terça-feira, 11 de Novembro de 2014

A Vida - Parte 7






-Como? Perguntou a mãe, enquanto ia desfalecendo e caindo como um boneco de gelatina deslizando no soalho.




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Difícil de descrever a cena, dramática e ao mesmo tempo com um aspecto de tragicomédia. Inusitada.

A mãe estatelada, mas com estilo, conseguiu cair de forma calma e cautelosa, diria mesmo, com arte.

Depois arfou, abriu os olhos e com uma voz sumida, muito forçada perguntou:

-Mas o que aconteceu, porque estou estendida aqui? Devo ter sonhado, ouvi um nome mas não acredito, alguém quer brincar com os sentimentos mais íntimos de uma mãe!

Joana não se conteve e comentou:

-Mãe, como actriz não é grande coisa, aquele pseudo-desmaio foi muito mal encenado, tão mau que nem eu nem o pai ficámos convencidos.

-Mas o nome do Albino Malcata como te veio à ideia? Perguntou a mãe.

Joana respondeu:

-Existe, conheço-o, tem os teus olhos, pode ser o filho que nunca dissestes ter, no mundo de mentiras onde me tens criado.
Ele descobriu, ainda bem, porque eu começava a gostar dele e, tenho a certeza, que o sentimento era reciproco. Já vistes o que podia acontecer?

Maria do Rosário começou num choro convulsivo, Joaquim, o marido tentou acalmar mas, de verdade, sem muito jeito.  Mas fazia esforço com palavras de conforto:

-Tem calma amor, vamos falar todos, explicamos à nossa filha porque guardamos segredo e ela vai perceber. Tem calma, agora vai descansar e amanhã, com a cabeça mais fria, falamos os três.

********

A manhã acordou cinzenta, tão parda como os pensamentos da Joana. Foi uma noite para esquecer, um turbilhão de ideias.
Ainda se levantou e foi tomar um daqueles comprimidos da mãe, parece que é um Lexotan, mas devia estar falsificado pois só adormeceu às 4 horas da manhã.
Levantou-se, totalmente, pedrada.
Tinha esperança que um café lhe desse discernimento, para enfrentar o que vinha a seguir.

Os pais já estavam à mesa, o pequeno-almoço estava pronto, só faltava o café, mas estava preparado, era só ligar a máquina, ainda tinham o sumo de laranja para começar.

-Olá, disse Joana, enquanto depositava um beijo na bochecha de cada um. Estou cheia de dores de cabeça, só vou beber um café e sigo para a faculdade, tenho duas aulas muito importantes.

A mãe não se conteve e quase gritou:

-Não vais sem me dizeres onde posso encontrar o meu filho! Levei a noite em claro à espera deste momento.

-Sabes mãe, disse Joana, quem esperou 25 anos sem grandes preocupações, pode esperar mais umas horas.

Pegou na pasta e saiu porta fora sem se despedir.


*******


Mal saiu de casa pegou no telemóvel e ligou para a doutora Cândida, quando lhe ouviu a voz, atirou:

-Bom dia Cândida, a minha mãe quando eu disse o nome do presidente teve um chilique, ou fingiu, e já admitiu ser o filho.
Quer saber onde está. Agora estou num dilema, ou trilema, ou sei lá o que. Não sei o que fazer!

A doutora ficou por breves momentos em silêncio, Joana pensou que não a estava a ouvir. Insistiu:

-Cândida, não me está a ouvir?

-Estou Joana, estou! Fiquei sem saber o dizer, embora já estivesse à espera. Queres que eu te arranje uma entrevista com, o agora, teu irmão?

-Não é preciso Cândida, eu vou telefonar-lhe, tenho o número do telemóvel. Obrigado e um beijinho.

*******

Não foi fácil, sempre ocupado, foi necessário insistir até que à oitava vez atendeu o telemóvel, com uma voz sussurrada perguntou:

-Vai-me dizer quem fala? Não conheço esse número!

Joana ficou na dúvida, não sabia exactamente como responder mas atreveu-se:

-Peço desculpa por incomodar, sou a Joana dos Reis, podia dizer que sou a sua irmã Joana mas, se calhar, ficava chocado!

O senhor Presidente adoçou a voz antes de responder:

-Quer dizer que eu estava certo? É mesmo a minha mãe, quero dizer a nossa mãe? Olha Joana no meio de tudo isto, desta desgraça, há uma coisa boa, ganhei uma irmã formidável, simpática e muito bonita.

Joana gostou, mas não quis dar a notar, podia ser apenas uma frase de circunstância.

-Obrigada senhor doutor, mas o que faço agora?

Mudou o tom da voz para responder:

-Joana agora para ti sou Albino, apenas Albino. Não gosto do meu nome mas é o meu. Quanto ao resto não vais fazer nada, dizes que vou estar fora alguns dias.
Depois telefono para este teu número donde me estás a telefonar.
Desculpa mas preciso pôr todas as ideias, primeiro, em ordem.


********

Era curioso mas Joana estava feliz, tinha desde o primeiro momento sentido uma grande atracção pelo presidente, para ela agora era o Albino, mas essa atracção, pensava, eram apenas desígnios de Deus.

Tinha que pensar no que dizer à mãe, ela é um pouco despegada e fria, mas quando  empreende, seja no que for, é determinada e de uma persistência difícil de controlar.

Tem rotinas e sempre que lhas quebram sente-se vitimizada, não age por impulsos, programa a sua vida sem pensar que os outros também existem.

Mas logo pensava melhor sobre o que inventar, já estava em cima da hora para uma aula da cadeira de Hematologia.

******

Era só que o lhe faltava, estava a cruzar o portão quando em frente à Faculdade estava, como um paspalho, o Maurício.

Não gostou nada, parecia que a andava a controlar e para isso já bastavam os pais, foi mesmo um pouco agressiva:

-Não tenho paciência para ti, nem paciência nem tempo, por favor dá-me espaço e deixa-me viver a minha vida, da qual há muito deixastes de fazer parte.
Se continuares nesta perseguição tenho que me chatear de verdade!

-Eu vinha em paz, Joana, estava até a pensar dar-te uma ultima oportunidade para voltares e, vens com essa treta de ameaças, não tenho medo que te chateeis, se calhar pensas que o teu bonitão te vem proteger, até gostava para lhe dar uma lição para aprender a não sacar as miúdas dos outros, podes ter a certeza que não roubava mais nenhuma.

Joana ouviu com um sorriso, que estava a enervar Maurício, mas era propositado, estava mesmo a provocar.

-Tens razão, é mesmo bonitão e, agora, faz mesmo parte, e bem, da minha vida. Passa bem!

Maurício ficou numa espécie de ruminação.

*****

Quando ia a chegar a casa, viu o pai a atravessar a rua,  tão absorto nos seus pensamentos que nem reparou na filha, que aproveitou para uma pequena provocação:

-Então passa por uma garota jeitosa como eu e nem raparas!

Foi apanhado de surpresa mas reagiu rápido:

-Não posso olhar, para as garotas, senão a tua mãe dá-me cabo do canastro. Sabes? Vinha cogitando na nossa vida, que estava a correr tão bem, com tanta harmonia e, de repente, deu uma volta que não esperava. Aquele desgraçado, que abandonou tudo e todos, que devia estar nos quintos dos infernos, aparece do diabo para dar cabo da harmonia de uma família.

-Pai não digas isso! O Albino é, muito, diferente do que pensas!

O pai interrompe:

-Não o venhas defender que ele não merece, esse filho do sapateiro é uma rês igual ao pai, que um desapareceu. Julgam que se matou mas não acredito, deve viver para ai à conta de alguém. Quem sabe se ele  e o filho, esse tal Albino, não estão metidos no mesmo barco.
Espero que não me apareça à porta, pois pode sair-se muito mal.

Joana começou a ficar um pouco incomodada e, com alguma ironia, apenas responde:

-Começo a ficar farta de todos, mas mesmo de todos, egoístas, só pensam em vós!


******

A mãe estava de plantão, sentada num banco, de buinho, à entrada da porta. Quando deu pela filha gritou:

-Quis Deus rapariga! Que pensei que nunca mais chegavas! Espero que já tenhas combinado, com o meu filho, um encontro!

Joana não se conteve:

-Primeiro devias perguntar se ele te quer ver, segundo se tens a certeza de ser o teu filho e, se tens, devias dizer, teu irmão e não meu filho.
Para concluir tens que esperar, o Albino está fora e, a pensar se vale a pena visitar-te para depois desapareceres por mais 25 anos.

-Mas, bradou dona Maria do Rosário, o salafrário ainda quer ser vitima das angústias e dos sofrimentos que me causou? Vivi uma vida na esperança, que um dia, entrasse pela porta, a pedir perdão por todos estes anos de sofrimento, pelas mágoas e lágrimas que me fez derramar.
Sabes que mais, Joana? Já não o sinto é como se tivesse morrido, até já lhe fiz o luto, para mim morreu há muito tempo. Que Deus dê descanso à sua alma, que não me atormente mais!

Joana estava siderada, nunca pensou ouvir tais palavras e, especialmente  da mãe.
Em pouco tempo foram três a desejar o pior, para o pobre do Albino, até parece que ela é a única que de verdade gosta dele. Afinal é irmã!

Fechou-se no quarto e não quis ver ninguém, estava desolada e muito desiludida, pensava que conhecia os pais, mas parece que não.
Afinal não conhecia!


*************


Eram as primeiras capas de todos os jornais, UM CRIME NA PRAIA, apareceu morto ao volante do automóvel, junto à praia no Estoril, um ilustre gestor publico, a polícia suspeita de crime embora a hipótese de suicídio não seja posta de parte.

Depois eram lacónicos, as autoridades não tinham prestado muitos esclarecimentos e, atiravam para as paginas centrais, onde faziam uma resenha da vida do ilustre desaparecido.

Os jornais, estendiam-se, desenvolvendo a carreira e os êxitos profissionais, a licenciatura e os diversos mestrados. 

Não era conhecida a causa da morte e, muita especulação, sobre o que podia ter acontecido, muitas perguntas no ar.
Acidente, doença súbita, suicido ou assassinato?

A polícia não adiantava, só prometiam a seu tempo um comunicado.


Joaquim dos Reis leu a notícia e, sentiu o corpo ser percorrido por um arrepio, não porque conhecesse o pobre diabo mas, com esta onda de violência uma pessoa já não podia andar descansada, matavam as pessoas por tudo e por nada, às vezes apenas para roubar um telemóvel.

Não devia ter, pensou, nada a ver com aquele desgraçado, filho do sapateiro, pois o jornal falava ou melhor, escrevia, doutor e dizia um dos mais prestigiados gestores da nossa praça. Com um apartamento no Estoril, bom só uma coincidência, pois o borra-botas, que um dia fugiu duma parvalheira, não podia ter alcançado tão grande estatuto.

Não se ia atormentar com isso e, nem sequer ia falar em casa, para não por ideias esquisitas na cabeça da mulher.

Joana também viu a notícia mas, apenas por curiosidade, pensava que o Albino estava fora e convencida que não morava no Estoril. Mas olhou só pela curiosidade e ficou por aqui.


****

A polícia, o meio empresarial e até a própria classe política andava um pouco agitada.
Todas as investigações não conduziram a lado nenhum, encontraram, o cadáver, sentado ao volante do carro estacionado, junto à praia, sem qualquer indício de violência, mãos no volante e um olhar vítreo como se estivesse a contemplar as ondas, que se iam desfazendo na amurada.

As autoridades, não encontraram indícios incriminatórios, nem sinais de luta ou de violência.

Iam aguardar resultados da autópsia, que devia demorar alguns dias e só depois poderiam continuar, se fosse caso disso, as investigações.

*******

Joana estava numa aula, da cadeira de Terapêutica Geral, e sentiu o telefone tremer, na mala, agora não podia dar atenção, depois via e respondia.

Era a doutora Cândida, ia telefonar-lhe.

Respondeu, logo, ao segundo toque:

-Olá, Cândida, que bom que me telefonou, estava numa aula, não podia atender.

-Joana já me apercebi que não sabes de nada! Não lestes os jornais?

Joana começou a ficar apreensiva, mas respondeu:

-Olhei para as capas, só vi qualquer coisa sobre um crime no Estoril, mas não reparei em  mais nada. Porquê? Há alguma coisa que devia ter lido?

Cândida ficou calada, por momentos, como que a ganhar coragem, antes de responder:

-Nem sei o que te dizer, mas foi o doutor Albino a vítima. Não sabem o que se passou, estamos todos, como deves calcular, inconsoláveis.
Eu sei que é pouco, mas não tenho outras palavras,  os meus pêsames querida!

Joana nem se apercebeu mas, desligou o telefone, sem se despedir.

Estava totalmente perdida nos pensamentos, foi filha única durante 24 anos, de repente o destino mudou tudo, deu-lhe um irmão mas por muito pouco tempo, mesmo muito pouco tempo. Nem um momento para o conhecer, apenas o amou por alguns instantes, mas foi pouco, mesmo muito pouco.

*******

O doutor foi assassinado, a autópsia foi conclusiva.
No pescoço, descobriram uma pequena marca por onde lhe injectaram uma quantidade enorme de morfina.
Não havia sinais de luta, pelo que concluíram que o assassino era, alguém conhecido, que estaria no carro.
Suicídio não era possível, não encontraram vestígios de, qualquer seringa, no veículo.

No funeral do doutor Albino Malacia, Joana foi a única familiar que esteve sempre presente.
Todos, incluindo ministros e muitas altas personalidades lhe apresentaram condolências e elogiaram o caracter, a personalidade, a inteligência e a bondade do irmão.
Sabia que era normal isso acontecer, depois de morrer, mas ficou feliz.

Sentiu muito a solidão do momento, o estar só,  enquanto o corpo desaparecia na boca enorme do forno que o iria reduzir a pó.

Os pais desiludiram-na ainda mais do que até aqui o tinham feito. A mãe disse que o filho há muito tinha morrido, já tinha feito o luto na altura própria, agora não ia a cerimónias de quem nada lhe dizia. O pai, foi tão infeliz, ao afirmar que o filho do sapateio para ele esteve sempre morto.
Não se conteve, foi mais forte do que ela, mas deixou o lamento:

-De ti, mãe, já esperava és mesmo assim, tu e só tu, o resto não importa.
Agora, pai, esperava muito mais, já não te conheço. O Albino não precisava nem chegava a saber da tua presença, mas deixares a tua filha só, neste momento, foi como deixar cair uma máscara que desconhecia.

*******

Estava triste e desencantada, tão desiludida com os pais que pensava, de verdade, dar uma volta na sua vida.
Ia acabar, a faculdade, e começar o regime da etapa de residência medica num hospital, seriam mais dois anos, mas ia conseguir.

As autoridades pareciam ter esquecido as investigações, diziam que estavam no seguimento de pistas, mas não via avanços.


Quando foi interrogada e os agentes lhe perguntaram:

-Sabe alguma coisa que possa ajudar nesta investigação?

Ela foi muito clara quando respondeu:

-Quem foi o monstro não sei! Mas sei quem gostaria de o ver morto.

O mais velho, a quem chamavam inspector, rabiscou algo numa folha antes de perguntar:

-E quem o gostaria de ver morto, como diz?

Pensou um momento, um breve momento e respondeu:

-A minha mãe, porque o perdeu há 25 anos, fez o luto e não queria passar, outra vez, pelo mesmo.
O meu pai, não sei porque mas tinha ódio ao filho do sapateiro, como dizia. Por fim, o Maurício, meu ex-namorado, que pensava que o tinha trocado por ele.



Queria ter acabado hoje, mas tenho que escrever mais um episódio, Peço desculpa a quem me lê.





domingo, 2 de Novembro de 2014

A Vida - Parte 6








Aproximou-se de Joana, colocou-lhe a cabeça no ombro e começou num choro convulsivo.

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Era quase irreal, aquele homem que Joana endeusara estava ali, tão frágil e tão insignificante.

Deixou-o lavar a alma, as lágrimas foram substituídas por leves soluços que, a pouco e pouco, foram morrendo num esmorecer até que, o senhor doutor, recuperou a compostura.

Olhou Joana, como se a estivesse a ver pela primeira vez, depois voltou para a secretaria, tomou o porte habitual e voltou a ser o Senhor Presidente.

A voz saiu-lhe um pouco alterada, mas Joana quase não notou:

-Desculpa, Joana, sou muito racional e não me deixo, normalmente, levar pelas emoções mas foi superior às minhas forças. Ando há 25 anos a sonhar com este momento e, agora que a encontrei, já não tenho a certeza se é isso que eu desejo.

A rapariga não sabia o que fazer. Tentou manter alguma serenidade mas, era difícil, estava convencida de haver uma série de circunstâncias que faziam parecer real o que eram, apenas, coincidências.

A mãe, que soubesse, nunca foi casada, ela era a única filha e nunca na vida foi Malcata, ou então andaram, todos durante estes 23 anos a esconder segredos e a mentir.
Não sabia se os poderia perdoar.

Encontrou coragem e tentou tomar conta da situação:

-Senhor doutor, tenho a certeza que existe uma grande confusão, uma enorme coincidência. Vou descobrir tudo e, se aceitar, voltarei com provas do que penso.
Espero, que esta confusão, não prejudique a minha bolsa!

O senhor Presidente, finalmente, recomposto aflorou um sorriso:

-Vai Joana! A bolsa é tua porque a mereces, o resto deixo nas tuas mãos, Toma o número do meu telemóvel. Liga quando quiseres.

Joana saiu, nem se despediu, levava no pensamento a fragilidade daquele homem, que procurou no seu ombro a força que, de repente, o abandonou.

Foi um momento difícil, não estava preparada mas, gostou, confessa que gostou de sentir o calor, do rosto molhado, no aconchego do seu ombro.

Ia permitir-se uma extravagância, chamou um táxi e foi a caminho de casa.

Não estava ninguém, os pais deviam ter ido ao supermercado.

Era bom, ia para o quarto, punha uma música baixinha e tentava por em ordem o turbilhão que tomara conta do seu cérebro.

Deitou-se e acabou por adormecer!

Teve um sonho confuso, estava com o doutor mas de repente já não era ele era o Maurício, depois a mãe já não era mãe, era uma estranha que aparecia a reclamar o filho, gritava que lho tinham roubado e, ela Joana, estava no meio de todos que lhe apontavam um dedo, como se a estivessem a acusar de algo que não sabia o que era.

Felizmente os pais chegaram e saiu ilesa da confusão de um pesadelo.

-Então, Joana, como correu essa coisa da tua bolsa?

Preferiu não falar, por enquanto, do sucedido queria fazer as coisas à sua maneira, limitou-se a dizer:

-Tudo em ordem, pai, foi para assinar uns papéis, o valor deste mês já foi transferido para a minha conta.

Deu-lhe um beijo, fingiu distracção e saiu sem dar um beijo à mãe.

*****

Maria do Rosário não gostou, nada, do gesto da filha e comentou:

-Vistes que a fedelha saiu sem me dar um beijo? Tão importante que ficou de repente, se calhar pensa por ter uma bolsa é rica e esquece os sacrifícios que temos feito! É para isto que estamos guardados!

-Oh, mulher não sejas assim! A rapariga anda nervosa, é uma carga muito grande, os estudos e os problemas, é muito nova para tantas ralações. Podes ter a certeza que ela pensa que se despediu de ti. Nem sei como podes ter essas ideias da nossa menina!


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Joana saiu de casa sem saber bem que fazer, precisava de conselhos de falar com alguém que a soubesse ouvir e orientar. Era muito para ela, tudo assim tão de repente.

Foi o acabar com o Maurício, não foi o pior, pelo menos não a abalou tanto como pensava, depois a bolsa de estudos, a expectativa criada, a seguir foi conhecer um homem que ficou a bailar no pensamento, a ter desejos, a fazer projectos, a olhar para ela própria com perspectiva diferente e como se tudo isso não fosse, já muito, a fita melodramático do homem que se diz ser filho da mesma mãe.

Ela tem a certeza que, o Presidente, deve ter algum trauma, e torna as coincidências em realidades, e ele preparou toda a encenação, tinha a certeza que algo, recalcado, no cérebro do homem estava a toldar-lhe as ideias e a fazê-lo ver Juno onde apenas estava a nuvem.

Há outra coisa que a confunde, porque não estava a Doutora Cândida nesse dia?

Era isso mesmo, ia telefonar à doutora e pedir ajuda, era abusar, um pouco, afinal quase a não conhecia, mas gostou dela e não lhe pareceu capaz de negar um conselho.

Ia telefonar-lhe.

Ligou a primeira vez e não teve sorte, o telemóvel foi para as mensagens, deixou uma muito simples:

-Boa tarde senhora doutora, sou a Joana dos Reis e gostava de um conselho seu. Volto a ligar mais tarde se me permitir!

Não precisou de ligar, a doutora, passado pouco tempo, respondeu-lhe:

-Olá Joana que bom receber noticias tuas! Já sei que a reunião, com o senhor Presidente, correu bem. Tive pena por não estar mas, fui representar o chefe num evento. Não é normal, eu fazer essas coisas, mas o doutor insistiu e não tive outro remédio. E tu, minha querida, como estás?

Joana pareceu ficar a ganhar coragem. Por fim lá se atreveu:

-Sabe, senhora doutora, estou com muitos problemas e muitas dúvidas, não sabia a quem pedir orientação e tomei a liberdade de a incomodar. Espero não se zangue comigo? Um dia, em que tenha um bocadinho, pode dar-me um ou dois conselhos?

A doutora ficou feliz, muito feliz, gostou da escolha e foi pronta a responder:

-Que diz almoçarmos, amanhã, as duas?

Espera por mim, às 13 horas, no café que fica na esquina, em frente, é o Café do Zico!

-Conte comigo, senhora doutora, muito obrigada!

Foi para a faculdade, tinha uma aula de Anatomia Patológica, precisava estudar pois não lhe estava a correr muito bem. Mas ia recuperar!



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Começava mal, tinha acabado de cruzar os portões e deu de caras com o Maurício, quase que passava sem o ver mas ele estava atento:

-Olá, Joana, pensei que tinhas emigrado!

-Não, Maurício, respondeu, por enquanto ainda não precisei, mas se chegar a altura, e for solução, não vejo problema nisso.

-Desculpa, Joana, não queria ser desagradável! Já sei que conseguistes uma bolsa e mereces e, também sei, que tens um novo amor, alguém muito importante. Estou a par de tudo! Não sei, ainda, quem é o gajo e se descobrir que foi por causa dele que vazastes, eu dou-lhe cabo da cara bonita. Nunca mais se vai querer ver ao espelho!

Joana perdeu as estribeiras e gritou, mas gritou mesmo:

-Continuas o mesmo menino mimado, não há maneira de cresceres, parvo como sempre! Eu não vazei, como dizes, tu é que te esquecestes de que tinhas um compromisso!

Não tenho gajo nenhum, bastou-me um para ficar farta. Desaparece, vai ter com a Lisete antes que ela te troque por outro.

Desapareceu com os saltos dos sapatos a fazer saltar as pedras, da gravilha, do caminho.

Ainda olhou, de soslaio, Maurício continuava pregado no mesmo sítio, com cara de quem acabou de engolir um sabonete.


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Cinco minutos depois das 13 horas, a doutora Cândida chegou ao café, como combinado, pegou no braço de Joana e encaminharam-se para um pequenino restaurante, numa travessa próxima.

Só então falou:

-Venho aqui, quase sempre, é muito simpático, não é caro e tem boa comida.

-Por mim está bom, só queria era falar com o senhora doutora.

-Então vamos começar por acabar com a senhora doutora. Cândida é o meu nome e agora somos amigas. Não somos?

-Somos e vou ver se consigo, disse Joana.

Joana pediu um peixe grelhado e a doutora, como não apreciava peixe, preferiu umas salsichas com couve lombarda.

Conversaram de trivialidades, pareciam duas amigas de longa data. Joana parecia estar a ganhar coragem, não sabia exactamente como começar mas, tinha que ser e começou:

-Cândida, afinal não foi difícil, sabe que na entrevista com, o senhor presidente, as coisas não saíram muito bem! Foi muito simpático, recebeu-me muito bem mas, de repente, entrou em confusão com o nome da minha mãe, dizia que podia ser a dele, com um apelido diferente, depois perdeu o controlo e começou a chorar.

-Foi difícil até acalmar, disse que procura a mãe há 25 anos e que a minha pode ser a dele.
Fiquei assustada, pensei que tinha endoidecido e que me ia tirar a bolsa.
Depois acalmou, sossegou-me, disse que a tinha ganho por mérito. 

-Tentei, juro que tentei, manter-me calma e acho que consegui.

-Falei-lhe de coincidências e prometi descobrir alguma coisa e depois telefonar.

-Não o quero fazer! Tenho receio de fazer perguntas lá em casa, tenho a certeza que a minha mãe não teve outra vida diferente da que tem.

-Que me aconselha a fazer?

-É difícil de perceber, respondeu a doutora, o presidente não é homem dessas coisas, é muito pouco emotivo, ou sabe esconder bem, as emoções.
Eu trabalho com ele há muitos anos, sempre o tenho acompanhado e nunca lhe conheci família e nem o ouvi falar dela.

-Sabes, Joana, um dia assim como quem não quer as coisas, dás a entender à tua mãe que tens um novo amigo, muito interessante, que se chama Albino Manuel Vicente Malcata. Pela reacção ficas a saber, há coisas que não se conseguem esconder.

-Obrigada, Cândida, vou fazer isso. Pagamos a meia o almoço, pode ser?

Assim o fizeram.
*******


Foi uma noite interminável, tinha sono mas a cabeça cheia de ideias não lhe deixavam o mínimo de tranquilidade para adormecer mas, finalmente, o cansaço foi mais forte e ajudou a uma noite de sono.

Acordou com a chuva intensa e o vento forte a abanar as persianas. Soube mais tarde que os aguaceiros tinham feito muitos estragos, garagens inundadas e lojas, meias de água, e muitas mercadorias totalmente estragadas. Tem pena, de tantos que vão sobrevivendo, em barracas, sem um mínimo de condições, mas nada pode fazer. Não tem poder para isso.


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O pai já tinha saído, a mãe ainda dormia.

Tentou não fazer barulho, saiu de mansinho e foi tomar, o pequeno-almoço, ao café do senhor Esteves. Uma torrada com doce de tomate e meia de leite.

Na faculdade foi apanhada de surpresa, o Maurício e a Lisete estavam à sua espera. Que desagradável surpresa, para começo de dia era um, muito mau, agoiro.

Foi o Maurício que tomou a iniciativa:

-Joana quero que oiças a Lisete para saberes que não aconteceu nada do que pensas, era um encontro inocente e casual.

Joana deu uma gargalhada que lhe compensou o mau acordar:

-Ouve menino, o que tu queres é-me indiferente, é contigo e eu, para não ser mal-educada, estou-me lixando para isso. Tenham bom dia e, de uma vez por todas, desemparem-me a loja.

Maurício ficou espumando de raiva, e entre dentes deixou uma espécie de ameaça:

-Ainda te vais arrepender e ter pena do que perdestes!


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Chegou a casa um pouco tarde, foi um dia muito intenso, as aulas de anatomia ainda mexiam, muito, com ela, mas com o tempo havia de se habituar.

Os pais já estavam à espera para o jantar.

-Então filha tão tarde! Como foi o teu dia? Perguntou a mãe. Podias-me ter acordado de manhã!

-Estavas a dormir tão calma que, não tive coragem e, o meu dia foi cansativo mas óptimo. Conheci um tipo muito “giraço” que pareceu que, também, engraçou comigo. É uma pessoa importante, director de uma grande Empresa, um tal Albino Manuel Vicente Malcata, até o nome é chique.

-Como? Perguntou a mãe, enquanto ia desfalecendo e caindo, como um boneco de gelatina,
deslizando num soalho.



Vou tentar acabar na próxima. Vou tentar!







segunda-feira, 27 de Outubro de 2014

A Vida - Parte 5










Foi de coração acelerado. A imagem ia com ela, que homem tão diferente de todos os que conhecia.
Distinto, educado e tão bonito.

Teve que dizer  para ela própria "Joana tem juízo!"


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Andava de cabeça no ar, foi um dia de tantas emoções que lhe parecia estar a viver um sonho e tinha medo de acordar.

Não ia contar nada aos pais, por enquanto, afinal pouco tinha para dizer, eram sonhos que podiam não se concretizar. Mas eram sonhos muito bons.

Logo, se a coisas se encarreirassem como desejava, ia contar tudo, ou quase tudo, mas o fascínio que aquele homem lhe provocou não ia contar a ninguém.

Foi algo que a ultrapassou, sentiu a sensação da Ana nas “Cinquenta Sombras de Grey”, havia emoções que se infiltraram na pele, tomavam conta dos sentidos e a deixaram numa espécie de desejo/medo, não sabia explicar mas algo a deixou muito perturbada.

Era um desejar e um não querer, ao mesmo tempo, algo que a estava a transtornar e, que em simultâneo,  lhe dava uma sensação de prazer.

O Domingo amanheceu com uma enorme trovoada, relâmpagos rasgavam o espaço e iluminavam o quarto, de Joana, que deu um salto na cama quando o trovão ribombou, encolheu-se debaixo dos cobertores, tinha medo, autentico pavor.

Quando o telemóvel tocou, tomou coragem para por os pés no chão, a trovoada já se ouvia muito ao longe, estava a afastar-se mas não atendeu. Era o Maurício.

Todos os dias, mais do uma vez, tentou mas ela foi rejeitando as chamadas, não queria falar com ele, não havia nada para dizer, não lhe tinha raiva nem ódio, alguma frustração pela forma como as coisas aconteceram.

Ela nunca o obrigou a nada, mesmo a nada, talvez, e não estava arrependida, não tinha ido com ele para a cama, mas não aceitava os comportamentos de muitas colegas. Hoje um, amanhã outro e sempre curtindo, como diziam.

Ela não se considerava um modelo de virtude, nem sequer moralista, mas tinha regras a que se impôs, só quando tivesse a certeza se entregaria, totalmente, a um homem.

Um dia ia atender a chamada, ia ouvir mas tinha a decisão tomada, nada de Maurício, o coração tinha arrefecido. Se calhar pouco existiu, possivelmente, foi apenas porque ele era giro, porque era dos mais cobiçados, vestia bem e tinha um carro que dava nas vistas, sim tinha tudo isso mas o outro, o senhor presidente, tinha isso e muito mais.

Uma elegância, um charme, um olhar enleador, um sorriso cativante e a voz, ai aquela voz, embalava os sentidos e fazia uma dormência que paralisava a vontade.

Deu um leve suspiro e meteu-se no duche, para acordar em definitivo,  e começar a ter ideias mais reais.

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Maurício não queria acreditar, era sempre o mesmo, agindo por impulsos, sem pensar um pouco além do momento. 


Mas sempre foi assim, já o avô Inácio lhe dizia, muitas vezes, "Maurício conta sempre até dez antes fazeres asneira".


Mas nunca contava e agora ia ser pior, Joana moderava-lhe as precipitações e refreava-lhe os impulsos.

Tinha esperança de, a voltar, a reconquistar ela ia compreender que foi apanhado numa armadilha, Lisete deu-lhe um isco e ele, nem pensou engoliu isco e anzol.

Não sabia bem o que fazer, na faculdade, ela, trocava-lhe as voltas, não atendia o telefone, rejeitava as chamadas. 


Já pensou ir bater à porta, mas ai contou até 10 e, achou melhor não o fazer, podia estragar o resto de esperança que ainda acalentava.

Tinha fé num milagre, ia dar um tempo.


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Maria do Rosário, mãe de Joana, saiu daquele estado de crisálida onde andava, há muito refugiada, e perguntou ao marido:

-Não achas que a Joana mudou muito?

-Mas muito como! Exclamou o homem.

-Como havia de ser, muito, muito! Anda no ar, passa tempos infindos ao espelho, experimenta vezes sem conta a roupa e, depois, mira-se e remira-se. Vaidosa, coisa que nunca foi!

-Se calhar, balbuciou o marido, é porque quer que o rapazinho, com quem namorisca, a ache casa vez melhor.

-Já vi que não notas nada, aquilo do rapazinho é um passa tempo que não leva a nada. Eu acho que por aqui anda passarinho novo. Ou me engano muito ou, a rapariga, está apanhada de todo por alguém. Vê lá que, ontem, estava a escovar o cabelo e a cantar uma cantiga estrangeira. A nossa Joana a cantar e ainda mais em estrangeiro. Onde se viu!
Fala com a rapariga, ela, é mais aberta contigo.

O pai não sabia por onde começar, afinal a Joana já era uma mulher e nunca tiveram nada para lhe apontar, mas a mulher estava com ideias na cabeça e, quando era assim, tinha que fazer qualquer coisa.

Ia arriscar, com muito cuidado:

-Joana não tens nenhum segredo para o teu velhote?

Joana pareceu surpreendida:

-Nem é velhote nem eu tenho segredos!

-Não precisas contar mas andas muito feliz, tão feliz que ontem, enquanto te penteavas, até estavas a cantar e não era em português, ouviu a tua mãe.

-Só estava a trautear o I'm Knockim', ouvi na radio e gosto muito, não foi nada de estranho.

Mas pai eu não tenho segredos para contigo, ando a tentar uma coisa que é boa para todos. Não te importas que te conte no fim, para não dar azar?

O pai deu-lhe um abraço enquanto foi acrescentando:


-Quando quiseres conta, não fiques preocupada! Estava com medo que fossem assuntos do coração.

Suspirou, deu um beijo no pai, e foi saindo deixando, no ar, apenas um suspiro:

-Também são, também!

*******

Albino ficou perturbado, não era normal mas alguma coisa naquela rapariga lhe inquietou o pensamento.


Não a conhecia e tinha a sensação de já a conhecer, há muito tempo, nunca lhe tinha visto o rosto mas tinha a sensação de sempre o ter acompanhado.


Era linda, irradiava uma frescura e simpatia contagiante, tinha uma doçura calma no olhar e ao mesmo tempo uma certa felinidade.

Recostou-se na secretária, pegou no telefone e deu uma ordem seca:

-Peça, por favor, à doutora Cândida para passar pelo meu gabinete.

Foram dois minutos, precisamente dois minutos, e a doutora estava a entrar no escritório do presidente.

Saudou-a com cordialidade:

-Cândida, com estamos no processo das bolsas de estudo?

A doutora abriu um volumoso dossier, e respondeu:

-Calculei que me ia fazer essa pergunta, tenho aqui todo o processo. Houve 238 candidaturas que estão analisadas. Foram escolhidas as 12 que correspondem ao exigido, só falta a aprovação do senhor doutor.

-Óptimo Cândida! E aquela sua amiga, não me lembro o nome, conseguiu corresponder aos parâmetros?

-Está aprovada. Deixe-me confirmar, cá está, Joana Reis é a terceira.

O presidente pediu o processo, desfolhou-o e ficou muito atento aos elementos da Joana, olhou mais do que uma vez, voltou atrás e ficou com um ar pensativo, algo lhe perturbava o pensamento.

Assinou o que tinha que assinar, devolveu, com as seguintes instruções:

-Cândida, notifique todos os candidatos aceites, se possível hoje, dê instruções para as transferências para os NIB's que indicaram, mas eu quero falar pessoalmente com a Joana, telefone-lhe e combine.


 ********


Joana recebeu o email, da atribuição da bolsa e, quase, em simultâneo uma chamada da doutora Cândida:

-Olá Joana, então! Estás satisfeita?

-Oh...senhora doutora, respondeu, estou satisfeita, feliz e quase não acredito, e já posso contar aos meus pais!

-Pois podes, disse a doutora, mas tens que nos fazer uma visita, o Senhor Presidente quer falar contigo. Que dizes, aqui, na quinta-feira às 15 horas?

Joana estava fora de si, só de pensar que ia ver, novamente, aquele homem.

-Serei pontual e poderei, pessoalmente, agradecer a sua atenção e carinho.

-Vem, então, e nada tens a agradecer, o mérito é todo teu!

Joana ficou aos saltos, parecia possuída, os pais acudiram atónitos. A filha correu e abraçou os dois no mesmo amplexo, e só sabia repetir:

-Ganhei uma bolsa de estudos, já temos dinheiro para as propinas, para os livros e para tudo.

O pai, como era normal, deixou as lágrimas deslizarem e, a mãe, naquele ar doce que a acompanhava sorria, apenas sorria. Mas a mãe sorria sempre.


Quinta-feira, Joana, acordou mais cedo, havia um enorme dia pela frente. Tinha duas aulas na faculdade, Imunologia e Semiótica Clinica. Mas tinha tempo.

Esperava estar de volta a tempo de compor a cara e escovar o cabelo.


O pai, já tinha combinado, dava-lha boleia até ao ISSERS para, antes das 15 horas, estar presente.


*******


A doutora Cândida era uma mulher muito inteligente e de grande sensibilidade. Ficou viúva aos 43 anos, sem nunca ter concretizado o maior sonho da sua vida, ser mãe. O destino não deixou, Deus não quis e, ela, tinha aceite a sua vontade. Foi distribuindo o amor por todos, com quem ia privando e uma parte já a tinha destinado à Joana. Gostava da rapariga.



*****


Faltava um quarto para as três quando Joaquim Isidoro, pai da Joana, a deixou à porta do Instituto.


Deu-lhe um beijo e pediu:

-Pai deseja-me boa sorte!

Saltou do carro e correu em direcção aos elevadores.


*****

Pontual como sempre, faltavam cerca de 10 minutos para a hora marcada e, Joana, aguardava que o Senhor Presidente a mandasse entrar.


Estava nervosa, confessa, não sabia se iria controlar as emoções que aquele homem lhe provocava. Mexia com ela, fazia que sentisse a garganta seca, mariposas a bailar e um profundo desejo de o abraçar.

Não foi a doutora Cândida que a mandou entrar, foi outra senhora, que não conhecia.

Quando entrou, no gabinete, o Presidente levantou-se e foi à porta de mão estendida para a receber.

Com aquela voz, quase sussurrante, que tanto a fascinava perguntou:

-Curiosa por te ter pedido para estar aqui?

-Não, Senhor Doutor, respondeu, pensei que era o habitual.

O Presidente sorriu, um sorriso que aqueceu o coração da rapariga, antes de responder:

-Não, não é habitual, sou uma pessoa muito atarefada, mas contigo houve algo que me deixou intrigado. A tua cara!

Joana começava a ficar, um pouco desconfortável, que poderia a cara dela ter de diferente das outras?

Mas o presidente continuou:

-Não fiques preocupada, a tua cara não tem defeitos, é linda, fresca e de uma simpatia que dá vontade de a guardar no pensamento.


O caso é que eu já vi o teu rosto, eu já conheci esse olhar, mas noutro corpo, há muito, mas mesmo há muito tempo.

Já o devia ter esquecido, mas não consigo. Olho para ti e vejo o rosto da minha mãe, sim da minha mãe, quando eu ainda tinha mãe.

Joana estava confusa, não sabia o que dizer, a muito custo, as palavras saíram-lhe da boca:

-Senhor doutor dizem, que todos nós, temos um sósia num lado qualquer!

-É verdade, respondeu o presidente, mas o nome da minha mãe era Maria do Rosário Vicente Malcata e o nome da tua é Maria do Rosário Vicente dos Reis, se houve um divórcio e um novo casamento é natural que o ultimo apelido seja diferente.


Muita coincidência!


Mesmo muita coincidência!

Não sei o vai ser da minha vida! Não sei se devo olhar como até aqui te olho, ou se te devo chamar de irmã!

Aproximou-se de Joana, colocou-lhe a cabeça no ombro e começou num choro compulsivo.




Falta um pouco para acabar, espero tenham paciencia...



domingo, 19 de Outubro de 2014

A Vida - Parte 4











-Não te preocupes! Agora já podes ir de férias para o Algarve.

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Talvez fosse influência do dia, chuvoso e com muito frio à mistura, mas Albino olhou pela vidraça e pensou que se não fosse a reunião com o presidente do Banco de Nova York, hoje de manhã, não ia por os pés na rua.

O que lhe apetecia, verdadeiramente, era um pouco de liberdade, esquecer reuniões em que apenas se discutiam formas de aumentar os lucros, de conseguir mais dividendos para distribuir pelos accionistas, não interessava como, apenas interessava o resultado.

Foram anos difíceis, mas apesar de tudo tinha saudades, do cheiro das bolos quentes que chegavam em grandes tabuleiros de lata, e do ar circunspecto do senhor Jerónimo, entre as portas do armazém, com dois dedos, de cada mão, enfiados no cinto ia espiando cada momento, nada escapava ao dono da pastelaria. Passados todos estes anos tinha a certeza de que, aquele homem, que apenas estudou na cartilha da vida era um dos maiores gestores, com quem alguma vez se cruzou e já, foram muitos.

Mas, isto, eram apenas cogitações pois o motorista já o esperava à porta, com um enorme chapéu-de-chuva, para o conduzir à viatura.

A reunião  foi um acertar do que já há muito tinham estabelecido, nada de novo nem de especial, apenas um partir pedra para justificar os acordos e mostrar, através da imprensa, que estavam a trabalhar para bem do povo. 
Ninguém já acreditava mas insistir é bom, pois a população, depois de tanto os ouvir acaba por ir acreditando. Mas podia dizer que correu bem, pelo menos, foi o que disse à imprensa.

*****

Albino andava um pouco deprimido, tinha tudo, estatuto, dinheiro e poder, muito poder, mas faltava-lhe aquilo que nunca, verdadeiramente, teve e sempre desejou para se sentir realizado. Amor, carinho e afecto apenas faziam parte do seu vocabulário, mas nunca os sentiu e tanta falta lhe tem feito.

O motorista deixou-o à porta do apartamento, a chuva tinha parado e o Sol, muito timidamente, tentava espreitar por entre as nuvens.

Albino não lhe apetecia ir para casa, estava abatido, havia uma nostalgia que não sabia explicar, a cabeça fervilhava de recordações, daquela casa onde abriu os olhos para a vida, da professora que tanto acreditou nele, do mestre Crispim, de plaina na mão, a acertar madeiras e, muito no senhor Domingos, homem de coração grande, que entre garrafões de lixívia e latas de limpa metais, ainda arranjava tempo para dar atenção a um miúdo que passava perdido na vida. Ainda hoje guarda,  com muito amor, um lápis Viarco como se fosse uma preciosa relíquia.

Eram recordações, pedaços de vida que o alimentavam e faziam dele, aquilo que agora era. Frio, astucioso, sem sentimentos mas, no fundo, tinha um coração enorme pronto a desfazer-se em afectos se, o Senhor das Coisas, lhe desse uma oportunidade.

Pensou ficar em casa em cogitações, a por em ordem o turbilhão de remorsos, recordações, frustrações mas, não podia, tinha um compromisso de marketing político que o obrigava a dar a cara.

O Instituto a que presidia, por indicações da tutela, ia atribuir 12 bolsas de estudo a jovens universitários.


*****

Joana jurou que não iria verter uma lágrima.

Ia ser diferente, já era muito bonita ia tentar ser ainda mais, era elegante mas ia realçar, melhor, todos os atributos, os homens já a olhavam com cobiça, pois iam olhar muito mais.

Não podia dizer que ficou indiferente, ela gostava do Maurício e pensava que os sentimentos eram recíprocos, mas afinal ele era volúvel, não sabia esperar até que, a confiança mútua, os fizesse ir até onde ele desejava. Ela tinha razão, o gostar dele, não era amor, era apenas desejo.

Sabia que, na faculdade, era natural cruzarem-se e não queria demonstrar fraqueza, iria passar indiferente, sem raivas, sem palavras azedas, sem emoções, como se tivessem sido apenas dois amigos que se conheceram mas, que tinham gostos e objectivos diferentes.

*****
Maurício não queria acreditar, as coisas aconteceram, quase sem ele dar por isso. Encontrou, por acaso a Lisete que o convidou para um café, porque eram amigos.

Ela começou numa de sedução e deixou-se ir, nunca imaginou a namorada por ali. Agora sabia que nada havia a fazer, conhecia a Joana e tinha a certeza que, nunca o ia perdoar, mas ia tentar.

*********

Joana andava preocupada, tinha um trabalho de, microbiologia, para preparar, mas a cabeça não a deixava descansar.

Foi o acabar do namoro, custou um pouco, afinal ainda foram, quase dois anos, sabia das dificuldades dos pais para a manterem na faculdade, e o part-time que desejava estava difícil. O pai dizia para não se preocupar mas, tinha a certeza, que andavam a fazer muitos sacrifícios.

A mãe continuava distante, parecia que os problemas, para ela, não existiam.

Ainda ontem, sentou-se no joelho e perguntou-lhe:

-O que achas se eu desistir do curso e procurar um emprego? É muito pesado, para vós, e eu não os quero ver preocupados!

Sorriu, a mãe sorria sempre, segurou-lhe a mão com carinho e disse-lhe:

-Continua os teus estudos, o dinheiro aparece sempre, não te preocupes!

Depois voltou para o seu mundo de pensamentos.


*******

Ontem quando ia a subir o carreiro que leva ao laboratório, viu ao longe o Maurício, conheceu-o por aquela maneira de puxar, com os dedos, os cabelos que lhe caiam na testa. Ficou satisfeita e não ficou muito perturbada.

No átrio, alguns colegas, pareciam muito curiosos com um aviso afixado na vitrina, Ia espreitar.

Era importante, o ISSERS tinha, 12 bolsas de estudo, para atribuir e indicavam o site e o endereço onde estavam as condições para candidatar. Nunca tinha pensado nisso, mas era uma forma que a podia ajudar, era boa aluna, boas médias e com uma família com rendimentos modestos. 
Hoje mesmo ia consultar e fazer tudo o que fosse necessário. Melhor, amanhã tinha tempo, ia em pessoa ao Instituto.

Não disse nada em casa, também não valia a pena, já sabia, A mãe ouvia abanava a cabeça, sorria e não dizia nada, o pai fazia um ar triste, ficava com os olhos com reflexos de lágrimas e, tal como a mãe, também nada dizia.


******


Manhã cedo foi a caminho do Instituto, queria saber tudo, como se podia habilitar à lotaria de uma bolsa, não estava com muitas esperanças, nunca teve muita sorte mas, como dizia alguém, tentar não custa nada.

Boa surpresa, foi atendida por uma doutora Cândida, simpática, competente e muito prática e, importante, gostou dela.

Deu-lhe todas as indicações e muitas esperanças, alias, achava que merecia conseguir uma das bolsas.

Terminou com um conselho em ar de confidência:

-És muito simpática, vai tratar do teu processo e vem ter comigo, prometo dar uma palavrinha ao Doutor Albino Malcata, que é o presidente.

Joana pensou, que finalmente, um raio de esperança se tinha cruzado no seu caminho.
***********


Era quinta-feira, um Sol tímido parecia querer romper uns cirros, de nuvens, que se vislumbravam no horizonte.

Joana caprichou na apresentação, vestiu a melhor roupa que tinha, amanhou o cabelo de forma a fazer realçar a beleza e frescura do rosto. Não usava muitas pinturas, apenas uns leves retoques nos olhos para dar mais realce ao seu brilho.

Não era muito vaidosa, nem precisava, mas hoje estava muito em jogo.

********

Quando chegou ao Instituto ficou, um pouco, preocupada, a doutora Cândida, estava a despacho com o senhor presidente. Se ia demorar? Não sabiam, podia ser meia hora ou, até toda a manhã.
Se quisesse podia esperar ou, então, alguém a iria atender. Ia esperar o tempo que fosse necessário.

Teve sorte, cerca de 40 minutos depois a doutora Cândida saiu, reconheceu-a, deu-lhe um beijo e perguntou:

-Tens tudo em ordem? Espera um pouco que estamos, quase, a acabar.

Pegou numa pasta esverdeada e, voltou, a desaparecer no gabinete.

Mais 20 minutos e saiu acompanhada de um senhor, por sinal muito jeitoso, que a cumprimentou com um leve movimento de cabeça.

A doutora Cândida aproveitou:

-Esta jovem é minha amiga e vem apresentar o processo a uma bolsa do programa "Oportunidades" do ISSERS.

-Então,  Cândida, trata de tudo e se estiver em ordem eu quero, depois, falar com a menina....não sei o nome!

-Joana! Respondeu, corando até às orelhas.

-Fique descansado senhor Presidente, eu trato.

Joana estava fascinada o senhor, sabia agora, era o Dr. Albino Malcata.
O presidente!

A doutora Cândida deu-lhe dois beijinhos e, à laia de despedida, segredou-lhe:

-Vai tranquila o senhor doutor mostrou interesse, o que não é normal!

********

Foi de coração acelerado, a imagem ia com ela, que homem tão diferente de todos os que conhecia.


Distinto, educado e tão bonito.

Teve que dizer para ela própria "Joana tem juízo!"





 Vou tentar abreviar antes que se torne chato, muito chato.










domingo, 12 de Outubro de 2014

A Vida - parte 3













Tinha uma esperança secreta, mas era apenas uma esperança, encontrar o filho, sabia que era difícil porque ele não queria ser encontrado.


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Ninguém sabe o que está para acontecer, e mesmo aqueles que pensam que as coisas só acontecem porque tem que suceder, são apanhados na rota do destino.

Joana nunca pensou que quando aquele rapaz, com ar de bebé crescido, um pouco desengonçado a olhou, ela, fosse sentir aquele tremor que quase a deixou paralizada.

Todos os dias o notava no liceu, muitas vezes se cruzaram mas, parece que o Deus das coisas, nunca tinha deixado que se notassem um ao outro.

Hoje foi diferente, os olhos entraram nos olhos e algo de estranho aconteceu, Joana tentou baixar o olhar, mas Maurício não deixou fugir o momento:

-Como te chamas? Todos os dias nos atravessamos, acho que já há um ano, mas sou um distraído.
Sou o Maurício e tu?

Ela tentou não corar, fez um leve abanar no cabelo que, sem o saber, tornou o momento mais sedutor.
Tentou vulgarizar o momento, mas não se saiu nada bem.

-Sou a Joana! Acabou por dizer.

-Joana, exclamou Maurício! Adoro esse nome, sempre disse que se um dia me apaixonasse, seria por uma Joana.

Ela ficou, quase, sem jeito e num manear de corpo que tinha tanto, de desajeitado como de mágico, virou-lhe as costas e tentou desaparecer, mas não foi suficientemente convincente.

-Desculpa Joana, gritou Maurício, eu não queria ser parvo, mas juro que é verdade! Se me deixares, e prometeres que não vais gozar, eu vou contar.

Ela estava a gostar de esta abordagem, o rapaz era simpático e, tinha um ar tão descontraído que a cativava.

Olhou a cara de bebé crescido, sorriu e pediu para explicar melhor.

-É assim, disse ele, quando me apaixonei pela primeira vez, estava na quarta-classe, e sabes por quem? Sei que não sabes! Mas foi pela minha professora que se chamava Joana.

Depois, quando me explicaram, que eram normais estas paixões e me fizeram perceber que era, apenas, a consequência da admiração do aluno, eu prometi, a mim mesmo, que se um dia tivesse uma namorada, a sério,  ela tinha que ser Joana.

-És mesmo parvo e, não sou tua namorada! Concluiu Joana, com uma pequena gargalhada.

Maurício não se conteve, puxou os cabelos para trás, com os dedos, como se fossem um pente  e, com um sorriso de simpatia, concluiu:

-Por enquanto Joana, por enquanto!

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Foi o princípio de um amor, não uma paixão, porque as paixões são efémeras, foi mesmo de um amor.

Eram tão diferentes mas completavam-se, de tal forma, que um parecia adivinhar o pensamento do outro.

Ela era uma rapariga pragmática, determinada e com objetivos bem definidos na vida. Queria ser médica, queria estudar e ser psiquiatra. Sabia o quão difícil seria e, não tinha a certeza, se os pais poderiam e estariam dispostos a esses sacrifícios. Quando fosse para a faculdade, se o conseguisse, ia tentar arranjar um part-time. Não ia ser fácil, mas ia lutar e estava determinada a vencer.

Maurício tinha uma filosofia de vida diferente, era um sonhador, acreditava que as coisas aconteciam porque era esse o destino e, se assim estava escrito, era só esperar para acontecer.
O facto de ser filho único, de pais abastados, também ajudou a esse sentimento de um certo facilitismo. Nunca precisou de lutar muito, pelos desejos, pois o dinheiro fazia acontecer.

Tinha a sensação de que as coisas surgiam porque, o destino, assim o tinha determinado.

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Mas o entendimento era perfeito, ele gostava da determinação, e do querer, da Joana, ela adorava a ternura, a delicadeza e a forma  descontraída como encarava a vida. Para ele estava sempre tudo bem.

*******


Era delicado, talvez um pouco imaturo a contrastar com a forma cautelosa como, Joana, encarava todas as situações.

Um dia, encarou Joana e com aquela naturalidade que lhe era habitual perguntou:

-Joana, podíamos casar! Nós amamo-nos e eu quero estar contigo para o resto da minha vida.

Joana deu uma daquelas gargalhadas, que só ela sabia soltar, de forma tão espontânea.

-Maurício, onde anda o teu juízo? Casamos, ficas na casa dos teus pais e, eu na dos meus, encontramo-nos ao fim de semana e ficamos na mesma. É isso?
Ou, então, deixamos os nossos cursos e vamos trabalhar? Nunca mais cresces!

Maurício corou, naquele ar de bebé crescido e admitiu:

-Tens sempre razão! Ainda bem que, entre os dois, há uma cabeça para pensar. 

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Não era fácil, Maurício, queria que o namoro fosse mais que a simplicidade que Joana lhe atribuía, era apenas um namoro à moda antiga, saídas ao cinema, passeios pelas avenidas, centro comerciais, tardes nos cafés ou umas idas a qualquer espectáculo.

De vez em quando um beijo, quase à sucata, e nada de avanços.

-Somos apenas namorados! Dizia Joana.

Maurício ficava na dúvida, se esse fugir, era por causa de uma mentalidade retrograda que já não fazia sentido, ou porque ela não estava certa dos sentimentos.

A reacção que tinha, quando ele tentava ser um pouco mais ousado não era normal, as raparigas de agora estavam abertas a um relacionamento diferente, não agiam como se o sexo fosse um tabu, que ficava reservado como ementa principal no casamento.

Isso já não se usava e, pensava Maurício, ela andava a passar o tempo apenas pelo conforto que ele lhe proporcionava.

*******

Foi em Julho, estavam de férias, os dias magníficos convidavam a uns dias na praia, ele sugeriu irem passar, um fim-de-semana prolongado ao Algarve, os pais tinham lá um apartamento.

Joana pareceu interessada o que deixou, o rapaz, num total reboliço.

-Então está combinado, vamos na sexta-feira, exclamou o rapaz?

-Mas, perguntou ela, os teus pais já estão lá e tem acomodações para todos?

-Estava a pensar irmos os dois, disse Maurício com alguma hesitação.

Joana no seu jeito, meio a sério meio brincar, deu uma gargalhada sonora e com sarcasmo sussurrou:

-E que mais querido! Também queres que comece a tomar a pílula?

Voltou as costas como se nada tivesse acontecido e acrescentou:

-Não posso ir, não tenho fato de banho!

E foi andando com um sorriso provocador.

*****

Joana era uma menina que pouco tinha a agradecer à vida, a mãe vivia num mundo de remorsos que ninguém conhecia, não era uma mulher azeda, pelo contrário, era muito doce, mas não tinha emoções, parecia estar sempre à espera de algum milagre.

O pai, já tinha 62 anos quando ela nasceu, foi como se lhe tivessem dado uma boneca, ficou embevecido, vaidoso mas sem saber, bem, o que fazer.
Até tinha receio de lhe pegar. Era tão frágil!

A menina cresceu, nada lhe faltou, teve muito amor, mas sem a alegria que molda a personalidade, alimenta a alma e adoça o espirito.


******

Pouco sabia dos seus antepassados, as origens perdiam-se no mutismo da mãe, que já tinha esquecido as raízes e na memória do pai que, aos 12 anos, ficou órfão e foi criado por uma velha prima até que aos 15. Depois veio para Lisboa e por cá ficou.


A mãe era de uma aldeia próxima de Castelo Branco e, segundo uma confidência da madrinha, foi casada com um sapateiro que um dia a abandonou, foi então que conheceu o pai, um caixeiro-viajante e, não sabe porque se apaixonaram, porque a mãe é muito bonita e jeitosa e o pai nem por isso.
É muito mais velho e apenas tem,  como beleza, a sua enorme bondade. 

Dizem que se enamoraram, amor à primeira vista, dizem eles, porque ninguém acredita.

Para a mãe foi o conforto económico de um homem, que embora muito mais velho, era carinhoso e sabia dar-lhe a atenção que nunca teve.

Para o pai era como que um alimentar do alter-ego, ter conseguido uma mulher, na plenitude da vida, ainda capaz de lhe satisfazer o seu maior desejo, dar-lhe um filho.

O resto tem sido um viver de faz de conta, uma mãe acomodada, que passa pela vida, como se ela não existisse, pensa que a mãe tem um segredo que a consome mas o qual, não quer, ou não pode, partilhar.

Um dia, afoitou-se um pouco mais, e perguntou ao pai:

-A mãe carrega, com ela, um segredo ou um desgosto que não quer compartilhar, sabes qual é pai? 

O pai fez uma longa pausa, longa de mais para ser verdadeiro, antes de responder:

-Sabes filha que o único segredo, da tua mãe, é o grande amor que tem por nós. Não penses nisso Joana!

Joana mais se convenceu de que algo, muito importante, lhe estava a ser escondido.

********

Joana hoje só tinha aulas, na faculdade, na parte da tarde, mas precisava consultar um artigo, sobre Rita Levi–Montalcini, pelo que resolveu ir mais cedo, para passar pela biblioteca.

Saiu numa paragem do autocarro, antes da Univerdade, para passar na livraria, precisava comprar o livro “Elogio da Imperfeição”, para preparar um trabalho.

Mas pensou mal, a livraria estava fechada  para almoço, da 13 as 15, ela sabia mas a cabeça, por vezes, tem estas falhas.
Ia ficar para outro dia.

Meteu os pés a caminho da faculdade e, em boa hora, olhou pela montra do café "O Caloiro".

Nem queria acreditar, na mesa mesmo encostada ao vidro o Maurício e, uma amiga comum, a Lisete, estavam no maior à vontade, entre caricias e beijos, totalmente alheados de tudo e todos os que os rodeavam.

Ficou sem saber, mesmo, o que fazer. As emoções, os sentimentos, o amor-próprio e o orgulho tomaram conta dos pensamentos.
Não sabia o que fazer, era uma luta entre o bom senso e a vontade.

Podia seguir e fingir que não viu nada?
Entrar e fazer uma pequena, ou grande, fita? Mas isso, não estava no seu feitio.

Imperou o bom senso. Foi simples e civilizada.

Entrou no café e, com a maior calma do mundo, cumprimentou o casal e desejou:

-Meninos...continuem a divertir-se, aproveitem que eu vou fazer o mesmo!

Maurício, tentou, mas a voz não lhe saiu muito bem, tentou, mas as palavras soaram a falso:

-Joana, isto não é nada foi só......, mas não teve tempo para concluir, Joana foi mais rápida:

-Não te preocupes! Agora já podes ir de férias para o Algarve.







(Ainda falta um pouco para acabar, só me falta decidir o destino destas personagens.)