segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quase um conto de Natal.



Esta história, que aqui deixo, faz parte das minhas mais gratas recordações. È real, não é mais uma estória fruto da minha imaginação.



Há alguns longos anos atrás, quando eu ainda sentia a magia do Natal, havia um homem de cerca de 80 anos, alto, elegante e com uns olhos azuis cheios do mistério de uma vida longa e dolorosa, que todos os meses, invariavelmente, pelo mesmo dia e, sempre, pelas sete e meia da noite batia à minha porta a pedir uma esmola.

Preferia, sempre, algo que pudesse levar para ajudar a uma refeição. Não queria dinheiro.

Vestia, com distinção, um fato já muito puído pelo uso, uma camisa branca deformada e uma gravata quase tão velha como o dono.

Era de grande eloquência e senhor de uma sabedoria fruto da experiencia de uma longa vida.

Num dia de Dezembro, à hora de sempre, tocou a campainha e com a distinção habitual pediu ajuda para aconchegar o estômago.

Eu, talvez imbuído pelo espírito do Natal que já se sentia no ar, perguntei-lhe se não quereria jantar comigo?

Notei o brilho do azul dos olhos cintilar de forma mais intensa e timidamente disse:

-Gostava muito, vou-me sentar aqui nas escadas e agradeço de todo o coração.


-Vai jantar comigo, na minha casa, na minha mesa confirmei eu.

Comeu com uma delicadeza que fazia adivinhar ser alguém de princípios a quem a vida abandonou no fim da jornada.

Falou pouco. Contou, apenas, que tinha feito 81 anos em Novembro, não se lembrava bem do dia. Disse que o filho, que deveria ter agora 45 anos, era advogado. Mas, que havia esquecido que tinha um pai velho.

Vivia, por caridade, num quarto que uma senhora lhe dispensava.

Só pedia, em cada casa, apenas uma vez por mês.

Assim, dizia ele, não se tornava maçador e sempre o iam ajudando.

Acabada a refeição, lembro-me como se fosse hoje, olhou-me e de forma acanhada disse:

-Há uma coisa que eu não bebo há alguns anos, mas se hoje me desse um eu aceitava.

-Diga, balbuciei, se eu tiver.

Olhou-me, quase com timidez, antes de dizer:

-Era um cafezinho.

Bebeu-o com satisfação. Pediu licença para se levantar, agradeceu e encaminhou-se para o frio da noite.

Não resisti, fui buscar a minha única gabardine e disse-lhe para a vestir.

Espreitei pela janela, vi-o desaparecer na esquina da rua. Figura alta e elegante a que a minha ex-gabardine dava conforto para o ajudar a vencer o gélido ar dessa noite
de Dezembro.

Para mim esse Inverno foi mais frio, era a minha única gabardine e, eu gostava tanto dela.

Mas valeu a pena e nunca me arrependi.

Foi a última vez que o vi, não mais apareceu.

Provavelmente o filho voltou a lembrar-se que tinha um pai. Velho sim! Mas o seu pai.



3 comentários:

Ana Odete disse...

Lindo...

Sonhadora disse...

Manuel
uma bela história, não só de Natal ...mas que devia ser de todos os dias,
Adorei
Beijinhos
sonhadora

Luz disse...

Caro amigo Manuel,
Lindo! De deixar de lágrimas nos olhos. Sabe, também foi essa a magia de Natal que recebi e, também foi a "despir-me" para os outros se necessário que me foi ensinado e, tive esse exemplo sempre bem presente no meu querido e saudoso Pai, por isso, os meus Natais sempre foram mágicos e não como aqueles que vemos por aí, onde prevalece o consumismo, o egoísmo e a hipócrisia, porque o que eu aprendi é que o Natal é todos os dias e , é quando o Homem quiser, ainda que esta quadra seja especial e não lhe sejamos indiferente, mas ao longo do ano também devemos praticar aquilo que muitos só se lembram de praticar no Natal, ainda que em certo ponto também seja compreensível porque é uma data que nos toca, que nos trás muitas recordações e, pensamos ainda mais naqueles que não podem ter o que nós talvez sempre tivemos...
Adorei Manuel, só uma pessoa com bons princípios e de boa índole faz o que o Manuel fez, comoveu-me.
Obrigada.

Grande beijinho