domingo, 27 de Julho de 2014

A casa das Açucenas







Amanhã, finalmente, acabam os oito longos anos que passei nesta prisão. Vou, novamente, sentir no rosto a chuva miudinha que faz lá fora, vou ser, outra vez, gente por entre as gentes, vou finalmente ser LIVRE.

Fui acusado e condenado por um crime que não cometi, fui vítima de um erro da justiça mas, eu era o elo mais fraco.

Foram oito anos de angústia e de raiva. De angústia porque me acusaram de ser o assassino da mulher que, depois da minha mãe, mais amei. Era o meu Sol, a minha existência a minha outra metade.
Aquecia-me o coração, dava sentido à minha vida.

Um dia, que quero esquecer, encontraram o corpo barbaramente esfaqueado, numa posição grotesca nas traseiras da sua casa.

De raiva pela vingança que tardava!

****

Eu tinha uma pequena oficina de reparações de automóveis, era toda a fonte dos meus rendimentos e, confesso, não tinha razão de queixa o negócio corria bem.
Um dia, estava já a lavar as mãos para os preparativos do fecho, quando ela entrou, com ar de aflição e com voz quase chorosa pediu:

-Preciso de ajuda, o meu carro parou mesmo aqui ao pé e por nada deste mundo quer pegar, estou aflita moro mesma no fim da estrada e ainda são 8 quilómetros.

Era uma mulher muito interessante, não propriamente bonita, mas tinha um encanto especial. Não sei se o olhar gaiato ou a graciosidade  da figura frágil mas, ao mesmo tempo, determinada.

Fui ver o carro e não havia dúvidas, tinha um problema no injector, coisa simples, mas impossível de arranjar no momento.

-Sabe, disse eu, duas noticiais uma boa, a avaria não é grave outra menos boa, só amanhã pode ser arranjado, precisa uma peça da marca.

Mostrou algum desalento antes de responder:

-Pode rebocar o carro para a sua oficina, arranjar e eu amanhã invento maneira de o vir buscar?

-Certo, respondi, amanhã ai por volta das cinco temos carro. E tem alguém que a possa vir buscar agora?

Com um sorriso lindo respondeu:

-São oito quilómetros, devo aguentar, vou a pé.

-Nem pense, disse eu, é muito e a estrada é perigosa. Se quiser esperar, 15 minutos, eu deixo-a onde quiser, afinal vou para esses lados.

-Agradeço muito, disse Clarice!

Levei-a à porta, despediu-se com um muito obrigado. Deu-me o contacto do telefone para avisar quando o carro estivesse pronto.

***
Foi assim que nos conhecemos!

Nunca tivemos uma relação, apenas amizade. Íamos ao cinema, almoçávamos e jantávamos juntos muitas vezes, chegamos mesmo a ir à praia, Clarice sempre insistiu que era apenas amizade e o prazer de estar com alguém que a entendia, não lhe pedia nada em troca e, lhe dava espaço, sem a sufocar.

Para mim era um pouco mais difícil, deixei-me levar pelos sentimentos e estava totalmente apaixonada, vivia o ar que ela respirava, bebia as palavras que me deixava, morava nos olhares, nos momentos e na esperança.

*****

Foi num sábado, num dia que prometia ser mágico, estávamos num café próximo da sua casa quando me atrevi:
-Clarice! Penso que chegou a altura de assumirmos que a nossa relação é mais do que amizade, eu amo-te e não consigo continuar neste faz de conta!

Não esperava a reacção, não lhe conhecia esta faceta, levantou-se e colocou as mãos da mesa, aproximou o seu rosto do meu e gritou:

-Afinal és igual aos outros!

Deu meia volta e desapareceu porta fora.

******


Só quando dois agentes me forem deter, fiquei a saber da tragédia, tinham assassinado a minha Clarisse, tinham tirado sentido à minha vida.

Clamei a minha inocência, jurei, chorei e sofri mas, tudo apontava para mim, não tinha álibi e havia testemunhas a afirmar que tínhamos discutido no café, Deus sabe que não discutimos  apenas, ela, me deixou pendurado na mesa de uma esplanada.

De nada valeu, fui condenado, disse o juiz, apenas a oito anos porque não havia provas materiais.

Faz amanhã 3.100 dias que alguém, que eu vou descobrir, me roubou o amor da minha vida.

*****

Fui visitar o local, a casa estava na mesma, só a pintura um pouco desbotada e todas as janelas fechadas. Apenas os canteiros à volta se encontram arranjados.  Alguém a deve habitar!

Na pequena mercearia, quase paredes meias, fui perguntar quem habitava a casa.

-A casa que era da Clarisse! Exclamou a mulher. Ninguém, ninguém a quer, bem tentaram vender mas casa assombrada ninguém compra!

-Assombrada? Mas assombrada como? Perguntei.

A mulher olhou-me um pouco agastada, mas respondeu:

-De noite luzes que acendem e apagam, coisas que arrastam. Os canteiros, ninguém os arranja, vá ver com eles estão!

Agradeci e fui-me sentar, numa pedra, junto à casa a pensar no que foi e no que podia ter sido a minha, nossa, vida.

Nos passeios à beira-mar, nas tardes no cinema com as lagrimas de Clarice nas cenas mais românticas. Pensei nos jantares, onde por vezes nos esquecíamos de comer, pois tanto tínhamos para dizer.

Fiquei esquecido do tempo e a noite, quase, de repente encheu o espaço. Queria ir embora mas havia um fascínio que me prendia, não sei se o ténue odor que me impregnava os sentidos se a musica, quase inaudível, que me embalava os pensamentos.

De repente, como projecção, Clarice apareceu mais bela o que nunca, a mesma figura mas um pouco mais frágil, os mesmos olhos mas sem o brilho que eu conhecera.

Senti um frio imenso, começava no alto da cabeça e descia em espirais, que me iam paralisando e me deixavam num torpor doce e suave. A custo balbuciei:

-Meu amor afinal estas viva!

A voz era suave, quase um eco distante:

-Já não  sou o teu amor, estive à tua espera para me despedir e pedir perdão pelas minhas últimas palavras. Perdoa-me para poder partir tranquila!

Fiquei sem resposta, quis falar mas um nó na garganta apenas deixou um suave pedido:

-Clarice eu é que te peço perdão diz-me só quem te fez mal?

Pareceu-me ver, outra vez, o olhar ladino.

-Já não sou Clarice e  não há nada a fazer, já perdoei a quem me fez mal. Agora… vou tranquila!

Vai, vive a tua vida, eu espero por ti.

Sai dali em passos ébrios, não sei se sonhei ou se aconteceu mesmo.

************


Voltei passado um ano, a casa estava reconstruida, já não era a casa assombrada, canteiros de lindas açucenas davam-lhe um novo nome.






terça-feira, 15 de Julho de 2014

Pergaminhos







Já confunde a idade, pois os anos passados têm-lhe desgastado o corpo e a memória.

Olhos fundos e encovados têm um brilho de memórias, encerradas, num cérebro gasto pelos anos decorridos.

Na cadeira do lar, olha um infinito de reminiscência e recordações e sorri, com um sorriso desdentado.

Olha em volta e fita um longínquo horizonte, de lembranças, que o tempo vai apagando. As mãos, pergaminhos de seda, entrelaçam-se em gestos delicados.

Fala, com voz suave e pausada, de coisas da vida, coisas de um passado, distante, que guarda e que vive.

Esquece o momento, baralha as refeições, não sabe o agora, mas tem presente um tempo afastado, de recordações, que baralha ao sabor das suas fantasias.

Sente-se como, quando a mãe lhe arranjava as tranças, e o pai, pela mão, a levava a ver o circo montado no Largo da Igreja.

Sabia que era a rapariga mais bonita nos bailes da aldeia.

Lembra o dia do casamento, brilhando nova, num velho vestido de noiva que já fora da mãe.

Lembra os momentos em que os filhos nasceram, como cresceram e como um dia abalaram.

Tem, no pensamento, as desventuras de uma vida difícil, amargurada mas cheia de recordações, que alimentam uma velhice que se vai diluindo nos intermináveis dias de um lar.

Foi uma princesa, quiçá uma rainha.

Teve brilho nos olhos e na pele, rosada, a maciez do pêssego.

Foi invejada por muitas mulheres, muitos homens a olharam com admiração.

Agora, como vela bruxuleante, vai-se apagando lentamente, dia a dia.

Na boca, desdentada, o sorriso velho, e apagado, vai iluminando o que resta de uma vida longa e desgastada. 

Mas sorri, sorri sempre como se o amanhã fosse eterno.


 value="always">






quinta-feira, 3 de Julho de 2014

Mulheres!











Juro que não aguentei mais, alcei a mão e espetei-lhe um bofetão, nas ventas, que o deixei a ouvir o pipilar de milhentos passarinhos.

Sabem que eu tentei aguentar, fiz mesmo esforço e, quantas vezes mudei o caminho, para não me cruzar com o bandalho.

Mas hoje o tipo passou, com andar gingão, quase provocador, foi a gota. 

Ainda tentou levantar-se e tirar desforço mas, o bico da  bota, deixou-o a sonhar por muito tempo.

Já fomos amigos, mais propriamente, quase família, porque amizade é algo de diferente.

Ele é, ou era, casado com a minha irmã Matilde, que devido aos maus tratos e não querendo denunciar o canalha, pegou na filha e desapareceu sem dizer nada, nem ao próprio irmão. Teve receio, não sabia que ia estar, aqui, do seu lado, que a iria proteger com a própria vida.

Agora ela, e a minha sobrinha, está sabe Deus onde! Tudo, por causa de brutamontes que a enganou, com falinhas mansas, até casar.

Depois começaram os maus tratos, agressões físicas e psicológicas. Os vizinhos bem me alertaram, mas ela negava sempre, o medo tolhia-lhe a fala.

Comecei a guerra, não ia dar paz aquele sujeito, chegou a hora de evitar cruzar-se no meu caminho, porque eu, juro, que dou fim à sua vida.


Hoje, de manhã muito cedo, dois polícias bateram à minha porta, mostraram-me um papel, que não cheguei a ler, e com voz simpática pediram para os acompanhar à esquadra.

Mas, perguntei:

-Acusado do quê?

O mais alto dos polícias, respondeu:

-Está aqui no mandato, mas é acusado de agressão a um indivíduo do sexo masculino. Está no hospital, com o nariz e duas costelas fracturadas. Será que não se lembra?

Já sabia, aquele bastardo ficou marcado. Ainda bem, não se iria esquecer nunca mais!

Passei a noite na esquadra, na manhã seguinte mandaram-me em paz, não foi muito grave, a vítima, como eles diziam, não apresentou queixa, só tinha que pagar, possivelmente,  a conta do hospital.

Sou um pouco impulsivo, nada de violento, apenas me deixo levar pelas emoções. 

Não estou arrependido, ele merecia, só que talvez, tenha abusado um pouco da minha força.

Ando na dúvida, não sei se devo ir ao hospital, afinal é o pai da minha sobrinha, ou esperar que o tempo passe e confiar que tenha aprendido, duma vez por todas, a lição.

No fundo, eu, até sou um coração mole. Capaz de partir a louça toda e no momento seguinte estar, totalmente, arrependido.

Vou, mesmo, ao hospital saber como está o gajo, no fim acabo por ser eu a pagar a estadia!

A menina da recepção, pelo nome, informou-me que já tinha saído, o médico deu-lhe alta.

Parece que não foi assim tão grave, só ficou uma noite e um dia.
Penso que, no fundo, até fui meigo devia ter-lhe amachucado o canastro mais um pouco.

Vou lá a casa, vou ver se o traste precisa de alguma coisa.

Quando toquei, à campainha, estranhei o resfolgar de uns passos de criança a correr no corredor, ouvi igualmente, a voz da Matilde a gritar:

-Espera Ritinha, não abras sem a mãe ver quem é!

Espreitou e abriu a porta, com maus modos, foi dizendo:

-Que queres desgraçado? Vens acabar a tua obra? Desaparece que eu trato do meu marido!

Fiquei sem saber o que fazer, não queria acreditar, só lhe consegui dizer:

-Posso dar um beijo na minha sobrinha?

Sem, sequer, me olhar respondeu:

-Dá e desaparece!

Mulheres!

Nunca as vou compreender!







domingo, 22 de Junho de 2014

Destino


 

(Este Blogue nasceu no dia 24 de Junho de 2007, faz 7 anos. Agradeço, a todos, os que me têm acompanhado)



Quando saiu do carro ficou estático, como se o tempo tivesse parado. A casa era uma imagem pálida da que mantinha no pensamento. As paredes tinham perdido a cor e, enormes feridas, deixavam à vista as marcas dos tempos. As janelas, onde os vidros partidos mostravam as madeiras carcomidas, mais pareciam assombrações.
Na cobertura as telhas arrancadas davam um ar de abandono.


Absorveu cada recanto, reteve dentro de si cada momento como se fosse possível voltar, no tempo, ao momento em que naquela casa viu a luz o dia.

Hoje, passados tantos anos, quis regressar às recordações, aos tempos em que as ilusões ainda faziam parte do dia-a-dia.

***

Foi numa tarde de um inverno, frio e chuvoso, que abriu os olhos para a vida, não nasceu em berço dourado, foi difícil a infância, luta constante para passar despercebido para a trovoada não lhe cair em cima. Brincava, com brinquedos imaginados, no silêncio, quase invisível.


Aos seis anos foi para a escola, tantos meninos alegres e bem-dispostos que os pais deixavam à porta com um beijinho, ele foi sempre só, sem beijinho, escondido na timidez do medo que sempre o acompanhava.

Mas, de repente, começou a ser importante, era mais brilhante que todos os outros. As letras, e os números, passaram a ser os seus melhores amigos. A professora, Dona Natália, com um afago na cabeça, dizia-lhe:


-José assim vais longe, não te percas filho!

Foram dois anos de emoções, pela primeira vez notavam a sua existência e uns laivos de alegria alimentaram-lhe a alma.

Mas era demasiada felicidade e ele não nasceu predestinado para ser feliz, não sabia mas estava escrito no livro do destino, talvez no Armagedão.


******

Foi numa tarde, de Setembro, que os pais o mandaram arranjar a tralha, amanhã, bem cedo, uma camioneta ia fazer a mudança, iam morar para a capital.

Ainda olhou, para trás, e viu a casa onde nasceu perder-se à distancia e, jurou, nesse momento, que ia crescer e voltar para o lugar onde não foi, totalmente feliz, mas onde alguém lhe deu atenção. 

-Obrigado professora Natália!



Foi difícil, a escola não era a mesma, os rapazes não aceitaram bem, um pobre, provinciano e o professor não sabia sorrir. O aluno perdeu o brilho, os castigos substituíram a falta dos carinhos, a revolta surda, e silenciosa, instalou-se e a escola passou a ser a rua onde se deixava perder, na imensidão dos sonhos que morreram à nascença.

Aos quinze anos fugiu de casa e, tem a certeza, que ninguém deu pela falta, foi uma espécie de alívio.


Correu a vida pelos piores caminhos, conheceu a fome e a solidão, experimentou os vícios que o levaram a mundos irreais, às ressacas dolorosas, aos amores irreais feitos apenas do gosto da partilha, da necessidade da procura, do medo de estar só.

Um dia conheceu alguém que o fez renascer, não lhe perguntou quem era, donde vinha, nem o que queria, Apenas lhe deu o que ele, há tanto tempo, procurava, Atenção!

Foram dois anos mágicos, intensos de afectos, um andar de mãos dadas, olhos nos olhos, corações em uníssono, como se fosse apenas um a bater em dois peitos. Era um adivinhar de pensamentos, um querer que alimentava, quase mágico. 

Esqueceu todas as agruras. Os vícios, eram apenas um ponto negro que o tempo ia apagando, como se nunca tivesse sido existido.


Os dias deixaram de ser rotineiros, eram intensos e preenchidos, as horas eram demasiado rápidas, o tempo escoava-se, como se não existisse.

****


Foi num dia de Maio, o sol entrava pela janela e punha mais brilho no rosto magro de Ofélia, só agora notava como tinha emagrecido nestes últimos tempos, os olhos brilhavam, febris, no reflexo, azul, de felicidade que lhe iluminava a alma, uma certa angústia parecia toldar todo o encanto. 


A tristeza passou a fazer parte do dia-a-dia, de Ofélia, dizia que não era nada, mas uma sombra enorme passou a habitar aquele corpo frágil.


Repetia que estava tudo bem mas, era notório, que estava tudo mal. Os olhos perderam o brilho, o sorriso murchou, a tristeza era tão profunda que parecia doer.


Um dia recusou levantar-se, a força, já não aguentavam o frágil corpo, as pernas não sabiam obedecer à vontade.


Quando a levaram para o hospital já era tarde, o tumor já se tinha apoderado do cérebro, já tinha tomado conta do pensamento e da vontade.


José sentou-se ao lado da cama e durante três dias esperou um milagre que nunca chegou.

A vida tirou-lhe o pouco do que, algum dia, lhe deu.

 

****


Hoje estava ali, olhando o que resta de uma casa onde, as feridas, deixavam bem visíveis o abandono de muitos anos.


Não sabia bem ao que vinha, talvez estivesse a fugir de uma vida que o pouco que lhe dava e, não tardava, lho retirava da maneira mais cruel.

Pensou voltar a estas origens e por termo a uma existência mas, se lhe deram vida devia vive-la e lutar contra a adversidade, tinha que honrar todos os dias um anjo, Ofélia, que um dia encontrou no caminho, para lhe atenuar o vazio que conservava da existência.


Recordava aquela mulher, sentia a sua presença a cada momento, as últimas palavras soavam, como uma oração, no seu pensamento:

-José! A melhor maneira de me manteres, na tua memória, é vivendo a vida com a mesma intensidade, destes últimos dois anos, eu vou estar sempre contigo.


Queria, e ia, respeitar a sua memória.

Restaurou a casa, pintou as paredes de um verde muito claro, era a cor de que ela gostava, nos canteiros semeou amores-perfeitos, as flores que ela mais amava.

Mudou a vida, ia escrever um livro, ainda não sabia o título, não tinha escolhido nenhum enredo, não tinha ideia como começar, apenas sabia que um dia o iria escrever.

Durou dois anos, as saudades corroeram-lhe o corpo, o desgosto matou-lhe a alma.

O livro começou-o, apenas uma linha numa página manchada de lágrimas:


"Foi num dia de muito sol que conheci quem iria iluminar a minha 

vida"

Nunca o conseguiu acabar.




sexta-feira, 6 de Junho de 2014

A longa Espera







Faz hoje um ano, parece que o foi ontem, o tempo passa tão depressa que quando tentamos recuperar os pensamentos já se perderam na memória do tempo.
Mas há coisas que ficam, não se perdem, são absorvidas de tal forma que passam a fazer parte do nosso quotidiano.

Como ia dizendo, faz hoje um ano, e recordo bem, era uma sexta-feira soalheira, um pouco quente e eu estava recostado no banco do jardim, um pouco contemplativo sobre as águas do tempo, que em leves ondulares se iam diluindo em espuma nas paredes do cais.

As gaivotas, um pouco atrevidas, descansavam nas amuradas, indiferentes às correrias da garotada.

Foi quase por acaso mas, reparei nela, talvez pela forma, um pouco excêntrica, como estava vestida. Na cabeça um enorme chapéu, de palha, amarelo, contrastava com duas enormes flores vermelhas.
Vestia uma espécie de túnica, da cor das flores, e nos olhos uns enormes óculos escuros, com umas armações de florinhas douradas.

Era um pouco surreal, parecia uma personagem tirada da Alice no País das Maravilhas, mas fascinou-me a figura e, embora disfarçando atraia-me o olhar. Tentei encobrir, mas ela reparou, e olhando com um sorriso aberto cumprimentou-me:

-Boa tarde cavalheiro! Já me conhece? Deve conhecer pois eu estou aqui todos os dias, só nos dias de chuva me recolho, ali, na paragem do autocarro, tem que ser!

Fiquei  intrigado, isto tem que encerrar, decerto, uma história que a minha curiosidade queria conhecer.

Retribui o sorriso e fiquei sem saber, bem, o que dizer mas arrisquei:

-Não me recordo de já a ter visto, é raro vir para estes lados, pois se viesse, decerto, já tinha reparado numa senhora tão simpática!

-Oh que gentil! Venho sempre, faltei uns dias porque a saúde me deixou, mas estou de volta! Só espero que ele não tenha chegado nos dias em que faltei, mas tenho a certeza que não, ainda se deve recordar da morada.

Tirou os óculos, por um momento, devia ter sido uma mulher muito interessante mas, agora, um emaranhado de rugas e vincos mostravam os estragos que os anos fizeram. Voltou a colocá-los e fitou o horizonte, na procura de algo que apenas ela sabia.

-Mas, arrisquei, quem espera tão devotadamente?

-Desculpe não lhe tinha dito, espero o meu Ernesto! É o meu marido, deve chegar um dia destes e eu tenho que estar aqui, para o levar para casa!

-Desculpe a minha ignorância, repliquei, mas ele quando vier deve avisar, não é?

-Tenho receio que não, ele saiu muito zangado, e com razão, eu era uma parva com os ciúmes, ele é muito bonito e as mulheres não o largam. Nesse dia discutimos e ele saiu de casa, para embarcar, era comissário num barco, e nunca mais voltou.

-Há quantos dias,  perguntei?

-Dias não sei, não os contei, mas fez 12 anos em Maio.

Fiquei um pouco perturbado. Doze anos? É estranho é muito tempo!

-Mas Dona, ia eu dizer.

-Rosete, sou Rosete, completou.

-Mas dona Rosete o que lhe disseram na companhia, a que pertence o barco?

-Foram simpáticos, muito simpáticos mas devem ter pensado que eu era maluquinha. Na marinha não tinham, nem nunca tiveram um comissário com o nome do meu marido.
Eu sei que não quiseram dizer, deve ter ido nalguma missão secreta, uma espécie de espião, é o que é!

-Oiça lá, perguntei, como era mesmo o nome do seu marido? Eu fui da marinha, estou reformado mas lembro nome de muitos colegas.

-Todos o conheciam, era o comissário Ernesto Vieira da Silva Pilrito.

-Pilrito? Conheci um, mas não é e, acho que, nunca foi da marinha!

-Que pena, disse ela, quando o vi a si até pensei que poderia ser o meu Ernesto, os mesmos olhos, o queixo voluntarioso, o nariz aquilino, tantas semelhanças mas, já vi que não é, o Ernesto tem um cabelo preto, bem cheio e o seu é branco e já um pouco calvo.

Que pena!


Mas gostei de o conhecer é simpático como o meu Ernesto.

                ********

Pobre senhora, pensei, à espera do nada, tal como eu que voltei, da guerra, e não sei quem sou.

Amnésia, dizem, eles!

Se calhar até me chamo Ernesto. 
Mas não! 
Não me lembro da senhora!





terça-feira, 27 de Maio de 2014

Devaneios
































Era apenas uma pequena nesga, quase despercebida entre duas enormes dunas, que pareciam borbulhar com a brisa que lhes agitava a areia mas talvez, mais, a minha imaginação do que a minha vista parecia enxergar um vasto oceano. Muito calmo, de um azul que cintilava pintalgado de reflexos de um sol intenso.

Não tinha a certeza, mas os meus sentidos pintavam, no meu pensamento, essa brecha de desejo e vontade. 

Perguntei aos outros, não tinham a certeza, eu estava com miragens, talvez houvesse qualquer coisa mas mar era impossível.
 Os oito camelos, aliás dromedários, faziam trejeitos com a boca mastigando uma baba, peganhenta,  com a cabeça muito levantada como, tal como eu, estivessem a tentar descobrir a tal língua de mar que habitava nos meus olhos. Talvez fosse, como diziam os outros, a minha imaginação a desejar outra imensidão, para além do deserto, mas era fantasia a mais, pois eu sentia o cheiro, o murmúrio e a espuma branca das ondas a desfazerem-se.

A noite é serena e fria, o céu é uma explosão de estrelas, tão brilhantes e intensas que nos deixam num êxtase, numa espécie de boca aberta de admiração.

Agora o resto não existe, o mar que adivinho,  a areia que se perde no horizonte dos nossos olhos, os dromedários que ruminam no escuro e, até, o calor que nos cobre a pele numa viscosidade, desconfortável, deixaram de existir, ficaram insignificantes perante a imensidão de astros que tomaram conta do tempo.

Sinto-me pequeno e só numa redoma, de vidro pintada, de um miríades de pontos que brilham ou cintilam intensamente.
Adormeci no arrebatamento.

Manhã cedo, ainda o Sol não aquecia  e começava o regresso. Ainda espreitei a nesga, que estava ligeiramente modificada e, juro que estava lá, talvez só no meu pensamento, mas estava.

Galgamos quilómetros, o deserto era uma enorme mancha que ia desaparecendo num horizonte longínquo. Paramos, antes do Parque, numa espécie de restaurante onde nada abundava, nem uma simples cerveja, ficamos por umas coca-cola e uns Kefts, espécie de almondegas muito aromatizadas, enquanto os ''rabos'' descansavam das sequelas dos balanços.

Muito agradável o acolhimento e a simpatia, pagamos o preço sensacional de 53 dirhans (cerca de 5,30 Euros).

O Parque de campismo era pior de tudo o que podíamos imaginar, o espaço era agradável, mesmo com as ovelhas a passear no meio dos campistas, mas a higiene dos sanitários fazia fugir qualquer um. Indescritível!


A nossa salvação foi a auto-caravana, que tinha todas as condições.

Partimos cedo, a semi-aventura estava a chegar ao fim.


Quando entramos no barco, um pouco de nós, continuava naquela terra, na mistura de berbere, francês, espanhol, de gestos e de uma simpatia imensa.

Um dia volto.

Prometo!



(Escrito em 13 de Maio - Khouribga - Marrocos)



segunda-feira, 19 de Maio de 2014

Pinceladas







O cão estava desinquieto, cabeça no ar e, de vez em quando, acoitava-se espreitando por baixo das caravanas enxergando algo que só, mesmo, ele lobrigava.

Umas vezes, eram os gatos vadios que  se colavam aos muros, outras  as rolas que, entre uns “curucucus”, vão debicando os pequenos nadas de que se apercebem, ou os melros que em voos, desafiantes, passam num risco de asa e desaparecem por entre a folhagem de alguns pinheiros.

O calor é muito, as pessoas refugiam-se nas manchas das sombras das árvores percorrendo as paginas que, timidamente, a Internet deixa chegar, outros fecham os olhos e deixam embalar os pensamentos, numa espécie de modorra, que os possuem numa pachorrenta suavidade.

Muito raramente uma brisa, quente como o Sol, tenta amenizar o efeito mas é tão ténue e ligeira que, quando nos apercebemos, já passou sem mitigar um pouco a escalmorreira que nos abafa.

Estou debaixo de uma espécie de laranjeira brava, assim me parece, que me conforta com a sombra aconchegante, embora o meu desconforto e desassossegado, na cadeira, esteja a quebrar a quietude que encontrei.

Peguei no IPad e tentei tornar real a surrealidade deste quadro mas a inspiração, tal como o dia, deixa embotar as ideias e, uma espécie de letargia convida mais a uma sesta que a devaneios sobre o tempo, as aves, as sombras e até sobre o impaciente cão que sonha em voar para partir, com as rolas, ou compartilhar os ziguezagues dos melros negros onde umas pinceladas de amarelo, nas patas, quebram a monotonia desse luto eterno.

Finalmente o Sol encontrou o horizonte e deixou-se banhar nas águas distantes de um oceano de areia.

O calor, agora, foi enxotado por um vento que vai arrefecendo os corpos.

Ao longe descortino um Saará, a quem o sol vai dando os últimos retoques de um estranho dourado.

É o deserto que se vai escondendo nas sombras da noite.


(Escrito em 8 de Maio 2014 em Mirleft-Marrocos)