terça-feira, 15 de Julho de 2014

Pergaminhos







Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.

Olhos fundos e encovados têm um brilho de memórias, encerradas, num cérebro gasto pelos anos decorridos.

Na cadeira do lar, olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri, com um sorriso desdentado.

Olha em volta e fita um longínquo horizonte, de lembranças, que o tempo vai apagando. As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.

Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado, distante, que guarda e que vive.

Esquece o momento, baralha as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado, de recordações, que baralha ao sabor das suas fantasias.

Sente-se como, quando a mãe lhe arranjava as tranças, e o pai, pela mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.

Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.

Lembra o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.

Lembra os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.

Tem, no pensamento, as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.

Foi uma princesa, quiçá uma rainha.

Teve brilho nos olhos e na pele, rosada, a maciez do pêssego.

Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.

Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente, dia a dia.

Na boca, desdentada, o sorriso velho, e apagado, vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada. 

Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.


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quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Mulheres!











Juro que não aguentei mais, alcei a mão e espetei-lhe um bofetão, nas ventas, que o deixei a ouvir o pipilar de milhentos passarinhos.

Sabem que eu tentei aguentar, fiz mesmo esforço e, quantas vezes mudei o caminho, para não me cruzar com o bandalho.

Mas hoje o tipo passou, com andar gingão, quase provocador, foi a gota. 

Ainda tentou levantar-se e tirar desforço mas, o bico da  bota, deixou-o a sonhar por muito tempo.

Já fomos amigos, mais propriamente, quase família, porque amizade é algo de diferente.

Ele é, ou era, casado com a minha irmã Matilde, que devido aos maus tratos e não querendo denunciar o canalha, pegou na filha e desapareceu sem dizer nada, nem ao próprio irmão. Teve receio, não sabia que ia estar, aqui, do seu lado, que a iria proteger com a própria vida.

Agora ela, e a minha sobrinha, está sabe Deus onde! Tudo, por causa de brutamontes que a enganou, com falinhas mansas, até casar.

Depois começaram os maus tratos, agressões físicas e psicológicas. Os vizinhos bem me alertaram, mas ela negava sempre, o medo tolhia-lhe a fala.

Comecei a guerra, não ia dar paz aquele sujeito, chegou a hora de evitar cruzar-se no meu caminho, porque eu, juro, que dou fim à sua vida.


Hoje, de manhã muito cedo, dois polícias bateram à minha porta, mostraram-me um papel, que não cheguei a ler, e com voz simpática pediram para os acompanhar à esquadra.

Mas, perguntei:

-Acusado do quê?

O mais alto dos polícias, respondeu:

-Está aqui no mandato, mas é acusado de agressão a um indivíduo do sexo masculino. Está no hospital, com o nariz e duas costelas fracturadas. Será que não se lembra?

Já sabia, aquele bastardo ficou marcado. Ainda bem, não se iria esquecer nunca mais!

Passei a noite na esquadra, na manhã seguinte mandaram-me em paz, não foi muito grave, a vítima, como eles diziam, não apresentou queixa, só tinha que pagar, possivelmente,  a conta do hospital.

Sou um pouco impulsivo, nada de violento, apenas me deixo levar pelas emoções. 

Não estou arrependido, ele merecia, só que talvez, tenha abusado um pouco da minha força.

Ando na dúvida, não sei se devo ir ao hospital, afinal é o pai da minha sobrinha, ou esperar que o tempo passe e confiar que tenha aprendido, duma vez por todas, a lição.

No fundo, eu, até sou um coração mole. Capaz de partir a louça toda e no momento seguinte estar, totalmente, arrependido.

Vou, mesmo, ao hospital saber como está o gajo, no fim acabo por ser eu a pagar a estadia!

A menina da recepção, pelo nome, informou-me que já tinha saído, o médico deu-lhe alta.

Parece que não foi assim tão grave, só ficou uma noite e um dia.
Penso que, no fundo, até fui meigo devia ter-lhe amachucado o canastro mais um pouco.

Vou lá a casa, vou ver se o traste precisa de alguma coisa.

Quando toquei, à campainha, estranhei o resfolgar de uns passos de criança a correr no corredor, ouvi igualmente, a voz da Matilde a gritar:

-Espera Ritinha, não abras sem a mãe ver quem é!

Espreitou e abriu a porta, com maus modos, foi dizendo:

-Que queres desgraçado? Vens acabar a tua obra? Desaparece que eu trato do meu marido!

Fiquei sem saber o que fazer, não queria acreditar, só lhe consegui dizer:

-Posso dar um beijo na minha sobrinha?

Sem, sequer, me olhar respondeu:

-Dá e desaparece!

Mulheres!

Nunca as vou compreender!







domingo, 22 de Junho de 2014

Destino


 

(Este Blogue nasceu no dia 24 de Junho de 2007, faz 7 anos. Agradeço, a todos, os que me têm acompanhado)



Quando saiu do carro ficou estático, como se o tempo tivesse parado. A casa era uma imagem pálida da que mantinha no pensamento. As paredes tinham perdido a cor e, enormes feridas, deixavam à vista as marcas dos tempos. As janelas, onde os vidros partidos mostravam as madeiras carcomidas, mais pareciam assombrações.
Na cobertura as telhas arrancadas davam um ar de abandono.


Absorveu cada recanto, reteve dentro de si cada momento como se fosse possível voltar, no tempo, ao momento em que naquela casa viu a luz o dia.

Hoje, passados tantos anos, quis regressar às recordações, aos tempos em que as ilusões ainda faziam parte do dia-a-dia.

***

Foi numa tarde de um inverno, frio e chuvoso, que abriu os olhos para a vida, não nasceu em berço dourado, foi difícil a infância, luta constante para passar despercebido para a trovoada não lhe cair em cima. Brincava, com brinquedos imaginados, no silêncio, quase invisível.


Aos seis anos foi para a escola, tantos meninos alegres e bem-dispostos que os pais deixavam à porta com um beijinho, ele foi sempre só, sem beijinho, escondido na timidez do medo que sempre o acompanhava.

Mas, de repente, começou a ser importante, era mais brilhante que todos os outros. As letras, e os números, passaram a ser os seus melhores amigos. A professora, Dona Natália, com um afago na cabeça, dizia-lhe:


-José assim vais longe, não te percas filho!

Foram dois anos de emoções, pela primeira vez notavam a sua existência e uns laivos de alegria alimentaram-lhe a alma.

Mas era demasiada felicidade e ele não nasceu predestinado para ser feliz, não sabia mas estava escrito no livro do destino, talvez no Armagedão.


******

Foi numa tarde, de Setembro, que os pais o mandaram arranjar a tralha, amanhã, bem cedo, uma camioneta ia fazer a mudança, iam morar para a capital.

Ainda olhou, para trás, e viu a casa onde nasceu perder-se à distancia e, jurou, nesse momento, que ia crescer e voltar para o lugar onde não foi, totalmente feliz, mas onde alguém lhe deu atenção. 

-Obrigado professora Natália!



Foi difícil, a escola não era a mesma, os rapazes não aceitaram bem, um pobre, provinciano e o professor não sabia sorrir. O aluno perdeu o brilho, os castigos substituíram a falta dos carinhos, a revolta surda, e silenciosa, instalou-se e a escola passou a ser a rua onde se deixava perder, na imensidão dos sonhos que morreram à nascença.

Aos quinze anos fugiu de casa e, tem a certeza, que ninguém deu pela falta, foi uma espécie de alívio.


Correu a vida pelos piores caminhos, conheceu a fome e a solidão, experimentou os vícios que o levaram a mundos irreais, às ressacas dolorosas, aos amores irreais feitos apenas do gosto da partilha, da necessidade da procura, do medo de estar só.

Um dia conheceu alguém que o fez renascer, não lhe perguntou quem era, donde vinha, nem o que queria, Apenas lhe deu o que ele, há tanto tempo, procurava, Atenção!

Foram dois anos mágicos, intensos de afectos, um andar de mãos dadas, olhos nos olhos, corações em uníssono, como se fosse apenas um a bater em dois peitos. Era um adivinhar de pensamentos, um querer que alimentava, quase mágico. 

Esqueceu todas as agruras. Os vícios, eram apenas um ponto negro que o tempo ia apagando, como se nunca tivesse sido existido.


Os dias deixaram de ser rotineiros, eram intensos e preenchidos, as horas eram demasiado rápidas, o tempo escoava-se, como se não existisse.

****


Foi num dia de Maio, o sol entrava pela janela e punha mais brilho no rosto magro de Ofélia, só agora notava como tinha emagrecido nestes últimos tempos, os olhos brilhavam, febris, no reflexo, azul, de felicidade que lhe iluminava a alma, uma certa angústia parecia toldar todo o encanto. 


A tristeza passou a fazer parte do dia-a-dia, de Ofélia, dizia que não era nada, mas uma sombra enorme passou a habitar aquele corpo frágil.


Repetia que estava tudo bem mas, era notório, que estava tudo mal. Os olhos perderam o brilho, o sorriso murchou, a tristeza era tão profunda que parecia doer.


Um dia recusou levantar-se, a força, já não aguentavam o frágil corpo, as pernas não sabiam obedecer à vontade.


Quando a levaram para o hospital já era tarde, o tumor já se tinha apoderado do cérebro, já tinha tomado conta do pensamento e da vontade.


José sentou-se ao lado da cama e durante três dias esperou um milagre que nunca chegou.

A vida tirou-lhe o pouco do que, algum dia, lhe deu.

 

****


Hoje estava ali, olhando o que resta de uma casa onde, as feridas, deixavam bem visíveis o abandono de muitos anos.


Não sabia bem ao que vinha, talvez estivesse a fugir de uma vida que o pouco que lhe dava e, não tardava, lho retirava da maneira mais cruel.

Pensou voltar a estas origens e por termo a uma existência mas, se lhe deram vida devia vive-la e lutar contra a adversidade, tinha que honrar todos os dias um anjo, Ofélia, que um dia encontrou no caminho, para lhe atenuar o vazio que conservava da existência.


Recordava aquela mulher, sentia a sua presença a cada momento, as últimas palavras soavam, como uma oração, no seu pensamento:

-José! A melhor maneira de me manteres, na tua memória, é vivendo a vida com a mesma intensidade, destes últimos dois anos, eu vou estar sempre contigo.


Queria, e ia, respeitar a sua memória.

Restaurou a casa, pintou as paredes de um verde muito claro, era a cor de que ela gostava, nos canteiros semeou amores-perfeitos, as flores que ela mais amava.

Mudou a vida, ia escrever um livro, ainda não sabia o título, não tinha escolhido nenhum enredo, não tinha ideia como começar, apenas sabia que um dia o iria escrever.

Durou dois anos, as saudades corroeram-lhe o corpo, o desgosto matou-lhe a alma.

O livro começou-o, apenas uma linha numa página manchada de lágrimas:


"Foi num dia de muito sol que conheci quem iria iluminar a minha 

vida"

Nunca o conseguiu acabar.




sexta-feira, 6 de Junho de 2014

A longa Espera







Faz hoje um ano, parece que o foi ontem, o tempo passa tão depressa que quando tentamos recuperar os pensamentos já se perderam na memória do tempo.
Mas há coisas que ficam, não se perdem, são absorvidas de tal forma que passam a fazer parte do nosso quotidiano.

Como ia dizendo, faz hoje um ano, e recordo bem, era uma sexta-feira soalheira, um pouco quente e eu estava recostado no banco do jardim, um pouco contemplativo sobre as águas do tempo, que em leves ondulares se iam diluindo em espuma nas paredes do cais.

As gaivotas, um pouco atrevidas, descansavam nas amuradas, indiferentes às correrias da garotada.

Foi quase por acaso mas, reparei nela, talvez pela forma, um pouco excêntrica, como estava vestida. Na cabeça um enorme chapéu, de palha, amarelo, contrastava com duas enormes flores vermelhas.
Vestia uma espécie de túnica, da cor das flores, e nos olhos uns enormes óculos escuros, com umas armações de florinhas douradas.

Era um pouco surreal, parecia uma personagem tirada da Alice no País das Maravilhas, mas fascinou-me a figura e, embora disfarçando atraia-me o olhar. Tentei encobrir, mas ela reparou, e olhando com um sorriso aberto cumprimentou-me:

-Boa tarde cavalheiro! Já me conhece? Deve conhecer pois eu estou aqui todos os dias, só nos dias de chuva me recolho, ali, na paragem do autocarro, tem que ser!

Fiquei  intrigado, isto tem que encerrar, decerto, uma história que a minha curiosidade queria conhecer.

Retribui o sorriso e fiquei sem saber, bem, o que dizer mas arrisquei:

-Não me recordo de já a ter visto, é raro vir para estes lados, pois se viesse, decerto, já tinha reparado numa senhora tão simpática!

-Oh que gentil! Venho sempre, faltei uns dias porque a saúde me deixou, mas estou de volta! Só espero que ele não tenha chegado nos dias em que faltei, mas tenho a certeza que não, ainda se deve recordar da morada.

Tirou os óculos, por um momento, devia ter sido uma mulher muito interessante mas, agora, um emaranhado de rugas e vincos mostravam os estragos que os anos fizeram. Voltou a colocá-los e fitou o horizonte, na procura de algo que apenas ela sabia.

-Mas, arrisquei, quem espera tão devotadamente?

-Desculpe não lhe tinha dito, espero o meu Ernesto! É o meu marido, deve chegar um dia destes e eu tenho que estar aqui, para o levar para casa!

-Desculpe a minha ignorância, repliquei, mas ele quando vier deve avisar, não é?

-Tenho receio que não, ele saiu muito zangado, e com razão, eu era uma parva com os ciúmes, ele é muito bonito e as mulheres não o largam. Nesse dia discutimos e ele saiu de casa, para embarcar, era comissário num barco, e nunca mais voltou.

-Há quantos dias,  perguntei?

-Dias não sei, não os contei, mas fez 12 anos em Maio.

Fiquei um pouco perturbado. Doze anos? É estranho é muito tempo!

-Mas Dona, ia eu dizer.

-Rosete, sou Rosete, completou.

-Mas dona Rosete o que lhe disseram na companhia, a que pertence o barco?

-Foram simpáticos, muito simpáticos mas devem ter pensado que eu era maluquinha. Na marinha não tinham, nem nunca tiveram um comissário com o nome do meu marido.
Eu sei que não quiseram dizer, deve ter ido nalguma missão secreta, uma espécie de espião, é o que é!

-Oiça lá, perguntei, como era mesmo o nome do seu marido? Eu fui da marinha, estou reformado mas lembro nome de muitos colegas.

-Todos o conheciam, era o comissário Ernesto Vieira da Silva Pilrito.

-Pilrito? Conheci um, mas não é e, acho que, nunca foi da marinha!

-Que pena, disse ela, quando o vi a si até pensei que poderia ser o meu Ernesto, os mesmos olhos, o queixo voluntarioso, o nariz aquilino, tantas semelhanças mas, já vi que não é, o Ernesto tem um cabelo preto, bem cheio e o seu é branco e já um pouco calvo.

Que pena!


Mas gostei de o conhecer é simpático como o meu Ernesto.

                ********

Pobre senhora, pensei, à espera do nada, tal como eu que voltei, da guerra, e não sei quem sou.

Amnésia, dizem, eles!

Se calhar até me chamo Ernesto. 
Mas não! 
Não me lembro da senhora!





terça-feira, 27 de Maio de 2014

Devaneios
































Era apenas uma pequena nesga, quase despercebida entre duas enormes dunas, que pareciam borbulhar com a brisa que lhes agitava a areia mas talvez, mais, a minha imaginação do que a minha vista parecia enxergar um vasto oceano. Muito calmo, de um azul que cintilava pintalgado de reflexos de um sol intenso.

Não tinha a certeza, mas os meus sentidos pintavam, no meu pensamento, essa brecha de desejo e vontade. 

Perguntei aos outros, não tinham a certeza, eu estava com miragens, talvez houvesse qualquer coisa mas mar era impossível.
 Os oito camelos, aliás dromedários, faziam trejeitos com a boca mastigando uma baba, peganhenta,  com a cabeça muito levantada como, tal como eu, estivessem a tentar descobrir a tal língua de mar que habitava nos meus olhos. Talvez fosse, como diziam os outros, a minha imaginação a desejar outra imensidão, para além do deserto, mas era fantasia a mais, pois eu sentia o cheiro, o murmúrio e a espuma branca das ondas a desfazerem-se.

A noite é serena e fria, o céu é uma explosão de estrelas, tão brilhantes e intensas que nos deixam num êxtase, numa espécie de boca aberta de admiração.

Agora o resto não existe, o mar que adivinho,  a areia que se perde no horizonte dos nossos olhos, os dromedários que ruminam no escuro e, até, o calor que nos cobre a pele numa viscosidade, desconfortável, deixaram de existir, ficaram insignificantes perante a imensidão de astros que tomaram conta do tempo.

Sinto-me pequeno e só numa redoma, de vidro pintada, de um miríades de pontos que brilham ou cintilam intensamente.
Adormeci no arrebatamento.

Manhã cedo, ainda o Sol não aquecia  e começava o regresso. Ainda espreitei a nesga, que estava ligeiramente modificada e, juro que estava lá, talvez só no meu pensamento, mas estava.

Galgamos quilómetros, o deserto era uma enorme mancha que ia desaparecendo num horizonte longínquo. Paramos, antes do Parque, numa espécie de restaurante onde nada abundava, nem uma simples cerveja, ficamos por umas coca-cola e uns Kefts, espécie de almondegas muito aromatizadas, enquanto os ''rabos'' descansavam das sequelas dos balanços.

Muito agradável o acolhimento e a simpatia, pagamos o preço sensacional de 53 dirhans (cerca de 5,30 Euros).

O Parque de campismo era pior de tudo o que podíamos imaginar, o espaço era agradável, mesmo com as ovelhas a passear no meio dos campistas, mas a higiene dos sanitários fazia fugir qualquer um. Indescritível!


A nossa salvação foi a auto-caravana, que tinha todas as condições.

Partimos cedo, a semi-aventura estava a chegar ao fim.


Quando entramos no barco, um pouco de nós, continuava naquela terra, na mistura de berbere, francês, espanhol, de gestos e de uma simpatia imensa.

Um dia volto.

Prometo!



(Escrito em 13 de Maio - Khouribga - Marrocos)



segunda-feira, 19 de Maio de 2014

Pinceladas







O cão estava desinquieto, cabeça no ar e, de vez em quando, acoitava-se espreitando por baixo das caravanas enxergando algo que só, mesmo, ele lobrigava.

Umas vezes, eram os gatos vadios que  se colavam aos muros, outras  as rolas que, entre uns “curucucus”, vão debicando os pequenos nadas de que se apercebem, ou os melros que em voos, desafiantes, passam num risco de asa e desaparecem por entre a folhagem de alguns pinheiros.

O calor é muito, as pessoas refugiam-se nas manchas das sombras das árvores percorrendo as paginas que, timidamente, a Internet deixa chegar, outros fecham os olhos e deixam embalar os pensamentos, numa espécie de modorra, que os possuem numa pachorrenta suavidade.

Muito raramente uma brisa, quente como o Sol, tenta amenizar o efeito mas é tão ténue e ligeira que, quando nos apercebemos, já passou sem mitigar um pouco a escalmorreira que nos abafa.

Estou debaixo de uma espécie de laranjeira brava, assim me parece, que me conforta com a sombra aconchegante, embora o meu desconforto e desassossegado, na cadeira, esteja a quebrar a quietude que encontrei.

Peguei no IPad e tentei tornar real a surrealidade deste quadro mas a inspiração, tal como o dia, deixa embotar as ideias e, uma espécie de letargia convida mais a uma sesta que a devaneios sobre o tempo, as aves, as sombras e até sobre o impaciente cão que sonha em voar para partir, com as rolas, ou compartilhar os ziguezagues dos melros negros onde umas pinceladas de amarelo, nas patas, quebram a monotonia desse luto eterno.

Finalmente o Sol encontrou o horizonte e deixou-se banhar nas águas distantes de um oceano de areia.

O calor, agora, foi enxotado por um vento que vai arrefecendo os corpos.

Ao longe descortino um Saará, a quem o sol vai dando os últimos retoques de um estranho dourado.

É o deserto que se vai escondendo nas sombras da noite.


(Escrito em 8 de Maio 2014 em Mirleft-Marrocos)




segunda-feira, 28 de Abril de 2014

Uma Valsa











Perdi, um pouco, a noção das horas. Ouvi as badaladas do relógio, da Igreja, mas os pensamentos desviaram-me a atenção e perdi-lhe o conto.
Olhando a tonalidade da luz, que entrava pela janela, pensei, que deviam ser 11 horas, ou talvez mais, acordei tão tarde que perdi a noção do tempo.
Nem sempre foi assim, antes, era como o galo da manhã, ainda o Sol estava escondido no horizonte e já, eu, andava dum lado para o outro, mexendo aqui, remexendo além, numa falsa actividade, como dizia o meu pai.
Agora tudo mudou, não por querer, mas a vida pregou-me uma partida, digo que foi a vida mas a minha imprudência foi a principal culpada.

Como todos os dias, quando saía da faculdade, vinha naquele ziguezagueia por entre os carros, aproveitava todo os espaços e ia escapando habilidosamente à confusão, sempre me saia bem, chegava cedo a casa, e ficava com tempo para preparar os trabalhos, encontrar-me com os amigos, no café do Chico Inácio, para uma alegre cavaqueira.

Um dia, estava escrito, dizia a minha mãe, as coisas não correram da mesma maneira, a chuva foi pouca e as ruas eram autênticas ratoeiras, eu que o diga, a curva foi além do que imaginava e as rodas da mota descontrolaram, fui jogado violentamente contra o passeio, o capacete que devia estar no sítio certo, ia enfiado num braço, e foi a cabeça que embateu, com violência, na esquina do passeio.

Para mim, acabou tudo naquele momento, acordei passados três dias numa cama, que não era a minha e num quarto que não conhecia. Numa total confusão de tubos e tubinhos que me mantinham agarrado às máquinas, onde luzes mostravam gráficos que eu não entendia.

Do meu lado uma voz trouxe-me à realidade:

-Então Fernando, vamos acordar?

Era um médico ou enfermeiro, pela bata, mas tinha um sorriso lindo!

-Há quanto tempo estou aqui? Perguntei.

Olhou aqueles gráficos, com um ar de conhecimento, antes de me responder:

-O importante é que estamos, aqui, a falar e ontem ainda não tinha a certeza de que isso seria possível. Agora vai ter visitas da família, só uma de cada vez, elas vão contar-lhe como tudo aconteceu.
*********

Foi difícil, parece que tive um acidente, não muito aparatoso mas grave, bati com o pescoço e a cabeça na esquina do passeio.
Não me lembro de nada, total escuridão no meu pensamento.

Estive três dias em coma, acordei sem a noção de nada, sem recordações e, o pior, sem sentir o meu corpo.

***

Estou há oito meses no hospital, vou sair hoje melhor do quando entrei, diz o meu irmão, entrei inconsciente, de maca, vou sair consciente, numa cadeira de rodas.
Não é bom, mas ele tem razão, entrei muito pior.
Vou ter uma grande luta pela frente!

****

Agora ouvi bem, é meio-dia, foram 12 sonoras badaladas do velho relógio da Igreja. Esta minha impaciência é porque às 4 horas, da tarde, chega a Susana, a minha fisiatra, a mulher das mãos mágicas.

A Susana é da equipa de fisioterapia do hospital, é linda e de uma paciência que a torna especial, durante oito longos meses, todos os dias, as suas mão fizeram milagres, com os dedos, longos e delicados, procurava e estimulava os meus nervos e músculos, movia de forma suave e cautelosa as articulações, que teimavam em estar rijas e insensíveis.

Quando saí, do hospital, os meus braços já tinham recuperado toda a mobilidade, as pernas é que não respondiam aos apelos do cérebro.

Fiquei de voltar, semanalmente, para continuar a recuperação mas, os meus pais, queriam mais e contrataram a Susana, para diariamente, tratarem da minha recuperação e em boa hora o fizeram.

A minha sensibilidade é diferente, já reajo a alguns estímulos e, bem amparado, já consigo ficar de pé, por curtos momentos, mas é uma enorme vitória, da Susana e também, da minha vontade.

Diz, ela, que para o ano posso voltar à faculdade e, está esperançada, que dentro de três anos possa deixar a cadeira de rodas.

Eu acredito intensamente, quero acreditar!

***

Ouvi bem, é meio-dia, faltam 4 horas e estou impaciente.

A Susana, é de uma beleza muito especial, não tem nada que se realce, é uma comunhão perfeita. Os olhos são doces e com uma suavidade que nos prendem e não pudemos deixar de os fixar, a boca, pequena, tem um recorte que a torna especial e os cabelos fulvos caiem, sobre os ombros, em suaves canudos.

Não sei o que outras pessoas pensam mas, para mim, é a mulher mais bonita que alguma vez conheci.
Além do mais, é terna, suave no falar, paciente e com uma doçura que a tornam especial. Já sei que vão pensar que sou, uma espécie, de aluno apaixonado, pela professora, mas juro que não,  ela é mesmo especial.
Mas tenho que guardar todos estes pensamentos, a cadeira de rodas prende-me e  não deixa libertar tudo o que o meu coração sente.

Chegou, ainda não eram 4 horas, tirou o casaco e vestiu uma bata, como sempre o fazia, com um sorriso lindo incitou-me:

-Vais tentar, sozinho, levantar da cadeira, não tenhas receio estou aqui para te amparar.

Foi difícil, mas consegui!

Ajudou-me a estender na mesa, que servia de marquesa, e com um belo sorriso exclamou:

-Boa! És formidável! Que perseverança e coragem, tenho a certeza que, em três anos, vais recuperar totalmente!

Devo ter perdido a cabeça, mas foi mas forte que a minha vontade e, o pensamento, saiu-me boca fora:

-Só espero que, nessa altura, estejas descomprometida, para eu me poder candidatar a conquistar o teu coração!

Depois corei e senti, mesmo, umas lágrimas rebeldes a escorrerem no meu rosto. Só consegui proferir:

-Desculpa Susana, sou mesmo parvo!

Continuou, em movimentos suaves, a fazer o meu pé articular. Parecia não me ter ouvido, o que me deu algum sossego, mas ouviu e bem, estava apenas a coordenar as ideias.

Levantou os olhos e com a mesma doçura de sempre apenas me disse:

-Sabes uma coisa Fernando, enquanto pensares assim não te recuperas. És um homem maravilhoso, qualquer mulher, incluindo-me a mim, ficaria orgulhosa em te ter como companheiro! O meu coração já o conquistastes, há muito!

Ouvi sinos dentro da minha cabeça, as pernas pareciam ter força para pularem de alegria, não arrisquei, mas os meus olhos agora deixaram cair todas as lágrimas, de alegria, que há muito tinham desaparecido.

*******

Vamos casar! Estão todos convidados, apareçam no domingo, pelas 13 horas, na pequena Igreja da nossa paróquia, venham assistir ao meu casamento e da Susana.

Vai ser uma cerimónia linda, vamos entrar ao som da valsa nupcial, de Mendelssohn, foi a Susana que escolheu.
Vou na minha cadeira de rodas, a minha noiva vai a empurrar mas, um dia, vou voltar pelo meu pé, bem agarrado ao braço da minha mulher.

Prometo!
Vá lá! Não faltem, espero por vós!

Quero compartilhar, com todos, a nossa felicidade!