terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Aconteceu?








Não sabe como aconteceu um dia, de repente, acordou naquela cama, naquela casa, naquela terra mas não sabia como.
Não conhecia nada do que o rodeava, era tudo tão estranho.

Nunca teve tal cama, fofa, cheia de cor e de grandes almofadas fofas, lençóis de seda e edredão de penas suaves e macias.
 O quarto era imenso, paredes de uma cor pérola, na parede, a encimar a cama, uma bela pintura, "A Maja nua" de Delacroi.
O tecto, em abóboda, era um enorme fresco de uma reprodução de um céu estrelado, imenso e profundo que o deixava numa grande pequenez.

Espreitando, pela imensa janela, via uma cidade que lhe era, totalmente, desconhecido
Ruas largas, transito muito ordenado, pessoas passando apressadas e aconchegadas, em grossos casacos, para se defenderem do frio que se adivinhava nos restos de neve, ainda visíveis, nos passeios.

****

Era tudo tão estranho. Beliscou as maçãs do rosto, doeu, era sinal que não estava num sonho, era real.

A casa, a sua casa, tinha um quarto miserável, com um cama asseado mas com lençóis já amarelados, pelo uso e uma manta cor de rato. Paredes desbotadas, onde a humidade tinha pintado manchas escuras de bolor, a janela era um postigo, a precisar de pintura, com um vidro martelado no centro.
Na parede um velho quadro, herança da avó,  de um anjo protegendo duas crianças junto a uma fonte. A porta, que dava para o corredor, era uma cortina presa por esticadores a dois camarões de latão amarelo.

Espreitando pela janela apenas campos, verdejantes, e árvores apontando ao céu.

***

Agora acorda assim, num cenário quase irreal, no desconhecido, numa terra com prédios onde cabia, de certeza, a sua aldeia.
Já se beliscou e está bem acordado, se não fosse um leve torpor na cabeça diria que se encontrava totalmente bem.

Estava com receio, diria mesmo com medo, de deixar o quarto, não sabia o que estava para além da porta que o dividia do mundo lá fora.

Vestiu a roupa que estava pendurada, não se lembrava mas, se calhar, era dele.

Saiu.

Era um corredor imenso, chão brilhante, com uma passadeira vermelha, presa com grampos dourados.
Nas paredes quadros, com paisagens, e alguns espelhos em molduras trabalhadas numa espécie de talha.
Ao fundo um elevador, marcou o piso 0. Saiu num enorme átrio, onde um sujeito, de farda azul com botões doirados, o saudou com um:

-Good morning mister Russell!

Olhou para todos os lados. Era para ele, o senhor deve estar enganado, fez confusão, falou numa língua estrangeira e chamou-o de um nome que não era o dele.

Sabia que era inglês, não sabia falar mas percebeu, que ele tinha dito bom dia senhor Russell, já tinha ouvido em muitos filmes, mas começava a ficar preocupado.

Onde estava? Porque e como veio parar aqui?

Ainda se soubesse falar inglês, mas só conhecia palavras dispersas.

Olhou o edifico donde acabou de sair e pela placa no frontispício "The Ligth Hotel", ficou a saber onde passou a noite.

Até há pouco estava, apenas, preocupado mas agora começava a entrar em pânico, o terror começou a infiltrar-se nos ossos e a percorrer-lhe o corpo, como se lhe tivessem injectado uma dose de qualquer droga.

Começava a ter fome. Verificou os bolsos, se tinha uma roupa também devia ter carteira e, quem sabe, até documentos.

Tinha um cartão, pelo aspecto, era uma carta de condução.
Será que tinha carro?
Também encontrou diversos cartões, mas não sabia bem para o que eram.
Bilhete de Identidade não encontrou, mas tinha bastantes notas de Libra, mesmo muitas, e também cartões multibanco de três bancos. Mas não sabia códigos.

Tinha dinheiro, ia comer, o resto deixava para mais tarde.

Foi espreitando até que reparou num restaurante onde se iam servir e à saída pagavam, sem necessitar de muita conversa, era um Garfunkel's.
Ia fixar.

Andou toda a tarde, o dia estava muito frio, andar ajudava a manter o corpo a funcionar.

Ficou a conhecer um pouco da cidade, era grande e muito ordenada.

Só tinha pena de não perceber o que diziam, sabia que era inglês, lembrava dos filmes de televisão os yes e uns good's que ia escutando aqui e ali.

Ia voltar, ao mesmo restaurante, e depois ia tentar o mesmo hotel.
Devia ser o seu poiso.

Quando cruzou a porta, o mesmo porteiro, com a mesma farda, muito solicito aproximou-se com um:

-Your key, mister Russell!


Estendeu-lhe o cartão, da porta, do quarto.

Bom, hoje, já, tinha onde pernoitar.

Estava um pouco nervoso, sempre se chamou Ernesto e, agora, era mister Russell, como se isso fosse nome de gente.
Russell imaginem!

Estendeu-se na cama e ficou e admirar aquele imenso céu, estrelado, era uma pintura mas até parecia que algumas das estrelas cintilavam.
A matrona da pintura também não estava nada mal.

O grande problema era saber como tinha vindo aqui parar, quem era, como tinha estas roupas chiques, a carteira recheada, uma carta de condução se nunca tinha pegado num carro, só na motorizada ou na bicicleta, mas carro e nesta terra, onde andam ao contrário.
Isso era impossível.

Adormeceu, enquanto os olhos passeavam naquele mar de estrelas, que pareciam querer brilhar naquela imaginada dimensão.

*******

Acordou, esfregou os olhos tentando lobrigar, por entre o lusco- fusco, o que o rodeava.
Estranho! O quarto era diferente, sem quadros,  sem abóbadas pintadas, sem edredão de penas.

Estava numa cama articulada, um tubo enfiado, com um cateter, no braço. Estava ligado a um saco de soro, pendurada num suporte, tinha os braços imobilizados por ligaduras e um tubinho com uma cânula de dois pinos enfiados no nariz.

Uma menina de uma bata branca entrou no quarto e exclamou:

-Bem vindo senhor Ernesto, finalmente acordou. Esteja calmo! Vou chamar o doutor.

Saiu ligeira, reparou que era muito jeitoso, mas foi um mero notar.

Voltou acompanhada por um sujeito, devia ser o médico. Simpático, com um sorriso a rasgar o rosto. Um fino bigode dava-lhe um ar de David Niven, voz suave e aspecto de muito competente.

Olhou Ernesto com um sorriso:

-Então, caro senhor, conseguiu dar um exemplo de como lutar pela vida, foi formidável nunca desistiu.
Chegamos a recear muito, mas mesmo muito. mas conseguiu ser muito forte.
Como se sente?

-Senhor doutor, ainda ontem eu era uma pessoa diferente, a viver num país distante, num hotel especial, com boa roupa e muito dinheiro no bolso. Tinha um quarto que me aproximava do firmamento e, de repente, acordo todo estropiado, ligado por tubos, enrolado em ligaduras, com dores em todos os sítios. Não sei se sonhei ou se estou a sonhar!

O doutor não conseguiu evitar um sorriso, mas respondeu:

-Deve ter sonhado e teve sorte! Podia ter sido o seu maior pesadelo.
 Já a sua motorizada não pode dizer o mesmo, essa morreu de verdade, não tem conserto!
Agora descanse, vá!








segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Reflexos










Inspirado pela Sónia, que adoro, e que está encontrando o seu espaço……




Ela queria ser normal, igual a tantas outras, mas havia algo que a tornava diferente, um lirismo, um inventar de desejos, quase como se o mundo fosse feito de poesia.

Tinha sonhos, afinal todos temos, mas os dela eram diferentes, eram sonhos feitos de imaginações inimagináveis, de desejos nascidos de fantasias que se enleavam num emaranhado de coisas do que devia e, não era, ou não podia ser.

Olhava a vida de forma diferente, o futuro era hoje, o amanhã era, apenas, a continuação do presente.

Tinha planos, todos temos, mas eram diferentes, nasciam onde os outros acabavam.

Vivia num palácio de fantasias, onde pintava de cores fortes os desejos feitos sonhos.

Nasceu numa primavera, num dia em que o Sol brilhou e a encandeou, de tal forma, que não foi capaz de conhecer as mãos que da corola se ergueram quando a cegonha a entregou, depois adormeceu no recobro do cansaço da viagem.

Agora vive na incerteza, só lembra o bico da ave, mas não as mãos que a receberam.

Talvez, pensa, a cegonha a tenha deixado  na corola errada. Tem, quase a certeza, que a flor branca não era o seu destino. Seria na flor amarela, da cor do Sol, o seu verdadeiro lugar. As flores amarelas são o símbolo da amizade e do sucesso.

Foi, está convencida, um engano que lhe ditou este destino, não o pode mudar, tem que viver nele.

Às vezes procura o amor e vai em ilusões, feitas na imaginação do amanhã que ia modificar, mas o amor é mais do que um sonho colorindo uma existência. Não é apenas a doce ilusão  de uma fuga à vida que não se quer, é também o sacrifício de ideais e o perder dos valores que não se querem transferir.

Depois são os regressos, penosos pela angústia, frustrantes pelo desengano, felizes na necessidade de voltar ao princípio das coisas.

Os anos passam, o murchar das pétalas não se nota, mas os traços invisíveis anunciam que a mulher já não é menina, o conformismo vai roendo, devagar, os impulsos e os sonhos arrebatados que davam movimento à vida.

Agora pensa num aconchego que lhe mime a alma e alimente o espirito de caricias, que a faça sentir, menina/mulher, na procura incessante do sonho tão próximo, mesmo ali, mas tão distante que não sabe se, algum dia, o poderá encontrar.

Ainda não perdeu a força mas, os traços de cansaço deixam marcas.

Pensa que a vida não tem sido vida, pouco lhe deu e tudo o que era importante lhe foi roubando, de forma cruel, deixando marcas que o tempo não consegue disfarçar.

Mas segue, há uma força interior, talvez um lirismo que lhe diz que o caminho está ali, mesmo ao voltar daquela esquina, tão próxima mas, ao mesmo tempo, tão difícil de lá chegar.

Agora é esperar uma nova primavera e, que outra flor, da cor do Sol, lhe abra a corola num abraço para a acolher e lhe ensinar, finalmente, o caminho certo.

A vida é assim e, na esperança, tudo é possível.

Assim vai ser!





terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Desenraizado













Hoje vou deixar um pequeno conto com uma final, quase, feliz.




Nem sempre pensou desta maneira, tinha até as ideias um pouco destorcidas, quase, retrogradas, pareciam doutras eras. Foi a educação que recebeu, muito conservadora arreigada a conceitos puritanos e cheia de  parece mal, tudo era pecado. Se olhava para as pernas de uma rapariga era-lhe logo prometida uma passagem para o inferno. Só muito mais tarde descobriu que o enganavam pois as pernas de uma rapariga conduziam, precisamente, ao céu.

Cresceu assim, numa espécie de medo, na promessa de um inferno, ou dum purgatório, se os pecados fossem menores.
Foi crescendo num sentimento de revolta, azedo e com dificuldade de se socializar.

Os rapazes nunca o convidavam para os jogos de futebol, era um coxo como diziam.
Ele bem tentava apanhar a bola e fazer uma finta mas não saia nada. Ficava no jogo mas a redondinha nunca mais lhe passava por perto, evitavam-no. Jogava sempre, a bola era dele, até ao dia em que, o Inácio, apareceu com uma nova, de couro ensebado, linda.
Nunca mais teve lugar nas equipas!

As raparigas eram esquisitas, cochichavam umas com as outras, risinhos parvos, passavam os recreios a mandar mensagens nos telemóveis, depois mostravam às amigas as respostas em frases tão encolhidas e metaplasmos que só elas, mesmo, conseguiam entender.

Olhavam para os rapazes mais excêntricos, as tatuagens, pircings e penteados malucos eram uma espécie de atracção que lhe davam o primado entre todos.

Ele, ainda tentou alguns avanços, mas a sorte nunca lhe sorriu.
Não percebia porque, era o mais alto e o mais forte, os outros pouco lhe ligavam mas tinham um respeito muito especial pois, como diziam, tinha um grande caparro.

Mas não estava muito preocupado, a sua vocação era ser artista, cantor, actor de novelas ou até, quem sabe, galã de filmes românticos.

Já tinha pedido à mãe para o inscrever numa escola de representação, ou ir para o Conservatório mas estava difícil, a velha, fazia uma cara mesmo feia, o que lhe era fácil, mas ele não ia desistir, não queria ser advogado como o pai.

Hoje a mãe, Senhora dona Isaura, como gostava de ser tratada estava, para variar, com um ar um pouco mais bem-disposto e o Afonso aproveitou:

-Mamã, eu quando acabar o liceu quero ir para o conservatório!

A senhora dona Isaura, franziu  o sobrolho de forma um pouco característica, mirou o filho, admirada, antes de responder:

-Mas Afonsinho, como quer o menino ir para o conservatório se apenas tem jeito para tocar no rabo das empregadas? Não diga que não, que eu já o vi a acariciar o traseiro da Rosete!

Afonso corou até as orelhas, era verdade a Rosete gostava e não se importava, agora a velha ter visto não estava, propriamente, nos seus desejos. Agarrou coragem, fingiu não perceber, e voltou à carga:

-Não é nada disso mamã! Eu não quero aprender musica, quero estudar representação para ser actor famoso, assim como Sir Laurence Olivier ou, mesmo, Sir Donald Sinden.

A velha soltou, talvez pela primeira vez na vida, uma sonora gargalhada, tão estridente que as empregadas vieram, muita à socapa, espreitar à porta da sala.

Voltou e empertigar-se antes de responder:

-O menino não quer ser como nenhum desses exemplos que falou, quer ser desses, das telenovelas, para se enrolar nas sem vergonhices de se lamberem em beijos e delirarem em apalpões, o menino sonha com essas coisas pecaminosas que o levam direitinho ao inferno.
-Mas não se importa, pois, enquanto cá andar vai-se consolando com os vícios desses pobretanas.
-Não! Um Castelo Branco nunca irá manchar a família nessas tristezas.
-Vá continue no seu tocar no rabo da Rosete, que eu finjo não ver e, ela parece gostar.
Por hoje chega de palermices!

Afonso ouviu sem mostrar qualquer  mudança e, quando retorquiu, não se lhe notou nenhuma emoção:

-Sabe, senhora minha mãe, que é verdade que eu brinco inocentemente com a Rosete. Sim, faço isso! Mas será que quando o seu motorista a leva para os estábulos a apalpa, de alto a baixo, lhe beija o pescoço e depois se embrulha, com a senhora na palha, tem a mesma inocência que o meu toque na Rosete?
-Não me diga que não, porque eu já vi!

Dona Isaura teve um chilique, abriu os olhos desmesuradamente, esticou as pernas em pontapés no ar e caiu, redonda, num bem dissimulado desmaio.

Acudiu todo o pessoal, dona Emília, a cozinheira, foi rápida a fazer um chá de camomila para lhe acalmar os nervos.

Afonso saiu de mansinho e foi refugiar-se no sossego do seu quarto. Ficou à espera que o mundo desabasse.

********

O ambiente, na casa, mudou de forma radical.
O pai há muito que era uma figura de corpo presente, não se dava por ele. Vivia num mundo muito próprio, estava com as pessoas mas não as conhecia.

Tudo começou em Maio, há três anos. Foi com a filha, Mafalda, a um Centro Comercial, no regresso, um cão, atravessou-se na estrada, tentou travar mas vinha com alguma velocidade e, o carro, só parou com estrondo contra um posto de betão.

Quando os desencarceraram estava uma jovem, acabada de fazer 18 anos, já cadáver, e o pai com lesões que deixavam algumas reservas.

Foram oito meses de hospital, primeiro em coma induzida depois, a pouco e pouco, foi abrindo os olhos para a vida embora, o cérebro, tenha continuado adormecido num buraco negro.

Quando voltou para casa era um estranho, não reconhecia nada nem ninguém, deambulava como um estranho nos enormes corredores, sentava-se num banco no jardim e, levava as tardes, a olhar as mãos como se elas fossem um livro.

Um dia o Afonso sentou-se ao seu lado, segurou-lhe as mãos e segredou-lhe:

-Paizinho, eu, amo-te muito!

Olhou o filho e acendeu um leve sorriso, depois, voltou a contemplar as mãos como se nada se tivesse passado.

Por vezes dava um assomo, de conhecimento, e entrava no quarto que fora da Mafalda, olhava como se estivesse a ver algo que só ele conseguia, sorria para as bonecas que continuavam colorindo a cama, depois voltava a contemplar, as mãos, e voltava tão calado como tinha entrado.

****

Afonso, desde que confrontou a mãe, passou a fazer parte da plebe, que a Dona Isaura tão abominava, deixou de ter  direito a refeições na sala, passou a comer na cozinha, com os empregados. A sala era para os senhores, os empregados e os traidores, como dizia Dona Inácia, já tinham sorte em ter refeições.

Afonso, não ficou incomodada com isso, era bem tratado e tinha companhia, deixou a presença do pai, que amava muito, e do nariz empinado da mãe, sempre mal disposta e recriminativa.

Nunca foi um rapaz feliz mas, passava bem pela vida, não lhe faltava nada, só os afectos mas a isso já se tinha habituado.

Agora estava como um estranho na própria casa, o pai deslizava pelas memórias apagadas, passava por ele e nem sequer se apercebia, a mãe no alto da sua falsa moralidade, nunca lhe perdoou por ter ficado em vez da irmã. Sim ela achava injusto perder a filha, de que gostava, e ficar com um rapaz de que nem tinha a certeza se era filho do marido.

Afonso, estava triste mas determinado, respeitava a mãe, porque era o dever de filho, mas não gostava dela, nunca sentiu qualquer afecto, mesmo quando muito pequeno já sentia essa espécie de rejeição, não tinha culpa era quase genético, nasceu com ele.

Agora que, a dona Isaura, abriu as hostilidades, do alto do seu falso moralismo, desprezou o filho como se desprezam os sapatos que pensamos nunca mais calçar.

Ia ser difícil, uma luta muito desigual, por um lado uma loba implacável, ávida dum poder quase régio, do outro, um falso cordeiro que se ia camuflando numa ingénua aparência à espera do momento certo.

A Rosete passou a ser a sua guardiã, que o despertou para os prazeres da vida, que ele já imaginava, mas de que agora tinha a certeza, pela grande experiencia, que estava acumulando.

O pior era doença do pai, não sabia bem se era doença!

Se o pai se libertasse daquela, espécie, de hibernação, as coisas seriam diferentes, pois ele era o único que conseguia manter a fera dominada.

O dinheiro, aliás, toda a fortuna era do pai, que além da herança que recebeu dirigia, também, um dos mais importantes escritórios de advogados do país, talvez fosse essa a razão de conseguir liderar e manter a fera no sítio certo.

Agora, a única esperança, era que aquela apatia e alheamento que o tolhia um dia o deixasse voltar à vida.

Amanhã, dia 23, se ainda fosse viva a Mafalda completaria 21 anos, mas o pai, o cão, o poste, o carro e quem nos governa não deixaram.

Tinha muitas saudades e, em silêncio, tinha feito o seu luto. Nunca se manifestou muito, pois, para ele, ela continua viva bem dentro do coração. Muitas vezes, no escuro do seu quarto, sente a sua presença, sabe que vem ver o mano de quem tanto gostava. Ao princípio ficava arrepiado mas agora sente um bem-estar que não sabe explicar, porque compreendeu que é, apenas, o desejo e as saudades que fazem que imagine essa presença.

Sabe, sente, que ela reprova este mau estar entre o irmão e a mãe e, se estivesse cá, já tinha terminado esse mau estar.
Era tão suave e subtil a resolver as pequenas desavenças que, tem a certeza, que está muito triste com tudo isto.

Esta noite sentiu a sua presença, acordou assustado, acendeu a luz mas apenas um suave fragância a Crystal Noir se sentia no ar. Era o perfume que a Mafalda usava.

Tinha a certeza, a irmã havia deixado um sinal, era preciso dar o primeiro passo.

Amanhã, bem cedo, vai colher uma bela rosa amarela, são  dessas que a mãe gosta muito.

Depois? Bem depois, seja o que Deus quiser!

*******

Estão na sala a tomar o pequeno-almoço ao lado, muito aprumada, a Rosete vai servindo, quase adivinhando os desejos.

A mãe, com os dedos esticados, segura uma torrada que, em pequenas dentadas, desaparecia no meio dos lábios que hoje, talvez por respeito, não estavam horrorosamente vermelhos.

Ao lado, o pai, alheio ao que o rodeava ia comendo um prato de cereais.

Entrou na sala, com algum receio, o pai olhou com doçura e a mãe mirou-o com a maior indiferença.

A custo as palavras saíram-lhe:

-Mãe, hoje a nossa Mafalda completaria 21 anos, queria dar-te esta rosa e pedir para perdoares a minha insensatez, ainda não cresci o suficiente para controlar as minhas palavras!


O momento foi muito intenso, Afonso, ficou um pouco sem jeito no meio de um mundo quase irreal.

A mãe, pela primeira vez na vida, levantou-se para o abraçar, borrou um pouco a pintura dos olhos, deve ter vertido alguma lágrima.

Mas o milagre, o verdadeiro, estava para acontecer.

O pai deixou o prato, daquelas papas, e veio juntar-se ao abraço, tinha um brilho diferente nos olhos.

Olhou a mulher, segurou no braço do filho e  com emoção rematou:

-Tens razão Afonso, basta de viver no passado, vamos os três à Igreja!
-Vamos rezar e dizer, à Mafalda, que estamos aqui, unidos e assim vamos continuar, para sempre!


-Vamos voltar à vida por ela e, também, por nós.



domingo, 28 de dezembro de 2014

Diálogos.......

  







Um ano novo está à porta, deixemos a tristeza e vamos tentar um sorriso:






Todos nós conhecemos uma Maria Inês. Eu conheço uma que, por vezes, serve para estes meus escritos.







Escutem este, entre mãe e filha:


-Mãe…oh mãe.

-Que é rapariga? Essa gritaria toda para que?

-Que dia é hoje?

-Sexta-feira. Porquê?

-Não é isso, Que número de dia?

-Oh rapariga, dás comigo em maluca. Hoje é dia 4. Que se passa?

-Porque estou lixada! Esta gaita já está oito dias atrasada.

-Já fizestes asneira? Esse teu juízo, ou melhor, falta dele não te auguram nada de bom. Eu já estava admirada que isso só tivesse acontecido agora. Não prestas para nada, a não ser para me dares desgostos!

-Mãe não seja assim. Oh pá… são coisas que acontecem. Eu sou gira e tenho que viver a vida.

-Desgraçada! E quem é o sujeito que te fez isso?

-Sei lá! Pode ser o Augusto, o Gilberto, o Vítor, o André ou o Ricardo.

-Valha-me Deus! Ao que o mundo chegou. E agora o que pensas fazer?

-Sei lá! Agora vou fazer uma dessas cenas para ver se estou grávida. Depois ou estou ou não estou.

-Isso é uma verdade de Monsenhor La Palisse

-Que merda é essa do tal Monsenhor?

-Esquece! Se tiveres prenha que pensas fazer da tua vida? 

-Ora vou ganhar umas massas. Cada um dos gajos dá-me pasta para a parteira. Recebo de cinco e pago um, logo fico a ganhar quatro. Se não estiver, digo que estou, eles pagam na mesma e ainda ganho mais. Diz lá que eu não sou esperta?

-Meu Deus criei um monstro!









sábado, 20 de dezembro de 2014

Quase um conto de Natal.......









Esta história, que aqui vos deixo, faz parte das minhas mais gratas recordações. É real, não é apenas uma, estória, fruto da minha imaginação.

                                  **************

Há alguns anos atrás, quando eu ainda sentia a magia do Natal, havia um homem de cerca de 80 anos, alto, elegante e com uns olhos azuis cheios dos mistérios de uma vida longa e dolorosa, que todos os meses, invariavelmente, pelo mesmo dia e, sempre, pelas sete e meia da noite batia à minha porta a pedir esmola.

Rogava, sempre, algo que pudesse levar para ajudar a uma refeição. Não queria dinheiro.

Vestia, com distinção, um fato já muito puído pelo uso, uma camisa branca deformada e uma gravata quase tão velha como o dono.

Era de grande eloquência e senhor de uma sabedoria fruto da experiencia de uma longa vida.

Num dia de Dezembro, à hora de sempre, tocou a campainha e, com a distinção habitual, pediu ajuda para aconchegar o estômago.

Eu, talvez imbuído pelo espirito de Natal que já se sentia no ar, perguntei-lhe se não queria jantar comigo?
Notei o brilho do azul dos olhos cintilar de forma mais intensa.

Timidamente respondeu:

-Gostava muito, vou-me sentar aqui nas escadas e agradeço de todo o coração!

-Vai jantar comigo, na minha casa, na minha mesa, confirmei eu.

                          **********
Comeu com uma delicadeza que, fazia adivinhar, ser alguém de princípios que a vida abandonou no fim da jornada.

Falou pouco, contou, apenas, que tinha feito 81 anos em Novembro, não se lembrava bem do dia. Disse que o filho, que deveria ter agora 45 anos, era advogado mas, que se havia esquecido que tinha um pai velho.

Vivia, por caridade, num quarto que uma, bondosa, senhora lhe 
dispensava.

Só pedia, em cada casa apenas, uma vez por mês.

Assim, dizia ele, não se tornava maçador e sempre o iam ajudando.

Acabada a refeição, recordo como se fosse hoje, olhou-me e, de forma acanhada disse-me:

-Há uma coisa que não bebo há longos anos mas, se hoje, me desse um eu aceitava!

-Diga, balbuciei, se eu tiver!

Olhou-me, quase com timidez, antes de responder:

-Era um cafezinho!

Bebeu-o com satisfação, pediu licença para se levantar, agradeceu e encaminhou-se para o frio da noite.

Não resisti, fui buscar a minha única gabardine e disse-lhe para a vestir.

Espreitei pela janela, vi-o desaparecer na esquina da rua. 

Figura alta e elegante, a que a minha ex-gabardine dava conforto, para vencer o gélido ar dessa noite.

Para mim, esse inverno foi mais frio, era o meu único agasalho e, eu, gostava tanto dele.

Mas valeu a pena e nunca me arrependi.

Foi a última vez que o vi, não mais apareceu.

Provavelmente, o filho, voltou a lembrar-se que tinha um pai.

Velho sim!

Mas era o seu pai!





sábado, 13 de dezembro de 2014

Um milagre









Não sabia explicar porque mas, havia algo que o tornava diferente.

Sempre foi assim, já em rapaz achava brutas e despropositadas as brincadeiras dos outros rapazes.  Aquele jogar à bola era uma brincadeira violenta, com palavrões e ele não gostava nada dessas coisas, desses palavreados.
Sofreu um pouco, os outros rapazes chamavam-lhe  menina mas não se importava, até gostava mais de brincar com elas, eram mais educadas e tinham brincadeiras mais sossegadas. À apanhada, ao jogo da macaca ou então faziam jantarinhos, coisas que os deixava felizes mas sem precisar de correrias, de brutalidades e algazarras.

Hoje fazia 19 anos e ia entrar para a faculdade e, achava que a felicidade, tal como a pensava, nunca tinha feito parte das sua existência, tinha momentos, muito poucos, que sentia, não propriamente felicidade mas, talvez, um pouco mais de alegria.
Quando a mãe, nos momentos,  em que a doença, lhe permitia alguma lucidez, com aquela voz sumida e arrastada o chamava para o seu lado, lhe afagava  o rosto e quase em sussurro lhe dizia:

-Bélinho, estás um belo rapaz, tal e qual o teu avô que Deus tem!

Depois caia na letargia em que vivia há muitos anos.
Os médicos não sabiam explicar porque, ela era normal, muito alegre e tão carinhosa e, de repente teve assim como que uma espécie de AVC, foi para o hospital esteve lá, muito tempo, e saiu tal como está.
Uns dizem que foram os médicos, outros acham que foi mesmo assim e nada podiam fazer e, até havia, quem falasse em bruxedos e espíritos e todos esses disparates.
Mas ele ia ser médico e estudar a doença da mãe até descobrir a cura!

A mãe era a vida do pai, aquilo era um amor, uma paixão que deixava as pessoas admiradas com tamanho apego do casal. Ele achava que muitos tinham inveja de não conseguirem uma harmonia igual.
A mãe deixou de ser o que era, mas parecia  que sentia o mesmo porque ele via que os olhares, dela, mesmo distantes, brilhavam mais quando o pai estava presente.

O pai já não era o pai, quando a mãe adoeceu lutou, foi a todos os médicos, queria ir ao estrangeiro, mas quando se convenceu que apenas um milagre a podia salvar abraçou-se à fé como naufrago a uma tábua.
Passava horas na igreja, aprendeu a rezar, acendia velas, foi a Fátima e, desconfiam, que até bruxas e curandeiras consultou. Tudo! Até que a fé morreu  e foi como se ele, também, morresse.

Entrou numa espécie de depressão, esqueceu os negócios e ficava longas horas falando com a mãe, numas ladainhas que só ele percebia e, quem sabe, talvez, a mãe no recôndito da sua ausência também percebesse.

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Era muito novo mas continuou a fazer o que a mãe lhe tinha ensinado, a cumprir, a ser bom menino e a continuar a ser obediente e respeitar o que a Laura dizia. Assim o fez.

A Laura era a empregada, há muitos anos, quando ele nasceu já estava na casa, a mãe dizia que foi ela que o criou e ele gosta muito da Laura.
É rechonchuda, bonacheirona e sabe tantas coisas da vida. Nunca casou, diz ela,  que não quis  mas que teve muito pretendentes.

O pai, o tio Ernesto e um sócio têm uma Empresa que faz casas, estradas e outras coisas assim, quando a mãe adoeceu o pai esqueceu o trabalho e essas obrigações todas, mas o tio tomou conta de tudo, como se o pai estivesse lá e as coisas continuaram na mesma, nada lhes faltou.
Às vezes o tio vinha, aqui, a casa, via como estavam e falava dos negócios com o pai. Ele parecia dar atenção mas, quem o conhece, sabe que ele ouvia mas não descodificava nada. Apenas abanava a cabeça, apertava a mão do tio e dizia:

-Mano, tudo o que fizeres está certo! Obrigado por seres o nosso anjo da guarda!

Depois davam um abraço e soltavam algumas lágrimas. Um beijo na testa da mãe e, alguns dias notava, lá muito no fundo dos olhos, um sorriso de alegria.

Depois, ia falar com a Laura e queria saber tudo, o que estava bem, o que faltava e essas coisas, queria que tudo estivesse como dantes.
Apertava o sobrinho, contra o peito, queria saber da escola, como ia, como se sentia e todas essas coisas e acabava sempre com a mesma frase:

-Estuda e faz-te engenheiro para tomares conta dos negócios, o teu pai não pode e eu, qualquer dia, fico velho!

Ele  sorria, só podia fazer isso, não lhe queria dar o desgosto de lhe dizer que ia ser médico para curar a mãe.

********

Estamos no Outono, os dias cinzentos escurecem os nossos pensamentos, anda há trás anos, na Faculdade de Medicina, adora o curso mas à medida que o tempo passa, mais se convence que já aprendeu muito mas, que nada sabe.
Os mestres são diferentes, de grande eloquência mas, alguns, muito teóricos e ele deseja a prática, não tem tempo, a mãe continua no seu mundo e o pai definha numa resignação total, já não tem forças para enfrentar a vida. Parece que desistiu!

Anatomia é muito difícil mas é o mistério que  procurava, sim o corpo humano é um mistério, uma máquina complexa que funciona como um enorme computador que dá ordens e faz com que cada acto seja a consequência de uma vontade, se algo falha, nesse perfeito maquinismo, há um desencontro e o anómalo passa a fazer parte do conjunto.

Aqueles impulsos eléctricos, do cérebro, não podem ter nada que lhe altere o caminho, tem uma sequência lógico, manipulados por qualquer Deus imaginário que, quando se distrai, faz que estas doenças, como a da mãe, se instalem e se quebre o mecanismo, é ai que o mecânico, ou seja o médico, tenta descobrir qual a engrenagem que descontrolou o engenho, quase perfeito.

Sabia que era muito bom aluno, os mestres têm elogiado o seu trabalho e empenho, dizem que é muito aplicado e inteligente.
Mas, não é só a inteligente que o move, também a vontade e a necessidade.

O tio Ernesto, que parecia o mais saudável de todos morreu, no princípio do Inverno, um aneurisma.
O primo, fez a vontade ao pai e acabou, no ano passado, engenharia e tomou, com o engenheiro Themudo, o outro sócio, conta do negócio e está tudo a correr muito bem.

Agora a Empresa chama-se Anselmo, Ernesto, Themudo Técnicas de Engenharias, Lda,. É do primo, da tia, do pai e do engenheiro Themudo.
Passaram uma procuração, ao primo Ricardo, o pai não está capaz e ele não tem tempo, mas a família é muito coesa e as coisas estão a correr muito bem.

Ainda falta muito para acabar a Faculdade, escolheu neuropsiquiatria, são mais alguns anos e mais o  estágio, mas vai conseguir!
Tem pesquisado muito e, está  certo que, vai por a funcionar o circuito que em algum lado se perdeu.

A Laura estava tão velha que, foi necessário arranjar uma senhora para a ajudar, não queria e, pela primeira vez, teve que de se impor.
Ainda choramingou, com soluços e com as mãos como em oração disse-lhe:

-O menino, que eu criei com tanto amor, agora faz uma coisa destas. Arranja uma qualquer e bota-me no lixo como um trapo velho!

-Oh querida Laura, não penses  nisso, tu és da casa. A pessoa que vem é para estar sob as tuas ordens e fazer o que tu disseres, tu vais ser a dona da casa e estás para cuidares da mãe e do pai. Ficas com mais tempo para eles. Tonta, és mesmo tonta!

Pareceu ficar mais tranquila mas notou-lhe uma certa angústia.

Aos domingos gosta de ficar um pouco mais na cama mas, hoje passou uma noite com muita inquietação, uma espécie de premonição, o que aliás, lhe estava a acontecer com frequência.

Levantou-se e fui espreitar os pais. A mãe parecia acordada e sentiu que o olhou, o pai parecia dormir profundamente mas notou alguma lividez o que, nele, não era natural. Passou, com muito carinho, a mão pela testa e ficou numa espécie de pânico, apalpou a jugular  e o pai tinha partido.
Finalmente encontrou o caminho que há muito desejava.

Faz hoje três meses que o pai morreu, a mãe está a ter umas reacções que o animam, olha para todos e sorri e, há tanto tempo que não sorria.

Ontem, então, aconteceu um verdadeiro milagre. É a Laura que lhe dá as refeições, colher a colher na boca, mas a mãe pegou na colher e, como um bebé desajeitado, foi levando o comer à boca e sorria. Os olhos tinham um brilho diferente.

Hoje estendeu-lhe a mão e fez o gesto de se querer levantar, agarrou-se ao seu braço e com muita timidez caminhou num passo titubeante.
Mas caminhou e sorriu.

Voltou a sentá-la na cadeira. Com voz tremulante perguntou pelo pai.

Ficou em pânico, não lhe queria dizer a verdade mas, também, não lhe queria mentir.
Parece que se apercebeu, colocou as mãos como se põem para rezar e abanou com a cabeça, assim com quem diz:

-Está com Deus!

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Parece que foi ontem que o pai partiu e, afinal, já passaram anos.

Acabou o curso, é cirurgião de neuropsiquiatra, está a trabalhar no Hospital principal e, sabe, que já ganhou muita reputação.

Casou com a Judite, colega de curso. A mulher tinha enveredado pela pediatria, o que veio a propósito, pois tem dois rapazes, o João e o Tiago, gémeos e tão parecidos como duas gotas de água.

O seu grande objectivo foi alcançado, a mãe já não parece a mesma, é autónoma, adquiriu a independência que tinha perdido, já sai orgulhosa, com os netos até ao jardim.

O problema da mãe, embora grave, foi mal diagnosticado, foram-na tratando como se tivesse Alzheimer quando, afinal tinha um Glioma no tronco cerebral. Felizmente benigno!
Foi operada, ele esteve presente.

Quem os conhece, família e amigos, dizem que foi um milagre, que houve um santo que se apiedou e intercedeu junto de Deus.

Acredita que sim, mas tem a certeza que deu uma grande, diz mesmo, enorme ajuda.

Deus deve ter feito a sua parte mas, sem ele, nunca teria conseguido.








sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A Vida - Final













Senti que me estava a alongar e a receptividade não era muita. Acabei um pouco antes, fugindo ao pensamento, pois precisava de mais, muito mais, para chegar ao que imaginei.


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-A minha mãe, porque o perdeu há 25 anos, fez o luto e não queria passar, outra vez, pelo mesmo.
O meu pai, não sei porque mas tinha ódio do filho do sapateiro, como dizia. Por fim, o Mauricio, meu ex-namorado que pensava que o tinha trocado por ele.


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Nada mudou na casa de Joana continuava, tudo, como se nada tivesse acontecido, não sabiam das declarações da filha e tomaram, como normal, o facto de a polícia judiciária ter insistido, em perguntas e em saber onde estavam entre as 8 da noite de quarta-feira e as 10 da manhã de quinta.
Era esse o período que os legistas, e a própria polícia, consideravam como provável, para o crime.
O doutor saiu, do ISSERS, pelas sete e meia e foi encontrado, às dez da manhã, do dia seguinte.

***

O Senhor Cordeiro ia passear, o seu velho beagle, e achou estranho a posição do homem, pensou abrir o carro mas teve receio, telefonou para o 112 e explicou tudo muito bem explicado. Disseram para não mexer em nada e para não sair, iam mandar uma equipa.


Cumpriram, mas esteve 43 minutos à espera, sim ele olhou para as horas quando telefonou, eram dez horas e vinte e dois e o carro, mais a ambulância, só apareceram as onze e cinco.
Não gostou nada da forma como o trataram, parecia que o tornavam responsável, perguntas e mais perguntas e ainda teve que os acompanhar para prestar declarações, foi isso que disseram, ficou farto e ali mesmo jurou que podia topar, um carro cheio de cadáveres que a sua boca não se abria. Dava a volta e fazia de conta que não tinha visto nada.

Nos interrogatórios, feitios no local, apenas descobriram que aquele carro, um belo BMW, não era a primeira vez que por ali parava.

A senhora, do Quiosque dos jornais, jura que era habitual, estacionar naquele lugar, aos fins do dia, e um casal sair com alguma cúmplicidade.


Algumas vezes, não muitas, o senhor ia comprar revistas e a companheira ficava junto  ao automóvel.
Desta vez não reparou, quando fechou o negócio, se o carro estava por aqueles lados.

Se lhe perguntarem como era a senhora, ia ser  difícil, era ao fim do dia e ficava sempre ao pé do carro, não dava para ver bem, era alta e parecia muito elegante, mas difícil para descrever melhor. E, também, não eram todos dias.

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Joana agarrou-se aos estudos e, ao trabalho, quanto mais ocupada menos tempo para pensar nos acontecimentos. Queria esquecer, confessa que desconfiou dos pais mas tinha a certeza que não, ela era o seu melhor alibi, estiveram juntos toda a noite.

O trabalho no hospital era, totalmente, absorvente e tinha sentido algumas dificuldades na habituação, não no aspecto profissional, até tinha superado as espectativas, mas o lado humano era muito difícil.

Quando, pela primeira vez, teve de assistir ao tratamento dum menino mal tratado pelos próprios pais, foi difícil. Ou, então, aquela senhora em que as marcas de espancamento eram evidentes e não quis implicar, possivelmente, o marido garantindo ter caído numas escadas. Isso deixou-a a pensar e confusa.

Um dia, um jovem, não tinha mais de 18 ou 19 anos, depois de uma noite de copos se estatelou com a sua mota e tinha hipotecado o resto da vida. Ia ficar, se tivesse sorte, paraplégico e agarrado a uma cadeira de rodas, para o resto da vida. Ficou tão triste que, se não fosse o amor que sentia pela profissão tinha, ali mesmo, desistido.

Havia casos difíceis, mesmo muito difíceis de gerir, ficavam no pensamento.
Lembrava uma pobre mulher, esfaqueado pelo próprio filho, com a vida a esvair-se pelos fundos golpes no peito e que, apenas, estava muito preocupada com o seu menino, o assassino, que ia ficar sem ter quem cuidasse dele.

E as crianças, meus Deus, o drama de os ver sofrer, era o pior que lhe podia acontecer, perder na luta, pela vida de um inocente.

Os colegas, mais velhos, experientes, muito sabedores, iam dizendo que mesmo depois de muitos anos é sempre difícil, lidar com estes dramas, mas iam criando hábitos que ajudavam a encarar, a morte, como fazendo parte do percurso da própria vida.

Mas, no resto, lentamente, foi retomando as suas rotinas, a relação com os pais voltou ao normal, embora sinta que a mãe está mais fria, não que alguma vez lhe tenha sentido grandes emoções, mas estava diferente, um pouco desconfiada e calculista, era normal face aos acontecimentos. O pai voltou ao que sempre foi, como se nada tivesse acontecido.

Lembrava o irmão, todos os dias, mal o conheceu mas foi muito forte. Começou como veneração, misto de admiração e sentimentos que não sabia definir.


Quando o conheceu pensou - é este o que procuro - mal sabia que foi o princípio de uma mudança total.

Agora, pensava, que os desígnios de Deus eram tão poderosos que não deixaram que o pudesse amar, nem mesmo, como irmão.

Hoje estava uma mulher diferente, cresceu tornou-se mais adulta mas, ao mesmo tempo, sente que perdeu um pouco daquela ingenuidade que a tornava tão feliz.

****

Faziam, exactamente, seis meses que Albino foi encontrado no carro, não há precisão sobre o dia da sua morte, pode ter acontecido na quarta, ou na quinta.
Pelo que leu, não chegaram a nenhuma conclusão a única certeza, segundo os jornais, uma dose letal de morfina foi-lhe injectada no pescoço.


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Nunca mais falou com a doutora Cândida, estava envergonhada, parecia mesmo ingratidão, afinal ela tanto a ajudou, mas o tempo, os problemas e uma certa dose de "deixa andar" fez com que os dias fossem passando. Mas ia remediar, hoje, ia telefonar.


-Olá Joana, ouviu do outro lado do telefone!

-Oh Cândida, espero que não esteja zangada comigo! Tenho sido tão descuidada. Não é desculpa mas o trabalho, no hospital, não me deixa tempo para nada. Mas juro que não me tenho esquecido de si!

Cândida foi pronta a sossegar:

-Eu sei, querida, e compreendo, é muita coisa para uma pessoa digerir, não estejas preocupada. Que me dizes a um almoço num dia destes?

-Gostava muito, disse Joana e, na quarta- feira, tenho o dia quase livre!

-Então, respondeu Cândida, podemo-nos encontrar no mesmo sítio. Que dizes?

-Obrigada Cândida, fico ansiosa por esse dia, lá estarei. Beijinhos!

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Repetiram, como há meses atrás, encontraram-se, no mesmo café, e foram a caminho do pequeno restaurante, na travessa.

A ementa não variava muito, mas o peixe grelhado ficou na cabeça da Joana e repetiu, a doutora Cândida não ia com peixe e escolheu Carne à Bolonhesa.

-Sabe, disse Joana, temos andado à volta com  conversa e afinal não falamos, daquilo que, verdadeiramente, queremos!
Conheci mal, o meu irmão, sei que nunca o senti e tenho umas saudades, imensas, e uma pena enorme de não o ter abraçado. Deus não quis! A Cândida, que o conheceu bem, podia-me falar um pouco dele. Quero saber como era, os seus sonhos, sei que tudo o que me puder dizer, não o vai trazer de volta mas, fico a conhece-lo um pouco melhor.

A doutora Cândida pareceu ficar um pouco confusa, mas recuperou depressa e acrescentou:

-Mas que posso dizer mais, minha filha, era uma pessoa muito especial, amável, delicado e com muita consideração para com todos.
Muito exigente mas, ao mesmo tempo, de grande tolerância.
Comecei a trabalhar, com ele no banco, estava no início da sua carreira, mas desde logo nasceu uma admiração, posso dizer mútua, pois nunca mais dispensou a minha presença, de tal forma que, quando foi convidado para inaugurar o Instituto, aceitou com a condição de eu o acompanhar! E assim foi!
Estava previsto fazer parte, na próxima remodelação governamental, do executivo. Ia ser secretário de estado, não sei bem de que secretaria mas ia e, já me tinha dito, que contava comigo.
Tinha à frente uma grande carreira e, podes crer, que tinha um irmão que te iria amar muito.
Não te tinha ainda dito mas, vou ter a honra de seguir o projecto que idealizou, e ele, esteja onde estiver vai ficar orgulhoso. Vou ser empossada como directora do Instituto, serei eu a substitui-lo e a continuar a sua obra.

Joana não se conteve:

-Cândida, desculpe a pergunta, mas entre si e ele, a relação era estritamente profissional?

A doutora corou mas, rapidamente, se recompôs.

-Sabes, Joana, a nossa única preocupação devia ser descobrir quem o injectou com essa overdose de heroína! O resto, agora, já não importa!

-É verdade, disse Joana, mas não respondeu à minha pergunta!

-Pois, Joana, não respondi nem vou responder, pouco interessa sobre o que aconteceu ou o que poderia ter acontecido, nada acrescenta saber se a nossa amizade, era apenas no campo profissional ou se alguma vez, fomos um pouco mais além.


E agora vou devolver a questão:

-A nossa relação de amizade seria, ou será, diferente se eu e o teu irmão, algum dia fomos para a cama?

Joana não estava à espera da reacção, ficou desarmada e sem saber o que dizer, gaguejou,  na procura das palavras que teimavam em se enrolar na língua, por fim atreveu-se:

-Cândida não me julgue mal, não tive qualquer intenção além da curiosidade e, confesso, gostava muito de a ter como cunhada, mas gostava mesmo! Desculpe Cândida!

-Não gosto de lugares comuns, disse a doutora, mas agora vem a propósito dizer, que as desculpas evitam-se!

Levantou-se, de supetão, e muito furiosa foi acrescentando:

-Pensei que eras diferente mas o ADN é o mesmo. Passa bem!

Foi até ao balcão, pagou a parte da sua conta, e saiu porta fora sem sequer olhar para trás.

Joana não percebeu a reacção, mas ficou a saber aquilo que pensava. Eles tinham um caso!


********

Um ano vai passado e o assassinato, do doutor Albino Malcata, continua no mais completo mistério, para a polícia é um assunto encerrada, a não ser que algo de novo possa surgir.


Joana tem um enorme problema a roer-lhe a consciência, ela teve acesso ao relatório da autópsia e confirmou que a morte, do irmão, foi devida a uma overdose de “diacetilmorfina” ou seja de heroína.

Todos os meios de informação referiram overdose de morfina, talvez por má interpretação do nome técnico.


Mas a Cândida, quando foram almoçar,  referiu com muita convicção HEROÍNA.


Era estranho, foi a única a considerar heroína, quando todos erradamente falaram e escreveram morfina.

Coincidência? Só podia ser!

*******


A estação estava quase deserta, às 7 horas da manhã de um sábado, só algumas pessoas, bocejantes, esperavam alguém pelo comboio que estava com um ligeiro atraso.
Chegou as 7h e 33 minutos, num estridente roçar nos carris os freios que, a pouco a pouco, o foram imobilizando.
Houve algumas correrias de bagageiros, com carrinhos de rodas de borracha, na esperança de um serviço para um bom começo do dia.

Quando as portas das carruagens se abriram, os passageiros, começaram a sair numa dormência de quem passara, quase, oito horas sentado no banco dum comboio.

Os que tinham familiares, à sua espera, amontoavam-se numa algazarra de cumprimentos e perguntas, os outros seguiam puxando malas de rodas a caminho de uma longa fila de táxis.

Um homem, de pernas altas, e um pouco desajeitado, enfiado num sobretudo que lhe dava um ar de certa fineza, que as mãos nodosas desmentiam. Eram as marcas de uma longa vida de trabalho.


Era a mesma criatura que, há muitos anos atrás, numa sexta-feira, fria e chuvosa, estava sentado numa cadeira de buinho, com  as mãos a cobrir-lhe o rosto até que a mulher gritou:

-É um rapaz, um belo rapagão!

Era o mesmo mas, muito mais velho, o rosto vincado pelas rugas do tempo, o mesmo ar amargurado, com os cabelos fartos mas, agora, na cor da prata. O negro tinha desbotado há muito.

Tomou um táxi, não deixou por a mala no porta-bagagem, levou-a ao seu lado no banco. 


Deu indicações ao motorista, recostou-se e semicerrou os olhos até chegar ao destino.



******


Tinha ido, a salto, para França numa aventura feita de fome e de muita perseverança, foram 26 dias de caminhadas e boleias, desconfiadas, de alguns camionistas.

Passaram quase 30 anos desde que começou uma nova vida.


Em “Orthez” foi coveiro, a ocupação que mais o marcou, depois, muitos anos, mineiro, em "Nora Pas de Calais” e acabou, depois de muito porfiar, na sua profissão em “Combs-la-Ville”, próximo de Paris.

Não foi fácil, destruiu a mente, sonha todas as noites com os mortos que foi entregando à terra, nos pulmões, resta o DPOC que lhe marcou o que lhe resta da vida e, só, a sua verdadeira profissão lhe trouxe, alguma tranquilidade, aos poucos anos que ainda lhe sobram.

Nunca lhe perdoou, foi ele quem apareceu para acabar com a magia que tinha sonhado com Maria do Rosário.

Quando ela lhe disse que estava grávida não se conteve e teve que lhe dar uma bofetada, depois arrependeu-se e pediu-lhe desculpa mas exigiu que fosse deitar fora o intruso. Mas teimosa, como todas as mulheres, não quis.

Quando nasceu amaldiçou-o para sempre, mas o desgraçado parecia invisível, passava sem se deixar notar, vivia sem nada mas parecia ter tudo.


Um dia, o safado, desapareceu sem deixar rasto, foi como se a terra o tivesse engolido.

Foi um renascer de esperança, se calhar para ele e Maria do Rosário ainda havia uma hipótese.


Mas não! O rapaz tinha-a transformado, não era a mesma.

Não valia a pena, ia desistir,  fez uma trouxa e meteu-se ao caminho deixando o ódio a alimentar a vingança que o atormentava.


****


Um dia, um cliente habitual, um português pretensioso,  dono de uma loja das bebidas, entrou e estendeu-lhe um par de botas:

-J'en ai besoin pour demain...

Depois atirou-lhe um jornal português e perguntou:

-Queres ler, não tem nada de especial, mas já o li todo.

Foi nesse jornal que o ódio, que já andava um pouco escondido, voltou à tona. Quem diria que o amaldiçoado chegou tão longe, a bruxa da professora, tinha disso que ele podia ir longe. E não é que foi!

Na primeira página, em letras gordas, para quem as quisesse ler.

O ilustre doutor Albino Manuel Vicente Malacata foi empossado pelo ministro como presidente do recém-criado ISSERS, uma espécie de Instituto Superior nas áreas das novas tecnologias. Ao lado uma foto que lhe fez uma angústia como já não sentia há muitos anos. E eram os olhos, esses, não os esqueceu.Tal os da mãe.

Fechou o estabelecimento, entregou "les bottes", ao convencido do dono e, abalou a caminho  de casa, estava determinado, ia a Portugal acabar com a maldição.

Em casa pediu, à espanhola, com quem vivia há alguns anos:

-Preciso de uma mala, vou a Portugal acabar o que não comecei, volto breve!

-Llévame!

-Después! Entonces vamonos los dos, ahora no.


**********


Não foi fácil, não tinha plano e precisava de um.


Podia mandar uma carta a dizer que era o pai e que queria pedir desculpa. Era
 perigoso, ia deixar um rasto. 


Não, não dava!
Ia esperar tinha tempo.


****


Foi numa quarta-feira que, finalmente, o filho saiu sozinho e encaminhou-se para o BMW estacionado, alguns metros à frente.


Foi rápido e esperou junto ao veículo.

Quando o doutor se aproximou, olhou com estranheza o homem, mas mais surpreendido ficou quando ouviu:

-Então doutor Albino já não reconhece o seu pai?

Albino, observou o homem com atenção, aquela boca de cantos descaídos, o nariz grande e o olhar agudo estavam, ainda, na sua mente.
Era ou podia ser, de facto, o pai. Ficou sem palavras mas só perguntou:

-O que faz aqui passados todos estes anos?

-Sei que é tarde, disse o homem, é difícil mudar o passado mas pudemos, sempre, amenizar o futuro. Sei que és um vencedor, queria ver-te e, se possível, falar um pouco. Tenho muito pouco tempo e preciso voltar a onde pertenço.

Se me puderes levar e deixar, num lado qualquer, aproveitamos para nos conhecermos melhor, já que antes não o conseguimos fazer.

-Tenho pena, disse Albino,  mas vou para o Estoril.

O homem sorriu e acrescentou:

-É óptimo! Dás-me boleia e deixas-me na estacão dos comboios, falamos um pouco e depois cada um vai à sua vida. Quem sabe se não é a ultima vez que vamos estar juntos!

Aníbal não estava muito feliz mas anuiu:

-A estacão do Estoril serve para si? Se é boa vamos embora!

Foi uma viagem rápida, pouco falaram. O pai só quis saber como tinha chegado tão alto.


Albino explicou que trabalhou, sem nunca deixar de estudar. 


Teve sorte no emprego e nas pessoas que foi conhecendo.

O pai ouvia mas parecia distante e hesitante mas, sempre, perguntou:

-E a tua mãe?

Albino apenas lhe disse:

-Só há dois dias descobri que ainda tenho mãe e que está bem! Não a vi, nem sei se a quero ver, nem se ela tem algum interesse nisso.



****

Chegou ao Estoril, estacionou, num lugar vago. Era ali, onde estacionava com alguma frequência.
Depois, perguntou:

-Para o senhor está bem aqui?

-Muito bom!



****


Depois sentiu a picada, queria respirar mas o ar não chegava lá, queria gritar mas a voz morria na garganta.

O homem guardou a seringa. Limpou, com um lenço, em tudo onde tivesse tocado. Apagou as luzes e desligou o carro. Saiu e seguiu na direcção da estação dos comboios.

Tomou o primeiro que passou para Lisboa.
Parecia calmo no meio da confusão que lhe bailava na cabeça, os pensamentos entrechocavam-se, num misto de dever cumprido e uma agonia,  por ter que carregar para o resto da vida a imagem dos olhos do Albino, na agonia dos últimos momentos.


Teve que ser, não merecia outra coisa, agora só faltava Maria do Rosário, ainda pensou perdoar-lhe mas, não podia, tinha que a juntar ao filho, afinal foi por ele que ela o trocou.

Sabia que Albino não sofreu, ele estudou e sabia que ia ficar num estado de sonolência, depois o ritmo cardíaco e a respiração diminuiriam, ira perder a consciência. Seria, quase, como se diz, uma morte santa.

Agora para a cabra, da mãe, que mal se apanhou livre, se enroscou com o velho que impingia maquinas Singer, a prestações. 

E ele, que sempre, pensou voltar para a levar como se fosse uma princesa.

Tinha que estudar a melhor maneira de o fazer, mas ia encontrar uma forma, ou não fosse um Malcata.


******


Desceu no Cais do Sodré, não conhecia, já tinha ouvido falar das diversões daquela zona, não era homem dessas coisas, mas hoje, era noite para festejar e sempre ficava a conhecer. 

Afinal era como uma despedida, não tardava acabava a missão e voltava para a sua Yolanda, sabia que era feia como um sapo, mas fiel e muito carinhosa. Não a amava mas que importância tinha isso?


****


Atravessou a avenida, ia procurar um sítio onde jantar, já estava a sentir uma fome danada.

Era um restaurante modesto mas, as iscas, estavam boas e o preço era aceitável. Apetecia-lhe um cigarro mas estava, totalmente, proibido. Não podia!

Percorreu um pouco aquelas travessas, muitos bares e tanta animação, gostava de ir espreitar mas lembrou-se que os pulmões não o deixavam frequentar meios mais poluídos e, lá dentro, a atmosfera não devia ser convidativa.

Tinha ouvido falar no Bairro Alto, restava-lhe tempo para dar uma volta.
Ia saber como lá chegar.

Estavam na esquina três moços, ia perguntar:

-Desculpem interromper a vossa conversa, mas algum dos senhores me diz o melhor caminho para o Bairro Alto?

Olharam-se, como se se interrogassem com o olhar, até que o que parecia mais velho respondeu:

-Está com sorte vamos, precisamente, para esses lados. Se quiser pode ir connosco?

-Obrigado, disse Malcata, isso é mesmo bom. Mas não queria incomodar!



Meteram-se ao caminho, por uma travessa um pouco manhosa, os rapazes pareciam animados. De novo foi o mais velho a perguntar:

-Então o amigo não é de Lisboa?

-Não, respondeu, sou imigrante, vim tratar dumas coisas e volto breve.



Iam já voltar na esquina da travessa, quando, um deles, segurou-lhe o braço encostou-lhe uma navalha à garganta e com ar ameaçador exigiu:

-Passa para cá o guito, o relógio e o telemóvel, Mas depressa antes que a menina te degole.


Foi rápido a entregar os objectos, que um deles ia arrecadando.

-Agora despeja os bolsos, voltou a mandar o da navalha, saca tudo porque estou a ficar nervoso!

Malcata tremia, sentia o suor a escorrer e, as pernas, a perder as forças, queria salvar a caixa onde tinha a seringa.

Timidamente tentou uma mentira:

-Já dei tudo, só tenho esta caixa com a seringa para a minha insulina.

O outro tentou tirar a caixa, o desgraçado fez um esforço, Fez muito mal, a faca entrou-lhe duas vezes no peito e o sangue jorrou.



Sentiu o corpo dobrar-se, ouviu uns passos a afastarem-se em grande correria.


Tentou gritar mas, apenas, lhe saiu um suspiro. A vida acabara de se esfumar por dois buracos, feios, por onde o sangue escorria lentamente.


*******


Partiram, quase juntos, nunca se iriam encontrar.


A luz da alma, do inocente, não podia atenuar a escuridão do espirito do carrasco.