sábado, 20 de dezembro de 2014

Quase um conto de Natal.......









Esta história, que aqui vos deixo, faz parte das minhas mais gratas recordações. É real, não é apenas uma, estória, fruto da minha imaginação.

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Há alguns anos atrás, quando eu ainda sentia a magia do Natal, havia um homem de cerca de 80 anos, alto, elegante e com uns olhos azuis cheios dos mistérios de uma vida longa e dolorosa, que todos os meses, invariavelmente, pelo mesmo dia e, sempre, pelas sete e meia da noite batia à minha porta a pedir esmola.

Rogava, sempre, algo que pudesse levar para ajudar a uma refeição. Não queria dinheiro.

Vestia, com distinção, um fato já muito puído pelo uso, uma camisa branca deformada e uma gravata quase tão velho como o dono.

Era de grande eloquência e senhor de uma sabedoria fruto da experiencia de uma longa vida.

Num dia de Dezembro, à hora de sempre, tocou a campainha e, com a distinção habitual, pediu ajuda para aconchegar o estômago.

Eu, talvez imbuído pelo espirito de Natal que já se sentia no ar, perguntei-lhe se não queria jantar comigo?
Notei o brilho do azul dos olhos cintilar de forma mais intensa.

Timidamente respondeu:

-Gostava muito, vou-me sentar aqui nas escadas e agradeço de todo o coração!

-Vai jantar comigo, na minha casa, na minha mesa, confirmei eu.

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Comeu com uma delicadeza que, fazia adivinhar, ser alguém de princípios que a vida abandonou no fim da jornada.

Falou pouco, contou, apenas, que tinha feito 81 anos em Novembro, não se lembrava bem do dia. Disse que o filho, que deveria ter agora 45 anos, era advogado mas, que se havia esquecido que tinha um pai velho.

Vivia, por caridade, num quarto que uma, bondosa, senhora lhe 
dispensava.

Só pedia, em cada casa apenas, uma vez por mês.

Assim, dizia ele, não se tornava maçador e sempre o iam ajudando.

Acabada a refeição, recordo como se fosse hoje, olhou-me e, de forma acanhada disse-me:

-Há uma coisa que não bebo há longos anos mas, se hoje, me desse um eu aceitava!

-Diga, balbuciei, se eu tiver!

Olhou-me, quase com timidez, antes de responder:

-Era um cafezinho!

Bebeu-o com satisfação, pediu licença para se levantar, agradeceu e encaminhou-se para o frio da noite.

Não resisti, fui buscar a minha única gabardine e disse-lhe para a vestir.

Espreitei pela janela, vi-o desaparecer na esquina da rua. 

Figura alta e elegante, a que a minha ex-gabardine dava conforto, para vencer o gélido ar dessa noite.

Para mim, esse inverno foi mais frio, era o meu único agasalho e, eu, gostava tanto dele.

Mas valeu a pena e nunca me arrependi.

Foi a última vez que o vi, não mais apareceu.

Provavelmente, o filho, voltou a lembrar-se que tinha um pai.

Velho sim!

Mas era o seu pai!





sábado, 13 de dezembro de 2014

Um milagre









Não sabia explicar porque mas, havia algo que o tornava diferente.

Sempre foi assim, já em rapaz achava brutas e despropositadas as brincadeiras dos outros rapazes.  Aquele jogar à bola era uma brincadeira violenta, com palavrões e ele não gostava nada dessas coisas, desses palavreados.
Sofreu um pouco, os outros rapazes chamavam-lhe  menina mas não se importava, até gostava mais de brincar com elas, eram mais educadas e tinham brincadeiras mais sossegadas. À apanhada, ao jogo da macaca ou então faziam jantarinhos, coisas que os deixava felizes mas sem precisar de correrias, de brutalidades e algazarras.

Hoje fazia 19 anos e ia entrar para a faculdade e, achava que a felicidade, tal como a pensava, nunca tinha feito parte das sua existência, tinha momentos, muito poucos, que sentia, não propriamente felicidade mas, talvez, um pouco mais de alegria.
Quando a mãe, nos momentos,  em que a doença, lhe permitia alguma lucidez, com aquela voz sumida e arrastada o chamava para o seu lado, lhe afagava  o rosto e quase em sussurro lhe dizia:

-Bélinho, estás um belo rapaz, tal e qual o teu avô que Deus tem!

Depois caia na letargia em que vivia há muitos anos.
Os médicos não sabiam explicar porque, ela era normal, muito alegre e tão carinhosa e, de repente teve assim como que uma espécie de AVC, foi para o hospital esteve lá, muito tempo, e saiu tal como está.
Uns dizem que foram os médicos, outros acham que foi mesmo assim e nada podiam fazer e, até havia, quem falasse em bruxedos e espíritos e todos esses disparates.
Mas ele ia ser médico e estudar a doença da mãe até descobrir a cura!

A mãe era a vida do pai, aquilo era um amor, uma paixão que deixava as pessoas admiradas com tamanho apego do casal. Ele achava que muitos tinham inveja de não conseguirem uma harmonia igual.
A mãe deixou de ser o que era, mas parecia  que sentia o mesmo porque ele via que os olhares, dela, mesmo distantes, brilhavam mais quando o pai estava presente.

O pai já não era o pai, quando a mãe adoeceu lutou, foi a todos os médicos, queria ir ao estrangeiro, mas quando se convenceu que apenas um milagre a podia salvar abraçou-se à fé como naufrago a uma tábua.
Passava horas na igreja, aprendeu a rezar, acendia velas, foi a Fátima e, desconfiam, que até bruxas e curandeiras consultou. Tudo! Até que a fé morreu  e foi como se ele, também, morresse.

Entrou numa espécie de depressão, esqueceu os negócios e ficava longas horas falando com a mãe, numas ladainhas que só ele percebia e, quem sabe, talvez, a mãe no recôndito da sua ausência também percebesse.

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Era muito novo mas continuou a fazer o que a mãe lhe tinha ensinado, a cumprir, a ser bom menino e a continuar a ser obediente e respeitar o que a Laura dizia. Assim o fez.

A Laura era a empregada, há muitos anos, quando ele nasceu já estava na casa, a mãe dizia que foi ela que o criou e ele gosta muito da Laura.
É rechonchuda, bonacheirona e sabe tantas coisas da vida. Nunca casou, diz ela,  que não quis  mas que teve muito pretendentes.

O pai, o tio Ernesto e um sócio têm uma Empresa que faz casas, estradas e outras coisas assim, quando a mãe adoeceu o pai esqueceu o trabalho e essas obrigações todas, mas o tio tomou conta de tudo, como se o pai estivesse lá e as coisas continuaram na mesma, nada lhes faltou.
Às vezes o tio vinha, aqui, a casa, via como estavam e falava dos negócios com o pai. Ele parecia dar atenção mas, quem o conhece, sabe que ele ouvia mas não descodificava nada. Apenas abanava a cabeça, apertava a mão do tio e dizia:

-Mano, tudo o que fizeres está certo! Obrigado por seres o nosso anjo da guarda!

Depois davam um abraço e soltavam algumas lágrimas. Um beijo na testa da mãe e, alguns dias notava, lá muito no fundo dos olhos, um sorriso de alegria.

Depois, ia falar com a Laura e queria saber tudo, o que estava bem, o que faltava e essas coisas, queria que tudo estivesse como dantes.
Apertava o sobrinho, contra o peito, queria saber da escola, como ia, como se sentia e todas essas coisas e acabava sempre com a mesma frase:

-Estuda e faz-te engenheiro para tomares conta dos negócios, o teu pai não pode e eu, qualquer dia, fico velho!

Ele  sorria, só podia fazer isso, não lhe queria dar o desgosto de lhe dizer que ia ser médico para curar a mãe.

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Estamos no Outono, os dias cinzentos escurecem os nossos pensamentos, anda há trás anos, na Faculdade de Medicina, adora o curso mas à medida que o tempo passa, mais se convence que já aprendeu muito mas, que nada sabe.
Os mestres são diferentes, de grande eloquência mas, alguns, muito teóricos e ele deseja a prática, não tem tempo, a mãe continua no seu mundo e o pai definha numa resignação total, já não tem forças para enfrentar a vida. Parece que desistiu!

Anatomia é muito difícil mas é o mistério que  procurava, sim o corpo humano é um mistério, uma máquina complexa que funciona como um enorme computador que dá ordens e faz com que cada acto seja a consequência de uma vontade, se algo falha, nesse perfeito maquinismo, há um desencontro e o anómalo passa a fazer parte do conjunto.

Aqueles impulsos eléctricos, do cérebro, não podem ter nada que lhe altere o caminho, tem uma sequência lógico, manipulados por qualquer Deus imaginário que, quando se distrai, faz que estas doenças, como a da mãe, se instalem e se quebre o mecanismo, é ai que o mecânico, ou seja o médico, tenta descobrir qual a engrenagem que descontrolou o engenho, quase perfeito.

Sabia que era muito bom aluno, os mestres têm elogiado o seu trabalho e empenho, dizem que é muito aplicado e inteligente.
Mas, não é só a inteligente que o move, também a vontade e a necessidade.

O tio Ernesto, que parecia o mais saudável de todos morreu, no princípio do Inverno, um aneurisma.
O primo, fez a vontade ao pai e acabou, no ano passado, engenharia e tomou, com o engenheiro Themudo, o outro sócio, conta do negócio e está tudo a correr muito bem.

Agora a Empresa chama-se Anselmo, Ernesto, Themudo Técnicas de Engenharias, Lda,. É do primo, da tia, do pai e do engenheiro Themudo.
Passaram uma procuração, ao primo Ricardo, o pai não está capaz e ele não tem tempo, mas a família é muito coesa e as coisas estão a correr muito bem.

Ainda falta muito para acabar a Faculdade, escolheu neuropsiquiatria, são mais alguns anos e mais o  estágio, mas vai conseguir!
Tem pesquisado muito e, está  certo que, vai por a funcionar o circuito que em algum lado se perdeu.

A Laura estava tão velha que, foi necessário arranjar uma senhora para a ajudar, não queria e, pela primeira vez, teve que de se impor.
Ainda choramingou, com soluços e com as mãos como em oração disse-lhe:

-O menino, que eu criei com tanto amor, agora faz uma coisa destas. Arranja uma qualquer e bota-me no lixo como um trapo velho!

-Oh querida Laura, não penses  nisso, tu és da casa. A pessoa que vem é para estar sob as tuas ordens e fazer o que tu disseres, tu vais ser a dona da casa e estás para cuidares da mãe e do pai. Ficas com mais tempo para eles. Tonta, és mesmo tonta!

Pareceu ficar mais tranquila mas notou-lhe uma certa angústia.

Aos domingos gosta de ficar um pouco mais na cama mas, hoje passou uma noite com muita inquietação, uma espécie de premonição, o que aliás, lhe estava a acontecer com frequência.

Levantou-se e fui espreitar os pais. A mãe parecia acordada e sentiu que o olhou, o pai parecia dormir profundamente mas notou alguma lividez o que, nele, não era natural. Passou, com muito carinho, a mão pela testa e ficou numa espécie de pânico, apalpou a jugular  e o pai tinha partido.
Finalmente encontrou o caminho que há muito desejava.

Faz hoje três meses que o pai morreu, a mãe está a ter umas reacções que o animam, olha para todos e sorri e, há tanto tempo que não sorria.

Ontem, então, aconteceu um verdadeiro milagre. É a Laura que lhe dá as refeições, colher a colher na boca, mas a mãe pegou na colher e, como um bebé desajeitado, foi levando o comer à boca e sorria. Os olhos tinham um brilho diferente.

Hoje estendeu-lhe a mão e fez o gesto de se querer levantar, agarrou-se ao seu braço e com muita timidez caminhou num passo titubeante.
Mas caminhou e sorriu.

Voltou a sentá-la na cadeira. Com voz tremulante perguntou pelo pai.

Ficou em pânico, não lhe queria dizer a verdade mas, também, não lhe queria mentir.
Parece que se apercebeu, colocou as mãos como se põem para rezar e abanou com a cabeça, assim com quem diz:

-Está com Deus!

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Parece que foi ontem que o pai partiu e, afinal, já passaram anos.

Acabou o curso, é cirurgião de neuropsiquiatra, está a trabalhar no Hospital principal e, sabe, que já ganhou muita reputação.

Casou com a Judite, colega de curso. A mulher tinha enveredado pela pediatria, o que veio a propósito, pois tem dois rapazes, o João e o Tiago, gémeos e tão parecidos como duas gotas de água.

O seu grande objectivo foi alcançado, a mãe já não parece a mesma, é autónoma, adquiriu a independência que tinha perdido, já sai orgulhosa, com os netos até ao jardim.

O problema da mãe, embora grave, foi mal diagnosticado, foram-na tratando como se tivesse Alzheimer quando, afinal tinha um Glioma no tronco cerebral. Felizmente benigno!
Foi operada, ele esteve presente.

Quem os conhece, família e amigos, dizem que foi um milagre, que houve um santo que se apiedou e intercedeu junto de Deus.

Acredita que sim, mas tem a certeza que deu uma grande, diz mesmo, enorme ajuda.

Deus deve ter feito a sua parte mas, sem ele, nunca teria conseguido.








sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A Vida - Final













Senti que me estava a alongar e a receptividade não era muita. Acabei um pouco antes, fugindo ao pensamento, pois precisava de mais, muito mais, para chegar ao que imaginei.


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-A minha mãe, porque o perdeu há 25 anos, fez o luto e não queria passar, outra vez, pelo mesmo.
O meu pai, não sei porque mas tinha ódio do filho do sapateiro, como dizia. Por fim, o Mauricio, meu ex-namorado que pensava que o tinha trocado por ele.


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Nada mudou na casa de Joana continuava, tudo, como se nada tivesse acontecido, não sabiam das declarações da filha e tomaram, como normal, o facto de a polícia judiciária ter insistido, em perguntas e em saber onde estavam entre as 8 da noite de quarta-feira e as 10 da manhã de quinta.
Era esse o período que os legistas, e a própria polícia, consideravam como provável, para o crime.
O doutor saiu, do ISSERS, pelas sete e meia e foi encontrado, às dez da manhã, do dia seguinte.

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O Senhor Cordeiro ia passear, o seu velho beagle, e achou estranho a posição do homem, pensou abrir o carro mas teve receio, telefonou para o 112 e explicou tudo muito bem explicado. Disseram para não mexer em nada e para não sair, iam mandar uma equipa.


Cumpriram, mas esteve 43 minutos à espera, sim ele olhou para as horas quando telefonou, eram dez horas e vinte e dois e o carro, mais a ambulância, só apareceram as onze e cinco.
Não gostou nada da forma como o trataram, parecia que o tornavam responsável, perguntas e mais perguntas e ainda teve que os acompanhar para prestar declarações, foi isso que disseram, ficou farto e ali mesmo jurou que podia topar, um carro cheio de cadáveres que a sua boca não se abria. Dava a volta e fazia de conta que não tinha visto nada.

Nos interrogatórios, feitios no local, apenas descobriram que aquele carro, um belo BMW, não era a primeira vez que por ali parava.

A senhora, do Quiosque dos jornais, jura que era habitual, estacionar naquele lugar, aos fins do dia, e um casal sair com alguma cúmplicidade.


Algumas vezes, não muitas, o senhor ia comprar revistas e a companheira ficava junto  ao automóvel.
Desta vez não reparou, quando fechou o negócio, se o carro estava por aqueles lados.

Se lhe perguntarem como era a senhora, ia ser  difícil, era ao fim do dia e ficava sempre ao pé do carro, não dava para ver bem, era alta e parecia muito elegante, mas difícil para descrever melhor. E, também, não eram todos dias.

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Joana agarrou-se aos estudos e, ao trabalho, quanto mais ocupada menos tempo para pensar nos acontecimentos. Queria esquecer, confessa que desconfiou dos pais mas tinha a certeza que não, ela era o seu melhor alibi, estiveram juntos toda a noite.

O trabalho no hospital era, totalmente, absorvente e tinha sentido algumas dificuldades na habituação, não no aspecto profissional, até tinha superado as espectativas, mas o lado humano era muito difícil.

Quando, pela primeira vez, teve de assistir ao tratamento dum menino mal tratado pelos próprios pais, foi difícil. Ou, então, aquela senhora em que as marcas de espancamento eram evidentes e não quis implicar, possivelmente, o marido garantindo ter caído numas escadas. Isso deixou-a a pensar e confusa.

Um dia, um jovem, não tinha mais de 18 ou 19 anos, depois de uma noite de copos se estatelou com a sua mota e tinha hipotecado o resto da vida. Ia ficar, se tivesse sorte, paraplégico e agarrado a uma cadeira de rodas, para o resto da vida. Ficou tão triste que, se não fosse o amor que sentia pela profissão tinha, ali mesmo, desistido.

Havia casos difíceis, mesmo muito difíceis de gerir, ficavam no pensamento.
Lembrava uma pobre mulher, esfaqueado pelo próprio filho, com a vida a esvair-se pelos fundos golpes no peito e que, apenas, estava muito preocupada com o seu menino, o assassino, que ia ficar sem ter quem cuidasse dele.

E as crianças, meus Deus, o drama de os ver sofrer, era o pior que lhe podia acontecer, perder na luta, pela vida de um inocente.

Os colegas, mais velhos, experientes, muito sabedores, iam dizendo que mesmo depois de muitos anos é sempre difícil, lidar com estes dramas, mas iam criando hábitos que ajudavam a encarar, a morte, como fazendo parte do percurso da própria vida.

Mas, no resto, lentamente, foi retomando as suas rotinas, a relação com os pais voltou ao normal, embora sinta que a mãe está mais fria, não que alguma vez lhe tenha sentido grandes emoções, mas estava diferente, um pouco desconfiada e calculista, era normal face aos acontecimentos. O pai voltou ao que sempre foi, como se nada tivesse acontecido.

Lembrava o irmão, todos os dias, mal o conheceu mas foi muito forte. Começou como veneração, misto de admiração e sentimentos que não sabia definir.


Quando o conheceu pensou - é este o que procuro - mal sabia que foi o princípio de uma mudança total.

Agora, pensava, que os desígnios de Deus eram tão poderosos que não deixaram que o pudesse amar, nem mesmo, como irmão.

Hoje estava uma mulher diferente, cresceu tornou-se mais adulta mas, ao mesmo tempo, sente que perdeu um pouco daquela ingenuidade que a tornava tão feliz.

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Faziam, exactamente, seis meses que Albino foi encontrado no carro, não há precisão sobre o dia da sua morte, pode ter acontecido na quarta, ou na quinta.
Pelo que leu, não chegaram a nenhuma conclusão a única certeza, segundo os jornais, uma dose letal de morfina foi-lhe injectada no pescoço.


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Nunca mais falou com a doutora Cândida, estava envergonhada, parecia mesmo ingratidão, afinal ela tanto a ajudou, mas o tempo, os problemas e uma certa dose de "deixa andar" fez com que os dias fossem passando. Mas ia remediar, hoje, ia telefonar.


-Olá Joana, ouviu do outro lado do telefone!

-Oh Cândida, espero que não esteja zangada comigo! Tenho sido tão descuidada. Não é desculpa mas o trabalho, no hospital, não me deixa tempo para nada. Mas juro que não me tenho esquecido de si!

Cândida foi pronta a sossegar:

-Eu sei, querida, e compreendo, é muita coisa para uma pessoa digerir, não estejas preocupada. Que me dizes a um almoço num dia destes?

-Gostava muito, disse Joana e, na quarta- feira, tenho o dia quase livre!

-Então, respondeu Cândida, podemo-nos encontrar no mesmo sítio. Que dizes?

-Obrigada Cândida, fico ansiosa por esse dia, lá estarei. Beijinhos!

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Repetiram, como há meses atrás, encontraram-se, no mesmo café, e foram a caminho do pequeno restaurante, na travessa.

A ementa não variava muito, mas o peixe grelhado ficou na cabeça da Joana e repetiu, a doutora Cândida não ia com peixe e escolheu Carne à Bolonhesa.

-Sabe, disse Joana, temos andado à volta com  conversa e afinal não falamos, daquilo que, verdadeiramente, queremos!
Conheci mal, o meu irmão, sei que nunca o senti e tenho umas saudades, imensas, e uma pena enorme de não o ter abraçado. Deus não quis! A Cândida, que o conheceu bem, podia-me falar um pouco dele. Quero saber como era, os seus sonhos, sei que tudo o que me puder dizer, não o vai trazer de volta mas, fico a conhece-lo um pouco melhor.

A doutora Cândida pareceu ficar um pouco confusa, mas recuperou depressa e acrescentou:

-Mas que posso dizer mais, minha filha, era uma pessoa muito especial, amável, delicado e com muita consideração para com todos.
Muito exigente mas, ao mesmo tempo, de grande tolerância.
Comecei a trabalhar, com ele no banco, estava no início da sua carreira, mas desde logo nasceu uma admiração, posso dizer mútua, pois nunca mais dispensou a minha presença, de tal forma que, quando foi convidado para inaugurar o Instituto, aceitou com a condição de eu o acompanhar! E assim foi!
Estava previsto fazer parte, na próxima remodelação governamental, do executivo. Ia ser secretário de estado, não sei bem de que secretaria mas ia e, já me tinha dito, que contava comigo.
Tinha à frente uma grande carreira e, podes crer, que tinha um irmão que te iria amar muito.
Não te tinha ainda dito mas, vou ter a honra de seguir o projecto que idealizou, e ele, esteja onde estiver vai ficar orgulhoso. Vou ser empossada como directora do Instituto, serei eu a substitui-lo e a continuar a sua obra.

Joana não se conteve:

-Cândida, desculpe a pergunta, mas entre si e ele, a relação era estritamente profissional?

A doutora corou mas, rapidamente, se recompôs.

-Sabes, Joana, a nossa única preocupação devia ser descobrir quem o injectou com essa overdose de heroína! O resto, agora, já não importa!

-É verdade, disse Joana, mas não respondeu à minha pergunta!

-Pois, Joana, não respondi nem vou responder, pouco interessa sobre o que aconteceu ou o que poderia ter acontecido, nada acrescenta saber se a nossa amizade, era apenas no campo profissional ou se alguma vez, fomos um pouco mais além.


E agora vou devolver a questão:

-A nossa relação de amizade seria, ou será, diferente se eu e o teu irmão, algum dia fomos para a cama?

Joana não estava à espera da reacção, ficou desarmada e sem saber o que dizer, gaguejou,  na procura das palavras que teimavam em se enrolar na língua, por fim atreveu-se:

-Cândida não me julgue mal, não tive qualquer intenção além da curiosidade e, confesso, gostava muito de a ter como cunhada, mas gostava mesmo! Desculpe Cândida!

-Não gosto de lugares comuns, disse a doutora, mas agora vem a propósito dizer, que as desculpas evitam-se!

Levantou-se, de supetão, e muito furiosa foi acrescentando:

-Pensei que eras diferente mas o ADN é o mesmo. Passa bem!

Foi até ao balcão, pagou a parte da sua conta, e saiu porta fora sem sequer olhar para trás.

Joana não percebeu a reacção, mas ficou a saber aquilo que pensava. Eles tinham um caso!


********

Um ano vai passado e o assassinato, do doutor Albino Malcata, continua no mais completo mistério, para a polícia é um assunto encerrada, a não ser que algo de novo possa surgir.


Joana tem um enorme problema a roer-lhe a consciência, ela teve acesso ao relatório da autópsia e confirmou que a morte, do irmão, foi devida a uma overdose de “diacetilmorfina” ou seja de heroína.

Todos os meios de informação referiram overdose de morfina, talvez por má interpretação do nome técnico.


Mas a Cândida, quando foram almoçar,  referiu com muita convicção HEROÍNA.


Era estranho, foi a única a considerar heroína, quando todos erradamente falaram e escreveram morfina.

Coincidência? Só podia ser!

*******


A estação estava quase deserta, às 7 horas da manhã de um sábado, só algumas pessoas, bocejantes, esperavam alguém pelo comboio que estava com um ligeiro atraso.
Chegou as 7h e 33 minutos, num estridente roçar nos carris os freios que, a pouco a pouco, o foram imobilizando.
Houve algumas correrias de bagageiros, com carrinhos de rodas de borracha, na esperança de um serviço para um bom começo do dia.

Quando as portas das carruagens se abriram, os passageiros, começaram a sair numa dormência de quem passara, quase, oito horas sentado no banco dum comboio.

Os que tinham familiares, à sua espera, amontoavam-se numa algazarra de cumprimentos e perguntas, os outros seguiam puxando malas de rodas a caminho de uma longa fila de táxis.

Um homem, de pernas altas, e um pouco desajeitado, enfiado num sobretudo que lhe dava um ar de certa fineza, que as mãos nodosas desmentiam. Eram as marcas de uma longa vida de trabalho.


Era a mesma criatura que, há muitos anos atrás, numa sexta-feira, fria e chuvosa, estava sentado numa cadeira de buinho, com  as mãos a cobrir-lhe o rosto até que a mulher gritou:

-É um rapaz, um belo rapagão!

Era o mesmo mas, muito mais velho, o rosto vincado pelas rugas do tempo, o mesmo ar amargurado, com os cabelos fartos mas, agora, na cor da prata. O negro tinha desbotado há muito.

Tomou um táxi, não deixou por a mala no porta-bagagem, levou-a ao seu lado no banco. 


Deu indicações ao motorista, recostou-se e semicerrou os olhos até chegar ao destino.



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Tinha ido, a salto, para França numa aventura feita de fome e de muita perseverança, foram 26 dias de caminhadas e boleias, desconfiadas, de alguns camionistas.

Passaram quase 30 anos desde que começou uma nova vida.


Em “Orthez” foi coveiro, a ocupação que mais o marcou, depois, muitos anos, mineiro, em "Nora Pas de Calais” e acabou, depois de muito porfiar, na sua profissão em “Combs-la-Ville”, próximo de Paris.

Não foi fácil, destruiu a mente, sonha todas as noites com os mortos que foi entregando à terra, nos pulmões, resta o DPOC que lhe marcou o que lhe resta da vida e, só, a sua verdadeira profissão lhe trouxe, alguma tranquilidade, aos poucos anos que ainda lhe sobram.

Nunca lhe perdoou, foi ele quem apareceu para acabar com a magia que tinha sonhado com Maria do Rosário.

Quando ela lhe disse que estava grávida não se conteve e teve que lhe dar uma bofetada, depois arrependeu-se e pediu-lhe desculpa mas exigiu que fosse deitar fora o intruso. Mas teimosa, como todas as mulheres, não quis.

Quando nasceu amaldiçou-o para sempre, mas o desgraçado parecia invisível, passava sem se deixar notar, vivia sem nada mas parecia ter tudo.


Um dia, o safado, desapareceu sem deixar rasto, foi como se a terra o tivesse engolido.

Foi um renascer de esperança, se calhar para ele e Maria do Rosário ainda havia uma hipótese.


Mas não! O rapaz tinha-a transformado, não era a mesma.

Não valia a pena, ia desistir,  fez uma trouxa e meteu-se ao caminho deixando o ódio a alimentar a vingança que o atormentava.


****


Um dia, um cliente habitual, um português pretensioso,  dono de uma loja das bebidas, entrou e estendeu-lhe um par de botas:

-J'en ai besoin pour demain...

Depois atirou-lhe um jornal português e perguntou:

-Queres ler, não tem nada de especial, mas já o li todo.

Foi nesse jornal que o ódio, que já andava um pouco escondido, voltou à tona. Quem diria que o amaldiçoado chegou tão longe, a bruxa da professora, tinha disso que ele podia ir longe. E não é que foi!

Na primeira página, em letras gordas, para quem as quisesse ler.

O ilustre doutor Albino Manuel Vicente Malacata foi empossado pelo ministro como presidente do recém-criado ISSERS, uma espécie de Instituto Superior nas áreas das novas tecnologias. Ao lado uma foto que lhe fez uma angústia como já não sentia há muitos anos. E eram os olhos, esses, não os esqueceu.Tal os da mãe.

Fechou o estabelecimento, entregou "les bottes", ao convencido do dono e, abalou a caminho  de casa, estava determinado, ia a Portugal acabar com a maldição.

Em casa pediu, à espanhola, com quem vivia há alguns anos:

-Preciso de uma mala, vou a Portugal acabar o que não comecei, volto breve!

-Llévame!

-Después! Entonces vamonos los dos, ahora no.


**********


Não foi fácil, não tinha plano e precisava de um.


Podia mandar uma carta a dizer que era o pai e que queria pedir desculpa. Era
 perigoso, ia deixar um rasto. 


Não, não dava!
Ia esperar tinha tempo.


****


Foi numa quarta-feira que, finalmente, o filho saiu sozinho e encaminhou-se para o BMW estacionado, alguns metros à frente.


Foi rápido e esperou junto ao veículo.

Quando o doutor se aproximou, olhou com estranheza o homem, mas mais surpreendido ficou quando ouviu:

-Então doutor Albino já não reconhece o seu pai?

Albino, observou o homem com atenção, aquela boca de cantos descaídos, o nariz grande e o olhar agudo estavam, ainda, na sua mente.
Era ou podia ser, de facto, o pai. Ficou sem palavras mas só perguntou:

-O que faz aqui passados todos estes anos?

-Sei que é tarde, disse o homem, é difícil mudar o passado mas pudemos, sempre, amenizar o futuro. Sei que és um vencedor, queria ver-te e, se possível, falar um pouco. Tenho muito pouco tempo e preciso voltar a onde pertenço.

Se me puderes levar e deixar, num lado qualquer, aproveitamos para nos conhecermos melhor, já que antes não o conseguimos fazer.

-Tenho pena, disse Albino,  mas vou para o Estoril.

O homem sorriu e acrescentou:

-É óptimo! Dás-me boleia e deixas-me na estacão dos comboios, falamos um pouco e depois cada um vai à sua vida. Quem sabe se não é a ultima vez que vamos estar juntos!

Aníbal não estava muito feliz mas anuiu:

-A estacão do Estoril serve para si? Se é boa vamos embora!

Foi uma viagem rápida, pouco falaram. O pai só quis saber como tinha chegado tão alto.


Albino explicou que trabalhou, sem nunca deixar de estudar. 


Teve sorte no emprego e nas pessoas que foi conhecendo.

O pai ouvia mas parecia distante e hesitante mas, sempre, perguntou:

-E a tua mãe?

Albino apenas lhe disse:

-Só há dois dias descobri que ainda tenho mãe e que está bem! Não a vi, nem sei se a quero ver, nem se ela tem algum interesse nisso.



****

Chegou ao Estoril, estacionou, num lugar vago. Era ali, onde estacionava com alguma frequência.
Depois, perguntou:

-Para o senhor está bem aqui?

-Muito bom!



****


Depois sentiu a picada, queria respirar mas o ar não chegava lá, queria gritar mas a voz morria na garganta.

O homem guardou a seringa. Limpou, com um lenço, em tudo onde tivesse tocado. Apagou as luzes e desligou o carro. Saiu e seguiu na direcção da estação dos comboios.

Tomou o primeiro que passou para Lisboa.
Parecia calmo no meio da confusão que lhe bailava na cabeça, os pensamentos entrechocavam-se, num misto de dever cumprido e uma agonia,  por ter que carregar para o resto da vida a imagem dos olhos do Albino, na agonia dos últimos momentos.


Teve que ser, não merecia outra coisa, agora só faltava Maria do Rosário, ainda pensou perdoar-lhe mas, não podia, tinha que a juntar ao filho, afinal foi por ele que ela o trocou.

Sabia que Albino não sofreu, ele estudou e sabia que ia ficar num estado de sonolência, depois o ritmo cardíaco e a respiração diminuiriam, ira perder a consciência. Seria, quase, como se diz, uma morte santa.

Agora para a cabra, da mãe, que mal se apanhou livre, se enroscou com o velho que impingia maquinas Singer, a prestações. 

E ele, que sempre, pensou voltar para a levar como se fosse uma princesa.

Tinha que estudar a melhor maneira de o fazer, mas ia encontrar uma forma, ou não fosse um Malcata.


******


Desceu no Cais do Sodré, não conhecia, já tinha ouvido falar das diversões daquela zona, não era homem dessas coisas, mas hoje, era noite para festejar e sempre ficava a conhecer. 

Afinal era como uma despedida, não tardava acabava a missão e voltava para a sua Yolanda, sabia que era feia como um sapo, mas fiel e muito carinhosa. Não a amava mas que importância tinha isso?


****


Atravessou a avenida, ia procurar um sítio onde jantar, já estava a sentir uma fome danada.

Era um restaurante modesto mas, as iscas, estavam boas e o preço era aceitável. Apetecia-lhe um cigarro mas estava, totalmente, proibido. Não podia!

Percorreu um pouco aquelas travessas, muitos bares e tanta animação, gostava de ir espreitar mas lembrou-se que os pulmões não o deixavam frequentar meios mais poluídos e, lá dentro, a atmosfera não devia ser convidativa.

Tinha ouvido falar no Bairro Alto, restava-lhe tempo para dar uma volta.
Ia saber como lá chegar.

Estavam na esquina três moços, ia perguntar:

-Desculpem interromper a vossa conversa, mas algum dos senhores me diz o melhor caminho para o Bairro Alto?

Olharam-se, como se se interrogassem com o olhar, até que o que parecia mais velho respondeu:

-Está com sorte vamos, precisamente, para esses lados. Se quiser pode ir connosco?

-Obrigado, disse Malcata, isso é mesmo bom. Mas não queria incomodar!



Meteram-se ao caminho, por uma travessa um pouco manhosa, os rapazes pareciam animados. De novo foi o mais velho a perguntar:

-Então o amigo não é de Lisboa?

-Não, respondeu, sou imigrante, vim tratar dumas coisas e volto breve.



Iam já voltar na esquina da travessa, quando, um deles, segurou-lhe o braço encostou-lhe uma navalha à garganta e com ar ameaçador exigiu:

-Passa para cá o guito, o relógio e o telemóvel, Mas depressa antes que a menina te degole.


Foi rápido a entregar os objectos, que um deles ia arrecadando.

-Agora despeja os bolsos, voltou a mandar o da navalha, saca tudo porque estou a ficar nervoso!

Malcata tremia, sentia o suor a escorrer e, as pernas, a perder as forças, queria salvar a caixa onde tinha a seringa.

Timidamente tentou uma mentira:

-Já dei tudo, só tenho esta caixa com a seringa para a minha insulina.

O outro tentou tirar a caixa, o desgraçado fez um esforço, Fez muito mal, a faca entrou-lhe duas vezes no peito e o sangue jorrou.



Sentiu o corpo dobrar-se, ouviu uns passos a afastarem-se em grande correria.


Tentou gritar mas, apenas, lhe saiu um suspiro. A vida acabara de se esfumar por dois buracos, feios, por onde o sangue escorria lentamente.


*******


Partiram, quase juntos, nunca se iriam encontrar.


A luz da alma, do inocente, não podia atenuar a escuridão do espirito do carrasco.









terça-feira, 11 de novembro de 2014

A Vida - Parte 7






-Como? Perguntou a mãe, enquanto ia desfalecendo e caindo como um boneco de gelatina deslizando no soalho.




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Difícil de descrever a cena, dramática e ao mesmo tempo com um aspecto de tragicomédia. Inusitada.

A mãe estatelada, mas com estilo, conseguiu cair de forma calma e cautelosa, diria mesmo, com arte.

Depois arfou, abriu os olhos e com uma voz sumida, muito forçada perguntou:

-Mas o que aconteceu, porque estou estendida aqui? Devo ter sonhado, ouvi um nome mas não acredito, alguém quer brincar com os sentimentos mais íntimos de uma mãe!

Joana não se conteve e comentou:

-Mãe, como actriz não é grande coisa, aquele pseudo-desmaio foi muito mal encenado, tão mau que nem eu nem o pai ficámos convencidos.

-Mas o nome do Albino Malcata como te veio à ideia? Perguntou a mãe.

Joana respondeu:

-Existe, conheço-o, tem os teus olhos, pode ser o filho que nunca dissestes ter, no mundo de mentiras onde me tens criado.
Ele descobriu, ainda bem, porque eu começava a gostar dele e, tenho a certeza, que o sentimento era reciproco. Já vistes o que podia acontecer?

Maria do Rosário começou num choro convulsivo, Joaquim, o marido tentou acalmar mas, de verdade, sem muito jeito.  Mas fazia esforço com palavras de conforto:

-Tem calma amor, vamos falar todos, explicamos à nossa filha porque guardamos segredo e ela vai perceber. Tem calma, agora vai descansar e amanhã, com a cabeça mais fria, falamos os três.

********

A manhã acordou cinzenta, tão parda como os pensamentos da Joana. Foi uma noite para esquecer, um turbilhão de ideias.
Ainda se levantou e foi tomar um daqueles comprimidos da mãe, parece que é um Lexotan, mas devia estar falsificado pois só adormeceu às 4 horas da manhã.
Levantou-se, totalmente, pedrada.
Tinha esperança que um café lhe desse discernimento, para enfrentar o que vinha a seguir.

Os pais já estavam à mesa, o pequeno-almoço estava pronto, só faltava o café, mas estava preparado, era só ligar a máquina, ainda tinham o sumo de laranja para começar.

-Olá, disse Joana, enquanto depositava um beijo na bochecha de cada um. Estou cheia de dores de cabeça, só vou beber um café e sigo para a faculdade, tenho duas aulas muito importantes.

A mãe não se conteve e quase gritou:

-Não vais sem me dizeres onde posso encontrar o meu filho! Levei a noite em claro à espera deste momento.

-Sabes mãe, disse Joana, quem esperou 25 anos sem grandes preocupações, pode esperar mais umas horas.

Pegou na pasta e saiu porta fora sem se despedir.


*******


Mal saiu de casa pegou no telemóvel e ligou para a doutora Cândida, quando lhe ouviu a voz, atirou:

-Bom dia Cândida, a minha mãe quando eu disse o nome do presidente teve um chilique, ou fingiu, e já admitiu ser o filho.
Quer saber onde está. Agora estou num dilema, ou trilema, ou sei lá o que. Não sei o que fazer!

A doutora ficou por breves momentos em silêncio, Joana pensou que não a estava a ouvir. Insistiu:

-Cândida, não me está a ouvir?

-Estou Joana, estou! Fiquei sem saber o dizer, embora já estivesse à espera. Queres que eu te arranje uma entrevista com, o agora, teu irmão?

-Não é preciso Cândida, eu vou telefonar-lhe, tenho o número do telemóvel. Obrigado e um beijinho.

*******

Não foi fácil, sempre ocupado, foi necessário insistir até que à oitava vez atendeu o telemóvel, com uma voz sussurrada perguntou:

-Vai-me dizer quem fala? Não conheço esse número!

Joana ficou na dúvida, não sabia exactamente como responder mas atreveu-se:

-Peço desculpa por incomodar, sou a Joana dos Reis, podia dizer que sou a sua irmã Joana mas, se calhar, ficava chocado!

O senhor Presidente adoçou a voz antes de responder:

-Quer dizer que eu estava certo? É mesmo a minha mãe, quero dizer a nossa mãe? Olha Joana no meio de tudo isto, desta desgraça, há uma coisa boa, ganhei uma irmã formidável, simpática e muito bonita.

Joana gostou, mas não quis dar a notar, podia ser apenas uma frase de circunstância.

-Obrigada senhor doutor, mas o que faço agora?

Mudou o tom da voz para responder:

-Joana agora para ti sou Albino, apenas Albino. Não gosto do meu nome mas é o meu. Quanto ao resto não vais fazer nada, dizes que vou estar fora alguns dias.
Depois telefono para este teu número donde me estás a telefonar.
Desculpa mas preciso pôr todas as ideias, primeiro, em ordem.


********

Era curioso mas Joana estava feliz, tinha desde o primeiro momento sentido uma grande atracção pelo presidente, para ela agora era o Albino, mas essa atracção, pensava, eram apenas desígnios de Deus.

Tinha que pensar no que dizer à mãe, ela é um pouco despegada e fria, mas quando  empreende, seja no que for, é determinada e de uma persistência difícil de controlar.

Tem rotinas e sempre que lhas quebram sente-se vitimizada, não age por impulsos, programa a sua vida sem pensar que os outros também existem.

Mas logo pensava melhor sobre o que inventar, já estava em cima da hora para uma aula da cadeira de Hematologia.

******

Era só que o lhe faltava, estava a cruzar o portão quando em frente à Faculdade estava, como um paspalho, o Maurício.

Não gostou nada, parecia que a andava a controlar e para isso já bastavam os pais, foi mesmo um pouco agressiva:

-Não tenho paciência para ti, nem paciência nem tempo, por favor dá-me espaço e deixa-me viver a minha vida, da qual há muito deixastes de fazer parte.
Se continuares nesta perseguição tenho que me chatear de verdade!

-Eu vinha em paz, Joana, estava até a pensar dar-te uma ultima oportunidade para voltares e, vens com essa treta de ameaças, não tenho medo que te chateeis, se calhar pensas que o teu bonitão te vem proteger, até gostava para lhe dar uma lição para aprender a não sacar as miúdas dos outros, podes ter a certeza que não roubava mais nenhuma.

Joana ouviu com um sorriso, que estava a enervar Maurício, mas era propositado, estava mesmo a provocar.

-Tens razão, é mesmo bonitão e, agora, faz mesmo parte, e bem, da minha vida. Passa bem!

Maurício ficou numa espécie de ruminação.

*****

Quando ia a chegar a casa, viu o pai a atravessar a rua,  tão absorto nos seus pensamentos que nem reparou na filha, que aproveitou para uma pequena provocação:

-Então passa por uma garota jeitosa como eu e nem raparas!

Foi apanhado de surpresa mas reagiu rápido:

-Não posso olhar, para as garotas, senão a tua mãe dá-me cabo do canastro. Sabes? Vinha cogitando na nossa vida, que estava a correr tão bem, com tanta harmonia e, de repente, deu uma volta que não esperava. Aquele desgraçado, que abandonou tudo e todos, que devia estar nos quintos dos infernos, aparece do diabo para dar cabo da harmonia de uma família.

-Pai não digas isso! O Albino é, muito, diferente do que pensas!

O pai interrompe:

-Não o venhas defender que ele não merece, esse filho do sapateiro é uma rês igual ao pai, que um desapareceu. Julgam que se matou mas não acredito, deve viver para ai à conta de alguém. Quem sabe se ele  e o filho, esse tal Albino, não estão metidos no mesmo barco.
Espero que não me apareça à porta, pois pode sair-se muito mal.

Joana começou a ficar um pouco incomodada e, com alguma ironia, apenas responde:

-Começo a ficar farta de todos, mas mesmo de todos, egoístas, só pensam em vós!


******

A mãe estava de plantão, sentada num banco, de buinho, à entrada da porta. Quando deu pela filha gritou:

-Quis Deus rapariga! Que pensei que nunca mais chegavas! Espero que já tenhas combinado, com o meu filho, um encontro!

Joana não se conteve:

-Primeiro devias perguntar se ele te quer ver, segundo se tens a certeza de ser o teu filho e, se tens, devias dizer, teu irmão e não meu filho.
Para concluir tens que esperar, o Albino está fora e, a pensar se vale a pena visitar-te para depois desapareceres por mais 25 anos.

-Mas, bradou dona Maria do Rosário, o salafrário ainda quer ser vitima das angústias e dos sofrimentos que me causou? Vivi uma vida na esperança, que um dia, entrasse pela porta, a pedir perdão por todos estes anos de sofrimento, pelas mágoas e lágrimas que me fez derramar.
Sabes que mais, Joana? Já não o sinto é como se tivesse morrido, até já lhe fiz o luto, para mim morreu há muito tempo. Que Deus dê descanso à sua alma, que não me atormente mais!

Joana estava siderada, nunca pensou ouvir tais palavras e, especialmente  da mãe.
Em pouco tempo foram três a desejar o pior, para o pobre do Albino, até parece que ela é a única que de verdade gosta dele. Afinal é irmã!

Fechou-se no quarto e não quis ver ninguém, estava desolada e muito desiludida, pensava que conhecia os pais, mas parece que não.
Afinal não conhecia!


*************


Eram as primeiras capas de todos os jornais, UM CRIME NA PRAIA, apareceu morto ao volante do automóvel, junto à praia no Estoril, um ilustre gestor publico, a polícia suspeita de crime embora a hipótese de suicídio não seja posta de parte.

Depois eram lacónicos, as autoridades não tinham prestado muitos esclarecimentos e, atiravam para as paginas centrais, onde faziam uma resenha da vida do ilustre desaparecido.

Os jornais, estendiam-se, desenvolvendo a carreira e os êxitos profissionais, a licenciatura e os diversos mestrados. 

Não era conhecida a causa da morte e, muita especulação, sobre o que podia ter acontecido, muitas perguntas no ar.
Acidente, doença súbita, suicido ou assassinato?

A polícia não adiantava, só prometiam a seu tempo um comunicado.


Joaquim dos Reis leu a notícia e, sentiu o corpo ser percorrido por um arrepio, não porque conhecesse o pobre diabo mas, com esta onda de violência uma pessoa já não podia andar descansada, matavam as pessoas por tudo e por nada, às vezes apenas para roubar um telemóvel.

Não devia ter, pensou, nada a ver com aquele desgraçado, filho do sapateiro, pois o jornal falava ou melhor, escrevia, doutor e dizia um dos mais prestigiados gestores da nossa praça. Com um apartamento no Estoril, bom só uma coincidência, pois o borra-botas, que um dia fugiu duma parvalheira, não podia ter alcançado tão grande estatuto.

Não se ia atormentar com isso e, nem sequer ia falar em casa, para não por ideias esquisitas na cabeça da mulher.

Joana também viu a notícia mas, apenas por curiosidade, pensava que o Albino estava fora e convencida que não morava no Estoril. Mas olhou só pela curiosidade e ficou por aqui.


****

A polícia, o meio empresarial e até a própria classe política andava um pouco agitada.
Todas as investigações não conduziram a lado nenhum, encontraram, o cadáver, sentado ao volante do carro estacionado, junto à praia, sem qualquer indício de violência, mãos no volante e um olhar vítreo como se estivesse a contemplar as ondas, que se iam desfazendo na amurada.

As autoridades, não encontraram indícios incriminatórios, nem sinais de luta ou de violência.

Iam aguardar resultados da autópsia, que devia demorar alguns dias e só depois poderiam continuar, se fosse caso disso, as investigações.

*******

Joana estava numa aula, da cadeira de Terapêutica Geral, e sentiu o telefone tremer, na mala, agora não podia dar atenção, depois via e respondia.

Era a doutora Cândida, ia telefonar-lhe.

Respondeu, logo, ao segundo toque:

-Olá, Cândida, que bom que me telefonou, estava numa aula, não podia atender.

-Joana já me apercebi que não sabes de nada! Não lestes os jornais?

Joana começou a ficar apreensiva, mas respondeu:

-Olhei para as capas, só vi qualquer coisa sobre um crime no Estoril, mas não reparei em  mais nada. Porquê? Há alguma coisa que devia ter lido?

Cândida ficou calada, por momentos, como que a ganhar coragem, antes de responder:

-Nem sei o que te dizer, mas foi o doutor Albino a vítima. Não sabem o que se passou, estamos todos, como deves calcular, inconsoláveis.
Eu sei que é pouco, mas não tenho outras palavras,  os meus pêsames querida!

Joana nem se apercebeu mas, desligou o telefone, sem se despedir.

Estava totalmente perdida nos pensamentos, foi filha única durante 24 anos, de repente o destino mudou tudo, deu-lhe um irmão mas por muito pouco tempo, mesmo muito pouco tempo. Nem um momento para o conhecer, apenas o amou por alguns instantes, mas foi pouco, mesmo muito pouco.

*******

O doutor foi assassinado, a autópsia foi conclusiva.
No pescoço, descobriram uma pequena marca por onde lhe injectaram uma quantidade enorme de morfina.
Não havia sinais de luta, pelo que concluíram que o assassino era, alguém conhecido, que estaria no carro.
Suicídio não era possível, não encontraram vestígios de, qualquer seringa, no veículo.

No funeral do doutor Albino Malacia, Joana foi a única familiar que esteve sempre presente.
Todos, incluindo ministros e muitas altas personalidades lhe apresentaram condolências e elogiaram o caracter, a personalidade, a inteligência e a bondade do irmão.
Sabia que era normal isso acontecer, depois de morrer, mas ficou feliz.

Sentiu muito a solidão do momento, o estar só,  enquanto o corpo desaparecia na boca enorme do forno que o iria reduzir a pó.

Os pais desiludiram-na ainda mais do que até aqui o tinham feito. A mãe disse que o filho há muito tinha morrido, já tinha feito o luto na altura própria, agora não ia a cerimónias de quem nada lhe dizia. O pai, foi tão infeliz, ao afirmar que o filho do sapateio para ele esteve sempre morto.
Não se conteve, foi mais forte do que ela, mas deixou o lamento:

-De ti, mãe, já esperava és mesmo assim, tu e só tu, o resto não importa.
Agora, pai, esperava muito mais, já não te conheço. O Albino não precisava nem chegava a saber da tua presença, mas deixares a tua filha só, neste momento, foi como deixar cair uma máscara que desconhecia.

*******

Estava triste e desencantada, tão desiludida com os pais que pensava, de verdade, dar uma volta na sua vida.
Ia acabar, a faculdade, e começar o regime da etapa de residência medica num hospital, seriam mais dois anos, mas ia conseguir.

As autoridades pareciam ter esquecido as investigações, diziam que estavam no seguimento de pistas, mas não via avanços.


Quando foi interrogada e os agentes lhe perguntaram:

-Sabe alguma coisa que possa ajudar nesta investigação?

Ela foi muito clara quando respondeu:

-Quem foi o monstro não sei! Mas sei quem gostaria de o ver morto.

O mais velho, a quem chamavam inspector, rabiscou algo numa folha antes de perguntar:

-E quem o gostaria de ver morto, como diz?

Pensou um momento, um breve momento e respondeu:

-A minha mãe, porque o perdeu há 25 anos, fez o luto e não queria passar, outra vez, pelo mesmo.
O meu pai, não sei porque mas tinha ódio ao filho do sapateiro, como dizia. Por fim, o Maurício, meu ex-namorado, que pensava que o tinha trocado por ele.



Queria ter acabado hoje, mas tenho que escrever mais um episódio, Peço desculpa a quem me lê.