segunda-feira, 23 de junho de 2008

Angelina

Era tão pequeno que dificilmente lhe davam a idade que tinha. Tão magro que as costelas vincavam a camisa e lhe davam aquela ar desajeitado que o tornava tão diferente.
Olhos fundos de um azul tão claro que mais pareciam de água.
A boca era apenas um pequeno traço que parecia suportar um nariz fino e delicado.
Andava pelos 15 anos mas ninguém lhe dava mais de 12. Tinha um sorriso tímido mas cativante.
Sonhava ser artista e cantar nos palcos de todo o Mundo.
Sabia de cor as músicas do Elton Jones, do Cat Stevens e do James Brown, que cantava sem sotaque e sem saber uma palavra de Inglês.
As letras entravam na sua cabeça e ai ficavam como se fizessem parte do seu corpo,
letras, que não sabia o que queriam dizer, mas estavam de tal maneiras coladas à sua memória, que saíam como se fizessem parte da sua existência.
As músicas embalavam-lhe a vida e o ritmo batia ao mesmo compasso do coração.

Começava o dia pensando ser um Cat Stevens:

Oh, I’m bein followed by a moons hadow.............And are you gonna stay the misht?
Moonshadw…………..

E terminava o dia como se fosse um James Brown:

Whoooau! I feel good; I knew what I would now!
I feel good…………………………So good, so good, I got you

Pouco tempo depois de fazer doze anos a mãe chamou-o ao seu leito de enferma e pediu:

-filho canta aquela cantiga de que a mãe tanto gosta. Quero ficar com ela nos ouvidos para sempre.

-Mas mãe, gostas de tantas.

-Filho aquela especial que tu cantas muitas vezes para mim, aquela que tem o meu
nome.



O som encheu o quarto, do quarto passou para a rua, da rua invadiu a cidade, da cidade
encheu o mundo e parece que todos acompanharam a melodia.




Foi um momento de êxtase. Mágico.

A mãe continuava de olhos fechados e com um sorriso que nunca antes lhe tinham visto.

Acabara de partir, mas com tanta felicidade que o Sol brilhou mais, as aves chilrearam como nunca o tinham feito.

No Mundo, por momentos, não houve maldades, não nasceram crianças deficientes, as guerras pararam como por encanto, a fome foi mitigada na boca de todos os que a sofrem.
A dor desapareceu, não houve cheias, vulcões, maremotos, tufões.
Os maus esqueceram que o eram e sorriram.
Nenhum filho partiu antes dos pais.
Os ditadores proclamaram a democracia.
Os pedófilos amaram como se devem amar as crianças.
Não houve corrupção no futebol.
Nesse dia, dizem, que até o Sócrates falou verdade.

Ele não mais foi o mesmo, nunca mais ninguém o ouviu cantar.

1 comentário:

AnaT disse...

Mais uma vez ficamos sem saber o que dizer! Apenas parabéns por mais um bom momento que nos proporciona! Bjinhos da amiga e fã!