terça-feira, 3 de março de 2015

Ti Alfredo






Todos o tratavam por mestre Alfredo, mas nunca me habituei e para mim era, e será sempre, o Ti Alfredo. Forma maIs carinhosa. O mestre era um pouco o continuar duma profissão onde, diziam que era exímio, mas um pouco impessoal para quem fazia da vida uma festa.

Começou, quase com o nascer dos dentes, na oficina do pai e ali ficou até que as mãos o atraiçoaram e deixaram de obedecer. Artrite! Disseram os médicos, talvez seja mas eu acho que não é bem isso, talvez seja inveja dos deuses porque aquelas mãos faziam milagres, segundo diziam.

******

Foi numas férias, de verão, em que nas noites de calor me sentava, com o meu avô, à porta da casa para aproveitar a ligeira aragem que, às vezes, aparecia para amenizar o calor do dia.

As pessoas, que retomavam do trabalho, passavam e deixavam um:

-Boa tarde! Arrastado no compasso das botas que entoavam no empedrado. 

Para um citadino tudo era estranho, todos se conheciam, e cumprimentavam como se fizessem parte da família.

Pois foi num desses serões que o homem apareceu, era conhecido do meu avô, amigo de longa data, talvez, amigos, desde sempre.

Olhou-me com ar interrogador.

-É o meu neto, disse o avô. Está de férias e gosta muita cá da aldeia!

Depois pediu-me para ir  buscar uma cadeira para o mestre Alfredo. Obedeci, com agrado, gostei do homem e estava curioso e, além disso, era mestre.

Olhei e escolhi um local onde o piso estivesse mais nivelado, coloquei a cadeira e disse-lhe:

-Pronto senhor Alfredo aqui está a cadeirinha.

-Qual é a tua graça? Perguntou-me.

Fiquei sem saber o que responder, para mim até achava que não tinha muita graça mas,  o meu avô, percebeu a minha timidez e veio em meu auxílio:

-Não entendestes o mestre Alfredo? Quando perguntou a tua graça queria saber como te chamas!

Muito intimidado respondi:

-Sou Marco! Peço desculpa, senhor Alfredo, mas não sabia que graça era o mesmo que nome.

Reparei melhor no homem, tinha uns olhos muito vivos e um leve tique que o fazia franzir com frequência a testa.
Alto e muito magro, mas o que mais me impressionou foram as mãos, muito deformadas, mal as podia abrir.
No resto parecia boa pessoa e engraçado no falar, e foi com muito espirito que me respondeu:

-Sabes Marco que, graça e nome, não são a mesma coisa mas é como se fossem. Aqui o Ti Alfredo vai explicar. Antes, os senhores importantes, eram tratados de vossa graça, por isso agora quando perguntamos qual é a sua graça estamos a fazer a pessoa importante. É só isso! Percebes?

Abanei a cabeça em sinal de concordância, enquanto fui pensando em voz alta:

-Já percebo porque é que o avô o chama de mestre. Foi professor, não foi?

Agora foi o meu avô a responder:

-Foi professor mas não como tu pensas, foi mestre na profissão que escolheu.

-Ah....respondi, o que é que fazia?

-Nada de especial, respondeu. O teu avô, grande amigo, exagera um pouco. Eu fazia uma espécie de casas, nada importante, mas fazia bem e com muita arte. Trabalhava a madeira, de forma muito especial, fazia em relevo desenhos onde deixava transparecer, um pouco, a personalidade, a profissão ou até os sonhos do futuro morador. Sabes Marco, abusei e o empurrar, constante, do formão acabaram por fazer o resto, os ossos das mãos foram deformando e o resultado é este.

Mostrou o que restava, não era bonito de ver, os dedos estavam como ramos secos e enrugados.

Estava impressionado, mas não sabia que dizer, arrisquei em laia de consolação:

-Pois é pena mas deixou muitas pessoas felizes, com as casas que lhes fez!

Pareceu-me sentir um sorriso, descolorido, mas deve ser confusão minha. Mas ouvi:

-Pois é Marco, não sei se ficaram felizes, ou não, porque nunca ninguém se queixou!

Agora vi bem, o homem olhou e sorriu para o avô.

Depois foi um desenrolar de histórias, sobre coisas e pessoas que eu não conhecia. 


Deu-me o sono, pedi licença e fui-me deitar.

******

Ainda tinha oito dias de férias e, começava a ficar ansioso com o aproximar do fim. Era sempre assim, quando o tempo começava a fugir. Havia uma angústia que se apoderava de mim, só desejava que as horas fossem mais longas, que o Sol, apesar de impiedoso, não deixasse chegar a noite.

O serão, feito à porta, a ver quem passava e, a escutar, as histórias do Ti Alfredo, cheias de peripécias, coisas rocambolescas e, penso eu, muita invenção.

Não acreditava em tudo, acho que ele inventava para me manter entusiasmado, mas já tenho doze anos e percebo quando é verdade ou é inventado.

E ele inventava muita coisa. Mas tinha graça, lá isso tinha!

Os dias passaram sem quase dar por isso, um aperto no coração dizia-me que depois de amanhã me iriam meter na camioneta  da carreira com destino a Lisboa.

Era sempre assim, o motorista, ainda parente da família, tomava conta de mim, até à chegada onde alguém me iria esperar.

Foi mesmo na véspera, o meu avo chamou-me de lado, estava um pouco transtornado, nunca o tinha visto assim.
Segurou-me pelos ombros para me dizer:

-Não sabia se te devia dizer ou não, tive muitas dúvidas, uma parte queria mas outra dizia-me que não. Mas acho que és um rapaz, muito forte e muito inteligente, e não te quero enganar, por isso vou-te contar.
O Mestre Alfredo morreu, esta noite, ainda chamaram o médico mas nada havia a fazer, já era muito velho e estava muito doente.

******

Foi estranho, não senti nada de especial, se era muito velho e estava doente era natural.

-Obrigado avô por me contar! Respondi. Eu gostava dele mas só o conhecia de agora, devia ser uma boa pessoa, além de ser um mestre. Eu vou pensar sempre nele, como Ti Alfredo, acho que ele gostava.
Só é pena porque agora já ninguém vai fazer as casinhas bonitas, nunca vi nenhuma, mas acho que deviam ser mesmo muito lindas.

Pareceu-me ver um sorriso, muito apagado, no semblante sempre sisudo, do meu avô, antes de me dizer:

-Sabes que ele, agora, vai numa das casinhas bonitas, como dizes? Antes de ficar com o problema, nas mãos, ele ainda fez a casinha para a sua última viagem. Tinha-a guardado debaixo da cama.

******

Na altura não percebi bem, mas quando vinha na viagem foi como se uma luz se acendesse na minha cabeça. Senti um arrepio a percorrer-me o corpo e deixei escapar:

-Poça o homem fazia caixões! Sou mesmo parvo!


Tive sorte, estavam todos a dormir, ninguém ouviu o meu desabafo.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O pistoleiro








Passava todos os dias e, sensivelmente, à mesma hora.
Não falava a ninguém, seguia apenas o caminho como se fosse o único.
Era um pouco bizarro na forma como vestia, um velho e comprido sobretudo preto, botas de tacão e cano alto e, na cabeça, um barrete de lã escura, enfiado até às orelhas.

Os rapazes pareciam ter medo afastavam-se, sempre, com um comentário:

-Malta....vem ai o pistoleiro!

De facto parecia um pistoleiro, como aqueles que é costume ver nos filmes, misterioso, vestindo roupas pretas. Só o barrete destoava no conjunto.

As mulheres, pelo contrário, paravam e pareciam mostrar alguma admiração, talvez pelo porte altivo, ou pelo olhar enigmático,  e sedutor como as olhava.
Algumas,  mais atrevidas, tinham pensamentos que se tivessem voz, fariam corar os mais safados.

Era assim, sempre, mesmo aos fins-de-semana, austero, passos vigorosos, com os tacões das botas faiscando no empedrado do passeio.

Só abria o sorriso,  num flash de sedução, quando se cruzava com alguma cara mais bonita.

As velhotas, na sabedoria das memórias, diziam que era uma incarnação do mal, alguém que andava no mundo para causar a perdição das mulheres, sim naquelas mulheres  que não se sabiam alhear dos pecados do mal.

****

Tia Benedita, mulher perita em rezas e benzeduras, atrevia-se mesmo a dizer:

-Cruzes, credo, mulheres vossemecês não viram ainda que é o próprio demo, é ele em forma de homem que anda por ai para ver se alguma se deixa perder, para deixar a semente para o que há-de vir para a perdição de todos.
Está nas escrituras, que num ano negro, surgirá das trevas, o anjo da perdição, que deixará a semente para aquele que irá nascer para mergulhar, na escuridão e nas trevas, toda a humanidade. Vai ser o fim do mundo!

Depois, de mãos nos quadris, olhou as companheiras atónitas e paralisadas pelo medo e continuou:

-Este aviso é para todas, pois eu tenho visto, com estes que a terra há-de comer, que muitas de vocês, estão desejosas de se por a jeito para se enrolarem e serem a terra para a semente do mal.

-Aí pare! Gritou Alzira, porque segundo dizem, se há alguém habituada a enrolar-se com o primeiro que vê, esse alguém é a tia Benedita, é ou era, porque agora carcaça como está ninguém lhe pega.
Está desejosa e põe o rabinho de fora, como se fosse uma santa e as outras umas vendidas.

Tia Alzira estava possessa, até parecia que os cabelos se tinham eriçado, a placa quase lhe saltava da boca, os olhos faiscavam de ódio.

Voltou as costas, ajeitando o xaile, enquanto numa espécie de reza deixou uma ameaça:

-Esperem pela resposta, são todas o mesmo,  mas vou fazer-lhe uma reza que nem os cães lhe vão olhar para o focinho.

*****

Estava a chuviscar, o piso estava escorregadio, as botas do nosso personagem tinham que ser controladas, o que ia fazendo com alguma habilidade.
Era cuidadoso, assentava primeiro a parte da frente do pé e, só depois, deixava o calcanhar firmar no piso.
Hoje não tinha o habitual gorro, usava um chapéu preto, de lona, com enormes abas levemente dobradas para baixo.

Poucos deram por ele, apenas os que se encontravam na taberna do Amílcar, de frente para a montra.

Podia vir de longe, a cidade era grande, só que este bairro era pequeno e tudo o que fosse fora da rotina se tornava novidade.
Os homens, um pouco mais distraídos, apenas notaram o "pistoleiro" pelas conversas das mulheres e da rapaziada.

Foi o Marteladas, ele não se chamava Marteladas, era uma alcunha que herdou do pai, que já a tinha recebido do avô, que levantou a voz:

-Mas afinal que há com o homem? Não faz mal a ninguém, passa para ir à sua vida, calado e sem ar de desafio, nem sequer se dá por ele. Agora, algumas que parecem não ter alimento, em casa, cismaram que o gajo é bom e vai dai fazem um alarido como se tivessem visto uma alma penada.
Deixem o homem em paz!

O Isidro não estava de acordo, nunca estava, era o rei das zaragatas e apesar das sovas que levava estava, sempre, em contradição só pelo prazer de contrariar.

Mais uma vez teve que meter a colherada:

-Mas o tipo não tem nada que passar por esta rua, tem tantas porque vem logo por aqui? Cá para mim anda a fisgar alguma! Mas eu vou saber e ponho o gajo nos eixos. Ai…ponho…ponho!

-Tem cuidado, disse Marteladas, pode ser que em vez de o pores  nos eixos ele te parta os queixos, até rima, mas a isso já estás habituado.

Risada geral. Isidro não desistiu:

-Podem rir à vontade, sejam cobardolas, eu não fico assim e tenho razões, pois até a minha Zefa, sempre tão acanhada, já suspira quando as amigas falam do tipo. Isto é motivo para cá o Isidro, por o gajo em sentido.

-Bom, tem juízo! Exclamaram alguns dos presentes.

*****

Foram quatro dias em que a chuva não despegou, parecia que tinham aberto as comportas do céu.
Houve algumas desgraças, casas alagadas e, até, uma idosa foi arrastada por uma enxurrada, felizmente alguém lhe deitou a mão.
A taberna do Amílcar, com dois sacos de areia em frente à porta, não vá o diabo tece-las, esteve quase às moscas, como sói dizer-se. Só alguns passantes, pois dos habituais, nem viva alma.

Sábado, o Sol deu um ar da sua graça e a chuva recolheu as torneiras.

Os profissionais do copo começaram, cedo, a acudir à tasca, havia muito de que falar depois de quatro dias.
Era preciso por em dia a conversa e regar a goela, pois em casa tinham que ser comedidos, o raio das mulheres até as garrafas controlam, pensam que quando um homem bebe, mais do que deve, as obrigações ficam adormecidas, Se calhar até é verdade.

A algazarra era grande, numa mesa, quatro jogavam à sueca e foi preciso o Amílcar chamar a atenção, pois o palavreado, mesmo para uma mesa de sueca, já estava para além do permitido.

Os homens do dominó, mais comedidos, iam largando as pintas e fazendo contas com as que saíram e as que continuavam nas mãos dos outros.

De repente, como por encanto, o silêncio tomou conta do espaço. Os palavrões foram abafados pela surpresa da aparição e todos os olhares ficaram presos no Isidro, que meio acanhado se aproximou do balcão e pediu:

-Senhor Amílcar encha ai um copo. Alguém há-de pagar!

Marteladas não se conteve e perguntou:

-Então, Isidro, fostes contra alguma mão, ou foi a patroa que se zangou contigo?
A tua cara está uma lástima!

-Pós está, gritou Isidro, por tua causa. Se não tens vindo com a conversa, do tal pistoleiro, nem sequer me lembrava, mas viestes atiçar a minha honra e eu tive que fazer qualquer coisa, para defender a virilidade dos homens do bairro.

-Então, insistiu Marteladas, e defendestes com o focinho? Pela amostra não me parece grande defesa!

-Não gozes, teimou Isidro, devias agradecer o sacrifico que fiz pela dignidade de todos.
Na quarta-feira chovia, para caramba, mas eu tinha a ideia encornada e esperei o tipo ao fim da rua. Quando apareceu, com aquele ar gingão, cheguei-me ao pé do exemplar e disse-lhe:

-Ouve lá ó palhaço! Está na hora de deixares estes caminhos e ir por outro lado, porque por aqui não és bem vindo.

-Juro que não lhe disse mais nada!

Mas o sacana é bruto, deitou-me as mãos, torceu-me o braço para trás das costas. Caí de focinho no chão. Meteu-me umas algemas e levou-me para a esquadra.
Passei lá a noite, nem me deixaram telefonar à mulher.

No outro dia fui a um juiz que me condenou a pagar 125 euros de multa e a 15 dias de pena suspensa, por desrespeito a um agente da autoridade.
Afinal o pistoleiro não é pistoleiro é um bófia, o gajo é espécie de policia à paisana.

**************

A taberna parou por uns segundos, depois irromperam numa enorme gargalhada.

-Podem rir à vontade, aproveitem enquanto estou em condicional, porque depois não respondo por mim!








quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Um gelado de duas bolas









-Mãe, há muitos pais Natal? Perguntou Clarinha.

A mãe ficou um pouco preocupada, não sabia bem como responder. A menina tinha apenas seis anos e ainda vivia o sonho, lindo, de acreditar no Pai Natal, no trenó e nas renas. Não queria que a filha perdesse, tão nova, toda essa magia.

-Que pergunta, Clarinha, então não sabes que Pai Natal só há um!

-Mas insistiu, a criança, eu já vi tantos e eram, todos, diferentes. Vi um gordo à porta da loja dos brinquedos, depois vi um magrinho na esquina da rua, das casas bonitas, estava a fumar e o Pai Natal não devia fumar. Pois não, mãe?

Maria do Carmo pensou quanta falta lhe fazia o marido, ele saberia explicar bem todos estes porquês, mas algo o chamou e ficou ela e a filha.

Foi difícil, não estava preparada para ser pai e mãe ao mesmo tempo e muito menos para  ter tantas carências que a estavam a atirar para situações que, na verdade, não queria, mas tinha que alimentar a magia do Natal no sonho da filha:

-Sabes, Clarinha, que só há um Pai Natal, é o que vem deixar as prendas ao meninos e meninas que se portam bem, os outros que estão por aí, são a fingir para enfeitar as lojas.

-Mãe, voltou a criança, e eu portei-me bem, não portei?

-Muito bem meu amor, és uma menina muito especial. Respondeu a mãe.


*****


Foi num domingo, de Maio, estava um Sol que convidava a um momento de laser no bar à beira mar.

Maria do Carmo pediu um gelado, não conseguia resistir a duas bolas, regadas com um licor de chocolate, e foi sentar-se numa mesa ao fundo da esplanada.
Com muito cuidado, parecia uma criança, ia tirando porções muito pequenas, para o fazer durar mais. Era um quadro lindo, a colher deslizava suavemente, tentando segurar uma fina tira de sorvete, com algum licor, que depois com os olhos semicerrados, deixava derreter de forma, quase sensual, na língua.


Na sua frente, Albano, estava fascinado com o gesto, com o encanto sedutor da imagem. Era digno de ser visto, uma mulher linda num êxtase total, absorvida no delicioso sabor de um sorvete que ia deixando, muito lentamente, derreter na boca, de forma, quase, sensual.

Não resistiu, era demasiado, Foi comprar um gelado, aproximou-se e delicadamente sussurrou:

-Há imagens que ficam comigo para sempre, tem magia.
É difícil descrever este momento, queria ficar com ele eternamente!
Posso sentar-me e fazer-lhe companhia neste momento tão especial?

Maria do Carmo corou, não pensava estar a ser alvo de atenção. O moço era giro e parecia simpático. Porque não?

-Esteja à sua vontade, respondeu, a mesa não é minha e esqueci que não estava só, deixei-me levar pelo prazer que um bom gelado, sempre, me provoca.

Albano sorriu, tinha um sorriso saudável, dentes perfeitos nuns lábios desenhados por um artista, os olhos de uma cor indefinida, pareciam cinzentos, e altamente sedutores.

Tentou continuar o diálogo:

-Sabe menina, desculpe, não sei o seu nome!

Ela quis hesitar mas respondeu:

-Maria do Carmo, mas não importa o meu nome, tenho que ir embora!

-Lindo nome! Elogiou Albano. Mas só podia ser assim, para condizer com a dona! Não vá já embora, vamos prolongar este momento, de prazer, até acabarmos os nossos gelados!

Não pode evitar um sorriso antes de responder:

-Também não sei o seu nome e não me importa! Mas não se arme em sedutor barato!

Ele corou e quase gaguejou ao responder:

-Desculpe, tem toda a razão, fui importuno e sem princípios! Sou o Albano e juro que não sou nada do que diz, foi uma atracção natural e sinto que também não lhe fui indiferente.

-Oh! Exclamou ela, também é convencido e pretensioso!

-Não diga isso! Suplicou Albano.

Depois foi um amenizar da conversa, os sorrisos que dizem mais que mil palavras, os gestos simples e a cumplicidade que alicerça os sentimentos.


******


E foi assim, desta forma simples, que começou uma história de amor.
Momentos de ternura, caminhar de mãos dadas, promessas feitas no calor da paixão, juras eternas e compromisso de um seguir juntos, até que Deus os separe.


Foi um namoro de seis meses, casaram em Dezembro, não estava previsto, mas naquela manhã, Maria do Carmo deu a novidade:

-Amor estou grávida!

Albano ficou tão feliz que apenas lhe saiu:

-Vamos tratar já do nosso casamento! Vamos construir o nosso lar, para receber o nosso filho quando nascer.


******


Foi em Julho que Clarinha abriu os olhos ao mundo.
Disseram, logo, que tinha os olhos do pai e a boca da mãe.

O casal continuou, no mesmo encanto, o amor foi dividido por três, ninguém notou a diferença, eram felizes.

Estavam, novamente, em Maio. Iam fazer seis anos que se conheceram naquela esplanada à beira mar.
A Primavera,  prometia as tardes quentes, havia no ar um certo lirismo. É natural na estação das flores, o romantismo, convida ao amor.

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Albano estava com um ar nostálgico, Maria do Carmo, apercebeu-se. Não era normal, estava sempre tão alegre.
Tentou, com carinho:

-Que se passa amor? Compartilha, comigo, os teus pensamentos!

Albano pareceu acordar, daquela espécie de letargia, e lembrou à sua amada:

-Sabes que faz amanhã seis anos que nos conhecemos? Recordo com muita saudade aquele momento mágico.

-Não esqueci! Confessou Maria do Carmo.

-Sabes o que vou fazer, disse Albano, vou à gelataria, comprar dois gelados, de duas bolas regadas com chocolate. Temos que comemorar aquele encanto.

*****

Saiu porta fora, vai fazer amanhã seis meses.
Não mais apareceu, nem em casa, nem no emprego.
A polícia já tentou tudo. Mas mesmo tudo.

E nada!

Nunca mais voltou, não mais deu sinal.

Desapareceu como se tivesse evaporado no espaço.

Mas, Maria do Carmo, continua à espera, o coração diz-lhe que ele, um dia, de repente, vai aparecer com dois gelados, de duas bolas, com creme de chocolate.





sábado, 7 de fevereiro de 2015

O Senhor Silva











Hoje não lhe apetecia ir trabalhar, não lhe acontecia muitas vezes, mas hoje estava com uma preguiça que o ultrapassava.
Deu uma volta na cama, puxou a roupa e voltou a adormecer.

Acordou sarapantado, olhou para o relógio e deu um salto, estava atrasado. Bem não era só atraso era já, quase, uma desgraça.

O que ia dizer ao senhor Silva, o chefe, que era implacável na pontualidade.

Tinha que arranjar uma fatalidade, mas muito convincente, nada de tretas, pois o homem era difícil de enganar.

Muitos dizem que o senhor Silva até não é má pessoa, dizem, mas ele não concorda.

É um militarista com ideias muito rígidas, não sorri e olha as pessoas, sempre, de sobrolho franzido, Dizem que foi coronel e que chegou a andar na guerra.

Dizem, e se calhar até é verdade, mas ninguém pode confirmar.

Mas atrasos e desculpas, de meias-verdades, isso não! 
Horários são para cumprir! É o seu lema.

Estava mais do que atrasado, a cabeça trabalhava rebuscando uma desculpa, mas nada saía de jeito.

Já se Imaginava, submisso a desculpar-se:

-Senhor Silva desculpe este atraso! O senhor sabe que sou dos mais pontuais mas hoje, mesmo que quisesse, não conseguia. Ainda tentei, juro que tentei, mas se não me apresso nem à casa de banho chegava, era mesmo ali. Foi toda a noite por cima e por baixo, uma desgraça. Uma autêntica tragédia!
Foram os malditos ovos, só podiam ser os ovos, não comi mais nada que me pudesse fazer mal.

Ao mesmo tempo via o senhor Silva, sobrancelhas franzidas, bigode repuxado num ar de dúvida e aquele sorriso tão sardónico que irritava.
Imaginava o velho, sim ele era velho, escondia a idade, ninguém sabia quantos anos tinha. Mau como as cobras, sem coração.
Parecia que o estava a ouvir:

-Oh senhor Narciso quer que eu acredite nessa de gastroenterite? Era só o que faltava! São coisas que só lhe acontecem às segundas-feiras. Convém não é senhor embusteiro?
E sabe que mais, pode ir para casa tratar da caganeira porque este dia vai-lhe ser descontado!

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 O velho era tramado, fino e esperto, difícil de enganar. Estava a ver que essa do desarranjo intestinal não ia servir. Tinha que pensar noutra coisa. Talvez um funeral, Mas de quem?


Nada de desculpas, só a verdade, ia enfrentar a fera.
Ia dizer que o despertador não tocou, faltou a luz durante a noite e o relógio ficou a piscar e não o acordou.
Não era verdade, mas podia suceder e ele tem que acreditar e aceitar. São coisas que acontecem e não é um desconfiado, insensível e sem coração de um chefe, que até era família do patrão, que vai por em dúvida a verdade do Narciso.
Já sabia que lhe iam descontar o dia mas que se lixe. Ganhava pouco e um dia descontado fazia alguma diferença. Mas que fazer? Ter emprego já era uma sorte!

*******

Ia no autocarro fazendo o filme na cabeça. Imaginava o senhor Silva, na secretaria, olhando por cima dos meios-óculos, enquanto com os dedos enrolava as pontas do farto bigode. Farto, russo do fumo do tabaco, pontas enroladas.
E ele, Narciso, perfilado na frente, com ar castrense, ele que nem sequer foi tropa, a ouvir uma reprimenda como se fosse um miúdo.

******

É verdade que estava nervoso, garante que estava, mas tinha vontade de, chegar, poder manda-lo para um certo sítio, voltar-lhe as costas e ir embora para voltar para a doce preguiça da cama.


Saiu do autocarro, era quase meio-dia, ia chegar ao escritório, quase na hora de saída para o almoço mas era de propósito, assim o senhor Silva mais apressado não lhe ia xingar tanto o juízo.

*****

Quando saiu do elevador deu de caras com a Lucinda, logo a Lucindinha, o borracho, que tanto mexia com ele. Tinha um fraco por aquela rapariga mas, ainda não teve coragem para uma aproximação, receava levar uma nega. Assim mantinha a esperança e até, quem sabe, ela pode um dia mostrar algum interesse, e ai, já se pode afoitar.
Fez o mais rasgado sorriso andes de perguntar:

-Como está a fera?

-Quem? Perguntou Lucinda.

-Quem havia se ser! O Silva, esse gajo que gosta de se aproveitar das desgraças alheias. Passei uma noite, que só eu sei, agora tenho que o ouvir e quem sabe ficar sem um dia de ordenado!|

-Ah! Exclamou Lucinda, então ainda não sabes!

-Bom, respondeu, cá o rapaz sabe tudo, tudinho, nada lhe escapa. Mas o que há de novo? Ainda não li o jornal de hoje. Acabei de chegar, agorinha mesmo.

-Então prepara-te para a más notícias, mas mesmo muito más!

Narciso começou a ficar nervoso.
Mas, muito más noticias, só podia ser um despedimento, o velho já lhe deve ter feito a cama e todos já sabem. Até estava com medo de o enfrentar, se era despedido nada tinha a perder, ia-lhe ao focinho e abalava porta fora.

-Mas, continuou Lucinda, não sabes o que se passou?

-Como posso saber se acabei de chegar! Respondeu.

-Calculei! Disse a Lucinda, hoje o Senhor Silva chegou muito cedo, como de costume, e foi para o gabinete.
A dona Amélia estava a acabar a limpeza, nem o viu chegar, só ouviu o barulho da queda. Foi a correr e deu com o pobre estendido no chão a espernear. Chamou o segurança. Telefonaram para o INEM que o levou para o hospital, mas dizem que não escapa. Pobre senhor Silva!

Narciso nem se apercebeu, mas saiu-lhe:

-Más notícias?

-Boas, queres tu dizer!

-Sabes? Começo a acreditar em Deus!




terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aconteceu?








Não sabe como aconteceu um dia, de repente, acordou naquela cama, naquela casa, naquela terra mas não sabia como.
Não conhecia nada do que o rodeava, era tudo tão estranho.

Nunca teve tal cama, fofa, cheia de cor e de grandes almofadas fofas, lençóis de seda e edredão de penas suaves e macias.
 O quarto era imenso, paredes de uma cor pérola, na parede, a encimar a cama, uma bela pintura, "A Maja nua" de Delacroi.
O tecto, em abóboda, era um enorme fresco de uma reprodução de um céu estrelado, imenso e profundo que o deixava numa grande pequenez.

Espreitando, pela imensa janela, via uma cidade que lhe era, totalmente, desconhecido
Ruas largas, transito muito ordenado, pessoas passando apressadas e aconchegadas, em grossos casacos, para se defenderem do frio que se adivinhava nos restos de neve, ainda visíveis, nos passeios.

****

Era tudo tão estranho. Beliscou as maçãs do rosto, doeu, era sinal que não estava num sonho, era real.

A casa, a sua casa, tinha um quarto miserável, com um cama asseado mas com lençóis já amarelados, pelo uso e uma manta cor de rato. Paredes desbotadas, onde a humidade tinha pintado manchas escuras de bolor, a janela era um postigo, a precisar de pintura, com um vidro martelado no centro.
Na parede um velho quadro, herança da avó,  de um anjo protegendo duas crianças junto a uma fonte. A porta, que dava para o corredor, era uma cortina presa por esticadores a dois camarões de latão amarelo.

Espreitando pela janela apenas campos, verdejantes, e árvores apontando ao céu.

***

Agora acorda assim, num cenário quase irreal, no desconhecido, numa terra com prédios onde cabia, de certeza, a sua aldeia.
Já se beliscou e está bem acordado, se não fosse um leve torpor na cabeça diria que se encontrava totalmente bem.

Estava com receio, diria mesmo com medo, de deixar o quarto, não sabia o que estava para além da porta que o dividia do mundo lá fora.

Vestiu a roupa que estava pendurada, não se lembrava mas, se calhar, era dele.

Saiu.

Era um corredor imenso, chão brilhante, com uma passadeira vermelha, presa com grampos dourados.
Nas paredes quadros, com paisagens, e alguns espelhos em molduras trabalhadas numa espécie de talha.
Ao fundo um elevador, marcou o piso 0. Saiu num enorme átrio, onde um sujeito, de farda azul com botões doirados, o saudou com um:

-Good morning mister Russell!

Olhou para todos os lados. Era para ele, o senhor deve estar enganado, fez confusão, falou numa língua estrangeira e chamou-o de um nome que não era o dele.

Sabia que era inglês, não sabia falar mas percebeu, que ele tinha dito bom dia senhor Russell, já tinha ouvido em muitos filmes, mas começava a ficar preocupado.

Onde estava? Porque e como veio parar aqui?

Ainda se soubesse falar inglês, mas só conhecia palavras dispersas.

Olhou o edifico donde acabou de sair e pela placa no frontispício "The Ligth Hotel", ficou a saber onde passou a noite.

Até há pouco estava, apenas, preocupado mas agora começava a entrar em pânico, o terror começou a infiltrar-se nos ossos e a percorrer-lhe o corpo, como se lhe tivessem injectado uma dose de qualquer droga.

Começava a ter fome. Verificou os bolsos, se tinha uma roupa também devia ter carteira e, quem sabe, até documentos.

Tinha um cartão, pelo aspecto, era uma carta de condução.
Será que tinha carro?
Também encontrou diversos cartões, mas não sabia bem para o que eram.
Bilhete de Identidade não encontrou, mas tinha bastantes notas de Libra, mesmo muitas, e também cartões multibanco de três bancos. Mas não sabia códigos.

Tinha dinheiro, ia comer, o resto deixava para mais tarde.

Foi espreitando até que reparou num restaurante onde se iam servir e à saída pagavam, sem necessitar de muita conversa, era um Garfunkel's.
Ia fixar.

Andou toda a tarde, o dia estava muito frio, andar ajudava a manter o corpo a funcionar.

Ficou a conhecer um pouco da cidade, era grande e muito ordenada.

Só tinha pena de não perceber o que diziam, sabia que era inglês, lembrava dos filmes de televisão os yes e uns good's que ia escutando aqui e ali.

Ia voltar, ao mesmo restaurante, e depois ia tentar o mesmo hotel.
Devia ser o seu poiso.

Quando cruzou a porta, o mesmo porteiro, com a mesma farda, muito solicito aproximou-se com um:

-Your key, mister Russell!


Estendeu-lhe o cartão, da porta, do quarto.

Bom, hoje, já, tinha onde pernoitar.

Estava um pouco nervoso, sempre se chamou Ernesto e, agora, era mister Russell, como se isso fosse nome de gente.
Russell imaginem!

Estendeu-se na cama e ficou e admirar aquele imenso céu, estrelado, era uma pintura mas até parecia que algumas das estrelas cintilavam.
A matrona da pintura também não estava nada mal.

O grande problema era saber como tinha vindo aqui parar, quem era, como tinha estas roupas chiques, a carteira recheada, uma carta de condução se nunca tinha pegado num carro, só na motorizada ou na bicicleta, mas carro e nesta terra, onde andam ao contrário.
Isso era impossível.

Adormeceu, enquanto os olhos passeavam naquele mar de estrelas, que pareciam querer brilhar naquela imaginada dimensão.

*******

Acordou, esfregou os olhos tentando lobrigar, por entre o lusco- fusco, o que o rodeava.
Estranho! O quarto era diferente, sem quadros,  sem abóbadas pintadas, sem edredão de penas.

Estava numa cama articulada, um tubo enfiado, com um cateter, no braço. Estava ligado a um saco de soro, pendurada num suporte, tinha os braços imobilizados por ligaduras e um tubinho com uma cânula de dois pinos enfiados no nariz.

Uma menina de uma bata branca entrou no quarto e exclamou:

-Bem vindo senhor Ernesto, finalmente acordou. Esteja calmo! Vou chamar o doutor.

Saiu ligeira, reparou que era muito jeitoso, mas foi um mero notar.

Voltou acompanhada por um sujeito, devia ser o médico. Simpático, com um sorriso a rasgar o rosto. Um fino bigode dava-lhe um ar de David Niven, voz suave e aspecto de muito competente.

Olhou Ernesto com um sorriso:

-Então, caro senhor, conseguiu dar um exemplo de como lutar pela vida, foi formidável nunca desistiu.
Chegamos a recear muito, mas mesmo muito. mas conseguiu ser muito forte.
Como se sente?

-Senhor doutor, ainda ontem eu era uma pessoa diferente, a viver num país distante, num hotel especial, com boa roupa e muito dinheiro no bolso. Tinha um quarto que me aproximava do firmamento e, de repente, acordo todo estropiado, ligado por tubos, enrolado em ligaduras, com dores em todos os sítios. Não sei se sonhei ou se estou a sonhar!

O doutor não conseguiu evitar um sorriso, mas respondeu:

-Deve ter sonhado e teve sorte! Podia ter sido o seu maior pesadelo.
 Já a sua motorizada não pode dizer o mesmo, essa morreu de verdade, não tem conserto!
Agora descanse, vá!








segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Reflexos










Inspirado pela Sónia, que adoro, e que está encontrando o seu espaço……




Ela queria ser normal, igual a tantas outras, mas havia algo que a tornava diferente, um lirismo, um inventar de desejos, quase como se o mundo fosse feito de poesia.

Tinha sonhos, afinal todos temos, mas os dela eram diferentes, eram sonhos feitos de imaginações inimagináveis, de desejos nascidos de fantasias que se enleavam num emaranhado de coisas do que devia e, não era, ou não podia ser.

Olhava a vida de forma diferente, o futuro era hoje, o amanhã era, apenas, a continuação do presente.

Tinha planos, todos temos, mas eram diferentes, nasciam onde os outros acabavam.

Vivia num palácio de fantasias, onde pintava de cores fortes os desejos feitos sonhos.

Nasceu numa primavera, num dia em que o Sol brilhou e a encandeou, de tal forma, que não foi capaz de conhecer as mãos que da corola se ergueram quando a cegonha a entregou, depois adormeceu no recobro do cansaço da viagem.

Agora vive na incerteza, só lembra o bico da ave, mas não as mãos que a receberam.

Talvez, pensa, a cegonha a tenha deixado  na corola errada. Tem, quase a certeza, que a flor branca não era o seu destino. Seria na flor amarela, da cor do Sol, o seu verdadeiro lugar. As flores amarelas são o símbolo da amizade e do sucesso.

Foi, está convencida, um engano que lhe ditou este destino, não o pode mudar, tem que viver nele.

Às vezes procura o amor e vai em ilusões, feitas na imaginação do amanhã que ia modificar, mas o amor é mais do que um sonho colorindo uma existência. Não é apenas a doce ilusão  de uma fuga à vida que não se quer, é também o sacrifício de ideais e o perder dos valores que não se querem transferir.

Depois são os regressos, penosos pela angústia, frustrantes pelo desengano, felizes na necessidade de voltar ao princípio das coisas.

Os anos passam, o murchar das pétalas não se nota, mas os traços invisíveis anunciam que a mulher já não é menina, o conformismo vai roendo, devagar, os impulsos e os sonhos arrebatados que davam movimento à vida.

Agora pensa num aconchego que lhe mime a alma e alimente o espirito de caricias, que a faça sentir, menina/mulher, na procura incessante do sonho tão próximo, mesmo ali, mas tão distante que não sabe se, algum dia, o poderá encontrar.

Ainda não perdeu a força mas, os traços de cansaço deixam marcas.

Pensa que a vida não tem sido vida, pouco lhe deu e tudo o que era importante lhe foi roubando, de forma cruel, deixando marcas que o tempo não consegue disfarçar.

Mas segue, há uma força interior, talvez um lirismo que lhe diz que o caminho está ali, mesmo ao voltar daquela esquina, tão próxima mas, ao mesmo tempo, tão difícil de lá chegar.

Agora é esperar uma nova primavera e, que outra flor, da cor do Sol, lhe abra a corola num abraço para a acolher e lhe ensinar, finalmente, o caminho certo.

A vida é assim e, na esperança, tudo é possível.

Assim vai ser!





terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Desenraizado













Hoje vou deixar um pequeno conto com uma final, quase, feliz.




Nem sempre pensou desta maneira, tinha até as ideias um pouco destorcidas, quase, retrogradas, pareciam doutras eras. Foi a educação que recebeu, muito conservadora arreigada a conceitos puritanos e cheia de  parece mal, tudo era pecado. Se olhava para as pernas de uma rapariga era-lhe logo prometida uma passagem para o inferno. Só muito mais tarde descobriu que o enganavam pois as pernas de uma rapariga conduziam, precisamente, ao céu.

Cresceu assim, numa espécie de medo, na promessa de um inferno, ou dum purgatório, se os pecados fossem menores.
Foi crescendo num sentimento de revolta, azedo e com dificuldade de se socializar.

Os rapazes nunca o convidavam para os jogos de futebol, era um coxo como diziam.
Ele bem tentava apanhar a bola e fazer uma finta mas não saia nada. Ficava no jogo mas a redondinha nunca mais lhe passava por perto, evitavam-no. Jogava sempre, a bola era dele, até ao dia em que, o Inácio, apareceu com uma nova, de couro ensebado, linda.
Nunca mais teve lugar nas equipas!

As raparigas eram esquisitas, cochichavam umas com as outras, risinhos parvos, passavam os recreios a mandar mensagens nos telemóveis, depois mostravam às amigas as respostas em frases tão encolhidas e metaplasmos que só elas, mesmo, conseguiam entender.

Olhavam para os rapazes mais excêntricos, as tatuagens, pircings e penteados malucos eram uma espécie de atracção que lhe davam o primado entre todos.

Ele, ainda tentou alguns avanços, mas a sorte nunca lhe sorriu.
Não percebia porque, era o mais alto e o mais forte, os outros pouco lhe ligavam mas tinham um respeito muito especial pois, como diziam, tinha um grande caparro.

Mas não estava muito preocupado, a sua vocação era ser artista, cantor, actor de novelas ou até, quem sabe, galã de filmes românticos.

Já tinha pedido à mãe para o inscrever numa escola de representação, ou ir para o Conservatório mas estava difícil, a velha, fazia uma cara mesmo feia, o que lhe era fácil, mas ele não ia desistir, não queria ser advogado como o pai.

Hoje a mãe, Senhora dona Isaura, como gostava de ser tratada estava, para variar, com um ar um pouco mais bem-disposto e o Afonso aproveitou:

-Mamã, eu quando acabar o liceu quero ir para o conservatório!

A senhora dona Isaura, franziu  o sobrolho de forma um pouco característica, mirou o filho, admirada, antes de responder:

-Mas Afonsinho, como quer o menino ir para o conservatório se apenas tem jeito para tocar no rabo das empregadas? Não diga que não, que eu já o vi a acariciar o traseiro da Rosete!

Afonso corou até as orelhas, era verdade a Rosete gostava e não se importava, agora a velha ter visto não estava, propriamente, nos seus desejos. Agarrou coragem, fingiu não perceber, e voltou à carga:

-Não é nada disso mamã! Eu não quero aprender musica, quero estudar representação para ser actor famoso, assim como Sir Laurence Olivier ou, mesmo, Sir Donald Sinden.

A velha soltou, talvez pela primeira vez na vida, uma sonora gargalhada, tão estridente que as empregadas vieram, muita à socapa, espreitar à porta da sala.

Voltou e empertigar-se antes de responder:

-O menino não quer ser como nenhum desses exemplos que falou, quer ser desses, das telenovelas, para se enrolar nas sem vergonhices de se lamberem em beijos e delirarem em apalpões, o menino sonha com essas coisas pecaminosas que o levam direitinho ao inferno.
-Mas não se importa, pois, enquanto cá andar vai-se consolando com os vícios desses pobretanas.
-Não! Um Castelo Branco nunca irá manchar a família nessas tristezas.
-Vá continue no seu tocar no rabo da Rosete, que eu finjo não ver e, ela parece gostar.
Por hoje chega de palermices!

Afonso ouviu sem mostrar qualquer  mudança e, quando retorquiu, não se lhe notou nenhuma emoção:

-Sabe, senhora minha mãe, que é verdade que eu brinco inocentemente com a Rosete. Sim, faço isso! Mas será que quando o seu motorista a leva para os estábulos a apalpa, de alto a baixo, lhe beija o pescoço e depois se embrulha, com a senhora na palha, tem a mesma inocência que o meu toque na Rosete?
-Não me diga que não, porque eu já vi!

Dona Isaura teve um chilique, abriu os olhos desmesuradamente, esticou as pernas em pontapés no ar e caiu, redonda, num bem dissimulado desmaio.

Acudiu todo o pessoal, dona Emília, a cozinheira, foi rápida a fazer um chá de camomila para lhe acalmar os nervos.

Afonso saiu de mansinho e foi refugiar-se no sossego do seu quarto. Ficou à espera que o mundo desabasse.

********

O ambiente, na casa, mudou de forma radical.
O pai há muito que era uma figura de corpo presente, não se dava por ele. Vivia num mundo muito próprio, estava com as pessoas mas não as conhecia.

Tudo começou em Maio, há três anos. Foi com a filha, Mafalda, a um Centro Comercial, no regresso, um cão, atravessou-se na estrada, tentou travar mas vinha com alguma velocidade e, o carro, só parou com estrondo contra um posto de betão.

Quando os desencarceraram estava uma jovem, acabada de fazer 18 anos, já cadáver, e o pai com lesões que deixavam algumas reservas.

Foram oito meses de hospital, primeiro em coma induzida depois, a pouco e pouco, foi abrindo os olhos para a vida embora, o cérebro, tenha continuado adormecido num buraco negro.

Quando voltou para casa era um estranho, não reconhecia nada nem ninguém, deambulava como um estranho nos enormes corredores, sentava-se num banco no jardim e, levava as tardes, a olhar as mãos como se elas fossem um livro.

Um dia o Afonso sentou-se ao seu lado, segurou-lhe as mãos e segredou-lhe:

-Paizinho, eu, amo-te muito!

Olhou o filho e acendeu um leve sorriso, depois, voltou a contemplar as mãos como se nada se tivesse passado.

Por vezes dava um assomo, de conhecimento, e entrava no quarto que fora da Mafalda, olhava como se estivesse a ver algo que só ele conseguia, sorria para as bonecas que continuavam colorindo a cama, depois voltava a contemplar, as mãos, e voltava tão calado como tinha entrado.

****

Afonso, desde que confrontou a mãe, passou a fazer parte da plebe, que a Dona Isaura tão abominava, deixou de ter  direito a refeições na sala, passou a comer na cozinha, com os empregados. A sala era para os senhores, os empregados e os traidores, como dizia Dona Inácia, já tinham sorte em ter refeições.

Afonso, não ficou incomodada com isso, era bem tratado e tinha companhia, deixou a presença do pai, que amava muito, e do nariz empinado da mãe, sempre mal disposta e recriminativa.

Nunca foi um rapaz feliz mas, passava bem pela vida, não lhe faltava nada, só os afectos mas a isso já se tinha habituado.

Agora estava como um estranho na própria casa, o pai deslizava pelas memórias apagadas, passava por ele e nem sequer se apercebia, a mãe no alto da sua falsa moralidade, nunca lhe perdoou por ter ficado em vez da irmã. Sim ela achava injusto perder a filha, de que gostava, e ficar com um rapaz de que nem tinha a certeza se era filho do marido.

Afonso, estava triste mas determinado, respeitava a mãe, porque era o dever de filho, mas não gostava dela, nunca sentiu qualquer afecto, mesmo quando muito pequeno já sentia essa espécie de rejeição, não tinha culpa era quase genético, nasceu com ele.

Agora que, a dona Isaura, abriu as hostilidades, do alto do seu falso moralismo, desprezou o filho como se desprezam os sapatos que pensamos nunca mais calçar.

Ia ser difícil, uma luta muito desigual, por um lado uma loba implacável, ávida dum poder quase régio, do outro, um falso cordeiro que se ia camuflando numa ingénua aparência à espera do momento certo.

A Rosete passou a ser a sua guardiã, que o despertou para os prazeres da vida, que ele já imaginava, mas de que agora tinha a certeza, pela grande experiencia, que estava acumulando.

O pior era doença do pai, não sabia bem se era doença!

Se o pai se libertasse daquela, espécie, de hibernação, as coisas seriam diferentes, pois ele era o único que conseguia manter a fera dominada.

O dinheiro, aliás, toda a fortuna era do pai, que além da herança que recebeu dirigia, também, um dos mais importantes escritórios de advogados do país, talvez fosse essa a razão de conseguir liderar e manter a fera no sítio certo.

Agora, a única esperança, era que aquela apatia e alheamento que o tolhia um dia o deixasse voltar à vida.

Amanhã, dia 23, se ainda fosse viva a Mafalda completaria 21 anos, mas o pai, o cão, o poste, o carro e quem nos governa não deixaram.

Tinha muitas saudades e, em silêncio, tinha feito o seu luto. Nunca se manifestou muito, pois, para ele, ela continua viva bem dentro do coração. Muitas vezes, no escuro do seu quarto, sente a sua presença, sabe que vem ver o mano de quem tanto gostava. Ao princípio ficava arrepiado mas agora sente um bem-estar que não sabe explicar, porque compreendeu que é, apenas, o desejo e as saudades que fazem que imagine essa presença.

Sabe, sente, que ela reprova este mau estar entre o irmão e a mãe e, se estivesse cá, já tinha terminado esse mau estar.
Era tão suave e subtil a resolver as pequenas desavenças que, tem a certeza, que está muito triste com tudo isto.

Esta noite sentiu a sua presença, acordou assustado, acendeu a luz mas apenas um suave fragância a Crystal Noir se sentia no ar. Era o perfume que a Mafalda usava.

Tinha a certeza, a irmã havia deixado um sinal, era preciso dar o primeiro passo.

Amanhã, bem cedo, vai colher uma bela rosa amarela, são  dessas que a mãe gosta muito.

Depois? Bem depois, seja o que Deus quiser!

*******

Estão na sala a tomar o pequeno-almoço ao lado, muito aprumada, a Rosete vai servindo, quase adivinhando os desejos.

A mãe, com os dedos esticados, segura uma torrada que, em pequenas dentadas, desaparecia no meio dos lábios que hoje, talvez por respeito, não estavam horrorosamente vermelhos.

Ao lado, o pai, alheio ao que o rodeava ia comendo um prato de cereais.

Entrou na sala, com algum receio, o pai olhou com doçura e a mãe mirou-o com a maior indiferença.

A custo as palavras saíram-lhe:

-Mãe, hoje a nossa Mafalda completaria 21 anos, queria dar-te esta rosa e pedir para perdoares a minha insensatez, ainda não cresci o suficiente para controlar as minhas palavras!


O momento foi muito intenso, Afonso, ficou um pouco sem jeito no meio de um mundo quase irreal.

A mãe, pela primeira vez na vida, levantou-se para o abraçar, borrou um pouco a pintura dos olhos, deve ter vertido alguma lágrima.

Mas o milagre, o verdadeiro, estava para acontecer.

O pai deixou o prato, daquelas papas, e veio juntar-se ao abraço, tinha um brilho diferente nos olhos.

Olhou a mulher, segurou no braço do filho e  com emoção rematou:

-Tens razão Afonso, basta de viver no passado, vamos os três à Igreja!
-Vamos rezar e dizer, à Mafalda, que estamos aqui, unidos e assim vamos continuar, para sempre!


-Vamos voltar à vida por ela e, também, por nós.