terça-feira, 9 de Setembro de 2014

Mais um cigarro?









Começou a subir as escadas, pareciam muitas e as pernas começavam a sentir umas guinadas que as deixavam hirtas. Parou um bocadinho, encostado ao muro. Tinha o peito ofegante e o ar parecia que lhe ia queimando o peito.

Era do tabaco, ele sabia, maldito vicio. Já tentou algumas vezes mas não é fácil, esteve dois meses, sonhava com o cigarro, e um dia não aguentou mais, acabou de almoçar e vai disto, um cigarrito.


A primeira passa não soube bem, mas depois foi um prazer que o invadiu, até lhe pareceu que as ideias ficaram mais claras.

Agora estava a sentir os efeitos. Sentou-se num degrau, tirou a cigarreira e enfiou um no canto da boca, quando o fósforo o fez crepitar sentiu os pulmões serem invadidos, por aquele prazer inebriante e, parece que, as forças voltaram para o resto da subida.


Voltou à tarefa, parecia difícil, os degraus aparentavam estar mais empinados e, o efeito do cigarro não valeu de nada, as pernas continuavam hirtas e o peito, parecia pequeno para tanto cansaço.

Finalmente chegou ao fim, dobrou-se com as mãos apoiadas nos joelhos, boca aberta num arfar de peixe fora da água, mas não aguentou muito nessa posição, as pernas cederam, os braços perderam o apoio e, por instinto, defenderam a cara antes de tombar no empedrado da calçada.
 

*******

Foi um casal, ainda jovem, que lhe acudiu e o ajudou a sentar num degrau.

Devagar, muito mesmo, a cabeça deixou de girar, a névoa desapareceu dos olhos e conseguiu um sorriso muito ténue, antes de agradecer:


-Muito obrigado pelo apoio e ajuda!

Foi a mulher, muito nervosa, que sugeriu:

-Acho que devíamos chamar ajuda e ir ao hospital, teve sorte porque os braços protegeram a cara. Vou ligar para o 112!


-Não, respondeu aflito, não vale a pena, já estou bem, foi do esforço de subir esta escadaria. Estou bem, muito obrigado!

Agora foi o homem:


-Fica bem? Com a saúde não se brinca. Telefone a algum familiar, nós temos que ir.


-Muito obrigado, respondeu, estou totalmente bem. Deus lhe pague o vosso cuidado.


O casal afastou-se, iam olhando para trás, até que desapareceram na esquina.


Deixou-se estar sentado no degrau, apoiou as costas na parede e meteu na boca um cigarro, calmamente foi fazendo espirais de fumo até que o ultimo morrão caiu. Só depois se levantou e se meteu ao caminho, faltava pouco, a paragem do autocarro era já ali.

*******

O jovem casal ficou apreensivo, aquela imagem do homem a deslizar como boneco articulado e ficar estatelado como um morto, no duro da calçada, ficou a bailar nas suas cabeças, mas seguiram em silêncio.


A mulher rompeu a calma:

-Não me sai do pensamento o pobre homem, pensei que estava morto, nem calculas como fiquei, tive medo.

-Sabes o que me fez lembrar, disse o homem, o meu tio Xavier, morreu numa cena dessas. Baixou-se para arranjar os sapatos, baldou de frente e quando deram por ele tinha lerpado.

-Pois, disse a mulher, fomos uns inconscientes deixamos o homem à sua sorte, devíamos ter pedido ajuda, se o homem morreu somos, moralmente, responsáveis. Vamos voltar ainda pudemos ir a tempo.

-Mas vou fazer o que? Agora já passou!

-Eu vou, disse a mulher!

Voltou numa correria, era perto, mas do homem nada, tinha desaparecido como por encanto.

-Pois, suspirou a mulher, ou conseguiu ir embora ou alguém o ajudou.

Que mal procedemos, a culpa é tua que estás sempre apressado e não pensas nos outros. És tu e só tu! Às vezes penso como, ainda, encontro paciência para aturar as tuas madurezas egoístas.

-Mas que conversa é essa, gritou o homem, que culpa tenho eu que o velho tenha batido com os queixos no chão, se calhar estava bêbedo!

-És mesmo bruto, sibilou ela, não tens mesmo sentimentos, nem sei como consigo aturar todo esse egoísmo. Nem sei se consigo e, nem sei, se quero conseguir!

-Mas isso é uma ameaça, gritou ele, pensas que és uma santa quando não passas de uma convencida, dando sermões quando não tens moral para abrir a boca. Falas, falas e nunca te vi pegar na carteira para dares uma esmola a um pobre.

-Isso foi de mais, já estou farta de ti, nem sei como te tenho aturado, vai para o raio que te parta!

Empinou a cara e desapareceu, rua abaixo, fazendo ruído com os saltos, dos sapatos, na calçada.

Ainda se ouviram as ultimas palavras:

-Finalmente livre deste aborto!

*******

Malefícios do tabaco?

Talvez!

Afinal não faz só mal à saúde!




sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

O Medo






  

A noite estava muito fria e as ruas escuras quase desertas.

Não gostava mesmo nada de andar, na rua, nestas condições mas foi o trabalho que encontrou, na cozinha de um bar. Trabalhava muitas horas mas o ordenado compensava e era bem tratada pelos patrões.

Era difícil  passar a maior parte do dia fora de casa, longe da Ritinha, mas não tinha outro remédio, o pai bazou, mandava uma mesada para ajudar a filha, mas não chegava e tinha que ser ela porque à filha nada havia de faltar.

Antes de ir para o trabalho, deixava a menina no colégio e à tarde a vizinha, dona Rosalinda, ia buscar o neto e trazia a Ritinha. Era uma vizinha tão boa que nunca lhe conseguiria pagar tudo o que fazia por ela, nem uma mãe seria tão boa e tão prestável.

Tinha todos os dias, este trajecto, e nunca se sentiu assim tão insegura, e com tantos pensamentos negativos para as sombras que apareciam nos recantos das ruas. Tinha o sonho, de ainda, um dia conseguir juntar dinheiro para comprar um carro, mesmo velho. Desde que andasse! Fazia a viagem mais segura e, chegava mais cedo, a tempo de estar mais um bocadinho com a filha.

Apressou, um pouco os passos, mas foi pior, ficou com a sensação que alguém a seguia e também tinha aumentado o andamento. Olhou para trás e ninguém, nem vivalma, na rua, estava próxima do largo onde havia um café e havia sempre pessoas, mas com este frio se calhar estavam recolhidas.

Tinha que deixar este medo, afinal já fazia este trajecto há tantos dias, sem problemas, e tantos outros ainda ia ter pela frente e a ideia do carro, era isso, apenas uma ideia que se calhar nunca deixaria de o ser.

Ufa! Finalmente o largo, o café estava aberto, pelo menos tinha a luzes acesas. Ia entrar, não precisava mas ia, tinha que acalmar, comprava um chupa-chupa daqueles que deixam a língua colorida, a Ritinha adorava e, sempre acalmava os maus pensamentos que a assolavam. Se calhar foi por causa daquela notícia no jornal, do homem que perseguiu a ex-mulher e a tentou matar, mas disso estava livre ele é que se pirou, sem dar cavaco, e não ia aparecer de certeza. Tinha lá uma finória que o mantinha de rédea curta.

Este caminho, durante o dia, era fácil, até tinha transporte mas o ultimo autocarro era as 8 horas e a essa hora ainda estava a trabalhar.

***

O marido foi, ainda é, o grande amor da sua vida, conheceu-o num fim do ano na casa da Natércia, foi uma coisa que não sabe explicar, o coração saltou como se fosse uma mola, ficou numa agitação que nunca tinha conhecido, não sabe bem porque, ele é normal, tem um sorriso lindo e um bigode muito fininho por cima da boca, se calhar foi o bigode mas tem visto tantos homens com bigode e nenhum a perturbou dessa maneira. Ficou agitada o resto da noite até que, a Natércia, percebeu e perguntou:

-Que se passa Joana? Houve algum problema?

-Não querida, exclamou, estou bem! Quem é aquele tipo ali de bigode cinéfilo?

Natália percebeu e, com um sorriso cúmplice, disse:

-É o Beto, eu vou-te apresentar!

Corou desde as pontas do cabelo e só fui capaz de dizer:

-Que vergonha, não faças isso!

Mas ela fingiu não a ouvir, pegou num braço do Beto e apresentou:

-Beto! Quero apresentar-te a minha melhor amiga, a Joana.

Tinha um sorriso bonito e, aquele pequeno bigode, dava-lhe um ar romântico que a deixou com borboletas na barriga.

Falaram muito, nada de importante, mas falaram nos anseios, nos sonhos, nos planos e no futuro.
Quando ele a convidou para se encontrarem não ficou surpreendida, afinal era o que mais desejava.

Foram seis meses, de namoro intenso, e quando ela lhe disse:

-Beto, estou grávida!

Ele ficou nas nuvens, a alegria transbordou dos seus olhos, agarrou-a com muita ternura, e sussurrou-lhe aos ouvidos:

-Vamos casar já, não quero o nosso menino, ou menina, filho de pais solteiros.

Foi um casamento simples, família e os amigos mais chegados, Joana teve que se beliscar para ter a certeza que não estava a sonhar, mas era verdade, ia ser mãe e estava ao lado do homem da sua vida. Ela estava, totalmente, feliz.

Iam ter uma menina, era o que os dois desejavam, já tinham escolhido o nome, ia ser Rita.

******

Joana apressou um pouco os passos, afinal já não faltava muito, mais 15 minutos e estava em casa, enquanto caminhava todos esses pensamentos fervilharam na sua cabeça e, incriminava-se porque foi ela a responsável pela separação, era a única culpada, tinha que viver com isso.

Quando a Rita nasceu, sentiu que tinha conseguido, da vida, tudo o que desejava, mas esqueceu que o amor é um pouco como as flores, tem que ser regado para se manter viçoso
.
Descuidou-se, vivia para a filha e esqueceu que, também, tinha um marido.

Aquelas pequenas coisas que tornam as mulheres mais femininas deixaram fazer parte do seu dia-a-dia, a filha era o mais importante, para o marido deixou de ter tempo.

-Joana, dizia o Beto, hoje podíamos ir jantar fora e depois ao cinema, a minha mãe ficava com a Ritinha. Que dizes amor?

-Não, não pode ser! Não deixo a menina, pode acontecer qualquer coisa, vai tu ao cinema que eu fico com a nossa filha.

Beto não disse nada, amuou e ficou o resto da noite a olhar para a televisão.

A pouco e pouco algo foi desaparecendo, havia amor, mas a paixão não era suficiente para o alimentar, o diálogo passou a ser monocórdico, monótono cheio de ambiguidades.

Quando iam para a cama ela apenas levava o cansaço e adormecia, com olhos meio abertos e ouvidos à escuta, não fosse a Ritinha acordar.

*******

Foi na terça-feira, quando ia com a filha ao pediatra, consulta de rotina por causa dos dentes, que encontrou a Natércia que já não via há tempos, ficaram felizes eram amigas.

Natércia pegou na menina e não deixou de comentar como estava linda e crescida.
Parecia querer dizer algo mas estava ou, parecia estar, um pouco receosa, por fim atreveu-se:

-Que pena o teu casamento não ter resultado, eram um casal tão bonito e pareciam tão felizes!

-E somos! Exclamou Joana. Porque dizes isso?

-Se calhar falei de mais! Esquece amiga!

Deu-lhe um beijo, rápido, e desapareceu avenida abaixo.

Joana ficou apreensiva, não percebeu, mas entrou no consultório com a frase a martelar-lhe a cabeça, havia alguma coisa que precisava esclarecer.

O Beto chegou, às 9 horas, deu-lhe um beijo seco e perguntou:

-Posso por a mesa para o jantar?

-Não é preciso, já fiz isso, respondeu Joana, mas talvez me possas explicar porque é, que a Natércia me disse que era uma pena, o nosso casamento não ter resultado?

Beto pareceu ficar desconfortável, tentou coordenar ideias, ganhar coragem antes de responder:

-Ainda bem que aconteceu, assim podemos resolver de vez a nossa relação. É verdade! A Natércia viu-me com alguém, só é pena eu não ter tido a coragem de te dizer, podes chamar-me cobarde, mas não sou. Vou deixar esta casa, não aguento mais a nossa maneira de viver, não esquecerei os meus deveres para com a Rita, mas casei para ser fez e já não me sinto.
Vou arranjar as coisas de que mais preciso e vou embora. Desculpa, talvez a culpa seja minha, mas não consigo mais.
Encheu duas malas e uma mochila. Saiu pela porta por onde tinha entrada.
Joana não conseguiu chorar, foi tudo tão rápido.

*****

Não gostou deste reviver de memórias, sabia que tinha perdido o marido e agora, sabia também, que fora a única culpada, ele tinha razão, a esposa e amante que jurara ser, tinha esquecido que o amor é para repartir.
********

Começou a ficar preocupada, faltava pouco, mas na esquina, ao cimo da rua, estava um homem encostado à parede, com este frio a esta hora não lhe parecia normal. Não lhe apetecia voltar para trás e, dar uma volta enorme mas, estava com muito medo, se soubesse que alguém ia aparecer esperava, mas com este frio e a estas horas era muito difícil, as pessoas estavam recolhidas.

Ficou como paralisada, estática, numa espera nem sabe bem de quem.

Olhou para todos os lados e, nem réstia, só uma luz acesa, num terceiro andar do prédio, junto à esquina, se houvesse alguma coisa, decerto, se gritasse alto, alguém iria acudir.

Continuou a medo, quase terror, que aumentava à medida
que se ia aproximando.
O vulto mexeu-se e, vinha na sua direcção, pensou começar com um berreiro, mas o estranho acalmou-a:

-Joana, sou eu. Tenho tantas saudades tuas, será que ainda pudemos ter uma segunda oportunidade?  
Não consigo esquecer-te! Será que me podes perdoar?

-Oh Beto! Meu amor, não peças perdão, fui eu que falhei como mulher, como amante e como companheira mas aprendi e não vou esquecer esta lição.

Pegou-lhe no braço, esqueceu todos os medos e com carinho convidou-o:

-Anda meu amor, vamos para casa. Temos tanto a festejar!




quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

A nega









Vinha aos ziguezagues, punha um pé e ficava em suspenso como que 
a pensar aonde devia por o outro. Cambaleava como se o peso do corpo não estivesse distribuído.

De vez em quando, parava como se estivesse a analisar o ondular do passeio, parecia mesmo o mar, com ondas suaves mas que tão facilmente o desequilibravam.


Não, não pode ser! Só bebeu uma garrafa, de tinto, e ele não é homem para se deixe vencer com uma dúzia de copos.



Encostou-se a uma ombreira e esperou, que o chão,  sossegasse e que a cabeça se deixasse de rodopios.



Bebeu, reconhece que bebeu, mas não foi assim tanto, se calhar caiu na fraqueza, não comeu nada, não tem apetite.



Não era assim, sempre gostou de uma pinga, mas sem abusos, só para acompanhar algum amigo.



As coisas mudaram quando a Celeste, um pouco desvairada, lhe disse que estava farta e que se ia embora, tinha outros planos para a vida, não estava para aturar bêbedos, limpar porcaria e aturar ressacas de hálitos avinhados.



Ele nem queria acreditar, a Celeste, sempre tão calma e compreensiva com modos tão delicados, e, de repente, salta-lhe a mola e dispara em todas as direcções.



Mas ele não acreditou, aquilo passava, ia até ao tasco do Chibo e, quando voltasse, a Celeste, já estaria calma e mansa como sempre.



Hoje só ia beber um copito,  para molhar a garganta e depois comprar umas flores, quando chegasse a casa fazia uma surpresa e a Celeste, coração mole, esquecia as ameaças e tudo ficava bem.



Pensou! Lá pensar pensou, mas a seguir a um vieram outros copos, o cérebro embotou, as pernas deixaram de obedecer e saiu, como sempre aos tropeções, num ora cai ora não cai.

O caminho é o mesmo mas, agora, parece estar mais o serpentear de um qualquer carrossel.


Finalmente a casa, a porta estava a brincar com ele, pois cada vez que apontava a chave, o buraco da fechadura não ficava quieto, foi uma luta mas, mesmo emborrachado, ganhou. Depois de muitas tentativas conseguiu.

Só agora se lembrou das flores que afinal não comprou, não faz mal compra amanhã.


Afinal, a Celeste, cumpriu a promessa, não está em casa.      Não compreende como teve coragem, sempre foi um bom marido, nunca a tratou mal, sempre carinhoso, apenas aquele pequeno problema  e, depois, foi o desabar do mundo.


Sentou-se no sofá e adormeceu profundamente.


Acordou cedo e, felizmente, não sujou nada, o estômago  portou-se bem.



De repente, nem se lembrou da partida da Celeste, chamou por ela, e a falta de resposta deu-lhe luz à memória. Abalou mesmo!


Ele não era assim, bebia, como se diz, em sociedade, nada mais do que isso. Bebedeiras isso nunca!


*******
Foi num dia especial, faziam três anos de casados, ofereceu-lhe flores, fizeram uma festa a dois, foram jantar, ao restaurante preferido, e voltaram a casa enlevados para continuar mas, nunca lhe tinha acontecido, no melhor da festa o Horácio nada, mesmo nada, nega total.


Chorou, mesmo com lagrimas, e quase convulsivas, mas há coisas que o pranto não resolve.


Celeste foi compreensiva, animou, disse que era normal acontecer, já tinha lido, cansaço, stress, preocupações, mas era passageiro, não devia pensar nem empreender, deixar que tudo voltaria ao normal. Se volta-se a acontecer iam ao, médico, doutor Alegria, e ele resolvia o problema, sim era um pequeno problema, não iam pensar no assunto.


Mas ele não resolveu, fugiu, evitou, ia para a taberna, bebia e não pensava.

Chegava a casa arrastando o frustração e a bebedeira, caia no sofá e os problemas morriam com o sono.


De manhã fugia ao diálogo, adiava para mais tarde quando voltassem dos trabalhos.


*****


Agora estava só, até aqui fugia mas depois era a solidão que o levava.



Sai do trabalho e vai petiscar ao Chibo, com o petisco aquele tinto a que chamam vinho, depois é o inferno do caminho, dos tropeções, do praguejar com uma fechadura que não sabe estar quieta, depois uma casa vazia a cheirar a bafio, uma solidão que dói e uma saudade imensa.

Queria lutar, mas não tinha força era mais fácil assim, este deixa andar matava mas não o envergonhava.


Já pensou ir ao Doutor Alegria, jura que já pensou, mas não sabia o que dizer. Onde se viu chegar ao médico e ficar a torcer as mãos e as palavras não saírem.

Ou então ia dizer, senhor doutor, sempre deu mas, naquela noite, não deu nada. Que piada tinha isso, o médico ia pensar que o Horácio pirou dos miolos, ir com meias palavras, com enigmas, até iria pensar que estava no gozo.
Não conseguia, o melhor era beber uns canecos e deixar o mundo girar. 


Era sexta-feira, a tasca do Chibo estava cheia, amigos dos copos, hoje não faltavam. Foi uma noite e peras, na mesa chouriço assado, torresmos, azeitonas e pão, um pagava uma rodada, depois outro e mais outro, foi assim até que a terra deixou de girar, agora balouçava, parecia mesmo um baloiço.

Hoje a caminhada ia ser difícil, era um turbilhão, nada estava quieto, até os candeeiros dançavam na sua frente, as luzes pareciam cometas. Andou devagar, umas vezes no passeio, outras na estrada, confusão total, as pessoas quando o viam, mesmo ao longe, mudavam para o outro lado da rua.
Será que cheirava mal? Não! Todos os dias, antes de ir trabalhar, tomava um grande banho. São manias, cada um faz o que lhe apetece. Parou e ficou seguro a uma portada para ganhar coragem, mediu a distância, faltava pouco para chegar ao largo, mas parecia tão longe.


Mais uma aventura até à rotunda, ia caindo mas num gesto grotesco equilibrou-se numa perna e conseguiu ficar assente nos dois pés. Mais uns metros e, agora, era só atravessar.



Avançou e nem sequer olhou, um chiar de travões, alguém pelo ar que cai, com estrondo, três metros adiante.



O homem saltou do carro, aflito só gritava, matei o tipo, dei cabo do gajo, não tenho culpa ele atirou-se para a estrada!


O INEM não tardou, o homem estava mal tratado, mesmo inconsciente, mas vivo. 



********



Começou a abrir os olhos, era estranho não sabia onde estava, só se lembrava da tasca, se calhar morreu, pois estava  num escuro total, nem réstia de luz. Não deve ser o inferno embora tenha muitas dores, mas está confortável.



O braço direito não consegue mexer, está imobilizado. Passou a mão esquerda pelo rosto, está todo ligado, por isso não consegue ver, tem ligaduras até à ponta do nariz.


Uma pequena luz começa a brilhar no cérebro, foi isso, foi atropelado! Se calhar esta metido em sarilhos, ainda tem que pagar estragos nalgum carro. Era melhor ter morrido mesmo. Possa!


Sentiu uns passos muito suaves, pela voz devia ser uma enfermeira, perguntou como se sentia, disse que lhe ia tirar as ligaduras e, que amanhã, já podia receber visitas pois ia para a enfermaria.


Visitas, mas visitas de quem, a mulher deu à sola e os conhecidos só os da tasca e, desses, nem sequer conhecia os nomes.


A enfermeira. Era mesmo uma enfermeira, cortou adesivos e ligaduras, foi desenrolando devagarinho, até os olhos ficarem libertos, ele via mas não muito bem. A enfermeira explicou que à medida que fossem desinchando ia recuperando a visão, o braço estava partido, em dois lados, tinha que estar engessado e o tronco ligado por causa das costelas fracturadas.


O resto, disse ela, estava bem. Como se fosse pouco, a cara num bolo, um braço partido e três costelas fracturadas. Que lata o resto estava bem, como se ainda fosse pouco.
Perguntou-lhe quando podia ir para casa, disse que ainda era cedo o médico é que iria decidir mas, só, depois. 


No dia a seguir, levaram-no numa cama com rodas e deixaram-no numa enfermaria com mais três homens que não conhecia.


Um tinha caído de um andaime, partiu as duas pernas, outro estava tão ligado que só se lhe viam os olhos, caiu da mota a 120 quilómetros e o terceiro, um idoso de olhos azuis muito vivos, que apenas sorria. Nunca chegou  a saber o que tinha.


As visitas foram às três horas e, surpresa das surpresas, com um embrulho, na mão, apareceu a Celeste, linda, preocupada e com um sorriso tão encantador.



Deu-lhe, cuidadosamente, um beijo suave nos lábios. Depois chorou, disse do susto que apanhou quando a polícia telefonou a dizer do acidente.


Veio todos os dias, ao hospital, mas só hoje permitiram visitas, achava que tinha culpa do acidente, porque o tinha abandonado, mas tinha voltado para casa, agora tinha que prometer que se ia tratar.


Jurou que sim, logo que tivesse alta, ia ao doutor Alegria.


Dr. Alegria não, disse ela, tinha tudo tratado, falou com o médico do hospital e ele deu-lhe uma carta para o doutor Caramelo, um dos melhores andrologistas do país.


Horácio pensou abençoado atropelamento. Graças a Deus!



Afinal um acidente nem sempre é um desastre, nem um fim, pode ser um princípio.



Está todo partido, mas tudo vai endireitar, vai recuperar a sua vida.









quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Um livro de capa amarela







Há uns tempos que sente um certo desconforto, não é propriamente um dor, mas um mau estar, um adormecimento que o deixa numa total apatia. Quer e tenta, mas parece que o corpo se nega como se tivesse ausente.

Um dia destes tem que ir ao médico embora, pense, que é apenas cansaço, tem trabalhado de mais.

Ainda se tivesse apetite, mas não consegue tolerar a comida, o estômago rejeita como se não tivesse espaço para o quase nada que ingere.

Este fim-de-semana, que há tanto tempo deseja, vai ficar na cama até que o corpo a rejeite, vai dormir como se o acordar não existisse.

Afinal foi como nos outros dias, acordou às mesmas horas e com as mesmas dores no corpo, ainda tentou voltar-se para o outro lado e fechar os olhos, mas de nada valeu, o mau estar ganhou. Ia tomar banho, se calhar fazer a barba, bem precisava e, sair assim um pouco ao deus dará. Primeiro um pequeno-almoço na pastelaria do Hermenegildo, tinha uns croissants recheados com chocolate a que não sabia e, não queria resistir, só tinha dúvidas se acompanhava com uma grande chávena de café ou, se calhar, um bom copo de sumo de laranja. Bom, logo via!

A pastelaria, o que não era normal, estava quase vazia, apenas um casal idoso no canto mais afastado e na mesa, ao pé da montra, uma mulher, linda! Totalmente absorta nas paginas de um livro de capa amarela. Cabelos negros, graciosamente disposto em suaves caracóis caídos pelos ombros.

Puxou uma cadeira, propositadamente, com algum ruído e resultou. Tirou os olhos do livro e brindou-o com um sorriso que lhe paralisou o pensamento, lhe deixou uma tremedeira nas pernas, mas, felizmente, não lhe tolheu a voz:

-Bom dia menina, com esse sorriso vou, de certeza, ter um dia muito especial.

Agora ela não sorriu, deu uma cristalina gargalhada, e com o voz mais doce que alguma vez ouviu, respondeu:

-Graças a Deus, espero bem que sim!

Tinha sotaque num português, açucarado, do Brasil, olhos gaiatos numa cor indefinida, entre avelã e verde, pareciam mudar a cor consoante a expressão, mas era linda. Tinha que insistir, não podia perder a oportunidade que o destino lhe estava a oferecer:

-Sabe, insistiu, para o dia ser perfeito só preciso que me deixe sentar, ai, ao pé de si a tomar o meu pequeno-almoço.

-Oi, não seja por isso! Pode tomar o seu café da manhã à vontade, a mesa é grande!

Era linda e alem disso, muito simpática.

Começou a ficar sem jeito, a forma simples e despretensiosa como encarou a sua ousadia,  a maneira como arrumou o livro fez antever que ia ser companhia.

Sentou-se, olhou o livro da capa amarela, obra antiga de Pearl S. Buck, A Promessa, não era muito normal nas mãos de uma menina que não devia ter mais de 25 ou 26 anos. Aproveitou o livro para alimentar a conversa:

-Esse romance é muito antigo, é curioso estar a ler essa obra.

Pareceu ficar com um leve rubor na face o que ainda acentuou mais o seu encanto, fez um leve trejeito com a boca antes de responder:

-Eu não sei mesmo quem é esta escritora, mas estava lá na estante do meu avô e a capa amarela me atraiu. Estou gostando mesmo, é uma história de um jovem chinês, mas passado há muito tempo, mas muito bem escrito.

Bebeu as palavras, deixou a música do sotaque invadi-lo numa doce dormência.

-Então está a deixar esfriar o café? Perguntou com um sorriso trocista.

-Oh….gaguejou, os seus olhos fazem-me esquecer do resto!

Depois ficou arrependido, afinal mal a conhecia e estava a arriscar de mais. Teve  sorte, ela achou graça e sorriu:

-Obrigada, mas agora é hora de tomar o seu café.

Foi assim que começou, numa manhã que pouco ou nada prometia e, de repente, um livro de capa amarela transformou no principio de tudo, como se o passado fosse apenas uma leve recordação.

Saíram os dois, naturalmente, como dois amigos de há muito.

Era portuguesa nascida, algures no Alentejo, foi para o Brasil tinha dois anos e por lá ficou 22, era, como dizia, meia-meia, coração dividido.

-É um pouco complicado, sabe?

-Não sei, disse ele, mas temos o dia para falar e contar tudo para eu perceber.

Foi linda a gargalhado que ela soltou, antes de dizer:

-Bom! O dia todo é demais, um tempinho podemos aproveitar, pois estou gostando da companhia.
*****

Seguiram avenida abaixo, risadas, pequenos e casuais toques de mão. Uma cumplicidade que parecia grande mas, era apenas feita de um disfarçar de emoções, de uma atracção que queriam disfarçar.

Sentaram-se na esplanada à beira mar.

Ele estava a ordenar as ideias, um pouco sem jeito, as coisas estavam a ir tão depressa que se sentia desconfortável nas palavras.

-Então, continuou ela, me chamo Carolina, nasci numa pequena aldeia perto de Beja e, não sei porque, nunca me contaram, os meus pais se desentenderam e a minha mãe pegou em mim e abalou para junto de um irmão que trabalhava no Brasil, voltou  a casar e foi assim que cresci, estudei e vivi sempre na Bahia.

-Há dois anos, o meu padrasto, teve um acidente e morreu, mamãe ficou muito abalada e resolvemos voltar para Portugal.

-Eu gosto de Lisboa, estou a preparar a tese do mestrado e sou advogada estagiária numa sociedade de advogados.

-É tudo, sou assim, descontraída, gosto de conviver e tenho pena de não conhecer o meu pai, mas a mãe sempre escondeu.

Ele estava fascinado, a forma alegre como se expressava  toda a doçura nas palavras e, sobretudo, a naturalidade como desnudava um pouco da vida perante um, quase, desconhecido.

Tinha que compartilhar, devia ser sincero como ela estava a ser.

-Pois, eu, sou uma espécie de desenraizado!

-Credo! Exclamou ela, que é isso de desenraizado?

-É uma forma de dizer, pois, sou alguém que com 23 anos ainda não se encontrou. Acabei, este ano, o meu curso de biologia e não tenho projectos nem ambições, sou saudável mas sinto-me doente, apático, quase inútil.

-Quase como tu, não conheci o meu pai, foi embora tinha eu dois anos, diz minha mãe.

-Parece que nunca voltou e, confesso, ninguém sentiu a sua falta.
A minha mãe, advogada como tu, foi capaz de ser uma maravilhosa mãe e, só em pequeno, senti a falta de um pai, depois habituei-me e não dei pela falta. Temos muito em comum e se Deus quiser podes ser a minha musa inspiradora para a minha existência e, finalmente, ter um objectivo.

-Isso é uma declaração? Ainda nem sei o teu nome e já sinto uma espécie de galanteio!

Ele corou, mas gracejou:

-Foi de propósito, pensei que tinhas notado que tenho cara de Horácio!

-Horácio? Gosto mesmo tá?

-Ainda bem que gostas, porque foi mesmo uma declaração.

As horas passaram tão rápidas que quando deram por isso estavam na hora das despedidas.

-Amanhã então me telefona? Perguntou Carolina. O meu nome, é mesmo, Carolina Beldroega, não é muito bonito mas é muito original.

Horácio pareceu surpreendido com o nome, fez uma cara estranha e não se conteve:

-Como é mesmo o teu nome?

-É mesmo Beldroega tal como o meu pai, está na minha cédula, filha de Joaquim Ezequiel da Silva Beldroega e de Maria Constância Matos.

Horácio não parecia feliz, deu-lhe um leve beijo na face e foi saindo:

-Ok, eu amanhã telefono!

********


Saiu correndo a caminho do carro, as lágrimas queriam romper mas ia mordendo os lábios para não chorar, ele sabia que nunca iria telefonar.
No seu bilhete de identidade o nome do pai era, também e exactamente, Joaquim Ezequiel da Silva Beldroega.

Não podia ser coincidência, não, não, não há coincidências assim.





quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

A Casa das Açucenas - Final







Apenas porque me pediram, fiz uma segunda parte.

*******


Voltei passado um ano, a casa estava reconstruida, já não era a casa assombrada, canteiros de lindas açucenas davam-lhe um novo nome.


****

O desejo foi maior que a vontade e tive que voltar, jurei que seria a última vez.
Já ia um ano passado mas as saudades não me deixaram enterrar o luto e manter, apenas, a doce recordação.

Foi numa quinta-feira, estava calor como nos dias em que nos sentávamos, à beira mar, e apenas deixávamos falar o silêncio, olhávamos o mar e, eu, tentava adivinhar os pensamentos daquele olhar perdido num horizonte distante. Não o queira perturbar mas, por vezes, em tom de brincadeira, dizia-lhe:

-O meu reino pelos teus pensamentos.

Abria um sorriso e a resposta era sempre a mesma:

-Não ias gostar, são más recordações.

Voltei à casa, nem sei bem o que esperava, talvez só matar saudades.

Era a mesma e parecia tão diferente, as açucenas não estavam ainda floridas mas, nos canteiros, já se conheciam os pequenos botões prestes a florir.
Estava pintada de branco, os frisos que a contornavam e à volta das janelas, um rosa claro dava-lhe um ar, quase romântico.
Em cima, entre as duas varandas, um painel pintado destoava no conjunto, um pouco estranho, alguma alegoria que ia alem da minha imaginação.
Era oval, entre o sacro e o profano, como figura central a representação de um anjo vingador ou, talvez, uma gárgula pronta a voar no emaranhado de símbolos que a contornavam.
O painel era bonito mas pouco adequado, estava fora do conjunto.

Um último olhar, uma despedida, tentar acabar um luto.

Entrei na mercearia, ia comprar um pacote de bolachas, pretexto para uma ultima conversa.
A senhora, por detrás do balcão, parecia perdida em pensamentos, olhou-me sem ter certezas.

-Boa tarde, deixei cair, queria um pacote de bolachas torradas!
Já não se lembra de mim, pois não?

-Agora já, respondeu, era o namorado da Clarice.

-Não era não, com muita mágoa mas não, ela apenas me aceitou como amigo, nada mais.

Pareceu ficar confusa.

-Eram os traumas, acrescentou, há feridas que demoram muito a sarar. Ela ainda vivia no medo, afinal foram três anos de sofrimentos.

-Mas que aconteceu? Perguntei curioso.

-Julguei que sabia, respondeu, e só lhe vou contar porque a Clarice já cá não está.

Ela viveu três anos com alguém que a maltratou, lhe deixou marcas profundas. Um malandro que nunca trabalhou, viveu às atenças da coitada e os únicos carinhos eram maus tratos e tareias que ela escondia. 


Um dia, entrou por aquela porta a pedir socorro, o malvado tinha exagerado, estava toda negra.
Ela não queria mas, chamei a polícia, levaram-na para o hospital, esteve três dias internada.

O patife esteve detido algumas horas, voltou para casa como se não fosse nada com ele.

Quando voltou, o malandro, estava à espera e pronto para voltar ao mesmo. E voltou, descarregou na pobre as horas que esteve detido, ela gritou os vizinhos acudiram e deram uma sova, no maldito, que serviu de emenda, nunca mais apareceu por aqui, mas perseguia-a onde quer que fosse.
Um dia, num Centro Comercial, tentou uma agressão, foi detido e um juiz proibiu-o de se aproximar, num raio de 600 metros, se reincidisse era preso.
Nunca mais se viu por estes lados.

-Obrigado por me contar tudo isso, agradeci.

Sabe como se chamava o pilantra?

A mulher pensou, um bocado, antes de responder:


-Era Eduardo e o apelido, deixe-me lembrar, era um pouco esquisito. Deixe-me pensar um bocadinho. Ah...já sei! Era Eduardo Bidão, imagine alguém com esse nome, mas eu ouvi quando a policia o levou para a esquadra.

Agradeci e despedi-me do local, não pensava mais voltar.
Só depois reparei que acabei por não levar as bolachas.

Abri a oficina mais cedo do que o costume, tinha um carro para entregar hoje e a tarefa ainda estava atrasada.

Estava a correr a porta ondulada quando um VW Polo, verde, passou em alta velocidade. Lembrei-me de alguém que com um carro igual apareceu na minha vida e a deixou marcada para sempre. Foi, então, como um “flash” que, uma ideia, trespassou na minha frente.                                  
E porque não? Pensei.

Acho que a polícia foi demasiado permissiva, tinham o elo mais fraco, não precisavam de mais nada, terminaram uma investigação com a prisão do maior de todos os inocentes.

*******

Tenho um plano, não será fácil mas é um princípio.
Vou começar, tenho passos a dar, um de cada vez.
Vou começar pelo Google, pode aparecer no Facebook, Linkedin, Twitter, Instagram ou em qualquer rede social.

Tive alguma dificuldade, não sou muito versado nessas coisas da internet, mas com a ajuda do meu sobrinho, era muito mais fácil. 

Foi um fim-de-semana de pesquisas mas, no fim, apenas resultou o desalente, nada nem ninguém para uma pista.

O Nuno, meu sobrinho, viu o meu desalento e perguntou:

-Tio porque quer encontrar esse sujeito?

Menti, não devia, mas menti quando lhe respondi:

-Foi um meu camarada da tropa e gostava de o encontrar!

O Nuno insistiu:

-Então deve ter telemóvel, hoje todos têm, porque não vai às companhias perguntar.

-Que grande ideia, exclamei, dá cá um abraço, és um génio!

*****

Tenho amigos, conhecidos, e até clientes nas principais operadoras, vou avançar.

Não foi fácil, não era permitido, tinham receio, havia sempre uma desculpa até que um me deu esperança. Estava com contrato a prazo que ia acabar em breve, se renovassem não arriscava, mas se não, podia contar com isso, aliás,  já tinha encontrado alguém com esse nome.

Pela primeira vez, na minha vida, fui egoísta, não queria, mas desejei que não lhe renovassem o contrato.

O azar de uns é a sorte de outros, já tenho o telemóvel e a morada de um tal Eduardo Bidão.

Agora ia procurar certezas, como? Não sabia mas ia encontrar mesmo que fosse a última coisa a fazer na minha vida.

Cedo fui procurar a morada, em frente um pequeno café, meia tasca, onde entrei. Pedi uma bica, meti conversa com o rapaz que estava ao balcão:

-Não vinha há muito a este sítio, mas é grande e está muito desenvolvido. Ando a ver, estou à procura de casa e este zona até não me desagrada.

O rapaz sorriu, olhou para os lados antes de responder:

-Quer um conselho amigo? Há sítios melhores, este à noite não é assim tão seguro, eu trabalho aqui mas felizmente moro longe.
Agradeci:

-Obrigado pelo conselho e, a propósito, conheci há anos, por aqui, um Eduardo Bidão, mas nunca mas o vi.

Pareceu ficar inconfortável:

-O Bidão mora aqui em frente, ainda deve estar na cama, mas não é grande companhia.

-Mas ainda mora aqui?

Respondeu:

-Mora infelizmente, esteve uns três anos, ou mais, a viver com uma gaja, mas parece que ela correu com ele e voltou para chular a velha. Está a dormir de certeza, tem a moto estacionada em frente da porta. Aquela Yamaha é dele.
Mostrei o melhor sorriso:

-Obrigado amigo pela simpatia e sinceridade, vou seguir o seu conselho e vou procurar noutro sítio.
Paguei o café, com um euro, e deixei o troco.

Fui para o carro, dei a volta e fiquei em posição de ver quem entrava ou saia daquela porta.
Eram 11 horas quando um tipo, com ar petulante, abriu a porta e se dirigiu para a mota. Com toda a discrição tirei, com o telemóvel, uma foto antes que ele arranca-se com muito barulho à mistura com fumo escuro.

***

Fiquei nervoso, o meu coração batia de forma desordenada, arranquei com o carro e fui direito à mercearia.


A senhora quando me viu, tirou debaixo do balcão um pacote das bolachas e com um sorriso exclamou:

-Estão aqui! Ainda cheguei à porta mas não fui a tempo.

-Obrigado, mas não vim pelas bolachas. Quero pedir um favor, vou-lhe mostrar uma foto para ver se conhece.
Mostrei a fotografia.
Pareceu que viu o diabo, fez uma cara que ficou mais feia do que era na realidade.

-Conhece?

-Se conheço, muito bem, o maldito e a moto barulhenta. Mas como conseguiu essa foto? Perguntou.
Virei costas e, enquanto saia, fui dizendo:

-Tenho os meus truques,  volto breve e conto tim por tim.


    ******

Fui para a oficina, fechei-me no escritório a tentar por as ideias no sítio. A minha cabeça estava num turbilhão, tudo encaixava na perfeição.
Era ele, a foto e todos os factos confirmavam, tinha motivos só faltavam as provas e já passou tempo demais para a policia abrir o processo e encontrar indícios.

Só tenho duas soluções, não penso mais e acabo com a raça do tipo ou arranjo, o que parece difícil, uma confissão.

Quando dei por mim era noite, o pessoal já tinha saído.

******

Dormi mal, sonhei com uma mulher envolta numa luminosidade que não deixava descortinar o rosto e com voz ciciante apenas repetia, é ele mas já perdoei, faz o mesmo.

Levantei-me com a cabeça como se estivesse numa ressaca, sentia latejar as têmporas e zumbidos nos ouvidos.


O pequeno-almoço e um café, forte, ajudaram.

Ia usar, pela primeira vez, os conhecimentos da prisão.

Contratei o Chico da Velha e o Mãozinhas para roubarem a mota que deveriam deixar nas traseiras de um barracão que eu lhes indiquei, paguei 500 Euros, 250 agora e o resto com a entrega.

Os gajos eram mesmo bons, no outro dia, às 4 da manhã, a mota estava no local combinado, paguei o resto, agora era por minha conta.

Deixei passar três dias.

Liguei, por telefone não identificado, o fulano atendeu-me mal, ordinário, mas lancei o meu argumento:

-Bom, se quer desligar, desligue, estou-me cagando a mota não é minha!

-Pare ai pá, o que sabe sobre a minha mota?

-Saber não sei nada, encontrei-a abandonada e telefonei para a Direcção Geral de Transportes onde disseram que a Yamaha é sua.

-E como está a máquina, esta boa?

Fiz voz de irritado para responder:

-Você foi malcriado, eu gastei dinheiro numa chamada, se calhar vou deitar esta trampa para a sucata.

O tipo ficou mais manso que um borrego, tremeu a voz, estava quase a chorar, o que me estava a dar um certo gozo:

-Amigo, desculpe a confusão, mas tenho andado marado com isto, fico azedo mas não sou assim, sou mesmo um gajo porreiro.

-Bom, respondi, assim está um pouco melhor!

Pareceu ganhar um novo alento e arriscou:

-Onde posso ir levantar a minha máquina?

Desliguei o telefone, como se a chamada tivesse caído, quis sentir o sabor da frustração de quem estava no outro lado.
Esperei 20 minutos e voltei a ligar, atendeu logo, senti-lhe o nervoso na voz, fiz uma pausa antes de responder ao estou desesperado.

-A chamada caiu, acabou a bateria e tive que por à carga, assim já gastei duas chamadas.

-Não se preocupe, respondeu, eu pago. Mas onde está a mota?

-A mota está bem mas num sítio um pouco difícil, nem sei como lhe dizer o local, quem não conhecer tem muita dificuldade em encontrar, mas amanhã tenho que ir lá e se quiser pode ir atrás de mim. Se quiser?

-Mas não tenho transporte, só possuo a mota. Pode dar-me boleia?

-Não gosto muito de dar boleias, a desconhecidos, mas vou abrir uma excepção, amanhã, as 11 horas, vou ao meu armazém se quiser aproveitar!


-Agradeço muito, é um grande favor. Onde posso esperar pelo senhor?

-Conhece a Cervejaria dos Rouxinóis?

-Quem não conhece? Conheço e bem!

-Então amanhã cerca das 11 passo por lá, num jeep Cherokee. 

-Nem calcula as saudades que tenho da máquina!
Obrigado amigo, nem sei como lhe agradecer!


*******

Lá estava, especado em frente à cervejaria,  calças de ganga e uma

t-shirt com uma imagem dos Guns N'Roses, aparentemente não tinha nada para me preocupar.

Correu para o carro e alapou-se com a maior naturalidade, parecia fazer parte da família, disse:

-Bom dia, desculpe lá esta maçada.

De vez em quando, eu notava, mirava-me de través. Até que se atreveu:

-Desculpe não sei o seu nome, mas olho para si e fico com a ideia que já o vi antes ou então é parecido com alguém que conheço, mas deve ser impressão minha.

-Deve ser impressão, respondi, estive muito tempo fora e voltei há pouco.

-Sabe, insistiu ele, não sou muito bom nessas coisas de fixar as pessoas, mas já sei qual a minha confusão, o amigo é parecido com um gajo, que nunca vi bem de perto, mas que tentou roubar uma namorada que eu tive.

-Então não sou eu, respondi, nunca roubei nenhuma namorada. Disse que tentou, logo não conseguiu o que é bom.

-Eu nunca iria deixar, isso é que era bom! Aquela era especial ninguém ma podia tirar, ela sabia que ou era minha ou não seria de mais ninguém.

Fiquei calado, refreei a gana de o estrangular mesmo ali, mas não valia a pena, deitaria a baixo o meu plano, a vingança serve-se fria.

Chegamos, quando viu a mota parecia doido, andou à volta, passou a mão a acariciar, olhou os pneus e, finalmente sentou-se.

Olhou-me e perguntou:

-Quanto lhe devo do telefone e de todas as maçadas.

Fiz o sorriso, mais forçada de toda a minha vida, antes de responder:

-Pode ir à sua vida, não me deve nada.

Arrancou com algazarra deixando, no ar, aquele fumo negro.

Meti-me no carro e fui à minha vida, a mota estava preparada, eu mesmo o fiz, quando atingisse as 6.000 rotações tinha um dispositivo, que rebentava, e pouco ou nada se iria aproveitar dela e dele.

Agora já podia descansar!