quinta-feira, 28 de Agosto de 2014

A nega









Vinha aos ziguezagues, punha um pé e ficava em suspenso como que 
a pensar aonde devia por o outro. Cambaleava como se o peso do corpo não estivesse distribuído.

De vez em quando, parava como se estivesse a analisar o ondular do passeio, parecia mesmo o mar, com ondas suaves mas que tão facilmente o desequilibravam.


Não, não pode ser! Só bebeu uma garrafa, de tinto, e ele não é homem para se deixe vencer com uma dúzia de copos.



Encostou-se a uma ombreira e esperou, que o chão,  sossegasse e que a cabeça se deixasse de rodopios.



Bebeu, reconhece que bebeu, mas não foi assim tanto, se calhar caiu na fraqueza, não comeu nada, não tem apetite.



Não era assim, sempre gostou de uma pinga, mas sem abusos, só para acompanhar algum amigo.



As coisas mudaram quando a Celeste, um pouco desvairada, lhe disse que estava farta e que se ia embora, tinha outros planos para a vida, não estava para aturar bêbedos, limpar porcaria e aturar ressacas de hálitos avinhados.



Ele nem queria acreditar, a Celeste, sempre tão calma e compreensiva com modos tão delicados, e, de repente, salta-lhe a mola e dispara em todas as direcções.



Mas ele não acreditou, aquilo passava, ia até ao tasco do Chibo e, quando voltasse, a Celeste, já estaria calma e mansa como sempre.



Hoje só ia beber um copito,  para molhar a garganta e depois comprar umas flores, quando chegasse a casa fazia uma surpresa e a Celeste, coração mole, esquecia as ameaças e tudo ficava bem.



Pensou! Lá pensar pensou, mas a seguir a um vieram outros copos, o cérebro embotou, as pernas deixaram de obedecer e saiu, como sempre aos tropeções, num ora cai ora não cai.

O caminho é o mesmo mas, agora, parece estar mais o serpentear de um qualquer carrossel.


Finalmente a casa, a porta estava a brincar com ele, pois cada vez que apontava a chave, o buraco da fechadura não ficava quieto, foi uma luta mas, mesmo emborrachado, ganhou. Depois de muitas tentativas conseguiu.

Só agora se lembrou das flores que afinal não comprou, não faz mal compra amanhã.


Afinal, a Celeste, cumpriu a promessa, não está em casa.      Não compreende como teve coragem, sempre foi um bom marido, nunca a tratou mal, sempre carinhoso, apenas aquele pequeno problema  e, depois, foi o desabar do mundo.


Sentou-se no sofá e adormeceu profundamente.


Acordou cedo e, felizmente, não sujou nada, o estômago  portou-se bem.



De repente, nem se lembrou da partida da Celeste, chamou por ela, e a falta de resposta deu-lhe luz à memória. Abalou mesmo!


Ele não era assim, bebia, como se diz, em sociedade, nada mais do que isso. Bebedeiras isso nunca!


*******
Foi num dia especial, faziam três anos de casados, ofereceu-lhe flores, fizeram uma festa a dois, foram jantar, ao restaurante preferido, e voltaram a casa enlevados para continuar mas, nunca lhe tinha acontecido, no melhor da festa o Horácio nada, mesmo nada, nega total.


Chorou, mesmo com lagrimas, e quase convulsivas, mas há coisas que o pranto não resolve.


Celeste foi compreensiva, animou, disse que era normal acontecer, já tinha lido, cansaço, stress, preocupações, mas era passageiro, não devia pensar nem empreender, deixar que tudo voltaria ao normal. Se volta-se a acontecer iam ao, médico, doutor Alegria, e ele resolvia o problema, sim era um pequeno problema, não iam pensar no assunto.


Mas ele não resolveu, fugiu, evitou, ia para a taberna, bebia e não pensava.

Chegava a casa arrastando o frustração e a bebedeira, caia no sofá e os problemas morriam com o sono.


De manhã fugia ao diálogo, adiava para mais tarde quando voltassem dos trabalhos.


*****


Agora estava só, até aqui fugia mas depois era a solidão que o levava.



Sai do trabalho e vai petiscar ao Chibo, com o petisco aquele tinto a que chamam vinho, depois é o inferno do caminho, dos tropeções, do praguejar com uma fechadura que não sabe estar quieta, depois uma casa vazia a cheirar a bafio, uma solidão que dói e uma saudade imensa.

Queria lutar, mas não tinha força era mais fácil assim, este deixa andar matava mas não o envergonhava.


Já pensou ir ao Doutor Alegria, jura que já pensou, mas não sabia o que dizer. Onde se viu chegar ao médico e ficar a torcer as mãos e as palavras não saírem.

Ou então ia dizer, senhor doutor, sempre deu mas, naquela noite, não deu nada. Que piada tinha isso, o médico ia pensar que o Horácio pirou dos miolos, ir com meias palavras, com enigmas, até iria pensar que estava no gozo.
Não conseguia, o melhor era beber uns canecos e deixar o mundo girar. 


Era sexta-feira, a tasca do Chibo estava cheia, amigos dos copos, hoje não faltavam. Foi uma noite e peras, na mesa chouriço assado, torresmos, azeitonas e pão, um pagava uma rodada, depois outro e mais outro, foi assim até que a terra deixou de girar, agora balouçava, parecia mesmo um baloiço.

Hoje a caminhada ia ser difícil, era um turbilhão, nada estava quieto, até os candeeiros dançavam na sua frente, as luzes pareciam cometas. Andou devagar, umas vezes no passeio, outras na estrada, confusão total, as pessoas quando o viam, mesmo ao longe, mudavam para o outro lado da rua.
Será que cheirava mal? Não! Todos os dias, antes de ir trabalhar, tomava um grande banho. São manias, cada um faz o que lhe apetece. Parou e ficou seguro a uma portada para ganhar coragem, mediu a distância, faltava pouco para chegar ao largo, mas parecia tão longe.


Mais uma aventura até à rotunda, ia caindo mas num gesto grotesco equilibrou-se numa perna e conseguiu ficar assente nos dois pés. Mais uns metros e, agora, era só atravessar.



Avançou e nem sequer olhou, um chiar de travões, alguém pelo ar que cai, com estrondo, três metros adiante.



O homem saltou do carro, aflito só gritava, matei o tipo, dei cabo do gajo, não tenho culpa ele atirou-se para a estrada!


O INEM não tardou, o homem estava mal tratado, mesmo inconsciente, mas vivo. 



********



Começou a abrir os olhos, era estranho não sabia onde estava, só se lembrava da tasca, se calhar morreu, pois estava  num escuro total, nem réstia de luz. Não deve ser o inferno embora tenha muitas dores, mas está confortável.



O braço direito não consegue mexer, está imobilizado. Passou a mão esquerda pelo rosto, está todo ligado, por isso não consegue ver, tem ligaduras até à ponta do nariz.


Uma pequena luz começa a brilhar no cérebro, foi isso, foi atropelado! Se calhar esta metido em sarilhos, ainda tem que pagar estragos nalgum carro. Era melhor ter morrido mesmo. Possa!


Sentiu uns passos muito suaves, pela voz devia ser uma enfermeira, perguntou como se sentia, disse que lhe ia tirar as ligaduras e, que amanhã, já podia receber visitas pois ia para a enfermaria.


Visitas, mas visitas de quem, a mulher deu à sola e os conhecidos só os da tasca e, desses, nem sequer conhecia os nomes.


A enfermeira. Era mesmo uma enfermeira, cortou adesivos e ligaduras, foi desenrolando devagarinho, até os olhos ficarem libertos, ele via mas não muito bem. A enfermeira explicou que à medida que fossem desinchando ia recuperando a visão, o braço estava partido, em dois lados, tinha que estar engessado e o tronco ligado por causa das costelas fracturadas.


O resto, disse ela, estava bem. Como se fosse pouco, a cara num bolo, um braço partido e três costelas fracturadas. Que lata o resto estava bem, como se ainda fosse pouco.
Perguntou-lhe quando podia ir para casa, disse que ainda era cedo o médico é que iria decidir mas, só, depois. 


No dia a seguir, levaram-no numa cama com rodas e deixaram-no numa enfermaria com mais três homens que não conhecia.


Um tinha caído de um andaime, partiu as duas pernas, outro estava tão ligado que só se lhe viam os olhos, caiu da mota a 120 quilómetros e o terceiro, um idoso de olhos azuis muito vivos, que apenas sorria. Nunca chegou  a saber o que tinha.


As visitas foram às três horas e, surpresa das surpresas, com um embrulho, na mão, apareceu a Celeste, linda, preocupada e com um sorriso tão encantador.



Deu-lhe, cuidadosamente, um beijo suave nos lábios. Depois chorou, disse do susto que apanhou quando a polícia telefonou a dizer do acidente.


Veio todos os dias, ao hospital, mas só hoje permitiram visitas, achava que tinha culpa do acidente, porque o tinha abandonado, mas tinha voltado para casa, agora tinha que prometer que se ia tratar.


Jurou que sim, logo que tivesse alta, ia ao doutor Alegria.


Dr. Alegria não, disse ela, tinha tudo tratado, falou com o médico do hospital e ele deu-lhe uma carta para o doutor Caramelo, um dos melhores andrologistas do país.


Horácio pensou abençoado atropelamento. Graças a Deus!



Afinal um acidente nem sempre é um desastre, nem um fim, pode ser um princípio.



Está todo partido, mas tudo vai endireitar, vai recuperar a sua vida.









quinta-feira, 21 de Agosto de 2014

Um livro de capa amarela







Há uns tempos que sente um certo desconforto, não é propriamente um dor, mas um mau estar, um adormecimento que o deixa numa total apatia. Quer e tenta, mas parece que o corpo se nega como se tivesse ausente.

Um dia destes tem que ir ao médico embora, pense, que é apenas cansaço, tem trabalhado de mais.

Ainda se tivesse apetite, mas não consegue tolerar a comida, o estômago rejeita como se não tivesse espaço para o quase nada que ingere.

Este fim-de-semana, que há tanto tempo deseja, vai ficar na cama até que o corpo a rejeite, vai dormir como se o acordar não existisse.

Afinal foi como nos outros dias, acordou às mesmas horas e com as mesmas dores no corpo, ainda tentou voltar-se para o outro lado e fechar os olhos, mas de nada valeu, o mau estar ganhou. Ia tomar banho, se calhar fazer a barba, bem precisava e, sair assim um pouco ao deus dará. Primeiro um pequeno-almoço na pastelaria do Hermenegildo, tinha uns croissants recheados com chocolate a que não sabia e, não queria resistir, só tinha dúvidas se acompanhava com uma grande chávena de café ou, se calhar, um bom copo de sumo de laranja. Bom, logo via!

A pastelaria, o que não era normal, estava quase vazia, apenas um casal idoso no canto mais afastado e na mesa, ao pé da montra, uma mulher, linda! Totalmente absorta nas paginas de um livro de capa amarela. Cabelos negros, graciosamente disposto em suaves caracóis caídos pelos ombros.

Puxou uma cadeira, propositadamente, com algum ruído e resultou. Tirou os olhos do livro e brindou-o com um sorriso que lhe paralisou o pensamento, lhe deixou uma tremedeira nas pernas, mas, felizmente, não lhe tolheu a voz:

-Bom dia menina, com esse sorriso vou, de certeza, ter um dia muito especial.

Agora ela não sorriu, deu uma cristalina gargalhada, e com o voz mais doce que alguma vez ouviu, respondeu:

-Graças a Deus, espero bem que sim!

Tinha sotaque num português, açucarado, do Brasil, olhos gaiatos numa cor indefinida, entre avelã e verde, pareciam mudar a cor consoante a expressão, mas era linda. Tinha que insistir, não podia perder a oportunidade que o destino lhe estava a oferecer:

-Sabe, insistiu, para o dia ser perfeito só preciso que me deixe sentar, ai, ao pé de si a tomar o meu pequeno-almoço.

-Oi, não seja por isso! Pode tomar o seu café da manhã à vontade, a mesa é grande!

Era linda e alem disso, muito simpática.

Começou a ficar sem jeito, a forma simples e despretensiosa como encarou a sua ousadia,  a maneira como arrumou o livro fez antever que ia ser companhia.

Sentou-se, olhou o livro da capa amarela, obra antiga de Pearl S. Buck, A Promessa, não era muito normal nas mãos de uma menina que não devia ter mais de 25 ou 26 anos. Aproveitou o livro para alimentar a conversa:

-Esse romance é muito antigo, é curioso estar a ler essa obra.

Pareceu ficar com um leve rubor na face o que ainda acentuou mais o seu encanto, fez um leve trejeito com a boca antes de responder:

-Eu não sei mesmo quem é esta escritora, mas estava lá na estante do meu avô e a capa amarela me atraiu. Estou gostando mesmo, é uma história de um jovem chinês, mas passado há muito tempo, mas muito bem escrito.

Bebeu as palavras, deixou a música do sotaque invadi-lo numa doce dormência.

-Então está a deixar esfriar o café? Perguntou com um sorriso trocista.

-Oh….gaguejou, os seus olhos fazem-me esquecer do resto!

Depois ficou arrependido, afinal mal a conhecia e estava a arriscar de mais. Teve  sorte, ela achou graça e sorriu:

-Obrigada, mas agora é hora de tomar o seu café.

Foi assim que começou, numa manhã que pouco ou nada prometia e, de repente, um livro de capa amarela transformou no principio de tudo, como se o passado fosse apenas uma leve recordação.

Saíram os dois, naturalmente, como dois amigos de há muito.

Era portuguesa nascida, algures no Alentejo, foi para o Brasil tinha dois anos e por lá ficou 22, era, como dizia, meia-meia, coração dividido.

-É um pouco complicado, sabe?

-Não sei, disse ele, mas temos o dia para falar e contar tudo para eu perceber.

Foi linda a gargalhado que ela soltou, antes de dizer:

-Bom! O dia todo é demais, um tempinho podemos aproveitar, pois estou gostando da companhia.
*****

Seguiram avenida abaixo, risadas, pequenos e casuais toques de mão. Uma cumplicidade que parecia grande mas, era apenas feita de um disfarçar de emoções, de uma atracção que queriam disfarçar.

Sentaram-se na esplanada à beira mar.

Ele estava a ordenar as ideias, um pouco sem jeito, as coisas estavam a ir tão depressa que se sentia desconfortável nas palavras.

-Então, continuou ela, me chamo Carolina, nasci numa pequena aldeia perto de Beja e, não sei porque, nunca me contaram, os meus pais se desentenderam e a minha mãe pegou em mim e abalou para junto de um irmão que trabalhava no Brasil, voltou  a casar e foi assim que cresci, estudei e vivi sempre na Bahia.

-Há dois anos, o meu padrasto, teve um acidente e morreu, mamãe ficou muito abalada e resolvemos voltar para Portugal.

-Eu gosto de Lisboa, estou a preparar a tese do mestrado e sou advogada estagiária numa sociedade de advogados.

-É tudo, sou assim, descontraída, gosto de conviver e tenho pena de não conhecer o meu pai, mas a mãe sempre escondeu.

Ele estava fascinado, a forma alegre como se expressava  toda a doçura nas palavras e, sobretudo, a naturalidade como desnudava um pouco da vida perante um, quase, desconhecido.

Tinha que compartilhar, devia ser sincero como ela estava a ser.

-Pois, eu, sou uma espécie de desenraizado!

-Credo! Exclamou ela, que é isso de desenraizado?

-É uma forma de dizer, pois, sou alguém que com 23 anos ainda não se encontrou. Acabei, este ano, o meu curso de biologia e não tenho projectos nem ambições, sou saudável mas sinto-me doente, apático, quase inútil.

-Quase como tu, não conheci o meu pai, foi embora tinha eu dois anos, diz minha mãe.

-Parece que nunca voltou e, confesso, ninguém sentiu a sua falta.
A minha mãe, advogada como tu, foi capaz de ser uma maravilhosa mãe e, só em pequeno, senti a falta de um pai, depois habituei-me e não dei pela falta. Temos muito em comum e se Deus quiser podes ser a minha musa inspiradora para a minha existência e, finalmente, ter um objectivo.

-Isso é uma declaração? Ainda nem sei o teu nome e já sinto uma espécie de galanteio!

Ele corou, mas gracejou:

-Foi de propósito, pensei que tinhas notado que tenho cara de Horácio!

-Horácio? Gosto mesmo tá?

-Ainda bem que gostas, porque foi mesmo uma declaração.

As horas passaram tão rápidas que quando deram por isso estavam na hora das despedidas.

-Amanhã então me telefona? Perguntou Carolina. O meu nome, é mesmo, Carolina Beldroega, não é muito bonito mas é muito original.

Horácio pareceu surpreendido com o nome, fez uma cara estranha e não se conteve:

-Como é mesmo o teu nome?

-É mesmo Beldroega tal como o meu pai, está na minha cédula, filha de Joaquim Ezequiel da Silva Beldroega e de Maria Constância Matos.

Horácio não parecia feliz, deu-lhe um leve beijo na face e foi saindo:

-Ok, eu amanhã telefono!

********


Saiu correndo a caminho do carro, as lágrimas queriam romper mas ia mordendo os lábios para não chorar, ele sabia que nunca iria telefonar.
No seu bilhete de identidade o nome do pai era, também e exactamente, Joaquim Ezequiel da Silva Beldroega.

Não podia ser coincidência, não, não, não há coincidências assim.





quarta-feira, 13 de Agosto de 2014

A Casa das Açucenas - Final







Apenas porque me pediram, fiz uma segunda parte.

*******


Voltei passado um ano, a casa estava reconstruida, já não era a casa assombrada, canteiros de lindas açucenas davam-lhe um novo nome.


****

O desejo foi maior que a vontade e tive que voltar, jurei que seria a última vez.
Já ia um ano passado mas as saudades não me deixaram enterrar o luto e manter, apenas, a doce recordação.

Foi numa quinta-feira, estava calor como nos dias em que nos sentávamos, à beira mar, e apenas deixávamos falar o silêncio, olhávamos o mar e, eu, tentava adivinhar os pensamentos daquele olhar perdido num horizonte distante. Não o queira perturbar mas, por vezes, em tom de brincadeira, dizia-lhe:

-O meu reino pelos teus pensamentos.

Abria um sorriso e a resposta era sempre a mesma:

-Não ias gostar, são más recordações.

Voltei à casa, nem sei bem o que esperava, talvez só matar saudades.

Era a mesma e parecia tão diferente, as açucenas não estavam ainda floridas mas, nos canteiros, já se conheciam os pequenos botões prestes a florir.
Estava pintada de branco, os frisos que a contornavam e à volta das janelas, um rosa claro dava-lhe um ar, quase romântico.
Em cima, entre as duas varandas, um painel pintado destoava no conjunto, um pouco estranho, alguma alegoria que ia alem da minha imaginação.
Era oval, entre o sacro e o profano, como figura central a representação de um anjo vingador ou, talvez, uma gárgula pronta a voar no emaranhado de símbolos que a contornavam.
O painel era bonito mas pouco adequado, estava fora do conjunto.

Um último olhar, uma despedida, tentar acabar um luto.

Entrei na mercearia, ia comprar um pacote de bolachas, pretexto para uma ultima conversa.
A senhora, por detrás do balcão, parecia perdida em pensamentos, olhou-me sem ter certezas.

-Boa tarde, deixei cair, queria um pacote de bolachas torradas!
Já não se lembra de mim, pois não?

-Agora já, respondeu, era o namorado da Clarice.

-Não era não, com muita mágoa mas não, ela apenas me aceitou como amigo, nada mais.

Pareceu ficar confusa.

-Eram os traumas, acrescentou, há feridas que demoram muito a sarar. Ela ainda vivia no medo, afinal foram três anos de sofrimentos.

-Mas que aconteceu? Perguntei curioso.

-Julguei que sabia, respondeu, e só lhe vou contar porque a Clarice já cá não está.

Ela viveu três anos com alguém que a maltratou, lhe deixou marcas profundas. Um malandro que nunca trabalhou, viveu às atenças da coitada e os únicos carinhos eram maus tratos e tareias que ela escondia. 


Um dia, entrou por aquela porta a pedir socorro, o malvado tinha exagerado, estava toda negra.
Ela não queria mas, chamei a polícia, levaram-na para o hospital, esteve três dias internada.

O patife esteve detido algumas horas, voltou para casa como se não fosse nada com ele.

Quando voltou, o malandro, estava à espera e pronto para voltar ao mesmo. E voltou, descarregou na pobre as horas que esteve detido, ela gritou os vizinhos acudiram e deram uma sova, no maldito, que serviu de emenda, nunca mais apareceu por aqui, mas perseguia-a onde quer que fosse.
Um dia, num Centro Comercial, tentou uma agressão, foi detido e um juiz proibiu-o de se aproximar, num raio de 600 metros, se reincidisse era preso.
Nunca mais se viu por estes lados.

-Obrigado por me contar tudo isso, agradeci.

Sabe como se chamava o pilantra?

A mulher pensou, um bocado, antes de responder:


-Era Eduardo e o apelido, deixe-me lembrar, era um pouco esquisito. Deixe-me pensar um bocadinho. Ah...já sei! Era Eduardo Bidão, imagine alguém com esse nome, mas eu ouvi quando a policia o levou para a esquadra.

Agradeci e despedi-me do local, não pensava mais voltar.
Só depois reparei que acabei por não levar as bolachas.

Abri a oficina mais cedo do que o costume, tinha um carro para entregar hoje e a tarefa ainda estava atrasada.

Estava a correr a porta ondulada quando um VW Polo, verde, passou em alta velocidade. Lembrei-me de alguém que com um carro igual apareceu na minha vida e a deixou marcada para sempre. Foi, então, como um “flash” que, uma ideia, trespassou na minha frente.                                  
E porque não? Pensei.

Acho que a polícia foi demasiado permissiva, tinham o elo mais fraco, não precisavam de mais nada, terminaram uma investigação com a prisão do maior de todos os inocentes.

*******

Tenho um plano, não será fácil mas é um princípio.
Vou começar, tenho passos a dar, um de cada vez.
Vou começar pelo Google, pode aparecer no Facebook, Linkedin, Twitter, Instagram ou em qualquer rede social.

Tive alguma dificuldade, não sou muito versado nessas coisas da internet, mas com a ajuda do meu sobrinho, era muito mais fácil. 

Foi um fim-de-semana de pesquisas mas, no fim, apenas resultou o desalente, nada nem ninguém para uma pista.

O Nuno, meu sobrinho, viu o meu desalento e perguntou:

-Tio porque quer encontrar esse sujeito?

Menti, não devia, mas menti quando lhe respondi:

-Foi um meu camarada da tropa e gostava de o encontrar!

O Nuno insistiu:

-Então deve ter telemóvel, hoje todos têm, porque não vai às companhias perguntar.

-Que grande ideia, exclamei, dá cá um abraço, és um génio!

*****

Tenho amigos, conhecidos, e até clientes nas principais operadoras, vou avançar.

Não foi fácil, não era permitido, tinham receio, havia sempre uma desculpa até que um me deu esperança. Estava com contrato a prazo que ia acabar em breve, se renovassem não arriscava, mas se não, podia contar com isso, aliás,  já tinha encontrado alguém com esse nome.

Pela primeira vez, na minha vida, fui egoísta, não queria, mas desejei que não lhe renovassem o contrato.

O azar de uns é a sorte de outros, já tenho o telemóvel e a morada de um tal Eduardo Bidão.

Agora ia procurar certezas, como? Não sabia mas ia encontrar mesmo que fosse a última coisa a fazer na minha vida.

Cedo fui procurar a morada, em frente um pequeno café, meia tasca, onde entrei. Pedi uma bica, meti conversa com o rapaz que estava ao balcão:

-Não vinha há muito a este sítio, mas é grande e está muito desenvolvido. Ando a ver, estou à procura de casa e este zona até não me desagrada.

O rapaz sorriu, olhou para os lados antes de responder:

-Quer um conselho amigo? Há sítios melhores, este à noite não é assim tão seguro, eu trabalho aqui mas felizmente moro longe.
Agradeci:

-Obrigado pelo conselho e, a propósito, conheci há anos, por aqui, um Eduardo Bidão, mas nunca mas o vi.

Pareceu ficar inconfortável:

-O Bidão mora aqui em frente, ainda deve estar na cama, mas não é grande companhia.

-Mas ainda mora aqui?

Respondeu:

-Mora infelizmente, esteve uns três anos, ou mais, a viver com uma gaja, mas parece que ela correu com ele e voltou para chular a velha. Está a dormir de certeza, tem a moto estacionada em frente da porta. Aquela Yamaha é dele.
Mostrei o melhor sorriso:

-Obrigado amigo pela simpatia e sinceridade, vou seguir o seu conselho e vou procurar noutro sítio.
Paguei o café, com um euro, e deixei o troco.

Fui para o carro, dei a volta e fiquei em posição de ver quem entrava ou saia daquela porta.
Eram 11 horas quando um tipo, com ar petulante, abriu a porta e se dirigiu para a mota. Com toda a discrição tirei, com o telemóvel, uma foto antes que ele arranca-se com muito barulho à mistura com fumo escuro.

***

Fiquei nervoso, o meu coração batia de forma desordenada, arranquei com o carro e fui direito à mercearia.


A senhora quando me viu, tirou debaixo do balcão um pacote das bolachas e com um sorriso exclamou:

-Estão aqui! Ainda cheguei à porta mas não fui a tempo.

-Obrigado, mas não vim pelas bolachas. Quero pedir um favor, vou-lhe mostrar uma foto para ver se conhece.
Mostrei a fotografia.
Pareceu que viu o diabo, fez uma cara que ficou mais feia do que era na realidade.

-Conhece?

-Se conheço, muito bem, o maldito e a moto barulhenta. Mas como conseguiu essa foto? Perguntou.
Virei costas e, enquanto saia, fui dizendo:

-Tenho os meus truques,  volto breve e conto tim por tim.


    ******

Fui para a oficina, fechei-me no escritório a tentar por as ideias no sítio. A minha cabeça estava num turbilhão, tudo encaixava na perfeição.
Era ele, a foto e todos os factos confirmavam, tinha motivos só faltavam as provas e já passou tempo demais para a policia abrir o processo e encontrar indícios.

Só tenho duas soluções, não penso mais e acabo com a raça do tipo ou arranjo, o que parece difícil, uma confissão.

Quando dei por mim era noite, o pessoal já tinha saído.

******

Dormi mal, sonhei com uma mulher envolta numa luminosidade que não deixava descortinar o rosto e com voz ciciante apenas repetia, é ele mas já perdoei, faz o mesmo.

Levantei-me com a cabeça como se estivesse numa ressaca, sentia latejar as têmporas e zumbidos nos ouvidos.


O pequeno-almoço e um café, forte, ajudaram.

Ia usar, pela primeira vez, os conhecimentos da prisão.

Contratei o Chico da Velha e o Mãozinhas para roubarem a mota que deveriam deixar nas traseiras de um barracão que eu lhes indiquei, paguei 500 Euros, 250 agora e o resto com a entrega.

Os gajos eram mesmo bons, no outro dia, às 4 da manhã, a mota estava no local combinado, paguei o resto, agora era por minha conta.

Deixei passar três dias.

Liguei, por telefone não identificado, o fulano atendeu-me mal, ordinário, mas lancei o meu argumento:

-Bom, se quer desligar, desligue, estou-me cagando a mota não é minha!

-Pare ai pá, o que sabe sobre a minha mota?

-Saber não sei nada, encontrei-a abandonada e telefonei para a Direcção Geral de Transportes onde disseram que a Yamaha é sua.

-E como está a máquina, esta boa?

Fiz voz de irritado para responder:

-Você foi malcriado, eu gastei dinheiro numa chamada, se calhar vou deitar esta trampa para a sucata.

O tipo ficou mais manso que um borrego, tremeu a voz, estava quase a chorar, o que me estava a dar um certo gozo:

-Amigo, desculpe a confusão, mas tenho andado marado com isto, fico azedo mas não sou assim, sou mesmo um gajo porreiro.

-Bom, respondi, assim está um pouco melhor!

Pareceu ganhar um novo alento e arriscou:

-Onde posso ir levantar a minha máquina?

Desliguei o telefone, como se a chamada tivesse caído, quis sentir o sabor da frustração de quem estava no outro lado.
Esperei 20 minutos e voltei a ligar, atendeu logo, senti-lhe o nervoso na voz, fiz uma pausa antes de responder ao estou desesperado.

-A chamada caiu, acabou a bateria e tive que por à carga, assim já gastei duas chamadas.

-Não se preocupe, respondeu, eu pago. Mas onde está a mota?

-A mota está bem mas num sítio um pouco difícil, nem sei como lhe dizer o local, quem não conhecer tem muita dificuldade em encontrar, mas amanhã tenho que ir lá e se quiser pode ir atrás de mim. Se quiser?

-Mas não tenho transporte, só possuo a mota. Pode dar-me boleia?

-Não gosto muito de dar boleias, a desconhecidos, mas vou abrir uma excepção, amanhã, as 11 horas, vou ao meu armazém se quiser aproveitar!


-Agradeço muito, é um grande favor. Onde posso esperar pelo senhor?

-Conhece a Cervejaria dos Rouxinóis?

-Quem não conhece? Conheço e bem!

-Então amanhã cerca das 11 passo por lá, num jeep Cherokee. 

-Nem calcula as saudades que tenho da máquina!
Obrigado amigo, nem sei como lhe agradecer!


*******

Lá estava, especado em frente à cervejaria,  calças de ganga e uma

t-shirt com uma imagem dos Guns N'Roses, aparentemente não tinha nada para me preocupar.

Correu para o carro e alapou-se com a maior naturalidade, parecia fazer parte da família, disse:

-Bom dia, desculpe lá esta maçada.

De vez em quando, eu notava, mirava-me de través. Até que se atreveu:

-Desculpe não sei o seu nome, mas olho para si e fico com a ideia que já o vi antes ou então é parecido com alguém que conheço, mas deve ser impressão minha.

-Deve ser impressão, respondi, estive muito tempo fora e voltei há pouco.

-Sabe, insistiu ele, não sou muito bom nessas coisas de fixar as pessoas, mas já sei qual a minha confusão, o amigo é parecido com um gajo, que nunca vi bem de perto, mas que tentou roubar uma namorada que eu tive.

-Então não sou eu, respondi, nunca roubei nenhuma namorada. Disse que tentou, logo não conseguiu o que é bom.

-Eu nunca iria deixar, isso é que era bom! Aquela era especial ninguém ma podia tirar, ela sabia que ou era minha ou não seria de mais ninguém.

Fiquei calado, refreei a gana de o estrangular mesmo ali, mas não valia a pena, deitaria a baixo o meu plano, a vingança serve-se fria.

Chegamos, quando viu a mota parecia doido, andou à volta, passou a mão a acariciar, olhou os pneus e, finalmente sentou-se.

Olhou-me e perguntou:

-Quanto lhe devo do telefone e de todas as maçadas.

Fiz o sorriso, mais forçada de toda a minha vida, antes de responder:

-Pode ir à sua vida, não me deve nada.

Arrancou com algazarra deixando, no ar, aquele fumo negro.

Meti-me no carro e fui à minha vida, a mota estava preparada, eu mesmo o fiz, quando atingisse as 6.000 rotações tinha um dispositivo, que rebentava, e pouco ou nada se iria aproveitar dela e dele.

Agora já podia descansar!



domingo, 27 de Julho de 2014

A casa das Açucenas







Amanhã, finalmente, acabam os oito longos anos que passei nesta prisão. Vou, novamente, sentir no rosto a chuva miudinha que faz lá fora, vou ser, outra vez, gente por entre as gentes, vou finalmente ser LIVRE.

Fui acusado e condenado por um crime que não cometi, fui vítima de um erro da justiça mas, eu era o elo mais fraco.

Foram oito anos de angústia e de raiva. De angústia porque me acusaram de ser o assassino da mulher que, depois da minha mãe, mais amei. Era o meu Sol, a minha existência a minha outra metade.
Aquecia-me o coração, dava sentido à minha vida.

Um dia, que quero esquecer, encontraram o corpo barbaramente esfaqueado, numa posição grotesca nas traseiras da sua casa.

De raiva pela vingança que tardava!

****

Eu tinha uma pequena oficina de reparações de automóveis, era toda a fonte dos meus rendimentos e, confesso, não tinha razão de queixa o negócio corria bem.
Um dia, estava já a lavar as mãos para os preparativos do fecho, quando ela entrou, com ar de aflição e com voz quase chorosa pediu:

-Preciso de ajuda, o meu carro parou mesmo aqui ao pé e por nada deste mundo quer pegar, estou aflita moro mesma no fim da estrada e ainda são 8 quilómetros.

Era uma mulher muito interessante, não propriamente bonita, mas tinha um encanto especial. Não sei se o olhar gaiato ou a graciosidade  da figura frágil mas, ao mesmo tempo, determinada.

Fui ver o carro e não havia dúvidas, tinha um problema no injector, coisa simples, mas impossível de arranjar no momento.

-Sabe, disse eu, duas noticiais uma boa, a avaria não é grave outra menos boa, só amanhã pode ser arranjado, precisa uma peça da marca.

Mostrou algum desalento antes de responder:

-Pode rebocar o carro para a sua oficina, arranjar e eu amanhã invento maneira de o vir buscar?

-Certo, respondi, amanhã ai por volta das cinco temos carro. E tem alguém que a possa vir buscar agora?

Com um sorriso lindo respondeu:

-São oito quilómetros, devo aguentar, vou a pé.

-Nem pense, disse eu, é muito e a estrada é perigosa. Se quiser esperar, 15 minutos, eu deixo-a onde quiser, afinal vou para esses lados.

-Agradeço muito, disse Clarice!

Levei-a à porta, despediu-se com um muito obrigado. Deu-me o contacto do telefone para avisar quando o carro estivesse pronto.

***
Foi assim que nos conhecemos!

Nunca tivemos uma relação, apenas amizade. Íamos ao cinema, almoçávamos e jantávamos juntos muitas vezes, chegamos mesmo a ir à praia, Clarice sempre insistiu que era apenas amizade e o prazer de estar com alguém que a entendia, não lhe pedia nada em troca e, lhe dava espaço, sem a sufocar.

Para mim era um pouco mais difícil, deixei-me levar pelos sentimentos e estava totalmente apaixonada, vivia o ar que ela respirava, bebia as palavras que me deixava, morava nos olhares, nos momentos e na esperança.

*****

Foi num sábado, num dia que prometia ser mágico, estávamos num café próximo da sua casa quando me atrevi:
-Clarice! Penso que chegou a altura de assumirmos que a nossa relação é mais do que amizade, eu amo-te e não consigo continuar neste faz de conta!

Não esperava a reacção, não lhe conhecia esta faceta, levantou-se e colocou as mãos da mesa, aproximou o seu rosto do meu e gritou:

-Afinal és igual aos outros!

Deu meia volta e desapareceu porta fora.

******


Só quando dois agentes me forem deter, fiquei a saber da tragédia, tinham assassinado a minha Clarisse, tinham tirado sentido à minha vida.

Clamei a minha inocência, jurei, chorei e sofri mas, tudo apontava para mim, não tinha álibi e havia testemunhas a afirmar que tínhamos discutido no café, Deus sabe que não discutimos  apenas, ela, me deixou pendurado na mesa de uma esplanada.

De nada valeu, fui condenado, disse o juiz, apenas a oito anos porque não havia provas materiais.

Faz amanhã 3.100 dias que alguém, que eu vou descobrir, me roubou o amor da minha vida.

*****

Fui visitar o local, a casa estava na mesma, só a pintura um pouco desbotada e todas as janelas fechadas. Apenas os canteiros à volta se encontram arranjados.  Alguém a deve habitar!

Na pequena mercearia, quase paredes meias, fui perguntar quem habitava a casa.

-A casa que era da Clarisse! Exclamou a mulher. Ninguém, ninguém a quer, bem tentaram vender mas casa assombrada ninguém compra!

-Assombrada? Mas assombrada como? Perguntei.

A mulher olhou-me um pouco agastada, mas respondeu:

-De noite luzes que acendem e apagam, coisas que arrastam. Os canteiros, ninguém os arranja, vá ver com eles estão!

Agradeci e fui-me sentar, numa pedra, junto à casa a pensar no que foi e no que podia ter sido a minha, nossa, vida.

Nos passeios à beira-mar, nas tardes no cinema com as lagrimas de Clarice nas cenas mais românticas. Pensei nos jantares, onde por vezes nos esquecíamos de comer, pois tanto tínhamos para dizer.

Fiquei esquecido do tempo e a noite, quase, de repente encheu o espaço. Queria ir embora mas havia um fascínio que me prendia, não sei se o ténue odor que me impregnava os sentidos se a musica, quase inaudível, que me embalava os pensamentos.

De repente, como projecção, Clarice apareceu mais bela o que nunca, a mesma figura mas um pouco mais frágil, os mesmos olhos mas sem o brilho que eu conhecera.

Senti um frio imenso, começava no alto da cabeça e descia em espirais, que me iam paralisando e me deixavam num torpor doce e suave. A custo balbuciei:

-Meu amor afinal estas viva!

A voz era suave, quase um eco distante:

-Já não  sou o teu amor, estive à tua espera para me despedir e pedir perdão pelas minhas últimas palavras. Perdoa-me para poder partir tranquila!

Fiquei sem resposta, quis falar mas um nó na garganta apenas deixou um suave pedido:

-Clarice eu é que te peço perdão diz-me só quem te fez mal?

Pareceu-me ver, outra vez, o olhar ladino.

-Já não sou Clarice e  não há nada a fazer, já perdoei a quem me fez mal. Agora… vou tranquila!

Vai, vive a tua vida, eu espero por ti.

Sai dali em passos ébrios, não sei se sonhei ou se aconteceu mesmo.

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Voltei passado um ano, a casa estava reconstruida, já não era a casa assombrada, canteiros de lindas açucenas davam-lhe um novo nome.