domingo, 15 de janeiro de 2012

Momentos






Nada mais havia a acrescentar. Tudo o que havia a dizer já fora dito. O ódio fazia parte do seu dia-a-dia.

Desde muito cedo que o vinha acumulando. Cada dia que passava, mais e mais se enraizava aquele mal-estar que lhe azedava o espírito.

Veio para a cidade ainda menino. Quando o meteram na camioneta olhou com saudades tudo o que deixava para trás, o Miranda seu companheiro de aventuras, a Manca assim se chamava a velha burra em cujo dorso era o herói que cavalgava por montes e vales.

 sentia saudades das sortidas á horta do Senhor Miguelito, onde saciava a fome que a malga de feijões e o pedaço de broa lhe deixavam.


O barulho do motor da camioneta misturado com todas as conversas chegavam ao seu cérebro de forma difusa e mais aumentavam a confusão que lhe ia na cabeça. Apenas sabia que o Senhor padre lhe tinha arranjado um emprego na cidade, onde diziam que iria trabalhar para vir a ser um grande homem. Só não compreendia porque precisava de ir tão longe e o não deixavam ser homem mesmo ali na sua terra.

 O Chico Ventura era o homem que todas as moças queriam conquistar, diziam que o maior e mais valente de todos e nunca precisou de sair da terra para ser homem.



 Finalmente a camioneta começou a sua marcha cansada a caminho da grande cidade.

 Olhou, pela primeira vez, os restantes companheiros de viagem.

Ao longe ainda conseguiu ver a torre da Igreja que lhe parecia acenar num adeus, que o deixou com uma lágrima que disfarçou com o punho da blusa. 

Durante muito tempo foi vendo os campos que pareciam fugir. Quando paravam havia um mar de pessoas á espera de quem chegava ou as despedidas de quem partia.

Depois novamente a estrada, as vacas que pachorrentamente olhavam a camioneta enquanto mastigavam a tenra erva.

Finalmente o sono tomou conta do corpo franzino, de tal forma que nem se lembrou de comer o farnel que a tia Alzira lhe tinha preparado.



Ia fazer um ano que deixara a terra. Como se lembrava, ainda, da viagem e do dia em chegara a Lisboa. 
O Miguel, o seu colega, estava à espera, e com o saco dos poucos haveres tomaram um eléctrico que deslizava por entre o meio da confusão de carros e de pessoas que passavam apressadas indiferentes a tudo os que  as rodeavam.



A taberna era enorme, com um grande balcão coberto por uma pedra preta onde os homens pousavam os copos. Algumas mesas dispostas, de forma irregular, onde o dominó dominava a atenção. Grandes pipas encostadas as paredes completavam o resto do cenário.

Entrou amedrontado e tremeu quando o seu patrão, o Senhor Ernesto, com o sobrolho franzido avaliou a fraca figura que o padre lhe tinha enviado.

-Então o que sabes fazer meu rapaz?

-Senhor, sou o melhor a levar as cabras e as ovelhas para o pasto. Gargalhada geral.

-Pode crer que é verdade! Nem o meu pai consegue melhor que eu.

Quem passava á porta parou para ver o motivo de tanta galhofa. Os homens largaram os copos e punham a mão na barriga para se conter.

Não percebia o motivo de tal risota, ou seria que todos aqueles pensavam que era fácil levar e recolher os animais, carregar com os cabritos recém nascidos!



Nessa noite sentiu todas as saudades do Mundo. Pensou na tia Alzira que lhe mitigava a fome com uma fatia de bolo com mel, no Miranda que agora tinha a Sofia toda para ele, na Manca que o tornava rei das pradarias, da mãe que um dia fechou os olhos e abalou. Até o pai, sempre tão severo, lhe veio ao pensamento.

Nunca teve tanta vergonha.

Adormeceu engolindo o desejo de chorar.



Viveu, assim, dois anos de maus-tratos, de fome, de injúrias.

A resistência estava cada vez mais abalada, o ódio fazia parte do seu ser.


Um dia a taberna não abriu. Foi necessário arrombar a porta.

O proprietário Senhor Ernesto, estava morto, figura macabra. Um fio de sangue escorria num canto da boca.



O Lino não apareceu, a tarimba estava vazia.

Nunca mais o encontraram, ninguém sabe dizer o que aconteceu.



Na terra dizem que nas noites estreladas, um jovem pastor, apascenta o mais bonito rebanho de brancas ovelhas e, tal como Pã, corre pelos bosques deixando as mais belas melodias.
  

Afirmam que é verdade, mas ninguém tem a certeza.......


 





16 comentários:

acácia rubra disse...

Digo sem favor que a descrição está fabulosa. Consegui cheirar a terra, enquanto a camioneta percorria a estrada e ouvir os risos desenfreados na taberna.

Gostei.

Boa semana!

Beijo

Sonhadora disse...

Meu querido Manuel

Deixas-me sempre extasiada com as histórias lindas que contas e que são pedaços de vidas.

Deixo um beijinho com carinho
Sonhadora

Sandra Botelho disse...

meu amigo que texto heim?...Vc sempre me deixa presa em seus textos...Adoro le-los. Bjos achocolatados

Vivian disse...

Olá,Manuel!!!

Ah!Meu amigo, que triste sina a deste menino!!!Quanto sofrimento, quanta dor...que destino trágico!
Ler-te, é ter a certeza de se emocionar, de ficar intrigada, abismada(as vezes...),surpresa, tua escrita nos leva para mil caminhos!
Gosto muito!!!!Beijos pra ti!!
Tudo de bom!

Palavras disse...

Amigo Manuel,

eu creio que seja verdade sim, pois, que as cabras choraram de saudade daquele ser que as conduzia carregado de humildade e dor.

Grande abraço meu caro

Fatima disse...

Sodade do cê!
Bjs.

Vivian disse...

Olá,Manuel!

Tenha um ótimo dia meu amigo!Obrigada por suas palavras!E se tiver alguma sugestão do que devo cuidar na escrita, será bem-vinda!
beijos!!Tudo de bom!

SOL da Esteva disse...

Manuel

Quase tens a "deixa" no enfiamento do texto quando, sempre, surpreendes com saídas quase espantosas.
Creio já haver feito esta referência: aparecem guiões, em filmes de culto, que ficam á distância das tuas tramas e dramas.
Parabéns, Amigo, pelo delicioso texto.

Abraços

SOL
http://acordarsonhando.blogspot.com/

Luís Coelho disse...

Lindo amigo.
Recordações que nos ficam e que conservam o sabor das lágrimas e da fome.
Pergunto ainda que tem este tempo tão diferente e desfasado desse outro em que uma pedra servia de cabeceira e as estrelas de manto...

Vassileva F. disse...

Texto LINDO, cativou-me do princípio ao fim. Parabéns!

Janita disse...

Olá Manuel.
O ódio é um sentimento demolidor, que destrói e corrói lentamente quem o sente. Rimou, mas foi sem querer!
O desfecho não me surpreendeu, por ser o resultado do sentimento, de abandono, de alguém que cresceu sem conhecer o aconchego de ser amado.
Gostei, como sempre gosto de tudo o que escreve. Embora me tenha deixado triste.
Um beijo.
Janita

rosa-branca disse...

Olá amigo Manuel, fico sempre maravilhada com esse dom que tem para nos deslumbrar com tão belas histórias. Tristes, belas e por certo verdadeiras. Adorei. Beijos com carinho

Vassileva F. disse...

Muito obrigado pela tua simpática opinião, mas quando dizes que a ilustração deixou-te arrepiado é um comentário positivo ou negativo?
Irei voltar sempre que puder, e faço-lhe o mesmo convite. Muito obrigado, mais uma vez.

Magia da Inês disse...

°º✿
º° ✿ ✿⊱╮
Amei... história emocionante e cheia de suspense.
Bom fim de semana!
Beijinhos.
Brasil°º✿
º° ✿ ✿⊱╮

AFRICA EM POESIA disse...

Manuel
pois andamos tristes e não encontro razão e não vejo luz ao fundo do túnel cada vez tudo mais na mesma.


beijinhos

Evanir disse...

A minha amizade por você é tão especial que não saberei explicar em palavras.
Sempre sinto vontade de dizer o quanto é importante contar com amigos (as) como você.
Hoje você já faz parte da minha vida, agradeço a Deus por
ter te encontrado e descoberto com você a verdadeira amizade.
Obrigada por sua preciosa amizade,e que Deus a abençoe cada dia mais.
Um Domigo Feliz e tremendamente abençoado.
Beijos meus no seu coração.
Evanir..