quarta-feira, 7 de julho de 2010

O Regresso






Um vento frio brincou com os olhos estremunhados de Arnaldo.

Acordou confuso, numa posição grotesca, na pedra da porta de uma velha casa.

A cabeça parecia estourar num turbilhão de ideias confusas e totalmente descoordenadas.

Tinha a boca seca e um sabor a esponja suja dava-lhe uma enorme agonia.

Não sabia como tinha vindo aqui parar, ao fim da vila, mesmo no cruzamento da estrada onde dizem que as bruxas se juntam nas noites de lua cheia.

Ergueu o corpo dorido, com muito esforço pois tinha todas as articulações dormentes.~

Olhou em redor no desejo de ver aparecer alguém que o pudesse ajudar, alguma pessoa que o levasse a descobrir como veio aqui parar.

Tinha ideia de ter saído da Taberna do Zé da Corneta onde se tinha perdido nos odores dos petiscos e no suave sabor da pinga.

Depois, bem depois, há um escuro que lhe tolda o pensamento e não o deixa descobrir porque acordou no cruzamento das aparições.

* * * *
Eram três e apareceram do nada. Arnaldo só se apercebeu quando se viu agarrado por umas mãos fortes que o sufocavam contra a parede e por uma voz que gritava;

-O telemóvel, o relógio e o dinheiro. Vá rápido.

Não tinha o relógio, não usava telemóvel e o dinheiro fora gasto na taberna.

Sentiu a primeira pancada na cabeça, tentou manter o equilíbrio mas o murro no estômago obrigou-o a dobrar-se e caiu sobre um joelho que lhe deixou na boca um sabor doce a sangue, depois foi um negrume que o invadiu e o deixou dobrado numa posição grotesca, ouvia ao longe, muito ao longe, vozes que gritavam.

-O dinheiro pá.

Outra pancada e depois foi o silêncio e o escuro.

* * * *

Era a segunda vez que acordava hoje mas as dores, agora, eram mais agudas.

Estava deitado entre ligaduras e tubos que o amarravam a uma vida que parecia querer fugir.

Olhou à volta, mas apenas uns vultos difusos no enevoado dos seus olhos se perfilavam ao seu redor. As palavras estavam no seu pensamento mas a boca não as sabia balbuciar.

Fechou de novo os olhos e dormiu profundamente, sem dores e sem sonhos.

Quando acordou, muitos dias se tinham passado. Quantos não sabia.

Abriu os olhos a medo, tinha receio de descobrir em que mundo se encontrava.

A seu lado, estátua de dor e sofrimento, estava Zulmira que o olhava de forma tão terna que Arnaldo tentou esboçar um sorriso, em vão, apenas um esgar de dor assomou aos seus lábios.

-Não fales estás muito fraco, disse Zulmira numa voz que lhe pareceu vir de muito longe.Foste assaltado e quase te matavam, meu amor.
Eu esperava por ti e pensei as piores coisas e, afinal estavas a sofrer às mãos de meliantes, espero que me saibas perdoar.

Arnaldo conseguiu sorrir.

* * * *
Saiu passados quinze dias.

A desgraça mudou a vida de Zulmira e Arnaldo, a harmonia voltou à Casa Amarela.

Agora têm uma filha que os preenche e que os tornou muito mais felizes.

Zulmira não podia ter filhos, mas nada a impedia de ser mãe.

Adoptaram a Inês.


5 comentários:

AFRICA EM POESIA disse...

O regresso...
lindo este comentário...


Manuel


obrigada meu amigo pelas tuas palavras.A poesia é paixão penso que nestas palavras tem que deixar mesmo mensagem.
as férias estão a correr...Em cacia no meu Kimbo temos as portas abertas para os amigos
..

um beijo

Luna Sanchez disse...

Ah, Arnaldo...eu também pensei mal de ti, não foi só a Zulmira.

Desculpa? =\

Beijos, Manuel.

ℓυηα

Magia da Inês disse...

Meu querido amigo,

Você é demais!...
Que final surpreendente!...
O jeito de contar a história me prende ao enredo!...
Fico a imaginar coisas!...
Que bom que descobri seu blog!
Pena que você não tenha um e-mail, senão poderia te escrever.

Beijinhos.

Itabira
Brasil

SDaVeiga disse...

"Deus escreve direito por linhas tortas" e o Manuel lá endireitou um homem com mais sorte que juízo!!!
Adorei e achei muito bem a adopção da menina!!!

Fuja do Facebook porque por aqui faz muita falta!!!

:)

Sandra Botelho disse...

POXA MEU AMIGO QUERIDO POETA...
MARAVILHOSO TEU TEXTO, COMO TODOS ENFIM, E FALO DE CORAÇÃO. PENA QUE NÃO SÃO TODOS OS SEUS CONTERRANEOS QUE SÃO TÃO ELEGANTES E DOCES. SE PUDER DE UMA PASSADINHA LÁ NO MEU BLOG PRA SABER PORQUE TE DIGO ISSO. BJOS ACHOCOLATADOS