sábado, 23 de fevereiro de 2008

Até um dia amigo.......

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Cão que não querias
Ser cão
E não lambias
A mão
E não respondias à voz.
Cão
Cão como nós

(Manuel Alegre)




Até um dia amigo.....

Eu sei que ele anda por aqui!
De noite, quando acordo, ouço o seu ladrar e, no escuro fico à espera de me ter enganado, mas não, é mesmo ele.
Tenho a certeza.

Não sei quando apareceu, apenas me lembro do ar forte mas medroso, do frenético abanar de cauda e da ternura do olhar.
Quando o tentei conquistar aproximava-se de lado como o cavalo que lardeia o touro.

Olho para o sítio onde tão bem sentia, no seu tapete amarelo, e ia jurar que estava lá. Tremendo, com os olhos semi-cerrados e as pernas dobradas numa, quase, impossível posição de contorcionista.
Era assim que ele dormia.

Quando, mesmo ao longe, ouvia o assobio respondia com um ladrar e não tardava aparecia e pacientemente esperava a refeição, não sem antes ladrar para o ar, a avisar que estava no seu território e que a comida que ali vinha era só para ele.

Quando ouço um discreto bater na porta, sei que é o vento, mas vou espreitar porque era assim que batia.

Para ele não havia obstáculos, entrava doidamente por sebes e arbustos se pressentia um gato ou qualquer inofensiva ave que se atrevia a aparecer aquando da sua presença. Era doido de todo. Os arranhões, depois, eram a marca da sua audácia.

Hoje ouvi lá fora aquele ganir de chamamento como quando aparecia a pedir comida ou apenas atenção.
Não resisti e fui espreitar.
Nada vi, mas tenho a certeza que qualquer coisa estava presente.
Fiquei arrepiado mas desejei, ardentemente, que fosse verdade.

Aquela pata operada, mais atamancada, nunca mais foi a que corria e saltava tudo. Ficou diferente, encovada e com o musculo atrofiado.
O Rex esquecia e mesmo com ela no ar corria sem saber que já não o podia fazer da mesma forma. A sua coragem a sua determinação e ousadia, esquecia tudo.

Sonhei que era sonho. Não foi abatido. Continuava a ser o nosso protegido. A Ilda continuava com as frigideiras mistas de comida e ração. Com a preocupação do amigo que a olhava enlevado como se ela fosse de verdade a sua dona. Se falasse e pudesse optar tenho a certeza que seria, ela, a eleita.
Acordei de forma estranha.
Senti um bafo quente na cara.

Aconteceu, a leishmaniose apareceu. As chagas tomaram conta do seu corpo e em poucos dias ficou velho. Deixou de ter festas, porque era difícil. Nada mais havia a fazer.
A solução foi dolorosa mas era o melhor para ele, pelo menos pareceu, pois ninguém lhe pediu opinião.
Para os homens a eutanásia é crime, para um cão as pessoas dispõem sem pedir o seu consentimento.

Agora, parece, que tudo acabou. Será que acabou? O Rex foi embora, ficou uma grande e grata recordação.

Eu sei que andas por aí, os campos continuam a ser teus, podes correr atrás dos gatos sem os molestares, podes tentar voar para apanhares os pássaros, podes finalmente ser feliz.



Vou continuar a sentir a tua presença. Os teus latidos, o teu andar desengonçado, as tuas loucas correrias, o teu olhar doce e toda a ternura que nos tinhas.

Vais continuar a ver as nossas lágrimas quando te recordamos.

Até um dia amigo.......

1 comentário:

AnaT disse...

Fiquei sem saber o que dizer...