terça-feira, 12 de janeiro de 2016















Novo Ano, ideias antigas

Eu não queria, juro que não, é mesmo contrariando a minha vontade que o vou fazer.


Tinha jurado que nem caneta, lápis, esferográficas ou teclados de computadores ou tabletes sentiriam o prazer de se sentirem abraçadas pelos meus dedos ou por, eles, tecladas.


Não me perguntem porque, não vou responder, de verdade, nem eu próprio sei bem. É talvez um certo desencanto, quem sabe se é cansaço, não físico, mas de pensamentos.


Eu, por vezes, escrevo umas palavras, o resto vem em catadupa, nem penso, sai quase por instinto e brota uma estória, um conto ou um emaranhado de palavras que gosto de botar no Blogue.


Mas, quase sempre, acabo por me arrepender. Devia guardar, deixar num baú de recordações para um dia, mais tarde, recordar.


O que escrevemos é como se o paríssemos, saem de dentro de nós, são as nossas angústias, desejos, pensamentos, fazem parte da nossa vida e dos nossos mais íntimos pensamentos, mas depois ficam, ali, abandonados, inúteis sem deixarem a mensagem que imaginava.

Por isso tinha jurado, jurado não, prometido que nem uma linha, mais, para o Blogue.


Ficam esquecidos, poucos vão ler e acabam por morrer na indiferença. Não gosto, acho que mereciam um pouco mais.

Acho, eu, mas parece que não.


Há muito que tinha prometido, mas não consegui cumprir, não fui forte.


Agora vou ser.

Escrever sim, está no meu sangue, faz parte de mim só deixarei naquele dia, não sei quando, ninguém sabe mas, esse dia,  aparece e tudo acaba.

Até lá, vou continuar a deixar parte dos meus sonhos, da minha imaginação, escrevinhados e guardados num canto de "Coisas minhas", no meu computador.

Mas aqui, no Blogue, acho que não.


Cansei.

Não vale a pena.





domingo, 3 de janeiro de 2016

Refúgio





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Eu tenho um pequeno refugio, fora do ambiente
da cidade.

Pequeno, no meio do nada, escondido entre as arvores, que me sujam o chão, com as folhas que se renovam mas que me perfumam o ar.

À noite, no céu, há estrelas que brilham de uma forma diferente.

Perco-me nessa meditação, deixo os meus olhos, embebedarem-se, na profusão de luz e brilho.

Procuro encontrar as que me pertencem, sim eu tenho as minhas estrelas, as que partiram, daqui, e brilham lá em cima.

Não sei quais, mas elas sabem e tenho a certeza, que são minhas e que sentem que as procuro na imensidão.

Nas tardes, sento-me, num velho banco de jardim, e vou deixando, aqui, os meus pensamentos, enquanto um carreio de formigas vai e vem, não sei donde ou para onde, mas andam numa fila, numa missão secreta, e que não contam a ninguém.

Nas velhas arvores, os pássaros poisam, guerreiam e saem em enorme algazarra, como se o espaço fosse insuficiente para tão grande frenesim.

Quero escrever, mas o idílico que me rodeia, em vez de me inspirar, consegue levar o meu pensamento pelos pequenos nadas, que tanto preenchem um entardecer mágico.

É um besouro, não sei porque mas está virado, como se o mundo  estivesse ao contrário. Esperneia, tenta, mas as pernas curtas não ajudam. Depois pára, fica estático a recuperar.
De repente, quase por milagre, deu a volta e continua, num andar desengonçado, até que desaparece no meio das folhas caídas.


Quando o Sol se põe, no horizonte, os grilos enchem o espaço. Detesto grilos, quebram-me o silêncio, arrepiam-me os ouvidos. Tem todo o dia para aquele, esfrega-esfrega, mas não, ficam quedos e, ao fim do dia, tomam conta dos sons, abafam a quietude, por isso os detesto.

Detesto os grilos e os galos, são cúmplices no ruído. Uns não me deixam adormecer os outros obrigam-me a acordar.


Agora compreendo o aparecimento dos capões, abençoada ideia, penso eu, porque não sou galo.

Mesmo quando chove, como hoje, e me obriga a passar o dia a espreitar a janela e a escutar o tamborilar das gotas nas telhas, não me arrependo, do momento, e desejo a manhã, para acordar com o cheiro mágico da terra molhada.

De manhã, a chuva, é apenas uma leve neblina. Visto uma capa e vou ao forno, comprar o pão acabado de sair.


Sim, ainda existe, forno de lenha e pão estaladiço, que transportamos num saco de pano, como antigamente.


Nas ruas cumprimentam-me, sem saberem, ao certo quem sou, mas conhecem-me e pensam “É o que tem a casa ali, ao fim do caminho”
Mas oiço uns bons dias, simpáticos e verdadeiros.

O pequeno-almoço é diferente, ao ar livre numa enorme mesa de tampo, de mármore, redondo. Começa no pão que recebe a manteiga e a derrete no calor que ainda lhe resta, o queijo que vou comprar naquela senhora que os faz e os vende, se calhar sem autorização das autoridades, mas autorizada por mim e por todos os que ali vão. O café? Bem o café é igual, é café fumegante, igual a todos os outros.

Depois, é o sujar as mãos, mexer na terra, aconchegar as raízes, arrancar as daninhas, regar as árvores e falar com as plantas, falar muito, elas gostam.


Quando acabo, tenho que cortar as unhas, até que o encardido da terra desapareça. Custa um pouco, mas a escova e o sabonete fazem o resto. Podia, é verdade que podia, usar luvas, mas não uso, não sei trabalhar com elas.

É pouco, mas enchi os pulmões de ar puro, cansei saudavelmente o corpo, purifiquei o espirito e senti, quase como, um regresso às origens.



Amanhã recomeça a rotina.







terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Um Milagre de Natal







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-Mãe, disse Alice, não sei o que se passa com o Buinhas, costuma passar horas a dormir no sofá e, hoje, não sai da porta da rua. Abana a cauda como se alguém conhecido estivesse a aparecer, mas não! Espreitei pelo ralo e não vejo ninguém.

-Não ligues, disse a mãe, deixa o cão e vai fazer um pouco de companhia ao pai.
Logo vamos, as duas, enfeitar a árvore de natal.

-Tá bem mãe, eu ajudo e ponho os enfeites na porta. Agora vou brincar um bocadinho com o pai.

****

O pai estava junto à janela, olhando ao longe, agora passava o dia, sempre, assim.
Triste mas quando ele brincava, com a filha, parecia esquecer e voltava a sorrir.

-Pai, disse Alice, posso ficar aqui ao pé de ti?

-Oh amor, nada me dá maior alegria. Senta aqui ao pé do pai.

-Agora estou de férias, da escola, posso estar contigo muitas vezes! É bom não é pai?

 *******

O pai da Alice é, ou era, um dos maiores empreendedores na indústria aeronáutica. Bem-sucedido, criou uma Empresa líder que o tornou referência em, quase, todo o mundo.


Tinha uma família, a mulher Charlot e uma filha, que era a maior enlevo e fortuna do casal.
Linda, terna, inteligente e com muito apego aos pais, os seus verdadeiros heróis.


********

Naquele dia, coisas do destino, ou do diabo. Não sabe bem. Sabe, apenas, que sentiu uma enorme vontade de ir almoçar com a mulher e a filha.


A Charlot, professora de biologia, almoçava às 13 horas. Passava pelo colégio pegava na menina, ia à faculdade e, os três, iam a um almoço especial.
Se bem o pensou melhor o fez, estava um pouco atrasado, mas o Porsche era rápido e em 20 minutos estaria a fazer a surpresa.



****



Foi na curva, o camião vinha a ocupar demasiado as faixas, tentou fugir para a direita mas não teve tempo, o carro galgou a berma, empinou e foi tombar no fundo do declive.
Os airbags dispararam mas, o motor recuou e prendeu as pernas, e comprimiu o tronco, do condutor. Foi desencarcerado, e levado para o hospital. Não ia muito bem.

Pensaram o pior. Foi o fim, tinha uma lesão medular completa, perdeu na totalidade o controle e a sensibilidade da parte inferior do corpo.

Quando voltou para casa, muitos pensavam que não voltaria, mas voltou, sim voltou, mas numa cadeira de rodas.

Não era o mesmo, apenas um vulto na penumbra de um quarto.

-Amor, disse Charlot, há-de existir, nalgum lado do mundo, medicina para te curar a paraplegia! Tenho a certeza que há e nós vamos, onde for preciso.

E foram, correram, procuraram, consultaram e voltaram mais tristes e infelizes de que quando partiram.

Para lá, levavam a esperança, na volta já não a traziam.

Não morreu, mas era como se tivesse, perdeu o sorriso, a vontade e passou a existir como um boneco, velho abandonado, numa cadeira.
Dependia de todos, para tudo.

Os negócios mantinham-se, o cunhado, irmão da Charlot, deixou o país onde nasceu, França, e veio para ajudar na gestão da Empresa, era bom mas faltava o criador.


Reuniam, semanalmente, ali no quarto, frente à janela. Ele escutava, dizia que sim, com a cabeça, mas não tinha ouvido nada. O pensamento estava longe, demasiado longe.

******

O Natal estava à porta, sentia a azáfama e as saudades de ser ele, como sempre a enfeitar, com a Alice, a árvore de natal.
Lembrava a filha pequena, qual boneca bailarina, tentando chegar para deixar uma bola, ou prender uma fita dourada. Ele depois, sem ela notar, ia corrigindo.
No fim as palavras, da filha, ainda hoje faziam eco nos seus pensamentos:

 -O pai é o melhor arranjador de árvores de natais, o melhor do mundo!

Corria para ele, abraçava-o e lambuzava-lhe a cara de beijos.
Momentos únicos de felicidade, agora instantes dolorosos de recordações.


Na cabeça, os pensamentos maus, ideias negras eram derrotadas pelo amor que sentia pela mulher e pela filha, pensava mas desistia, elas eram a luz dos seus olhos.

Agora estava ali, imóvel, nuns momentos de felicidade ouvindo e sentindo todo o amor da Alice, que ia palrando:

-Olha pai, agora nas minhas férias, podíamos ir dar um passeio, a mamã também tem férias nós, ajudamos, para não estares sempre aqui triste. Tu finges mas eu já sou grande e vejo que estas triste.

-Não querida, respondeu com os olhos molhados, não estou triste! Contigo, aqui, não podia estar mais feliz.



*****


A azáfama era grande, os sogros vinham passar o Natal, a Portugal, com eles, gostava mas não se sentia feliz, diminuído e dependente, mas a mulher e a filha mereciam.

*****

-Mãe, disse Alice, o Buinhas continua maluco, não larga a porta, abana a cauda como se estivesse alguém à entrada. Está estranho mãe!

-Não te preocupes, filha, deve andar por ai alguma cadela.

Alice estava curiosa, o cão nunca esteve assim e no jardim não entravam cadelas. Foi uma desculpa da mãe, mas quando ninguém estivesse próximo ia espreitar.



**********



E foi, abriu a porta e, os seus olhos viram, o menino mais bonito que se podia imaginar. Cabelos loiros, em caracóis doirados, emolduravam o mais lindo e suave rosto que podia imaginar. Os olhos de um azul brilhante, eram intensos de doçura.


Vestia uma túnica, feita de fios de luz, que brilhava mais que o Sol.
Não era um mendigo, tão lindo e tão bem vestido não podia ser.
Estaria perdido! Era melhor chamar a mãe.

O menino soube do pensamento, não sabe como, mas soube porque falou, tão doce e reconfortante:

-Alice não precisas chamar a mãe, vai ser um segredo nosso.

-Mas, balbuciou Alice, a mãe não quer que eu fale com estranhos.

O menino abriu um sorriso que pareceu iluminar o espaço, tão lindo e radioso.

-Sabes, Alice, não sou um estranho, tu, todas as noites, quando vais para cama, falas comigo, há muito tempo. Já não somos estranhos.

-Mas, disse a menina, eu à noite só falo com o Jesus e digo a oração que a avó me ensinou.

-Estás a ver que já me conheces! Todas as noites eu aceito essa oração. Agora vais-me dizer que prenda gostavas neste Natal?

Alice estava paralisada, não era medo, era um bem-estar que não conhecia. Mas tão bom.

-Sabes? Eu não pedi prendas, não preciso de prendas, só pedi para que o meu pai possa andar outra vez.

Faz-me tanta falta!

O menino, cada vez mais brilhante, respondeu:

-Vai junto ao teu pai e diz-lhe, tal como te vou ensinar:

 Pai, levanta-te, caminha, tu podes!




Dito isso, tão pronto como apareceu, o menino volatizou-se num novelo de luz que desapareceu como se nunca, ali, tivesse estado.

Alice correu para a quarto, do pai, que continuava absorto olhando pela janela.

Ficou assustado com a entrada, brusca, da filha, voltou a cadeira e ia perguntar algo, não teve tempo porque a filha gritou:

-Pai, levanta-te, caminha, tu podes!



O pai não pensou, foi maior do que ele, apenas obedeceu.

Levantou-se e caminhou, para a filha, e teve força para a levantar nos braços e rodopiar.

-Pai foi a prenda de Natal que o Jesus me deu, era isto mesmo que eu queria.

Foi o que eu pedi!


Uma musica suave e um cheiro ténue enchia o espaço.


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Amira








                           


Hoje não lhe apetece chorar, não vai chorar, já o fez tanta vez que resolveu desistir e ser forte, muito forte.


A vida, e não só, já lhe deu tanta porrada que, agora, não vai aceitar mais, vai reagir, vai ser vigorosa, se necessário exceder-se para compensar a passividade de tantos anos.


Nem sempre foi assim, houve um princípio shakespeariano, um pouco Romeu e Julieta, feito de escapadelas, namoro escondido, promessas de amor eterno.
Os pais, não queriam, mas o amor deles era maior que a vontade dos pais.

Foi num sábado radioso que casaram,  na capelinha de Nossa Senhora da Aparecida, dizem as mulheres, que foi a noiva mais linda que, algum dia, ali casou.

Os mais crentes juram, que até a santinha fez um sorriso para os abençoar, outros dizem que não, não foi um sorriso, foi apenas um raio de sol que iluminou o rosto da imagem.

Fizeram uma lua-de-mel de sonho, sete dias num Resort, na Republica Dominicana, foi a prenda dos padrinhos.

Recebidos como príncipes, com champanhe e frutas no quarto, coisa que nem sabia que podia acontecer. Margarida vivia um sonho, praias lindas, mordomias a que não estava habituada, o homem por quem se apaixonou a seu lado.

 Estava tão feliz que não se conteve:

-João nunca pensei que houvesse coisas assim, ainda não fomos embora e já sinto saudades.

João sorriu, ficou sem saber bem o que dizer:

-É o nosso momento, vamos aproveitá-lo, depois temos a nossa casa e o nosso amor.


****

Faz amanhã um ano que casaram, ainda não têm filhos, João não quer, embora ela deseje tanto.

Devia comprar uma prenda, mas não têm dinheiro, o João não a deixa trabalhar, diz que as mulheres são para estar em casa.
Ele trabalhava, com o pai, na fábrica de rações, dizem que é um bom negócio.

Um dia, depois de uma maior intimidade, ela tentou:

-Mor, eu podia trabalhar contigo na fábrica do pai. Era bom, estávamos mais tempo juntos e eu, sempre ganhava alguma dinheiro para não ter que te andar a pedir, para as minhas coisas mais pessoais.

João, pareceu, não gostar e com alguma agressividade perguntou:

-O que foi que não compreendeu quando te disse que as mulheres tomam conta da casa? Deixa-te estar, tens a internet para ajudar a passar o tempo, e olha que é uma coisa que nem todas têm, aproveita antes que eu me arrependa! Mas olha que eu estou atento e sei o que andas a ver.

Saiu batendo com a porta.

****



Margarida ai chorou, foi a última vez, foi então que jurou que ia mudar a vida. Não era esta que lhe tinham prometido, no namoro, nem a que tinha ambicionado. Queria ser normal, feliz e acreditar.

Tinha uma amiga, no Facebook, que ela ao princípio achava estranha, mas se calhar não era e até, quem sabe, tinha razão.


Dizia que  tínhamos que acabar com este tipo de sociedade, cheia de traidores, que não sabiam seguir o que estava escrito no livro sagrado.


Ia falar com ela, deixar uma mensagem, precisava de apoio.


Tinha um nome esquisito, se calhar inventado, nunca tinha visto alguém chamar-se Silly, mas era boa amiga, queria conhece-la, mas por causa do João era difícil, se ele soubesse ia ser bonito. Nunca usou violência, mas já teve medo.

Nessa tarde desabafou, um pouco, com a nova amiga, disse-lhe que já se arrependeu de ter casado, não lhe faltava nada mas, afinal não tinha nada.

-Sabes, disse a Silly, eu passei pelo mesmo, mas descobri a luz e a verdadeira felicidade, tu também podes descobrir.

-Mas como? Eu sou uma prisioneira, na própria casa, uma espécie de empregada domestica, faço os trabalhos do lar, cozinho e, quando ele quer, abro as pernas, mas já não sinto nada.

-Temos que arranjar maneira de falarmos pessoalmente, é muito importante, não podes estar assim, subjugada por um ímpio, como se fosses uma escrava.



****



Foi difícil mas conseguiram, quase na clandestinidade, um encontro.

Foi numa quinta-feira, dia da reunião na fábrica, não havia perigo do marido vir a casa. Foi mesmo ai que se encontraram.

Margarida olhou a Silly era uma bela mulher, alta de pele morena, vestida com uma espécie de túnica preta, com pérolas e missangas.


Perante o olhar de admiração, de Margarida, a visita explicou:

-Visto uma abaya, o trajo verdadeiro, o único que nos torna diferentes de todas as impias.

Ia estender o rosto para um beijo, mas Silly, deu-lhe a mão.
Sorriu, tinha um sorriso cativante, mas um pouco frio. Depois, como se não soubesse, perguntou:

-Então és a Margarida?  Que vives como acorrentada a usos e costumes que, apenas, levam à perdição. Tens que te libertar, devias aderir ao nosso grupo, somos muitas, estamos no caminho certo. Vamos, em breve, para a nossa verdadeira terra para servir a nossa causa, no território de mel e de salvação.


Escolhemos o nosso destino, somos donas dos nossos desejos, vamos cumprir uma missão que nos levará à glória.

-Mas sou casada, replicou Margarida!

-Casada, chamas casamento ao teu viver?
Vem connosco, lá sim, terás um casamento, com um homem, que fará uma igual, uma guerreira, uma deusa, uma mulher verdadeira e especial ao serviço de uma causa.

-Não te vou forçar, vou deixar um telemóvel com um número que só tu e eu conhecemos.


Guarda-o para que esse homem, que te escraviza, não to poder tirar.
Eu vou telefonando, podes mudar de ideias e, no fim deste mês, seres uma das eleitas para viagem a caminho de Raqqa, a nossa única e verdadeira pátria, para o nosso califado, para a Daesh, para cumprir a Sharia a verdadeira lei.

Todos os dias, sempre, à mesmo hora telefonava com a mesma voz, maviosa, cheia de promessas, e o desafio para a libertação.



*****

Hoje o marido, o João, chegou a casa tarde e perdido de bêbedo, olhos vermelhos, espuma nos cantos dos lábios e voz pastosa:

-Hoje bebi, um pouco mais, não tens nada com isso, estive com uns amigos e umas gajas porreiras, que eles conhecem, mas estou aqui e não quero a merda do jantar que costumas fazer.

Margarida não gostou, mesmo nada, aquela coisa, das gajas, vinha a despropósito e, rebaixar o jantar, era demasiado. Tinha preparado mais do que ele merecia, o prato preferido, lasanha de camarão E a paga era esta!
Só lhe apetecia pegar na travessa e espetar-lha, no focinho para aprender a respeita-la, mas aguentou, apenas deixou sair.

-Se não queres comer, porque vens farto dessa trampa onde estivestes, não comas, mas podes ser educado.

Não gostou, levantou-se cambaleante do sofá e agrediu-a, com violência, enquanto, possesso, gritava:

-Sua cabra, se eu digo que os teus jantares são uma merda é porque são, não tens respeito e ainda tens a ousadia de me responder.

Ia gritando e malhando, até que cansado voltou a sentar-se no sofá onde vomitou e adormeceu.

Foi a gota, já andava com dúvidas, agora já não tinha.
Pegou no telemóvel, foi para o quarto, e telefonou para Silly:

-Sou a Margarida, quero ir convosco, que preciso fazer, que devo arranjar?

-Nada, respondeu, só o passaporte!

Agora és a Amira, esquece esse nome, infiel, de Margarida.
Na quarta-feira está preparada, passamos por ai e seguimos viagem, no estado islâmico precisam de nós.


*******

Foi dada como desaparecida, as autoridades suspeitam que foi aliciada por radicais mas, até hoje, não houve confirmação.

Uma mulher, yazidi, que consegui fugir aos jihadistas, contou que conheceu uma portuguesa Amira.

Acha que tentou fugir, não conseguiu. Mas teve sorte, não a degolaram, foi vendida em leilão, como escrava sexual.


As autoridades portuguesas, suspeitam, que possa ser a Margarida.

Mas nada de certezas.



sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Que rico par.......







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Saiu tão apressado que nem reparou no carro, foi a travagem brusca que o trouxe à realidade.

-Acorda pá! Gritou o motorista.

Fez um aceno e deixou um desculpe, quase, impercetível.

O tempo estava bom, decidiu ir a pé, não era muito longe, vinte minutos em passos apressados deviam chegar.

Não estava confortável, mesmo nada, a noite sem dormir, às seis da manhã conseguiu fechar os olhos, mas foi por pouco tempo, pois o despertador disparou e deixou-lhe uma dor de cabeça desagradável.

Podia ter feito um café mas não lhe apeteceu, ia parar no caminho e tomar um pequeno-almoço apressado.

Afinal, ainda não estava muito atrasado, tinha a entrevista às 10 horas e eram 9 e15, podia acalmar, assentar ideias  e esperar que o coração entrasse num ritmo normal.

Acabou o curso há onze, longos, meses. Enviou centenas, pode dizer, mesmo centenas, porque foram, de cartas com currículo.

Fez um, imprimiu e agora ia assinado e colocando a data e, depois ficava à espera. Longa espera que, normalmente, acabava quando perdia a esperança.

Tinha um bom currículo académico, experiência não, nunca lhe deram a possibilidade de a adquirir, assim não podia ter.

Vivia, sozinho, na velha casa que fora da avó, Agora estava no lar e, assim, ele mantinha as coisas em ordem e não a deixava degradar.

Os pais estavam na terra, os dois reformados, iam ajudando e muito. Mas o muito, para eles, era tão pouco que teve que se privar de tudo.



Agora, finalmente, foi chamado para uma entrevista. Não sabia, bem para o que, foram tantas as candidaturas.



******



A avenida era esta, tinha que encontrar o nº 202, era o que indicava o endereço. Finalmente viu, era no outro lado, ia atravessar na passadeira, para susto já chegou quando saiu de casa.

Um belo prédio, moderno, parecia mais um daqueles locais onde alugam gabinetes para escritórios, mas não, era uma grande empresa de novas tecnologias.
Havia um balcão onde uma funcionária com um sorriso, meio postiço e um par de mamas que, pareciam verdadeiras, faziam com que fosse difícil olha-la de frente, e então ele, que quando enxergava um par, assim, ficava vidrado.

Aguentou e, com um olho para a recepcionista e, outro para os hemisférios tentadores, apresentou a carta da convocatória.

-Queira sentar-se um pouquinho que, a doutora Cristina, já o atende! Disse a menina.

Não esperou muito, a tal doutora apareceu, estendeu uma mão delicada e convidou-o a entrar numa, pequena, sala de reuniões.

Era muito interessante, cabelos negros em caracóis delicados, olhos castanhos dourados, lábios bem delineados e sem pintura.
Não tinha, um par, como a recepcionista, mas o que apresentava era muito interessante.

Folheou uns papéis, descortinou a sua carta e currículo, fez um aceno com um sorriso alvo.

-O senhor doutor tem um belo percurso académico, licenciatura, pós-graduação e dois mestrados. A nível profissional é que não apresenta nada. É pena!

-Pois é cara doutora, estou de acordo, mas a continuar assim só poderei acrescentar, aos meus conhecimentos, experiência em entrevistas.

-Bem, respondeu ela, vamos ver se não vai ser assim. Temos uma vaga, não é um cargo de topo, mas quase, e pode ser um bom começo.
Pelo que li domina, razoavelmente Alemão e é fluente em Inglês e Francês, é uma vantagem em relação aos outros candidatos.
Vou propor o seu nome, à Administração, com a indicação de ser, na minha opinião, o mais habilitado.
Não sou eu que decido mas, sempre, aceitaram a minha opinião. Vamos ver agora!

Estava feliz mas não queria demonstrar, atreveu-se, no entanto, a perguntar:

-Mas, já agora, qual o cargo, ou funções, em causa?

-Desculpe, pensei que tinha referido, mas já atendi tantos candidatos. Será para adjunto do nosso director financeiro, com possibilidade de vir a ocupar o cargo, no final do ano, pois o actual vai pedir a reforma. Será remunerado tendo em consideração a responsabilidade da função, mas garanto, que vale a pena.

-Sim parece-me perfeito! É o que pretendo, espero que desta vez a sorte esteja do meu lado!

Estendeu-lhe a mão, muito suave, quase acariciadora e com um sorriso:

-Então vamos esperar que esteja, vou fazer o meu relatório e enviar para a direcção. Penso, e gostava de entrar em contacto consigo, em breve, tenho todos os seus elementos. Passe bem e até uma próxima!


Saiu. Passou o mais perto possível pela recepção.
Meu Deus, aquelas mamas, iam no pensamento.


******

Os dias corriam numa certa monotonia, jornal, anúncios e envio de respostas, internet, sites de empregos e candidaturas.

À tarde ia ao café, uma bica e, depois, esperar. Não sabia bem o que! Mas  esperava, talvez, uma carta ou um telefonema.
Mas nada.


Ia visitar a avó, era o dia, vinha sempre mais triste, a velhota já lhe trocava o nome.
Por momentos parecia estar bem, conversa acertada, saudades da casa, recordações de tempos idos. Era momentos escassos, mas eram momentos, depois as memórias, desapareciam do cérebro gasto e voltava o olhar vago de recordações que só ela sabia.

Voltava desgostoso, pela avó por pensar que todos, um dia, uns mais cedo, outros não, mas todos estamos na fila.

Criou tantas expectativas, pensou que tinha chegado a sua oportunidade, mas já vão duas semanas e nada.
Ia esperar mais uns dias, depois ia passar a saber noticia, se calhar não era apropriado mas, era o interessado.
Se não tivesse, ainda, novidades sempre imaginava, o mundo no peito, da recepcionista.


Foi na quinta-feira, andava a matutar no assunto, mas hoje ganhou coragem.
Não era longe, meia hora a pé e estava lá.
Meteu os pés, ao caminho, até ao  202 daquela avenida, não vale pena dizer o nome, é de um escritor célebre, mas para o caso não interessa.

As coisas começavam mal, na recepção estava uma moça, com uns olhos lindos, mas tão magra e lisa como uma tábua de engomar.

Começou:

-Boa tarde, eu tive, uma entrevista de emprego, e queria ter noticias. Falei com a doutora Cristina e fui atendido, aqui, por uma sua colega não me lembro o nome.

-Aqui, ao balcão? Só sou eu e a Ana, que hoje, não está.

-E pena, desculpe, não queria dizer isso. e a doutora Cristina está?

-A doutora Cristina já não trabalha na Empresa, sexta-feira foi o último dia, foi para o estrangeiro, foi uma coisa assim de repente, penso que foi trabalhar para Bruxelas, mas não tenho a certeza.

Começou a ficar um pouco apreensivo, mas alguém, com certeza, poderia saber algo sobre o processo.

-Então menina.

Não o deixou acabar:

-Catarina, respondeu.

-Desculpe menina, ou senhora, quem me pode dizer, algo, sobre a minha candidatura?

-Sou menina, sou mesmo. Mas foi candidato a que lugar?

-Segundo me disseram era para adjunto do director financeiro!

-Ah, para isso já entrou o doutor Macedo, que é sobrinho do nosso presidente.
O lugar já é dele. Tenho pena mas já estão servidos.

Ficou sem saber o que dizer, só lhe saiu uma pergunta:

-E quando volta a sua colega Ana? Desculpe, não responda, parvoíce minha.


Saiu, não ia voltar. Queria lá saber das mamas da Ana, ou como quer que se chamasse!



*******



Eram cerca das 5 horas, da tarde, estava a redigir uma carta, para uma Empresa que pretendia vendedores, não era o que desejava mas à falta de outra coisa, ia tentar.



Tocou o telemóvel, era um número estranho, não conhecia, começava por 0032. Era engano com certeza, mas atendeu.



-Sim, faz favor?

Do outro lado uma voz feminina respondeu:

-Boa tarde doutor Venâncio, sou a Cristina, a doutora Cristina, que o atendeu, numa entrevista de emprego.

-Que surpresa! Respondeu, lembro muito bem. Fui hoje, lá, saber a má noticia.

-Então já sabe que me demiti?
Fui convidada para uma Empresa, na Bélgica, onde precisam de alguém com o seu perfil e lembrei-me, se não estaria interessado, pois nesse país não há lugar para os jovens.
Quando o entrevistei, tive que fazer o meu papel, pois sabia que o lugar era para o sobrinho do presidente. Mas tinha que representar.
Se quiser eu trato de tudo, sou responsável pelos recursos humanos, aqui.

 
-Quero muito, desejo de todo o coração e nem sei como lhe hei de agradecer. O que devo fazer e para quando seria?

-Não me agradeça, ou por outra, agradece depois quando chegar. Gostei de si e acho que merece. Mande-me, para este número, deve ter no seu telemóvel, o seu endereço de correio electrónico e, eu digo o que é preciso, depois combinamos todo o resto.
Temos que nos apressar, faltam 23 dias para o fim do mês e, eu quero-o aqui, no dia 1 do mês que vem ai.
Fico à espera.
Um abraço.


*******

Tratou de tudo, entregou a casa ao senhorio, a avó foi para junto dos pais. Eles iam tratar da dela.




Em 15 dias arrumou tudo o que havia para arrumar.


Apanhou, hoje, o avião.

Já vai no ar, espera que a caminho, finalmente, de uma vida.



Aqui não vale a pena.

Este país é só para velhos.