domingo, 19 de Outubro de 2014

A Vida - Parte 4











-Não te preocupes! Agora já podes ir de férias para o Algarve.

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Talvez fosse influência do dia, chuvoso e com muito frio à mistura, mas Albino olhou pela vidraça e pensou que se não fosse a reunião com o presidente do Banco de Nova York, hoje de manhã, não ia por os pés na rua.

O que lhe apetecia, verdadeiramente, era um pouco de liberdade, esquecer reuniões em que apenas se discutiam formas de aumentar os lucros, de conseguir mais dividendos para distribuir pelos accionistas, não interessava como, apenas interessava o resultado.

Foram anos difíceis, mas apesar de tudo tinha saudades, do cheiro das bolos quentes que chegavam em grandes tabuleiros de lata, e do ar circunspecto do senhor Jerónimo, entre as portas do armazém, com dois dedos, de cada mão, enfiados no cinto ia espiando cada momento, nada escapava ao dono da pastelaria. Passados todos estes anos tinha a certeza de que, aquele homem, que apenas estudou na cartilha da vida era um dos maiores gestores, com quem alguma vez se cruzou e já, foram muitos.

Mas, isto, eram apenas cogitações pois o motorista já o esperava à porta, com um enorme chapéu-de-chuva, para o conduzir à viatura.

A reunião  foi um acertar do que já há muito tinham estabelecido, nada de novo nem de especial, apenas um partir pedra para justificar os acordos e mostrar, através da imprensa, que estavam a trabalhar para bem do povo. 
Ninguém já acreditava mas insistir é bom, pois o população, depois de tanto os ouvir acaba por ir acreditando. Mas podia dizer que correu bem, pelo menos, foi o que disse à imprensa.

*****

Albino andava um pouco deprimido, tinha tudo, estatuto, dinheiro e poder, muito poder, mas faltava-lhe aquilo que nunca, verdadeiramente, teve e sempre desejou para se sentir realizado. Amor, carinho e afecto apenas faziam parte do seu vocabulário, mas nunca os sentiu e tanta falta lhe tem feito.

O motorista deixou-o à porta do apartamento, a chuva tinha parado e o Sol, muito timidamente, tentava espreitar por entre as nuvens.

Albino não lhe apetecia ir para casa, estava abatido, havia uma nostalgia que não sabia explicar, a cabeça fervilhava de recordações, daquela casa onde abriu os olhos para a vida, da professora que tanto acreditou nele, do mestre Crispim, de plaina na mão, a acertar madeiras e, muito no senhor Domingos, homem de coração grande, que entre garrafões de lixívia e latas de limpa metais, ainda arranjava tempo para dar atenção a um miúdo que passava perdido na vida. Ainda hoje guarda,  com muito amor, um lápis Viarco como se fosse uma preciosa relíquia.

Eram recordações, pedaços de vida que o alimentavam e faziam dele, aquilo que agora era. Frio, astucioso, sem sentimentos mas, no fundo, tinha um coração enorme pronto a desfazer-se em afectos se, o Senhor das Coisas, lhe desse uma oportunidade.

Pensou ficar em casa em cogitações, a por em ordem o turbilhão de remorsos, recordações, frustrações mas, não podia, tinha um compromisso de marketing político que o obrigava a dar a cara.

O Instituto a que presidia, por indicações da tutela, ia atribuir 12 bolsas de estudo a jovens universitários.


*****

Joana jurou que não iria verter uma lágrima.

Ia ser diferente, já era muito bonita ia tentar ser ainda mais, era elegante mas ia realçar, melhor, todos os atributos, os homens já a olhavam com cobiça, pois iam olhar muito mais.

Não podia dizer que ficou indiferente, ela gostava do Maurício e pensava que os sentimentos eram recíprocos, mas afinal ele era volúvel, não sabia esperar até que, a confiança mútua, os fizesse ir até onde ele desejava. Ela tinha razão, o gostar dele, não era amor, era apenas desejo.

Sabia que, na faculdade, era natural cruzarem-se e não queria demonstrar fraqueza, iria passar indiferente, sem raivas, sem palavras azedas, sem emoções, como se tivessem sido apenas dois amigos que se conheceram mas, que tinham gostos e objectivos diferentes.

*****
Maurício não queria acreditar, as coisas aconteceram, quase sem ele dar por isso. Encontrou, por acaso a Lisete que o convidou para um café, porque eram amigos.

Ela começou numa de sedução e deixou-se ir, nunca imaginou a namorada por ali. Agora sabia que nada havia a fazer, conhecia a Joana e tinha a certeza que, nunca o ia perdoar, mas ia tentar.

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Joana andava preocupada, tinha um trabalho de, microbiologia, para preparar, mas a cabeça não a deixava descansar.

Foi o acabar do namoro, custou um pouco, afinal ainda foram, quase dois anos, sabia das dificuldades dos pais para a manterem na faculdade, e o part-time que desejava estava difícil. O pai dizia para não se preocupar mas, tinha a certeza, que andavam a fazer muitos sacrifícios.

A mãe continuava distante, parecia que os problemas, para ela, não existiam.

Ainda ontem, sentou-se no joelho e perguntou-lhe:

-O que achas se eu desistir do curso e procurar um emprego? É muito pesado, para vós, e eu não os quero ver preocupados!

Sorriu, a mãe sorria sempre, segurou-lhe a mão com carinho e disse-lhe:

-Continua os teus estudos, o dinheiro aparece sempre, não te preocupes!

Depois voltou para o seu mundo de pensamentos.


*******

Ontem quando ia a subir o carreiro que leva ao laboratório, viu ao longe o Maurício, conheceu-o por aquela maneira de puxar, com os dedos, os cabelos que lhe caiam na testa. Ficou satisfeita e não ficou muito perturbada.

No átrio, alguns colegas, pareciam muito curiosos com um aviso afixado na vitrina, Ia espreitar.

Era importante, o ISSERS tinha, 12 bolsas de estudo, para atribuir e indicavam o site e o endereço onde estavam as condições para candidatar. Nunca tinha pensado nisso, mas era uma forma que a podia ajudar, era boa aluna, boas médias e com uma família com rendimentos modestos. 
Hoje mesmo ia consultar e fazer tudo o que fosse necessário. Melhor, amanhã tinha tempo, ia em pessoa ao Instituto.

Não disse nada em casa, também não valia a pena, já sabia, A mãe ouvia abanava a cabeça, sorria e não dizia nada, o pai fazia um ar triste, ficava com os olhos com reflexos de lágrimas e, tal como a mãe, também nada dizia.


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Manhã cedo foi a caminho do Instituto, queria saber tudo, como se podia habilitar à lotaria de uma bolsa, não estava com muitas esperanças, nunca teve muita sorte mas, como dizia alguém, tentar não custa nada.

Boa surpresa, foi atendida por uma doutora Cândida, simpática, competente e muito prática e, importante, gostou dela.

Deu-lhe todas as indicações e muitas esperanças, alias, achava que merecia conseguir uma das bolsas.

Terminou com um conselho em ar de confidência:

-És muito simpática, vai tratar do teu processo e vem ter comigo, prometo dar uma palavrinha ao Doutor Albino Malcata, que é o presidente.

Joana pensou, que finalmente, um raio de esperança se tinha cruzado no seu caminho.
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Era quinta-feira, um Sol tímido parecia querer romper uns cirros, de nuvens, que se vislumbravam no horizonte.

Joana caprichou na apresentação, vestiu a melhor roupa que tinha, amanhou o cabelo de forma a fazer realçar a beleza e frescura do rosto. Não usava muitas pinturas, apenas uns leves retoques nos olhos para dar mais realce ao seu brilho.

Não era muito vaidosa, nem precisava, mas hoje estava muito em jogo.

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Quando chegou ao Instituto ficou, um pouco, preocupada, a doutora Cândida, estava a despacho com o senhor presidente. Se ia demorar? Não sabiam, podia ser meia hora ou, até toda a manhã.
Se quisesse podia esperar ou, então, alguém a iria atender. Ia esperar o tempo que fosse necessário.

Teve sorte, cerca de 40 minutos depois a doutora Cândida saiu, reconheceu-a, deu-lhe um beijo e perguntou:

-Tens tudo em ordem? Espera um pouco que estamos, quase, a acabar.

Pegou numa pasta esverdeada e, voltou, a desaparecer no gabinete.

Mais 20 minutos e saiu acompanhada de um senhor, por sinal muito jeitoso, que a cumprimentou com um leve movimento de cabeça.

A doutora Cândida aproveitou:

-Esta jovem é minha amiga e vem apresentar o processo a uma bolsa do programa "Oportunidades" do ISSERS.

-Então,  Cândida, trata de tudo e se estiver em ordem eu quero, depois, falar com a menina....não sei o nome!

-Joana! Respondeu, corando até às orelhas.

-Fique descansado senhor Presidente, eu trato.

Joana estava fascinada o senhor, sabia agora, era o Dr. Albino Malcata.
O presidente!

A doutora Cândida deu-lhe dois beijinhos e, à laia de despedida, segredou-lhe:

-Vai tranquila o senhor doutor mostrou interesse, o que não é normal!

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Foi de coração acelerado, a imagem ia com ela, que homem tão diferente de todos os que conhecia.


Distinto, educado e tão bonito.

Teve que dizer para ela própria "Joana tem juízo!"





 Vou tentar abreviar antes que se torne chato, muito chato.










domingo, 12 de Outubro de 2014

A Vida - parte 3













Tinha uma esperança secreta, mas era apenas uma esperança, encontrar o filho, sabia que era difícil porque ele não queria ser encontrado.


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Ninguém sabe o que está para acontecer, e mesmo aqueles que pensam que as coisas só acontecem porque tem que suceder, são apanhados na rota do destino.

Joana nunca pensou que quando aquele rapaz, com ar de bebé crescido, um pouco desengonçado a olhou, ela, fosse sentir aquele tremor que quase a deixou paralizada.

Todos os dias o notava no liceu, muitas vezes se cruzaram mas, parece que o Deus das coisas, nunca tinha deixado que se notassem um ao outro.

Hoje foi diferente, os olhos entraram nos olhos e algo de estranho aconteceu, Joana tentou baixar o olhar, mas Maurício não deixou fugir o momento:

-Como te chamas? Todos os dias nos atravessamos, acho que já há um ano, mas sou um distraído.
Sou o Maurício e tu?

Ela tentou não corar, fez um leve abanar no cabelo que, sem o saber, tornou o momento mais sedutor.
Tentou vulgarizar o momento, mas não se saiu nada bem.

-Sou a Joana! Acabou por dizer.

-Joana, exclamou Maurício! Adoro esse nome, sempre disse que se um dia me apaixonasse, seria por uma Joana.

Ela ficou, quase, sem jeito e num manear de corpo que tinha tanto, de desajeitado como de mágico, virou-lhe as costas e tentou desaparecer, mas não foi suficientemente convincente.

-Desculpa Joana, gritou Maurício, eu não queria ser parvo, mas juro que é verdade! Se me deixares, e prometeres que não vais gozar, eu vou contar.

Ela estava a gostar de esta abordagem, o rapaz era simpático e, tinha um ar tão descontraído que a cativava.

Olhou a cara de bebé crescido, sorriu e pediu para explicar melhor.

-É assim, disse ele, quando me apaixonei pela primeira vez, estava na quarta-classe, e sabes por quem? Sei que não sabes! Mas foi pela minha professora que se chamava Joana.

Depois, quando me explicaram, que eram normais estas paixões e me fizeram perceber que era, apenas, a consequência da admiração do aluno, eu prometi, a mim mesmo, que se um dia tivesse uma namorada, a sério,  ela tinha que ser Joana.

-És mesmo parvo e, não sou tua namorada! Concluiu Joana, com uma pequena gargalhada.

Maurício não se conteve, puxou os cabelos para trás, com os dedos, como se fossem um pente  e, com um sorriso de simpatia, concluiu:

-Por enquanto Joana, por enquanto!

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Foi o princípio de um amor, não uma paixão, porque as paixões são efémeras, foi mesmo de um amor.

Eram tão diferentes mas completavam-se, de tal forma, que um parecia adivinhar o pensamento do outro.

Ela era uma rapariga pragmática, determinada e com objetivos bem definidos na vida. Queria ser médica, queria estudar e ser psiquiatra. Sabia o quão difícil seria e, não tinha a certeza, se os pais poderiam e estariam dispostos a esses sacrifícios. Quando fosse para a faculdade, se o conseguisse, ia tentar arranjar um part-time. Não ia ser fácil, mas ia lutar e estava determinada a vencer.

Maurício tinha uma filosofia de vida diferente, era um sonhador, acreditava que as coisas aconteciam porque era esse o destino e, se assim estava escrito, era só esperar para acontecer.
O facto de ser filho único, de pais abastados, também ajudou a esse sentimento de um certo facilitismo. Nunca precisou de lutar muito, pelos desejos, pois o dinheiro fazia acontecer.

Tinha a sensação de que as coisas surgiam porque, o destino, assim o tinha determinado.

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Mas o entendimento era perfeito, ele gostava da determinação, e do querer, da Joana, ela adorava a ternura, a delicadeza e a forma  descontraída como encarava a vida. Para ele estava sempre tudo bem.

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Era delicado, talvez um pouco imaturo a contrastar com a forma cautelosa como, Joana, encarava todas as situações.

Um dia, encarou Joana e com aquela naturalidade que lhe era habitual perguntou:

-Joana, podíamos casar! Nós amamo-nos e eu quero estar contigo para o resto da minha vida.

Joana deu uma daquelas gargalhadas, que só ela sabia soltar, de forma tão espontânea.

-Maurício, onde anda o teu juízo? Casamos, ficas na casa dos teus pais e, eu na dos meus, encontramo-nos ao fim de semana e ficamos na mesma. É isso?
Ou, então, deixamos os nossos cursos e vamos trabalhar? Nunca mais cresces!

Maurício corou, naquele ar de bebé crescido e admitiu:

-Tens sempre razão! Ainda bem que, entre os dois, há uma cabeça para pensar. 

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Não era fácil, Maurício, queria que o namoro fosse mais que a simplicidade que Joana lhe atribuía, era apenas um namoro à moda antiga, saídas ao cinema, passeios pelas avenidas, centro comerciais, tardes nos cafés ou umas idas a qualquer espectáculo.

De vez em quando um beijo, quase à sucata, e nada de avanços.

-Somos apenas namorados! Dizia Joana.

Maurício ficava na dúvida, se esse fugir, era por causa de uma mentalidade retrograda que já não fazia sentido, ou porque ela não estava certa dos sentimentos.

A reacção que tinha, quando ele tentava ser um pouco mais ousado não era normal, as raparigas de agora estavam abertas a um relacionamento diferente, não agiam como se o sexo fosse um tabu, que ficava reservado como ementa principal no casamento.

Isso já não se usava e, pensava Maurício, ela andava a passar o tempo apenas pelo conforto que ele lhe proporcionava.

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Foi em Julho, estavam de férias, os dias magníficos convidavam a uns dias na praia, ele sugeriu irem passar, um fim-de-semana prolongado ao Algarve, os pais tinham lá um apartamento.

Joana pareceu interessada o que deixou, o rapaz, num total reboliço.

-Então está combinado, vamos na sexta-feira, exclamou o rapaz?

-Mas, perguntou ela, os teus pais já estão lá e tem acomodações para todos?

-Estava a pensar irmos os dois, disse Maurício com alguma hesitação.

Joana no seu jeito, meio a sério meio brincar, deu uma gargalhada sonora e com sarcasmo sussurrou:

-E que mais querido! Também queres que comece a tomar a pílula?

Voltou as costas como se nada tivesse acontecido e acrescentou:

-Não posso ir, não tenho fato de banho!

E foi andando com um sorriso provocador.

*****

Joana era uma menina que pouco tinha a agradecer à vida, a mãe vivia num mundo de remorsos que ninguém conhecia, não era uma mulher azeda, pelo contrário, era muito doce, mas não tinha emoções, parecia estar sempre à espera de algum milagre.

O pai, já tinha 62 anos quando ela nasceu, foi como se lhe tivessem dado uma boneca, ficou embevecido, vaidoso mas sem saber, bem, o que fazer.
Até tinha receio de lhe pegar. Era tão frágil!

A menina cresceu, nada lhe faltou, teve muito amor, mas sem a alegria que molda a personalidade, alimenta a alma e adoça o espirito.


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Pouco sabia dos seus antepassados, as origens perdiam-se no mutismo da mãe, que já tinha esquecido as raízes e na memória do pai que, aos 12 anos, ficou órfão e foi criado por uma velha prima até que aos 15. Depois veio para Lisboa e por cá ficou.


A mãe era de uma aldeia próxima de Castelo Branco e, segundo uma confidência da madrinha, foi casada com um sapateiro que um dia a abandonou, foi então que conheceu o pai, um caixeiro-viajante e, não sabe porque se apaixonaram, porque a mãe é muito bonita e jeitosa e o pai nem por isso.
É muito mais velho e apenas tem,  como beleza, a sua enorme bondade. 

Dizem que se enamoraram, amor à primeira vista, dizem eles, porque ninguém acredita.

Para a mãe foi o conforto económico de um homem, que embora muito mais velho, era carinhoso e sabia dar-lhe a atenção que nunca teve.

Para o pai era como que um alimentar do alter-ego, ter conseguido uma mulher, na plenitude da vida, ainda capaz de lhe satisfazer o seu maior desejo, dar-lhe um filho.

O resto tem sido um viver de faz de conta, uma mãe acomodada, que passa pela vida, como se ela não existisse, pensa que a mãe tem um segredo que a consome mas o qual, não quer, ou não pode, partilhar.

Um dia, afoitou-se um pouco mais, e perguntou ao pai:

-A mãe carrega, com ela, um segredo ou um desgosto que não quer compartilhar, sabes qual é pai? 

O pai fez uma longa pausa, longa de mais para ser verdadeiro, antes de responder:

-Sabes filha que o único segredo, da tua mãe, é o grande amor que tem por nós. Não penses nisso Joana!

Joana mais se convenceu de que algo, muito importante, lhe estava a ser escondido.

********

Joana hoje só tinha aulas, na faculdade, na parte da tarde, mas precisava consultar um artigo, sobre Rita Levi–Montalcini, pelo que resolveu ir mais cedo, para passar pela biblioteca.

Saiu numa paragem do autocarro, antes da Univerdade, para passar na livraria, precisava comprar o livro “Elogio da Imperfeição”, para preparar um trabalho.

Mas pensou mal, a livraria estava fechada  para almoço, da 13 as 15, ela sabia mas a cabeça, por vezes, tem estas falhas.
Ia ficar para outro dia.

Meteu os pés a caminho da faculdade e, em boa hora, olhou pela montra do café "O Caloiro".

Nem queria acreditar, na mesa mesmo encostada ao vidro o Maurício e, uma amiga comum, a Lisete, estavam no maior à vontade, entre caricias e beijos, totalmente alheados de tudo e todos os que os rodeavam.

Ficou sem saber, mesmo, o que fazer. As emoções, os sentimentos, o amor-próprio e o orgulho tomaram conta dos pensamentos.
Não sabia o que fazer, era uma luta entre o bom senso e a vontade.

Podia seguir e fingir que não viu nada?
Entrar e fazer uma pequena, ou grande, fita? Mas isso, não estava no seu feitio.

Imperou o bom senso. Foi simples e civilizada.

Entrou no café e, com a maior calma do mundo, cumprimentou o casal e desejou:

-Meninos...continuem a divertir-se, aproveitem que eu vou fazer o mesmo!

Maurício, tentou, mas a voz não lhe saiu muito bem, tentou, mas as palavras soaram a falso:

-Joana, isto não é nada foi só......, mas não teve tempo para concluir, Joana foi mais rápida:

-Não te preocupes! Agora já podes ir de férias para o Algarve.







(Ainda falta um pouco para acabar, só me falta decidir o destino destas personagens.)









quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Uma Vida – Parte 2











Voltou desiludido, quis cumprir a promessa, mas a mãe depressa se esqueceu e fez como sempre, escolheu o mais simples.


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Às vezes apetecia-lhe chorar, mas as lágrimas há muito secaram. Já chorou muito, lágrimas de raiva, de desespero e de impotência perante os entraves que o dia-a-dia lhe ia  colocando no caminho.

Foi o abandonar tudo e todos na procura de uma vida, de uma identidade, uma camioneta que o foi levando se lhe deixar ver o que deixava para trás, a fome que ia disfarçando na caridade alheia, o frio das noites tristes no adro de igreja, a solidão das dormidas numa tarimba do armazém entre ruídos, odores e medos que lhe tolhiam o pensamento e tornavam os sonhos em pesadelos.

Suportou tudo, cerrou os dentes na determinação de encontrar um rumo, sonhava em vencer e trazer a mãe para, finalmente, ter uma família onde o amor fosse possível.

Afinal não valeu a pena, a mãe mais uma vez, se arrimou a um confortável  comodismo, sem a coragem que torna as mães especiais.

Quando viu a casa, tão diferente, como se tivesse crescido, ficou desconfortável sabia que algo tinha acontecido, os pais não mudavam nada, nem na casa nem nos sentimentos.

Bateu à porta, apenas para confirmar, o resto já adivinhava.

O senhor Domingos, da drogaria, sempre o tratou bem, ia fazer uma visita, talvez lhe pudesse dizer alguma coisa.

A drogaria estava na mesma, o senhor Domingos vestia a velha bata, de cor já indefinida, não o reconheceu, quando entrou, ficou confuso, não lhe era estranho mas, não conseguiu descobrir.

-Como está o senhor Domingos? Perguntou.

Olhou-o por cima dos meios óculos, algo confuso, saiu detrás do balcão e mirou-o de alto-a-baixo. Julga que viu uma lágrima a saltar, abraçou-o como nunca o tinham abraçado, antes de desabafar:

-Oh rapaz como te havia de conhecer! A última vez que te vi eras um fedelho, desgalgado, cabelos desalinhados, de calções puídos e camisola da cor da minha bata e agora, quase um homem, de fato e gravata, cabelo bem assente, nem pareces o mesmo, só os olhos tem o mesmo brilho.

Vá! Conta-me tudo, mas não penses que te perdoo. Abalares sem te despedires desde teu amigo!

-Senhor Domingos não dava, teve que ser assim senão podia não resultar e um fracasso, para mim, ia ser muito penoso.
Deixei um bilhete a garantir, à minha mãe, que voltava para a levar mas não quis esperar. Eu sei que foi muito tempo mas, só agora, arranjei condições. E ela  abalou, não sei para onde!

O homem pensou antes de responder:

-As coisas não são como nós desejamos, o diabo está, sempre, detrás da porta. Depois de ires embora, ao teu pai deu-lhe a maluqueira e meteu-se à estrada, ninguém sabe para onde. Uns dizem que foi para Espanha, outros pensam que está em França e, até há, quem diga que se foi afogar no rio, mas não acredito, nunca encontraram qualquer cadáver. A tua mãe, viu-se sozinha e sem nunca ter trabalhado, o que havia de fazer, vendeu a casa e foi embora com o primeiro que lhe apareceu um tal, dizem, vendedor de maquinas de costura.
O que havia a pobre de fazer?

O Albino, parecia meditar, escutava e ao mesmo tempo ia fazendo, na sua cabeça um filme de tantos acontecimentos, a mãe não tinha esperado mas a culpa era dele. Podia ter escrito a pedir para esperar mas teve medo, muito medo, que o descobrissem e, o pai, lhe aparecesse um dia para o levar pelas orelhas. Teve que esperar pela maior idade e foi muito tempo, a mãe não teve culpa. Era ele, sempre foi ele a causa de todos os males, foi naquela maldita de uma certa sexta-feira, naquele dia frio e chuvoso, que tudo começou, não devia ter aberto os olhos para a vida.

O senhor Domingos deu-lhe um abraço e, com um sorriso, entregou-lhe um lápis Viarco:

-Toma leva contigo este  lápis! Sei que não precisas mas, a mim, fez-me bem recordar.

Apertou-o, com força, e voltou para dentro do balcão para esconder algumas lágrimas mais rebeldes.


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O regresso trouxe-lhe à lembrança uma quarta-feira, já distante, mas tão presente nas suas recordações.

Olhou, mais uma vez, para a povoação que se ia perdendo nas curvas da estrada, era a sua terra mas, tinha a certeza, que nunca mais iria voltar.


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Faz, hoje, 14 anos que se enfiou entre bobines, de papel, e se atirou numa aventura para o desconhecido, nunca esqueceu o dia, porque representa um marco na sua vida.

Não olvidou um único passo, lembra alguém, que um dia, lhe matou a fome com uma sandes de presunto, não esquece um homem gordo, que acreditou nele e lhe deu um lugar no balcão de uma reputada pastelaria, foi lá que cresceu, que recalcou os ódios, aprendeu a lidar com as pessoas, a saber fingir, a inventar um sorriso quando a fúria começava a aparecer.

Foi estudar, com ambição, tem um curso superior, não sabe bem para o que, mas foi o que lhe apareceu mais a jeito.

O patrão morreu, foi-lhe oferecida a gerência e uma quota na sociedade, não aceitou tinha ambições, que estava prestes a concretizar.


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A vida é difícil e, por vezes, temos que procurar caminhos para seguir em frente. Nem sempre por convicções, mas por calculismo, por ambição e pela necessidade de ir mais além.

Albino enquanto trabalhou, no café, soube bajular quem um dia lhe podia ser útil, não queria o resto da vida, a um balcão, para ele havia um mais longe, um mais além, se possível até ao topo.

Começou por se inscrever como militante num partido do poder, precisava criar raízes e conhecimentos.

Agora, que ia começar uma nova etapa, na vida, era a altura certa.

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Um dos administradores, do banco da esquina, homem influente na vida, e no partido, era assíduo e conversava muito, com Albino, já lhe tinha dito que quando estivesse formado tinha um lugar garantido, só não lhe disse onde e qual.

Pouco importava, viesse o cargo que ele se iria encarregar de trepar até ao topo, era assim que queria daqui para diante.

Quando a dona Gabriela, secretaria do senhor Administrador, lhe telefonou achou normal, há muito que o esperava.

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Começou como assessor, para as relações internacionais, não sabia o que ia fazer, mas não era importante, tinha um bom ordenado, boas condições e excelente visibilidade, afinal era mesmo isso o que lhe interessava.

Não parecia, mas era um cargo politico, houve alguma pressão do partido, mas de forma sub-reptícia para não ser muito notada.

Aníbal estava como, confessa, nunca pensou mas ainda longe, não esconde, daquilo que pretende.

Tem um gabinete enorme, com uma larga janela para a avenida, duas secretarias, lindas e competentes, que tudo fazem e lhes adivinham os pensamentos.

Marcam as reuniões, gerem a agenda, preparam as viagens, imensas pela Europa, com altas figuras do mundo financeiro.

Ainda não estava no topo, mas faltava pouco.


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Maria do Rosário tinha momentos em que os remorsos lhe afligiam o pensamento.

Pensava no filho que pariu e nunca teve, condenava-se pela falta de coragem, pelo medo e pelo laxismo a que se remeteu. Devia ter lutado por ele, devia ter feito a escolha certa mas não, foi pelo mais fácil, pelo mais cómodo.

Pensou que se o considerasse como um empecilho, iria reconquistar o homem com quem casou.

Não foi por amor, foi por libertação, pelo desejo de fugir à miséria, embora nesse tempo fosse feliz, não tinha nada, mas havia o amor da família. Muito amor!

Hoje vivia uma quietude, apenas aparente, pois estava com Albino, no pensamento, e com o medo de um dia se cruzar, com o filho, e não o reconhecer.

Sabia que foi ele, que um dia, se meteu à estrada e desapareceu na bruma do tempo mas tinha dito -"um dia volto para a vir buscar"- e, ela foi também embora e não esperou.

Não sabe se iria voltar, mas sabe que se voltou, apenas encontrou a ausência a que sempre o habituou.

Tinha 58 anos, um homem que a amava, porque ela, não possuía a certeza se correspondia, mas gostava disso, não tinha duvidas. Sonhava com o filho, de 28 anos, que já não conhecia, e agora a pequena Joana, que ia completar 15 anos.

Podia ser uma mulher feliz, mas era como ter tudo e faltar-lhe um braço, podia viver a vida mas, sentia-se, imputada de uma parte muito importante.

Tinha uma esperança secreta, mas era apenas uma esperança, encontrar o filho, sabia que era difícil porque ele não queria ser encontrado.


Continua se, eu,  tiver engenho e arte …




sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Uma vida – Parte 1


 


 

 

Esta é a primeira parte de um conto, demasiado grande para um Blogue, vou publicar por fases. Possivelmente poucos o vão ler e eu compreendo!

 

Julgo que era uma sexta-feira mas, passou tanto tempo que é difícil garantir.

Um dia ainda vou procurar, num Google qualquer, há sempre alguém que sabe dessas coisas. Mas para o caso pouco importa, só sei que era um fim de dia, frio e chuvoso.

As pessoas passavam, na rua, apressadas e encolhidos debaixo de enormes guarda-chuvas que o vento tentava, furiosamente, virar.

O homem entrou em casa, sacudindo a água que lhe ensopava a roupa, mas um pouco incomodado com o reboliço que veio encontrar.

 
Mulheres numa azáfama a que não estava habituado. Cafeteiras de agua quente, toalhas e lençóis empilhados numa cadeira como se alguém se tivesse esquecido de os arrumar.

Não se conteve, não era capaz tinha que mostrar, sempre, algum desagrado:

-Mas que raio de confusão vai nesta casa e será que não tem nada que fazer nas vossas?

A mulher mais velha, que parecia chefiar a confusão, ajeitou o lenço na cabeça e respondeu de maus modos:

-Ou se senta ai muito sossegado, ou volta para a chuva e volta daqui a umas horas. A sua mulher entrou em trabalho de parto e aquilo que menos precisamos é de maus modos.

De repente pareceu que todo o silêncio do mundo se quedou naquela casa. O homem ajeitou as pernas altas e desajeitadas, numa cadeira de buinho, com as mãos a cobrir-lhe o rosto, ninguém percebeu se por vergonha ou ansiedade.

 
As mulheres desapareceram no quarto, o reboliço era enorme e, alguns gritos, se sobrepunham a algazarra que se tinha apoderado daquele momento.


De repente caiu o silêncio, um choro tímido tomou conta do sossego e entoou como se não fizesse parte do cenário. A mulher, a que parecia coordenar as operações, sobressaiu aos tímidos vagidos e gritou:

-É um rapaz, um belo rapagão.
O homem continuou na posição a que se tinha remetido, parecia estar alheado ou como se nada de bom tivesse acontecido. 



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Foi um pequeno momento, quase um instante, mas foi o princípio de um longo caminho, foi o começo de algo que atravessou os anos como se fosse natural.


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O Inverso foi mais rigoroso que o normal, o vento fustigava com violência e a chuva infiltrava-se pelas desalinhadas telhas, fazendo regos de humidade nas encardidas paredes do quarto. O rapaz ia crescendo mas não se notava felicidade, tinha um olhar carregado e nunca aprendeu a sorrir, as pessoas bem tentavam aquelas aparvoadas habituais Mas o bico, do beiço da criança, mantinha sempre um taciturnismo que os olhos espelhavam como reflexo de uma alma.


O tempo não tem contemplação e é impiedoso na sua marcha e, de repente, a criança que nunca tal se sentiu era o rapaz, apenas o rapaz, não se lembra de ter sido chamado de outra forma, era o rapaz, menino nunca foi.


Brincou, brincou muito, com os brinquedos que a imaginação lhe oferecia.

Dos outros nunca teve, mas as fantasias criavam os melhores e mais sofisticados jogos e divertimentos, muitos mesmo antes de serem descobertos.



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Chegou o momento, a escola iria fazer parte de uma nova vida que não pediu mas que lhe estava destinada. Os outros rapazes estavam, tal como ele, receosos do que estava para vir, uma professora que os olhou do alto de um estrado, descansou-os com a tranquilidade das palavras e com doçura na voz.

-Todos sentados! Vamos começar a estudar coisas novas, vamos aprender a ler e a escrever.

O rapaz, que agora passou a ter um nome e um número, começou a ter medo.

Não era a senhora professora, até gostava dela. Não eram os outros meninos, sabia subsistir.

Tinha medo do que estava para vir, todos tinham uma mala, livros, uma pedra, cadernos, lápis e borracha, ele tinha um taleigo feito de pano-cru, um caderno e um lápis Viarco, que o senhor Domingos lhe tinha oferecido.



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O dia prometia chuva, aquelas nuvens que se levantavam, no horizonte, eram pronuncio de borrasca.

 

***

Hoje fazia 14 anos, não era que alguém se preocupasse, pois além daquele postal que recebia da avó, era sempre igual, um rapaz bem arranjinho fazendo uma, espécie de, serenata a uma beleza num alpendre emoldurado, de rosas vermelhas, letras bem desenhadas numa caligrafia antiga, com a mesma frase do ano passado e do outro e, decerto, de todos os anteriores.



Era o único sinal, mas tão importante que ainda hoje, passados todos estes anos, neste dia, sente saudades daquele postal colorido, daquele pequeno, mas enorme, pedaço de amor.
 

*****

As nuvens não enganaram, o vento apoderou-se do espaço e o céu abriu as comportas. A chuva, impiedosa, começou a tornar as ruas em verdadeiras ribeiras, com a água a saltar, em verdadeiras cascatas, no empedrado das calçadas. Era cedo, poucas pessoas se atreviam a enfrentar o dia, apenas alguns, mais afoitos, se encaminhavam para os seus afazeres. 

Tinha prometido que seria hoje, dia dos 14 anos, pois mais facilmente ficaria na memória.


O tempo não queria ser cúmplice, a força da chuva era um estorvo, a roupa não era muita e capa para a chuva nunca teve. Se, como imaginara, se metesse a estrada apenas iria arranjar uma valente constipação e, possivelmente, mais um castigo.


Passou a manhã á janela na esperança de um milagre, mas não via o momento de um raio de sol a quebrar este diluvio.

 
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Acabou a quarta classe com distinção e a professora mandou, para casa num caderno, um recado a pedir a presença do encarregado da educação, foi um dos maiores sustos da sua vida, não via motivos pois sempre seguiu e cumpriu todas as regras, mas a mente dos adultos era cheia de ideias difíceis de perceber.



Afinal foi apenas uma miragem da senhora professora, se lhe tivesse contado ele logo lhe diria que era tempo perdido, ele não tinha nascido voltado para a lua.

Ainda hoje, vão passados mais de 4 anos, se lembra do diálogo:


-Pedi para falar convosco, pois o moço tem qualidades e capacidade para ir longe, é o melhor aluno que alguma vez me passou pelas mãos, inteligente, de raciocino acima do normal, muito interessado em saber e conhecer, podia e devia continuar a estudar. Até podíamos falar com o padre Severino ele conhece muita gente e quem sabe se não lhe arranjava um lugar no seminário. No seminário, nem sempre vão para padre, um dia podem sair e levam boas bases para continuarem na vida.



Primeiro veio um silêncio que doía, uma lágrima nos olhos de uma mãe que apenas sabia obedecer, uns olhares agastados e muito, mas mesmo muito, desconforto, depois a resposta ríspida e cortante:


-Eu não tive nada disso e nunca precisei, o rapaz fica cá e vai trabalhar, o trabalho é o maior estudo que uma pessoa pode ter.


Nem se despediram e, ainda bem, não olharam para os olhos de uma criança onde enormes lagrimas faziam esforço para não saltarem.

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Ninguém lhe perguntou nada, como não o consultaram para nascer também não perguntaram se queira ser abegão e foi isso que escolheram. Abegão é uma profissão com futuro, diziam. Agora que os automóveis começavam a ser vulgares, construtor de carroças era uma profissão com futuro? Que ideias!


Passava os dias a varrer a serradura que, o mestre, ia largando no constante aplainar de tabuas, ou raspando o sebo negro, que pingava das rodas, para evitar aquela chiadeira que irritava quem tinha que a escutar.

Não aprendia nada, pois mesmo o varrer ninguém lho ensinou, apenas lhe meteram uma vassoura artesanal nas mãos e o mandaram varrer. Era triste ser aprendiz de abegão, contra vontade, e acabar em ser o apanhador do lixo que os outros faziam.


Hoje, ao fim do dia, fazia 14 anos e ia dar, finalmente, o rumo que desejava para a sua vida. Tinha reunido, numa bolsa de lona, os parcos haveres e o pouco dinheiro que foi amealhando ao longo destes quatro anos, não era muito pois o que lhe iam dando eram as poucas moedas dos trocos dos vizinhos que o encarregavam de pequenos serviços. Ah! Ia esquecendo, e uma moeda de um tostão, brilhante como se tivesse sido acabada de fazer.

Fazia parte da fortuna mas essa não a queria gastar, tinha um significado e, ao mesmo tempo, era um símbolo pois foi a única prenda de Natal que, o simpático menino Jesus, um dia lhe deixou na alpargata, sim foi o menino Jesus, acho que nessa altura o Pai Natal ainda não era nascido.

Tinha tudo pensado, ia até à fábrica do papel, julgo que lhe chamavam Fabrica das Celuloses, mas isso não interessa, para o caso, o que precisa é entrar na zona onde carregam os rolos e tentar esconder-se no meio da confusão e ficar quieto até chegar à cidade. Não se podia esquecer do cantil com água, não era porque bebesse muito mas, quando não temos as coisas é que nos lembramos dela.
Programou para hoje, quarta-feira, mas o dia não deixava, a chuva foi impiedosa e o vento foi cúmplice dessas forças da natureza.


Tinha que adiar uma semana, não seria dia de aniversário, mas era quarta-feira e só podia ser nesse dia, era o único em que a abegoaria estava fechada, o mestre Crispim não trabalhava à quarta e ao domingo. «Porque?» nunca cheguei a saber. Alguns rapazes mais velhos diziam que ia ter com uma amante. Mas era o que diziam.


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Foi mais fácil do que pensava, a azáfama era tanta que ninguém reparou num rapaz, com uma bolsa a tiracolo, que calmamente ia observando como se apenas tivesse interessado em ver camiões de três rodados.

Os homens olharam, mas sem interesse, uns pensavam que o rapaz seria filho de um deles, era comum aparecerem filhos de colegas a olhar esta confusão do carrega e descarrega.

O problema, agora, era entrar para debaixo duma daquelas lonas e não ficar entalado num enorme rolo de papel, estavam demasiados encostados e se algum deslizasse ficava transformado numa fatia de presunto prensado.

Presunto? Que coisa para lhe vir a memória, adorava e poucas vezes teve oportunidade de comer, só quando o levaram a casa de um senhor, que diziam ser seu padrinho, lhe deram um papo-seco com uma bela fatia de presunto e gostou mesmo daquele gosto diferente, daquela mescla de sabores que se derretiam no palato.

Alguns colegas, não muitos, levavam para a merenda fatias de pão recheadas com grossas fatias de presunto, depois iam comendo o magro e deitavam, aos cães, o gordo. Olhava de través, não porque os cães não tivessem direito a comer presunto, mas pelo desperdício da escolha, o presunto era mesmo bom naquela mistura de febra e gordura. Ainda um dia, pensou, ia ter um presunto só para ele poder retalhar grossas fatias e comer esticando entre os dentes os saborosos pedaços.
 

Os homens gritavam, uns com os outros e ele aproveitou para se esgueirar por baixo do oleado e aconchegar-se ao fundo da camioneta, no espaço, entre um rolo e a esquina do atrelado. Não era cómodo, pois mal se podia sentar, mas era seguro pois os lados do taipal mantinham a bobina segura.

Esperou algum tempo e sentia o corpo um pouco dormente, tinha que ir esticando, o possível, para o sangue correr e o deixar voltar a normalidade. Quando começasse a andar já podia ajeitar-se melhor.

Finalmente sentiu, alguém, dar à manivela para a camioneta começar a trabalhar, o motor pegou e num repelão começou a marcha. O terreno era muito irregular e os solavancos faziam doer o rabo, em constantes saltos, no fundo duro, enquanto as costas iam sendo marteladas de encontro ao taipal. A custo mudou a posição e ficou com as costelas protegidas pelo rolo do papel, sempre era melhor que a madeira dura.

Começava a ter fome mas o farnel era pobre e tinha que ser comedido, pois o dia era longo. Comeu um marmelo que tinha apanhado no quintal da dona Cacilda, foi mesmo ela que o mandou tirar um ou dois marmelos, sabia que ele gostava. Ficou com a boca áspera, mas como demorou muito a come-lo o estômago acalmou.

Apesar do incómodo julgou que tinha adormecido. Pensou na mãe e no desgosto que ia sentir, embora ela tantas vezes tenha desabafado que se tivesse para onde ir há muito tinha abalado, mas os tempos eram outros e o remédio era aguentar e ter esperanças que as pessoas mudem, mas não mudam nunca. Deixou-lhe um pequeno papel onde lhe dizia para não se preocupar com ele, tinha ido à procura da vida, e que um dia voltava para a levar. Sabia que ia chorar mas, tinha a certeza, que ia compreender.

 
A camioneta parou no caminho, espreitou pelo buraco onde passava a corda que segurava o oleado, e viu os dois homens entrar na taberna para almoçar. Sentiu a saliva a inundar-lhe a boca, comeu o outro marmelo e a acidez que lhe engrossou a boca foi um lenitivo para o buraco que sentia no estômago.

Não tinha relógio, embora lhe tenham prometido um quando fizesse a quarta classe, não soube que tempo passou mas mais de uma hora, de certeza, quando os dois homens voltaram. Um deu à manivela, quando o motor começou a trabalhar recomeçaram a marcha.


Quando se estava a preparar para fazer a quarta classe, um dia que lhe pareceu diferente, prometeram-lhe que se passasse ia ter um relógio de pulso. Acreditou, nunca lhe tinham prometido nada, por isso, acreditou, e ficou a remirar o pulso a imaginar um Butex, gostava desse nome e sabia que o senhor Armindo, da drogaria, os vendia trazidos de Espanha. Havia uns que precisavam de corda e outros que não precisavam, era preciso dormir com ele porque era a gente a mexer que lhe dava a corda, não sabia qual lhe iria calhar, teve vontade de ir falar com o Senhor Armindo, sem ninguém saber, e pedir para ajudar na escolha mas teve medo, pois se soubessem não havia relógio e, se calhar, as orelhas eram mais esticadas.

Fez a quarta classe, nessa época era o ensino obrigatório, passou com distinção, até ouviu dizer que foi o melhor desse ano. Não era fácil, pois tinham que ir à cidade fazer exame. Não estava nervoso, sabia tudo o que a professora lhe ensinou e tinha lido todos os livros que ela lhe ia emprestando, até aqueles de poesia que às vezes não percebia bem, mas que o deixavam com uma sensação de conforto. Ainda, um dia, ia escrever um para, os outros, poderem saber tudo o que sentia.

Quando a professora lhe deu um beijo e os parabéns porque a tinha deixado orgulhosa, ele sentiu que ia ganhar o relógio. Foi aí que ela lhe pediu o caderno para mandar para casa o recado para lhe irem falar e, se calhar, foi por isso que o relógio nunca chegou a poisar no seu pulso.

Ainda fez um, recortou num cartão branco, desenhou os números e os ponteiros e enrolou à volta do pulso, mas nunca acertou nas horas, quando olhava ou já tinha passado a hora ou, então, ainda não tinha chegado. Tirou do pulso e guardou, era um dos tesouros que levava na sacola.

 
****

Estavam a entrar numa grande povoação, se calhar tinham chegado à cidade grande, havia carros nas ruas e as pessoas, nos passeios, caminhavam em roupas mais elegantes do que aquelas a que estava habituado. Os homens todos de chapéu, não viu nenhum de boina como na aldeia, as mulheres em roupas coloridas e sem lenços na cabeça. Alguns rapazes corriam, com uma gancheta de arame, controlando uma roda de aço que saltava nos socalcos do empedrado. 

A camioneta fez algumas manobras e entrou, de marcha atrás, num armazém enorme.

Sentiu arrumarem as coisas, fechar o portão e abalarem para o escuro que começava a cair na rua.

Saltou do esconderijo, esticou as pernas e os braços, na tentativa de fazer voltar ao lugar os ossos e os nervos que estavam todos fora do sítio, totalmente dormentes.

Apeteceu-lhe, então chorar, não propriamente por medo mas pela frustração de ter nascido diferente, ou talvez, por ter nascido numa família que não sabia o que era ser família.

Agora tinha que pensar como ia sair dali, havia uma janela lá em cima, estava alta e tinha umas grades apertadas. O portão estava bem fechado.

O melhor era passar ali a noite, estava abrigado e podia descansar num daqueles montes de sacas que se encontravam encostadas à parede. Comeu um pedaço de pão, estava duro mas sabia bem, com a maçã vermelha que antes poliu, contra a camisola, que a tia lhe ofereceu um dia em que os foi visitar. Foi ela que a fez com umas lãs que tinha lá em casa.

A maçã era boa mas, deu-lhe um peso na consciência, não lha tinham dado, tirou-a do prato da fruta que estava em cima da mesa da cozinha, tinha a certeza que a mãe ia compreender e não ia dizer a ninguém que tinha roubado uma peça de fruta.

Adormeceu, totalmente, com o cansaço do corpo a ajudar, mas com a preocupações de acordar antes da chegada das pessoas, tinha que se esconder e tentar sair passando despercebido.

Correu tudo bem, a confusão que reinava, naquele armazém, era um bom cúmplice para sair sem ninguém o notar.

Na rua estava um pouco de frio, não tanto como lá na terra, mas a roupa era pouca e tinha que se encolher para poder aguentar melhor. Parou junto à montra de uma casa de bolos, dizia em cima pastelaria! E lembrou-se que ainda não tinha comido, tirou um pedaço de pão, já duro, e foi comendo enquanto ia olhando os bolos, como se isso mudasse o sabor da côdea, mas o pão estava bom e não podia deixar que qualquer tentação o desviasse dos objectivos, um dia ainda havia de provar de todos aqueles bolos.

Agora ia arranjar emprego, sabia que ia ser difícil, havia muitos, mas um qualquer rapaz, sozinho, entrar num qualquer sítio e dizer se tinham um lugar para ele trabalhar. Não sabia fazer muita coisa a não ser varrer e ter muita vontade de aprender.

Foi difícil, calcorreou, a cidade, na busca de uma ocupação mas as pessoas olhavam desconfiados e iam deixando desculpas, és muito novo, és fraco para carregar o cesto, não tens prática ou se tens vindo antes!

Tinha esgotado as provisões e sentia muita fome, não queria pedir, não foi para isso que enfrentou nesta aventura, tinha que aguentar. Pensou rezar mas não valia a pena, sabia que o único Deus era dos ricos, os pobres não tem direito a essas coisas. Um dia, quando fosse rico, ia ter um Deus mas, nessa altura, se calhar já não precisava pois ia ter dinheiro para comprar o que lhe fosse necessário.

Estava nestas cogitações olhando para a montra farta de uma pastelaria, quando um homem lhe perguntou:

-Tens fome?

Ficou engasgado, um tremor tomou conta do corpo e um rubor transformou-lhe o rosto. Acanhado respondeu:

-Obrigado senhor, só estava a olhar!

O homem percebeu a vergonha, pegou- lhe no braço e com um sorriso descansou-o:

-Sabes rapaz, eu já passei por aí por onde estás a passar. Anda, vem escolher alguma coisa para comer, não te acanhes, um dia farás o mesmo a outro que tal, como tu, esteja a precisar.

Comprou-lhe uma sandes de presunto, calculem de presunto, um bolo enorme com creme e uma garrafa de gasosa. Deu-lhe uma ligeira palmada no ombro e desapareceu para donde tinha aparecido.

Afinal, se calhar, pensou, também há um Deus dos pobres.

******** 

Ele ainda tinha os 25 escudos e o tostão, mas os escudos não os queria gastar podia precisar de comprar alguma coisa se arranjasse emprego e a moeda, essa, era sagrada.

Tinha passado, as noites num portal do adro da Igreja, era abrigado do vento e ninguém tinha embirrado com ele, mas acordava com o corpo dorido e com muito frio. Lavava a cara no chafariz e puxava os cabelos, para o sítio, no reflexo de uma montra.

Estava há três dias e não queria começar a desesperar mas, pensou que ia ser mais fácil.

Hoje ia mudar de sítio, ia apanhar um eléctrico, afinal eram só alguns tostões e ia experimentar o centro, a baixa como aqui diziam, podia ter mais sorte.

*****

Bom, era diferente, muito comércio e muita gente janota nas ruas. As mulheres, nas montras, e ficavam a olhar e a comentar as coisas bonitas que estavam expostas.

Os homens passavam, olhavam as mulheres enquanto fingiam olhar as montras.

Os cafés eram diferentes, maiores e com uma imensidade de guloseimas que ele nem sequer imaginava que pudessem existir.


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Estava com sorte, na montra daquele café, estava um papel a dizer:

“Precisamos de um marçano, mesmo sem prática”.

Não sabia bem o que era um marçano, mas devia ser qualquer coisa a ver com pastelaria.

Alisou o cabelo, passou os dedos pelos olhos, endireitou a roupa e entrou.

-Faz favor, disse um senhor, de casaco branco, que estava ao balcão.

-Desculpe, balbuciou o rapaz, vinha pelo papel do emprego.

O senhor esqueceu o sorriso, postiço, que tinha afivelado, indicou-lhe uma porta ao fundo da sala.

Bateu, timidamente e quando ouviu entrou.

Era um pequeno cubículo, com uma secretaria apinhada de papéis, Um senhor gordo olhou-o de alto abaixo antes de perguntar:

-Vens só? Onde estão os teus pais?

Corou antes de responder:

-Não vivo com os meus pais, estão longe, vivo com uma velha tia que não tem muitas posses e preciso de trabalhar.

O homem limpou a testa, fechou os olhos como que a conciliar o pensamento e com um sorriso, quase carrancudo, terminou:

-Começas amanhã às 8 horas, duas refeições por dia, trabalhas até as 5, dormes no armazém e 100 escudos por mês. Está bem assim?

Só conseguiu acenar que sim, mas o contentamento estava bem visível nos olhos tristes.

Perguntou então:

-Já posso ficar cá, esta noite, para estar cedo ao serviço?

-Podes, respondeu o patrão, logo, às 9 horas, vais ter com o Senhor Godinho que ele explica o que há para explicar.

Entregou o bilhete de identidade, assinou um papel com as condições e saiu a assobiar, coisa que não se lembrava de alguma vez ter feito.
 

Ia, finalmente, gastar um pouco do, quase nada, que tinha, precisava de uma camisa, de meias e se, possível, de umas cuecas.

  

***

Albino raramente sorria mas tinha um ar que cativava, era uma espécie de doçura que inspirava confiança.

Ouvia tudo com muita atenção e mostrava, num ligeiro aceno de cabeça, que tinha assimilado, mas fazia duma forma cortês, sem enfado e dando confiança a quem o mandava sem deixar transparecer submissão.

Rapidamente foi aceite e, não tardou, estava ao balcão, sabia atender e ser delicado sem perder dignidade, aconselhava e as pessoas aceitavam porque transmitia confiança e um certo profissionalismo.

Os clientes já o procuravam, gostavam do modo como os atendia. O patrão também se apercebeu e deixou, a pedido, que fosse estudar, de noite, no liceu.

Começava a ter a vida organizada era tempo de ir buscar a mãe, voltou à terra.

A casa estava diferente, tinha mais um andar com varandas floridas e estava pintada de cores alegres, aqueles cinzentos doentios tinham desaparecido.

Os novos moradores, não conhecia, nem o conheciam a ele.

Soube pelo senhor Domingos, da drogaria, que a mãe deixou o pai e foi viver para a cidade, com um homem que ninguém sabia quem era. O pai desapareceu e nunca mais souberam nada, pensam que tenha ido para Espanha, mas ninguém tem a certeza.

Voltou desiludido, quis cumprir a promessa, mas a mãe depressa se esqueceu e fez como sempre, escolheu o mais simples.

******

(continua em breve)