancelhas fartas e desalinhadas, boca de lábios finos e muito pouco sensuais mas, os olhos de um verde intenso, faziam esquecer os pormenores em que Deus foi menos generoso.

Nasceu de uma família abastada, foi educada dentro de valores morais muito rígidos mas a rebeldia foi sempre a sua bandeira.

Nunca se vergou, nunca aceitou os namoros que os pais de forma um pouco sub-reptícia lhe iam tentando impor, pois sabia que eram apenas os interesses que estavam em jogo.

Houve, apenas, um momento em que sentiu algum sentimento, mas em verdade, foi mais uma simpatia pois o moço Lino, filho do Elói, era de uma delicadeza extrema e com coragem suficiente para lhe confessar:

-Sabes Esmeralda, nunca te podia fazer feliz, pois sou, ninguém o sabe, mas sou gay.
Epifania, digamos Esmeralda, gostou da frontalidade e da coragem.

*****

O ano estava a acabar, o frio mantinha as pessoas no aconchego dos lares, as chaminés fumegavam pois, as lareiras, eram o único conforto das inóspitas noites de inverno.

Os preparativos do Natal já eram uma constante, às portas arranjos de flores ou pequenos pais natal, pendurados nas janelas, davam aquela magia que contagiava e fazia luzir os olhos das crianças, antevendo no sapatinho o brinquedo que tinham pedido.

Os pais de Esmeralda a quem a idade não tinha tirado, ainda, o gosto pela magia da época gostavam das ceias com muita família à volta da mesa da consoada.

Eram apenas três e um Natal com três gatos-pingados não é Natal, pensava o senhor Matias, pai de Epifania, alias, Esmeralda. Este ano vai ser diferente – pensou - vamos passar a quadra a Trás-os-Montes.

Ao jantar, embora já tivesse a ideia bem assente na cabeça, perguntou à mulher e à filha:

-O que me dizem sobre uma ideia que me anda a bailar na cabeça, passar o Natal com o Gustavo e a família?

A mulher sorriu com agrado:

-Boa ideia, combina com eles. E tu Esmeralda o que dizes?

-Estou já desejando que chegue o dia, exclamou a filha!

Gustavo era o irmão mais velho de Matias, casado com a professora Margarida e pais de cinco filhos, dois rapazes e duas raparigas.

No Natal reuniam toda a família, incluindo cunhados e os sobrinhos que ainda não tinham constituído família. Todos os anos insistiam com Matias mas, com o comodismo que lhe era peculiar, ia adiando de ano para ano, mas desta vez parece que, finalmente, vão estar todos juntos.

******

Foi um momento lindo, toda a família à volta da mesa, o bacalhau, o polvo e o peru eram os reis.

Entre o barulho dos talheres e o tilintar dos copos as conversas cruzavam-se em recordações do passado e, os mais novos, em coisas do coração.

Esmeralda estava fascinada, nunca tinha sentido esta magia de um Natal em família.
Os primos foram uma novidade e eram tantos, desde os filhos do tio até aos filhos e filhas de cunhados dos tios, mais distantes, mas numa comunhão de família tão emotiva.

Depois da refeição, pequenos grupos continuavam as conversas começadas à mesa.

Esmeralda estava encantada e não conseguia deixar de olhar Simão, filho de uma das cunhadas do tio Gustavo. O moço, enquanto ia mordiscando um coscorão, sorriu aos olhares da prima, enquanto com um gesto aconselhou:

-Come, estão óptimos!

Esmeralda ruborizou, sentiu um frio bom na barriga, as pernas ficaram sem forças e o coração parecia querer saltar de dentro do peito.

Sorriu, teve a sensação do sorriso mais parvo da sua vida, pois nunca se tinha sentido com tanta falta de jeito.

Afastou-se um pouco, sem nunca deixar de o olhar, queria disfarçar mas não conseguia, estava, de verdade, fascinada.

Aproximou-se da Mafalda, continuando com o olhar preso, mas disfarçando comentou:

-Simão é mesmo lindo e eu nem o conhecia  !

Mafalda deu uma pequena gargalhada.

-Lindo? É o que tu dizes! Ele é um borracho que vai partindo corações e é um desperdício.

-Desperdício! Insistiu Esmeralda, está comprometido ou tem defeito?

Mafalda apercebeu-se do entusiasmo da prima e brincou um pouco com o embaraço.

-Não prima. É perfeito e comprometido para toda a vida.

Esmeralda fez beicinho, o verde dos olhos estava mais intenso. Não se conteve e deixou sair:

-Oh Mafalda! Vives fora da realidade, nos tempos que correm não há casamentos para toda a vida e muito menos namoros eternos. Onde se viu isso?

-Pois, respondeu a prima, aqui é diferente.

Simão casou para toda a vida e, mesmo os casamentos como o dele podem ser desfeitos, mas não acredito que neste caso aconteça.
O Simão é padre.

Esmeralda não se conteve:

-Sorte a minha! Vida de merda, só me aparecem um Linos maricas e um Simão padre!

Será que EU tenho que mudar?








 

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pas de Deux






Era um amor feito de coisas velhas, estranho, desbotado pelo tempo, mas era um amor, embora impregnado de mistérios e camuflado em beijos amorfos e sentimentos que há muito tinham morrido.

Nem sempre foi assim, pois começou numa tarde amena de Primavera ao som de um slow que obrigava a cingir os corpos em passos vagarosos e sensuais numa "salle de danse" em Paris.

Depois foi o encanto de tardes de mãos dadas, noites intensas em plenitude de corpos fundidos em arroubos de desejos incontidos.

Tardes no Melody, ao som de uma imitação de Jaque Brell, no lamento de um fastidioso “Ne Me Quites Pas”, sorvendo em pequenos goles um intragável Bacardi como se fosse a melhor bebida do mundo. Ela, na saia travada, ajeitava as pernas escondendo dos olhares dos homens, que à socapa, iam mirando as coxas firmes e generosamente expostas. Ele, intelectual vanguardista, citava frequentemente Cesar Vallejo como se nas palavras conseguisse arranjar remédio para a falsa dialética com que se arvorava no caminho da cultura.

Casaram numa manhã de chuva, no Consulado, perante a autoridade e quatro acompanhantes, dois militantes de um partido ecologista, a Paulette empregada da pensão e o namorado, um português transmontano, dono de um pequeno bar.

Não houve lua-de-mel, não era necessária, pois já andavam há muito nesse enlevo.

********

Foram dois meses de encanto, longos passeios ao longo do rio que lavava as margens da cidade.

Os serões eram passados em tertúlias onde se discutiam “Les nouvelle vagues”, se bebiam Pastis e se recitavam versos de Neruda, Borges e Rimbaud. As gargalhadas confundiam-se com o cheiro do canábis que iam inalando até o entorpecimento tomar contas dos corpos e toldar os pensamentos. Matilde assistia, primeiro, na curiosidade da descoberta, dos falatórios que não percebia, dos versos que nada lhe diziam, das discussões pseudo-intelectuais sobre liberalizações, globalizações e outras coisas que não entendia. Depois foi o enjoo daquela bebida onde o sabor de anis lhe deixava um travo acre na garganta, o adocicado e enjoativo cheiro daquela maconha em que iam imbuindo a mente na procura de uma liberdade que os prendia.

As noites mágicas perderam a magia e passaram a ter a monotonia das processionárias.

*****


Deixou de acompanhar o marido, tinha náuseas e tédio dos velórios em que se tornaram as noites macambuzianas, das retóricas, dos cheiros e das palavras soletradas por desenraizados na procura de algo que nem eles sabiam bem o que.

Matilde começou por passar as noites só, depois com Paulette, ia até ao bar do transmontano. As pernas, na saia travada, continuavam a prender os olhares gulosos que em sorrisos as iam conquistando e, ela, começava a apreciar toda essa embasbacação.

Depois foi fácil, a troca de olhares, as conversas em redor de uma bebida, as mãos que se tocavam numa casualidade provocada, o sortilégio dos homens que se diziam sós e carentes.

Eram sortidas rápidas mas o suficiente para restabelecer  o equilíbrio e a estabilidade.

*****

Matilde e Balduíno continuam o seu amor.

Ele, durante o dia, dorme na ressaca do Pastis, do entorpecimento da erva e da interiorização das prédicas das noites “tertulianas”.

Ela, passeia pelas cosmopolitas ruas de Paris. 

À noite encontram-se no quarto da pensão, cruzam-se antes das suas missões.

Trocam um beijo cansado, amorfo e desbotado, um beijo do que resta do amor.

Eles continuam a amar-se, num amor estranho, desbotado pelo tempo.

É o seu amor.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Uma Rosa



Eu hoje desfolhei mais uma rosa
Do triste jardim da minha essência,
Vermelha de sangue e tao formosa,
Perdida, tal, como a minha existência

Pétalas vermelhas entre os dedos
Morrendo no perfume que se esvai,
Tristeza que povoam os meus medos
lamentos que eu sinto nos meus ais.

No jardim desta vida tão espinhosa,
Vou libertando a dor que tanto dói
Enquanto vou desfolhando esta rosa,

Pétalas de sangue saem de mim
Na tristeza desta vida espinhosa
Tão triste, tão sofrida e tão ruim.




quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Avejão






Confesso que não sei como aconteceu e até posso acrescentar que tenho duvida que tenha, mesmo, sucedido.

A verdade apenas esta alicerçada nas conversas que, na minha infância, ouvia aos serões á volta duma braseira, numa aldeia alentejana, perdida na raia de Espanha.

Os mais novos, curiosos, escutavam todas as peripécias que os avós iam contando, embora sabendo que na altura de ir para a cama estariam “borradinhos” de medo.

Foi há muitos anos e a memória apenas me deixa recordar que era uma noite muito fria e todos se encontravam à volta da mesa redonda onde, debaixo das saias, uma enorme braseira nos mantinha num conforto agradável.

Uma das mulheres, Dona Tomásia, jurava ter visto um avejão, nunca soube bem o que era isso, mas só o nome me infundia muito respeito.

Dizia ela:

-Vizinhas, uma noite ao sair da casa, da minha Zezinha, estava ele prantado na esquina mesmo no cruzamento, ao pé da venda do Isidro. Fiquei mais gelada que um rajá. Era grande, com uns olhos relampejando luzes encarnadas, coberto por uma capa mais negra que uma noite tenebrosa e lançando, pareciam, pequenos urros.

Fiquei, tão paralisada que queria voltar e não conseguia, os pés estavam colados ao chão e não arranjava maneira de os mexer.

Dona Perpetua deu um pulo na cadeira antes de gritar:

-Credo mulher e que aconteceu depois?

Fez-se um silêncio, quase sepulcral, ouviam-se os corações em batimento acelerado, os mais pequenos pregados, nas cadeiras, estavam boquiabertos de pernas bem cruzadas não vá o diabo tece-las.

O som do silêncio doía dentro de nós, todos olhavam de banda, como se a tal criatura pudesse estar ali, mesmo, ao nosso lado.

Dona Perpetua não aguentou mais, deu uma punhada na mesa e gritou:

-E depois, mulher e depois?

Dona Tomásia, aclarou a voz e assumiu a importância do ato:

-E depois? Depois não sei, desmaiei!



sexta-feira, 6 de abril de 2012

A valsa

Para todos o desejo de UMA PÁSCOA muito feliz.  







Apareceu, assim, quase do nada.

Tinha um ar de alegria estampado no rosto, olhos brilhando de felicidade e um sorriso tão luminoso que nos transmitia uma sensação de conforto e tranquilidade.

Quando a música deu os primeiros acordes da valsa da Meia-Noite, olhou-me com ternura, pegou-me na mão e, quase por magia, redopiamos ao som da música que enchia a sala.

Fomos apenas um, num compasso de fascinação, pés em sincronismo perfeito, deslizantes ao som que os embalava. O tempo parou, por magia, enquanto os nossos dois corpos irmanados, no andamento, compassavam nos batimentos que o ritmo inspirava.

À volta um publico silencioso acompanhava, quase, em enlevo o momento.

A música parou, só ficou o feitiço no tempo.

Deixou os meus braços, iluminou-me com a loucura do sorriso, deixou-me um beijo na face e, antes de partir, disse-me:

 -Manuel não quebre a corrente, os teus amigos querem-te aqui.

 Eu percebi a mensagem.

 Estou de volta.

 Obrigado.


quinta-feira, 29 de março de 2012

Eu, o meu Blogue e o dilema




Não é fácil ter um Blogue, ou melhor dizendo, é fácil mas é difícil mantê-lo.

Precisa de ser alimentado, tratado, adulado e embelezado a cada momento.

O meu Blogue tem sido o meu refúgio, o meu confidente.

Nele descarrego as minhas frustrações, os meus lamentos e as minhas angústias.

Nele deixo pedaços da minha vida.

Nele encontro, tantas vezes, o motivo que me leva a continuar.

Do meu Blogue parto para a visita a todos os outros que me encantam, me emocionam e que tanto me ensinam.

Tento adivinhar quem os escreve. Penso conhecer pelo que dizem. Julgo irmana-los pelo que sentem.

Gosto de escrever para mim mas adoro compartilhar.

Fico agradecido, sensibilizado, com as frases lindas que às vezes recebo.

Sei que muitas vezes são apenas pela amizade, mas mesmo assim, fico vaidoso. Confesso!

Mas, agora, apareceu-me o dilema.

Estou um pouco cansado e penso que não vale a pena continuar.

Ando confuso sem saber bem o que fazer.

Penso acabar e fazer como sempre fiz, escrever e arrecadar na minha gaveta das memórias.

Memórias que o tempo irá apagando.

Mas é difícil e estou a tentar ganhar coragem.

Olho para a página e vacilo, parece que me cumprimenta e sorri.

Estou confuso. Não sei o que fazer!

Se, os muito poucos, que algumas vezes me visitam um dia não me encontrarem, não estranhem.

Foi por que me meti ao caminho.

Sempre nos podemos voltar a encontrar “noutravoltadotempo”.

Quem sabe?







terça-feira, 20 de março de 2012

Marcela

Para todos, hoje, dia mundial do Blogue.




Desceu a rua devagar fingindo uma indiferença que não sentia. Olhou, quase de forma casual, a janela da Marcela como se isso não fosse o motivo desta passagem.

Andava meio doido, pensava nela de uma forma tão imensa que até parecia que estava impregnado do seu cheiro.

Olhou a montra do café, sem grande esperança, mas podia acontecer ela estar lá, mas não, só o senhor Ascenso ao balcão ia ajeitando os bolos na vitrina. Podia entrar e perguntar se a tinha visto hoje mas  podia parecer mal e tornar as coisas mais difíceis.

Ela não simpatizava com ele e já o tinha feito sentir. Foi no baile, da Sociedade os Amigos do Grilo, que a convidou para dançar e ela com andar de desdém o enxotou com um:

-Dá à sola menino e desempara-me a loja faz favor!

Adérito ficou triste mas aceitou a frase como um desabafo, afinal nunca tinham sido apresentados e uma menina tem que saber manter as distâncias.

Ia ser persistente e quando ela se apercebesse das suas boas intenções ia ter, de certeza, um comportamento diferente.

***

Pensou fazer uma serenata, mas aqui na terra era capaz de ser um pouco insólito,  pois as pessoas um pouco conservadoras reagiam mal a tudo que fosse inovação. Mas como em tudo na vida há sempre um primeiro dia para começar.

Ia escrever uma cantiga, não sabia bem como, pois nunca fizera nada do género, mas como já havia dito, era preciso iniciar.

Pensou que o nome da sua amada não era fácil de rimar, pois para Marcela apenas lhe vinha à cabeça vitela, o que diga-se não parece nada apropriado, nem fivela e muito menos morcela.

Ah lembrou de repente que bela podia  servir para a cantiga. Talvez assim:

Marcela estou à luz da vela
Com o coração meio partido
A pensar em como tu és bela
Eu podia ser teu marido

Podíamos mesmo casar
Oh meu amor...meu amor
Não posso assim mais andar

Pensando em ti minha flor

Oh meu amor...meu amor
Oh meu amor desgraçado
Oh meu amor...meu amor
Tenho coração destroçado



De facto era difícil encadear esta rima de forma a impressionar a sua eleita, tinha que ser algo de especial, quase mágico, que a entontecesse, frases em que a paixão fosse tão evidente que a sufocasse.

Bem tentou mas a sua inspiração não ia além de um pobre verso de pé quebrado um pouco piegas, reconheceu, mas nem todos podem ser poetas. Ele, Adérito, era abegão e perito na sua arte.

Prantou-se frente ao espelho e fazendo ritmo com uma caixa de fósforos meia cheia ou, se preferirem meia vazia, entoou de forma esganiçada

Oh meu amor....meu amor
Não posso assim mais andar


O pobre cão não estava à espera e não suportou, latiu e fugiu desesperado antes que a casa desabasse.


Tomou nova posse e insistiu

Marcela estou à luz da vela
Com o coração   .......


A caixa de fósforos tentava, em vão, seguir o ritmo sem o conseguir, não por culpa dela, mas porque os soluços da voz não permitiam afinar qualquer som.

***

Levou quase toda a noite, estou estilos, poses e até chá de perpétuas roxas para aclarar a voz. Quando o cansaço venceu adormeceu em sonhos de Romeu sem Julieta, em serenata ao som de bandolins que traziam nos trinados dos acordes uma Marcela levitando como uma pétala de rosa que docemente ia poisar nas suas mãos trémulas.

***

Era sábado, o dia estava cinzento, nostálgico, quase feito para o amor.

Adérito sentiu a mensagem, o chamamento, o momento. Sabia que tinha chegado a hora.

Ao cair do dia ia avançar, tendo o lusco-fusco como aliado. Tomou posição debaixo da janela da sua eleita, os fósforos estavam prontos na caixa meia cheia, ou meia vazia.

Começou a aclarar a voz,  nuns arranques libertadores dos resquícios do tabaco, quando num repente São Pedro, talvez para não assistir ao assassinato das musas, abriu as comportas e o diluvio caiu impiedoso sobre os fósforos deixando a caixa empapada e a pingar.

Adérito, tal como a caixa, parecia uma esponja a gotejar.

Olhou com tristeza para a janela e pensou que não valia a pena, o destino não deixava.

Se tivesse coragem ia comprar uma corda.
Mas a paixão não era assim tanta.
Ia aguentar.





quarta-feira, 14 de março de 2012

Surreal

Quero agradecer a todos os que, nestas três semanas, me enviaram mensagens e mostraram preocupação pela minha ausência.
Estive fora por motivos pessoais, mas estou de volta feliz e orgulhoso pela maravilhosa amizade que vamos construindo neste espaço que partilhamos.
Muito obrigado







Quando surgiu, assim de repente, houve como que um arrepio a percorrer-me o corpo, não só pelo insólito da aparição como, também, pela forma estranha da figura.

Era surreal, um misto de mulher e de ave, o corpo era alto, esguio e de certa imponência, os braços, unidos ao corpo por grandes membranas, eram longos e terminavam numa espécie de garras, a cabeça oval enfeitada de plumas terminava num bico adunco, onde duas enormes narinas pareciam farejar tudo o que a rodeava.
Os olhos, cor de fogo, chispavam ódio.

Pousou com fulgor na procura de alguma presa, farejou o ar, escancarou o enorme bico e emitiu uma espécie de grunhido, esfregou com ímpeto as estranhas e enormes patas.

Fiquei, quase, paralisado e encolhido junto ao tronco de uma palmeira. Rezei baixinho na esperança de passar despercebido ao estranho ser. Quase não respirava.

O medo apoderou-se do mim, queria respirar e tinha receio.

De repente o monstro sentiu o cheiro, dilatou as narinas emitiu estranhos ruídos, as garras retesaram-se e um silvo medonho encheu o espaço.

Saltou na minha direção, estava perdido, só me restava combater.

Aguentei o embate, agarrei-lhe as patas e lutei. Rebolamos embrulhados num misto de plumas e de sangue, num esbracejar de fúria e ânsia.

Senti a queda, estava no chão do quarto embrulhado nos lençóis.

Respirei de alívio.





Grande pesadelo.


domingo, 19 de fevereiro de 2012

À primeira vista.....




Foi um caso de amor á primeira vista ou talvez, mais propriamente, ao primeiro olhar.

Vou contar, muitos não vão acreditar mas é a pura verdade. Juro!

Armindo entrou no café, olhou em redor como era seu costume e ficou, simplesmente, fascinado com a beleza da mulher sentada numa mesa ao canto da sala. Dizer que era linda seria um lugar-comum, pois havia algo que a tornava especial.
,
Os cabelos, em suaves caracóis, emolduravam um rosto angelical onde a delicadeza das formas e a luminescência que irradiava, o tornava diferente de todas que já tinha visto.

Olhou-a com intensidade e esperou um gesto, um olhar, um sorriso mas apenas o encanto para o inebriar.

Bebeu o café sem tirar os olhos daquela angelical criatura, que Deus lhe colocou no caminho.

Ela continuava impávida passeando o olhar por tudo e por todos, quase como flutuando como uma brisa que nos afaga.

Armindo estava como que aparvalhado, absorto, num fascínio que o deixava preso na figura que parecia desafiar os sentimentos.

Quis prender-lhe o olhar mas, ela vagueava num alheamento que o perturbava e lhe fazia ciúmes, parecia olhar para tudo e para todos sem nunca, de verdade, olhar para ele de forma fixa.

Estava ali há meia hora e, ela, continuava só, bebendo em goles pequenos e suaves um copo de coca-cola.

Podia esperar alguém, mas não parecia, não mostrava a ansiedade de quem espera, estava calma e serena.

Armindo reuniu toda a coragem, levantou-se, dirigiu-se à mesa e perguntou:

-Posso fazer-lhe companhia?

Não pareceu surpreendida, fitou-o antes de convidar:

-Faz favor, há uma cadeira vaga, não há?

Olhou-a bem no rosto, de perto, a beleza era mais resplandecente. Pele de veludo, olhos de um verde tão transparente que pareciam gotas de orvalho no brilho da manhã.

-Senhor, começou ela, será que todas as mesas estão ocupadas, ou sucederá que nos conhecemos e eu não me lembro?

-Não, gaguejou ele, foi para meter conversa e, confesso, porque estava doido para a conhecer!

O sorriso, era uma pura loucura, quase luminoso.

-Pronto senhor já me conheceu, espero não o ter decepcionado.

-Mas, arriscou Armindo, podíamos, talvez, sair e conversar.

-Sabe, disse ela, mas já me conhece, já estamos a falar, não acha suficiente?

Armindo ficou desarmado, não estava preparado para esta resposta mas arriscou:

-Percebe que este conhecimento, se me permite, é como um amor à primeira vista, é uma atracção que não sei explicar, olhei para si e achei que era especial, houve como que uma campainha que disparou dentro de mim, não sei expor. Gostava de a conhecer melhor, queria que me visse mais vezes pois, quem sabe, não me começaria a ver com outros olhos.

Ela nem pestanejou, aqueles olhos verdes pareciam duas esmeraldas, e quase num sussurro murmurou:

-Sabe senhor, nunca o irei ver com outros olhos, só tenho estes e, para meu mal, são cegos.

Abriu a mala, tirou uma bengala extensível e calmamente saiu para o sol que brilhava lá fora.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O dia em nasci







Não sei quem sou, ando perdido...

Num caminho que nunca escolhi...

Por mais que procure não me encontro...

Pela vida, decerto, fui esquecido...

Destroços, pedaços do que não fui...

Tristezas do que queria e nunca vi...

Amarguras que o tempo não apaga,,,

Tristezas pelo que tive e já não tenho,,,

Saudades dum abraço que partiu...

Das palavras lindas que já não escuto,,,

Dos sorrisos que iluminavam este negrume,,,

Procuro em vão, mas nada existe...

Só esta agonia que me embala...

Que alimenta a tristeza que devora...

No futuro que já tive, mas não tenho...

Quero adormecer de mansinho...

Num sono calmo que conforta...

Acordar num dia que há-de vir...

Morrer todo este meu passado...

Voltar outra vez ao dia em nasci.




terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Na praia





Eu vi… quando emergistes da onda como deusa das águas, cabelos revoltos em espuma, seios como promontórios de cumes rosados. Figura mágica de beleza que inebria.


 Eu compreendi … os olhos dos homens embalados pelo teu andar. A inveja das mulheres quando caminhavas na areia encharcada. Diva de corpo coleante, sorriso de marfim. 
   

Eu senti …. os teus olhos procurando os meus. Lábios de carmim húmidos de sensualidade, sorriso de Sol radioso. Beijo salgado que adoça a fome dos meus sentidos.


Eu entendi … o chamamento do teu corpo. Doçura de cabeça em descanso na almofada do meu peito. Corpo agitado, olhos ternos, boca ardente.


Eu percebi...o dia acabou a noite vai começar.






domingo, 22 de janeiro de 2012

Minha rica orelha ou uma coisa melodramática






Não sei se era o Sol que de repente começou a entrar pelas frestas da persiana, ou se era o cantar dos pássaros que em suaves trinados me iam despertando, A verdade é que abri os olhos com a sensação de não saber onde me encontrava.

Olhei com curiosidade tudo o que me rodeava, uns quadros na parede com motivos campestres que me eram, totalmente, desconhecidos e no tecto um candeeiro de vidrinhos que iam brilhando à medida que a luz ia rompendo a penumbra do quarto.

A pouco-e-pouco as ideias iam surgindo de uma forma difusa embora as minhas recordacões não me permitissem, ainda, descobrir porque estava a despertar num ambiente que me era desconhecido.

Tirei uma perna com dificuldade, o corpo doia-me e havia em mim um torpor desconfortante, mas a custo conseguí por-me de pé e cambaleando aproxime-me da janela para expreitar onde me encontrava. Foi com multo custo que conseguí levantar as persianas e olhar atravez de umas grossas grades que me separavam de um terreiro onde algumas árvores de fruto amenizavam a aridez do terreno.

Arrastando o corpo, onde todos os ossos reclamavam, tentei a porta do quarto que nem se mexeu, embora o meu muito esforço.

Voltei a sentar-me na cama a tentar recordar como vim aquí parar e o que podía ter acontecido para me encontrar nesta clausura. Voltei a insistir, mas a porta apenas me causava gemidos, à medida que os meus músculos se esforçavam na tentativa de fazer ceder a cortina que me separava do dia lá fora.

Aos poucos os vapores que me toldavam o cérebro estavam a libertar os meus pensamentos. Havia como que uma imagem difusa, a bebida, a mulher e aqueles dois homens que me ampararam quando tombei.
Depois uma escuridão que não me deixa ver mais nada.



Quando entrei no bar, senti o sorriso e aquele olhar eivado de promessas e o jeito dengoso de mil caricias.
Quando me perguntou se lhe pagava um copo, eu já estava naquela fase parva em que passei pensar com a parte menos adquada do corpo.
Afivelei o meu melhor sorriso antes de peguntar o que estava a beber.

Olhou-me, quase descarada, sorriso de mel escorrendo nuns lábios de cerejas maduras.

Ajeitou o corpo na cadeira e pestanejou antes de me responder:

-Estava a beber um daikiri mas bebia outro.

O empregado olhou-me esperando o meu assentimento.

-Traga dois por favor.

- Espere, eu vou buscar e coleou o corpo num jeito que me deixou embasbacado.


Voltou com os dois copos e poisou as bebidas, enquanto com um olhar doce me ia seduzindo.

Antes de pegar no copo, estendeu-me uma mão esguia e bem cuidada.

-Sou a Jenice e o senhor, se não me engano, é o doutor Seabra?

Mas, balbuciei:

-Como sabe o meu nome?

-Mas quem não sabe? O jovem mais desejado, o futuro herdeiro da família Galiano Seabra !

-Bom, muito me conta, e eu que pensava vir a um bar, beber um copo como qualquer, passando despercebido.

Não me estava a sentir muito bem, era a cabeça que girava de forma descoordenada.

Senti-me desfalecer e, ainda, me apercebi de uns braços fortes que me arrastaram antes da queda.

Depois, só o escuro.



Era isso! Foi a bebida que me drogou e agora estou encerrado neste quarto com uma porta à prova de arrombamento e com umas janelas com poderosas grades.

Só não sabia o motivo.

Alguém estava a abrir a porta, ia finalmente saber o porque desta clausura.

Era um gajo enorme, de tal forma que a pistola que empunhava parecia um brinquedo.

Deu-me um empurrão que me atirou, como se fosse uma folha,contra a parede.

Largou uma gargalhada perante a minha fragilidade antes de sibilar

-Ouça rapazinho mimado, vamos ver se os seus paizinhos largam o gito antes de cortar uma orelha do seu menino! Vão saber que não estamos a brincar. Têm dois dias para arranjarem a massa.

Deu uma gargalhada, deixou um prato de alumínio com algo que devia ser a minha refeição. Cerrou a pesada porta e, pelo barulho dos passos, afastou-se.

Era então isso, fui raptado e os velhotes estavam a ser pressionados para pagarem um resgate. Tinha que pensar, tinha que arranjar uma maneira de escapar. Mas como?

Estava entre quatro paredes, num quarto estranho, uma espécie de cela com uma cama, uma mesa redonda e uma cadeira com um forro desbotado, ao canto detrás de um biombo uma sanita e um pequeno lavatório.

Perscrutei o que a minha prisão me mostrava, para além das arvores mal tratadas, mas apenas me era dado um céu muito azul matizado com pequenos cirros.

Estudei as grades, mas além de grossas estavam bem entroncadas na parede de pedra pelo que seria impensável qualquer tentativa por este lado, restava a porta que parecia solida como um rochedo.

Comi o que me deixaram no prato, uma massa espapaçada com carne. Não sei se foi a fome ou se a cozinheira era boa, pois apesar de tudo estava saborosa.

Comecei num quase desespero e sentia o que os meus pais estariam sofrendo, se saberem bem o que deviam fazer. O meu pai era um grande empresário mas, ultimamente, era eu quem geria os  negócios, pois a sua saúde não era a melhor.

Mandar uma mensagem era impensável, pois tinham-me tirado o telemóvel.

As idéias andavam baralhadas no turbilhão no meu pensamento, fugir era impossível, mandar mensagem estava fora de questão . Alem de não ter telemóvel também não sabia dizer onde me encontrava.

Pensei, idéia louco, atacar o guarda quando ele voltasse a aparecer mas era tão grande e ainda armado que seria pura loucura ou suicídio.

Sentei-me no chão, ao canto da sala, cogitando uma solução.

Da fora, muito ao longe, escutei o barulho de uma mota, sinal de que havia um caminho não muito longe.

Lentamente ia escurecendo e eu sentia uma tristeza e impotência que me mantinha totalmente em alerta. Ouvi, novamente, uns passos que se aproximavam, o desespero tomou conta de mim. Olhei em redor e nada que pudesse servir de arma.

Abriram a porta e senti um grosso ferrolho que, certamente, a fechava por fora.

Era outro, também, grande e atlético como o anterior mas menos agressivo.

Disse boa noite, tirou o prato e deixou uma tijela de sopa e um naco de pão.

Tinha uns olhos frios e pouco amistosos, mas apesar de tudo não usou de nenhuma violência, apenas disse:

-Coma porque tudo se vai resolver. Deixou um sorriso tão duro que senti como se uma lâmina de aço me tivesse atravessado.

Senti o fecho a trancar a porta e uns passos a subir, ou descer, uns degraus. Depois o silêncio.

Tinha que agir depressa pois o tempo começava a jogar contra mim, não tardava e vinte e quatro horas estariam gastas e, essa ameaça, de cortar uma orelha podia ser a sério.

Foi uma noite de insônias, sonhos tenebrosos, um barbeiro com uma afiada navalha de barba corria atrás de uma pobre orelha. Tão estranho uma orelha separada do corpo.

Acordei cedo, ao longe ouvia um galo cantar, e o sol começava a despontar. Não sei as horas pois o meu relógio desapareceu.

A minha cabeça não parava na procura de uma idéia, algo que me ajuda-se a encontrar uma saída, uma pista para me libertar.



Uma ideia começou a florir na minha mente, era quase louca mas o que me restava afinal? Tinha duas alternativas, uma a mutilação, até mais certo a morte, na outra a esperança de lutar pela sobrevivência. Lembrei os meus pais o que estavam a sofrer, e de uma forma especial a minha mãe com todos os problemas de coração.

O plano era simples se eu conseguisse algo que servisse de arma, um tubo, um pau ou algo para dar uma pancada forte e pôr a dormir uma dos gorilas que me visitava.
Era isso mesmo, a cadeira, se eu conseguisse tirar uma perna era uma boa arma.

Foi uma tarefa difícil mas ao fim de algumas hora e a muito custo, consegui.

Era um bom pedaço de madeira dura que usado de forma certa e com força podia resultar.

Agora tinha que engendrar o resto do plano.

O que sobrou da, cadeira, foi para debaixo dos lençóis que juntamente com as almofadas davam a sensação de estar alguém deitado. Dei os últimos retoques e pareceu-me perfeito. Agora ia esperar ouvir os passos, esconder- me detrás da porta e rezar para que tudo resultasse.


Não tardou uns passos no exterior anunciavam a indesejada visita.

Entrou e gargalhou:

-Então o menino quer o jantarinho na cama?

Reuni toda a minha força e descarreguei, violentamente, a improvisada arma na cabeça do carcereiro. O pau partiu mas ele tombou como que anestesiado.

Retirei-lhe a pistola, fiz o lençol em tiras para o amarrar e amordaçar.



Era um corredor e estava vazio, tinha que me despachar antes que estranhassem a demora. Ao fundo uma janela, sem grades, dava para o terreiro das árvores que atravessei numa corrida, até uma estrada deserta.

Corri doidamente na esperança de um carro que me pudesse salvar. Apareceu uma carrinha, gesticulei desesperadamente até que o condutor parou.

A polícia conseguiu apanhar os três meliantes, dois homens e a tipa que compartilhou comigo a maldita bebida.

Minha rica orelha! Ufa!