segunda-feira, 14 de Abril de 2014

Once upon a time....







Foi há três meses atrás que a viu pela primeira vez mas, ficou-lhe no pensamento o porte altivo, os fartos cabelos negros, em caracóis, a emoldurarem um rosto, quase, angelical onde uns olhos, de verde intenso, tornavam o quadro quase surreal.

Estava no pequeno jardim do largo em frente aos correios, telemóvel encostado ao ouvido, enquanto os lábios cor de romã se iam entreabrindo em frases que ele não conseguia ouvir.

Quis avançar mas não conseguiu quebrar a timidez, não era a primeira vez que as pernas lhe paralisavam a vontade, que o coração disparava à alegria do olhar e o corpo deixava morrer o desejo entorpecido pelo medo da rejeição.

Fechou os olhos para ganhar coragem, esteve assim alguns segundos até que a ousadia parecia ter vencido o medo, abriu e, a imagem, tinha desaparecido como por encanto.

Apeteceu-lhe chorar, mas em público não teve ânimo, não queria mostrar como era fraco, tímido e falho de iniciativa.

Durante três meses, todos os dias à mesma hora, no mesmo local, sentava-se num banco na esperança de a voltar a ver. Passava, quase, uma hora olhando o espaço e imaginando, o milagre de a ver correndo na sua direcção, braços abertos para o estreitar contra o coração.

Sempre ouviu dizer que a esperança era a ultima a morrer e ele sentia, que ela ainda um dia, ia reparar no amor que lhe tinha e de como a poderia fazer feliz, só precisava de ser perseverante.

A mãe dizia-lhe que o tempo que perdia o podia usar a procurar  emprego, mas a mãe não percebia nada do amor! Para a mãe, amor era um homem a trabalhar e uma mulher, em casa, a lavar a roupa e a fazer comida.
Esses tempos mudaram a vida agora é diferente, a juventude descobriu um novo conceito, mais puro, mais romântico, nada de trabalho, nada de panelas, agora a vida é para curtir, andar numa boa e cada um viver na casa dos pais.

O pai esta “bué” de atrasado, sai de madrugada e volta ao fim do dia, a trabalhar, sempre a trabalhar.
Para que? Nem dinheiro tem para trocar o "chaço" que está estacionado à porta.

O velho agora nem lhe fala. "Tasse" lixando para isso, ficou chateado porque pôs uma argola, muita curtida no lábio, diz  que os porcos é que usam argolas para não cavarem a terra, como se alguém acreditasse numa coisa dessas, o velho está mesmo a ficar marado.

Já esta a ficar "pró" lixado com a “garina”, andou um dia a pavonear-se para lhe chamar a atenção, depois dá-lhe o amoque e desaparece, mas um dia vai encontra-la e ela vai ver o que custa. Não se brinca, assim, com os sentimentos cá do menino.

Mais uma tarde perdida olhando uns velhotes num barulhento jogo de sueca, pareciam que estavam a jogar a vida. Batiam as cartas com violência, gesticulavam e acusavam os parceiros de não terem jogado este ou aquele trunfo.

Ia desistir, por hoje, mas ia voltar e um dia a gaja ia aparecer e ele, talvez, nem para a tromba lhe fosse olhar, não se brinca assim com os sentimentos de uma pessoa.

Ele não a conhecia, só a viu naquele dia a falar ao telemóvel, mas a maneira como o olhou, foi de soslaio, mas disse tudo e ele sentiu a mensagem.

*****

Foi até ao café do Rebocho, era lá que a malta se reunia, para combinar com o pessoal o programa para o dia. Já estava a imaginar o Isaías a inventar uma ida ao cinema, o merdoso do Aníbal a descobrir umas cenas maradas à porta do liceu das miúdas e o Toni a escolher não fazer nada. Ele ao cinema não ia, estava tesinho e não conseguiu sacar “népia” à velha! Para o liceu não ia, o “chui” já o topava e não estava interessado em ir passar uma noite na esquadra, não fazer nada era agradável, mas hoje não estava virado para isso.

De repente teve uma ideia luminosa e juntando os amigos num círculo, todos tesos como ele, perguntou:

-Quem está disposto a alinhar num esquema para sacar uns dinheirinhos? É, quase, uma brincadeira eu tenho tudo estudado!

-É pá, disse o Toni, não estou interessado em ir dormir à “choldra” !
-Mas qual “choldra”, qual merda! Exclamou irritado, isto está tudo previsto. O velho fecha a loja, dos telemóveis, às 7 horas e é a melhor altura para avançarmos e sacar o dinheiro e algum material.
É, fácil o Aníbal que tem mais “caparro”, imobiliza o velho e os outros sacam tudo o que valer dinheiro, mas nada de violências porque o velhote até é “bacano”. O Isaías, que tem carro, aguenta para nos pirarmos.

-Parece “porreiro”! Disseram.

-Tá combinado, às seis, todos no largo. O Isaías vai á frente estaciona, sem dar nas vistas, à porta da loja. Nós vamos de seguida e no momento de fechar a porta metemos o ombro que o ginga cai de pantanas, o Aníbal aguenta-o, nós fanamos o dinheiro, enfiamos os telemóveis no saco e arrancamos para o carro. Não demoramos mais que três minutos.

***

O senhor Apolinário já arrastava, um pouco, o peso dos anos mas tinha que viver. Estava há 52 anos nesta loja. Começou ao 14 com o tio Ernesto, era uma retrosaria, vendiam tudo e a casa estava sempre cheia, eram outros tempos, com o pronto-a-vestir o negócio foi por água abaixo e o tio desistiu, estava cansado.
Apolinário ficou com o negócio e, acompanhando a evolução, transformou as linhas e os botões em telemóveis, acabou o retroseiro e começou uma nova etapa, era necessário acompanhar o progresso.

Hoje o dia foi bom, não se podia queixar. Estava, no entanto, preocupado com um “gajo”, mal-encarado, que tinha estacionado um velho Ford à porta da loja, o tipo estava nervoso, olhava para todos os lados esperando alguma coisa e boa não era, com toda a certeza! Ia telefonar à polícia, o seguro morreu de velho.

-Vamos mandar já uma patrulha, prometeram.

Sete horas, ia fechar a porta e descer os taipais, quando de roldão entraram três marmanjos, que o imobilizaram contra o balcão, tiraram o dinheiro da caixa e começaram a descarregar as prateleiras para um saco de lona.

No momento em que se preparavam para sair, com o saque, uma surpresa os aguardava, a polícia apareceu em força. O Isaías ainda tentou arrancar com o carro mas não teve tempo.

Foram mandados ajoelhar e mãos atrás das costas, para serem algemados.
O Timóteo, finalmente, voltou a encontrar a mulher dos seus sonhos, transformados em pesadelos.

A diva, dos cabelos negros, com lábios cor de romã, era a agente Susana que, com perícia, o manietou.





quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Vendetta









Dona Bebiana estava preocupada, sempre tentou ser boa mãe, deu tudo pelos filhos.
O Ernesto, o mais velho, tomou rumo na vida, sempre foi carinhoso, amigo dos pais e mesmo agora que está a acabar o curso, no estrangeiro, todas as semanas telefona no computador, nessas coisas modernas do Skype falam e, ao mesmo tempo, estão todos ali na sala, cara a cara, olhos nos olhos. Deus abençoe quem inventou estas modernices!

Agora o que a estava a atormentar era a Clarinha, tinha só 12 anos, de repente ficou distante, metida consigo, fechada no quarto, parecia viver num mundo à parte, não queria falar com ninguém, era um castigo para a obrigar a ir à escola.

-Filha, perguntava Bebiana, tens algum problema que queiras partilhar com a mãe?

-Deixa-me em paz, não te metas na minha vida!
Gritou, Clarinha, enquanto batia com porta do quarto. 
Depois voltou para o seu isolamento.

A mãe nem lhe respondeu, não valia a pena.

Dona Bebiana ficou viúva há três anos, o marido de repente, sem nada o fazer prever, partiu com um AVC fulminante, quando chegou ao hospital já estava morto.

Foi difícil, ficar só e com dois filhos, um com 18 anos e outra de 9.

Arregaçou as mangas, tomou conta do negócio do marido, sem pouco ou nada perceber da padaria, mas venceu e conseguiu manter os filhos ao nível a que estavam habituados.

É verdade que o padrinho da Clarinha foi importante, deu-lhe apoio, aconselhou-a nas decisões mais difíceis, enquanto estragava a afilhada com mimos e prendas.

Aos fins-de-semana, quase sempre, aparecia para um passeio ou uma ida ao cinema, desde que houvesse filmes para a idade dela.

Clarinha idolatrava o padrinho, contava os dias que faltavam para o fim-de-semana, já sabia que ele  vinha buscar para uma ida ao Jardim Zoológico, ao Oceanário, ao cinema ou a qualquer divertimento apropriado à sua idade.

*****

De repente, Clarinha, perdeu o interesse, não quer ir com o padrinho, inventa desculpas mas não a conseguem arrancar de casa.

Dá-lhe um beijo e inventa uma desculpa.

O homem sai triste, olha para a comadre, enquanto vai dizendo:

-São fases, isso depois passa, é a idade do armário, não te preocupes!

Hoje foi de mais, cumprimentou o padrinho, ignorou a prenda, nem a desembrulhou. 
Pediu desculpa e foi tomar duche.

Bebiana ficou sem saber o que dizer:

-Desculpa Américo, eu falo com ela.

-Não vale a pena, repetiu o padrinho, deixa-a que isso passa!

Bebiana já não sabia o que fazer mas, não podia permitir, a filha estava impossível, chata, mesmo muito chata, não podia continuar assim, afinal era a mãe, boa mãe que nunca lhe faltou com nada, talvez só um pouco ausente, mas mesmo isso, por eles.

Ia tomar uma resolução, sempre resolveu os problemas, com os filhos, pelo diálogo, nunca pelo castigo. Se necessário for, pode ser um pouco mais dura, vai ter uma conversa muito séria com a filha:

-Clara, abre a porta, temos que falar e não me obrigues a rebentar o fecho!

Sentiu o rodar da chave, a filha tinha os olhos inchados, estava a chorar.

Abraçou-a, afagou-lhe os cabelos como costumava fazer, até que sentiu os soluços acalmarem.

Depois pediu:

-Clarinha o que se passa, já não te conheço! Onde está a minha filha terna e doce?

A rapariga abriu os olhos, havia medo naquele olhar.

-Fala comigo filha! Pediu Bebiana.

-Sabes mãe, começou Clarinha, não posso, se falar alguém te vai fazer mal e eu não quero!

A mãe sentou-se na cama e indicou-lhe o lugar ao lado. Agarrou-lhe a mão e garantiu:

-Não Clara! Ninguém me vai fazer mal, pedimos ao teu padrinho que nos ajude! Vá conta o que estas a esconder!

Quase em desespero a filha pediu:

-Ao padrinho não, é ele que me faz mal e que diz se eu contar tu vais pagar!

Bebiana respirou fundo, aconchegou a filha contra o peito:

-Agora percebo tudo. O que foi que ele fez?

As lágrimas saltaram, mas arranjou coragem e contou:

-Tirou-me as cuecas e mexeu em tudo, eu chorei, chamou-me menina mimada, disse que se eu contasse que dava cabo de ti, e que ninguém ia acreditar num fedelho como eu.

Depois, chorou até que as lágrimas libertaram o coração.

-Sabes, disse a mãe, eu acredito! Vais  à psicóloga para te ajudar. Eu trato dele, podes ter a certeza que o doutor, teu padrinho, não me vai  fazer nenhum mal e nunca mais molestará nenhuma criança!


O doutor, Américo Damásio, não esperava ninguém tão tarde, espreitou a ainda ficou mais confuso, a comadre Bebiana a estas horas, devia ser urgente. Abriu a porta com um sorriso:

-Tu aqui a estas horas, que se passa? Entra! Vamos para a sala!


*****

A senhora da limpeza encontrou o cadáver.
Estava recostado no sofá, no meio da testa um furo negro, de sangue seco, na mão direita apertava, ainda, uma pequena Beretta 21.

Suicídio, foi o veredicto.

Os negócios não lhe estavam a correr muito bem!

Efeitos da crise!
Que fazer?




quarta-feira, 26 de Março de 2014

Carta para a Lili








Querida Lili!

Eu sei que ficas irritada sempre que te trato por Lili, mas foi assim que eu te conheci.


Eras uma menina  borbulhenta, escanzelada, mas tinhas um sorriso lindo.

Estás crescida, tens a pele como pétalas de rosa e o corpo com tudo o que os olhos gostam de ver mas, é verdade, falta aquele sorriso que iluminava os nossos olhos.

Não sei se te lembras, já passou muito tempo, as horas não deixam parar o tempo, os dias sucedem-se e as lembranças esfumam-se na nossa memória, nem todas, eu mantenho a saudade das tardes de verão, quando as nossas brincadeiras nos levavam às margens da ribeira, e nos perdíamos nas nossas aventuras.

Gostava de olhar o teu rosto e o teu sorrido lindo, e fácil, que não me deixavam ver, as desagradáveis, borbulhas que te cobriam a cútis.

Agora não tens borbulhas mas o sorriso esfumou-se, o rosto é lindo mas perdeu a magia, e aquela graça que nos seduzia.

Eras uma rapariga-rapaz, como dizia a tia Odete, subias uma árvore mais "lista"que qualquer rapaz, as tuas canelas escanzeladas tinham as marcas das quedas, dos escaldões dos troncos dos sobreiros e, também, os arranhões das silvas onde as amoras nos tentavam o olhar.

Hoje as tuas pernas são torneadas, lisas e suaves como veludo, mas não tem o mesmo encanto, falta aquele sorriso que nos fascinava.

Não eras a mais bonita mas ninguém notava, tinhas um encanto que nos levava enredados nas brincadeiras que inventavas.

Um dia cresceste, as borbulhas, por encanto, deixaram o teu rosto, o corpo tomou forma, o peito cresceu, as curvas foram-se acentuando, as pernas tornearam-se. O sorriso, esse, ainda fazia parte do teu rosto!

Um dia a aldeia acordou pequena para ti, a ambição encheu uma pequena mala e abalastes para a cidade imensa.

Hoje vives numa casa grande, não queres mais ser Lili, mas para mim nunca deixarás de o ser!

O teu sorriso lindo ficou, aqui na aldeia, para os teus amigos que esquecestes, naquela dia em que o espaço ficou pequeno para ti.

Agora estás na cidade, muitos homens enxameiam o teu espaço, adulam-te mas não tem o teu sorriso, esse ficou, aqui, na aldeia onde estão os teus amigos.

Esses que te apaparicam, de olhares gulosos, não são os teus amigos, esses são os teus clientes!






sexta-feira, 14 de Março de 2014

Mistério







Foi um cruzar de olhares daqueles que apenas acontecem uma vez na vida, intenso, provocador e com uma enorme promessa de desejos.
Ele parou e ficou na expectativa, ela seguiu, olhando para trás, com um sorriso de desafio.

O bambolear do traseiro, os cabelos soltos ao vento, a gaiatice do sorriso e aquele olhar de desafio deixou Ernesto confuso, ficou indeciso.

A mente, em segundos, trabalhou intensamente.

A cabeça contrariava a vontade, mas o desejo era mais forte e foi  a vontade que venceu.

Foi aumentando os passos, ela já tinha virado a esquina da rua, um pouco envergonhado deu uma corrida e dobrou, também a esquina, mas a rapariga parecia ter-se evaporado.

Era estranho, só havia uma pequena loja de venda de artigos religiosos, depois um muro alto com um portão ao fundo. Não tinha tempo de ter chegado ao portão, na loja só um senhor, já de idade, olhava para uns papéis.
Perguntou:

-Desculpe, senhor, não entrou aqui, agora, uma amiga minha?

Olhou-o, quase, com indiferença mas foi dizendo:

-Há dias, que aqui, eu sou o único que entra. Isto está mau. Será que foi ao cemitério? Mas não as estas horas, olhou para o relógio, já está fechado!

-Qual cemitério? Não conheço nenhum aqui.

Deu uma gargalha rouca antes de responder:

-É aqui o meu vizinho do lado, sem ele o meu negócio já tinha acabado.

Saiu disparado, o velhote tinha razão, ao lado era o cemitério, foi até ao portão, estava fechado. Espreitou por uma fresta e lá estavam as campas alinhadas. Voltou as costas e jura que ouviu uma gargalhada, que lhe percorreu o corpo como um arrepio.

Depois falou para ele mesmo:

-Não pode ser, não devo ter ouvido nada, foi aquela sensação de insegurança que faz ouvir coisas.  Gargalhada? Sou mesmo parvo!

A noite não foi fácil, no sonho a rapariga ia à frente, olhava-o com um sorriso cheio de promessas, ele acelerava o passo, mais e mais, mas a distancia não se alterava, depois desaparecia num novelo de fumo e apenas ficava a gargalhada, a mesma gargalhada.

Acordou a tremer, transpirado e com a sensação de não estar só. Acendeu a luz e olhou medroso e envergonhado, o quarto estava normal.
Sou mesmo parvo, pensou, era apenas um sonho.

Apagou a luz mas ficou com a convicção que não era assim tão tonto, um "frufru" percorreu o escuro e um cheiro adocicado a jasmim invadiu o espaço.

Acendeu a luz e o pouco que dormiu foi com toda a claridade.
Levantou-se e quase não se reconheceu ao espelho, macilento e com umas olheiras de zumbi, mas pouco importava estava decidido, hoje, agora mesmo, ia ao cemitério. Não ia resolver, se calhar nada, mas deixava de cismar em coisas que lhe tiravam o sono e lhe abalavam a tranquilidade.

A loja estava no mesmo sítio mas o velhote não. Entrou, mais por curiosidade e perguntou ao moço que estava ao balcão:

-Será possível falar com o outro senhor que costuma estar aqui?

O rapaz pareceu surpreendido, esboçou um sorriso antes de responder:

-Só posso ser eu, estou aqui há dois anos, desde que o meu avô faleceu!

Estava a perder a paciência, quase gritou:

-Mas como? Ainda ontem estive aqui e falei com um senhor de idade, magro e um pouco careca. Tinha uma bata  azul escura, uns óculos de vidros cortados  e olhou-me por cima das lentes.

-Se tirou o dia para gozar comigo perdeu o seu tempo, respondeu o rapaz. Esse, de que o senhor fala, era o meu avô, morreu em Julho de 2011. Pode ir espreitar, aqui mesmo ao lado a campa 387, tem até uma foto. Não se importa deixa-me trabalhar porque não tenho tempo para brincadeiras! Nem paciência!

Saiu, irritado, a caminho do cemitério, ia ver todas as campas, uma a uma, principalmente as que tinham fotos.

Pela primeira vez na vida, entrou com medo, medo estranho que se impregnava nos ossos e parecia tolher o raciocínio.
Havia muito poucas pessoas, duas ou três mulheres compondo as jarras das flores, em gestos mecânicos, movimentos muito suaves como se tivessem receio de perturbar os descansos.

A campa 387, ficava mesmo ao fundo da álea, estava bem tratada, pedra mármore negra, uma imagem de um anjo, uma placa com duas datas e, ao centro, uma foto esmaltada. Não havia duvida era o velhote que viu, jurava que viu, na loja da esquina.

Seguiu todas as campas, principalmente com fotos, tinha a esperança, já agora, de encontrar a da menina do olhar provocador. Andou nesta pesquisa tempo de mais, pois quando olhou já tinham fechado o cemitério, não deu por nada.

Começou a ficar em pânico, o vento que sussurrava nas copas dos ciprestes pareciam gargalhadas, em todos os lados adivinhava movimentos, mas era apenas o pavor que se havia apoderado de si.

O muro era demasiado alto, bateu no portão com todas as suas forças, mas era difícil, pois a rua, além da loja, só tinha campo abandonado, ninguém se atrevia a construir em frente a um cemitério.

Tinha que saltar o portão, tarefa difícil, era alto e encimado por uma espécie de lanças bicudas.

Tentou pular o máximo, com as pernas e os braços bem estendidos, mas faltava muito.

Olhou ao redor, mas não via nada que pudesse servir de base. Tentou mais algumas vezes, quanto mais tentava maior era o cansaço e menor o alcance.
Pensou em arrancar uma jarra mas isso seria profanação. 
Teve medo, não fazia.

A noite começava a cair, olhava à volta e imaginava sombras.
No desespero viu uma tábua encostada à casa dos lavabos.
Empinou-a ao portão e trepou o possível, tentou passar o corpo mas a tábua não aguentou e caiu no momento que o corpo passava as lanças que encimavam o portão.

O resto é previsível.

******

O velho da loja e a moça do sorriso gaiato, tinham completado a sua missão, ninguém os podia ver e agora já podiam descansar em paz.

Foi feito justiça, estes, nunca mais violariam ninguém.






sábado, 1 de Março de 2014

No Outono








Foi numa tarde de Outono, num dia em que a chuva descansou e nos deixou, apenas, a magia das folhas voando ao sabor do vento.


Sou suspeito pois, para mim, o Outono tem uma magia que não consigo encontrar noutras épocas. Gosto daquela luz a esconder-se por entre as folhas secas e a penumbra translúcida do cair do dia.

Talvez, porque sou um romântico.

Mas como ia dizendo, foi numa tarde de Outono que, quase, por acaso olhei pela minha janela, primeiro vi as nuvens pardacentas que corriam, mudando os desenhos surrealistas, que, sempre, me faziam lembrar algo ou alguém por momentos, para de seguida se transformarem em formas diferentes.

Na rua, em frente, mesmo no portal da casa que, em tempos, foi da dona Filomena estava um vulto que me deixou confuso. A penumbra que, entretanto, descera não me permitia ver bem mas, parecia mesmo a pobre dona Filomena, já falecida há alguns anos.

 Eu apenas bebi um trago de whisky, foi tão pouco que era impossível ter embotado os meus olhos, a dona Filomena morreu, julgo que há dois anos, mas não havia dúvidas era ela, o mesmo xaile cinzento, o corpo dobrado pelas dores e pelo peso dos anos. Conseguiu abrir a porta e entrar, fiquei confuso se era o fantasma da senhora porque abriu a porta, sempre me disseram que atravessavam as paredes e uma porta, penso, é mais fácil que uma parede. Estou a divagar, a tentar desviar o pensamento, mas na verdade tenho um arrepio que me atravessa o corpo, um frio na coluna e, julgo, as cuecas muito próximas de estarem borradas.

Não pode ser, deve ser destes óculos, já os devia ter mudado, mas a preguiça e esta mania de poupar acabam por dar mau resultado.

Mas o que é isto? Acenderam- se as luzes do andar da morta, isto e surreal, não são os óculos, deve ser um pouco de senilidade que me faz ver coisas, ou talvez não, porque algo anda naquela casa, vejo as sombras que passam como acontecia quando a morta ainda estava viva.

Vou fechar as persianas e vou espreitar pelos intervalos, apagou as luzes, só ficou a escuridão.

Vou tomar um ou, mesmo, dois comprimidos de Xanax, acho  que vou dormir como um anjo. Será que os Anjos dormem? Não acredito, ou fazem turnos ou, então, á noite ficávamos entregues à bicharada,

Acordei cedo e bem-disposto, tinha esquecido aquela aparição e prometi a mim mesmo que whisky, só ao serão e pouco pois anda a confundir- me e a fazer- me ver coisas.

O dia está como o de ontem, escuro, não chove mas mais
valia, assim só aquela penumbra e um frio que enregela e que nos obriga a um trago para aconchegar o corpo. Mas vou resistir, jurei e juras são para cumplir.

 Vou espreitar a casa da saudosa dona Filomena, assim fico a saber que as visões são o fruto de uns goles durante a tarde. Hoje não bebi nada, por isso vou ficar tranquilo e não penso mais em visões.

Oh meu Deus não pode ser! Neste momento, exacto, o vulto da pobre morta está a entrar na antiga morada. Estou confuso, ela morreu mesmo, fui ao funeral e vi que o caixão foi enterrado na campa. Hoje não bebi, a não ser que o leite agora tenha álcool, mas não, não tem. Tenho que ir ao psiquiatra, estou a ficar apanhado da cabeça, tenho visões e imagino ver o inimaginável.

Antes de me considerar maluco vou bater à porta, pode ser que a defunta tenha alguma irmã gémea, ou algo parecido, que ande a arrumar as coisas para desocuparem a casa.
Não me apetece muito, está frio e tenho que me vestir, mas vou senão a minha cabeça não para de girar.

Estou a caminho, enfiado num grosso sobretudo e com um gorro, de lã, tapando a cabeça.

Estou à porta mas, algo, parece estar a tolher a minha mão.

Quero bater à porta mas, confesso, o medo deixa-me paralisado, e se a mulher me aparece, a abrir, que faço eu?
Desato a fugir gritando histericamente, ou desmaio mesmo ali?
Se calhar é melhor voltar depois. Não já que aqui cheguei vou em frente!

Bati, primeiro, suavemente e escutei. Nada, bati com mais força e, então, ouvi um arrastar de correntes, uns passos como que deslizando em chão encharcado, faziam um "tchloque" estranho, como se pisassem algo viscoso.

Entreabriram a porta e, os meus olhos ficaram esbugalhados perante a imagem. Alta, totalmente nua, longos cabelos e olhos brilhantes, pegou-me pelo braço e arrastou-me por um longo corredor que terminava num espaço infindável, onde a música, parecia dos “Dire Straits”, enormes fontes jorravam chocolate, mesas intermináveis repletas das maiores iguarias. Pares, vestidos como vieram ao mundo, balançavam- se ao som estridente da música que abafava todos os ruídos. Luzes faiscavam, dando um ar feérico ao ambiente que nos absorvia.

Balbuciei:

-E a dona Filomena?

A minha acompanhante, com um sorriso luminoso, convidou:

-Esqueça a essa, era apenas a tua guia!
Vá, aproveita o melhor que souberes.

-Mas, perguntei, estamos no paraíso?

Olhou- me com ar enigmático antes de responder:

-No paraíso? Não! O paraíso é monótono, estamos muito melhor!
Estamos no Inferno!





quarta-feira, 19 de Fevereiro de 2014

A grande viagem








Era um estranho acordar, uma luz intensa tomou conta do espaço e deixou-me numa total paralisia. Tentei mexer o corpo mas era uma luta perdida, o meu pensamento, os meus desejos deixaram de existir, apenas me queria libertar mas, aquela espiral de luz, absorveu-me totalmente e senti-me deslizar num vórtice e, depois, o nada, apenas uma sensação estranha de existência.

Não sei quanto tempo passou, pareceu-me ser muito pouco, quando o canudo de luz me largou num lugar que não existe, num espaço que me custa a descrever, era surreal. Era uma espécie de uma sala onde uma penumbra fumegante não me deixava descortinar, bem, aqueles vultos altos e de aspecto desengonçado. Tinham uns rostos bicudos, uma espécie de cara de peixe, a boca era apenas um bico em fole que abria e fechava em pequenos movimentos. Eram muito estranhos e, muito mais estranho, o facto de estar aqui no meio destes seres.

Começo a perceber. Eles não falam, transmitem o que pretendem através do pensamento e, eu, pareço ser uma espécie de cobaia.
Andam à minha volta e estudam e analisam cada movimento, observam-me como coisa estranha, como se eu fosse algo de bizarro.

Os seres parecem todos iguais e só há uma pequena diferença, os mais altos têm, no meio da testa, uma pequena válvula que abre, e fecha, como se fosse um orifício para respirar mas, o que me confunde é os mais pequenos não terem essa válvula, mas sim, uma pequena protuberância, uma espécie de minúsculo chifre. Pensei que seria uma questão de casta.

Olhavam-me como se fosse um animal raro e tentaram comunicar mas, ao meu cérebro, apenas chegavam como que zunidos impossíveis de descodificar.
 De repente um dos personagens, dos mais pequenos, deslizou numa espécie de pé mecânico e desapareceu no meio daquela espécie de penumbra fumegante. Voltou, passado pouco tempo, com algo pendurado no gancho que lhe enfeitava um dos seis braços, pendentes, naquela espécie de tronco. Era um capacete, cheio de luzes e fios com ventosas que me enfiaram na cabeça enquanto, aqueles tentáculos, iam colando as ventosas em todos os espaços livres da minha testa.
                                                
De repente, fantástico, comecei a perceber tudo o que aquelas cabeças, de pargos mulatos, estavam a pensar e eles, pior ainda, compreendiam todos os meus pensamentos e ficaram baralhados, com essa comparação a pargo mulato.

Queriam saber muita coisa e prometeram devolver-me, ao mesmo local, se eu lhe fosse útil, caso contrário seria largado no espaço sideral.

Prometi, em pensamento, toda a colaboração. Queria voltar ao meu lar!

Começaram as perguntas, como era o sistema que governava a terra, como nos reproduzíamos, quais as classes sociais e um sem número de dúvidas que tive dificuldade em memorizar. Fui concentrando o, meu, pensamento, fui-lhes baralhando as ideias e deixando sair, em catadupa, a estrutura do planeta, países que mal se entendiam entre si.
No meu país, sermos governados por um presidente que tinha deixado a inteligência em Boliqueime, um primeiro-ministro a que só faltavam umas botas para ser igual ao Salazar.

Acho que leram bem o meu pensamento pois sabiam dum Salazar, não sei se o mesmo, mas isso não interessa, há tantos!

Percebi que queriam saber se havia oposição, havia (oh se havia!) mas eram todos iguais, davam tudo quando não tinham responsabilidade e depois era um fartar vilanagem.

Queriam saber se havia um comité de sábios. Tentei explicar que não, nada dos sábios, havia uma cambada de deputados que apenas se iam governando em trafulhices, corrupção e fingindo defender os interesses do povo, mas acabavam só por defender os interesses próprios. De quatro em quatro anos, renovavam mas ficava tudo na mesma.

Olhei para o lado e algumas daquelas figuras bizarras choravam. Nos grandes, as lágrimas, escorriam da pequena válvula, dos mais baixos um esguicho mas sem qualquer emoção.

Um, dos mais reluzentes, aproximou o bico do meu rosto, cheirava a  algo ácido, uma espécie de vinagre, perguntou como era a reprodução no nosso planeta?
Expliquei e, o meu pensamento foi tão real que, senti um suspirante bruaá de aprovação dos mais altos. O da válvula na testa, o que me fez pensar, que eram as fêmeas daquele planeta.

Deixaram-me especado e reuniram-se num círculo, tentei escutar mas os pensamentos não me chegavam. Estavam afastados!
Voltaram, os mais baixos à frente, pegaram-me com dúzias de pinças, enfiaram-me naquele tubo, feito de luz, e despacharam-me, penso que, pelo que pelo caminho da volta.

Senti o repelão, perdi a noção de tudo e acordei quando bati, com as costas, num amontoado de pedras que dividiam os canteiros de um jardim.

***

Era tudo estranho, tinha a noção de ter voltado à terra, mas não sabia onde estava. Era esquisito, não conhecia nada nem ninguém! Fui sugado na porta, de uma pequena vivenda, e era cuspido num jardim que ladeava um arranha-céus que parecia tocar o Sol.
Meu Deus, onde estou eu?

Em frente aos arranha-céus, eram muitos, passava uma avenida com seis faixas de rodagem e um imenso e bem organizado transito, havia carros muito sofisticados, que flutuavam, mas a maioria eram uma espécie de motas, sem rodas, que deslizavam sobre uma coluna de ar, totalmente suspensas sem qualquer contacto com o asfalto.

As pessoas passavam apressadas, roupas de cores de tons metálicos, eu parecia mascarado no meio destas pessoas. Dirigi a palavra a um passante, respondeu um rápido não tenho tempo! Mas foi bom, falava português, sabia que estava no meu país, só me falta saber onde.

Vou procurar um posto da polícia, conto tudo e eles vão ajudar-me, é a sua obrigação.

Vi um hotel com um sujeito, à porta, que parece um general, tantas são as estrelas e galões que lhe enfeitam o casaco.

Com ar humilde dirigi-me e comecei:

-Peço desculpa acabei de chegar da província e ando baralhado nesta confusão, só preciso me indique onde fica, o mais próximo posto da polícia?

Olhou-me, de alto a baixo, antes de com algum sarcasmo responder:

-É evidente que chegou da província, o seu aspecto e o desconhecimento mostram isso. Nem sabe que já não há postos de polícias. Quando precisamos ligamos o XOPT e, algum aparece e trata do resto.

Comecei a ficar um pouco nervoso, mas fingi o melhor possível:

-Mas não tenho telemóvel!

O raio do homem deixou uma gargalhada, que só não me irritou porque precisava dele, se não fosse isso tinha levado um estalo nas ventas.
Ai tinha, tinha!

-Sabe provinciano? Insistiu. Agora todos usam um phonebloks. Mas vou chamar um polícia, estou bem-disposto!

Tirou uma espécie de rectângulo de vidro que se iluminou quando lhe pegou. Não sei o que fez, apenas o ouvi dizer:
-Sou o concierge do Hotel Fairmont e tenho aqui um provinciano em apuros. Escutou o que lhe disseram, do outro lado, agradeceu, tocou no vidro que guardou no bolso.
 Olhou-me com altivez:

-Espere ali na esquina não tarda chega ajuda!

Na demorou, mesmo nada, e apareceu um policia que parecia tirado dum filme de ficção, farda metálica em tons dourados. Montava uma daquelas motas esquisitas que pareciam flutuar.

Perguntou-me:

-Afinal qual é o problema?

Gaguejei e a custo tentei explicar:

-Eu morava aqui, fui raptado e quando me devolveram não existe nada que eu conheça.

Vi pela cara, do guarda, que pensou que tinha um maluco para aturar.
Mandou-me subir para aquela coisa, quando me sentei umas cintas metálicas imobilizaram-me. Saltou para o lugar da frente e flutuamos durante algum tempo, até um edifício enorme. O veículo entrou por uma porta que, automaticamente, se abriu.

As cintas desbloquearam e o guarda conduziu-me a uma sala com paredes gradeadas. Mandou-me esperar. Foi pouco tempo, entrou uma mulher polícia de olhos amendoados.

Mandou-me sentar e pediu:

-Explique bem o seu problema.

Contei tudo desde que me senti sugado até que o tubo me largou nesta cidade.

Vi o olhar incrédulo, o que era normal.

-Bem, disse a senhora, enquanto com um ligeiro toque abriu um ecrã no tampo da secretaria, vamos elaborar um processo.

Perguntou-me nome, morada, profissão e data de nascimento.

Respondi:

-Sou António Policarpo da Silva, moro na Rua dos Eucaliptos na Vivenda Policarpo, sou cortador de carnes verdes e nasci no dia 7 de Maio de 1975.

-Em que ano? Insistiu.

-Respondi em 1975.

Olhou-me com um ar muito desconfiado, bateu com os dedos no teclado virtual, antes de me responder:

-Sabe que não falar verdade, às autoridades, é um crime muito grave e ocupar o nosso tempo com fantasias é muito pior. Estamos em Junho do no 2239, não me diga que tem 264 anos!

Só tenho uma solução, amanhã, será apresentado ao Juiz Comunitário e ao psicólogo, são eles decidem se vai preso ou se é internado no centro de pessoas com deficiências mentais. Garanto que nenhuma das hipóteses é boa!

******

Por vezes acordo com uma ligeira dor de cabeça, mas hoje é de mais! Dor insuportável, parece que vou endoidecer.
É natural depois deste pesadelo tão estranho, nem sei o que aconteceria se não tivesse acordado!
Ufa!






quarta-feira, 5 de Fevereiro de 2014

Amor para sempre








Já são 10 horas e eu ainda na cama, não é normal, este laxismo está a bulir com o meu pensamento.

Sou, como dizia alguém, o galo da manhã. Gosto de ver o sol a aparecer, timidamente, no cume do monte que se adivinha da minha janela e, digo adivinha, porque quando vou espreitar, para esses lados, o monte não é mais do que uma pequena elevação, porque a minha casa fica no vale e provoca a ilusão de um monte que não o chega a ser.

Mas isto é fugir à questão porque hoje foi diferente, não madruguei e ainda, agora, a vontade de sair da cama não é muita. Antes, quando eu tinha a Luzia, muitas vezes, deixava-me estar para não perturbar-lhe o sono de tão cingida que estava ao meu peito. Hoje estou só, ela abalou, consumida pela doença má.

Lembro o último sorriso na doçura das derradeiras palavras:

-Diogo, meu amor, vou partir mas fui a mulher mais feliz do mundo, só porque te tive para mim.
Vais seguir a tua vida e encontra outra que saiba, como eu soube, ser uma estrela na tua vida.
Sorriu, sorriso pálido, e morreu com os olhos fitando os meus numa, quase promessa, de continuar sempre a olhar por mim.

Foi há 11 meses e eu acordo, sempre, com essa sensação de a ter ao meu lado, enroscada no meu corpo.

Hoje foi diferente, acordei tarde sem qualquer sensação de companhia, só uma sensação de desconforto, que não me é habitual.

****

Há qualquer coisa que me preocupa, a minha lucidez não é a mesma, são dez horas e eu continuo na cama, não me apetece levantar, não me lembro de qualquer compromisso, não tenho nada para fazer só, mesmo, estar aqui deitado à espera nem eu sei bem do quê.

Ontem, foi o mesmo, deixei-me ficar neste torpor, neste preguiçar doce, com o pensamento de não ter nada para fazer e, afinal, tinha o casamento da Raquel e do Henrique. Foi um esquecimento inexplicável, se o Amadeu não tivesse telefonado, à noite, a saber o que se passava nem desculpa teria pedido ao casal.

Vou-me levantar, vou ver o meu monte e imaginar que, às 6 horas e 57 minutos, o sol nasceu, além, naquele sitio. Não vi, mas nasceu!

Levantei-me, não sei bem para que, não tenho nada para fazer! Ou tenho  e não me lembro! Agora ando assim!

Antes levantava-me cedo e ia trabalhar, agora fico em casa não sei porque, eu acho que tenho um emprego, mas não sei qual nem onde.
Um dia vou-me lembrar!

A Minha cozinha está um desalinho, a empregada não tem aparecido.
Ou será que a Guida já não  é nossa empregada?

Não me lembro, quando tiver vontade vou arrumar, deito fora as latas vazias, são de conservas, só tenho comido conservas, quando acabarem tenho que ir comprar mais. Não recordo onde se vendem mas, sou inteligente, vou descobrir.

Não sei se o cão tem comido, mas se calhar a Luzia não se tem esquecido, não o tenho ouvido ladrar.

Eu acho que vou fazer anos um dia destes, tenho que descobrir, é uma vergonha mas não me lembro. Não faz mal é muitas vezes assim, mas a Luzia convida os nossos amigos, faz uma festa e encomenda um bolo, de morango, como eu gosto, com velas a lembrar que é de aniversário, senão as pessoas até se podem confundir.

A casa de banho cheira mal, é dos esgotos, isso passa. O fulano que está no espelho não o conheço, como está aquele tipo, no meu espelho? Despenteado e com uma barba horrorosa. Não me vou preocupar, deve ser alguém conhecido, da Luzia, que veio tratar dos esgotos.

Tenho estranhado a televisão sempre apagada, a Luzia liga-a logo de manhã e fica até irmos para a cama. Se calhar já se fartou das telenovelas, não me admira é sempre a mesma porcaria.

Não percebo bem dessas coisas, mas devemos estar na Primavera, tantos pássaros, lá fora, esse chilreado está-me a incomodar, eu gosto dos pássaros mas podiam andar calados.

Tenho uma dor de cabeça enorme, a Luzia dá-me um café forte com limão e passa, mas ela deve ter ido à escola buscar o nosso filho, ou será filha? Não me lembro mesmo se temos filhos, acho que não!
Deve ter ido a qualquer lado, não costuma ir só, mas como me doía a cabeça quis poupar-me.

Já não tenho nada na dispensa. Será que a Luzia foi as compras? Sozinha? Não é normal!

Vou-me deitar até que ela chegue, não gosto de estar só, sem a Luzia, sem o cão e, até o gato desapareceu.
Acho que tínhamos um gato, mas posso estar a fazer confusão, ando numa fase que baralho tudo. Vou, então, para a cama depois a Luzia acorda-me para o jantar.

Sem ela eu não era nada!


*****


Foi o cheiro que alertou os vizinhos.

As autoridades abriram a porta e encontraram o Diogo, na cama, em adiantado estado de decomposição.

Segundo os médicos estava morto, pelo menos, há dez dias.

Deve ter morrido no dia em que completava 52 anos.