domingo, 17 de maio de 2015

Chamamento














Já estive aqui, pensou. Não era muito dado a fixar os lugares, mas este tinha algo que lhe avivava as recordações, era uma espécie de odor que o cérebro guardava num casulo e que estava a libertar para lhe despertar a imaginação.

Sentia no ar memórias, difusas que queria mas tinha dificuldades em descodificar.

O largo tinha lembranças, o velho banco do jardim era diferente, na altura era de madeira pintada de verde e este é de pedra, branca, polida. Os canteiros não são os mesmos, abunda a relva e pequenos arbustos trabalhados, em figuras simétricas, mas na recordação estão presentes renques de amores-perfeitos, sardinheiras, salpicando, de vermelho vivo o verde dos rododendros que, ainda, escondiam os botões rosas prestes a florir.

Tudo tão diferente e, ao mesmo tempo, tão igual ao que resta na memória gasta pelas recordações.

Foi ali, naquele prédio, agora tão diferente! A pintura amarela substitui, os azulejos de flores azuis que naquela época cobriam as paredes. As janelas, de guilhotina, foram trocadas por molduras de alumínio fosco com persianas brancas.
Só a porta se mantem, no mesmo verde-escuro, com molduras de vidro martelado e batentes de punhos fechados.

Não sabe bem o que fez voltar, para estes lados, ao fim de 60 anos, foi um chamamento, uma força interior que o conduziu como, se fosse guiado, por algo muito superior.


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Pois, pensou, Januário. Fora aqui, neste jardim, junto a esta porta verde que faz, hoje, 60 anos conheceu  a Mafalda.

Lembra-se bem quando cruzou aquela porta e os olhos se enfeitiçaram uns pelos outros, foi lindo, mágico e para a vida.

Ela era, como se dizia, criada de servir, ele magala, de infantaria, e com guia de marcha para a guerra colonial.

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No dia em que embarcou, Mafalda estava no cais, chorou como todas as mulheres que viam partir, os maridos, namorados ou os filhos.

Jurou que iria todos dias, à Igreja, acender uma velinha a São Jorge, padroeiro dos soldados, para que trouxesse de volta, são e salvo o seu Januário.

Não se sabe se, São Jorge, ouviu a preces, mas passados 10 meses, de comissão, o jeep onde Januário seguia pisou uma mina, foi pelos ares, o condutor perdeu uma das pernas, mas ele, embora muito mal tratado, salvou a vida.

Foi desmobilizado e pode voltar para os braços da sua amada para num casamento, simples juntarem as suas vidas até que a morte os separe. Como o senhor padre disse.

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Hoje, está aqui, não sabe porque, foi uma força invisível que lhe orientou os passos. Não foi fácil, as pernas já não obedecem, é um velho cajado que o vai amparando.
Mas está onde tudo começou, é como uma homenagem, à Mafalda, que uma doença ruim levou vai fazer um mês.

Está muito cansado, a idade, os ossos, os sentimentos e as emoções são demasiado para as suas, fracas, forças.

Sentou as pernas doridas, no frio da pedra, do único banco vazio, e deixou o cansaço fazer o resto.

Fechou os olhos, sentia o odor dum perfume que bem conhecia, uma música suave que lhe embalava o sono que o estava a invadir.

Sentiu-se levitar, a mão de Mafalda segurava a sua, delicadamente.

Olhou para trás, o seu corpo continuava o sono no banco frio do jardim.

Mas ele subia, subia sempre, embevecido no sorriso, doce, da Mafalda.




domingo, 10 de maio de 2015

1755











-Isso são fenómenos, gritou Gilberto. Não é normal essas coisas acontecerem, só podem ser mesmo fenómenos. Onde já se viu uma coisa destas! Está um homem descansado a pensar na melhor maneira de não fazer nada e, de  repente, sem mais aquela, esta trampa treme toda como se fosse um castelo de cartas. Não é normal!

Estava Gilberto, moço de estrebaria, neste solilóquio quando o estrondo tomou conta do espaço, a ondulação possuiu a terra, que ia ruindo, à medida que as águas iam sorvendo as ruas que desapareciam como se nunca, ali, tivessem estado. Os sinos das Igrejas repicavam, de uma forma desordenada, e as labaredas das velas que tombavam começavam a consumir o que o tremor tinha poupado.
A cidade naquele dia, de Todos os Santos, parecia ter sido tomada por um demónio, a confusão era tanta que a população fugia da confusão sem se preocupar com, os possíveis, sobreviventes entre os escombros da parte da cidade arrasada.

               *********

Estávamos no ano de 1755, Lisboa ia desaparecendo, era o caos, gritos de desespero, cadáveres adivinhavam-se debaixo dos escombros.

Gilberto despertou daquela apatia onde tinha mergulhado. Os cavalos dispararam de forma desordenada, alguns não foram longe, eram engolidos pelas enormes fendas que se abriam no caminho.

O palafreneiro não pensou duas vezes, saltou para a garupa do Herodes um alazão, cor de canela, e disparou como um louco por entre escombros, fendas no terreno e águas, dum mar, que em ondas tenebrosas pareciam querer engolir tudo.

A sorte, por vezes, protege os audazes e Gilberto, quase milagrosamente, corria à desfilada no sentido de Sintra, pensava ele que, como ficava num alto, podia ter melhor protecção.

O cavalo era ligeiro por entre caminhos difíceis, veredas sinuosas e instáveis. Parecia saber o que era certo, adivinhar o que vinha a seguir, tantas vezes depois de tragar o caminho este desaparecia, como se nunca tivesse existido.

O animal estava exausto, espuma nos cantos da boca, soprar forte pelas narinas e sinais de desidratação, eram evidentes.
O fim era de adivinhar.

Gilberto insistia, apertava com fúria, não era habitual mas o medo, vencia o bom senso. Herodes tentou o salto, foi o seu último intento, caiu arfando, tinha chegado o fim.

Gilberto, ainda insistiu mas era tarde. Lágrimas destilaram-se, pela cara deixando, dois traços no encardido do rosto.

Os cavalos eram a sua família, nasceu e cresceu no estábulo. Quando o pai morreu, com a peste, foi ele, com 12 anos, nomeado pelo Senhor Marquês, para continuar o trabalho que foi do progenitor.

Era bem tratado, tinha um cubículo, na parte superior das cavalariças, dormia numa manta em cima da palha, era fofa mas, por vezes, ficava com o corpo cheio de brotoeja, esfregava com um unguento que o pai tinha num frasco e ia passando a comichão.

O Frei Vaz queria que aprendesse a ler, mas o cabrão, vinha com o latim e ele não se entendia, levava com uma vara nas orelhas e fugia. O Frade bem gritava mas, porrada, já bastou a que o pai lhe dava.

Nunca mais! Quando topava a batina a aproximar-se, escondia-se até que o estupor se fartava e desaparecia.

Agora, com 19 anos, via-se assim no meio deste inferno demoníaco. O palacete e tudo o que o rodeava desapareceu engolido pela terra, as ondas enormes fizeram o resto, se não fosse a rapidez, a força e a inteligência do Herodes, se calhar também ele não tinha salvo o coiro.

Agora tinha que dar rumo à vida, não voltava para aquelas bandas, ainda o Marquês o ia acusar da tragédia e estava farto daquela vida, sempre preso aos animais.
Descanso nunca!
Era limpar cavalariças, dar ração aos bichos, mudar a água, levar os cavalos ao campo, arrear este ou aquele, conforme dava nas ganas dos senhores. Mas dia de descanso, para ele, nunca.
Também precisava de conhecer as cachopas e, havia algumas, bem apetitosas que ele bem as via passar frente ao portão.

Pouco percebia de mulheres, a única que conhecia era a mulher do Marquês, que aparecia como não quer a coisa e o levava a um enrolanço nas palhas. Era bom, mas o raio da mulher era balofa, por todos os lados, e nunca estava satisfeita embora ele, fosse rapaz de muito pedalada.

*****

Meteu-se ao caminho, a terra continuava a tremer.
Já avistava o castelo, mas faltava muito e o caminho era mau e traiçoeiro. De vez em quando lá vinha mais um estremeção, mais pedras a rolar pela encosta, tinha que fugir se não queria ir, de supetão, á frente de alguma.

Parou para tomar fôlego, olhou para trás, ao longe, Lisboa, era uma mancha sulcada de incêndios, no meio do pó, que andava pelos ares.

Apeteceu-lhe chorar, mas macho que é macho não chora e ele era, assim pensava, um puro garanhão.


******

Chegou à vila, deviam ser seis horas da tarde, andou pelo menos oito horas neste frenesim. Estava muito frio, as pessoas pareciam meio desnorteadas, o medo era visível em todos os rostos.
Muitos estragos e alguns mortos, ainda se amontoavam nas ruas, carretas iam transportando, os cadáveres, para o cemitério com receio das epidemias.

Gilberto ofereceu os seus préstimos, foram aceites. Todos eram poucos.

Ao fim do dia, os homens, foram desinfectar a garganta na única taberna da vila.
Entre conversas, lamentos e lamúrias iam descarregando a tensão, de um dia, que já queriam esquecer.

O dono da tasca, um galego, que por aqui tinha assentado olhou Gilberto e perguntou:

-De donde vienes, no se quién eres?

Gilberto rasgou um sorriso, já tinha reparado que o galego tinha uma filha, roliça, fresca e bem nutrida.

-Sou Gilberto, fugi da desgraça, em Lisboa, e quero ficar por aqui se arranjar um patrão.

-E que puedes hacer?

-Tudo e aprendo rápido!

-Entonces necesito a alguien, aqui en la taberna, si quieres!

-Quero pois, respondeu, posso começar já?

-Te doy dormir, comer es un pequeño salario. Qué dices?

-Posso começar, não te vais arrepender!

        ********

Gilberto olhou para a filha do taberneiro, que entre a porta da cozinha, o mirava com um ar apreciador.

Ia começar e, tinha o palpite, que em breve ia fazer parte da família.
O galego já não era novo e, um genro, se calhar, vinha a propósito.




domingo, 3 de maio de 2015

Marcolino



Para acompanhar e dar assistencia, a um familiar, sujeito a intervenção cirurgica tenho andado arredado do Blogue.
Espero, em breve, voltar à normalidade.





Talvez fossem remorsos! Não que tivesse motivo para isso, mas há momentos que nos perturbam o pensamento e as coisas podem acontecer.

Marcolino era, um pouco, explosivo e facilmente se deixava levar pelas emoções, nada de violências ou de ofensas mas amuava e desconhecia as pessoas, não era propriamente um desconhecer absoluto, era mais um distanciamento, um faz de conta, uma maneira de mostrar uma insatisfação.

Mas, pobre de espirito e um pouco retrogrado, normalmente saía a perder, coisa que não sabia, ainda, controlar.

Agora a questão era um pouco mais delicada, havia interesses que ultrapassavam a sua própria vontade e, o seu raciocínio, não o ajudava a discernir o que era melhor para ele próprio.

As coisas, por vezes, acontecem e ultrapassam a nossa vontade, não conseguimos controlar e depois o arrependimento não vale nada.

Ele, Marcolino, viu a Cassilda, no baile da feira, no primeiro dia de festa na aldeia e, obedeceu às ordens, na forma da sua rudeza natural e, mesmo na frente de toda a gente, disparou:

-Ouve lá cachopa! Há muito tempo que ando de olho em ti, já me informei que não tens ninguém, por isso, podíamos namorar os dois!

Cassilda ficou para morrer, tal foi a vergonha porque passou. Quem lhe havia de dizer que Marcolino, que diziam ser meio tonto, a iria assediar dessa forma, neste sitio e, pior ainda, à frente de tanta gente que a conhecia. Não queria ser bruta, nem sequer ofender o rapaz, mas não sabia bem como sair desta situação.

Corou, sentia mesmo um calor enorme na cara, e o olhar fixo e embasbacado de Marcolino, só servia para piorar a situação.

Tentou falar mas, as palavras, enrolavam na garganta e não havia maneira de se transformarem em qualquer som e tinha medo, mesmo muito, pela reacção daquele homem de olhos desvairados.

****

O professor Eleutério reparou, no embaraço da moça e, no olhar guloso do Marcolino, pegou-lhe com suavidade, num braço, e com muita argúcia, foi-lhe segredando:

-Sabes, Marcolino, que nunca se deve abordar uma rapariga assim?

-Desculpe professor, interrompeu o rapaz, eu não bordei nada só a pedi em namoro.

O professor teve que suster o riso, com muita calma insistiu:

-Eu disse abordar que é o mesmo que, para perceberes, chegares ao pé.Não deves dizer, assim de repente, tens que ser esperto, carinhoso e com muito tacto.

-Mas senhor professor, insistiu o moço, a culpa foi do meu mano, ele é que anda, há muito, com a Cassilda na imaginação, eu também acho que é jeitosa, mas ele está mesmo entusiasmado. Vai daí, ontem, disse-me que eu tinha que a pedir em namoro, mas não podia dizer que era para os dois.

-Agora sou eu que não percebo! Explica lá isso devagarinho, como é isso de para os dois?

-Pois, professor, é isso que nós queremos, uma mulher para os dois! A gente dá-se bem, não somos ricos, por isso uma para os dois chega bem. Eu trato do gado, ele trata da lavoura, porque tem mais força, e ela vai tratar da casa.

Vai ser uma princesa, mas mesmo uma princesa como a dos filmes.

O Inácio chega a casa às 7 horas e tem a mulher à espera, linda, para ele. Eu tenho que recolher as ovelhas chego mais tarde, ai pelas 8 horas e é outra festa, lá estará ela, linda para mim.
Tem dois maridos, para esperar, e tem dois amores a chegar. Então não é bonito?

-E depois? Perguntou o professor?


-Então depois o que? Respondeu Marcolino.

-Sim e depois? Vocês querem uma criada ou uma esposa?

-Pode chamar isso, queremos uma mulher que, também, é essa coisa de esposa.

-E à noite como dividem? Perguntou o professor.

-Dividir? Isso não, não dividimos nada, nunca, mas mesmo nunca. Quase gritou Marcolino.

-Sabes que mais! Exclamou o professor, isto parece uma conversa de malucos!

-Olhe lá senhor professor, eu tenho muito respeito por si, mas não sou nenhum maluco, há muitas pessoas que pensam que sou, mas não sou. Sou um pouco fraco de juízo e as pessoas pensam que sou maluco e o meu mano ainda pior, nem se atreve a passar pela aldeia.
Se se atreve há logo um ou outro que grito "Olha o Inácio desmiolado" e ele não gosta, atira pedras aos rapazes. Eu também não gosto e, um dia apanho um desses malvados, dou cabo dele, estrafego-o de tal maneira que vai passar o resto da vida agarrado a um cajado. Pode ter a certeza que o faço!

-Mas ouve bem Marcolino, eu não chamei maluco a ninguém, só disse que parecia uma conversa de malucos, mas éramos os dois, cada um dizendo uma baboseira, sem chegarmos a lado nenhum, porque não nos explicámos bem.

Eu sei que és bom rapaz, mas perdes a cabeça com facilidade e o teu irmão, bem nem vale a pena falar.

Mas vamos à nossa conversa sobre a Cassilda, se bem percebi vocês querem casar os dois com a menina, coisa que não é permitida e, mesmo que fosse, era preciso que ela quisesse.

-Mas não precisamos de casar, ela vai lá pra casa, passa a ser a dona e senhora das coisas, nós os homens vamos trabalhar, quando voltamos ela está à nossa espera com a janta.

Chega um de cada vez, ela dá um beijinho e agradece a Deus por ter dois maridos tão bons.

O professor estava pasmado, não sabia se devia rir ou chorar, nunca na vida pensou ser apanhado numa coisa destas. Estava arrependido por se ter metido neste imbróglio, mas o olhar aterrorizado da rapariga, e o desvario do homem, obrigaram a tomar uma posição e agora estava num beco sem saída.

Tomou fôlego, e avançou:

-Ouve lá, parece que já têm tudo resolvido mas há uma coisa que me escapa:

-E qual dos dois vai ser o homem da casa?

-Que pergunta, senhor professor, parece que não percebeu nadinha de nada. Tá bom de ver que vamos ser os dois, os homens da casa, não podia ser doutra maneira!

-Pois, está bom de ver! Já calculava, disse o professor, mas qual dos dois dorme com a dona da casa?

-Ai alto, senhor professor! Misturas não. Ela vai ter um quarto, com uma cama, só para ela.

Eu e o meu mano continuamos a dormir juntos, como sempre, já estamos habituados ao cheiro um do outro. Náá... não há cá mudanças, nem misturas. Era o que faltava!

-Afinal os miúdos parece que têm razão!
E digo quase, porque na verdade eles deviam gritar.

São os dois varridos do miolo!!!!

Và desaparece e, se te vejo a incomodar alguma rapariga, vais direitinho à guarda e sou eu que te levo pelas orelhas. Eles logo te arranjam outra companhia para dormires.


-Eu cá não tenho culpa!

Foi o meu mano que me mandou.

Disse, Marcolino, a chorar.



terça-feira, 21 de abril de 2015

ELA












Era sempre assim, embora, por vezes, a memória, lhe trouxesse recordações que lhe contrariavam a vontade.

Á tarde, quando os sentimentos não viajavam nas asas da imaginação, sentava-se na amurada e contemplava a imensidão do mar como se as ondas o levassem no balançar de sonhos perdidos.

Sentia no corpo o arfar dos momentos que existiram e que se deixavam, de forma lasciva, morrer em suspiros de mãos deslizantes em seios túmidos, em corpos colados no calor húmido do prazer.

Hoje as saudades tolhiam os pensamentos, as recordações eram espirais que não conseguia reter, vinham e desapareciam no emaranhado confuso de um cérebro cansado, nas memórias que o faziam sofrer mas, ao mesmo tempo, lhe deixavam um travo ténue de uma felicidade que foi tão fugaz mas tão doce.

O mar ia e vinha naquela toada sincopada como se quisesse acompanhar a batida do seu coração. Mas era impossível o coração já parecia não bater, perdeu o ritmo no dia em que ela partiu, naquele dia em que, sem saber porque, apenas lhe ficou um enorme cansado, uma angústia que doía dentro do peito.

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Foi num dia, frio e chuvoso, de Dezembro, o chapéu-de-chuva com uma rajada mais forte deixou o pano voar ficando, apenas, um esqueleto de arame vergado ao sabor do vento. Ele reparou e foi célere na ajuda:

-Abrigue-se aqui, e estendeu o seu chapéu, vamos até aquele café para se recompor.

Ela aceitou, sem uma palavra, só lhe apetecia chorar, sentia-se ridícula, encharcada e com os despojos de algo que foi um chapéu-de-chuva.

Só quando chegou ao café, recobrou e, viu como ele era bonito, mas isso, era apenas um pormenor.
Aceitou um café, por agradecimento e para recuperar da raiva e daquela sensação de impotência perante uma simples rajada de vento.
De repente, os dois, riam às gargalhadas pelo insólito e ela, um pouco, pelos nervos acumulados.

Ele atreveu-se:

-Não pense mal, mas tenho o carro, muito próximo, posso leva-la a casa ou onde desejar.

Ela sorriu, era linda mesmo com os olhos esborratados, com a pintura misturada, com a água da chuva.

Aceitou e, apenas, pediu:

-Dá-me, só, um momento para compor a desgraça da minha cara?


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Morava num bairro, de vivendas geminadas, muito calmo e florido.

-Fico aqui, disse, agradeço a sua amabilidade.

Abriu a porta, estendeu-lhe a mão e preparava-se para sair, mas ele não se conteve:

-E acaba aqui? Não nos voltamos a ver?
Porque não vamos, um dia destes ao cinema, ao teatro ou simplesmente almoçar! Ou será que não pode?

Sorriu e, agora reparou melhor, era linda, e quando sorria fazia duas covinhas ,nas faces, o que lhe davam um encanto especial.

Respondeu-lhe:

-Poder, posso! Só não sei de devo, afinal nem nos conhecemos!

-Mas, replicou, é essa a oportunidade de nos conhecermos um pouco melhor.

-Está bem, disse, que acha sábado, ao meio dia, no café da desgraça?

-Combinado, lá estarei! Respondeu.

*****

Hoje não chovia mas o dia estava frio.
Ele escolheu o mesmo lugar, não por saudosismo, mas por algo que não sabia explicar.

Ela chegou enrolada num belo casaco vermelho, luvas e sapatos da mesma cor. O cabelo, negro, caia em suaves caracóis nos ombros.

O sorriso, um pouco tímido, vincava aquelas covinhas, que realçavam toda a sensualidade que a envolviam.

Ele, levantou-se e ajeitou uma cadeira, não sem antes desabafar:

-Está linda! Meu Deus, no outro dia mesmo com a chuva, também estava, mas hoje supera!

-Obrigada, respondeu, com este frio nem sabia o que vestir. Venho um pouco a dar nas vistas.

******

Ela, tal como ele, gostavam de comida italiana.
Foram ao restaurante do Alessandro onde, segundo ele, serviam os melhores raviólis e um  Capeleti à Napolitana de comer e chorar por mais.

Depois, passearam à beira mar, conversas que sairam naturalmente. Ele abriu o coração, ela foi mais prudente, foi escutando. Vivia com os pais, não tinha por agora compromissos.
Quase sem darem por isso começaram a caminhar de mãos dadas.

-Curioso, constatou ele, estamos de mãos dadas e ainda não sabemos os nossos nomes!

-É verdade, tens razão, eu sou Lúcia. E tu és Luís, não és?

-Como sabes? Perguntou, admirado.

-Ouvi o empregado do restaurante tratar-te por senhor Luís.

Sentaram-se nesta mesma amurada, nela trocaram o primeiro beijo, furtivo, suave mas intenso.


****

Depois foi o paraíso, todos os momentos eram poucos para estarem juntos. Amaram-se como se o amanhã jamais existisse, promessas eternas. Os dias de trabalho pareciam não ter fim para voltarem para os braços um do outro.

Iam quatro meses passados, a primavera começava a perfumar o ar e as flores, timidamente, iam colorindo os jardins.

Lúcia e Luís continuavam na maior paixão e os planos para o futuro começavam a fazer parte dos seus pensamentos.

Num fim do dia, abraçados no doce torpor dum momento especial, Lúcia, perguntou-lhe:

-Luís se eu saísse da tua vida ias sentir saudades?

-Minha tonta, respondeu, como podes sair da minha vida se tu já és a minha vida. Sem ti a minha deixava de ter sentido. Amor não gosto dessas perguntas, deixam-me com pensamentos negativos e isso não quero. 


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Algo não está certo, nem uma única vez Lúcia atendeu o telemóvel, sempre a mesma mensagem "o número que marcou não está disponível, tente mais tarde".

Bom não se vai inquietar, deve ter acabado a carga ou deixou cair o telemóvel.
Logo ao fim do dia vão estar juntos e isso é o mais importante.

Agora já começa a ficar preocupado, Lúcia não atende e, pior ainda, está atrasada mais de uma hora. Não é normal, nunca aconteceu.

Sabe onde mora, ainda se lembra quando a levou a casa, mas ela pode não gostar é, quase, quebrar-lhe a privacidade. Pode ser mas se está doente e precisa dele? Tem que se decidir, vai mesmo.

O bairro estava muito sossegado, apenas as luzes das habitações davam, alguma, claridade pois o candeeiro público não estava a funcionar.
É aquela porta. Tocou e aguardou.

-Quem é, disse uma voz?

-Boa noite, sou o Luís e preciso saber da Lúcia !

A mesma voz insistiu:

-Não percebi quem é e não mora aqui nenhuma Lúcia. E a estas horas não é prudente abrir a porta.

Luís voltou a insistir:

-Caro senhor eu compreendo o seu receio, fui eu que no dia de chuva deixei, aqui, a Lúcia. Pode confiar. Pode chamar um vizinho, ou quem quiser, para não ter receio mas preciso falar com a sua filha.

Do outro lado o homem pareceu contemporizar:

-Vou ai, não devia mas gosto do seu tom de voz.

Abriu-se a porta e um homem, não muito novo, apareceu com ar sorridente.

-Meu senhor deve haver uma confusão, a minha neta contou de um senhor que lhe deu boleia num dia de chuva, mas ela não se chama como disse, ela é Joana.

O homem tirou o telemóvel e mostrou  uma foto:

-É esta a Lúcia!

-Não, não,  respondeu o morador essa é a minha neta Joana.

O homem estava confuso, mas que importava se era Lúcia ou Joana, desde que fosse ela.

Perguntou:

-Posso falar com ela? Devo ter confundido o nome.

-Tenho pena senhor mas não pode, a minha neta embarcou hoje muito cedo para Luanda. Ela vive com o marido em Angola e esteve em Lisboa a fazer um curso pela Empresa, acabou e ela voltou para o trabalho e para o marido.





domingo, 12 de abril de 2015

Um caso sem solução





-Sim, estou a trabalhar num crime muito bonito-talvez a minha obra-prima (Nicholas Blake)



Estava bem morto, não havia duvidas.
Bastava olhar o aspecto daquele furo que tinha no meio da testa, era um buraco negro onde o sangue, já coagulado, dava um aspecto, quase, sinistro. No rosto, apenas a lividez, destoava na serenidade e naquele espécie de sorriso, que morreu antes de ter tempo de nascer.

O polícia era enorme e tinha uma forma de falar, demasiadamente enfatuada para ser verdadeira, repetia, demasiadas vezes, as palavras mas de forma tão casual que parecia ser normal.

Era da judiciária, informou, e estava confuso porque as coisas não pareciam normais, havia muitas questões  para explicar.

O outro, o mais novo, também era polícia mas devia ter pouca prática, seguia o colega e tentava adivinhar-lhe os pensamentos.

-Sabes, disse o mais velho, que isto não me cheira muito bem, há qualquer coisa que não bate certo!

-Mas, perguntou o outro, o que achas que não bate certo? O gajo levou um tiro nos cornos, e bateu a bota, só falta saber quem o fez!

-Abre os olhos, abre bem esses olhos, e diz que te parece tudo normal! Vá, diz lá que não vês que isto não bate certo? Porra!

-Bem, mantém a calma e diz o que achas que não bate certo? Insistiu o mais novo.

-Olha bem para este tipo, tem um buraco na testa, que parece a boca do inferno, e onde está o sangue? Apenas um coágulo seco, só isso, nem mais um pingo. O gajo foi morto, noutro local, e trazido para aqui, não é trabalho de uma só pessoa. O médico, depois da autópsia, vai confirmar se tenho ou não razão. E ainda há mais, a bala entrou e saiu e onde está a merda do furo que devia ter deixado no cadeirão?
E quem é o marmanjo, todo aprumadinho, com um sorriso de Gioconda, mesmo depois de morto, fato de muitos Euros, camisa Pierre Cardin, gravata de seda italiana, um anel que vale mais de que um ano do meu ordenado. Não houve roubo mas a carteira desapareceu. Nem um único documento de identificação.

-Mas quem é a vitima? Perguntou o mais novo.

O colega esfregou a orelha, parecia um tique, já o tinha feito por diversas vezes. Parecia estar a procurar as palavras antes de responder:

-Isso é o que mais me intriga, ninguém o conhece! Temos que descobrir, vai ser um longo trabalho. A cabeleireira, abriu às oito horas a porta, e apanhou um cagaço quando viu o homem sentado e, ainda maior, quando olhou para o, enorme, buraco na testa.

Estava meia aparvalhada e só sabia dizer "mal-empregado era tão bonito!"

*******

O mais velho era o inspector Morgado, o outro era o agente Martins.
Ficaram como investigadores do caso do “sorriso enigmático”, foi assim que o baptizaram, talvez pelo último esgar da vítima.

O Inspector Morgado, era uma pessoa difícil, pensava 24 horas no trabalho e um fracasso era, para ele, algo impensável.

A mulher fartou-se de esperar e um dia, sem se despedir, voltou para donde viera, meteu-se ao caminho e desapareceu. Deixou um bilhete muito lacónico "a paciência tem limites".

Deu a entender que voltava para casa dos pais, mas todos sabiam que tinha fugido com um bailarino inglês, que conheceu num espectáculo.

O agente  Martins era diferente, apreciava a vida e não a queria viver, na obsessão, de casos para resolver. Não fugia ao trabalho mas, sempre que podia, fugia dele. Havia tantas coisas interessantes para fazer.

*****

-Bem, disse o inspector, vamos fazer o ponto da situação. O morto aparece sentado no cadeirão dum cabeleireiro, nunca ninguém o tinha visto, antes, por aqueles lados, foram  consultados todos os registos, todos os desaparecimentos comunicados, fotos espalhadas, incluindo as publicitadas nos jornais, as impressões digitais não foram identificadas, nada, mesmo nada. A autópsia foi conclusiva, morreu de um único tiro e perdeu muito sangue. Devia ter uma idade entre os 28 e 33 anos.
Estive a observar-lhe as mãos e, concluo que deve ter uma profissão que não deixa desgaste nas mesmas, muito limpas e sem marcas. Ou advogado, médico ou menino rico que não faz nada a vida.

O agente Martins, interrompeu:

-Mas como explicas que o tenham abatido num lugar qualquer, onde devem ter ficado marcas, e o tenham levado para o salão de cabeleireiro sem ninguém ter dado por nada. O gajo não é muito grande mas sempre deve pesar uns 70 quilos!

O inspector responde, quase, maquinalmente:

-Pesa, segundo o médico legista, à volta de 67 quilos já considerando a perda de todos os fluidos. Era muito leve!
A hora da morte foi, segundo eles, entre a meia-noite e as três da madrugada.
Não foi obra de uma única pessoa, foi mais do que uma, talvez mesmo um gangue, ajuste de contas, ou coisas da droga. Sei lá!

-Vai ser lixado, disse o agente, temos pela frente um bico-de-obra.

-Vai mesmo, respondeu o inspector, mas vai ser a tua grande oportunidade, aquela que há muito procuravas. Fica tudo à tua responsabilidade mas, já sabes, contas sempre com o meu apoio.
Tens todos os elementos, o relatório da autópsia, dos interrogatórios e o resultado de todas as diligências.

-Mas o chefe não se sente bem? Perguntou Martins.

-Estou bem, mesmo muito bem, mas preciso de algum tempo, não posso continuar neste sufoco. A Andreia voltou para mim, pediu para darmos uma oportunidade à nossa relação e vamos dar! Quero cumprir a minha parte.

-Faz bem chefe! Julguei que a Andreia tinha ido para Londres, até falaram que tinha uma relação com um bailarino! As pessoas inventam mas, se voltou, é porque sentiu saudades suas.

-Pois foi, as pessoas dizem coisas. Mas não importa! Voltou, não se deu bem e se calhar, como tu dizes, teve saudades minhas.


*****

Hoje o inspector Morgado parecia estar, totalmente alheio. Estava, ali, mas o pensamento, notava-se que, andava longe, muito longe.
Abria uma pasta e parecia olhar as páginas mas era apenas uma forma de matar o tempo. Fazia a esferográfica rebolar, entre os dedos, como se fosse um brinquedo.

O agente Martins notava que algo estava mal, mas tinha receio de perturbar aquele alheamento. Mas, era muito amigo, e tinha que o fazer.
Queria fechar o processo, propor o arquivamento.

Tomou coragem, e avançou:

-Então chefe, parece não estar num dia sim!

-E não estou Martins! Não estou mesmo! A Andreia, e eu, chegamos à conclusão que não dá. Voltou, para donde nunca devia ter vindo. Afinal, como dizias, não teve saudades minhas.

-Pois chefe, quando não dá, o melhor é cada um ir à sua vida.
Mas, agora, queria a sua opinião sobre o caso do “Sorriso Enigmático”, acho que o devíamos mandar arquivar.

-Mas, respondeu o inspector, não avançastes nada?

-Oh chefe, avancei muito mas, nada de interesse, vou propor arquivar o caso. É estranho, há muita confusão e não leva a nada. O morto era um bailarino inglês.
Chegou a Lisboa, num voo, na véspera de encontrarem o cadáver.
Acho que, no mesmo, onde veio a sua ex-companheira, mas agora isso não interessa.
Vou mandar arquivar. Acha bem?

O inspector notou o sorriso sardónico do agente, mas fingiu não notar, limitou-se a confirmar:

-Faz o melhor, o processo é teu, tu mandas nele. Não percas tempo, fizestes um bom trabalho. Parabéns! Tu é que mandas. Tens o meu, total, apoio. Faz o que está na tua consciência! És um bom agente.
-Pois chefe, a minha consciência, é que me tem lixado. Vou mandar arquivar!
Afinal o tipo nem era conhecido e nem temos local do crime.

-Não é, chefe?





sábado, 4 de abril de 2015

P.... de Vida









-Zé, Zé!!! Anda cá homem, que eu não me entendo com estas modernices da internet e, a nossa filha, está num tal Skype a falar e eu não sei o que fazer.

-Mulher nunca mais aprendes!  Só sabes mexer na televisão porque dá as telenovelas, senão nem isso sabias fazer.

-Então agora estás a dar uma de parvo, ou que? Eu não vejo só telenovelas, também gosto muito daquela da Casa dos Segredos, eu não sou assim tão burra como estás a dizer.

-Pois não mulher, não és assim tão burra, és muito pior. Quem vê aquele ninho de víboras e, de poucas vergonhas, não é parvo é um IMBECIL chapado. E a tua filha, em vez de estar nesse tal do Skype, se estivesse aqui, em casa, ao pé dos pais, estava muito melhor.

-Mas homem! A rapariga é nova e precisa de se divertir!

-Pois é mulher, deve ser um divertimento muito especial. Não quer estudar, trabalhar é bom para os pais que são velhos, anda sempre em festas e, nessa coisa que ela diz, eventos. Nem sei bem o que são esses eventos, nem para o que servem?

-Oh homem, que feitio o teu, os eventos são para se cultivar e conhecer pessoas importantes.

-Sabes que mais? Vai lá, a esse Skype, e pergunta-lhe onde está, para precisar dele. E diz que a quero aqui, em casa, antes da hora do jantar.

A mulher foi, mas voltou de imediato. Parecia estar preocupado, ou mais propriamente  receosa.

-Zé, aquilo já estava desligado, a rapariga estava longe e essas chamadas devem ser caras.

-Caras? Qual caras! Aquilo é de graça, todos tem essa coisa no computador para falar à borla.

-Se calhar, disse a mulher, era por estar em Espanha que é longe!

-Mas, perguntou o homem, está em Espanha como? A fazer o que? Como tem dinheiro para essas passeatas?

A mulher começou a enrolar as mãos na saia o que, para ela, era sinal de algum nervosismo.

Ela reconhecia que o homem tinha razão, mas a rapariga era nova, ainda só tinha 28 anos, precisava de se divertir.
Tinha que enfrentar o marido, ia defender a filha até ao fim.

-Fui eu que lhe paguei as viagens e como não trabalho fora, mas trabalho muito em casa, tenho direito a ajudar a minha menina. Ela tem ainda muito tempo para enfrentar os problemas da vida, muito tempo, por isso queria ver os
Supertramp em Madrid e foi a Madrid ver. Pronto!

-E mais nada! É assim que se fala, a menina quis e pronto, não importa que o pai trabalhe, do nascer ao por do Sol, não interessa que ande há três meses com uma dor num dente e sem possibilidade de ir ao dentista. Não interessa o importante é que aquela inútil, que nunca sujou as mãos a trabalhar, que desistiu de estudar, diz ela que foi só por que não gosta de se levantar cedo, quando todos sabem que é burra, burra como a mãe que lhe apara todos os golpes. Eu estou farto, faaarrrrtttooo, disto tudo e vou resolver à minha maneira. Vais ver se não resolvo!

-Mas ouve lá homem, o que é que vais resolver? Não há nada que possas fazer e não te metas onde não deves! Ouviste bem?

O homem não queria acreditar no que estava a ouvir a mulher, sempre apagada, de repente espevita, mostra as garras como uma leoa, a defender a filha. Não estava a gostar do aspecto, não fazia parte do programa.

Apeteceu-lhe vestir o casaco sair pela porta fora mas, era dar o flanco, perder o pouco de respeito que ainda lhe tinham.

Cegou, de repente perdeu a cabeça, e fez a maior asneira da sua vida.
Deu uma valente surra na mulher. Depois arrependeu-se, não era desses tipo de homem, arrependeu-se mas era tarde.
Agora  sim, vestiu o casaco e foi apanhar uma bebedeira.

*****

Voltou, eram duas da manhã, em ziguezagues, numa rua que parecia um carrossel.
Estava perdido, encharcado em vinho, pensamento embotado pelo álcool mas preocupado, não tinha chave de casa e não queria acordar ninguém.

Dirigiu-se, cambaleante, para a porta mas dois policias, que pareciam ter aparecido do nada, pegaram-lhe nos braços e perguntaram:

-O senhor é o José Godofredo Machado?

Que giro, os tipos conheciam-no, mas ele não, e se o conheciam era melhor responder:

-Sou sim senhor, um criado às vossas ordens!

O mais alto, o que tinha bigode, segurou com mais força e, numa espécie, de grunhido convidou-o:

-Tem que nos acompanhar à esquadra, está detido para ser presente a juiz.

O carro, os polícias e todos tiveram sorte, pois quando se ia a voltar, o estômago, deu uma volta, as entranhas pareciam ter subido à boca e zás, foi como se abrissem a comporta, o vómito saltou e foi projectar-se, com estrondo, na calçada e na parede. Se não estivesse seguro tinha ido atrás da enxurrada.

Os polícias desistiram do carro, foram a pé, um de cada lado, arrastando a triste figura de um homem, salpicado de alto abaixo, de uma mistura com um cheiro misto de vinho e azedo.

Quando chegaram à esquadra, o colega que fazia sentinela, não conseguiu suster o riso, o quadro era digno de uma comédia, e teve que comentar:

-Então encontraram esse, no lixo, e trazem para aqui o pivete?

O do bigode aproveitou para ripostar:

-Pois, como estás a ver! E agora vais dar-lhe um banhinho para ver se melhora.

******

Foi um fim-de-semana na esquadra, deixaram-no tomar banho, não havia outra hipótese,  e lá lhe amanharam uma roupa limpa para ouvir o que o juiz tinha para lhe dizer.

****

Teve sorte, sempre foi pessoa de bem, não tinha antecedentes e a mulher desistiu da queixa.
Ouviu uma reprimenda, ficou a saber que numa próxima não teria desculpa mas, por agora podia ir em paz.

****

As coisas estavam diferentes, falavam mas as palavras não tinham emoção, o respeito e a delicadezas foram com a primeira bofetada, o amor esse há muito se tinha perdido nos meandros das rotinas.

Passavam ao lado, um do outro, estavam perto mas tão distantes.

Ele tinha pena, muita pena, mas sabia que o destino não volta, o mal não se apaga e as feridas saram mas deixam a marca, marca que por vezes dói mais que a ferida que a provocou.

Não foi, totalmente, culpado mas sabe que a maior parte lhe cabe, está arrependido e quer dar uma oportunidade à vida, não será igual mas pode ser o suficiente.

Hoje foi mais cordial com a mulher, deu-lhe um bom dia mais emotivo, meteu conversa e quis saber notícias da filha. Com delicadeza perguntou:

-Sabes se aquele concerto, dos
Supertramp, ainda vai durar muito?

-Já me tinha esquecido, disse a mulher, a nossa Vanessa arranjou um namorado, em Espanha, um rapaz muito fino e de boas famílias.
Vêm viver, aqui, para nossa casa, estou a pensar em dar o nosso quarto e, nós, vamos para o quarto que era da nossa menina.
Achas bem, não achas?

-Depende de quem vai dormir no chão, a cama da Vanessa é pequenina! Não reconheces?

-Já pensei em tudo, vou comprar outra cama, uma para mim e outra para ti. Não precisamos de cama de casal, já não somos, isso, há muito tempo.

-É verdade, eu, não aprecio bonecas insufláveis! E onde é que trabalha, esse tal, teu futuro genro?

-Em nada, agora fica aqui com a gente e logo se vê, onde comem três, também, comem quatro. Respondeu a mulher.


-Só mais uma pergunta, se eu repetir a dose, da última vez, o que me acontece?

A mulher pareceu não ficar assustada, olhou-o nos olhos e respondeu:

-Vais preso e nunca mais te podes aproximar de mim. Nunca mais! Ouvistes!

-Que bom! Respondeu Zé, é isso mesmo que eu quero.
Podes começar a gritar e a chamar a polícia!

Porque nunca mais me quero aproximar de ti!











quinta-feira, 26 de março de 2015

A máquina











Eu sei que ninguém me conhece, sou assim muito tímido e passo tão despercebido, que por vezes nem eu dou por mim próprio.

Acho que é uma questão hereditária, difícil de explicar, até poderá ser considerada como uma doença rara, mas não é. Aqueles, como eu, parecem muito infelizes, uma espécie de inexistentes. Mas não, porque são o futuro.

Diz a minha mãe, que o meu pai, era tal e qual o mesmo, talvez ainda mais subtil do que eu, viveu com ele e não se lembra de alguma vez o ter visto.
O problema não é nosso, tenho a certeza que o mal está em todos os outros, que não aguentam o nosso magnetismo e ficam possuídos de uma prosopagnosia total, não têm culpa mas não aguentam o nosso poder.
Poder? Disse poder, mas não é bem poder é muito mais do que isso, algo que vem de um futuro controlado por uma máquina, que já está instalada, e ninguém sabe que existe.
Ninguém não é, totalmente, verdade porque nós, os predestinados, sabemos. Temos que saber porque foi a nossa mente, superdotada, que a construiu.

Poucos de nós se lembram como tudo aconteceu, só alguns, os legítimos os originais, porque os outros  já são híbridos, que a máquina clonou, e daqui em diante muitos mais, vão engrossar a nossa legião de colonizadores.

****
As coisas aconteceram porque tinham que acontecer, ou era assim ou seria o fim, o Armagedão, não propriamente como o que  bíblia nos apregoa, não é nenhuma luta entre o bem e o mal. É mais uma necessidade de assegurar a continuação porque o futuro já não é ali, está comprometido, a natureza criou e, os homens, destruíram.

Foi preciso materializar a máquina.

*****

A máquina é apenas um nome pois máquina, propriamente, não existe é algo difícil de explicar, talvez não seja difícil. O impossível será perceber.

Como se pode explicar, se nós próprios, os eleitos, temos dificuldade?

Mas, eu, como um, dos coordenadores, da dinastia da Nova Era, posso adiantar que a máquina é formada por bruuuuu, bem por brumuuu, por, mas estou bloqueado, não estou autorizado,  foram-me embotadas as memórias e mesmo que queira não sei explicar.
Fica assim, um dia, todos vão perceber.

Disse todos e não foi por acaso, é um aviso, pois não tarda vão ser todos prosopagnosiados, não sei se o termo é válido ou se acabei de criar um neologismo. Mas é uma das minhas virtudes, a criação.

As coisas vão começar, uma nova era está reservada a todos, quase todos, pois políticos e governantes estão excluídos, ficam na classe dos impuros, dos inaptos, impossíveis de reciclar, passam a
lixo, aliás, estão habituados, sempre o foram.

Os outros, estejam atentos, porque não tarda a transformação vai começar, e ninguém se vai aperceber.

Começa, por um alheamento, como se a vida fosse fácil e tudo tivesse uma explicação lógica.
Depois é facilidade, tudo existe e tudo parece estar à nossa disposição, basta pensar e acontece.

Vai ser lenta a mudança, mesmo muito lenta, quase imperceptível, não pode haver choques tudo, deve ser, muito natural.
Não vale a pena olhar, para o lado, na procura do que está  a ficar diferente, não vão notar, ainda não tem essa capacidade.

Mas não desesperem, porque um dia, quando se olharem ao espelho e a imagem que se reflectir vos for totalmente desconhecida, ai sim estão salvos, acabaram de entrar na nova dimensão, estão no futuro.

Serei eu, quando chegarem, o vosso anfitrião, vou ser eu a dizer:

-Sejam Bem-Vindos!