segunda-feira, 22 de junho de 2015

Confusão























Hoje, dia 24, o meu Blogue completa 7 anos.
Maravilhosos pelos amigos que fui encontrando, pelo estímulo e amizade.
Obrigado a todos.





A tarde estava muito quente, se não fosse uma ligeira brisa que o renque de árvores, da frente, nos oferecia seria, quase, insuportável.

Apetecia-lhe uma bebida, não que fosse pessoa de beber, mas hoje tinha esse desejo.

Pensou num whisky, mas detestava, um gin-tónico vinha a propósito mas, foi proibido pelo médico por causa dos rins, o melhor era mesmo um copo de água.
Ia saber-lhe bem mas a preguiça venceu a vontade, não lhe apetecia levantar o rabo da cadeira, ficou pelo desejo.

Antes não era assim, estava sempre pronto à acção, motivava-o, corria, surfava e uma serie de coisas para manter a forma.
A mãe dizia: "Rapaz parece que tens bichos-carpinteiros"!

E parecia mesmo!

Tudo mudou, não foi de repente, aconteceu assim, pouco a pouco.
Primeiro tentou reagir, ser forte e parecia estar a conseguir.
Pegava na bicicleta e saia, disparado, na tentativa de que o pedalar concentrasse todas a atenções, mas em vão, os pensamentos estavam  tão distantes que se esqueceu que devia travar a roda traseira e a queda, embora aparatosa, apenas lhe feriu o amor-próprio.

Ficou envergonhado com os risos dos outros, para piorar, a roda da frente entortou e teve que carregar, o velocípede, às costas.

Foi direita para a arrumação, nada de ciclismos.


Pensou em pegar na prancha e ir até ao mar mas, não tinha disposição, a imensidão do oceano ia aumentar a solidão que tinha tomado conta do seu ser.

Era estranho, não sabia bem os motivos desta apatia, espécie de angústia, que o sufocava num género de agonia.

Tinha amigas, muitas mesmo, e os convites para festas e saídas eram constantes, mas não, ia arranjando desculpas e acabava os serões em casa olhando, muitas vezes sem ver, aquelas series que a televisão ia impingindo.
Acabava por adormecer.
Amigos? Não tinha muitos, apenas um que vinha de infância, não sabe bem porque, acontecia, mesmo na faculdade eram mais as colegas com que se relacionava.
Não sabia bem porque, pois nunca teve problemas, ou preconceitos, mas sentia-se mais confortável relacionando-se com as raparigas.

Era uma questão de sensibilidade, elas eram mais intuitivas, gostavam de falar de assuntos sérios, ao contrario dos rapazes que só falavam de gajas e, às vezes, para variar de futebol.

Tem, ou teve, um amigo de infância, o Fausto, que o acompanhou no secundário e depois, na Faculdade, durante o curso.

Eram muito chegados, muitos pensavam que demais. Mas não!
Eram apenas amigos, que compartilhavam muitos gostos e gostavam de praticar desporto em conjunto.

Ao fim dos dias, sábados e domingos, não perdiam umas boas ondas para surfar, ou um passeio de BTT por montes e vales.

Mas, até isso, acabou porque o Fausto, acabado o curso e ouvindo o conselho de um tal Passos Coelho, pegou na bagagem e imigrou na procura daquilo que lhe tinha prometido e que agora lhe negava. Trabalho.

Não se arrependeu, encontrou e está feliz, não se lamentava por ter seguido o conselho, de um mentiroso, pois leu num jornal que o tal diz que não disse, mas não se admirou, pois o tipo, é perito em não fazer o que disse e, até, em dizer que disse o que nunca disse.

Para Almerindo, a partida do Fausto, foi um rude golpe, o único amigo verdadeiro, parceiro de tantas horas de estudo e aventuras radicais.
Para ele, Fausto, era o irmão que sonhou e que, possivelmente, a separação dos pais, nunca deixou.

Podia ter emigrado, também, a amigo insistiu, tinha lugar na mesma Empresa, mas a mãe já não era muito nova e precisava muito dele.

Não queria emigrar, mas desejava muito, mesmo muito, ir para junto do amigo, mas não podia, a vida de quem lha tinha dado precisava dele.

Deixou de atender às chamadas do amigo, não respondeu mais aos emails.
Sofria! Mas tinha descoberto que não há, na vida, impossíveis.

Ele já desconfiava que havia algo de diferente, lutou sempre contra isso, não queria admitir, pensava que eram apenas devaneios, próprios de alguma imaturidade, de dúvidas sobre os mistérios que a vida nos reserva.

Almerindo tinha a certeza, agora tinha, ou pela primeira vez quis assumir.
Para já perante ele. Pois para o mundo ainda não estava preparado.

Era gay e estava apaixonado pelo Fausto.

Não lhe ia responder, não atenderia mais o telefone.
Ia esquecer. 

Almerindo era casado e muito feliz.





quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Segredo ( Afinal havia um)









As coisas não ficaram fáceis.

A pouco cumplicidade que, apesar de tudo existia, morreu nesse momento.
Raimundo, o bem comportado, rompeu as regras e estava arrependido, mas agora nada podia fazer, já estava feito.

Mónica, olhou o irmão num misto de ódio e desprezo, atirou-lhe à cara o que restava do café, levantou-se, furiosa, praguejando:

-Nunca tive duvidas, és um maricas camuflado, um lambe cús, um fingidor, sonso e falso como um judas. Tenho nojo de ti e vou fazer da tua vida um inferno! Vais-te arrepender para sempre!

Bateu com a porta e desapareceu.

***

Foi mudar de roupa, o café que a irmã lhe atirou fez os seus estragos. Não parecia preocupado, estava habituado ao chorrilho de ameaças constantes, era por tudo e por nada. Mas ela precisava dele e muito, quando estava falida, o que era constante, retirava as ameaças e aparecia mansa como um cordeiro. 

"Sabes mano que um dia te pago tudo, com juros, mas preciso de duas notas de 20 Euros."

E, isso, ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Mas agora ia ser duro e inflexível, nem um tostão mais, nem a ponta de um corno. Se queria ter dinheiro que fosse trabalhar, em vez de andar a roçar o rabo, com o namorado, pelas esplanadas e a fazer vida de menina rica.
 
Ela, agora, pensava que era treta, mas não, ele tinha um segredo, um segredo, que guardava porque precisava de certezas, absolutas, e ainda não as tinha. Mas ia ter, não tardava, ia ter!

Agora não está feliz, muito pelo contrário, adora a irmã, embora reconheça que ela não é flor que se cheire, é egoísta, só pensa no próprio bem-estar, mas é a mana mais velha.

Não foi, sempre assim, o namoro é que a modificou, da irmã carinhosa, e protectora, tornou-se uma mulher calculista e, um pouco, gananciosa.

A mãe, um dia, perguntou-lhe porque não trazia o namorado cá a casa, para o apresentar à família. A resposta não convenceu. Disse, que ele, só iria quando a fosse pedir em casamento. Quem podia acreditar nisso.

Raimundo é uma pessoa pacífica, parece um deixa andar, mas puro engano, está sempre atento, observa e tenta perceber todas as situações de uma forma subtil, sem deixar rastos.
Muitas vezes pensa, perdoando a redundância, se fosse um psicólogo, era um bom psicólogo.

Ele ama a irmã mas não compreende a mudança, desde que anda com esse tal Daniel, um gajo de mau aspecto, tipo chulo.

Raimundo conheceu-o por acaso. Foi num domingo, que viu a irmã toda agarrada a um tipo a caminho do metro, tão absorvida que quase chocava com o ele sem o ver.
Teve que a acordar:

-Então Mónica não falas ao mano?

Notou que ela ficou um pouco constrangida, mas emendou a tempo:

-Tu aqui? Não estava à espera, vou ao cinema com o meu namorado! Olha apresento-te o Daniel, o meu querido!

O tal, Daniel, olhou-o de alto-a-baixo antes de lhe estender a mão, balbuciou um muito prazer, pegou no braço da Mónica e seguiram no caminho das escadas do metro.

Raimundo ficou muito desiludido, não esperava grande coisa mas era muito pior.
Untuoso, ar encardido, aspecto de cão vadio.

Não gostou, nada mesmo, não era homem para a irmã, mas nada podia fazer, ela era grande para saber o que queria, só era pena não escolher o que devia.

Nessa noite, a Mónica, estava mais atenciosa do que era normal, quase simpática. Estava ansiosa pela chegada do irmão, mal ele abriu a porta:

-Então Raimundo, que me dizes do meu Daniel?

-Não tenho nada para dizer, é a tua escolha, tu é que sabes! A propósito o que é que ele faz? Qual é o trabalho dele?

Mónica rasgou um sorriso, de orelha a orelha, mas respondeu:

-O meu Daniel não faz nada, a não ser gerir as fábricas do pai que é muito rico. Ele é o único herdeiro e, um dia, será tudo dele. A agora só tem que tomar conta e dar ordens para os outros cumprirem. É um senhor!

-E, tu, mana já conheces os teus futuros sogros?

-Em breves todos nos vão conhecer, o meu Daniel vai preparar uma festa para me pedir em casamento e, todos se ficam a conhecer.
 Não tarda vamos ser uma família!


******

As coisas não estavam famosas mas havia uma aparente calma que, de repente, desapareceu com aquela mensagem que não devia ter espreitado. Jura, que não foi com intenção de bisbilhotar foi, mais, para acabar com o barulho irritante do aviso do telemóvel. Fez mal, reconhece, mas também foi muita falta de prudência mandar uma mensagem dessa forma, sujeito a acontecer o que acabou por suceder.
Podia ter telefonado, seria mais seguro.

Agora não tinha outro remédio, tinha que ir adiante, tinha que arriscar, sem ter certezas absolutas, mas estava certo de poder avançar com o que tinha, até agora, descoberto.
Foram muitas horas de espera, espreitar pelas esquinas, seguir, com todos os riscos, o alvo da sua investigação.
Ainda havia pontos que precisava de acertar, melhor, mas não tinha tempo e, sabia que, um descuido lhe podia sair caro. Muito caro mesmo.

Hoje mesmo, ia armar-se em Hercule Poirot, vai avançar e libertar a irmã duma situação e livrar-se ele, ele próprio, duma enrascada onde se meteu sem saber como sair.
Seja o que Deus quiser!

Mal a irmã chegou, nem a deixou pensar:

-Preciso falar, contigo, com muita urgência, é muito importante! Vem ao meu quarto sem os pais perceberem! É muito importante para ti!

Módica encarou-o de fronha franzida, antes de responder:

-Se é para pedires desculpa prepara-te, porque comigo tudo tem um preço.

-Anda, não sejas parva, confia no mano.

Fechou a porta antes de começar:

-Tu não és a melhor irmã do mundo, mas és a minha e eu gosto muito de ti.
Gosto tanto, que me sujeitei a alguns perigos para descobrir a verdade, pois as desculpas do teu namorado não são normais, não convencem, pelo menos a mim. Tu andas cega e acreditas em tudo o que te diz.
Achas normal não saberes nada da vida dele? Acreditas nessa de te pedir, em casamento, num festa com toda a família? Acreditas?
Estás mesmo cega!
Eu não acreditei e, não gostei nada da pinta do gajo, fui à procura e descobri tudo.
É esse o segredo que me tem andado a engasgar, o segredo que tu querias mas que eu queria que não fosse verdade.

-Deixa-te de merdas, disse Mónica, o Daniel é o melhor que há no mundo e não penses que me vais fazer mudar de ideias, ele é o homem da minha vida é o que eu escolhi para casar, não percas tempo com tretas.

-Ouve rapariga, gritou Raimundo, ouve o resto. Ouve com atenção! O teu Daniel é um fantasma, não existe, tu andas com um Viriato, um fulano que nunca trabalhou a vida e que mora, na Quinta do Mocho com a mulher e dois filhos menores.
É este o meu segredo, agora já o podes usar, tenta fazer o dinheiro que querias.

Tenho pena mas é o meu único segredo!


terça-feira, 26 de maio de 2015

O segredo














Não lhe apetecia falar, não o podiam obrigar, por isso, ia ficar mudo como uma mosca morta.

Ele estava atento e percebia a forma indirecta como o abordavam, sub-reptícia e camuflando as intenções. Mas estava preparado para tudo e nem com ameaças ou promessas ia abrir a boca.

A verdade é que não sabia nada mas, os outros, pensavam que sim e ele alimentava essa convicção, sentia-se importante e gostava.

Fazia um ar circunspecto, misterioso e, por dentro, ria com o gozo da situação.

A mãe era a mais descarada, não fingia, era directa e insistia:

-Mas Raimundo porque não conta tudo à mãe?
Podes confiar em mim que eu não digo nada a ninguém! Em que problema estás metido, filho? Já sabes que a mãe te ajuda!

Sorria. Um esgar, um pouco sacana, mas era o suficiente.

-Mas o queres que conte? Sabes, bem, que não posso, fiz uma promessa! Concluiu Raimundo, com uma gargalhada.

Ao jantar ele percebia os olhares da irmã, até parecia ouvir-lhe os pensamentos, pareciam moedas tilintando num bolso imaginário. A irmã, Mónica, só pensava no dinheiro que lhe podia render, se soubesse, o que julgava que ele sabia.

Não se importava nada de esmifrar, fosse quem fosse, para estar calada e não badalar se isso desse algum lucro.
O parvo do irmão devia saber tudo, sabia quase de certeza, senão a agitação que percebia, nos outros, não fazia sentido. Não sabia o que era, o que podia ter acontecido mas, tinha a certeza, que era um grande furo que podia dar umas boas notinhas.

O irmão era um parvo, dos grandes, se fosse esperto partilhava com a mana e ela se encarregava de sacar umas massas e, ele, podia continuar a fazer o papel de santinho, bem comportado. Mas o tipo não confiava e não sonhava alto.

Ela já tinha o filme todo, feito na cabeça, ou a mãe tinha posto um par de chavelhos no pai, ou o contrário, o pai andou em algum enrolanço e o gajo topou.

Havia de descobrir, não sabia como mas ia conseguir saber tudo.

Agora havia uma coisa que lhe bailava na cabeça, se o pai e a mãe pareciam receosos era porque não estavam tranquilos, alguma tinham feito.

A mãe não acreditava muito, ela tinha olhos de quem gostava mas, dai a fazer uma escapadinha não lhe parecia. Já o pai era capaz de tudo e um pouco mais, ela topava os olhos dele e a forma como se babava quando a vizinha, do andar de baixo, estava à janela com as mamas a quererem saltar pelo decote.

******

Raimundo estava metido num sarilho, começou com uma brincadeira, parva,  mas uma brincadeira.

Um dia chegou a casa com cara de caso, ar enigmático e um bocado misterioso.

A mãe, sempre atenta aos filhos, perguntou:

-Raimundo que se passa? Parece que vistes alguma aparição!

Fingiu um ar compungido, coçou a cabeça, junto à testa, e deixou sair com um suspiro:

-Ai mãe se eu pudesse falar! Mas não posso porque muitas desgraças podiam acontecer.

A mãe ficou arrepiada, mas pensou que fosse mais uma aparvoada do rapaz e não ligou.

Raimundo arrependeu-se mas estava dito e, agora, nada havia a fazer.

A irmã, ele bem a ouvia, entrava no quarto às escuras e ia vasculhar-lhe a roupa, mirava todos os papéis na esperança de encontrar uma pista. Ele fingia dormir enquanto abafava um riso de gozo. Era lixada, não vendia o pai e a mãe, porque sabia, que ninguém os comprava.

O pai está na fase de só gostar de ver e a mãe no deixa andar, já não têm mercado.

Raimundo está, como que entalado, meteu-se em trampa, até ao queixo, e agora esta com medo das ondas, para não se engasgar com a agitação da maré.

Mas já que que começou vai aguentar, o máximo, até dar, depois alguma coisa deve acontecer, logo se vê.

*****

E aconteceu, coisas do acaso ou desígnios de Deus, mas a verdade é que o pseudo segredo, do Raimundo, acabou por acontecer.

********

Foi por acaso, ouviu o som de mensagem no telemóvel da irmã, não devia, mas foi espreitar e antes não o tivesse feito, pois ficou a saber o que não queria.

Mas agora tinha um segredo, não estava feliz, mas tinha acontecido e o segredo existia.

******

Foi no Domingo, os pais foram à missa, iam sempre à das nove horas. Não era, propriamente, por devoção  mas parecia bem e era uma forma de socializar com as pessoas chiques.

A irmã, como sempre, foi a ultima a sair do quarto, desgrenhada e com os olhos inchados de dormir.

-Até que enfim que te levantas, disse Raimundo, estava a ver que fazias uma directa!

Ela, esfregou os olhos, antes de responder:

-Sabes menino quais são as duas melhores coisa do mundo? Não deves saber mas são as duas feitas na cama, uma não te posso dizer, a outra posso: É dormir!


Foi direita à casa de banho, demorou meia hora mas valeu a pena. Saiu outra, cabelo composto, olhos arranjados e cara pintada. Aspecto de gente.

Sentou-se, à mesa, e começou a barrar uma torrada. Mesmo de boca cheia tentou a sorte:

-Sabes, mano, que eu ando a precisar de uns dinheirinhos e tu podias, também, receber algum. Que dizes?

-Nem tenho assim nada de especial, mas dinheiro faz sempre jeito! Respondeu o irmão.

-Então conta, à mana, o segredo que sabes do pai ou da mãe e eu, sacana como sou, faço uma pequenina chantagem e saco algum que pudemos dividir. Que dizes?

-Sabes, Mónica, que por acaso, sei um segredo e grande. Mas tenho a certeza que não consegues com ele sacar dinheiro a ninguém.

-Parece que não me conheces, mas podes ter a certeza que consigo. Conta lá!

-Queres que conte, então aqui vai:
O Daniel, o teu namorado, diz que já tratou com uma parteira de tudo, podes ir quando quiseres tratar do teu problema.

-Tenho razão ou não?





domingo, 17 de maio de 2015

Chamamento














Já estive aqui, pensou. Não era muito dado a fixar os lugares, mas este tinha algo que lhe avivava as recordações, era uma espécie de odor que o cérebro guardava num casulo e que estava a libertar para lhe despertar a imaginação.

Sentia no ar memórias, difusas que queria mas tinha dificuldades em descodificar.

O largo tinha lembranças, o velho banco do jardim era diferente, na altura era de madeira pintada de verde e este é de pedra, branca, polida. Os canteiros não são os mesmos, abunda a relva e pequenos arbustos trabalhados, em figuras simétricas, mas na recordação estão presentes renques de amores-perfeitos, sardinheiras, salpicando, de vermelho vivo o verde dos rododendros que, ainda, escondiam os botões rosas prestes a florir.

Tudo tão diferente e, ao mesmo tempo, tão igual ao que resta na memória gasta pelas recordações.

Foi ali, naquele prédio, agora tão diferente! A pintura amarela substitui, os azulejos de flores azuis que naquela época cobriam as paredes. As janelas, de guilhotina, foram trocadas por molduras de alumínio fosco com persianas brancas.
Só a porta se mantem, no mesmo verde-escuro, com molduras de vidro martelado e batentes de punhos fechados.

Não sabe bem o que fez voltar, para estes lados, ao fim de 60 anos, foi um chamamento, uma força interior que o conduziu como, se fosse guiado, por algo muito superior.


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Pois, pensou, Januário. Fora aqui, neste jardim, junto a esta porta verde que faz, hoje, 60 anos conheceu  a Mafalda.

Lembra-se bem quando cruzou aquela porta e os olhos se enfeitiçaram uns pelos outros, foi lindo, mágico e para a vida.

Ela era, como se dizia, criada de servir, ele magala, de infantaria, e com guia de marcha para a guerra colonial.

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No dia em que embarcou, Mafalda estava no cais, chorou como todas as mulheres que viam partir, os maridos, namorados ou os filhos.

Jurou que iria todos dias, à Igreja, acender uma velinha a São Jorge, padroeiro dos soldados, para que trouxesse de volta, são e salvo o seu Januário.

Não se sabe se, São Jorge, ouviu a preces, mas passados 10 meses, de comissão, o jeep onde Januário seguia pisou uma mina, foi pelos ares, o condutor perdeu uma das pernas, mas ele, embora muito mal tratado, salvou a vida.

Foi desmobilizado e pode voltar para os braços da sua amada para num casamento, simples juntarem as suas vidas até que a morte os separe. Como o senhor padre disse.

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Hoje, está aqui, não sabe porque, foi uma força invisível que lhe orientou os passos. Não foi fácil, as pernas já não obedecem, é um velho cajado que o vai amparando.
Mas está onde tudo começou, é como uma homenagem, à Mafalda, que uma doença ruim levou vai fazer um mês.

Está muito cansado, a idade, os ossos, os sentimentos e as emoções são demasiado para as suas, fracas, forças.

Sentou as pernas doridas, no frio da pedra, do único banco vazio, e deixou o cansaço fazer o resto.

Fechou os olhos, sentia o odor dum perfume que bem conhecia, uma música suave que lhe embalava o sono que o estava a invadir.

Sentiu-se levitar, a mão de Mafalda segurava a sua, delicadamente.

Olhou para trás, o seu corpo continuava o sono no banco frio do jardim.

Mas ele subia, subia sempre, embevecido no sorriso, doce, da Mafalda.




domingo, 10 de maio de 2015

1755











-Isso são fenómenos, gritou Gilberto. Não é normal essas coisas acontecerem, só podem ser mesmo fenómenos. Onde já se viu uma coisa destas! Está um homem descansado a pensar na melhor maneira de não fazer nada e, de  repente, sem mais aquela, esta trampa treme toda como se fosse um castelo de cartas. Não é normal!

Estava Gilberto, moço de estrebaria, neste solilóquio quando o estrondo tomou conta do espaço, a ondulação possuiu a terra, que ia ruindo, à medida que as águas iam sorvendo as ruas que desapareciam como se nunca, ali, tivessem estado. Os sinos das Igrejas repicavam, de uma forma desordenada, e as labaredas das velas que tombavam começavam a consumir o que o tremor tinha poupado.
A cidade naquele dia, de Todos os Santos, parecia ter sido tomada por um demónio, a confusão era tanta que a população fugia da confusão sem se preocupar com, os possíveis, sobreviventes entre os escombros da parte da cidade arrasada.

               *********

Estávamos no ano de 1755, Lisboa ia desaparecendo, era o caos, gritos de desespero, cadáveres adivinhavam-se debaixo dos escombros.

Gilberto despertou daquela apatia onde tinha mergulhado. Os cavalos dispararam de forma desordenada, alguns não foram longe, eram engolidos pelas enormes fendas que se abriam no caminho.

O palafreneiro não pensou duas vezes, saltou para a garupa do Herodes um alazão, cor de canela, e disparou como um louco por entre escombros, fendas no terreno e águas, dum mar, que em ondas tenebrosas pareciam querer engolir tudo.

A sorte, por vezes, protege os audazes e Gilberto, quase milagrosamente, corria à desfilada no sentido de Sintra, pensava ele que, como ficava num alto, podia ter melhor protecção.

O cavalo era ligeiro por entre caminhos difíceis, veredas sinuosas e instáveis. Parecia saber o que era certo, adivinhar o que vinha a seguir, tantas vezes depois de tragar o caminho este desaparecia, como se nunca tivesse existido.

O animal estava exausto, espuma nos cantos da boca, soprar forte pelas narinas e sinais de desidratação, eram evidentes.
O fim era de adivinhar.

Gilberto insistia, apertava com fúria, não era habitual mas o medo, vencia o bom senso. Herodes tentou o salto, foi o seu último intento, caiu arfando, tinha chegado o fim.

Gilberto, ainda insistiu mas era tarde. Lágrimas destilaram-se, pela cara deixando, dois traços no encardido do rosto.

Os cavalos eram a sua família, nasceu e cresceu no estábulo. Quando o pai morreu, com a peste, foi ele, com 12 anos, nomeado pelo Senhor Marquês, para continuar o trabalho que foi do progenitor.

Era bem tratado, tinha um cubículo, na parte superior das cavalariças, dormia numa manta em cima da palha, era fofa mas, por vezes, ficava com o corpo cheio de brotoeja, esfregava com um unguento que o pai tinha num frasco e ia passando a comichão.

O Frei Vaz queria que aprendesse a ler, mas o cabrão, vinha com o latim e ele não se entendia, levava com uma vara nas orelhas e fugia. O Frade bem gritava mas, porrada, já bastou a que o pai lhe dava.

Nunca mais! Quando topava a batina a aproximar-se, escondia-se até que o estupor se fartava e desaparecia.

Agora, com 19 anos, via-se assim no meio deste inferno demoníaco. O palacete e tudo o que o rodeava desapareceu engolido pela terra, as ondas enormes fizeram o resto, se não fosse a rapidez, a força e a inteligência do Herodes, se calhar também ele não tinha salvo o coiro.

Agora tinha que dar rumo à vida, não voltava para aquelas bandas, ainda o Marquês o ia acusar da tragédia e estava farto daquela vida, sempre preso aos animais.
Descanso nunca!
Era limpar cavalariças, dar ração aos bichos, mudar a água, levar os cavalos ao campo, arrear este ou aquele, conforme dava nas ganas dos senhores. Mas dia de descanso, para ele, nunca.
Também precisava de conhecer as cachopas e, havia algumas, bem apetitosas que ele bem as via passar frente ao portão.

Pouco percebia de mulheres, a única que conhecia era a mulher do Marquês, que aparecia como não quer a coisa e o levava a um enrolanço nas palhas. Era bom, mas o raio da mulher era balofa, por todos os lados, e nunca estava satisfeita embora ele, fosse rapaz de muito pedalada.

*****

Meteu-se ao caminho, a terra continuava a tremer.
Já avistava o castelo, mas faltava muito e o caminho era mau e traiçoeiro. De vez em quando lá vinha mais um estremeção, mais pedras a rolar pela encosta, tinha que fugir se não queria ir, de supetão, á frente de alguma.

Parou para tomar fôlego, olhou para trás, ao longe, Lisboa, era uma mancha sulcada de incêndios, no meio do pó, que andava pelos ares.

Apeteceu-lhe chorar, mas macho que é macho não chora e ele era, assim pensava, um puro garanhão.


******

Chegou à vila, deviam ser seis horas da tarde, andou pelo menos oito horas neste frenesim. Estava muito frio, as pessoas pareciam meio desnorteadas, o medo era visível em todos os rostos.
Muitos estragos e alguns mortos, ainda se amontoavam nas ruas, carretas iam transportando, os cadáveres, para o cemitério com receio das epidemias.

Gilberto ofereceu os seus préstimos, foram aceites. Todos eram poucos.

Ao fim do dia, os homens, foram desinfectar a garganta na única taberna da vila.
Entre conversas, lamentos e lamúrias iam descarregando a tensão, de um dia, que já queriam esquecer.

O dono da tasca, um galego, que por aqui tinha assentado olhou Gilberto e perguntou:

-De donde vienes, no se quién eres?

Gilberto rasgou um sorriso, já tinha reparado que o galego tinha uma filha, roliça, fresca e bem nutrida.

-Sou Gilberto, fugi da desgraça, em Lisboa, e quero ficar por aqui se arranjar um patrão.

-E que puedes hacer?

-Tudo e aprendo rápido!

-Entonces necesito a alguien, aqui en la taberna, si quieres!

-Quero pois, respondeu, posso começar já?

-Te doy dormir, comer es un pequeño salario. Qué dices?

-Posso começar, não te vais arrepender!

        ********

Gilberto olhou para a filha do taberneiro, que entre a porta da cozinha, o mirava com um ar apreciador.

Ia começar e, tinha o palpite, que em breve ia fazer parte da família.
O galego já não era novo e, um genro, se calhar, vinha a propósito.




domingo, 3 de maio de 2015

Marcolino



Para acompanhar e dar assistencia, a um familiar, sujeito a intervenção cirurgica tenho andado arredado do Blogue.
Espero, em breve, voltar à normalidade.





Talvez fossem remorsos! Não que tivesse motivo para isso, mas há momentos que nos perturbam o pensamento e as coisas podem acontecer.

Marcolino era, um pouco, explosivo e facilmente se deixava levar pelas emoções, nada de violências ou de ofensas mas amuava e desconhecia as pessoas, não era propriamente um desconhecer absoluto, era mais um distanciamento, um faz de conta, uma maneira de mostrar uma insatisfação.

Mas, pobre de espirito e um pouco retrogrado, normalmente saía a perder, coisa que não sabia, ainda, controlar.

Agora a questão era um pouco mais delicada, havia interesses que ultrapassavam a sua própria vontade e, o seu raciocínio, não o ajudava a discernir o que era melhor para ele próprio.

As coisas, por vezes, acontecem e ultrapassam a nossa vontade, não conseguimos controlar e depois o arrependimento não vale nada.

Ele, Marcolino, viu a Cassilda, no baile da feira, no primeiro dia de festa na aldeia e, obedeceu às ordens, na forma da sua rudeza natural e, mesmo na frente de toda a gente, disparou:

-Ouve lá cachopa! Há muito tempo que ando de olho em ti, já me informei que não tens ninguém, por isso, podíamos namorar os dois!

Cassilda ficou para morrer, tal foi a vergonha porque passou. Quem lhe havia de dizer que Marcolino, que diziam ser meio tonto, a iria assediar dessa forma, neste sitio e, pior ainda, à frente de tanta gente que a conhecia. Não queria ser bruta, nem sequer ofender o rapaz, mas não sabia bem como sair desta situação.

Corou, sentia mesmo um calor enorme na cara, e o olhar fixo e embasbacado de Marcolino, só servia para piorar a situação.

Tentou falar mas, as palavras, enrolavam na garganta e não havia maneira de se transformarem em qualquer som e tinha medo, mesmo muito, pela reacção daquele homem de olhos desvairados.

****

O professor Eleutério reparou, no embaraço da moça e, no olhar guloso do Marcolino, pegou-lhe com suavidade, num braço, e com muita argúcia, foi-lhe segredando:

-Sabes, Marcolino, que nunca se deve abordar uma rapariga assim?

-Desculpe professor, interrompeu o rapaz, eu não bordei nada só a pedi em namoro.

O professor teve que suster o riso, com muita calma insistiu:

-Eu disse abordar que é o mesmo que, para perceberes, chegares ao pé.Não deves dizer, assim de repente, tens que ser esperto, carinhoso e com muito tacto.

-Mas senhor professor, insistiu o moço, a culpa foi do meu mano, ele é que anda, há muito, com a Cassilda na imaginação, eu também acho que é jeitosa, mas ele está mesmo entusiasmado. Vai daí, ontem, disse-me que eu tinha que a pedir em namoro, mas não podia dizer que era para os dois.

-Agora sou eu que não percebo! Explica lá isso devagarinho, como é isso de para os dois?

-Pois, professor, é isso que nós queremos, uma mulher para os dois! A gente dá-se bem, não somos ricos, por isso uma para os dois chega bem. Eu trato do gado, ele trata da lavoura, porque tem mais força, e ela vai tratar da casa.

Vai ser uma princesa, mas mesmo uma princesa como a dos filmes.

O Inácio chega a casa às 7 horas e tem a mulher à espera, linda, para ele. Eu tenho que recolher as ovelhas chego mais tarde, ai pelas 8 horas e é outra festa, lá estará ela, linda para mim.
Tem dois maridos, para esperar, e tem dois amores a chegar. Então não é bonito?

-E depois? Perguntou o professor?


-Então depois o que? Respondeu Marcolino.

-Sim e depois? Vocês querem uma criada ou uma esposa?

-Pode chamar isso, queremos uma mulher que, também, é essa coisa de esposa.

-E à noite como dividem? Perguntou o professor.

-Dividir? Isso não, não dividimos nada, nunca, mas mesmo nunca. Quase gritou Marcolino.

-Sabes que mais! Exclamou o professor, isto parece uma conversa de malucos!

-Olhe lá senhor professor, eu tenho muito respeito por si, mas não sou nenhum maluco, há muitas pessoas que pensam que sou, mas não sou. Sou um pouco fraco de juízo e as pessoas pensam que sou maluco e o meu mano ainda pior, nem se atreve a passar pela aldeia.
Se se atreve há logo um ou outro que grito "Olha o Inácio desmiolado" e ele não gosta, atira pedras aos rapazes. Eu também não gosto e, um dia apanho um desses malvados, dou cabo dele, estrafego-o de tal maneira que vai passar o resto da vida agarrado a um cajado. Pode ter a certeza que o faço!

-Mas ouve bem Marcolino, eu não chamei maluco a ninguém, só disse que parecia uma conversa de malucos, mas éramos os dois, cada um dizendo uma baboseira, sem chegarmos a lado nenhum, porque não nos explicámos bem.

Eu sei que és bom rapaz, mas perdes a cabeça com facilidade e o teu irmão, bem nem vale a pena falar.

Mas vamos à nossa conversa sobre a Cassilda, se bem percebi vocês querem casar os dois com a menina, coisa que não é permitida e, mesmo que fosse, era preciso que ela quisesse.

-Mas não precisamos de casar, ela vai lá pra casa, passa a ser a dona e senhora das coisas, nós os homens vamos trabalhar, quando voltamos ela está à nossa espera com a janta.

Chega um de cada vez, ela dá um beijinho e agradece a Deus por ter dois maridos tão bons.

O professor estava pasmado, não sabia se devia rir ou chorar, nunca na vida pensou ser apanhado numa coisa destas. Estava arrependido por se ter metido neste imbróglio, mas o olhar aterrorizado da rapariga, e o desvario do homem, obrigaram a tomar uma posição e agora estava num beco sem saída.

Tomou fôlego, e avançou:

-Ouve lá, parece que já têm tudo resolvido mas há uma coisa que me escapa:

-E qual dos dois vai ser o homem da casa?

-Que pergunta, senhor professor, parece que não percebeu nadinha de nada. Tá bom de ver que vamos ser os dois, os homens da casa, não podia ser doutra maneira!

-Pois, está bom de ver! Já calculava, disse o professor, mas qual dos dois dorme com a dona da casa?

-Ai alto, senhor professor! Misturas não. Ela vai ter um quarto, com uma cama, só para ela.

Eu e o meu mano continuamos a dormir juntos, como sempre, já estamos habituados ao cheiro um do outro. Náá... não há cá mudanças, nem misturas. Era o que faltava!

-Afinal os miúdos parece que têm razão!
E digo quase, porque na verdade eles deviam gritar.

São os dois varridos do miolo!!!!

Và desaparece e, se te vejo a incomodar alguma rapariga, vais direitinho à guarda e sou eu que te levo pelas orelhas. Eles logo te arranjam outra companhia para dormires.


-Eu cá não tenho culpa!

Foi o meu mano que me mandou.

Disse, Marcolino, a chorar.



terça-feira, 21 de abril de 2015

ELA












Era sempre assim, embora, por vezes, a memória, lhe trouxesse recordações que lhe contrariavam a vontade.

Á tarde, quando os sentimentos não viajavam nas asas da imaginação, sentava-se na amurada e contemplava a imensidão do mar como se as ondas o levassem no balançar de sonhos perdidos.

Sentia no corpo o arfar dos momentos que existiram e que se deixavam, de forma lasciva, morrer em suspiros de mãos deslizantes em seios túmidos, em corpos colados no calor húmido do prazer.

Hoje as saudades tolhiam os pensamentos, as recordações eram espirais que não conseguia reter, vinham e desapareciam no emaranhado confuso de um cérebro cansado, nas memórias que o faziam sofrer mas, ao mesmo tempo, lhe deixavam um travo ténue de uma felicidade que foi tão fugaz mas tão doce.

O mar ia e vinha naquela toada sincopada como se quisesse acompanhar a batida do seu coração. Mas era impossível o coração já parecia não bater, perdeu o ritmo no dia em que ela partiu, naquele dia em que, sem saber porque, apenas lhe ficou um enorme cansado, uma angústia que doía dentro do peito.

******

Foi num dia, frio e chuvoso, de Dezembro, o chapéu-de-chuva com uma rajada mais forte deixou o pano voar ficando, apenas, um esqueleto de arame vergado ao sabor do vento. Ele reparou e foi célere na ajuda:

-Abrigue-se aqui, e estendeu o seu chapéu, vamos até aquele café para se recompor.

Ela aceitou, sem uma palavra, só lhe apetecia chorar, sentia-se ridícula, encharcada e com os despojos de algo que foi um chapéu-de-chuva.

Só quando chegou ao café, recobrou e, viu como ele era bonito, mas isso, era apenas um pormenor.
Aceitou um café, por agradecimento e para recuperar da raiva e daquela sensação de impotência perante uma simples rajada de vento.
De repente, os dois, riam às gargalhadas pelo insólito e ela, um pouco, pelos nervos acumulados.

Ele atreveu-se:

-Não pense mal, mas tenho o carro, muito próximo, posso leva-la a casa ou onde desejar.

Ela sorriu, era linda mesmo com os olhos esborratados, com a pintura misturada, com a água da chuva.

Aceitou e, apenas, pediu:

-Dá-me, só, um momento para compor a desgraça da minha cara?


****

Morava num bairro, de vivendas geminadas, muito calmo e florido.

-Fico aqui, disse, agradeço a sua amabilidade.

Abriu a porta, estendeu-lhe a mão e preparava-se para sair, mas ele não se conteve:

-E acaba aqui? Não nos voltamos a ver?
Porque não vamos, um dia destes ao cinema, ao teatro ou simplesmente almoçar! Ou será que não pode?

Sorriu e, agora reparou melhor, era linda, e quando sorria fazia duas covinhas ,nas faces, o que lhe davam um encanto especial.

Respondeu-lhe:

-Poder, posso! Só não sei de devo, afinal nem nos conhecemos!

-Mas, replicou, é essa a oportunidade de nos conhecermos um pouco melhor.

-Está bem, disse, que acha sábado, ao meio dia, no café da desgraça?

-Combinado, lá estarei! Respondeu.

*****

Hoje não chovia mas o dia estava frio.
Ele escolheu o mesmo lugar, não por saudosismo, mas por algo que não sabia explicar.

Ela chegou enrolada num belo casaco vermelho, luvas e sapatos da mesma cor. O cabelo, negro, caia em suaves caracóis nos ombros.

O sorriso, um pouco tímido, vincava aquelas covinhas, que realçavam toda a sensualidade que a envolviam.

Ele, levantou-se e ajeitou uma cadeira, não sem antes desabafar:

-Está linda! Meu Deus, no outro dia mesmo com a chuva, também estava, mas hoje supera!

-Obrigada, respondeu, com este frio nem sabia o que vestir. Venho um pouco a dar nas vistas.

******

Ela, tal como ele, gostavam de comida italiana.
Foram ao restaurante do Alessandro onde, segundo ele, serviam os melhores raviólis e um  Capeleti à Napolitana de comer e chorar por mais.

Depois, passearam à beira mar, conversas que sairam naturalmente. Ele abriu o coração, ela foi mais prudente, foi escutando. Vivia com os pais, não tinha por agora compromissos.
Quase sem darem por isso começaram a caminhar de mãos dadas.

-Curioso, constatou ele, estamos de mãos dadas e ainda não sabemos os nossos nomes!

-É verdade, tens razão, eu sou Lúcia. E tu és Luís, não és?

-Como sabes? Perguntou, admirado.

-Ouvi o empregado do restaurante tratar-te por senhor Luís.

Sentaram-se nesta mesma amurada, nela trocaram o primeiro beijo, furtivo, suave mas intenso.


****

Depois foi o paraíso, todos os momentos eram poucos para estarem juntos. Amaram-se como se o amanhã jamais existisse, promessas eternas. Os dias de trabalho pareciam não ter fim para voltarem para os braços um do outro.

Iam quatro meses passados, a primavera começava a perfumar o ar e as flores, timidamente, iam colorindo os jardins.

Lúcia e Luís continuavam na maior paixão e os planos para o futuro começavam a fazer parte dos seus pensamentos.

Num fim do dia, abraçados no doce torpor dum momento especial, Lúcia, perguntou-lhe:

-Luís se eu saísse da tua vida ias sentir saudades?

-Minha tonta, respondeu, como podes sair da minha vida se tu já és a minha vida. Sem ti a minha deixava de ter sentido. Amor não gosto dessas perguntas, deixam-me com pensamentos negativos e isso não quero. 


*******

Algo não está certo, nem uma única vez Lúcia atendeu o telemóvel, sempre a mesma mensagem "o número que marcou não está disponível, tente mais tarde".

Bom não se vai inquietar, deve ter acabado a carga ou deixou cair o telemóvel.
Logo ao fim do dia vão estar juntos e isso é o mais importante.

Agora já começa a ficar preocupado, Lúcia não atende e, pior ainda, está atrasada mais de uma hora. Não é normal, nunca aconteceu.

Sabe onde mora, ainda se lembra quando a levou a casa, mas ela pode não gostar é, quase, quebrar-lhe a privacidade. Pode ser mas se está doente e precisa dele? Tem que se decidir, vai mesmo.

O bairro estava muito sossegado, apenas as luzes das habitações davam, alguma, claridade pois o candeeiro público não estava a funcionar.
É aquela porta. Tocou e aguardou.

-Quem é, disse uma voz?

-Boa noite, sou o Luís e preciso saber da Lúcia !

A mesma voz insistiu:

-Não percebi quem é e não mora aqui nenhuma Lúcia. E a estas horas não é prudente abrir a porta.

Luís voltou a insistir:

-Caro senhor eu compreendo o seu receio, fui eu que no dia de chuva deixei, aqui, a Lúcia. Pode confiar. Pode chamar um vizinho, ou quem quiser, para não ter receio mas preciso falar com a sua filha.

Do outro lado o homem pareceu contemporizar:

-Vou ai, não devia mas gosto do seu tom de voz.

Abriu-se a porta e um homem, não muito novo, apareceu com ar sorridente.

-Meu senhor deve haver uma confusão, a minha neta contou de um senhor que lhe deu boleia num dia de chuva, mas ela não se chama como disse, ela é Joana.

O homem tirou o telemóvel e mostrou  uma foto:

-É esta a Lúcia!

-Não, não,  respondeu o morador essa é a minha neta Joana.

O homem estava confuso, mas que importava se era Lúcia ou Joana, desde que fosse ela.

Perguntou:

-Posso falar com ela? Devo ter confundido o nome.

-Tenho pena senhor mas não pode, a minha neta embarcou hoje muito cedo para Luanda. Ela vive com o marido em Angola e esteve em Lisboa a fazer um curso pela Empresa, acabou e ela voltou para o trabalho e para o marido.