segunda-feira, 27 de julho de 2015

Nasce um Anjo……






E de repente as flores começaram a cair, de todas as cores, imensas  em nuvens de pétalas que cobriam o espaço como o esvoaçar de milhares de borboletas.

Delicadas, pareciam dançar ao som de uma melodia inaudível, como se o espaço existisse apenas para ser pincelado por esta miríade de cores, que doíam na intensidade de tons, fortes ou desmaiados.

Maria do Amparo, era pequenina, tinha só sete anos, e mais pequena se sentiu perante esta avalanche que continuava a pairar em magia e cor.

Apeteceu-lhe cantar, gostava e sabia cantar, mas não se lembrava da letra, tinha que ser especial tanto como o momento.

Olhou as cores, o aroma era tão suave e inebriante, mas a voz não saiu, nem conseguiu mexer os lábios, estava imóvel, apenas a visão da cor continuava.

Queria pensar mas não tinha memórias, apenas via o momento, a doçura, a melodia suave, tão suave que as pétalas pareciam dançar de uma forma que só ela conseguia cismar. Não sabia se estava a ver ou se era apenas uma imaginação onde, apenas, ela pertencia.

Queria olhar, em redor, mas não conseguia, era etérea, não sabia do corpo, era um brilho de estrelas que a levavam num suave levitar.

Deixou as flores, não havia mais pétalas, a melodia não era mais melodia, mas as memórias continuavam, tão ausentes como a própria imaginação.

Houve assim, como que uma dádiva, um momento terreno, uma visão que ia desaparecendo à medida que o túnel de luz se aproximava.

Era um campo, muitas cruzes, imensas flores e pessoas, muitas pessoas, que se afastavam taciturnas duma pequena campa, onde dois homens iam dispondo ramos de flores, muitas flores, de todas as cores.

Não viu mais nada, o túnel brilhante tinha chegado, fechou as pequenas asas brancas e entrou no paraíso.




domingo, 19 de julho de 2015

Um caso (Conclusão)












Agora a mãe teria que confirmar.




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O inspector Petronilho e o agente Martins vão ser os responsáveis pelas averiguações. É uma das melhores duplas da polícia judiciária.

O inspector é, um homem muito pragmático, prático e de grande eficácia. Não gosta do que parece é, para ele, só a certeza o motiva.

O agente Martins é um pouco o oposto, ao mais leve indício, pensa logo, que é uma certeza.

O chefe muitas vezes lhe diz:

-Martins, uma leve aragem não é prenúncio de uma tempestade!

-Bom, disse o chefe, vamos ver o cadáver e falar com o médico legista, sei que não aprecias mas tem que ser. Gosto de ver o aspecto para traçar um perfil do assassino.


-Oh chefe já me estou habituando, ao princípio é que era difícil.


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Apresentaram-lhe o cadáver de uma mulher, era difícil imaginar a idade pois tinha o rosto muito desfigurado.

Enormes hematomas nos braços, o peito cheio de vergões, parece ter sido flagelada.

Nada agradável de ver!

A família já a tinha identificado, era uma jovem de 20 anos, Tatiana Queiroz, tinha começado a trabalhar, no dia do homicídio, no Clube nocturno "VIP+".

O relatório da autópsia apenas referia que as causas, prováveis, da morte eram as múltiplas fracturas cranianas, feitas com um objecto metálico. A hora da morte entre as quatro e as seis da madrugada.


Foi encontrada, nas ruinas de um velho armazém, pelo Senhor Romeu, quando de manhã ia passear a cadela.

Ele explicou ao guarda:

-A cachorra, que não se costuma afastar de mim, hoje parecia estar maluca. Entrava no armazém, o que é perigoso, pois a todo o momento aquele telhado pode desabar. A câmara bem promete demolir, porque é um perigo mas agora só quando houver eleições é que fazem alguma coisa, é o costume. Mas, como estava dizendo, a fidalga entrava e ladrava como uma desalmada, pensei nalgum gato ou mesmo um rato, pois a bichinha não costuma proceder assim.
Com receio, pois aquilo é perigoso, espreitei e foi então que a vi, nem queria acreditar.
Prendi a cadela e telefonei à polícia.
Agora, garanto, nunca mais venho para estes lados.


Aguardavam-se resultados de análises a diversos órgãos para detectar possíveis drogas ou outros indícios úteis para a investigação, mas teriam que esperar entre 15 dias a um mês.


-Sabes Martins, vamos para o gabinete fazer um plano de acção. Temos que saber quem era a Tatiana, família, hábitos, amigos, namorados e tudo o que nos leve a conhecer como era a pobre coitada.
Vais falar com a família e tenta sacar o máximo.
Hoje, à noite, vamos ao Clube onde ela trabalhava.

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Foi difícil, o pai da vítima estava totalmente dependente, sentado num sofá olhava ao longe, como se não tivesse uma parede a limitar o horizonte, que parecia contemplar. A mãe, dona Mercedes dizia que não acreditava que alguém quisesse fazer mal à sua menina.

Ela bem avisou, que aquele emprego não devia ser coisa séria, estava arrependida do que lhe tinha dito, mas disse mesmo.

Que Deus a perdoe que não a queria ofender, mas disse mesmo, sim disse que parecia um emprego de puta, a fingir de menina séria. Como estava arrependida mas, a sua menina, decerto, já lhe tinha perdoado porque sabia que a mãe só queria o melhor.
Disse-lhe quem eram as amigas que conheciam, e os dois últimos empregos.

Foi empregada, numa loja de roupa de mulher, num Centro comercial, mas pouco tempo, pois não queria trabalhar ao domingo e outro, como repositora, num supermercado, mas pelas mesmas razões, desistiu ao fim de seis meses.

As amigas, poucas, estavam desoladas. Diziam que Tatiana era uma boa companhia, namoradeira, mudava de namorado como quem muda de camisa, mas era uma boa amiga.

O agente quis conhecer alguns dos namorados, mas eram tantos, que era difícil, resolveu, para começar, falar com o último.

-Então, perguntou o agente Martins, você foi o último namoro da Tatiana?

-Isso não sei! Respondeu Miguel, fui durante algum tempo, mas acabamos e, não sei nada da vida dessa chavala, desde que deu de froches.

-Então não sabes de nada da rapariga? Insistiu o agente.

-Népia! Andamos dois meses, tudo corria bem até que eu quis curtir e ai, ela bazou.

-Mas explica isso bem que não percebi! Essa de curtir e bazar não fazem parte do meu léxico! Diz tudo mas em língua adulta e de gente.

O rapaz pensou que o bófia estava a gozar, mas não tinha outro remédio. Explicou direitinho:

-A Tatiana é uma porreira e gira! Mas tem umas ideias um pouco fora de moda. Segundo me disse já teve muitos namorados e só com um, só mesmo com um, foi íntima e estava arrependida. Pensava que era mesmo para casar e depois descobriu, que o gajo consumia umas merdas e, que a queria arrastar para maus caminhos, dizia que com o corpinho que tinha podiam fazer uma pipa de dinheiro.
Ela, parece, que lhe deu com a mala no focinho e nunca mais quis saber do gajo.

-A partir dai, jurou-me que, namoro só mesmo para companhia e passear, nada de avanços sem ter a certeza de uma coisa, nunca me disse que coisa, mas acho, que queria uma aliança no dedo ou outra gaita marada assim do género.
Como disse até gosto da bacana, mas o namoro não é só conversa e tardes no café a enxotar as moscas, há outras coisas para fazer e ela nada, nem pensar, era uma autêntica crise. Acabamos, na boa, cada um foi à sua vida.

O agente não conseguiu deixar de sorrir:

-Muito bem Miguel. És Miguel, não és? Agora quase que percebi tudo. Mas diz-me onde estivestes na quinta-feira à noite?

-Onde estou todos os dias à noite. Na cama!
Tenho que me levantar cedo para ir bulir. Só às sextas e sábados é que posso dar um giro com a malta. Nas outras, às dez horas, a velha já não me larga até me ver a dormir.

-Sabes que eu posso confirmar isso?

-À vontadinha! Mas não entendo! Porque é esta coisa toda?

-Vou-te dizer, Miguel, porque já vi que não olhas os jornais! Mas ficas a saber que alguém assassinou a Tatiana.
Foi violada e desfigurada.
Mas eu vou descobrir quem foi, podes crer que vou!


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Já passava da meia-noite quando, o inspector e o agente, se identificaram aos seguranças do "VIP+". 

Foram chamar um tal Franquelim, era o gerente. Homem de boas maneiras, palavra fácil.

Subiram um piso para o escritório, luxuoso e com muitos monitores que davam uma panorâmica, muito próxima, de tudo o que se passava no salão.

-Podem estar à vontade, todos nós, queremos colaborar no necessário, a rapariga nem teve tempo de conhecer a casa, foi apenas uma noite de trabalho, tenho a certeza que a maioria, das meninas e dos funcionários, nem a chegaram a conhecer.

O inspector ouviu atentamente, sem nunca tirar os olhos dos monitores, depois olhou atentamente o gerente e perguntou:

-Essas coisas, todas, são só para o senhor ver? Ou também gravam?

-Não! Respondeu, não têm gravação, não é permitida. É só para vigiar e tomar medidas se houver algum problema. Esta casa tem um nome a preservar, frequência muito seleccionada e não queremos a mínima queixa.

-Bom, continuou o inspector, queremos falar com o pessoal que estava de serviço. Diga-nos quem eram que nós vamos falar com eles.

-Eu acompanho os senhores! Os que estão são os que estavam. Façam o favor!

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Pouco ou nada adiantaram, muitas das raparigas nem tinham dado pela nova colega, ou era muito tímida ou resguardou-se demais, os barmans tinham ideia, de servirem algumas bebidas, mas no meio da confusão, também, ficavam perdidos nas memórias e, disseram alguns, não devia ser assim  tão especial para ficar presente nos pensamentos.

Apenas um rapaz do balcão, que agitava freneticamente um shaker com bebidas se lembrava, perfeitamente, dela.

Diz que a viu muito inibida e deslocada, com o cu encostado ao balcão, sem saber bem o que fazer. Foi ele que lhe explicou como devia atacar, se queria continuar e fazer alguma coisa, pois assim não tinha grande futuro!

-E depois? Perguntou o agente. 

-E depois o que? Perguntou o homem do bar.

-O que acontece a seguir?

-Deve ter-se feito à vida, porque quando a voltei a ver estava atracada ao comendador, que vem todas as semanas. Apanha, uma bezana daquelas, e sai arrastado, pelos seguranças, antes que venha a carga fora.
Não voltei a reparar na pequena. Com tanto trabalho acabei, mesmo, por esquecer a rapariga.


Não havia duvidas. A Tatiana esteve no bar, privou com clientes mas ninguém sabe, ou diz que não. Ninguém viu, ou não quis ver, se saiu, quando saiu e com quem.

-Das duas uma, disse o inspector, ou falam todos verdade ou existe, uma espécie, de conspiração do silêncio. O que achas Martins?

-Sabe chefe, acho que a rapariga é mais uma vítima da crise!

-És mesmo um caso perdido! Que tem a crise a ver com estupro e assassinato?
Vamos esperar pelo relatório da autópsia, pelos resultados do ADN do semem do violador ou de algum milagre, que bem falta nos faz!


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Receberam, hoje, o resultado da autópsia e o relatório patológico. Extenso, minucioso e com conclusões que deixaram a equipa um pouco perplexa.

A causa da morte, afinal, foi asfixia, houve uma pancada na cabeça mas foi a asfixia que lhe tirou a vida. Todos os indícios levavam a supor que foi no local onde a encontraram, estava posta de parte a hipótese de ter sido levada depois de de cadáver.  O rosto foi desfigurado, após morte, com um objecto metálico, podia ser um tubo.
Não apresentava indícios de álcool ou drogas.
A vítima era seropositiva, tinha anticorpos no sangue, de agente infeccioso, mais propriamente vírus VIH, com a presença do antígeno viral  em nível sérico.

O agente Martins arregalou muito os olhos e perguntou:

-Chefe, quer dizer que a rapariga tinha SIDA, ou foi o violador que lha transmitiu?

-Tinha Marcelo, não foi ele! Tinha e sabia, vê o que disse o ex-namorado "ela não queria até ter a certeza de uma coisa", essa coisa era confirmar se estava infectada. Era isso Martins, era isso!

-Este processo está confuso, parece que andámos muito mas, não saímos do mesmo sítio, não temos suspeitos, nem testemunhas e nem sequer um leve indício que nos leve a uma pista.

-Chefe, disse o agente, ainda vamos conseguir chegar ao criminoso, e vai ter o castigo que merece. Vai ver que vai!

-Mas o criminoso já tem o castigo, respondeu o inspector, e muito grande mesmo. Nós pudemos não o apanhar mas, a doença já o apanhou, da SIDA já não se livra.
São desígnios de Deus!

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Já vai um ano decorrido, sobre o bárbaro assassinato da Tatiana, e muitas coisas foram mudando.

O pai, foi internado numa instituição para pessoas com demência, não reconhece ninguém, nem pequenos lapsos de memória.

A investigação não parou, totalmente, devido à teimosia do Inspector Petronilho, mas só por isso, pois os avanços não foram nenhuns.

O esquecimento ia apodrecendo as ideias, só a mãe continuava numa esperança, nem ela sabia bem qual, mas tinha fé que algo acontecesse e, que Deus pudesse castigar o maldito que lhe tirou a filha.

No Domingo ia mandar rezar uma missa, por alma do seu anjinho, já tinha avisado a família, alguns amigos, os vizinhos e, até aqueles senhores da Judiciaria, que tudo têm feito para descobrir.

Nada conseguiram mas têm tentado.


*******

A Igreja estava cheia, quase ninguém tinha faltado, até o senhor policia, Petronilho, estava ao canto, ao fundo da Igreja.

O senhor padre, Gregório, fez um sermão muito bonito, disse coisas lindas e deu a entender que a Tatiana estava, ali, no meio de todos.

Foi triste mas foi muito bonita.

Dona Mercedes só estranhou a falta da Dona Arminda e do filho, o senhor doutor Marcelo. 

Ela mandou avisar mas, se calhar, não disseram nada, ia perguntar à vizinha Jacinta, foi ela que se encarregou do recado:

-Jacinta estranhei a ausência da dona Arminda e do filho, será que te esqueceste?

Jacinta fez um ar muito pesaroso, quase de comiseração antes de responder:

-Então acha  que eu me ia esquecer? Nada disso, mas naquela casa as coisas estão muito mal, eles não contam, mas as pessoas falam, e sabem coisas. Parece que o filho está muito doente, fazem muito segredo mas todos já sabem. Parece que aquele rapaz, tão jeitoso, tem SIDA e está mal.
Veja bem a desgraça que havia de cair naquela gente.
Ai, ai, gente tão fina e depois não têm cuidado!
Só desgraças vizinha!
Só desgraças!





quarta-feira, 8 de julho de 2015

Um Caso













Não era esta vida que desejava, mas nunca foi bafejada pela sorte.

Tentou, até chegou a estudar, não muito porque as letras e os números sempre lhe fizeram muita confusão, mas com algum custo fez o nono ano.

Tentou muitos castings, parece-lhe que é este o nome, mas escolhiam, sempre, as gajas com mamas grandes e pernas longas e torneadas. Umas tontas, sem graça nenhuma, mas que arregalavam os olhos dos homens.

Homens? Bem, só alguns, pois os gajos, os tais que faziam os castings, tinha cá um aspecto de mariconços, que nem os pais deviam enganar.

Não tinha sorte, ainda tentou a moda, mas foi uma desilusão.

Respondeu a tantos anúncios que, pensa, se tivesse um bónus por cada um, não precisava de trabalhar.

Os pais davam o que podiam, em casa nada lhe faltava, mas era pouco, não tinha dinheiro nenhum e, nestas idades, há necessidades que vão para além das coisas que nos mantém vivos.

Sonhava, apenas sonhava, como nas histórias infantis que a tia Laura lhe contava ao serão, quando era mais pequenina. Havia sempre um cavaleiro, que aparecia do nada, e levava a dama na garupa para um reino encantado.
Mas a tia Laura, um dia, sem sequer se despedir, não teve tempo, fechou os olhos e partiu para um reino distante, onde decerto ia encontrar a felicidade que aqui nunca encontrou.

Mas ela continuava a acreditar que podia acontecer, não era necessário ser um cavaleiro de armadura reluzente, bastava um pobre diabo, que lhe estendesse a mão e dissesse:

-Anda!

Mas nada acontecia, apenas o rapaz do talho, em frente, a mirava com um olhar tão guloso, que a fazia sentir-se um “filet mignon”. E isso não era bom!

Se, ainda, fosse aquele que morava na vivenda da esquina! Aquele sim! Tinha estilo, bem aprumado, bigodinho à senhor Nacib, carro descapotável e aspecto de quem tem dinheirinho.

Mas nem sequer a olhava, desconhecia a janela.

Um dia perguntou à mão:

-Mãe, quem é aquele gajo que mora na vivenda e que tem um carro descapotável?

-Aquele, respondeu a mãe, não é um gajo! É o filho da dona Arminda, o doutor Marcelo, um grande filho e um grande homem. Aquilo sim é, um cavalheiro, a sério! Mas porque perguntas?

-Sei lá, respondeu, é giro!

-Pois é, mas não para o teu dente!

*******

Agora estava com esperança, respondeu a um anúncio, para relações públicas, e marcaram uma entrevista num hotel.
Estranhou ser num hotel mas, o senhor Policarpo, vizinho do lado, explicou que era normal alugarem, salas de hotel, para essas coisas de entrevistas.
Ficou mais tranquila, o vizinho era pessoa entendida, dizem que foi escrivão num tribunal, mas agora está reformado.

A entrevista foi um bocado estranha, era um tipo de relações públicas que não sabia que existia mas, o doutor Eduardo, foi assim que disse que se chamava, explicou que não tinha nada de mal.

Só tinha que ser simpática, dar atenção aos clientes, fazer com que bebessem, quanto mais melhor eram as comissões.

Elas podiam pedir bebidas à vontade, eles pagavam, elas recebiam percentagens e não tinham que se preocupar, pois, para elas vinha água colorida. E que eles pagavam como se fossem cocktails caros.
Quanto mais melhor, maiores lucros, muitas comissões.

E tinham a promessa de poderem estar tranquilas, porque os seguranças estavam atentos.

Aceitou, precisava de ganhar algum. Experimentar não fazia mal.

Convencer a mãe foi mais difícil, já estava arrependida de ter contado como era, podia dizer que ia tomar conta de uma velhota. Mas não disse, não sabia que ia reagir assim.

-Sabes! Exclamou a mãe, vais fazer um papel de puta, com capa de menina séria! Ainda bem que o teu pai não sabe, porque doente como está dá-lhe, de vez, uma sulipampa ou um chilique que se fina.

Nunca tinha ouvido tais palavras na boca da mãe, nem estas, nem qualquer outra asneira. A mãe nunca as dizia.

**********

Hoje é a primeira noite de trabalho. Estranho mas é mesmo assim, os bares abrem à noite, não se pode dizer o primeiro dia de trabalho. De verdade não soa muito bem.

O bar era enorme, e o luxo estava presente em cada pormenor. Os dois gigantes, que estavam à porta, eram rigorosos nas entradas, quem não tivesse cartão VIP não devia, sequer, tentar.

Depois de olhar para as colegas, reparou que a roupa não era a mais adequada e, mesmo assim, escolheu a melhor e mais arrojada mas, há coisas que se notam e, a dela, tinha um pouco do sotaque de loja de chinês.
Logo que tivesse dinheiro ia remediar, aliás, tinha dito ao doutor Marcelo, que no princípio tinha que aprender para depois ser perfeita.

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Estava num total desespero, todas as colegas tinham companhia, faziam charme com companheiros barrigudos, que bebiam e se babavam olhando, gulosos, os exagerados decotes das meninas.

Um dos moços, do bar, notou o desespero e tentou ajudar:

-É o teu primeiro dia e nunca trabalhastes nisto? Tens que espevitar ou chegas ao fim do dia e não fazes nada.
Fica mais fluida, não te encostes ao balcão e quando um bacano entrar vai à luta.

-Mas vou à luta como?

-Indo! Pensas que vêm ter consigo? És mesmo totó! Quando um bacano cruza aquela porta atacas, sacas o gajo pelo braço, fazes um sorriso clorofila e leva-o para uma mesa.
Deixa que te veja bem as mamas e toma conta da conversa. Chama-lhe fofo, ou outra merda assim, fazes sinal ao empregado para pedir bebidas e deixa correr.
Se o tipo começar a trepar finge-te séria porque eles, às vezes, acreditam.


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Entrou um tipo gordo, mais careca que uma bola de bilhar. Olhos papudos e umas rosáceas que lhe davam um aspecto nojento. Mas é um começo!

Agarrou, com timidez, o braço e com o melhor sorriso, que conseguiu, foi-o encaminhando para uma mesa vazia.

Olhou-o, dengosa, e perguntou:

-Ficamos bem aqui?

-Onde quiser amor, respondeu. És nova? Não me lembro de ti, mas gosto da tua companhia.

Ela chamou o empregado e pediram. Ele quis whisky velho com pouco gelo, ela um pouco atrapalhada, disse que queria o costume. O empregado percebeu.

O gordo era demasiado ousado e, não tardou, tinha as mãos passeando nas pernas da rapariga.

Tatiana ficou atrapalhada, sem saber o que fazer, não queria mas era o elo mais fraco. Valeu um dos seguranças que se aproximou e, dedicadamente, avisou:

-Senhor Comendador aqui não toleram avanços, lá fora é da vossa responsabilidade, mas cá dentro o maior respeito!

O tal Comendador, ela nem sabia o que era isso, colocou as manápulas na mesa e com o sorriso mais asqueroso possível prometeu:

-Quando sairmos daqui vou levar-te ao céu!

Continuou a emborcar, whiskeys, como se tivesse medo que acabassem. Ela, ia bebendo uma coisa avermelhada com um leve sabor a groselha.

Duas horas depois, os seguranças, ajudaram a arrastar o comendador, para um carro, que com o motorista o esperava à porta. Parece que já era habitual.

Mas a noite aparentava estar a correr bem, O que aquela besta bebeu devia dar uma boa comissão.

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Entrou outro cliente. Este tinha estilo. Entregou à menina do bengaleiro, o chapéu e um enorme lenço branco que trazia à laia de cachecol. Fazia lembrar um filme muito antigo, que viu na televisão, com um tal Clark  Gable, que fez a mesma coisa quando entrou num clube de gangster.

Ia atacar, avançou e, desta vez, com mais à vontade, deu o braço e perguntou:

-Será que a minha companhia lhe agrada?

-Agrada muito! Respondeu.

Este sim, era um homem a sério e, o mais estranho, não lhe era, totalmente, desconhecido e ele, pela forma como a olhou, reparou nisso e não se conteve:

-Eu parece que te conheço! Tu és a filha da dona Mercedes? Ela não deve saber que trabalhas aqui!

-Sou! Ela sabe e não sabe, eu disse-lhe, e além disso não faço nada que a envergonhe. Agora já me lembro do senhor mas, sabe como é, também não o imaginava aqui.

-Gostei, boa resposta mas não venho muitas vezes, só de vez em quando também, para desanuviar as ideias e um copo e uma boa companhia ajudam. Vamos pedir para beber, eu preciso da bebida e tu da comissão.

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Foram duas horas de conversa, ele bebeu bem mas, reparou, evitou muito o álcool.

Olhou o relógio, maneou a cabeça, e perguntou:

-Queres que te leve a casa, ou te deixe nalgum lado? Não penses mal, mas estou apenas a oferecer boleia. Gostei da sua companhia, foi agradável mas é tudo!

-Obrigada, vou aceitar. A estas horas só de táxi, porque a pé é arriscado.

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Dona Mercedes estava desesperada, a sua Tatiana ainda não tinha aparecido. Sabia que trabalhava de noite mas, às oito da manhã, já devia ter chegado.
Ligou, muitas vezes, para o telemóvel. Vai, sempre, para as mensagens. O emprego não faz ideia onde é, a filha nunca lhe disse.
Não sabe o que fazer, com o marido não pode contar, já não diz coisa com coisa, está demente e nem sequer se lembra que tem filha.

Vai telefonar ao cunhado Elói, é polícia, sempre a pode ajudar.

*********


Recebeu a notícia ao fim do dia. O pobre Elói foi o portador.

Encontraram num, armazém abandonado, o corpo de uma rapariga, com sinais de grande violência, rosto desfigurado e indícios de violação.

Ele, tio, fez o reconhecimento e não tinha duvidas era a sobrinha.

Agora a mãe teria que confirmar.


(Volto para a semana, vou tentar descobrir o assassino)





segunda-feira, 22 de junho de 2015

Confusão























Hoje, dia 24, o meu Blogue completa 7 anos.
Maravilhosos pelos amigos que fui encontrando, pelo estímulo e amizade.
Obrigado a todos.





A tarde estava muito quente, se não fosse uma ligeira brisa que o renque de árvores, da frente, nos oferecia seria, quase, insuportável.

Apetecia-lhe uma bebida, não que fosse pessoa de beber, mas hoje tinha esse desejo.

Pensou num whisky, mas detestava, um gin-tónico vinha a propósito mas, foi proibido pelo médico por causa dos rins, o melhor era mesmo um copo de água.
Ia saber-lhe bem mas a preguiça venceu a vontade, não lhe apetecia levantar o rabo da cadeira, ficou pelo desejo.

Antes não era assim, estava sempre pronto à acção, motivava-o, corria, surfava e uma serie de coisas para manter a forma.
A mãe dizia: "Rapaz parece que tens bichos-carpinteiros"!

E parecia mesmo!

Tudo mudou, não foi de repente, aconteceu assim, pouco a pouco.
Primeiro tentou reagir, ser forte e parecia estar a conseguir.
Pegava na bicicleta e saia, disparado, na tentativa de que o pedalar concentrasse todas a atenções, mas em vão, os pensamentos estavam  tão distantes que se esqueceu que devia travar a roda traseira e a queda, embora aparatosa, apenas lhe feriu o amor-próprio.

Ficou envergonhado com os risos dos outros, para piorar, a roda da frente entortou e teve que carregar, o velocípede, às costas.

Foi direita para a arrumação, nada de ciclismos.


Pensou em pegar na prancha e ir até ao mar mas, não tinha disposição, a imensidão do oceano ia aumentar a solidão que tinha tomado conta do seu ser.

Era estranho, não sabia bem os motivos desta apatia, espécie de angústia, que o sufocava num género de agonia.

Tinha amigas, muitas mesmo, e os convites para festas e saídas eram constantes, mas não, ia arranjando desculpas e acabava os serões em casa olhando, muitas vezes sem ver, aquelas series que a televisão ia impingindo.
Acabava por adormecer.
Amigos? Não tinha muitos, apenas um que vinha de infância, não sabe bem porque, acontecia, mesmo na faculdade eram mais as colegas com que se relacionava.
Não sabia bem porque, pois nunca teve problemas, ou preconceitos, mas sentia-se mais confortável relacionando-se com as raparigas.

Era uma questão de sensibilidade, elas eram mais intuitivas, gostavam de falar de assuntos sérios, ao contrario dos rapazes que só falavam de gajas e, às vezes, para variar de futebol.

Tem, ou teve, um amigo de infância, o Fausto, que o acompanhou no secundário e depois, na Faculdade, durante o curso.

Eram muito chegados, muitos pensavam que demais. Mas não!
Eram apenas amigos, que compartilhavam muitos gostos e gostavam de praticar desporto em conjunto.

Ao fim dos dias, sábados e domingos, não perdiam umas boas ondas para surfar, ou um passeio de BTT por montes e vales.

Mas, até isso, acabou porque o Fausto, acabado o curso e ouvindo o conselho de um tal Passos Coelho, pegou na bagagem e imigrou na procura daquilo que lhe tinha prometido e que agora lhe negava. Trabalho.

Não se arrependeu, encontrou e está feliz, não se lamentava por ter seguido o conselho, de um mentiroso, pois leu num jornal que o tal diz que não disse, mas não se admirou, pois o tipo, é perito em não fazer o que disse e, até, em dizer que disse o que nunca disse.

Para Almerindo, a partida do Fausto, foi um rude golpe, o único amigo verdadeiro, parceiro de tantas horas de estudo e aventuras radicais.
Para ele, Fausto, era o irmão que sonhou e que, possivelmente, a separação dos pais, nunca deixou.

Podia ter emigrado, também, a amigo insistiu, tinha lugar na mesma Empresa, mas a mãe já não era muito nova e precisava muito dele.

Não queria emigrar, mas desejava muito, mesmo muito, ir para junto do amigo, mas não podia, a vida de quem lha tinha dado precisava dele.

Deixou de atender às chamadas do amigo, não respondeu mais aos emails.
Sofria! Mas tinha descoberto que não há, na vida, impossíveis.

Ele já desconfiava que havia algo de diferente, lutou sempre contra isso, não queria admitir, pensava que eram apenas devaneios, próprios de alguma imaturidade, de dúvidas sobre os mistérios que a vida nos reserva.

Almerindo tinha a certeza, agora tinha, ou pela primeira vez quis assumir.
Para já perante ele. Pois para o mundo ainda não estava preparado.

Era gay e estava apaixonado pelo Fausto.

Não lhe ia responder, não atenderia mais o telefone.
Ia esquecer. 

Almerindo era casado e muito feliz.





quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Segredo ( Afinal havia um)









As coisas não ficaram fáceis.

A pouco cumplicidade que, apesar de tudo existia, morreu nesse momento.
Raimundo, o bem comportado, rompeu as regras e estava arrependido, mas agora nada podia fazer, já estava feito.

Mónica, olhou o irmão num misto de ódio e desprezo, atirou-lhe à cara o que restava do café, levantou-se, furiosa, praguejando:

-Nunca tive duvidas, és um maricas camuflado, um lambe cús, um fingidor, sonso e falso como um judas. Tenho nojo de ti e vou fazer da tua vida um inferno! Vais-te arrepender para sempre!

Bateu com a porta e desapareceu.

***

Foi mudar de roupa, o café que a irmã lhe atirou fez os seus estragos. Não parecia preocupado, estava habituado ao chorrilho de ameaças constantes, era por tudo e por nada. Mas ela precisava dele e muito, quando estava falida, o que era constante, retirava as ameaças e aparecia mansa como um cordeiro. 

"Sabes mano que um dia te pago tudo, com juros, mas preciso de duas notas de 20 Euros."

E, isso, ia acontecer, mais cedo ou mais tarde.

Mas agora ia ser duro e inflexível, nem um tostão mais, nem a ponta de um corno. Se queria ter dinheiro que fosse trabalhar, em vez de andar a roçar o rabo, com o namorado, pelas esplanadas e a fazer vida de menina rica.
 
Ela, agora, pensava que era treta, mas não, ele tinha um segredo, um segredo, que guardava porque precisava de certezas, absolutas, e ainda não as tinha. Mas ia ter, não tardava, ia ter!

Agora não está feliz, muito pelo contrário, adora a irmã, embora reconheça que ela não é flor que se cheire, é egoísta, só pensa no próprio bem-estar, mas é a mana mais velha.

Não foi, sempre assim, o namoro é que a modificou, da irmã carinhosa, e protectora, tornou-se uma mulher calculista e, um pouco, gananciosa.

A mãe, um dia, perguntou-lhe porque não trazia o namorado cá a casa, para o apresentar à família. A resposta não convenceu. Disse, que ele, só iria quando a fosse pedir em casamento. Quem podia acreditar nisso.

Raimundo é uma pessoa pacífica, parece um deixa andar, mas puro engano, está sempre atento, observa e tenta perceber todas as situações de uma forma subtil, sem deixar rastos.
Muitas vezes pensa, perdoando a redundância, se fosse um psicólogo, era um bom psicólogo.

Ele ama a irmã mas não compreende a mudança, desde que anda com esse tal Daniel, um gajo de mau aspecto, tipo chulo.

Raimundo conheceu-o por acaso. Foi num domingo, que viu a irmã toda agarrada a um tipo a caminho do metro, tão absorvida que quase chocava com o ele sem o ver.
Teve que a acordar:

-Então Mónica não falas ao mano?

Notou que ela ficou um pouco constrangida, mas emendou a tempo:

-Tu aqui? Não estava à espera, vou ao cinema com o meu namorado! Olha apresento-te o Daniel, o meu querido!

O tal, Daniel, olhou-o de alto-a-baixo antes de lhe estender a mão, balbuciou um muito prazer, pegou no braço da Mónica e seguiram no caminho das escadas do metro.

Raimundo ficou muito desiludido, não esperava grande coisa mas era muito pior.
Untuoso, ar encardido, aspecto de cão vadio.

Não gostou, nada mesmo, não era homem para a irmã, mas nada podia fazer, ela era grande para saber o que queria, só era pena não escolher o que devia.

Nessa noite, a Mónica, estava mais atenciosa do que era normal, quase simpática. Estava ansiosa pela chegada do irmão, mal ele abriu a porta:

-Então Raimundo, que me dizes do meu Daniel?

-Não tenho nada para dizer, é a tua escolha, tu é que sabes! A propósito o que é que ele faz? Qual é o trabalho dele?

Mónica rasgou um sorriso, de orelha a orelha, mas respondeu:

-O meu Daniel não faz nada, a não ser gerir as fábricas do pai que é muito rico. Ele é o único herdeiro e, um dia, será tudo dele. A agora só tem que tomar conta e dar ordens para os outros cumprirem. É um senhor!

-E, tu, mana já conheces os teus futuros sogros?

-Em breves todos nos vão conhecer, o meu Daniel vai preparar uma festa para me pedir em casamento e, todos se ficam a conhecer.
 Não tarda vamos ser uma família!


******

As coisas não estavam famosas mas havia uma aparente calma que, de repente, desapareceu com aquela mensagem que não devia ter espreitado. Jura, que não foi com intenção de bisbilhotar foi, mais, para acabar com o barulho irritante do aviso do telemóvel. Fez mal, reconhece, mas também foi muita falta de prudência mandar uma mensagem dessa forma, sujeito a acontecer o que acabou por suceder.
Podia ter telefonado, seria mais seguro.

Agora não tinha outro remédio, tinha que ir adiante, tinha que arriscar, sem ter certezas absolutas, mas estava certo de poder avançar com o que tinha, até agora, descoberto.
Foram muitas horas de espera, espreitar pelas esquinas, seguir, com todos os riscos, o alvo da sua investigação.
Ainda havia pontos que precisava de acertar, melhor, mas não tinha tempo e, sabia que, um descuido lhe podia sair caro. Muito caro mesmo.

Hoje mesmo, ia armar-se em Hercule Poirot, vai avançar e libertar a irmã duma situação e livrar-se ele, ele próprio, duma enrascada onde se meteu sem saber como sair.
Seja o que Deus quiser!

Mal a irmã chegou, nem a deixou pensar:

-Preciso falar, contigo, com muita urgência, é muito importante! Vem ao meu quarto sem os pais perceberem! É muito importante para ti!

Módica encarou-o de fronha franzida, antes de responder:

-Se é para pedires desculpa prepara-te, porque comigo tudo tem um preço.

-Anda, não sejas parva, confia no mano.

Fechou a porta antes de começar:

-Tu não és a melhor irmã do mundo, mas és a minha e eu gosto muito de ti.
Gosto tanto, que me sujeitei a alguns perigos para descobrir a verdade, pois as desculpas do teu namorado não são normais, não convencem, pelo menos a mim. Tu andas cega e acreditas em tudo o que te diz.
Achas normal não saberes nada da vida dele? Acreditas nessa de te pedir, em casamento, num festa com toda a família? Acreditas?
Estás mesmo cega!
Eu não acreditei e, não gostei nada da pinta do gajo, fui à procura e descobri tudo.
É esse o segredo que me tem andado a engasgar, o segredo que tu querias mas que eu queria que não fosse verdade.

-Deixa-te de merdas, disse Mónica, o Daniel é o melhor que há no mundo e não penses que me vais fazer mudar de ideias, ele é o homem da minha vida é o que eu escolhi para casar, não percas tempo com tretas.

-Ouve rapariga, gritou Raimundo, ouve o resto. Ouve com atenção! O teu Daniel é um fantasma, não existe, tu andas com um Viriato, um fulano que nunca trabalhou a vida e que mora, na Quinta do Mocho com a mulher e dois filhos menores.
É este o meu segredo, agora já o podes usar, tenta fazer o dinheiro que querias.

Tenho pena mas é o meu único segredo!


terça-feira, 26 de maio de 2015

O segredo














Não lhe apetecia falar, não o podiam obrigar, por isso, ia ficar mudo como uma mosca morta.

Ele estava atento e percebia a forma indirecta como o abordavam, sub-reptícia e camuflando as intenções. Mas estava preparado para tudo e nem com ameaças ou promessas ia abrir a boca.

A verdade é que não sabia nada mas, os outros, pensavam que sim e ele alimentava essa convicção, sentia-se importante e gostava.

Fazia um ar circunspecto, misterioso e, por dentro, ria com o gozo da situação.

A mãe era a mais descarada, não fingia, era directa e insistia:

-Mas Raimundo porque não conta tudo à mãe?
Podes confiar em mim que eu não digo nada a ninguém! Em que problema estás metido, filho? Já sabes que a mãe te ajuda!

Sorria. Um esgar, um pouco sacana, mas era o suficiente.

-Mas o queres que conte? Sabes, bem, que não posso, fiz uma promessa! Concluiu Raimundo, com uma gargalhada.

Ao jantar ele percebia os olhares da irmã, até parecia ouvir-lhe os pensamentos, pareciam moedas tilintando num bolso imaginário. A irmã, Mónica, só pensava no dinheiro que lhe podia render, se soubesse, o que julgava que ele sabia.

Não se importava nada de esmifrar, fosse quem fosse, para estar calada e não badalar se isso desse algum lucro.
O parvo do irmão devia saber tudo, sabia quase de certeza, senão a agitação que percebia, nos outros, não fazia sentido. Não sabia o que era, o que podia ter acontecido mas, tinha a certeza, que era um grande furo que podia dar umas boas notinhas.

O irmão era um parvo, dos grandes, se fosse esperto partilhava com a mana e ela se encarregava de sacar umas massas e, ele, podia continuar a fazer o papel de santinho, bem comportado. Mas o tipo não confiava e não sonhava alto.

Ela já tinha o filme todo, feito na cabeça, ou a mãe tinha posto um par de chavelhos no pai, ou o contrário, o pai andou em algum enrolanço e o gajo topou.

Havia de descobrir, não sabia como mas ia conseguir saber tudo.

Agora havia uma coisa que lhe bailava na cabeça, se o pai e a mãe pareciam receosos era porque não estavam tranquilos, alguma tinham feito.

A mãe não acreditava muito, ela tinha olhos de quem gostava mas, dai a fazer uma escapadinha não lhe parecia. Já o pai era capaz de tudo e um pouco mais, ela topava os olhos dele e a forma como se babava quando a vizinha, do andar de baixo, estava à janela com as mamas a quererem saltar pelo decote.

******

Raimundo estava metido num sarilho, começou com uma brincadeira, parva,  mas uma brincadeira.

Um dia chegou a casa com cara de caso, ar enigmático e um bocado misterioso.

A mãe, sempre atenta aos filhos, perguntou:

-Raimundo que se passa? Parece que vistes alguma aparição!

Fingiu um ar compungido, coçou a cabeça, junto à testa, e deixou sair com um suspiro:

-Ai mãe se eu pudesse falar! Mas não posso porque muitas desgraças podiam acontecer.

A mãe ficou arrepiada, mas pensou que fosse mais uma aparvoada do rapaz e não ligou.

Raimundo arrependeu-se mas estava dito e, agora, nada havia a fazer.

A irmã, ele bem a ouvia, entrava no quarto às escuras e ia vasculhar-lhe a roupa, mirava todos os papéis na esperança de encontrar uma pista. Ele fingia dormir enquanto abafava um riso de gozo. Era lixada, não vendia o pai e a mãe, porque sabia, que ninguém os comprava.

O pai está na fase de só gostar de ver e a mãe no deixa andar, já não têm mercado.

Raimundo está, como que entalado, meteu-se em trampa, até ao queixo, e agora esta com medo das ondas, para não se engasgar com a agitação da maré.

Mas já que que começou vai aguentar, o máximo, até dar, depois alguma coisa deve acontecer, logo se vê.

*****

E aconteceu, coisas do acaso ou desígnios de Deus, mas a verdade é que o pseudo segredo, do Raimundo, acabou por acontecer.

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Foi por acaso, ouviu o som de mensagem no telemóvel da irmã, não devia, mas foi espreitar e antes não o tivesse feito, pois ficou a saber o que não queria.

Mas agora tinha um segredo, não estava feliz, mas tinha acontecido e o segredo existia.

******

Foi no Domingo, os pais foram à missa, iam sempre à das nove horas. Não era, propriamente, por devoção  mas parecia bem e era uma forma de socializar com as pessoas chiques.

A irmã, como sempre, foi a ultima a sair do quarto, desgrenhada e com os olhos inchados de dormir.

-Até que enfim que te levantas, disse Raimundo, estava a ver que fazias uma directa!

Ela, esfregou os olhos, antes de responder:

-Sabes menino quais são as duas melhores coisa do mundo? Não deves saber mas são as duas feitas na cama, uma não te posso dizer, a outra posso: É dormir!


Foi direita à casa de banho, demorou meia hora mas valeu a pena. Saiu outra, cabelo composto, olhos arranjados e cara pintada. Aspecto de gente.

Sentou-se, à mesa, e começou a barrar uma torrada. Mesmo de boca cheia tentou a sorte:

-Sabes, mano, que eu ando a precisar de uns dinheirinhos e tu podias, também, receber algum. Que dizes?

-Nem tenho assim nada de especial, mas dinheiro faz sempre jeito! Respondeu o irmão.

-Então conta, à mana, o segredo que sabes do pai ou da mãe e eu, sacana como sou, faço uma pequenina chantagem e saco algum que pudemos dividir. Que dizes?

-Sabes, Mónica, que por acaso, sei um segredo e grande. Mas tenho a certeza que não consegues com ele sacar dinheiro a ninguém.

-Parece que não me conheces, mas podes ter a certeza que consigo. Conta lá!

-Queres que conte, então aqui vai:
O Daniel, o teu namorado, diz que já tratou com uma parteira de tudo, podes ir quando quiseres tratar do teu problema.

-Tenho razão ou não?





domingo, 17 de maio de 2015

Chamamento














Já estive aqui, pensou. Não era muito dado a fixar os lugares, mas este tinha algo que lhe avivava as recordações, era uma espécie de odor que o cérebro guardava num casulo e que estava a libertar para lhe despertar a imaginação.

Sentia no ar memórias, difusas que queria mas tinha dificuldades em descodificar.

O largo tinha lembranças, o velho banco do jardim era diferente, na altura era de madeira pintada de verde e este é de pedra, branca, polida. Os canteiros não são os mesmos, abunda a relva e pequenos arbustos trabalhados, em figuras simétricas, mas na recordação estão presentes renques de amores-perfeitos, sardinheiras, salpicando, de vermelho vivo o verde dos rododendros que, ainda, escondiam os botões rosas prestes a florir.

Tudo tão diferente e, ao mesmo tempo, tão igual ao que resta na memória gasta pelas recordações.

Foi ali, naquele prédio, agora tão diferente! A pintura amarela substitui, os azulejos de flores azuis que naquela época cobriam as paredes. As janelas, de guilhotina, foram trocadas por molduras de alumínio fosco com persianas brancas.
Só a porta se mantem, no mesmo verde-escuro, com molduras de vidro martelado e batentes de punhos fechados.

Não sabe bem o que fez voltar, para estes lados, ao fim de 60 anos, foi um chamamento, uma força interior que o conduziu como, se fosse guiado, por algo muito superior.


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Pois, pensou, Januário. Fora aqui, neste jardim, junto a esta porta verde que faz, hoje, 60 anos conheceu  a Mafalda.

Lembra-se bem quando cruzou aquela porta e os olhos se enfeitiçaram uns pelos outros, foi lindo, mágico e para a vida.

Ela era, como se dizia, criada de servir, ele magala, de infantaria, e com guia de marcha para a guerra colonial.

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No dia em que embarcou, Mafalda estava no cais, chorou como todas as mulheres que viam partir, os maridos, namorados ou os filhos.

Jurou que iria todos dias, à Igreja, acender uma velinha a São Jorge, padroeiro dos soldados, para que trouxesse de volta, são e salvo o seu Januário.

Não se sabe se, São Jorge, ouviu a preces, mas passados 10 meses, de comissão, o jeep onde Januário seguia pisou uma mina, foi pelos ares, o condutor perdeu uma das pernas, mas ele, embora muito mal tratado, salvou a vida.

Foi desmobilizado e pode voltar para os braços da sua amada para num casamento, simples juntarem as suas vidas até que a morte os separe. Como o senhor padre disse.

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Hoje, está aqui, não sabe porque, foi uma força invisível que lhe orientou os passos. Não foi fácil, as pernas já não obedecem, é um velho cajado que o vai amparando.
Mas está onde tudo começou, é como uma homenagem, à Mafalda, que uma doença ruim levou vai fazer um mês.

Está muito cansado, a idade, os ossos, os sentimentos e as emoções são demasiado para as suas, fracas, forças.

Sentou as pernas doridas, no frio da pedra, do único banco vazio, e deixou o cansaço fazer o resto.

Fechou os olhos, sentia o odor dum perfume que bem conhecia, uma música suave que lhe embalava o sono que o estava a invadir.

Sentiu-se levitar, a mão de Mafalda segurava a sua, delicadamente.

Olhou para trás, o seu corpo continuava o sono no banco frio do jardim.

Mas ele subia, subia sempre, embevecido no sorriso, doce, da Mafalda.