terça-feira, 24 de setembro de 2019


 

Tinha parado este meu Blogue, mas o desfortúnio, por duas vezes, fez-me voltar.

Primeiro a morte da Leninha, minha amiga destas lides.

 

Agora uma pequena homenagem ao amor da minha vida, que depois de 2 anos e meio de sofrimento, partiu em paz.

Perdi metade de mim, a vida nunca mais será a mesma. Os dias são longos as noites escuras, imensas e vazias.

 

Minha querida Ilda, onde estiveres, acredito que nos está a ver e, decerto, feliz por saberes que um dia vou estar, aí, novamente contigo. O nosso amor é intemporal, a morte só consegue criar um hiato, mas Deus um dia, vai-nos deixar caminhar outra vez de mãos dadas. Até breve amor.

 

 


 

 

 

 

UMA VIDA

 

 

 

Tinha acabado de fazer 23 anos e parecia já ter vivido uma eternidade. Não tinha rugas no rosto mas tinha, dentro do corpo, as marcas de uma existência difícil.

Ficara órfão, de mãe, aos 7 anos e o pai, homem simples, perdeu todo o interesse pela vida e procurou, no álcool, o refúgio para a perda da mulher que, sempre, tinha sido a verdadeira razão da sua existência.

Perdeu a mulher, o emprego, a dignidade e estava próximo de perder o amor do filho.

 

                                               ******

 

O dia estava lindo e o ribeiro corria em turbilhões, pois a chuva dos últimos dias tinha aumentado consideravelmente o caudal.

Gustavo ia atirando pedras, que em saltos iam deslizando sobre as águas. Havia três dias que não ia à escola, não se sentia bem junto dos outros rapazes, com os calções tão delidos que a cada momento tinha receio de ficar com o rabo à mostra e ser o motivo da chacota dos colegas. O Fernando era o único, verdadeiramente, seu amigo e que com ele, muitas vezes, dividia o lanche. Outras vezes era a dona Alzira que o chamava e, lhe aconchegava o estômago, com uma tigela de sopa e uma bela fatia de pão untada com manteiga.

 

                                                              *****

 

Quando tentava olhar para o passado, apenas via um rapazinho que lutava contra a adversidade, que se alimentava da generosidade das vizinhas, com um pai de grande coração que vivia anestesiado, nos copos de vinho, que os amigos lhe iam pagando nas tascas da aldeia.

 

Quando fez 14 anos o senhor Arlindo deu-lhe um lugar na mercearia, a troco de umas poucas moedas e por lhe encher o estômago em duas refeições diárias.

 

Aos 18 anos arranjou emprego, na vila, na cooperativa.

 

Era difícil, ao fim de um dia de trabalho a pisar uvas, a girar o engenho para esmagar as azeitonas ou a carregar as sacas dos cereais, voltar a uma casa vazia, onde apenas o "mandrião", velho rafeiro amarelo, escanzelado e brincalhão o vinha receber com grandes festejos, num alegre abanar de cauda.

 

Por toda a casa as recordações andavam de mãos dadas, com as saudades de uma mãe de quem já, quase, esquecera o rosto e a imagem de um pai, arrastando um desgosto afogado no álcool.

Era difícil olhar as paredes tão vazias e, ao mesmo tempo, tão cheias de lembranças.

 

                                             *******

 

Neste domingo soalheiro, como habitualmente, procurou as margens do ribeiro onde, as suas pedras, faziam as melhores e mais longas derrapagens, deixando círculos que suavemente iam morrendo nas margens. As libélulas, quais maquinas aladas, pousavam suavemente nos caules que emergiam das águas. As aves, em voos rasantes, deixavam um risco de asa antes de mergulharem na superfície ondulada na procura de alimento. Em lado nenhum se sentia tão calmo, parecia que o murmúrio da aragem lhe sussurrava os conselhos, com que a mãe o acompanhava. Por vezes, era tão nítida que parecia que a voz não era trazida pelo vento, mas que a mãe estava tão presente que até doía

.

Ao princípio tinha medo mas agora até ficava mais tranquilo. Fechava os olhos e imaginava-se aconchegado, nos braços macios, e banhado no perfume que nunca esqueceu e que entrava no seu corpo, tomava conta dos seus nervos, embebia os seus músculos, entrava no seu sangue e percorria-o todo numa doce sensação de paz e de tranquilidade.

Chegou a adormecer embebido nessa doce sensação de tranquilidade e, quando acordava, sentia, mas sentia mesmo, no ar aquele aroma que o corpo da mãe exalava e que lhe dava aquela paz que o tornava, por momentos, o mais feliz menino de mundo.

 

Ainda hoje, e já vão decorridos tantos anos, quando pousa a cabeça na sua almofada, sente a mão da mãe aconchegando a dobra do lençol.

 

Fecha os olhos e tenta imaginar aquele rosto, mas a imagem esta um pouco difusa, não consegue descodificar os pontos, que na sua mente, tenta compor o todo que aos poucos se tem desvanecido. Quando contempla a amarelecida foto que, religiosamente, guarda entra as páginas da Bíblia parece que o sorriso se abre mais, mas está cada vez mais esbatida. A mãe está sempre com ele, o seu cheiro, toda a sua essência mas o rosto estava a fugir, cada vez mais desbotado, como se quisesse envelhecer e não ficar na idade do filho que ia crescendo.

 

Naquela manhã a ribeira corria tranquila, no ar sentia o cheiro das flores de loendro que florescem nas margens.

 

Gustavo estendeu-se numa pedra e ficou a contemplar o horizonte e, a imaginar o que seria a vida para além daqueles montes, que ao longe, pareciam encostar ao céu e fazerem a fronteiro entre a sua existência e o outro mundo que um dia ia descobrir.

Sempre desejou fazer a trouxa e apanhar a carreira que o levasse para esse desconhecido da cidade, mas não podia deixar o pai.

Se ele partisse quem  o iria recolher, ao fim do dia,  à tasca do Onofre?

Voltou quando a fome o começou a apertar mais e as amoras não eram, já, suficientes para a enganar.

                                                                    *********

 

Não demorou muito que uma cirrose levasse o pai, que até à hora da morte continuou sempre a reclamar pela sua Lena, que tão cedo tinha partido.

Gustavo, ficou sozinho neste mundo onde o colocaram, sem lhe pedir opinião, e com poucas condições para poder lutar pela sobrevivência.

Agora não tinha mais ninguém a não ser aquela, desconhecida e longínqua, tia que diziam ter na cidade.

A casa podia ficar fechada e de certo que a vizinha não se importaria de ficar com o velho rafeiro, que desde a morte do pa,i deixara de abanar a cauda e ia definhando lentamente, deitado na soleira da porte.

Era uma decisão difícil, tinha medo do mundo que desconhecia, receava toda a confusão que via quando espreitava as notícias, da televisão, na taberna.

Agora já nada havia a fazer, já dissera ao seu chefe, senhor Pica, que deixaria de trabalhar na cooperativa e que ia abalar para a cidade.

 

A cabeça andava num turbilhão, as ideias estavam baralhadas, o medo tinha-se apoderado de todos os seus sentidos. Como ia enfrentar o desconhecido, como se iria orientar na cidade grande? O bulício, o frenesim, o trânsito louco e toda a voracidade, que o iriam tragar numa loucura a que tinha que se habituar.

 

Tinha tudo programado, amanhã cedo apanhava a carreira que o levaria ao comboio, depois seria a grande aventura.

 

Foi uma noite de insónias, em todo o sonho via homens, sem rosto, que o perseguiam e quanto mais fugia mais se aproximavam, queriam à força que ele entrasse num comboio sem janelas, pintado de negro e donde saiam sons e gemidos que o arrepiavam. Acordou encharcado, corpo dorido.  Teve medo, há muito que o não sentia.

 

Voltou a adormecer e viu a mãe que, tal como os homens, tinha o rosto coberto por uma névoa, mas o perfume era o mesmo, doce, suave e reconfortante. Ficou inebriado e tranquilamente dormiu em paz o resto da noite.

 

                                      *********

 

A cidade era enorme e a confusão ultrapassava tudo o que tinha imaginado, pessoas para a direita e para a esquerda num atropelo sem respeitarem nada nem ninguém.

Gustavo estava deslumbrado e confuso.

Quando agarrado à mala, enfrentou a rua ficou perdido sem saber o que fazer. Estava inquieto, baralhado e o seu olhar andava perdido ao tentar abarcar tudo o que o que o rodeava, aqueles prédios altos, os carros que se cruzavam e que só por milagre passavam sem nunca se baterem.

 

As moças de pernas altas e descobertas, que se equilibravam em saltos, tão altos, que pareciam, mesmo, as andas que um dia o senhor Zé Adelino lhe tinha feito.

 

Uma, por sinal bem jeitosa, até lhe disse:

-Então filho hoje não queres nada?

 

Ficou ruborizado, tinha ouvido falar delas, mas sempre pensou que eram fanfarronices de quem vinha à cidade, afinal era mesmo verdade.

 

Teve vontade de falar com a menina, mas não sabia, mesmo, o que lhe dizer.

 

Arranjou um quarto numa pensão barata, num terceiro andar, com uma escada íngreme e malcheirosa. A cama era pior da que deixara na aldeia, lençóis manchados e com cheiro a azedo de gordura e sexo. As paredes do quarto tinham manchas, de humidade, que aos seus olhos se tornavam em fantasmas, que o iriam prosseguir ao longo da noite e logo aqui, tão longe, na cidade grande onde a mãe não o podia ajudar.

 

Precisava descansar, amanhã fazia 25 anos e tinha reservado, como presente, um dia de descanso para uma visita à cidade.

 

O cansaço foi seu aliado e a noite foi rápida. Quando acordou pensou que tinha que aproveitar o dia, e depois tinha que procurar uma ocupação pois o dinheiro que tinha depressa ia acabar. O quarto imundo era caro, o preço de uma refeição estava acima das suas possibilidades.

 

                                                       *******

 

Vagueou pelas ruas cheias, encheu os olhos de coisas que sabiam que existiam, mas que ele nunca vira. Passeou por avenidas que pareciam não ter fim, andou ao acaso e, de repente, tinha a impressão de estar de volta a sítios por onde já tinha passado.

Encontrou o rio, que tal como a cidade, era enorme, sujo, com barcos que deitavam fumo das chaminés. Teve saudades da sua ribeira de águas limpas, que corriam ligeiras, saltando de fraga em fraga, com as margens enfeitadas de juncos.

 

Este rio era triste, as águas espraiavam-se contra as margens onde os barcos baloiçavam acompanhando a cadência dessa ondulação.

 

Esteve horas olhando ao longe e a imaginar para onde iriam todos os barcos que o sulcavam.

Estava a entardecer e a fome obrigou-o a entrar numa tasca, onde se ofereceu uma refeição acompanhada de uma cerveja, afinal era o seu aniversário.

 

Começou a pensar no regresso e nas voltas que teria que dar até encontrar a rua da sua pensão, tinha escrito num papel os nomes, embora tivesse a certeza do a encontrar.

 

Seguindo o seu sentido, atravessou o largo e seguiu a avenida, tinha a certeza, donde viera.

 

Ao fim teria que voltar à esquerda e seguir até encontrar, aquela praça, com a estátua de um cavaleiro.

Já a estava a ver ao longe e sorriu satisfeito.

 

Levava a cabeça cheia de sonhos e projectos, arranjar um emprego, alugar um quarto com uma cozinha para poder preparar as suas refeições, ter uma vida diferente.

 

Embrenhado nos seus pensamentos saiu do passeio.

 

Ouviu um guinchar de travões, sentiu uma pancada bruta, viu-se a voar passou por cima carro e ficou estatelado na calçada. Sentiu uma dor aguda, que parecia subir pelo seu corpo, mil estrelas brilhavam no seu cérebro, um liquido viscoso corria da sua cabeça, um doce torpor ia tomando conta do seu corpo. Tinha muito sono e não queria ouvir o que diziam, as pessoas, que o rodeavam, só lhe apetecia dormir.

Junto a ele a mãe sorria, desta vez o seu rosto era tão nítido, estava rodeada de uma luz tão brilhante e a musica era tão suave.

 
A aldeia estava linda com os campos cobertos de flores, o ribeiro corria manso, a sua casa estava rodeada de açucenas, o " mandrião" abanava a cauda de alegria.

A mãe, delicadamente, segurou as suas mãos.

Pela última vez sorriu.


 

 

 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018


Quando parei este Blogue, pensei que seria para sempre.
Era a minha ideia, mas há coisas que não prevemos.
Um dia, alguém que me olha lá de cima, tenho a certeza que sim, pediu-me 
para continuar, por ela e para mostrar que não tinha perdido a esperança.
Voltei, não sei se para ficar, mas cara Leninha como desejavas, para ti, este pequeno conto. 
A esperança, graças a ti, não a perdi.
As saudades são muitas.






Josefine


Penso que era Josefine, pelo menos foi o que me pareceu ouvir, mas não tomem como certo, pois eu, por vezes confundo as coisas. Não é assim muito importante, pois foi uma aparição fugaz, só o momento e o olhar que me deixaram, assim, nesta confusão.

Se não fosse a voz rouca do homem quando gritou: 

-Josefine, allons-y. 

Se calhar nem reparava, mas o tom perentório despertou a minha adormecida atenção. Olhei e não estou arrependido, os olhos eram lindos, dois rubis encastoados, num rosto onde a tristeza não conseguia esconder a obra prima do criador em dia de muita inspiração. Parecia pedir socorro, num gesto mudo, quando se voltou e seguiu à frente do homem.

Acho, mas não tenho a certeza, que ela ainda me olhou num soslaio muito subtil. 
Confesso, talvez seja vaidade ou uma certa presunção, mas penso que  o meu ar paternal tem um efeito positivo nas mulheres.


Passei o resto da tarde com o pensamento enredado em futilidades. 
Seria que a menina de olhos de rubis, estava sequestrada vivendo debaixo de ameaças ou, o homem da voz rouca era apenas um pai que não queria ninguém a rondar a porta?

Às vezes penso que não fui corajoso, poderia ter abordado, saber se necessitava de ajuda, mas o homem, da voz rouca, tinha um aspecto muito dissuasor, cabeça rapada no cimo de um pescoço quadrado, tronco redondo, donde saíam dois braços que pareciam troncos com dois pilões nas pontas.


Acho que não foi covardia, foi bom senso, pois um homem morto nunca iria ser útil.





Mas, para ser objetivo, vou contar tudo. Eu sou um citadino puro habituado ao bulício e ao desassossego da cidade. A minha irmã mais velha, atreita a bucolismo e a essas coisas da natureza, casou com um transmontano que foi até Lisboa cursar agronomia. 
Foi bom, pois,  juntaram o útil ao agradável. 

Ela, a Luísa, queria fugir da cidade e respirar o ar puro do campo e ele, o Júlio, sonhava em fazer das terras dos pais uma grande quinta, criar gado e explorar a vinha. 
Foi o par perfeito, realizaram os desejos e vivem felizes com um par de rebentos, uns tantos cães e, nem sei quantos, mas pelo menos meia-dúzia de gatos.

Em Agosto é a festa da aldeia, a população triplica, os emigrantes voltam e a terra parece uma grande urbe.

Eu, também ajudo, não sou de cá mas nesta data venho visitar a família e fico uns 
dias. 
Já conheço muitos, tenho que beber e conversar com os demais, percorrer a feira, assistir aos arraiais e, pasmem com isto, cantar e dançar com os grupos folclóricos, dizem que tenho jeito.

Acho que era capaz de me habituar a esta vida, mas a profissão não dá, quer cidade.

Pois foi num desses momentos em que, no meio do pó, descia a rua onde as barracas vendiam toda a espécie de guloseimas e artesanatos, que eu ouvi aquele “Josefine, allons-y”.

Olhei mais pelo tom da voz e, pela curiosidade, estou arrependido.

Não me sai do pensamento, bem olho na esperança de a ver por aí, se a encontrar não sei o que fazer mas, vou arranjar uma maneira, sou perito em arranjar soluções para assuntos difíceis, ou tenho essa pretensão, embora me pareça que o acompanhante, pai ou guarda-costas, não deve ser osso fácil de roer, mas pode haver uma solução. 


Se for o pai apresento-me e peço a mão da filha, ele só tem duas soluções pensa, que sou maluco, e aceita ou, não pensa nada, dá-me um soco e deixa-me a dormir. Sou perito em soluções fáceis para assuntos difíceis, o problema é raramente resultarem.

Estava a entardecer, fui para casa. Juro que não sonhei com ela, sou uma pedra, é 
cair na cama e vai até de manhã, de seguida.

************

Hoje é outro dia, levantei-me com uma fome danada, a mana tinha um pequeno-almoço como o dos filmes, não me fiz rogado.
Ela, o meu cunhado e os meus sobrinhos, iam a Bragança. Insistiram comigo mas prefiro ficar, tenho algo a descobrir.
Não contei nada, dei a desculpa da festa, e resultou.
O Júlio até se atreveu:

-Se não fosse a chata da tua irmã, deixávamos a ida para outro dia e 
fazia-te companhia. Mas sabes como ela é!

******
Ainda bem que o Júlio não pode vir, é uma grande companhia, mas não me convinha nada. 

Voltei e fui até ao final do caminho, comi um frito no Zeca das farturas, comprei um colar de pedrinhas coloridas para a minha sobrinha e uma flauta para o Luis, meu sobrinho. 

Num palco enfeitado com fitas, três bailarinas bem despidas abanavam os rabos, enquanto um cantor, com uma concertina, ia entoando uma velha canção. 

Pensei voltar, quando de repente me surgiu uma ideia peregrina, sou assim, a minha cabeça está sempre na procura de soluções e não é que acabei de ter uma possibilidade de descobrir algo.

Foi num momento que passei o filme na minha mente, ontem quando o voz rouca berrou a frase, eu estava na barraca da dona Zulmira, até já conheço os feirantes pelos nomes.

Aqui, onde os frascos de mel e outros produtos ligados à apicultura se encontram alinhados em prateleiras e no balcão pratinhos para os passantes poderem apreciar a qualidade dos produtos, garanto que são ótimos porque os provei e, foi no momento em que estava a saborear queSe eu ouvi, a Dona Zulmira também se deve ter apercebido. Vou falar com ela, compro um frasco de mel para adoçar a conversa, não preciso a Luísa têm muitos, mas eu quero arranjar uma espécie de introdução.

A Dona Zulmira iluminou o rosto com um sorriso, aliás tinha um riso bonito, e perguntou:

Então é hoje que vai levar uma das minhas especialidades? Melhor não encontra em lado nenhum as minhas abelhas são especiais.

-Vou mesmo, respondi, um daqueles de urzes.

-Boa escolha, foi dizendo enquanto metia o frasco num saco de papel.

Antes de pagar perguntei:

-Lembra-se, ontem quando aqui passei, um senhor grande, como um sobreiro, chamou uma tal Jaqueline e disse qualquer coisa em francês. Sabe quem são?

-Sei, se sei, respondeu, são uns imigrantes em França. É o senhor Isidoro, jóia de pessoa, e o filho Jaquim.

-Não são esses, exclamei, era uma menina linda com uns olhos verdes que até pareciam brilhar.

A Dona Zulmira deu uma saudável gargalhada, colocou os cotovelos sobre o balcão e disse, quase em sussurro:

-Nada disso! Era mesmo o senhor Isidoro e o filho Jaquim, o rapaz é meio amalucado, diz que nasceu no corpo errado e outras parvoíces assim, anda sempre vestido de mulher e pintado como essas, o senhor sabe às que me refiro, e quer ser Josefina. O pobre homem não sabe o que fazer, coitado, o que lhe havia de calhar, tão boa pessoa.

-Não posso acreditar, disse eu, está a brincar comigo?

-Eu a brincar? Antes fosse, para bem dos pobres pais e descanso daquela cabeça amalucada. A pobre da mãe, com a vergonha, já nem sai de casa. O pai vem com ele com receio que saia sozinho e seja maltratado pelas pessoas. Sabe como esta gente é? Com o pai ninguém se mete com ele, é uma joia, mas não o virem do avesso.

A estas horas, já devem estar muito perto de França, pois partiram hoje bem cedo.

******

Volto amanhã para Lisboa, afinal o campo não é para mim.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016















Novo Ano, ideias antigas

Eu não queria, juro que não, é mesmo contrariando a minha vontade que o vou fazer.


Tinha jurado que nem caneta, lápis, esferográficas ou teclados de computadores ou tabletes sentiriam o prazer de se sentirem abraçadas pelos meus dedos ou por, eles, tecladas.


Não me perguntem porque, não vou responder, de verdade, nem eu próprio sei bem. É talvez um certo desencanto, quem sabe se é cansaço, não físico, mas de pensamentos.


Eu, por vezes, escrevo umas palavras, o resto vem em catadupa, nem penso, sai quase por instinto e brota uma estória, um conto ou um emaranhado de palavras que gosto de botar no Blogue.


Mas, quase sempre, acabo por me arrepender. Devia guardar, deixar num baú de recordações para um dia, mais tarde, recordar.


O que escrevemos é como se o paríssemos, saem de dentro de nós, são as nossas angústias, desejos, pensamentos, fazem parte da nossa vida e dos nossos mais íntimos pensamentos, mas depois ficam, ali, abandonados, inúteis sem deixarem a mensagem que imaginava.

Por isso tinha jurado, jurado não, prometido que nem uma linha, mais, para o Blogue.


Ficam esquecidos, poucos vão ler e acabam por morrer na indiferença. Não gosto, acho que mereciam um pouco mais.

Acho, eu, mas parece que não.


Há muito que tinha prometido, mas não consegui cumprir, não fui forte.


Agora vou ser.

Escrever sim, está no meu sangue, faz parte de mim só deixarei naquele dia, não sei quando, ninguém sabe mas, esse dia,  aparece e tudo acaba.

Até lá, vou continuar a deixar parte dos meus sonhos, da minha imaginação, escrevinhados e guardados num canto de "Coisas minhas", no meu computador.

Mas aqui, no Blogue, acho que não.


Cansei.

Não vale a pena.





domingo, 3 de janeiro de 2016

Refúgio





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Eu tenho um pequeno refugio, fora do ambiente
da cidade.

Pequeno, no meio do nada, escondido entre as arvores, que me sujam o chão, com as folhas que se renovam mas que me perfumam o ar.

À noite, no céu, há estrelas que brilham de uma forma diferente.

Perco-me nessa meditação, deixo os meus olhos, embebedarem-se, na profusão de luz e brilho.

Procuro encontrar as que me pertencem, sim eu tenho as minhas estrelas, as que partiram, daqui, e brilham lá em cima.

Não sei quais, mas elas sabem e tenho a certeza, que são minhas e que sentem que as procuro na imensidão.

Nas tardes, sento-me, num velho banco de jardim, e vou deixando, aqui, os meus pensamentos, enquanto um carreio de formigas vai e vem, não sei donde ou para onde, mas andam numa fila, numa missão secreta, e que não contam a ninguém.

Nas velhas arvores, os pássaros poisam, guerreiam e saem em enorme algazarra, como se o espaço fosse insuficiente para tão grande frenesim.

Quero escrever, mas o idílico que me rodeia, em vez de me inspirar, consegue levar o meu pensamento pelos pequenos nadas, que tanto preenchem um entardecer mágico.

É um besouro, não sei porque mas está virado, como se o mundo  estivesse ao contrário. Esperneia, tenta, mas as pernas curtas não ajudam. Depois pára, fica estático a recuperar.
De repente, quase por milagre, deu a volta e continua, num andar desengonçado, até que desaparece no meio das folhas caídas.


Quando o Sol se põe, no horizonte, os grilos enchem o espaço. Detesto grilos, quebram-me o silêncio, arrepiam-me os ouvidos. Tem todo o dia para aquele, esfrega-esfrega, mas não, ficam quedos e, ao fim do dia, tomam conta dos sons, abafam a quietude, por isso os detesto.

Detesto os grilos e os galos, são cúmplices no ruído. Uns não me deixam adormecer os outros obrigam-me a acordar.


Agora compreendo o aparecimento dos capões, abençoada ideia, penso eu, porque não sou galo.

Mesmo quando chove, como hoje, e me obriga a passar o dia a espreitar a janela e a escutar o tamborilar das gotas nas telhas, não me arrependo, do momento, e desejo a manhã, para acordar com o cheiro mágico da terra molhada.

De manhã, a chuva, é apenas uma leve neblina. Visto uma capa e vou ao forno, comprar o pão acabado de sair.


Sim, ainda existe, forno de lenha e pão estaladiço, que transportamos num saco de pano, como antigamente.


Nas ruas cumprimentam-me, sem saberem, ao certo quem sou, mas conhecem-me e pensam “É o que tem a casa ali, ao fim do caminho”
Mas oiço uns bons dias, simpáticos e verdadeiros.

O pequeno-almoço é diferente, ao ar livre numa enorme mesa de tampo, de mármore, redondo. Começa no pão que recebe a manteiga e a derrete no calor que ainda lhe resta, o queijo que vou comprar naquela senhora que os faz e os vende, se calhar sem autorização das autoridades, mas autorizada por mim e por todos os que ali vão. O café? Bem o café é igual, é café fumegante, igual a todos os outros.

Depois, é o sujar as mãos, mexer na terra, aconchegar as raízes, arrancar as daninhas, regar as árvores e falar com as plantas, falar muito, elas gostam.


Quando acabo, tenho que cortar as unhas, até que o encardido da terra desapareça. Custa um pouco, mas a escova e o sabonete fazem o resto. Podia, é verdade que podia, usar luvas, mas não uso, não sei trabalhar com elas.

É pouco, mas enchi os pulmões de ar puro, cansei saudavelmente o corpo, purifiquei o espirito e senti, quase como, um regresso às origens.



Amanhã recomeça a rotina.







terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Um Milagre de Natal







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-Mãe, disse Alice, não sei o que se passa com o Buinhas, costuma passar horas a dormir no sofá e, hoje, não sai da porta da rua. Abana a cauda como se alguém conhecido estivesse a aparecer, mas não! Espreitei pelo ralo e não vejo ninguém.

-Não ligues, disse a mãe, deixa o cão e vai fazer um pouco de companhia ao pai.
Logo vamos, as duas, enfeitar a árvore de natal.

-Tá bem mãe, eu ajudo e ponho os enfeites na porta. Agora vou brincar um bocadinho com o pai.

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O pai estava junto à janela, olhando ao longe, agora passava o dia, sempre, assim.
Triste mas quando ele brincava, com a filha, parecia esquecer e voltava a sorrir.

-Pai, disse Alice, posso ficar aqui ao pé de ti?

-Oh amor, nada me dá maior alegria. Senta aqui ao pé do pai.

-Agora estou de férias, da escola, posso estar contigo muitas vezes! É bom não é pai?

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O pai da Alice é, ou era, um dos maiores empreendedores na indústria aeronáutica. Bem-sucedido, criou uma Empresa líder que o tornou referência em, quase, todo o mundo.


Tinha uma família, a mulher Charlot e uma filha, que era a maior enlevo e fortuna do casal.
Linda, terna, inteligente e com muito apego aos pais, os seus verdadeiros heróis.


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Naquele dia, coisas do destino, ou do diabo. Não sabe bem. Sabe, apenas, que sentiu uma enorme vontade de ir almoçar com a mulher e a filha.


A Charlot, professora de biologia, almoçava às 13 horas. Passava pelo colégio pegava na menina, ia à faculdade e, os três, iam a um almoço especial.
Se bem o pensou melhor o fez, estava um pouco atrasado, mas o Porsche era rápido e em 20 minutos estaria a fazer a surpresa.



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Foi na curva, o camião vinha a ocupar demasiado as faixas, tentou fugir para a direita mas não teve tempo, o carro galgou a berma, empinou e foi tombar no fundo do declive.
Os airbags dispararam mas, o motor recuou e prendeu as pernas, e comprimiu o tronco, do condutor. Foi desencarcerado, e levado para o hospital. Não ia muito bem.

Pensaram o pior. Foi o fim, tinha uma lesão medular completa, perdeu na totalidade o controle e a sensibilidade da parte inferior do corpo.

Quando voltou para casa, muitos pensavam que não voltaria, mas voltou, sim voltou, mas numa cadeira de rodas.

Não era o mesmo, apenas um vulto na penumbra de um quarto.

-Amor, disse Charlot, há-de existir, nalgum lado do mundo, medicina para te curar a paraplegia! Tenho a certeza que há e nós vamos, onde for preciso.

E foram, correram, procuraram, consultaram e voltaram mais tristes e infelizes de que quando partiram.

Para lá, levavam a esperança, na volta já não a traziam.

Não morreu, mas era como se tivesse, perdeu o sorriso, a vontade e passou a existir como um boneco, velho abandonado, numa cadeira.
Dependia de todos, para tudo.

Os negócios mantinham-se, o cunhado, irmão da Charlot, deixou o país onde nasceu, França, e veio para ajudar na gestão da Empresa, era bom mas faltava o criador.


Reuniam, semanalmente, ali no quarto, frente à janela. Ele escutava, dizia que sim, com a cabeça, mas não tinha ouvido nada. O pensamento estava longe, demasiado longe.

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O Natal estava à porta, sentia a azáfama e as saudades de ser ele, como sempre a enfeitar, com a Alice, a árvore de natal.
Lembrava a filha pequena, qual boneca bailarina, tentando chegar para deixar uma bola, ou prender uma fita dourada. Ele depois, sem ela notar, ia corrigindo.
No fim as palavras, da filha, ainda hoje faziam eco nos seus pensamentos:

 -O pai é o melhor arranjador de árvores de natais, o melhor do mundo!

Corria para ele, abraçava-o e lambuzava-lhe a cara de beijos.
Momentos únicos de felicidade, agora instantes dolorosos de recordações.


Na cabeça, os pensamentos maus, ideias negras eram derrotadas pelo amor que sentia pela mulher e pela filha, pensava mas desistia, elas eram a luz dos seus olhos.

Agora estava ali, imóvel, nuns momentos de felicidade ouvindo e sentindo todo o amor da Alice, que ia palrando:

-Olha pai, agora nas minhas férias, podíamos ir dar um passeio, a mamã também tem férias nós, ajudamos, para não estares sempre aqui triste. Tu finges mas eu já sou grande e vejo que estas triste.

-Não querida, respondeu com os olhos molhados, não estou triste! Contigo, aqui, não podia estar mais feliz.



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A azáfama era grande, os sogros vinham passar o Natal, a Portugal, com eles, gostava mas não se sentia feliz, diminuído e dependente, mas a mulher e a filha mereciam.

*****

-Mãe, disse Alice, o Buinhas continua maluco, não larga a porta, abana a cauda como se estivesse alguém à entrada. Está estranho mãe!

-Não te preocupes, filha, deve andar por ai alguma cadela.

Alice estava curiosa, o cão nunca esteve assim e no jardim não entravam cadelas. Foi uma desculpa da mãe, mas quando ninguém estivesse próximo ia espreitar.



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E foi, abriu a porta e, os seus olhos viram, o menino mais bonito que se podia imaginar. Cabelos loiros, em caracóis doirados, emolduravam o mais lindo e suave rosto que podia imaginar. Os olhos de um azul brilhante, eram intensos de doçura.


Vestia uma túnica, feita de fios de luz, que brilhava mais que o Sol.
Não era um mendigo, tão lindo e tão bem vestido não podia ser.
Estaria perdido! Era melhor chamar a mãe.

O menino soube do pensamento, não sabe como, mas soube porque falou, tão doce e reconfortante:

-Alice não precisas chamar a mãe, vai ser um segredo nosso.

-Mas, balbuciou Alice, a mãe não quer que eu fale com estranhos.

O menino abriu um sorriso que pareceu iluminar o espaço, tão lindo e radioso.

-Sabes, Alice, não sou um estranho, tu, todas as noites, quando vais para cama, falas comigo, há muito tempo. Já não somos estranhos.

-Mas, disse a menina, eu à noite só falo com o Jesus e digo a oração que a avó me ensinou.

-Estás a ver que já me conheces! Todas as noites eu aceito essa oração. Agora vais-me dizer que prenda gostavas neste Natal?

Alice estava paralisada, não era medo, era um bem-estar que não conhecia. Mas tão bom.

-Sabes? Eu não pedi prendas, não preciso de prendas, só pedi para que o meu pai possa andar outra vez.

Faz-me tanta falta!

O menino, cada vez mais brilhante, respondeu:

-Vai junto ao teu pai e diz-lhe, tal como te vou ensinar:

 Pai, levanta-te, caminha, tu podes!




Dito isso, tão pronto como apareceu, o menino volatizou-se num novelo de luz que desapareceu como se nunca, ali, tivesse estado.

Alice correu para a quarto, do pai, que continuava absorto olhando pela janela.

Ficou assustado com a entrada, brusca, da filha, voltou a cadeira e ia perguntar algo, não teve tempo porque a filha gritou:

-Pai, levanta-te, caminha, tu podes!



O pai não pensou, foi maior do que ele, apenas obedeceu.

Levantou-se e caminhou, para a filha, e teve força para a levantar nos braços e rodopiar.

-Pai foi a prenda de Natal que o Jesus me deu, era isto mesmo que eu queria.

Foi o que eu pedi!


Uma musica suave e um cheiro ténue enchia o espaço.