domingo, 27 de junho de 2010

O Regresso




Hoje o caminho estava diferente.

A rua parecia estar ao sabor de ondas.

Bem queria manter o passo certo, mas havia um tremor que o não deixava. O passeio estava aos altos e baixos. Tentava formar os movimentos mas o chão não estava quieto.

Ia avançando com muita dificuldade, pondo os pés para que o chão não andasse nesse movimento que a sua cabeça seguia.

Sabia que tinha bebido mais do que a conta, mas não podia deixar os amigos e o pitéu estava mesmo bom. Aquele gajo, o Zé da Corneta, era mesmo especialista em arranjar estas petiscarias.

Não sei bem o que aquilo era, mas que estava bom estava. Não é que tivesse comido muito, porque o vinho da colheita do João Nabo era uma pinga de se lhe tirar o chapéu.

Agora estava neste mar de tormentas para descobrir a sua casa. Dava um passo, recuava dois e tinha que apoiar a mão na parede senão ainda malhava com os cornos na calçada.

Mas devagar lá ia indo, toldado e com um zunido na cabeça que mais parecia que um enxame de abelhas se tinha instalado na cachimónia.

Tinha prometido à Zulmira que chegava cedo e até estava com ganas de se atirar a mulher, pois há muito tempo que ia esquecendo dela.

Mas neste estado as coisas não iam ser fáceis.

Ia ouvir muitas e boas e o raio da mulher quando queria era mesmo muito agressivo e tinha uma língua sibilina, mas isso ia superar com as promessas do costume.

Ele quando prometia era para cumprir, mas era fraco e perante um bom copo de tinto depressa olvidava todas as juras.

O caminho estava cada vez mais difícil, agora não era só a cabeça que girava, as pernas também estavam desengonçadas.

Parou um pouco a tentar encontrar força para o resto da caminhada, procurou nos bolsos um cigarro mas nada.

Parava para recuperar forças e para restabelecer um equilíbrio que teimava em o levar aos repelões.

Bem olhava, mas o raio da sua rua tardava em aparecer, até já tinha dúvidas donde morava. A sua casa até era bem visível, pois o amarelo contrastava com o branco das restantes.

Será que mudaram a rua? Esses gajos da Câmara andavam sempre com invenções e se calhar mudaram a rua! Mas, também, uma rua não se muda assim de repente.

Ia continuar. Perfilou-se numa vertical muito duvidosa. Pernas bambas. Oscilou e o passo não saiu.

Sentou-se num portado que parecia ter sido ali posto para ele.

Fechou os olhos e adormeceu profundamente.



7 comentários:

Solange Maia disse...

Manuel...

antes de mais nada vim deixar meu carinho, pois suas "visitas" ao Eucaliptos enchem-me de ternura...

e, quanto a seu texto, mais uma narrativa fantástica, dos vai-e-vem embriagados, que teimam emfazer as pernas desobedecer o coração !
fantástico !

beijo enorme

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel
Obrigada pelo carinho...
Agora o selo
500 seguidores


Um Porto e...
Um beijo

SDaVeiga disse...

Está fantástico Manuel, mas era bom que alguém desse um café bem forte ao homem, senão vai-se esquecer da Zulmira outra vez...
Claro que, se a Zulmira fosse uma mulher do Norte, ele já era abstémio!!! ;)

E assim começa o 3º ano em grande!!! Mas da próxima vez celebre um bocadinho menos!!! ;D

Ludmila Ferreira disse...

Eita Seu Manuel...

Estava abrindo a parte de publicações do meu blog, e iria começar a escrever quando de repente me deu uma enorme vontade de olhar seu blog, quando o fiz foi uma grande surpresa por que o senhor descreveu o que aconteceu comigo no caminho de volta pra casa, a diferença é que eu não bebi.. Porém tive reações parecidas com as descritas...

Me deu vontade de compartilhar isso...

Gostei muito do texto!

beeeijOdalua!

Luna Sanchez disse...

Rs...um delize de nada, com sabor de vinho, merece ser perdoado!

Merece, sim...

Beijo, beijo.

ℓυηα

Sandra Botelho disse...

Simplesmente maravilhoso seu texto...Escritos que somente vc é capaz de nos dar...
Bjos achocolatados

MEUS POEMAS disse...

Oie, gostei muito do seu blog, espero vc visitando o meu, tá?
Bjsssssss
Gena Maria