quinta-feira, 26 de março de 2015

A máquina











Eu sei que ninguém me conhece, sou assim muito tímido e passo tão despercebido, que por vezes nem eu dou por mim próprio.

Acho que é uma questão hereditária, difícil de explicar, até poderá ser considerada como uma doença rara, mas não é. Aqueles, como eu, parecem muito infelizes, uma espécie de inexistentes. Mas não, porque são o futuro.

Diz a minha mãe, que o meu pai, era tal e qual o mesmo, talvez ainda mais subtil do que eu, viveu com ele e não se lembra de alguma vez o ter visto.
O problema não é nosso, tenho a certeza que o mal está em todos os outros, que não aguentam o nosso magnetismo e ficam possuídos de uma prosopagnosia total, não têm culpa mas não aguentam o nosso poder.
Poder? Disse poder, mas não é bem poder é muito mais do que isso, algo que vem de um futuro controlado por uma máquina, que já está instalada, e ninguém sabe que existe.
Ninguém não é, totalmente, verdade porque nós, os predestinados, sabemos. Temos que saber porque foi a nossa mente, superdotada, que a construiu.

Poucos de nós se lembram como tudo aconteceu, só alguns, os legítimos os originais, porque os outros  já são híbridos, que a máquina clonou, e daqui em diante muitos mais, vão engrossar a nossa legião de colonizadores.

****
As coisas aconteceram porque tinham que acontecer, ou era assim ou seria o fim, o Armagedão, não propriamente como o que  bíblia nos apregoa, não é nenhuma luta entre o bem e o mal. É mais uma necessidade de assegurar a continuação porque o futuro já não é ali, está comprometido, a natureza criou e, os homens, destruíram.

Foi preciso materializar a máquina.

*****

A máquina é apenas um nome pois máquina, propriamente, não existe é algo difícil de explicar, talvez não seja difícil. O impossível será perceber.

Como se pode explicar, se nós próprios, os eleitos, temos dificuldade?

Mas, eu, como um, dos coordenadores, da dinastia da Nova Era, posso adiantar que a máquina é formada por bruuuuu, bem por brumuuu, por, mas estou bloqueado, não estou autorizado,  foram-me embotadas as memórias e mesmo que queira não sei explicar.
Fica assim, um dia, todos vão perceber.

Disse todos e não foi por acaso, é um aviso, pois não tarda vão ser todos prosopagnosiados, não sei se o termo é válido ou se acabei de criar um neologismo. Mas é uma das minhas virtudes, a criação.

As coisas vão começar, uma nova era está reservada a todos, quase todos, pois políticos e governantes estão excluídos, ficam na classe dos impuros, dos inaptos, impossíveis de reciclar, passam a
lixo, aliás, estão habituados, sempre o foram.

Os outros, estejam atentos, porque não tarda a transformação vai começar, e ninguém se vai aperceber.

Começa, por um alheamento, como se a vida fosse fácil e tudo tivesse uma explicação lógica.
Depois é facilidade, tudo existe e tudo parece estar à nossa disposição, basta pensar e acontece.

Vai ser lenta a mudança, mesmo muito lenta, quase imperceptível, não pode haver choques tudo, deve ser, muito natural.
Não vale a pena olhar, para o lado, na procura do que está  a ficar diferente, não vão notar, ainda não tem essa capacidade.

Mas não desesperem, porque um dia, quando se olharem ao espelho e a imagem que se reflectir vos for totalmente desconhecida, ai sim estão salvos, acabaram de entrar na nova dimensão, estão no futuro.

Serei eu, quando chegarem, o vosso anfitrião, vou ser eu a dizer:

-Sejam Bem-Vindos!




quinta-feira, 19 de março de 2015

A inimiga alemã








Já sentia um pouco a idade, eram os ossos, os malditos ossos que o atormentavam, o pior eram os joelhos, uma dor aguda e dificuldade em mover as pernas. Depois, conforme se ia mexendo as coisas compunham-se um bocadinho.


O neto dizia:

Vai aquecendo e melhora!

Se calhar tinha razão.

Já pediu ao filho, Afonso, que lhe mandasse vir uns daqueles comprimidos que anunciam na televisão, mas torto com era, dizia que eram charlatanices para apanhar o dinheiro aos papalvos.

O filho era um sovina, isso é que era, ficava-lhe com o dinheiro da pensão, era pouco mas era a sua pensão.

É verdade que não lhe faltava nada, até podia beber uma pinga, ou um café, no Zé da Esquina, que o filho deu ordem, para o que fosse, ele depois ia pagar.

Mas a mezinha, da televisão, dizia que era uma banha da cobra. Mas não é! O Marcelo toma e diz que está melhor, coxeia na mesma mas diz que já não tem dor, só não percebe uma coisa "se não lhe dói porque será que continua a coxear?". Quando o vir já lhe pergunta.

Há uma coisa que o preocupa, antes lembrava-se de tudo, mas mesmo de tudo, até sabia os dias em que os filhos e os netos faziam anos, nunca se esquecia.
Agora já lhe escapam muitas coisas. É verdade que tem 81 anos e, que depois que a sua Emília morreu, ficou muito abalado, mas ele sabia que as coisas eram mesmo assim, a pobrezinha era muito doente e aquela falta de ar não a ajudou nada, mesmo nada.
Um dia, coitada, sentiu-se mal, ainda a levaram para o hospital mas não havia nada a fazer.

Só não percebe, gostava muito da sua Emília, foram 52 anos de casamento mas não sentiu muito a sua morte. Foi mais o pensar que não tardava lhe podia calhar a vez.

Ontem foi dar uma volta, para desentorpecer as pernas, e não é que às tantas se perdeu.

Não sabe como fez aquilo e já estava a ficar preocupado quando ouviu:

-Então Tóino! Que anda a fazer para estas bandas?

Era a Benedita, não quis dar parte fraca, por isso disfarçou:

-Olha rapariga ando a estender as pernas e, agora já estava confuso, não costumo vir para estes lados.

-Ai Tóino, Tóino, que se passa contigo? Não tardava muito estavas no pinhal e ainda te perdias!

-Quem, eu? Achas que me perdia? Conheço estes caminhos como os dedos da minha mão. Estou só cansado, mais nada!

-Vá, anda comigo! Exclamou Benedita, sempre vamos acompanhados.

Voltou a casa, sentou-se no sofá e adormeceu. Foi o filho que o foi chamar:

-Então pai hoje não tem fome? Dorme e nem se lembra de jantar.

-Não, respondeu, não estou a dormir! Estava só a pensar na minha vida!

-Mas que se passa consigo? Insistiu o filho, a Benedita disse-me que andava perdido ao pé do pinhal do Cerco?

-Quem eu? Respondeu, deves estar a mangar comigo, não vou para esses sítios há muito tempo e não vejo a Benedita desde o funeral da tua mãe. Estás sempre na brincadeira! Vamos lá jantar porque tenho fome.


Manhã, não muito cedo, depois do pequeno-almoço, saiu para ir ao café do Zé da esquina, fazer um joguinho de dominó com quem lá estivesse. Fosse quem fosse, ia para ganhar e alguém ia pagar as minis.

A cabeça estava num reboliço, quando deu por ele estava numa estrada que não conhecia, devia ser nova pois nunca a tinha visto antes.
São coisas desses tipos da câmara, chegam mudam as ruas sem dizer nada e de repente uma pessoa pensa que tem que virar à direita, sempre foi assim, e chega e agora já é a esquerda, quando não é em frente.

Mas a estrada não está ali para nada, nem um carro, nem viva alma, foi desperdício de dinheiro fazer uma estrada onde não havia carros. Estes autarcas!

Ia atravessar aquelas arvores para encontrar, de certeza, uma rua conhecida, no outro lado, e não tardava estava na praça e daí já se orientava.

Ai esta cabeça! Quem havia de dizer que se ia desorientar.

Estava tanto calor e as pernas já reclamavam descanso, que ia sentar-se um bocadinho à sombra daquela árvore grande. Parecia uma oliveira, mas não se lembra de nenhum olival neste sítio. Mas está lá e se está é de alguém. De quem será?


Bem vai descansar um pouco, os torrões fazem roer o rabo mas dá para cochilar um bocadinho.

********

Afonso estava a ficar preocupado, oito horas e o pai que era, sempre, o primeiro quando chegava a hora da janta sem aparecer.

Já foi ao café e dizem que o pai não apareceu por lá hoje, nem neste nem em nenhum dos poisos habituais.

Foi à polícia e aos bombeiros, pediu ajuda aos vizinhos mas hoje pouco puderam fazer a noite estava a cair e era difícil a busca, amanhã bem cedo iam dividir-se e fazer uma batida a todos os cantos e espreitar todos os poços.
Não era que pensassem em algum acto do Ti Tónio, mas podia ter havido alguma distracção, era melhor espreitar.

Ainda mal tinha rompido a madrugada e, o pessoal dividido por grupos e orientados pelos bombeiros, mais experientes, começaram a vasculhar todos os cantos.
O pinhal, como o mais provável, foi esquadrilhado de forma minuciosa, não houve moita nem recanto que ficasse por observar.
O Portela levou dois cães, bons farejadores, para ajudar mas os bichos andavam mais interessados nas rolas que esvoaçavam entre os pinheiros.

A noite não tardava e embora os homens se tenham revezado o desalento começava a invadir a moral de todos.
Os piores pensamentos surgiam e, em surdina, já se ouvia a hipótese de o velhote puder estar morto em algum canto, ao fim do dia arrefece e nem todos aguentam uma noite, sem comer e ao relento.

Às 8 horas era noite, nem com lanternas se conseguia enxergar no meio dos pinheiros e das urzes, era hora de desistir e recomeçar amanhã de manhã.

******

Na casa do Afonso, também do Ti Tónio, o desalento era total, até os netos sempre na brincadeira, estavam num sossego que doía.

Jantaram mas parecia, mais, um velório pois só o barulho dos talheres quebrava o silêncio que enchia a casa.

Afonso recriminava-se, já devia ter notado que o pai não estava o mesmo, aqueles esquecimentos, aquela falta de orientação era indício de algo de não estar muito bem.

Começava a ter receio e só pedia a Deus que o encontrassem. Se possível bem.

Já passava da uma da madrugada quando duas pancadas fortes, na porta, tiraram Afonso dos seus pensamentos.
Ficou muito assustado, pensou o pior mas correu para ver quem batia.

Abriu a porta e, na sua frente, o pai sujo de terra e com ar muito cansado.

-Oh pai que susto pregou a toda a gente! Meu Deus obrigado.
Entra e vai descansar que eu trato de ti.
Mas por onde andastes perdido?

Olhou o filho sem perceber bem toda a aflição.

-A culpa é desses da Camara, que mudam as ruas, vê lá tu que até puseram um olival no caminho do café do Zé da Esquina. Entrei nele e se não fosse a tua mãe não conseguia dar com o caminho.
Foi ela que me encontrou e me trouxe para casa.
Não sei o que seria sem ela!





segunda-feira, 9 de março de 2015

As musas










Não me apetece escrever.

Tento, começo mas as ideias embotam e apenas resta um vazio.

Por vezes há uma que começa a brotar no meu cérebro, parece ir bem mas é ilusão, não tarda a ideia é apenas isso, uma ideia, que morre antes de germinar.

Foi ontem, talvez não fosse ontem, se calhar foi há mais dias, que comecei a imaginar a paixão, de uma pobre plebeia, por um príncipe loiro de fino bigodinho, que corria a galope num belo cavalo de crinas ao vento.
Mas foi um fogacho, o príncipe, afinal era um velho gordo, com um hálito capaz de exterminar um enxame de moscas.

A ideia, como podem ver, era boa mas os personagens resolveram aliar-se e tornar inglória a minha, já, pobre imaginação.

Penso, será cansaço? Mas ainda há muito pouco tempo as coisas fluíam como a água brota numa nascente, forte, fresca e cristalina.

De repente secou, a mente entrou numa espécie de greve intelectual, nada de tramas, comédias ou divagações sobre amores, mais ou menos possíveis.

Um deserto, não vale a pena tentar, basta um arremedo e os ouvidos entram num zunido, uns tinnitus, o cérebro se encolhe, os pensamentos se retraem e, a imaginação, fica tão obtusa como a do governante que está à frente deste país.

Já pensei que, possivelmente, é por imaginar, normalmente, moças de seios fartos, lábios carnudos e olhos com reflexos de magia, mas não, não era isso, são mesmo os fusíveis que fundiram.

Tentei imaginar uma cena com senhoras já matronas, com sonhos já apagados nas memórias dos tempos, maridos sentados no sofá na espera do descanso que não tarda.

Fui ardiloso, pensei que fui, mas puro engano, a escuridão manteve-se nem uma luzinha brilhou.

Por vezes olho o céu na esperança de um estrela despertar a minha inspiração, mas apenas um firmamento negro, pois as estrelas, tal como eu, também andam escondidas.

Foi ontem? Se calhar já foi há mais dias, mas pouco interessa para o caso. Fui espreitar a janela para tentar perceber se o frio já tinha desistido e vi uma loira.
Que espectáculo, cabelos abundantes espalhados pelas costas, em suaves caracóis, uma calça de licra, bem justa, delineava na perfeição uma bunda capaz de ressuscitar um morto.
Fiquei especado à espera de admirar o resto, imaginava já o farto busto e a doçura de um rosto angelical. Era agora, estava a voltar-se mas antes o não tivesse feito, pelo menos tinha mantido a minha imaginação ocupada. Mas não! Voltou-se, mesmo, para matar em definitivo a mina esperança. Era um homem, feio como um bode, barba rala, uma argola no nariz e borbulhas a salpicar aquela obra, já de si, tão imperfeita.

Não vale a pena, vou desistir e esperar o amanhã.

Mas o amanhã pode ser já hoje, por vezes acontece, as coisas dão a volta e a esperança renasce.
Está a acontecer, vem saltitante num doce bailado de sensualidade, as mamas erguidas, como lanças apontando aos céus, os cabelos de azeviche em dança demoníaca de tentação, os olhos rutilantes, iam hipnotizando quem tivesse a bênção de os olhar, os lábios lascivos eram morangos que aguçavam o apetite das bocas sequiosas.
Dizer que era linda era uma banalidade, pois ia para além do terrestre, só podia ser uma obra de um demónio, para tentar quem tivesse a leviandade de a olhar.

Eu estava no caminho, julguei, era o alvo daquela aparição que se aproximava de mim.
As pernas tremiam-me, o coração pulava numa autêntica doidice, a minha boca já sentia o sabor dos morangos, daqueles lábios. Estava tão próxima que fechei os olhos para tomar maior o encanto. Fiz mal!
Passou por mim e não parou.
Olhei desolado, a aparição foi cair nos braços doutra mulher, feia, varonil e desinteressante.
Deram as mãos e desapareceram enlevadas, cúmplices, nos carinhos e felizes nas intensões.

Desisto, não vale a pena, as musas só favorecem os poetas.




terça-feira, 3 de março de 2015

Ti Alfredo






Todos o tratavam por mestre Alfredo, mas nunca me habituei e para mim era, e será sempre, o Ti Alfredo. Forma maIs carinhosa. O mestre era um pouco o continuar duma profissão onde, diziam que era exímio, mas um pouco impessoal para quem fazia da vida uma festa.

Começou, quase com o nascer dos dentes, na oficina do pai e ali ficou até que as mãos o atraiçoaram e deixaram de obedecer. Artrite! Disseram os médicos, talvez seja mas eu acho que não é bem isso, talvez seja inveja dos deuses porque aquelas mãos faziam milagres, segundo diziam.

******

Foi numas férias, de verão, em que nas noites de calor me sentava, com o meu avô, à porta da casa para aproveitar a ligeira aragem que, às vezes, aparecia para amenizar o calor do dia.

As pessoas, que retomavam do trabalho, passavam e deixavam um:

-Boa tarde! Arrastado no compasso das botas que entoavam no empedrado. 

Para um citadino tudo era estranho, todos se conheciam, e cumprimentavam como se fizessem parte da família.

Pois foi num desses serões que o homem apareceu, era conhecido do meu avô, amigo de longa data, talvez, amigos, desde sempre.

Olhou-me com ar interrogador.

-É o meu neto, disse o avô. Está de férias e gosta muita cá da aldeia!

Depois pediu-me para ir  buscar uma cadeira para o mestre Alfredo. Obedeci, com agrado, gostei do homem e estava curioso e, além disso, era mestre.

Olhei e escolhi um local onde o piso estivesse mais nivelado, coloquei a cadeira e disse-lhe:

-Pronto senhor Alfredo aqui está a cadeirinha.

-Qual é a tua graça? Perguntou-me.

Fiquei sem saber o que responder, para mim até achava que não tinha muita graça mas,  o meu avô, percebeu a minha timidez e veio em meu auxílio:

-Não entendestes o mestre Alfredo? Quando perguntou a tua graça queria saber como te chamas!

Muito intimidado respondi:

-Sou Marco! Peço desculpa, senhor Alfredo, mas não sabia que graça era o mesmo que nome.

Reparei melhor no homem, tinha uns olhos muito vivos e um leve tique que o fazia franzir com frequência a testa.
Alto e muito magro, mas o que mais me impressionou foram as mãos, muito deformadas, mal as podia abrir.
No resto parecia boa pessoa e engraçado no falar, e foi com muito espirito que me respondeu:

-Sabes Marco que, graça e nome, não são a mesma coisa mas é como se fossem. Aqui o Ti Alfredo vai explicar. Antes, os senhores importantes, eram tratados de vossa graça, por isso agora quando perguntamos qual é a sua graça estamos a fazer a pessoa importante. É só isso! Percebes?

Abanei a cabeça em sinal de concordância, enquanto fui pensando em voz alta:

-Já percebo porque é que o avô o chama de mestre. Foi professor, não foi?

Agora foi o meu avô a responder:

-Foi professor mas não como tu pensas, foi mestre na profissão que escolheu.

-Ah....respondi, o que é que fazia?

-Nada de especial, respondeu. O teu avô, grande amigo, exagera um pouco. Eu fazia uma espécie de casas, nada importante, mas fazia bem e com muita arte. Trabalhava a madeira, de forma muito especial, fazia em relevo desenhos onde deixava transparecer, um pouco, a personalidade, a profissão ou até os sonhos do futuro morador. Sabes Marco, abusei e o empurrar, constante, do formão acabaram por fazer o resto, os ossos das mãos foram deformando e o resultado é este.

Mostrou o que restava, não era bonito de ver, os dedos estavam como ramos secos e enrugados.

Estava impressionado, mas não sabia que dizer, arrisquei em laia de consolação:

-Pois é pena mas deixou muitas pessoas felizes, com as casas que lhes fez!

Pareceu-me sentir um sorriso, descolorido, mas deve ser confusão minha. Mas ouvi:

-Pois é Marco, não sei se ficaram felizes, ou não, porque nunca ninguém se queixou!

Agora vi bem, o homem olhou e sorriu para o avô.

Depois foi um desenrolar de histórias, sobre coisas e pessoas que eu não conhecia. 


Deu-me o sono, pedi licença e fui-me deitar.

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Ainda tinha oito dias de férias e, começava a ficar ansioso com o aproximar do fim. Era sempre assim, quando o tempo começava a fugir. Havia uma angústia que se apoderava de mim, só desejava que as horas fossem mais longas, que o Sol, apesar de impiedoso, não deixasse chegar a noite.

O serão, feito à porta, a ver quem passava e, a escutar, as histórias do Ti Alfredo, cheias de peripécias, coisas rocambolescas e, penso eu, muita invenção.

Não acreditava em tudo, acho que ele inventava para me manter entusiasmado, mas já tenho doze anos e percebo quando é verdade ou é inventado.

E ele inventava muita coisa. Mas tinha graça, lá isso tinha!

Os dias passaram sem quase dar por isso, um aperto no coração dizia-me que depois de amanhã me iriam meter na camioneta  da carreira com destino a Lisboa.

Era sempre assim, o motorista, ainda parente da família, tomava conta de mim, até à chegada onde alguém me iria esperar.

Foi mesmo na véspera, o meu avo chamou-me de lado, estava um pouco transtornado, nunca o tinha visto assim.
Segurou-me pelos ombros para me dizer:

-Não sabia se te devia dizer ou não, tive muitas dúvidas, uma parte queria mas outra dizia-me que não. Mas acho que és um rapaz, muito forte e muito inteligente, e não te quero enganar, por isso vou-te contar.
O Mestre Alfredo morreu, esta noite, ainda chamaram o médico mas nada havia a fazer, já era muito velho e estava muito doente.

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Foi estranho, não senti nada de especial, se era muito velho e estava doente era natural.

-Obrigado avô por me contar! Respondi. Eu gostava dele mas só o conhecia de agora, devia ser uma boa pessoa, além de ser um mestre. Eu vou pensar sempre nele, como Ti Alfredo, acho que ele gostava.
Só é pena porque agora já ninguém vai fazer as casinhas bonitas, nunca vi nenhuma, mas acho que deviam ser mesmo muito lindas.

Pareceu-me ver um sorriso, muito apagado, no semblante sempre sisudo, do meu avô, antes de me dizer:

-Sabes que ele, agora, vai numa das casinhas bonitas, como dizes? Antes de ficar com o problema, nas mãos, ele ainda fez a casinha para a sua última viagem. Tinha-a guardado debaixo da cama.

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Na altura não percebi bem, mas quando vinha na viagem foi como se uma luz se acendesse na minha cabeça. Senti um arrepio a percorrer-me o corpo e deixei escapar:

-Poça o homem fazia caixões! Sou mesmo parvo!


Tive sorte, estavam todos a dormir, ninguém ouviu o meu desabafo.




terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

O pistoleiro








Passava todos os dias e, sensivelmente, à mesma hora.
Não falava a ninguém, seguia apenas o caminho como se fosse o único.
Era um pouco bizarro na forma como vestia, um velho e comprido sobretudo preto, botas de tacão e cano alto e, na cabeça, um barrete de lã escura, enfiado até às orelhas.

Os rapazes pareciam ter medo afastavam-se, sempre, com um comentário:

-Malta....vem ai o pistoleiro!

De facto parecia um pistoleiro, como aqueles que é costume ver nos filmes, misterioso, vestindo roupas pretas. Só o barrete destoava no conjunto.

As mulheres, pelo contrário, paravam e pareciam mostrar alguma admiração, talvez pelo porte altivo, ou pelo olhar enigmático,  e sedutor como as olhava.
Algumas,  mais atrevidas, tinham pensamentos que se tivessem voz, fariam corar os mais safados.

Era assim, sempre, mesmo aos fins-de-semana, austero, passos vigorosos, com os tacões das botas faiscando no empedrado do passeio.

Só abria o sorriso,  num flash de sedução, quando se cruzava com alguma cara mais bonita.

As velhotas, na sabedoria das memórias, diziam que era uma incarnação do mal, alguém que andava no mundo para causar a perdição das mulheres, sim naquelas mulheres  que não se sabiam alhear dos pecados do mal.

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Tia Benedita, mulher perita em rezas e benzeduras, atrevia-se mesmo a dizer:

-Cruzes, credo, mulheres vossemecês não viram ainda que é o próprio demo, é ele em forma de homem que anda por ai para ver se alguma se deixa perder, para deixar a semente para o que há-de vir para a perdição de todos.
Está nas escrituras, que num ano negro, surgirá das trevas, o anjo da perdição, que deixará a semente para aquele que irá nascer para mergulhar, na escuridão e nas trevas, toda a humanidade. Vai ser o fim do mundo!

Depois, de mãos nos quadris, olhou as companheiras atónitas e paralisadas pelo medo e continuou:

-Este aviso é para todas, pois eu tenho visto, com estes que a terra há-de comer, que muitas de vocês, estão desejosas de se por a jeito para se enrolarem e serem a terra para a semente do mal.

-Aí pare! Gritou Alzira, porque segundo dizem, se há alguém habituada a enrolar-se com o primeiro que vê, esse alguém é a tia Benedita, é ou era, porque agora carcaça como está ninguém lhe pega.
Está desejosa e põe o rabinho de fora, como se fosse uma santa e as outras umas vendidas.

Tia Alzira estava possessa, até parecia que os cabelos se tinham eriçado, a placa quase lhe saltava da boca, os olhos faiscavam de ódio.

Voltou as costas, ajeitando o xaile, enquanto numa espécie de reza deixou uma ameaça:

-Esperem pela resposta, são todas o mesmo,  mas vou fazer-lhe uma reza que nem os cães lhe vão olhar para o focinho.

*****

Estava a chuviscar, o piso estava escorregadio, as botas do nosso personagem tinham que ser controladas, o que ia fazendo com alguma habilidade.
Era cuidadoso, assentava primeiro a parte da frente do pé e, só depois, deixava o calcanhar firmar no piso.
Hoje não tinha o habitual gorro, usava um chapéu preto, de lona, com enormes abas levemente dobradas para baixo.

Poucos deram por ele, apenas os que se encontravam na taberna do Amílcar, de frente para a montra.

Podia vir de longe, a cidade era grande, só que este bairro era pequeno e tudo o que fosse fora da rotina se tornava novidade.
Os homens, um pouco mais distraídos, apenas notaram o "pistoleiro" pelas conversas das mulheres e da rapaziada.

Foi o Marteladas, ele não se chamava Marteladas, era uma alcunha que herdou do pai, que já a tinha recebido do avô, que levantou a voz:

-Mas afinal que há com o homem? Não faz mal a ninguém, passa para ir à sua vida, calado e sem ar de desafio, nem sequer se dá por ele. Agora, algumas que parecem não ter alimento, em casa, cismaram que o gajo é bom e vai dai fazem um alarido como se tivessem visto uma alma penada.
Deixem o homem em paz!

O Isidro não estava de acordo, nunca estava, era o rei das zaragatas e apesar das sovas que levava estava, sempre, em contradição só pelo prazer de contrariar.

Mais uma vez teve que meter a colherada:

-Mas o tipo não tem nada que passar por esta rua, tem tantas porque vem logo por aqui? Cá para mim anda a fisgar alguma! Mas eu vou saber e ponho o gajo nos eixos. Ai…ponho…ponho!

-Tem cuidado, disse Marteladas, pode ser que em vez de o pores  nos eixos ele te parta os queixos, até rima, mas a isso já estás habituado.

Risada geral. Isidro não desistiu:

-Podem rir à vontade, sejam cobardolas, eu não fico assim e tenho razões, pois até a minha Zefa, sempre tão acanhada, já suspira quando as amigas falam do tipo. Isto é motivo para cá o Isidro, por o gajo em sentido.

-Bom, tem juízo! Exclamaram alguns dos presentes.

*****

Foram quatro dias em que a chuva não despegou, parecia que tinham aberto as comportas do céu.
Houve algumas desgraças, casas alagadas e, até, uma idosa foi arrastada por uma enxurrada, felizmente alguém lhe deitou a mão.
A taberna do Amílcar, com dois sacos de areia em frente à porta, não vá o diabo tece-las, esteve quase às moscas, como sói dizer-se. Só alguns passantes, pois dos habituais, nem viva alma.

Sábado, o Sol deu um ar da sua graça e a chuva recolheu as torneiras.

Os profissionais do copo começaram, cedo, a acudir à tasca, havia muito de que falar depois de quatro dias.
Era preciso por em dia a conversa e regar a goela, pois em casa tinham que ser comedidos, o raio das mulheres até as garrafas controlam, pensam que quando um homem bebe, mais do que deve, as obrigações ficam adormecidas, Se calhar até é verdade.

A algazarra era grande, numa mesa, quatro jogavam à sueca e foi preciso o Amílcar chamar a atenção, pois o palavreado, mesmo para uma mesa de sueca, já estava para além do permitido.

Os homens do dominó, mais comedidos, iam largando as pintas e fazendo contas com as que saíram e as que continuavam nas mãos dos outros.

De repente, como por encanto, o silêncio tomou conta do espaço. Os palavrões foram abafados pela surpresa da aparição e todos os olhares ficaram presos no Isidro, que meio acanhado se aproximou do balcão e pediu:

-Senhor Amílcar encha ai um copo. Alguém há-de pagar!

Marteladas não se conteve e perguntou:

-Então, Isidro, fostes contra alguma mão, ou foi a patroa que se zangou contigo?
A tua cara está uma lástima!

-Pós está, gritou Isidro, por tua causa. Se não tens vindo com a conversa, do tal pistoleiro, nem sequer me lembrava, mas viestes atiçar a minha honra e eu tive que fazer qualquer coisa, para defender a virilidade dos homens do bairro.

-Então, insistiu Marteladas, e defendestes com o focinho? Pela amostra não me parece grande defesa!

-Não gozes, teimou Isidro, devias agradecer o sacrifico que fiz pela dignidade de todos.
Na quarta-feira chovia, para caramba, mas eu tinha a ideia encornada e esperei o tipo ao fim da rua. Quando apareceu, com aquele ar gingão, cheguei-me ao pé do exemplar e disse-lhe:

-Ouve lá ó palhaço! Está na hora de deixares estes caminhos e ir por outro lado, porque por aqui não és bem vindo.

-Juro que não lhe disse mais nada!

Mas o sacana é bruto, deitou-me as mãos, torceu-me o braço para trás das costas. Caí de focinho no chão. Meteu-me umas algemas e levou-me para a esquadra.
Passei lá a noite, nem me deixaram telefonar à mulher.

No outro dia fui a um juiz que me condenou a pagar 125 euros de multa e a 15 dias de pena suspensa, por desrespeito a um agente da autoridade.
Afinal o pistoleiro não é pistoleiro é um bófia, o gajo é espécie de policia à paisana.

**************

A taberna parou por uns segundos, depois irromperam numa enorme gargalhada.

-Podem rir à vontade, aproveitem enquanto estou em condicional, porque depois não respondo por mim!








quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Um gelado de duas bolas









-Mãe, há muitos pais Natal? Perguntou Clarinha.

A mãe ficou um pouco preocupada, não sabia bem como responder. A menina tinha apenas seis anos e ainda vivia o sonho, lindo, de acreditar no Pai Natal, no trenó e nas renas. Não queria que a filha perdesse, tão nova, toda essa magia.

-Que pergunta, Clarinha, então não sabes que Pai Natal só há um!

-Mas insistiu, a criança, eu já vi tantos e eram, todos, diferentes. Vi um gordo à porta da loja dos brinquedos, depois vi um magrinho na esquina da rua, das casas bonitas, estava a fumar e o Pai Natal não devia fumar. Pois não, mãe?

Maria do Carmo pensou quanta falta lhe fazia o marido, ele saberia explicar bem todos estes porquês, mas algo o chamou e ficou ela e a filha.

Foi difícil, não estava preparada para ser pai e mãe ao mesmo tempo e muito menos para  ter tantas carências que a estavam a atirar para situações que, na verdade, não queria, mas tinha que alimentar a magia do Natal no sonho da filha:

-Sabes, Clarinha, que só há um Pai Natal, é o que vem deixar as prendas ao meninos e meninas que se portam bem, os outros que estão por aí, são a fingir para enfeitar as lojas.

-Mãe, voltou a criança, e eu portei-me bem, não portei?

-Muito bem meu amor, és uma menina muito especial. Respondeu a mãe.


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Foi num domingo, de Maio, estava um Sol que convidava a um momento de laser no bar à beira mar.

Maria do Carmo pediu um gelado, não conseguia resistir a duas bolas, regadas com um licor de chocolate, e foi sentar-se numa mesa ao fundo da esplanada.
Com muito cuidado, parecia uma criança, ia tirando porções muito pequenas, para o fazer durar mais. Era um quadro lindo, a colher deslizava suavemente, tentando segurar uma fina tira de sorvete, com algum licor, que depois com os olhos semicerrados, deixava derreter de forma, quase sensual, na língua.


Na sua frente, Albano, estava fascinado com o gesto, com o encanto sedutor da imagem. Era digno de ser visto, uma mulher linda num êxtase total, absorvida no delicioso sabor de um sorvete que ia deixando, muito lentamente, derreter na boca, de forma, quase, sensual.

Não resistiu, era demasiado, Foi comprar um gelado, aproximou-se e delicadamente sussurrou:

-Há imagens que ficam comigo para sempre, tem magia.
É difícil descrever este momento, queria ficar com ele eternamente!
Posso sentar-me e fazer-lhe companhia neste momento tão especial?

Maria do Carmo corou, não pensava estar a ser alvo de atenção. O moço era giro e parecia simpático. Porque não?

-Esteja à sua vontade, respondeu, a mesa não é minha e esqueci que não estava só, deixei-me levar pelo prazer que um bom gelado, sempre, me provoca.

Albano sorriu, tinha um sorriso saudável, dentes perfeitos nuns lábios desenhados por um artista, os olhos de uma cor indefinida, pareciam cinzentos, e altamente sedutores.

Tentou continuar o diálogo:

-Sabe menina, desculpe, não sei o seu nome!

Ela quis hesitar mas respondeu:

-Maria do Carmo, mas não importa o meu nome, tenho que ir embora!

-Lindo nome! Elogiou Albano. Mas só podia ser assim, para condizer com a dona! Não vá já embora, vamos prolongar este momento, de prazer, até acabarmos os nossos gelados!

Não pode evitar um sorriso antes de responder:

-Também não sei o seu nome e não me importa! Mas não se arme em sedutor barato!

Ele corou e quase gaguejou ao responder:

-Desculpe, tem toda a razão, fui importuno e sem princípios! Sou o Albano e juro que não sou nada do que diz, foi uma atracção natural e sinto que também não lhe fui indiferente.

-Oh! Exclamou ela, também é convencido e pretensioso!

-Não diga isso! Suplicou Albano.

Depois foi um amenizar da conversa, os sorrisos que dizem mais que mil palavras, os gestos simples e a cumplicidade que alicerça os sentimentos.


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E foi assim, desta forma simples, que começou uma história de amor.
Momentos de ternura, caminhar de mãos dadas, promessas feitas no calor da paixão, juras eternas e compromisso de um seguir juntos, até que Deus os separe.


Foi um namoro de seis meses, casaram em Dezembro, não estava previsto, mas naquela manhã, Maria do Carmo deu a novidade:

-Amor estou grávida!

Albano ficou tão feliz que apenas lhe saiu:

-Vamos tratar já do nosso casamento! Vamos construir o nosso lar, para receber o nosso filho quando nascer.


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Foi em Julho que Clarinha abriu os olhos ao mundo.
Disseram, logo, que tinha os olhos do pai e a boca da mãe.

O casal continuou, no mesmo encanto, o amor foi dividido por três, ninguém notou a diferença, eram felizes.

Estavam, novamente, em Maio. Iam fazer seis anos que se conheceram naquela esplanada à beira mar.
A Primavera,  prometia as tardes quentes, havia no ar um certo lirismo. É natural na estação das flores, o romantismo, convida ao amor.

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Albano estava com um ar nostálgico, Maria do Carmo, apercebeu-se. Não era normal, estava sempre tão alegre.
Tentou, com carinho:

-Que se passa amor? Compartilha, comigo, os teus pensamentos!

Albano pareceu acordar, daquela espécie de letargia, e lembrou à sua amada:

-Sabes que faz amanhã seis anos que nos conhecemos? Recordo com muita saudade aquele momento mágico.

-Não esqueci! Confessou Maria do Carmo.

-Sabes o que vou fazer, disse Albano, vou à gelataria, comprar dois gelados, de duas bolas regadas com chocolate. Temos que comemorar aquele encanto.

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Saiu porta fora, vai fazer amanhã seis meses.
Não mais apareceu, nem em casa, nem no emprego.
A polícia já tentou tudo. Mas mesmo tudo.

E nada!

Nunca mais voltou, não mais deu sinal.

Desapareceu como se tivesse evaporado no espaço.

Mas, Maria do Carmo, continua à espera, o coração diz-lhe que ele, um dia, de repente, vai aparecer com dois gelados, de duas bolas, com creme de chocolate.





sábado, 7 de fevereiro de 2015

O Senhor Silva











Hoje não lhe apetecia ir trabalhar, não lhe acontecia muitas vezes, mas hoje estava com uma preguiça que o ultrapassava.
Deu uma volta na cama, puxou a roupa e voltou a adormecer.

Acordou sarapantado, olhou para o relógio e deu um salto, estava atrasado. Bem não era só atraso era já, quase, uma desgraça.

O que ia dizer ao senhor Silva, o chefe, que era implacável na pontualidade.

Tinha que arranjar uma fatalidade, mas muito convincente, nada de tretas, pois o homem era difícil de enganar.

Muitos dizem que o senhor Silva até não é má pessoa, dizem, mas ele não concorda.

É um militarista com ideias muito rígidas, não sorri e olha as pessoas, sempre, de sobrolho franzido, Dizem que foi coronel e que chegou a andar na guerra.

Dizem, e se calhar até é verdade, mas ninguém pode confirmar.

Mas atrasos e desculpas, de meias-verdades, isso não! 
Horários são para cumprir! É o seu lema.

Estava mais do que atrasado, a cabeça trabalhava rebuscando uma desculpa, mas nada saía de jeito.

Já se Imaginava, submisso a desculpar-se:

-Senhor Silva desculpe este atraso! O senhor sabe que sou dos mais pontuais mas hoje, mesmo que quisesse, não conseguia. Ainda tentei, juro que tentei, mas se não me apresso nem à casa de banho chegava, era mesmo ali. Foi toda a noite por cima e por baixo, uma desgraça. Uma autêntica tragédia!
Foram os malditos ovos, só podiam ser os ovos, não comi mais nada que me pudesse fazer mal.

Ao mesmo tempo via o senhor Silva, sobrancelhas franzidas, bigode repuxado num ar de dúvida e aquele sorriso tão sardónico que irritava.
Imaginava o velho, sim ele era velho, escondia a idade, ninguém sabia quantos anos tinha. Mau como as cobras, sem coração.
Parecia que o estava a ouvir:

-Oh senhor Narciso quer que eu acredite nessa de gastroenterite? Era só o que faltava! São coisas que só lhe acontecem às segundas-feiras. Convém não é senhor embusteiro?
E sabe que mais, pode ir para casa tratar da caganeira porque este dia vai-lhe ser descontado!

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 O velho era tramado, fino e esperto, difícil de enganar. Estava a ver que essa do desarranjo intestinal não ia servir. Tinha que pensar noutra coisa. Talvez um funeral, Mas de quem?


Nada de desculpas, só a verdade, ia enfrentar a fera.
Ia dizer que o despertador não tocou, faltou a luz durante a noite e o relógio ficou a piscar e não o acordou.
Não era verdade, mas podia suceder e ele tem que acreditar e aceitar. São coisas que acontecem e não é um desconfiado, insensível e sem coração de um chefe, que até era família do patrão, que vai por em dúvida a verdade do Narciso.
Já sabia que lhe iam descontar o dia mas que se lixe. Ganhava pouco e um dia descontado fazia alguma diferença. Mas que fazer? Ter emprego já era uma sorte!

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Ia no autocarro fazendo o filme na cabeça. Imaginava o senhor Silva, na secretaria, olhando por cima dos meios-óculos, enquanto com os dedos enrolava as pontas do farto bigode. Farto, russo do fumo do tabaco, pontas enroladas.
E ele, Narciso, perfilado na frente, com ar castrense, ele que nem sequer foi tropa, a ouvir uma reprimenda como se fosse um miúdo.

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É verdade que estava nervoso, garante que estava, mas tinha vontade de, chegar, poder manda-lo para um certo sítio, voltar-lhe as costas e ir embora para voltar para a doce preguiça da cama.


Saiu do autocarro, era quase meio-dia, ia chegar ao escritório, quase na hora de saída para o almoço mas era de propósito, assim o senhor Silva mais apressado não lhe ia xingar tanto o juízo.

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Quando saiu do elevador deu de caras com a Lucinda, logo a Lucindinha, o borracho, que tanto mexia com ele. Tinha um fraco por aquela rapariga mas, ainda não teve coragem para uma aproximação, receava levar uma nega. Assim mantinha a esperança e até, quem sabe, ela pode um dia mostrar algum interesse, e ai, já se pode afoitar.
Fez o mais rasgado sorriso andes de perguntar:

-Como está a fera?

-Quem? Perguntou Lucinda.

-Quem havia se ser! O Silva, esse gajo que gosta de se aproveitar das desgraças alheias. Passei uma noite, que só eu sei, agora tenho que o ouvir e quem sabe ficar sem um dia de ordenado!|

-Ah! Exclamou Lucinda, então ainda não sabes!

-Bom, respondeu, cá o rapaz sabe tudo, tudinho, nada lhe escapa. Mas o que há de novo? Ainda não li o jornal de hoje. Acabei de chegar, agorinha mesmo.

-Então prepara-te para a más notícias, mas mesmo muito más!

Narciso começou a ficar nervoso.
Mas, muito más noticias, só podia ser um despedimento, o velho já lhe deve ter feito a cama e todos já sabem. Até estava com medo de o enfrentar, se era despedido nada tinha a perder, ia-lhe ao focinho e abalava porta fora.

-Mas, continuou Lucinda, não sabes o que se passou?

-Como posso saber se acabei de chegar! Respondeu.

-Calculei! Disse a Lucinda, hoje o Senhor Silva chegou muito cedo, como de costume, e foi para o gabinete.
A dona Amélia estava a acabar a limpeza, nem o viu chegar, só ouviu o barulho da queda. Foi a correr e deu com o pobre estendido no chão a espernear. Chamou o segurança. Telefonaram para o INEM que o levou para o hospital, mas dizem que não escapa. Pobre senhor Silva!

Narciso nem se apercebeu, mas saiu-lhe:

-Más notícias?

-Boas, queres tu dizer!

-Sabes? Começo a acreditar em Deus!