segunda-feira, 15 de março de 2010

Em três actos




Olhou-a de forma mais intensa, quase descarada. Há muito que a notava e estava decidido a fazer-se notar.

Sentia que ela não ficava indiferente aos seus olhares. Furtava os olhos mas sentia um sorriso de satisfação.

Hoje, estava decidido, iria tentar uma abordagem um pouco mais ousada.

Aproximou-se da sua mesa, perfilou-se e, com o sorriso mais cativante que descortinou, perguntou:

-Posso sentar-me à tua mesa para tomar o meu café?

Corou, um ténue rubor tingiu as suas faces. Desejava este momento mas, na verdade, não estava preparada para ele.

-Sou o Jorge foi dizendo enquanto ocupava o lugar à mesa.
Vejo-a todos os dias a tomar o seu café mas só hoje arranjei coragem para dar este passo. Gostava de a conhecer melhor. Será que logo, quando sairmos do trabalho, nos poderíamos voltar a encontrar aqui?

-És mesmo descarado, mas às seis e quinze estarei á tua espera.

***********************************************

Foi uma tarde longa, os minutos pareciam eternos e a ansiedade aumentava à medida que se aproximava das seis horas.

Nem sequer sabia o seu nome, com a ansiedade nem lho chegou a perguntar. Não fazia mal, logo iria saber isso tudo e muito mais.

Era curioso, mal a conhecia e já sentia algo que não sabia explicar.

Chegada a hora saiu disparado. Na sua cabeça apenas estava o desejo de chegar junto dela, de a ver, de a ouvir.

Atravessou a avenida de forma desabrida, não olhou.

Foi o ruído intenso de uma travagem desesperada, um corpo pelo ar.

Baque brutal no asfalto.

Gritos, desespero.

Depois o silencio.

***********************************************

Ela foi pontual, à hora aprazada estava sentada na mesma mesa.

Olhou para o relógio mais uma vez. Nada.

Seis e meia e tudo na mesma. Não apareceu, era mentira,

Não valia a pena, os homens são todos a mesma coisa.



12 comentários:

Sonhadora disse...

Manuel
Uma bela história, gostei de ler.

Beijinhos
Sonhadora

Elaine Barnes disse...

Quando a gente não sabe a verdade, fantasia.Fatalidade! Obrigada pela visita e as palavras carinhosas. Quer dozer que temos netos com 1 mes de diferença? Que coisa boa amigo! Montão de bjs e abraços pra voc~e e para ele.Adorei saber!

Milhita disse...

Como a nossa mente viaja, nos alimenta sonhos e medos, como a vida nos atrapalha e nos surpreende.
Uma história que diz tanto...
Um abraço, gostei muito

AnaT disse...

Uma boa história... mas eu continuo a gostar mais de finais felizes, ou não fosse uma eterna romântica!

Manuel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
SDaVeiga disse...

Manuel:

Apesar de linda, tanto esta mensagem como as anteriores, entristece-me a sua tristeza... preocupa-me a sua morbidez...

Espero que esteja tudo bem consigo e tudo isto não passe duma onda d'inspiração mais escura, nada relacionada com qualquer fase vivida...

Tudo de bom e que volte o sol a brilhar forte por estas partes!!!

SDaVeiga disse...

Ainda bem que o tinha no mail, porque eu não o ía conseguir repetir!!!
É o que dá ter o coração perto da boca ou, neste caso, da ponta dos dedos...

Obrigada pelas suas visitas e, sim, vou tentar escrever mais vezes, quanto mais não seja p'ra arejar a cabeça! ;)

Elaine Barnes disse...

Passei pra te desejar um bom dia amigo. Montão de bjs e abraços

MARA disse...

A vida é mesmo assim. Acontecem coisas que são difíceis de aceitar. Um homem louco de ansiedade que nem viu o carro que se aproximava. Uma mulher esperando, que já não acreditava nos homens, mais uma vez fica desolada a dizer: "os homens são todos iguais".
E o que poderia ser uma bela história de amor termina de uma forma desoladora. A canção que acompanha este texto pertence ao grupo das que mais adoro.

Abraço
Mara

Sioux disse...

Uma história que é sempre familiar.
Diz tanto dos sentires que nem sempre são sentidos...
Gostei!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ah, que pena, que chato....isso da gente pensar algo que não é. Como a gente se engana. Sabe que eu vi um filme famoso assim? Tarde demais para esquecer. Só que o encontro era no Empire State Building. Chique!

Filipinha disse...

Ai Manuel...

Não gosto de histórias tristes... :(